Não Conta Lá em Casa
Japão
Antes de entrarm os nos porm enores de um a de nossas m issões m ais árduas e com plicadas, realizada nos confins do Japão arrasado pelo grande terrem oto e o consequente e devastador
tsunam i de m arço de 2011, é necessário abrir um parêntese para um a situação côm ica e bastante elucidativa. “E a m ulherada?” Essa é um a pergunta que ouvim os frequentem ente. “Conhecendo
o m undo, escalas pela Europa, program a de TV, desafiando lugares perigosos... conta aí: chove m ulher, né?” Não, não chove m ulher. Prim eiro: nossas escalas na Europa são sem pre antes de seguirm os para os nossos destinos e não depois. Posso garantir que, quando se está a poucos dias
de encarar lugares com o Bagdá, Cabul ou Dj ibuti, a apreensão pré-viagem não torna o clim a m uito propício à diversão. De qualquer tipo que sej a. Segundo: geralm ente tentam os registrar o lado cultural ou algo relacionado ao episódio que estam os produzindo. Terceiro: as escalas quase
sem pre são as m esm as: j á fom os m ais de seis vezes a Istam bul, escala obrigatória de nossos voos com destino ao Oriente Médio. Então, não dá m uita vontade de ficar saindo e fazendo os m esm os passeios de sem pre. Quarto: com o é fácil perceber, os locais abordados no program a são um
pouco tensos. Não dá para relaxar dem ais ou ignorar a im portante fase de produção. Acaba que passam os o tem po todo confirm ando contatos, traçando estratégias de segurança e revendo nosso
itinerário. Por últim o, e m uito m ais im portante do que todos esses pontos anteriores som ados: som os todos com prom etidos.
Entretanto, houve um breve m om ento, entre um nam oro e outro, em que nosso intrépido
galã, Leondre Cam pos, teve o gostinho de viaj ar solteiro. Um único e fugaz m om ento de liberdade para este sedutor aprisionado, m as que renderia um episódio para a eternidade. A tragicom édia se deu durante um a das viagens m ais curtas que fizem os. Dessa vez, não havia
escalas em agradáveis hubs europeus. Portanto, Leondre sabia que as oportunidades para usufruir de sua recém -conquistada alforria seriam poucas e decidiu não se fazer de rogado. Por um desses costum eiros e confusos desencontros de agenda, m ais um a vez só iríam os ter a equipe
com pleta em nosso destino final. Pesca partia da Europa, UFO da Ásia, eu do Brasil e Leo seguia de um a breve parada para com pra de equipam entos nos Estados Unidos. Seu voo partiria de
Nova York, faria um a escala em Houston e de lá ele alçaria voo para um território nada am istoso. Leondre sabia que este curto espaço de tem po seria sua últim a chance de contato com representantes do sexo oposto, j á que nenhum a gatinha norte-am ericana em sã consciência
estaria presente no voo seguinte com destino a deus m e livre. Ainda na sala de em barque, nosso solteirão m apeava o am biente, analisando seus com panheiros (e, principalm ente, com panheiras) de viagem . Com o um a ave de rapina espreitando a caça, procurava a presa ideal: j ovem , de porte franzino e, de preferência, afastada de seu bando. Até que, finalm ente, seus olhos fecharam na vítim a perfeita. Loira, esbelta, pele clara e olhos de um azul profundo. Um a ninfa! Um a autêntica fada sem asas. Ele fez a aproxim ação com cautela e em silêncio. Ao perceber
que a distância era segura, m andou o bote: “How y ou doing?”, no m elhor estilo Joey Tribbiani, do seriado Friends. A determ inação de Leondre, som ada ao instinto de perpetuação da espécie, deu nova vida ao xaveco de nosso intrépido com panheiro. Com poucos m inutos de papo, o j ovem
m ancebo conseguiu cair nas graças da graciosa loirinha, e j untos deram um j eito de viaj ar lado a lado. O m inúsculo espaço entre as poltronas 16F e 16E nunca pareceu tão providencial.
Os dois pom binhos acom odaram -se em seus assentos e aguardavam a hora da decolagem .
