Não Conta Lá em Casa

André Fran · Capítulo 3 de 16

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Não Conta Lá em Casa

Coreia do Norte

Parando para pensar, ter saído vivo de Mianm ar j á era lucro. Não fom os sequer para

cadeia! Conseguim os film ar m uito m ais do que o esperado. E não foi qualquer tipo de film agem , não: voltam os com relatos e declarações altam ente reveladoras de m em bros em destaque da

população local. Isso tudo foi realizado dentro de um a das ditaduras m ais duradouras e opressoras do m undo! Talvez isso tivesse deixado a gente um pouco confiante dem ais. Dessa form a, acabam os escolhendo nossa próxim a parada no roteiro ainda totalm ente m ovidos pela

em polgação. Decidim os logo por um a m issão im possível. Por aquele que talvez fosse o destino m ais contraindicado do m undo, ainda m ais para os nossos propósitos: entrar em um país disfarçados de turistas norm ais e registrar im agens da realidade local. Revelando segredos,

expondo m azelas e denunciando crim es geopolíticos em um program a de TV.

A Coreia do Norte não parecia o m elhor dos lugares para um proj eto que apenas com eçava a decolar. Na verdade, não parecia o m elhor dos lugares para m uitas coisas.

Basicam ente, o que a gente sabia da Coreia do Norte é que era um país onde não existia turism o. As poucas inform ações que chegam até o Ocidente sobre este vizinho esquisito da popular Coreia

do Sul, de Copas e Olim píadas, vinham de fontes pouco confiáveis, com o George W. Bush, por exem plo. Mas tam bém , líder esquisito por líder esquisito, a Coreia do Norte não ficava para trás. Kim Jong-il e, antes dele o seu pai, Kim Il-sung nunca fizeram m uita questão de abrir o país para

o exterior, e essa é um a das principais características que conseguim os apurar em pesquisas e por m eio de contatos (nenhum deles do lado de dentro do país, obviam ente). É com o se a Coreia do Norte fosse um a bolha com unista im penetrável. Quem está dentro não sabe o que se passa

aqui fora e vice-versa. Um país governado por excêntricos líderes que se incorporam à identidade de seu país e, advogando em causa própria, tornaram -se verdadeiras entidades

m itológicas para o seu povo. Tratados por “Grande Líder” e “Querido Líder”, Kim Il-sung e Kim Jong-il são quase sem ideuses venerados pelos norte-coreanos. Um país superfechado, m ilitarizado, m isterioso, potencialm ente perigoso e, é claro, inim igo das câm eras de film agem .

Pensando bem , era o destino perfeito para o Não conta lá em casa.

O principal nessa história toda é que a gente não podia perder a data do Arirang. O Arirang é um tipo de espetáculo que pode ser com parado — segundo os poucos que tiveram o privilégio

de testem unhá-lo — a um a abertura de Olim píadas elevada à décim a potência. Seu grande destaque são os m osaicos e as coreografias form ados por centenas de m ilhares de coreanos roboticam ente ensaiados com o obj etivo não só de produzir um m agnífico efeito visual com o de

com provar a valorização do coletivo sobre o indivíduo, m ostrando que a sociedade está acim a do pessoal, segundo m anda a cartilha m ais básica do com unism o. Recentem ente reconhecido pelo

Guinness com o o m aior espetáculo do gênero no m undo, é durante o período do Arirang que os coreanos ficam m ais relaxados em relação à entrada de estrangeiros no país. Trata-se de um im enso festival artístico, m as que não pode ter seu pano de fundo político ignorado. Nessa época, o orgulho nacional fala m ais alto e as autoridades oficiais norte-coreanas “perm item a entrada no

país até de am ericanos” que queiram testem unhar o grandioso evento, que celebra o nascim ento do presidente eterno Kim Il-sung.

 

Diz-se por aí que país que se autointitula dem ocrático raram ente o é. Mas estávam os até acostum ados; antes m esm o de cruzarm os as fronteiras da República Dem ocrática Popular da

Coreia, j á tínham os percebido, durante a nossa árdua busca por corriqueiros vistos de entrada no país, que os trâm ites tradicionais não se aplicavam à realidade deles. Na verdade, com o perceberíam os nas sem anas seguintes, a realidade deles é tudo, m enos “real”. Então, depois de

passar por todo tipo de perrengue, burocracia, form ulários e entrevistas, a gente j á estava aceitando até m esm o ir a pé para a Coreia do Norte, desde que nos garantissem os tem idos

vistos!

O processo de obtenção desses preciosos docum entos de entrada j á vinha se arrastando por m eses. Em função de nosso cronogram a, não tínham os com o adiar m ais. Seria tentar um a

loucura ou encarar a seguinte realidade: a de que j am ais iríam os entrar na Coreia do Norte. Quanto m ais gravar um program a de TV! Depois de nossos insucessos em solo brasileiro, quando tentam os por quase um m ês obter o valioso papel através de caríssim as ligações para

em baixadas do outro lado do m undo, e até pegando um voo para Brasília na tentativa de tirar o visto na em baixada norte-coreana em nosso país, aceitam os que a últim a e arriscadíssim a

chance seria voar para Pequim e tentar realizar o processo todo por lá. A m aioria dos raros voos e trens partindo com turistas para a Coreia do Norte sai da capital chinesa. Então, havia pelo m enos um a lógica m ínim a em levantar todo o dinheiro necessário para a em preitada e viaj ar até

o outro lado do m undo agarrado a um a rem ota chance de alcançar nosso obj etivo. E foi isso que fizem os.