A conversa j á fluía naturalm ente e sorrisinhos de am bas as partes davam pista de que o voo poderia ser m ais agradável do que se fosse na classe executiva. Leondre cavalheirescam ente
cedeu a j anela, sentou-se ao lado de sua dam a e am bos ignoraram o senhor de m eia-idade que com pletava a sequência de três assentos da fileira 16. Antes que o avião ganhasse velocidade para alçar voo, ela pediu para dar a m ão a Leondre. Nosso aspirante a dom -j uan foi aos céus
antes m esm o de afivelar o cinto de segurança. Enquanto agradecia a Deus por sua boa fortuna, sua com panheira se apressou em explicar o porquê do im petuoso gesto: “Eu sou da congregação de Salt Lake City , em Utah, e gostaria de dar a m ão a você para louvarm os ao Senhor antes dessa
viagem .”
O sem blante de Leondre transform ou-se em um m isto de surpresa e preocupação. Ele com eçou a fazer cálculos e ponderações para adaptar seu plano de ataque quando foi
interrom pido pelo cavalheiro sentado na poltrona 16D, ao seu lado direito: “Me desculpe, m as não pude deixar de notar que vocês são religiosos. Sou da congregação ortodoxa de Houston.
Posso m e j untar a vocês neste m om ento de louvor?” Antes que pudesse balbuciar qualquer palavra, Leondre se viu de m ãos dadas com Miss Utah do lado esquerdo e com o senhor careca e gordinho que suava à sua direita. Aquele voo tinha ido de um a potencial sessão de luxúria nas
nuvens a um a encenação da Missa do Galo em questão de segundos. Quando achava que sua sorte não podia piorar, ele ouve de sua m usa: “Leo, você faria a honra de puxar a oração?” Este proj eto de pecador não entrava em um a igrej a desde quando fora batizado, da Bíblia só havia
visto as figuras e não saberia rezar um a oração nem que a vida de seu cãozinho de estim ação dependesse disso. Mas Leondre ainda estava determ inado a não fazer feio, acreditava que, com a graça do Senhor, ainda havia um a m ínim a chance com sua “elfa” do Meio-oeste am ericano.
Ele, então, pediu licença para recitar sua oração no português de sua terra natal e, em ritm o sagradam ente pausado e circunspecto, em endou: “Um a vez Flam engo, sem pre Flam engo.
Flam engo sem pre eu hei de ser...”
Para encurtar o relato de tão traum ático episódio, basta dizer que Leondre não decepcionou com seus am igos carolas. Mas tam bém não conseguiu nada com a noviça am ericana. E esta
acabou sendo a história m ais próxim a de um episódio de esbórnia e paixão vivido por um m em bro do Não conta lá em casa no exercício de suas funções.
Qualquer pessoa com o m ínim o sentim ento de solidariedade acom panhou com atenção os acontecim entos na Terra do Sol Nascente em m arço de 2011. Mas, antes de entrar em detalhes
sobre o terrem oto de 9,0 graus na escala Richter, o tsunam i devastador e o dram a dos reatores nucleares de Fukushim a, é preciso relatar m inha experiência pessoal neste país quando, por sorte, escapei dos trágicos eventos por apenas um dia. Em vez de narrar cenas de terras arrasadas,
talvez sej a um a m aneira ainda m ais forte de nos aproxim ar deste dram a de proporções épicas m ostrar o retrato de um país evoluído, pacífico e hospitaleiro em seu cotidiano norm al. Mostrar que, apesar da evidente questão geográfica e das diferenças, o Japão não é tão do outro lado do
m undo assim .
No início de 2011, o Japão era exatam ente o distante destino que havia escolhido para passar m inhas férias. E era lá onde eu estava até um dia antes da catástrofe que chocou o
planeta! Pode ser surpresa para alguns, m as o que um m em bro da equipe do Não conta lá em casa resolve fazer em suas curtas férias? Viaj ar m ais. E o Japão j á estava há algum tem po no
topo da m inha lista de lugares a conhecer. “Provavelm ente, j am ais terei a oportunidade de conhecer essa m oderna, desenvolvida e pacífica nação oriental se for esperar que ela entre no roteiro de nossa série.” Pensei, inadvertidam ente, com m eus botões. Além do m ais, sem pre tive
curiosidade e um a atração inexplicável pela Terra do Sol Nascente. Devido à altíssim a expectativa, a chance de m e decepcionar era grande. Porém , o que aconteceu foi j ustam ente o contrário: voltei do Japão com a certeza de ter feito um a das viagens m ais interessantes e
culturalm ente enriquecedoras da m inha vida. Mais do que isso, voltei com um novo apreço e adm iração pelo povo e pela cultura j aponesa.
NOSSO TIME DE VOLUNTÁRIOS EM FRENTE AO CAMINHÃO QUE ATRAVESSOU O JAPÃO COM DUAS TONELADAS DE MANTIMENTOS PARA AS VÍTIMAS DO TSUNAMI. EU E LEO NAS RUAS DE SHINJUKU.
CAPINHA DO IPHONE QUE LEVO COMIGO ATÉ HOJE.
Após quase vinte e quatro horas de viagem , pegar um trem em Tóquio e saltar na estação de Shinj uku na hora do rush pode ser um choque cultural tão grande quanto cam inhar por um a favela do Dj ibuti. A m aior m egalópole do m undo m e recebeu com um a explosão de lum inosas
cores, avisos ilegíveis, pessoas, m ovim ento… que chegaram a m e deixar m eio tonto logo de início. “Perdido” seria o term o m ais apropriado, com o diria a diretora Sophia Coppola em seu aclam ado Encontros e desencontros. Mas, apesar da m odernidade quase futurística, o caos ali é
ordenado, pacífico, em nenhum m om ento agride ou assusta. O silêncio, a lim peza e a organização im peram . E por entre todos estes conceitos perpassam o respeito e a disciplina do povo j aponês.
Talvez m ais difícil do que com parar o Japão com outro lugar sej a j ustam ente com parar o povo j aponês com qualquer outro. Ele não é frio com o o europeu, nem caloroso com o o latino,
m as faz questão de sair do seu cam inho para levar um turista perdido ao seu destino. Sem pre com um sorriso genuíno no rosto. E, m ais do que a ação em si, é o sorriso sincero que diz m uito sobre esse povo. Deve ser difícil explicar para um j aponês o significado da palavra “m arrento”
ou “esnobe”. Parece que a m issão natural da vida deles é garantir que sua estada sej a perfeita. A fam a m undial de que não falam inglês vem m uito m ais deste perfeccionism o cultural que de algum tipo de m á vontade (outro term o que não deve fazer m uito sentido por lá). Dá para
perceber que toda essa gentileza quase cerim oniosa não tem a ver apenas com boas m aneiras diante de um visitante; eles reservam o m esm o tipo de tratam ento entre si. Um perfeccionism o que associado à disciplina, à obediência e à honra tam bém pode aj udar a entender o
incom preensível envolvim ento do país em episódios m enos louváveis de sua história, com o as guerras contra a Coreia, a China, os EUA...
No Brasil, alguns dias após os tristes episódios provocados pelo terrem oto, vi um a noite na TV o diretor da TEPCO (em presa responsável pela usina nuclear de Fukushim a) chorando copiosam ente após um a entrevista coletiva em que prestava esclarecim entos à população. Na
m esm a hora lem brei-m e de um m inistro j aponês que aparecia em todos os canais de TV durante o período em que estive por lá ainda antes dos trágicos acontecim entos. O m otivo de sua fam a repentina era este funcionário do governo haver renunciado ao seu alto cargo por conta de um a
contribuição política m al explicada de m íseros 423 euros. A honra e a vergonha norteiam a m oral j aponesa, e sua conduta refletiu todos esses traços de sua personalidade na sociedade.
Ainda antes da tragédia, narrando a m inha experiência nipônica em e-m ails para am igos e
fam ília, tentava resum ir m inhas im pressões dizendo que o Japão era o país da perfeição. Tudo era pensado, planej ado e executado com m aestria. Um exem plo básico retirado de m eu
cotidiano de turista: m esm o sem saber falar a língua, conhecer o alfabeto ou a geografia local, era im possível se perder pela cidade. Fosse pela fácil orientação dos trens, a sinalização precisa, a clareza dos m apas ou sim plesm ente por ser im possível ficar m ais de um m inuto com cara de
perdido na rua sem que aparecesse um solícito j aponês oferecendo aj uda. O m esm o vale para o atendim ento, o com ércio, os m useus, os produtos, a com ida, a arquitetura, o design… A busca obsessiva pela perfeição está enraizada na personalidade do j aponês.