A m issão Coreia do Norte j á com eçou a m ostrar suas prim eiras dificuldades ainda na

China. Era m ais fácil esbarrar com Yao Ming 1 nas ruas de Pequim do que achar um chinês que falasse inglês. Ler placas ou m apas: sem chance. Sair do aeroporto, pegar o trem , arranj ar um hotel, descobrir onde ficava a em baixada... Cada um a dessas etapas cotidianas revelava-se um

exercício hercúleo de paciência e determ inação. Porém , um a vez que dem os entrada ao processo, nosso foco era um só: entrar na Coreia do Norte a qualquer preço.

Estava cada vez m ais com plicado ficar naquela de Beij ing, Beij ing e nada de tchau, tchau. Seguíam os prontam ente à risca todas as exigências do corpo consular norte-coreano, aonde íam os quase duas vezes por dia para preencher papéis, m as a cada dia aparecia um a nova etapa a ser cum prida no interm inável processo de obtenção dos vistos. Estávam os há m ais de um a

sem ana na China, j á tínham os visitado a Muralha, o Parque Olím pico, a Cidade Proibida... Apesar de grande, estavam acabando os lugares a se visitar (e nosso dinheiro). Até que um telefonem a confuso no início da noite nos convocou para um encontro suspeito, em um

restaurante nas proxim idades. Fom os descobertos, foi o prim eiro pensam ento. Mas, àquela altura, o m áxim o que poderia acontecer era term os nossa entrada na Coreia negada, o que inclusive j á parecia bastante provável. Nosso interlocutor garantia ser da Agência Nacional de Turism o

Norte-Coreana e ter im portantes inform ações sobre nossos vistos. Colocam os nossa m elhor roupa e fom os encontrar a autoridade, o tal Mr. Tao.

Fum ando sem parar dentro do restaurante, Mr. Tao nos cum prim entou rapidam ente sem sequer nos olhar. Pegou o que restava de nossa papelada, deu um a rápida lida e disse: “Vocês em barcam para a Coreia do Norte am anhã, de trem , direto para Py ongy ang. Lá estarão dois

funcionários do governo aguardando vocês. Eles lhes darão m ais inform ações.” Entregou nossos passaportes, passagens e vistos, levantou-se e deixou o restaurante sem olhar para trás. Tchau e bênção. That’s it. Conform e fora definido pela Agência Nacional de Turism o Norte-Coreana, e

nos com unicado apenas um dia antes da partida, seguiríam os para a Coreia do Norte do m odo e no horário por eles determ inados. Logo de cara, um a decisão nada dem ocrática da República Dem ocrática Popular da Coreia.

Só que existia um pequeno problem a. Nem tão pequeno assim : o nosso am igo Felipe UFO, que ainda não havia desem barcado na China, ou m elhor, nem saíra do Brasil. Sem poder se

ausentar em razão de com prom issos pessoais, UFO tinha deixado toda a sua docum entação conosco e prom etido nos encontrar em Pequim assim que nossa entrada na Coreia do Norte estivesse garantida. Nunca poderíam os im aginar que isso só aconteceria com a data de

em barque m arcada e as passagens na m ão! Seria a prim eira vez, na curta história do program a, que viaj aríam os com a equipe desfalcada. Ninguém teve culpa. Não foi falta de planej am ento ou m á vontade. Além de Mr. Tao, claro. Até hoj e nosso am igo lam enta este episódio. Dedico

este capítulo a ele, então. Um a hom enagem com o form a de aliviar a tristeza por não ter visitado conosco esse inusitado recanto com unista. Mas, conhecendo-o com o o conheço, acredito que ele ficará ainda m ais revoltado.

 

Bastidores de produção: Em nossa prim eira tem porada, gravam os todos os

episódios quase que de um a tacada só. Apresentam os o proj eto do Não conta

lá em casa para o Multishow, que nos pediu um piloto. Levantam os o

orçam ento de m odo independente e partim os para Mianm ar. De lá, voltam os

com m ais de cinquenta horas de im agens. Editam os quatro episódios e

m ostram os para o canal, que gostou do que viu. Fecham os um contrato para a

produção de um a prim eira tem porada de 14 episódios. Decidim os com pletá-la

com Coreia do Norte, Irã e Iraque, abordando o polêm ico “Eixo do Mal”, nas

palavras do ex-presidente am ericano George W. Bush. Usando Istam bul, na

Turquia, com o base de operações, faríam os as viagens em sequência e só

voltaríam os ao Brasil após percorrer todo o nosso roteiro. UFO teve então que

nos encontrar no m eio do cam inho, na Turquia, quando voltam os da Coreia do

Norte. E dali seguim os todos j untos para o Irã.