Estas características podem parecer apenas detalhes sim páticos de um m odo de vida zen, m as fazem toda a diferença na capacidade de um país reagir às m ais desafiadoras provações. Deixei o Japão horas antes do trágico acontecim ento do dia 10 de m arço. Foi quase com o decolar
com o avião enquanto a terra ia se abrindo em baixo de m im . No m elhor estilo dos film es de tragédia m ais cafonas de Holly wood. Som ente ao chegar ao Brasil fiquei sabendo do que estava acontecendo do outro lado do globo, onde eu estava apenas vinte e duas horas antes. Mas com
pouco m ais de um a sem ana de viagem eu j á tinha percebido que esses singelos atos do dia a dia form avam a insuspeita força m otriz que faria com que os j aponeses se recuperassem de um desastre sem precedentes m esm o em sua história recheada de trem ores. Aquela pequena ilha do
Pacífico, palco de terrem otos, tsunam is, furacões..., ia dar exem plo ao m undo novam ente. E, agora, eu podia afirm ar com certeza.
NO PARQUE DE SHINJUKU (SHINJUKU GYOEN), UM DOS MELHORES LOCAIS PARA ADMIRAR A FLORAÇÃO DAS SAKURAS E TAMBÉM UM PONTO DE ABRIGO EM CASO DE TERREMOTOS.
CENA DA PACÍFICA E ORGANIZADA PASSEATA ANTIENERGIA NUCLEAR EM TÓQUIO.
A tragédia, de algum a form a, m e atingiu pessoalm ente. Não chegava a ser um traum a por
“quase” ter sido vítim a de um a tragédia. Obviam ente, eu não m e considerava um sobrevivente. Mas a proxim idade com aquele dram a todo realm ente m e tocou de um a m aneira especial, e passei a acom panhar os desdobram entos do desastre j aponês quase que obcecadam ente. Ao
m esm o tem po, passei a sugerir, pressionar e convencer m eus colegas de aventuras de que essa poderia ser um a ótim a oportunidade para estabelecerm os um novo m arco na história do Não conta lá em casa. Um obj etivo nobre, original e que poucos teriam a coragem de encarar. E eu
ainda poderia fazer o contraponto do Japão im ediatam ente antes e depois deste chocante acontecim ento. Com o o povo estava reagindo, com o o governo estava atuando, as soluções, os
problem as, o engaj am ento das pessoas e tudo o m ais que o país enfrentava. Com certeza não havia um único aspecto da sociedade j aponesa que não tivesse sido im pactado e, agora, eu teria a chance de perceber claram ente com o esta nação exem plar estava respondendo a este triste
acontecim ento de proporções épicas.
COM LUCIANO UCHIZONO, O LÍDER DE NOSSA EXPEDIÇÃO, EM FRENTE À ESCOLA DE ISHINOMAKI.
AJUDA HUMANITÁRIA COM SELO DE QUALIDADE BRASILEIRO!
Eles com praram a ideia e, j untos, passam os a acom panhar via m ídia tradicional, Twitter e, principalm ente, chocantes vídeos no YouTube o desenlace desse que foi o m aior terrem oto da história do Japão. Finalm ente decidim os que não havia com o deixar de conferir, entender e
aprender com o que estava acontecendo por lá. Um dos países m ais evoluídos do m undo enfrentava m om entos dram áticos de sua história. Seria um enfoque inédito no nosso proj eto e, por ainda se tratar de um m om ento totalm ente em ergencial, poderíam os, pela prim eira vez,
tentar levar algum tipo de aj uda às regiões afetadas. Ao m esm o tem po, sabíam os dos riscos envolvidos nessa m issão. Não era com o ir visitar o palco de um a tragédia j á passada e verificar seus efeitos e consequências. Cientistas garantem (e nós estávam os especialistas no assunto) que
os m om entos seguintes a um grande desastre natural são os m ais perigosos (assim com o os que sucedem um atentado a bom ba). Ainda m ais em se tratando de um terrem oto dessa m agnitude.