 

Para nosso alívio, o trem que nos levaria até a capital da Coreia do Norte era cabine e não leito. Com a ausência de UFO, tivem os que dividir um desses quartinhos que com portavam dois beliches com um j aponês de uns trinta e poucos anos que, por razões obviam ente paranoicas

(porém j ustificadas), foi logo apelidado carinhosam ente de X9 e tratado com extrem a desconfiança. Descobrim os tam bém , e som ente após o em barque, que não haveria qualquer tipo

de “serviço de bordo”. Viaj antes precavidos, j á havíam os adquirido m antim entos para as 24 horas de viagem que teríam os pela frente: quatro pacotes de biscoito Oreo e três garrafas de 500 m l de água. Mas, para nossa alegria e surpresa, após um as 15 horas de viagem nos foi oferecido

um alm oço por conta da casa (ou do trem ). Galinha frita, carne frita, peixe frito e outras guloseim as não identificadas, tam bém fritas. Dem os um a rápida cutucada com os hashis no prato e decidim os voltar para os Oreos. Com o se não bastassem a fom e e o cansaço, ao cruzarm os a

fronteira da Coreia do Norte encaram os um a inspeção obrigatória na alfândega que durou m ais de três horas. Isso porque não há sequer um a m áquina de raios X, nem nada rem otam ente autom atizado além dos soldados que conduziam m ecanicam ente a revista. Todo o processo tem

que ser realizado m anualm ente pelos circunspectos oficiais que analisavam m ochila por m ochila, m ala por m ala, bolsa por bolsa. O j ovem cadete que investigou m inuciosam ente m inha bagagem

ficou m uito m ais preocupado com o livro que eu levava (a biografia do falecido diplom ata brasileiro Sergio Vieira de Mello) do que com m eu laptop. Vai entender.

Ainda na China, j á havíam os recebido dos funcionários da em baixada um com unicado

com recom endações im portantes para o turista que desej a visitar a Coreia do Norte. Um calham aço de quase vinte páginas com proibições e exigências das m ais bizarras. Para não assustar logo de cara o potencial visitante, eles prim eiro apresentavam um a lista com o que era perm itido, com o ter cabelo com prido ou usar j eans. Talvez para m ostrar que não eram tão durões assim . Apesar de o efeito prático ser exatam ente o contrário. Mas logo deixavam registrado que estavam term inantem ente vetadas desde cam isetas com slogans em inglês até

“itens de produção cultural ocidental”! Jornalistas tam bém não eram bem -vindos. O que era m ais com plicado no nosso caso se encontrava no Artigo 4º do parágrafo 21 da página 15: câm eras fotográficas com lentes superiores a 50m m estavam absolutam ente proibidas. O j eito

foi, novam ente, im provisar. Decidim os realizar todo o nosso program a film ando escondido com um a handy cam em prestada. Um a dessas m aquininhas digitais que você com pra de últim a hora no aeroporto quando esqueceu a sua em casa. Sim ples e de qualidade duvidosa, m as que pelo

m enos não despertaria m aiores interesses da equipe de inspeção do trem . Esse pequeno artefato tecnológico entrou para a história ao eternizar um dos m om entos m ais tensos do program a.

Justam ente a film agem dessa rotina de inspeção dos oficiais norte-coreanos. A olhadinha do soldado diretam ente para a lente da câm era cam uflada entre nossas m ochilas m e dá até hoj e um frio na espinha. Mas nossa bagagem foi finalm ente liberada. Assim sendo, nos autorizaram

finalm ente a seguir viagem em direção a Py ongy ang!

O BEM SERVIDO E BEM PITORESCO ALMOÇO NO TREM

A CAMINHO DE PYONGYANG.

SONG YAM DE GUARDA-SOL, LEONDRE FILMANDO COM UMA MINÚSCULA

HANDYCAM, PESCA COM A CAMISA DA SELEÇÃO BRASILEIRA E MR. OH

ESBOÇANDO UM SORRISINHO.

Com o bem disse Leondre, após m ais algum as horas na estrada, j á dentro do território norte-coreano, a paisagem era de um a m onotonia só: cam po de m ilho, cam po de arroz, cartaz do “Grande Líder”, m ilho, arroz, m ilho, “Grande Líder”… Esses cenários repetitivos iam se

fundindo uns com os outros, e o sono e a letargia aum entavam em balados pela sinfonia m etálica das engrenagens do trem . Era m ais fácil esquecer-se de olhar o relógio e perder com pletam ente a noção da passagem do tem po. A fronteira entre o que é real e o que não é fica bem difusa. O

inconsciente invade o consciente e vice-versa. É literalm ente sonhar acordado. Ainda m ais quando se está im erso em um a situação que beira o surreal. Não só no plano visual com o no plano psicológico. O que era m ais bizarro? As cenas de asiáticos cultivando cam pos de arroz sob

a m ira de rifles do século passado (eu vi m esm o isso?) ou o fato de estarm os a algum as horas de tentar film ar um program a de TV dentro da ditadura m ais fechada do planeta? Só “acordei”

quando um a senhora coreana devidam ente uniform izada adentrou nossa cabine e inform ou: “Koy a nishi otogui PYONGYANG!” Ou algo assim . O único que respondeu foi o X9, nosso com panheiro de vagão, m as todos entendem os a m ensagem . A viagem ia chegando ao fim , para

alegria de todos os brasileiros, e “j aponeses”, da nossa cabine.

 

Finalm ente, desem barcam os na estação de Py ongy ang, e a dem ora de alguns m inutos para que nossos guias se apresentassem j á provocara na gente ideias de um a fuga pela Coreia do

Norte com direito a j ornalistas presos2, intervenção diplom ática, Obam a, ONU, CNN... Mas logo chegaram a j ovem Song Yam e o indefectível Mr. Oh, que se tornariam nossos com panheiros inseparáveis durante os próxim os dias.

Um dos alertas que nos fizeram quando com eçam os a falar sobre a possibilidade de visitar a Coreia do Norte foi o de que o tem po todo teríam os em nossa cola dois funcionários da entidade estatal de turism o. O obj etivo deles seria nos guiar, acom panhar e, sobretudo, vigiar. E era

j ustam ente por isso que vinham em dupla. Um deles era o guia de verdade, que definia um roteiro e apresentava os m onum entos e locais históricos, além de fornecer detalhes e dados sobre estes. O outro era “o vigia”. Um funcionário que nos acom panharia tam bém em tem po integral,

m as que pouco interagiria. Este “guia” não iria contar detalhes sobre m onum entos ou discorrer sobre as incríveis lendas que ilustravam feitos m arcantes da história norte-coreana: sua função

estava estritam ente ligada à segurança. Obviam ente, não à dos turistas em questão, m as à da soberania nacional. A ordem dele era verificar se os visitantes não estariam ali com segundas, terceiras ou quartas intenções. Cabia a ele perceber se, em um a falsa atitude “turística”, seus

convidados não estariam querendo saber dem ais ou levar para fora do país inform ações que pusessem em risco a soberania nacional. No nosso caso, ficava bem fácil identificar que papel cum pria cada um dos m em bros daquele insólito casal. Song Yam era um a j ovem de 27 anos que vestia roupas clássicas (blusa abotoada até em cim a, um a gravatinha de laço e saia na altura do

j oelho). Seu cabelo preto e com prido estava sem pre arrum ado em um distinto rabo de cavalo e sua pele, branquíssim a, sem pre discretam ente m aquiada. Um a j ovem coreana tipicam ente tím ida, m as m uito atenciosa e sim pática. Além de m uito bonita. Mr. Oh, por sua vez, era um

senhor de m eia-idade e baixa estatura, m as que parecia em plena form a física. Seu cabelo grisalho era cortado no estilo m ilitar e as roupas sociais pretas que vestia tinham caim ento im pecável. Quando Mr. Oh involuntariam ente sorria de algum a coisa, parecia m eio

desconcertado, e logo reassum ia o seu tradicional ar circunspecto, com o se tivesse pego a si m esm o em flagrante delito.

Song Yam adorava interagir com a gente e ria m uito de nossas piadinhas, m esm o as sem graça, que eram m aioria. Esperávam os encontrar em um a j ovem coreana um a pessoa m eio ressabiada e desconfiada de estrangeiros, sobretudo garotões ocidentais m etidos a espertos. Mas

esse não era nem de longe o caso de Song Yam . Na verdade, a im pressão é que ela parecia m eio alheia aos m ales do m undo. Com o se a blindagem de seu país a qualquer inform ação que vem de fora a tivesse tornado um a inocente criança de 27 anos. Ela era culta, articulada e dona de um

inglês perfeito. Mas o seu m undinho era aquele propagandeado pelos m eios de com unicação oficiais desde que ela nascera. Algum conhecim ento político, m as m uita inform ação distorcida e paranoica. Nenhum a capacidade de relativização.

GRAÇAS À FORTE RECOMENDAÇÃO" DE

NOSSOS GUIAS, DEPOSITAMOS FLORES

AOS PÉS DA ESTÁTUA DO GRANDE

LÍDER" KIM IL-SUNG.

PESCA REPRESENTANDO O BRASIL EM FRENTE À

IMPONENTE ESTÁTUA DE BRONZE DE KIM IL-SUNG, NO

CENTRO DE PYONGYANG.

Certo dia, dentro da van exclusiva que usam os em nossos traslados pelo país, tivem os um papo m ais profundo entre um a cochilada e outra de Mr. Oh. Song Yam nos perguntou com o era a educação em nosso país. Com eçam os a explicar que havia ensino público e particular, e que,

portanto, um era gratuito e... Ela nos interrom peu de im ediato com um a expressão consternada no rosto: “As pessoas têm que PAGAR por educação?” No que respondem os sim , ela colocou as m ãos sobre os om bros do Pesca e, com um olhar sinceram ente pesaroso, disse: “Coitadinhos de

vocês, brasileiros.” A eterna m ania de perseguição tam bém se m anifestava a toda hora. Para ela, e nesse caso o discurso era sem pre corroborado por um aceno de cabeça firm e de Mr. Oh, os EUA eram o dem ônio com a perm anente intenção de destruir a Coreia do Norte que, por sua

vez, testava arm am entos nucleares com o único desej o de se defender. Quando indagados por que haveria esse interesse por parte dos norte-am ericanos, eles apenas diziam com o se fosse

bastante óbvio: “Ora, porque som os um país m uito poderoso!” Fim de conversa.

Outra form a m ais divertida de constatar a espessura da bolha que m antém os norte-coreanos afastados de qualquer tipo de contato com o m undo exterior aconteceu logo na nossa

chegada ao país. Seguindo m ais um item da enorm e lista de recom endações para o turista na Coreia do Norte, levam os presentes para os guias. Para Song Yam , flores. Para Mr. Oh, o item m ais representativo e cobiçado em nossos esforços diplom áticos m undo afora: um a cam isa da

seleção brasileira com o núm ero 10 nas costas. Ao receber o regalo, Mr. Oh pareceu m eio confuso, sem entender direito o que era aquele espalhafatoso item de vestuário. Até que explicam os que se tratava do uniform e oficial da seleção de futebol do Brasil. “Ohhhh...”, ele

exclam ou arregalando os olhos, m ais por educação do que por adm iração, e com pletou: “Maradona!” Fim de conversa.