As placas tectônicas ainda perm anecem em acom odação durante algum tem po, provocando inúm eros e im previsíveis trem ores secundários, as cham adas réplicas. No caso específico do Japão, existe um a tese am plam ente defendida segundo a qual todos os terrem otos registrados ao
longo dessas décadas obedecem a um a sequência que culm inaria em um enorm e terrem oto sem precedentes na falha que fica exatam ente abaixo de Tóquio, um a das cidades m ais populosas do planeta e que serviria de base durante nossa passagem por lá. Esta seria a nossa viagem com
m enos tem po de preparação, m as talvez a que tenha gerado m ais reuniões, trocas de e-m ails, debates e análises antes de finalm ente baterm os o m artelo e decidirm os encarar a m issão com todos os seus bônus e riscos. Menos de um a sem ana depois, e ainda com pletam ente fora do fuso
horário (o que por um lado era bom ), eu estava voltando para o Japão.
Nos prim eiros dias, em Tóquio, tudo eram flores. Literalm ente. As tristes consequências do destino nos colocaram no Japão j ustam ente no período de floração das sakuras, as lendárias
cerej eiras em flor que dão o ar de sua graça durante um a única sem ana no ano. O efêm ero ciclo de vida daquelas sim páticas florezinhas é um a m etáfora para o povo j aponês de com o é frágil e breve a vida. Óbvio que, naquele m om ento, tudo ganhava um a dim ensão ainda m ais poderosa.
Tanto para eles, quanto para nós.
Mas um a m egalópole ultram oderna com o Tóquio nos reservava m uito m ais do que apenas
o bucolism o visual das plantinhas rosadas. Por m ais bonitas e representativas que fossem , não era bem a nossa praia, e m uito m enos a do program a, ficar vagando atrás de parques e j ardins floridos. Resolvem os então sair à procura de ação, o que não era nem um pouco difícil de achar
por lá nessa época. Acom panham os um a passeata antienergia nuclear que acabou virando um a m istura de rave e m icareta com direito a DJ e carro de som , frequentam os shoppings gigantes para conferir os racionam entos de energia que aconteciam (e dar um a conferida nas novidades eletrônicas, que ninguém é de ferro), subim os ao 56o andar do Park Hy att, palco das film agens
do clássico da Sophia Coppola e com vista para o m onte Fuj i. Até na reabertura da Toky o Disney nós fizem os questão de estar presentes. Ou sej a, dentro do possível, estava tudo correndo com certa tranquilidade e dentro do que havíam os planej ado.
Até que, durante um a refeição de fim de tarde em um agradável e tradicional restaurante j aponês, com ecei a sentir um a leve tontura. Parecia que estava m areado, balançando em câm era lenta e m eio desequilibrado. Eu não tinha bebido nada na noite anterior, e um a singela
latinha de refrigerante acom panhava m eu prato de sashim i de salm ão. A sensação não era bem com o estar bêbado, era m ais um a instabilidade. Até que percebi que não era eu quem estava
rodando, m as o m undo à m inha volta. Era um terrem oto! A percepção do que estava acontecendo veio ao m esm o tem po que eu via os pratos, copos, talheres e a m esa toda com eçarem a trem er em m ovim entos cada vez m ais intensos e frenéticos. Placas, lustres,
cortinas, tudo balançava. Não havia pânico no local, os j aponeses perm aneciam estáticos, apesar de apreensivos em sua calm a disciplinada. Eu acom panhava atento a reação de todos no recinto com o m odo de sobrevivência: “O prim eiro que correr eu vou atrás!”, disse m uito bem UFO, j á
em posição de sprint.
DESCARREGANDO O CAMINHÃO COM DOAÇÕES PARA AS
VÍTIMAS DO TSUNAMI.