 

O hotel onde ficam os hospedados era padrão cinco-estrelas com unistas. Som ente nossos guias, o j antar de recepção e o staff j á dariam m aterial para 15 capítulos desse livro. Éram os

tratados com o verdadeiros chefes de Estado ou estrelas de Holly wood em visita à terra de Kim Jong-un. O im enso prédio em um local afastado da capital era m uito bem -cuidado, lim po e im ponente. O lobby era im enso, com um pé-direito de m ais de 20 m etros. Parecia a im ensa

entrada de um m useu ou a nave de um a enorm e catedral. Os salões de refeição seguiam a m esm a suntuosa linha. Tudo aquilo resultava em um visual propositadam ente grandioso. Só

pecava na decoração exageradam ente opulenta e datada. Pouco víam os outros hóspedes e parecia um tanto excessivo os quase dez funcionários só para nos servir o abastado dej ej um . Vez ou outra cruzávam os com pequenos grupos solitários de ocidentais entrando no café da m anhã ou

saindo dele em partida em suas vans para um dia de passeio, sem pre acom panhados de sua respectiva dupla de guias. Parecia haver um a agenda toda planej ada com total atenção e dedicação exclusiva a cada grupo. Um a form a de cuidado no atendim ento e, é claro, de controle. Nossas refeições ficavam ainda m ais holly woodianas quando sentávam os sozinhos em um salão

para duzentos lugares e nos servíam os em um a m esa com m ais de vinte opções de pratos que apresentavam o m elhor da culinária oriental e até ocidental (ou um a versão caricata desta).

Quem se hospedava tam bém no nosso hotel, com pletando o pequeno núm ero de hóspedes,

era ninguém m ais, ninguém m enos, que nossos guias, Mr. Oh e Song Yam (quero acreditar que em quartos separados). Ficam os sabendo que era outra recom endação do governo, para que,

segundo eles, “tivéssem os nossas necessidades atendidas a qualquer hora do dia ou da noite”. Aham , sei. Estávam os era participando involuntariam ente de um a espécie do Big Brother Coreia do Norte. Boatos na internet garantiam inclusive que os quartos em que dorm íam os eram

equipados com m icrofones escondidos e tinham o telefone gram peado. Dem os um a leve vasculhada, m as depois pensam os que poderia haver tam bém câm eras secretas que nos flagrariam procurando os tais m icrofones. Im aginam os a cena de um oficial do governo norte-

coreano rindo ao conferir nos m onitores de segurança a cena de três brasileiros atrapalhados ao caçar escutas inexistentes em silêncio absoluto sob os olhos de câm eras escondidas. Abortam os a m issão.

Certo dia, eu e Leo descem os m ais cedo para o café enquanto Pesca ainda escovava os dentes. Assim que chegam os ao saguão, dem os de cara com nossos sorridentes guias, que j á nos

aguardavam de prontidão, com o em todas as m anhãs. Ao perceberem a falta do terceiro m em bro de nossa equipe, fizeram um a expressão de preocupação que parecia coreografada, e Song Yam perguntou: “Onde está Bruno?” Foi a deixa para que Leondre atacasse com m ais um a

gracinha de seu arsenal de piadas desconcertantes: “Bruno acordou m ais cedo e foi fazer cooper pela cidade!” A fisionom ia de preocupação m udou rapidam ente para a de terror, com o naquele efeito especial do clipe de “Black and White”, do Michael Jackson. Quando parecia que Song

Yam ia soltar um grito de alarm e e Mr. Oh sacar algum a arm a letal de dentro da cam isa, esclarecem os rapidam ente que era apenas brincadeira e que Pesca j á estava descendo. Ficava

claro que aquele, dentre todos os destinos do planeta, não era o lugar m ais indicado para testar as piadinhas politicam ente incorretas de nosso grupo.

Além de grandioso, o hotel era bem estruturado em term os de atendim ento e serviços.

Claro que não havia internet. A Coreia do Norte definitivam ente era um a provação para os nerds. O m áxim o de contato perm itido com o m undo virtual era através do envio de e-m ails. Sim , só envio. Nada de receber m ensagens da nam orada, arquivos anexados, Power Points

m otivacionais da m am ãe ou spam de aum ento peniano. E, ainda assim , o e-m ail a ser enviado devia ser preenchido em um form ulário especial e enviado por m eio de um a das agências oficiais dos correios do país. Sabe-se lá quando ou com o essa m ensagem iria chegar ao seu

destino. Teria sido m ais fácil escrever em um papel, colocar dentro de um a garrafa e j ogar no oceano Pacífico.

Nosso quarto no 19o andar era confortável e bem equipado. Havia um chuveiro com água quente, cam as lim pas e até TV a cabo. Com poucos canais, é verdade, m as estavam lá a BBC e a CNN, estandartes da m ídia ocidental. Resolvem os perguntar a Song Yam se eles tam bém podiam curtir essas regalias televisivas enquanto estavam hospedados no hotel com a gente. Um pouco

tem erosa, e verificando se Mr. Oh não a escutava, ela revelou que não. E nos contou que em seu andar a TV só pegava o canal de notícias locais. A realidade, m ais um a vez, parecia m uito longe da vida de nossa j ovem am iga.

 

Assim que botam os o pé na Coreia do Norte, nossos guias apreenderam nossos passaportes.

“Não se preocupem com isso”, nos disseram , com o se fosse a coisa m ais norm al do m undo. Confesso que, para alguém que j á perdeu o passaporte e todo o dinheiro que possuía durante um a viagem de m ochilão pela Europa, o governo norte-coreano provavelm ente era m ais indicado

para tom ar conta de m eus docum entos do que eu m esm o. Ainda assim , não fiquei m uito confortável com a situação. Outras estranhas regras tam bém nos foram colocadas antes m esm o de nossa prim eira saída por Py ongy ang. A prim eira era que film agens só com autorização

oficial pedida com dez dias de antecedência (bela estratégia, j á que só tínham os perm issão para ficar no país por oito). E a segunda era “A Medida Pesca”, com o batizam os depois da piadinha

do Leondre: se quiséssem os sair por conta própria pelas im ediações do hotel, não deveríam os ultrapassar um a cerca que ficava a poucos m etros da entrada principal. Mas, apesar da estranheza que essas norm as ultrarrígidas nos causavam , fom os percebendo m ais um a vez

aquele clichê m áxim o que nos acom panha em todos os nossos destinos inusitados: no fundo som os todos iguais. Aos poucos íam os — com um a certa dose de sim patia, um pouco de j ogo de cintura e m uita cara de pau — ganhando a confiança de nossos guias, que eram tam bém os

nossos em baixadores particulares durante a estada na inusitada república com unista. Pouco a pouco, conseguim os até am pliar a zona liberada para film agem (m esm o com nossa digitalzinha de bolso). Não só isso, m as conseguim os tam bém tirar m uitas dúvidas com eles. E eles próprios

passaram a ficar cada vez m ais à vontade conosco. Inclusive com eçando a colocar para nós as suas próprias questões e, m ais interessante ainda, curiosidades sobre o “m undo exterior”. Suas

perguntas, m ais até do que as respostas, davam a m edida do quão incrivelm ente isolada é a Coreia do Norte. As teorias inacreditáveis e as versões distorcidas não soavam com o m á intenção, lavagem cerebral ou m edo de repressão, eles sim plesm ente vivem em um a bolha

socialista. Song Yam e Mr. Oh representavam um povo im erso em um a espécie de universo paralelo em algum lugar do passado. Eles viviam um a outra realidade m uito, m as m uito distante da nossa.

Entre dezenas de paradas para visitar m onum entos ou instituições públicas (todos em hom enagem ao “Grande Líder”) e conversas dentro de nosso ônibus de excursão exclusivo, dois eventos ganham destaque. O prim eiro deles sendo o Festival Arirang, um espetáculo que, sem

exagero, deixa qualquer abertura de Olim píadas no chinelo, com coreografias e m osaicos gigantes, que m erecidam ente lhe dão o título de m aior espetáculo da Terra. São m ais de cem m il pessoas, entre estudantes, m em bros do exército e funcionários do governo, perfeitam ente

ensaiadas, participando de apresentações de m úsica, teatro e acrobacia. Em um dos lados do estádio, a arquibancada inteira é reservada em sua totalidade para a grande atração do evento. A exibição de m osaicos hum anos de deixar o m aior fã de com putação gráfica de queixo caído!

Alguns deles apresentando intricadas cenas anim adas (até hoj e não entendo com o eles fazem isso). O espetáculo tem com o obj etivo contar as lendas, feitos históricos e, principalm ente e

com o não podia deixar de ser, exaltar os líderes da Coreia. Os m osaicos desenham de form a lindíssim a retratos m aj estosos dos grandes líderes, im agens idílicas do heroico povo norte-coreano e até um a pistola autom ática. Sei lá por qual m otivo.

PARA FAZER UMA MÉDIA COM NOSSOS ANFITRIÕES, SENTAMOS DO

LADO NORTE-COREANO NA MESA ONDE FOI ASSINADO O ARMISTÍCIO

NO FINAL DA GUERRA DA COREIA.

MOSAICO HUMANO FORMA A BANDEIRA DA

COREIA DO NORTE... QUE TREMULAVA!

O outro evento que m arcou nossa viagem foi a visita à DMZ, a zona desm ilitarizada na divisa entre as duas Coreias. A zona neutra na fronteira corta a península coreana quase que na m etade e foi instituída após a Segunda Guerra, com a rendição do Japão, que controlava a Coreia

então unificada. Com aval das Nações Unidas, Estados Unidos e União Soviética dividiram o país em duas zonas de influência: o norte com unista e o sul capitalista. Em 1950, a Coreia do Norte invadiu a do Sul, no prim eiro conflito arm ado da Guerra Fria. As forças com unistas venceram a

barreira da DMZ e avançaram em território sul-coreano, m as tiveram seu ataque rechaçado, sendo em purradas de volta a sua posição original. Depois de três anos de com bates e m ilhões de civis m ortos, um arm istício foi assinado pondo fim aos com bates. Desde então, apesar das

m edidas preventivas e leis internacionais de regulam ento, diversos incidentes j á ocorreram . E a DMZ ficou conhecida com o um a das fronteiras m ais tensas do m undo. A im pressão que se tem é

a de que se pode cortar a tensão no ar com um a faca. Coreias do Sul e do Norte se encarando perm anentem ente. Frente a frente com suas diferenças, passado, presente e futuro. Vinte e quatro horas por dia, todos os dias da sem ana. Nações separadas apenas por alguns poucos

m etros. Nada de m uros, apenas um a m arcação no chão representando o lim ite territorial exato entre os dois países. Tenso! Quando visitam os a sala onde foi assinado o arm istício, tam anha era a sensação de intim idação que, quando o oficial nos ofereceu um assento na tal m esa de

assinatura do tal tratado, nós três logo pulam os para nos sentar do lado norte-coreano. Não custava fazer um agrado aos nossos anfitriões, né?