De m odo aflitivo e cadenciado, o balanço da terra com eçou a dim inuir lenta e gradativam ente até perceberm os que havia parado de vez. Excitados e assustados, tentávam os avaliar o evento. Em bora forte, o trem or não se com parava ao do grande terrem oto de 11 de
m arço, ainda que houvesse atingido respeitáveis 7,4 graus na escala Richter (m ais forte que o do Haiti, por exem plo, que fez m ais de 300 m il vítim as em 2010). Foi o suficiente para perceberm os o quão insignificante é a nossa vida diante de um a força da natureza daquela m agnitude. Me senti
um a form iga à m ercê do universo. Meu destino estava totalm ente fora das m inhas m ãos. Em um assalto à m ão arm ada, um acidente de carro, praticando esportes extrem os ou em qualquer outra situação de alto risco, podem os ter um m ínim o de controle sobre o que está acontecendo. Tem os
algum a opção, por m ais arriscada ou im provável que possa parecer, de fazer algo. No caso de um terrem oto, não há absolutam ente nada que se possa fazer contra a natureza. Era só rezar para
que ela fosse m isericordiosa naquele m om ento. Esse não foi o últim o ou o m aior terrem oto que a gente vivenciaria. Em m aior ou m enor grau, ao todo foram cinco trem ores vivenciados em m enos de um m ês no Japão. Um a quantidade anorm al até para um povo acostum ado e
preparado para este tipo de acontecim ento.
A ação com eçou para valer quando rum am os para o norte do país. Seguim os em um
com boio de aj uda hum anitária com alguns voluntários j aponeses. Nosso ingresso nessa elite de loucos solidários se deu graças a m uita disposição e, para variar, a um a boa dose de sorte. Um a
das m ais alarm antes consequências do grande terrem oto do norte do Japão havia sido a crise nuclear gerada com a destruição de alguns reatores da usina de Fukushim a, um a das principais do país. Além de ter com prom etido parte do fornecim ento de energia de várias cidades, entre elas
Tóquio, o m aior tem or era um a escalada na gravidade do desastre. Explosões haviam sido registradas no local. O governo tinha estabelecido um raio de segurança, transform ando aquela área em um a cidade fantasm a da noite para o dia. E, apenas um dia antes de nossa entrevista
para fazer parte do grupo de voluntários, o nível de em ergência nuclear em Fukushim a havia subido de 5 para 7, o nível m ais alto registrado no m undo até hoj e (igualando-se ao acidente nuclear de Chernoby l). Com essa notícia, vários voluntários tradicionais daquela equipe haviam
abortado a m issão. O que abriu vagas para quatro inconsequentes e voluntariosos brasileiros.
Seguíam os em um a fila de três veículos partindo de Tóquio em direção às cidades de
Sendai, My iagi, Ishinom aki e a outras das m ais atingidas pelo tsunam i, onde faríam os diversas paradas em escolas e ginásios transform ados em abrigos para sobreviventes. Eram duas vans e um cam inhão lotados com m ais de duas toneladas de roupas, brinquedos, água e latas e m ais
latas de alim entos não perecíveis. A viagem , que antes da tragédia durava três horas, ia ser feita agora em seis, devido às condições da estrada e aos desvios forçados durante o cam inho. Sem pre que havia um posto de gasolina, éram os obrigados a parar para abastecer, pois nosso guia e os
outros m em bros m ais experientes de nossa entourage não sabiam quando (ou se) teríam os nova oportunidade de fazê-lo. Era preciso estar com o tanque sem pre cheio. As im ensas filas
denotavam que a crise de com bustível era m esm o grave, m as um adesivo especial para veículos de aj uda hum anitária nos dava prioridade na hora do abastecim ento. A organização e o respeito a todo o sistem a de em ergência criado eram , obviam ente, exem plares. Não havia confusão,
reclam ações ou desespero, de form a que tudo andava relativam ente rápido. Nossa van tinha pouco espaço para bagagem além de nós quatro, nosso m otorista e os m antim entos. Mas um item fundam ental, e há m uito cobiçado por nós, viaj ava em lugar de destaque no painel da frente o
tem po todo: um aparelho sensor de radioatividade. Durante o traj eto, passam os pelo lim ite da zona de exclusão em Fukushim a. Um a leve alteração no m edidor j á foi m otivo de histérico, porém inj ustificado, alarde. O leve aum ento da radiação nas proxim idades não era o suficiente
para provocar m utações genéticas. Pelo m enos era o que nos diziam . E esse foi o único m om ento tenso durante o tranquilo traj eto.