 

Apesar do clim a de tensão em Panm unj om , onde está localizada a DMZ,

poucos incidentes têm sido registrados nas últim as décadas. Mas sua história é

m arcada de entreveros, invasões, espionagem e am eaças que acum ulam

algum as centenas de m ortes desde a criação desta. Geralm ente da parte da

Coreia do Norte, que j am ais assum e a responsabilidade pelos ataques. O

episódio m ais violento e curioso ficou conhecido com o “Os assassinatos do

m achado”. Em 1976, um a árvore que havia crescido em um a área neutra do

local estava atrapalhando a visão de um a torre de vigilância da Coreia do Sul.

Dois oficiais norte-am ericanos das Nações Unidas acom panhados por um

grupo de soldados sul-coreanos seguiram até o local para podá-la. Chegando

lá, foram interrom pidos por um a dezena de soldados norte-coreanos e seu

com andante. Eles alertaram que era necessário parar com o corte da árvore,

pois esta tinha sido plantada e regada pelo próprio Kim Il-sung (?!). Os oficiais

am ericanos ignoraram a ordem e prosseguiram com a tarefa. Nesse

m om ento, o com andante norte-coreano desfere um golpe fatal de caratê (!!!)

no líder do grupo da ONU e ordena que seus soldados “Matem os bastardos!”.

Usando os m achados largados pelos cortadores da árvore, eles atacam os

soldados adversários e ferem m ortalm ente o outro oficial norte-am ericano.

Com o resposta, a ONU, os EUA e o exército sul-coreano realizam um a

operação conj unta envolvendo vários batalhões, helicópteros e j atos e,

finalm ente, conseguem pôr abaixo a tal árvore de Kim Il-sung.

 

O que faz da Coreia do Norte um a experiência totalm ente singular e incom parável talvez

sej a j ustam ente a form a com o eles lidam com o turism o e conosco, os “turistas”. Exem plos:

1) Em nenhum a ocasião ingressam os nos eventos, m useus ou outros locais pela entrada com um ou j unto da população local. Éram os sem pre escoltados sem escalas até os assentos VIP

e de lá retirados de volta para dentro do ônibus por espécies de passagens secretas que nos m antinham devidam ente afastados do povão.

2) Os intervalos para o alm oço durante nossos passeios eram m ais do que bem -servidos.

Eles eram com postos por entrada, petiscos não identificáveis, salada, prato principal, acom panham entos, sobrem esa, chá e biscoitos que sem pre nos obrigavam a dizer: “Estam os

m ais que satisfeitos, obrigado.”

3) As crianças-prodígio m agistralm ente ensaiadas nos aguardavam com apresentações rebuscadas a cada sala em que entrávam os “por acaso” em nossas várias visitas a escolas de

artes e universidades. Elas eram ingênuas ferram entas a serviço do sistem a, e esse teatro ensaiado para os turistas acabava revelando outra faceta do regim e com unista norte-coreano.

4) E, por fim , o próprio fato de esbarrarm os sem pre com os m esm os poucos turistas e seus

guias, que deviam estar fazendo o m esm o circuito predeterm inado que o nosso, apenas com algum as horas (ou m inutos) de diferença. Em um a parada qualquer dessas, encontram os até com o querido X9, nosso com panheiro durante as 24 horas de trem de Pequim a Py ongy ang,

provando que seu apelido era totalm ente inj ustificado, coitado.

Um detalhe que cham ou a atenção, e que talvez represente m uito m ais do que dados

políticos e episódios históricos, aconteceu em um singelo passeio ao circo. Mais um a vez, por m eio de nossa querida interlocutora Song Yam . Já era tarde e, com o últim a parada no nosso roteiro do dia, fom os levados a esse renom ado espetáculo circense de Py ongy ang. Nada no estilo

circo do interior, não. A enorm e produção estava m ais para atração de parque tem ático de Orlando (EUA), m esm o. Apesar de todo aquele am biente e aquelas atrações, essa parada em especial tinha bastante significado e representava m uito do que estávam os descobrindo em nossa passagem pela Coreia do Norte. “Descobrir” parecia m esm o o verbo perfeito a ser aplicado aqui. Afinal, para variar, fazíam os parte de um reduzido e excêntrico grupo que não só QUER visitar a Coreia do Norte, m as que efetivam ente CONSEGUE chegar até lá.

Durante as apresentações no picadeiro, m ais do que a concentração, disciplina e seriedade que perm itiam que aqueles artistas realizassem façanhas acrobáticas dignas de m edalha de ouro, outro detalhe quase passava despercebido. Era o olhar de nossa guia, enquanto assistia às

perform ances e brincadeiras no palco. Principalm ente às inocentes trapalhadas dos palhaços. Song Yam exibia um olhar de puro encantam ento e diversão sincera! Um a leve inocência que dificilm ente veríam os em um a adolescente ocidental, criada à base de iPods, TV a cabo e

internet. Ficava cada vez m ais claro para a gente que todas as lendas e histórias que ela e Mr. Oh tinham nos apresentado, a adoração aos seus líderes e seus grandiosos feitos, não eram m era

conversa para enganar turista. Eles realm ente acreditavam em tudo aquilo. Eles sim plesm ente desconheciam qualquer versão diferente da oficial. Tam pouco conheciam outro contraponto ao que aprendiam . E não tinham m esm o o m enor m otivo para duvidar das versões contadas por

líderes tão heroicos e honrados, não é? Não havia ninguém para debater, questionar ou contestar. Assim com o seu povo, nossa guia vivia involuntariam ente protegida da cruel e, ao m esm o tem po, atrativa realidade do m undo lá fora. Eternam ente presa dentro desta redom a isolada. Com o

verificam os pela últim a vez, aquela era, e provavelm ente seria para sem pre, a realidade de Song Yam . Para o bem e para o m al.

 

Cena de film e. A cada sala em que entrávam os, era só pisar na porta para

com eçar m ais um núm ero de altíssim a com plexidade técnica realizado por

garotinhos e garotinhas que não batiam nem na m inha cintura. Eram

m inishows agendados e executados com perfeição im pressionante. Em um a

dessas salas, eu e Pesca resolvem os quebrar um pouco o protocolo com o

louvável obj etivo de zoar o Leondre. Sabendo de sua habilidade com

instrum entos de corda, colocam os pilha em nossa guia dizendo que nosso

querido am igo tocava guitarra e queria fazer um a “dem onstração” para a

turm a. Enquanto a gente ria, Song Yam explicava à professora, que na m esm a

hora entregou um violão na m ão de Leondre com um a reverência. Ele não

teve com o escapar. Mas até que se saiu bem , com um núm ero que na hora

ninguém percebeu o quanto era apropriado. Assim com o Michael J. Fox fez

e m De volta para o futuro, Leondre im provisou um trecho de “Johnny B

Good” apresentando esse “novo” estilo m usical a um a plateia totalm ente

incrédula. Term inado o núm ero, em m eio aos aplausos efusivos da turm a

com posta por m enininhas de 10 anos, Song Yam , estupefata, pergunta a

Leondre o que era aquilo. Ele respondeu: “Rock and roll!” Se ele tivesse citado

um a expressão em aram aico, teria feito m ais sentido. Song Yam , toda aquela

turm a, a professora e grande parte da população do país nunca haviam ouvido

falar no term o.

 

Para quem j á viaj ou em excursão, a im pressão que ficou foi a de fazer parte de um grupo da Stella Barros passeando pela Disney lândia da Ásia com unista. O Maravilhoso Mundo de Kim Jong-un. A Coreia do Norte é um a espécie de país-m useu do socialism o. Aquele socialism o que

aprendem os no colégio e que é cultivado e preservado dentro daquele pequeno país.

Deixar a Coreia do Norte dava um a sensação de liberdade. Não que tivéssem os sido m altratados ou nos sentido presos durante nossa estada, m as sair de nosso tradicional estilo de

viaj antes para ser turistas na m ais pura e restrita definição do term o era um tanto quanto diferente para quem estava j á acostum ado a se perder pelos recantos m ais sórdidos da Ásia.

Ainda m ais se considerarm os que a decisão de viaj ar dessa m aneira não foi tom ada por nós. Na verdade, pouquíssim a coisa durante essa viagem coube à gente decidir. Os m onum entos, as atrações, a lim peza, organização e beleza do local eram im pressionantes. Mas essa boa

im pressão que tivem os do país perdia um pouco do valor pelo fato de só term os visto o que nos era perm itido ver. Ler nas entrelinhas estas proibições e a form a com o elas nos eram im postas pelos nossos sim páticos e atenciosos guias j á diziam m uito. Ponto em com um com qualquer outra

viagem , é que esta foi m uito especial pelas nossas conversas e, principalm ente, pelas novas am izades que fizem os. Mesm o sabendo que, nesse caso, a gente não teria com o m anter contato

com Mr. Oh ou Song Yam . Pelo m enos, por enquanto.

Para fechar com chave de ouro e ter um a últim a am ostra do ritual de surpresas inacreditáveis com que nos deparam os nesta república, deixam os a Coreia do Norte a bordo de

um avião um tanto peculiar. Obviam ente, conform e a determ inação da Agência Nacional de Turism o. Um Tupolev russo da Air Kory o (em presa banida de operar na União Europeia até aquele ano), que m ais parecia um ônibus escolar com asas, nos levaria de volta para casa (ou o

m ais próxim o possível disso). Um term ôm etro de m adeira registrava a tem peratura (altíssim a) dentro da “aeronave” e leques foram distribuídos pela sim pática tripulação para am enizar o calor, com o se fosse um procedim ento padrão da ICAO (International Civil Aviation

Organization) e com um a qualquer com panhia aérea. Nada m ais bizarro. Ou, pensando bem , nada m ais apropriado.

MONUMENTO QUE REPRESENTA O DESEJO DO POVO NORTE-

COREANO DE REUNIFICAÇÃO DAS DUAS COREIAS. NÃO TIVEMOS A

OPORTUNIDADE DE PERGUNTÁ-LOS SE O MESMO PROCEDE.

O BELO LEONDRE SE ABANA COM UM LEQUE OFERECIDO PELAS COMISSÁRIAS DA AIR KORYO PARA AMENIZAR O CALOR DENTRO DA AERONAVE.

AR-CONDICIONADO PARA QUÊ?

EQUIPE REUNIDA A CAMINHO DE MAIS UM MONUMENTO. OU PRÉDIO DO GOVERNO. OU OS DOIS, O QUE ERA MAIS COMUM.

Notas

 

1 Jogador de basquete chinês que ficou popular ao defender a equipe do Houston Rockets na

NBA, a liga de basquete profissional am ericana.

2 Em 2009, duas j ornalistas am ericanas foram presas e condenadas a 12 anos de trabalhos

forçados por terem entrado ilegalm ente na Coreia do Norte. Foi preciso a intervenção direta do

ex-presidente Bill Clinton, que viaj ou à RDCN para conseguir a libertação de am bas.