Apesar da pronta resposta do país aos acontecim entos, a situação ainda era de um a catástrofe de m egaproporções! Cidades inteiras tornaram -se entulho retorcido. E não eram vilarej os de pescador, não. Cidades j aponesas superm odernas, com loj as de grife, pontes,
shoppings, hospitais e escolas. O visual, conform e a gente ia seguindo para o norte, era cada vez m ais desolador e se estendia por quilôm etros e quilôm etros. Bairros onde nem sequer dava para ver o m ar no horizonte tinham se tornado verdadeiros cenários de destruição. Eram barcos nos
tetos de prédios, carros enfiados nas paredes de loj as e casas arrastadas para o m eio de cem itérios. Por conta das condições da estrada, m uitas vezes éram os obrigados a nos afastar do litoral e, após quase um a hora dirigindo e seguindo na direção contrária à do oceano, quando
im aginávam os estar circulando por locais que haviam escapado incólum es do terror daquele dia fatídico, avistávam os cenas com o a de um carro de cabeça para baixo pendurado em um
viaduto. Era o sinal de que até ali a água tinha chegado em form a de tragédia.
EM UMA DAS ÁREAS MAIS DESTRUÍDAS PELO TERREMOTO E
TSUNAMI DO JAPÃO. ASSIM QUE TIRAMOS ESTAS FOTOS,
FOMOS OBRIGADOS A EVACUAR O LOCAL POR CONTA DA
REPENTINA SUBIDA DA MARÉ.
Aliviava um pouco o sentim ento de im potência diante daquela força devastadora da natureza o fato de estarm os ali com o m em bros ativos de um a m issão de aj uda hum anitária. E os chefes de nossa expedição não nos deixavam esquecer isso nem um m inuto: carregam os caixas,
em pacotam os suprim entos, descarregam os cam inhões, fizem os entregas e, em m eio a tudo isso, participam os de m om entos de sincera em oção. O alívio que a gente levava até esses lugares ao entregar peças de roupa, calçados, com ida ou brinquedos era realm ente prim ordial. Centenas de
vítim as da tragédia, de crianças órfãs a senhoras de idade, se apresentavam ordenadam ente para retirar som ente o que lhes fosse estritam ente necessário em m eio a dezenas de caixas de papelão com os m ais variados tipos de doações. Sem qualquer tipo de vigilância ou necessidade de forças
de segurança para m anter a ordem , elas chegavam caladas e retiravam apenas os itens que lhes eram de extrem a urgência naquele m om ento. Nada de “avanço”. Mais um a dem onstração da
educação do povo j aponês, que não perm itia que as ondas assassinas, apesar de sua força destrutiva, abalassem seus valores de respeito e disciplina. Acordávam os cedo e dirigíam os horas em busca dos abrigos que m ais precisavam do nosso auxílio. Perceber a diferença que um a
cam iseta, um a peça de roupa íntim a ou um brinquedo de criança fazia naquela situação j ustificava nossa passagem por lugares tão tristem ente im pressionantes. O agradecim ento sincero e em ocionado de pessoas que perderam literalm ente tudo era realm ente tocante. Conseguíam os
finalm ente entender o que nossos com panheiros voluntários diziam sobre a m issão de aj uda ser um a recom pensa im pagável em si só. Às vezes dava a sensação de que os aj udados éram os nós, e não o contrário. Era estranho perceber tão evidentem ente que o ato de servir pode ser
recíproco. Confesso que dava um certo orgulho de fazer parte pela prim eira vez de um a ação dessa grandiosidade. Além de certa audácia e sorte, não foram necessários m ais do que algum as
horas de viagem e um pouco de esforço físico para oferecer um alento fundam ental àqueles que estavam passando pela m aior provação de suas vidas. A recom pensa era ver a em oção nos olhos destas pessoas que nos agradeciam por term os saído de um país tão distante para oferecer-lhes
aj uda nesse m om ento de dor. Dizíam os que, m ais do que nossa presença física ali, levaríam os conosco em lem branças a história e o exem plo do povo j aponês ao lidar com esse m om ento tão difícil. Um exem plo que, sendo adm irável, poderá criar novos laços de identificação entre nossas
duas nações tão distantes geograficam ente. E que, por seu caráter educativo, pode salvar vidas. Foram dias intensos e extenuantes, tanto física quanto em ocionalm ente, m as que terão sem pre um lugar especial em m inha m em ória.
O lem a é forte. Mas não se refere à cidade em si, m as ao episódio que a tornou fam osa em todo o m undo. Em 6 de agosto de 1945, às 8h15 da m anhã, o bom bardeiro B-29 Enola Gay das forças aéreas norte-am ericanas lançou a bom ba atôm ica denom inada “Litte Boy ” sobre o centro
da cidade de Hiroshim a, em um dos m ais tristes episódios da história da hum anidade. Em questão de segundos, um a cidade inteira tornou-se pó: m ais de 70% de suas construções foram com pletam ente destruídas. O núm ero de vítim as chegou a 160 m il, m ais da m etade da população
da cidade na época. Metade dessas m ortes ocorreu im ediatam ente, no m om ento da explosão.
De volta a Tóquio após nossa m issão pela costa norte-j aponesa, acham os que seria fundam ental pegar o trem -bala (em um de seus poucos trechos não avariados pelo terrem oto) e
ir até Hiroshim a, conhecer de perto essa história intim am ente relacionada com a questão nuclear. Novecentos quilôm etros em quatro horas e m ais de sessenta e cinco anos depois,
encontram os um a cidade linda e vibrante, totalm ente refeita de seu traum a. Um im enso e bem -cuidado parque abriga o Museu do Mem orial da Paz, um dos m ais organizados e explicativos do m undo. Ele é totalm ente dedicado à tragédia e tem seu foco no lem a: “Hiroshim a, nunca m ais”!
São três andares detalhando o desenlace político que resultou no bom bardeio, os dados técnicos deste e, por fim , registros horríveis das vítim as e do legado radioativo. A conclusão perfeita a outro m useu igualm ente interessante que havíam os visitado alguns dias antes, o Museu da Guerra,
em Tóquio. Nosso ciclo se encerrava de form a m agistral.
ENTRADA DA ESCOLA DESTRUÍDA PELO TERREMOTO, TSUNAMI E INCÊNDIO. UMA DAS HISTÓRIAS MAIS TRISTES DA TRAGÉDIA.
NÃO CHEGAMOS A ENTRAR EM FUKUSHIMA (NEM TINHA COMO), MAS
PASSAR POR PERTO JÁ ERA SUFICIENTEMENTE TENSO!
ÚNICO PRÉDIO QUE PERMANECEU DE PÉ EM HIROSHIMA
APÓS O FATÍDICO ATAQUE NUCLEAR.
Devido às im posições do m om ento, conhecem os um outro lado do Japão assim que desem barcam os em sua capital, a m ega m etrópole de Tóquio. E isto foi durante toda a nossa estada: verdadeiras aulas práticas de educação e cidadania com o povo j aponês em um
m om ento crítico de sua história. Percebem os que, às vezes, m ais im portante do que testem unhar ou atuar em um a tragédia, são as lições que podem os aprender com ela. Menos de um m ês após um desastre natural desse porte, a gente tinha conseguido viaj ar pelo país de m aneira tranquila,
testem unhando e registrando com o os principais setores do governo e da sociedade j aponesa agiam de m odo conj unto, ordenado e eficaz para superar este trágico acontecim ento que afetava suas vidas de tantas m aneiras. Pudem os inclusive chegar aos locais m ais drasticam ente
destruídos do país. E levando aj uda efetiva em um a arriscada expedição hum anitária. Mais m issão cum prida que isso, im possível! Chegam os ao Japão com a floração das sakuras e
partim os exatam ente quando elas com eçavam a desaparecer. Um exem plo prático e m etafórico de com o a força da natureza pode ser tão bela quanto destrutiva. E de com o a nossa passagem pelo planeta é fugaz.
AO LADO DE UM MÍSSIL QUE ESPALHA MINAS TERRESTRES. ESSE TIPO DE ARMAMENTO FOI PROIBIDO PELA CONVENÇÃO DE MINAS TERRESTRES", ASSINADA POR 75 NAÇÕES EM 2008.