Não Conta Lá em Casa

André Fran · Capítulo 8 de 16

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Não Conta Lá em Casa

Etiópia

(Para ler ouvindo “War”, de Bob Marley )

Agora a coisa com eçava a m udar um pouco de figura. Íam os para um destino inédito para o program a: o continente africano! A África é um continente m arcado por fom e, epidem ias de

Aids, secas, guerras civis, exploração, m ilícias, anarquia e disputas tribais. É só citar um problem a social, político ou econôm ico qualquer que, certam ente, você encontra na África um exem plo para ilustrá-lo. É um lugar historicam ente com plicado, e m uito do que enfrenta tem

raízes na exploração e agressão vindas de fora. É tam bém um lugar que o m undo parece m anter esquecido. Longe de seus olhos. A não ser em episódios de claro interesse cruel e exploratório. Por pura ignorância ou pelo tam anho dos dram as de vários países dali, poucas pessoas associam

o im enso continente africano a algo que não estej a ligado a anim ais selvagens ou à m iséria hum ana. Na cabeça de grande parte da população m undial, fom e e m iséria estão para a África com o sam ba e futebol estão para o Brasil.

Apesar de todo o preparo, inform ação e estudo, sabíam os que seria um choque encarar a aridez deste inédito destino do Não conta lá em casa, em todos os aspectos. Ainda assim , com o

portão de entrada escolhem os a região conhecida com o Chifre da África, no Nordeste do continente, que abriga m ais de 100 m ilhões de indivíduos divididos entre Eritreia, Etiópia, Som ália e Dj ibuti. Um lugar com um a história m ilenar e riquíssim a, m as que há décadas sofre com

constantes e variadas crises e desastres naturais.

Escolhem os a Etiópia com o prim eiro país a ser visitado em nossa em preitada africana devido à força que esse nom e tem no im aginário de todos que viveram a infância ou a

adolescência nos anos 1980. Além de seu fortíssim o com ponente histórico, claro. Infelizm ente, as prim eiras im agens que surgiam em nossa m ente eram de fom e, Aids, guerras de fronteira, refugiados, seca e m iséria. Tudo isso envolto em um cenário bege e árido form ado por centenas

de m ontanhas que, am ontoando-se um as sobre as outras, criam paisagens inacreditáveis. O que m uita gente não sabe é que a Etiópia é tam bém a região conhecida com o berço da hum anidade.

Ali foram encontrados fósseis de m ilhões de anos. Alguns dos m ais antigos e im portantes de que se têm notícia. Lá tam bém estão presentes igrej as m ilenares que tornaram o país um a referência m undial para o cristianism o (que, apesar de constituir a religião com o m aior núm ero de fiéis,

convive pacificam ente com a grande parcela m uçulm ana da população). Com o não bastasse tudo isso, a Etiópia, por toda a sua história, é considerada a Terra Prom etida (Zion) e foco central da ideologia rastafári. A religião/estilo de vida que se tornou popular nas canções do j am aicano Bob Marley , m aior ídolo do reggae de todos os tem pos. O próprio Deus encarnado dos rastas, Jah Rastafari, é ninguém m ais, ninguém m enos, que o lendário im perador e herói do povo etíope, Hailê Selassiê.

TANQUE ITALIANO ESQUECIDO EM

ALGUM LUGAR DA ETIÓPIA.

UM DIA QUALQUER NO MERCATTO DE

ADIS-ABEBA, CAPITAL DA ETIÓPIA.

Geograficam ente, a Etiópia fica em um ponto crucial no Chifre da África. Em bora não tenha saída para o m ar, ela ocupa um a posição politicam ente estratégica, que faz fronteira com todos os países da região. E, enquanto quase todos os países africanos têm pouco m enos de um

século de vida, a Etiópia sem pre foi independente e por isso é um dos m ais antigos países do m undo. Mesm o após a Conferência de Berlim , que dividiu a África entre as potências coloniais europeias, a Etiópia conseguiu m anter a sua independência. Conseguiu resistir até as tentativas de

invasão por parte da m uito m ais rica e poderosa Itália. O único e breve período de ocupação italiana se deu durante a guerra entre os dois países. E não durou m ais do que poucos anos. Nessa ocasião, m ais precisam ente em 1935, o im perador Hailê Selassiê (Jah!) fez um inflam ado

discurso em apelo à Liga das Nações (o em brião da ONU) que lhe valeu o título de Hom em do Ano da revista Tim e. Dizem que o lendário im perador etíope era bom de discurso, m esm o. Tanto

que outro de sua autoria, proferido diante da Assem bleia Geral das Nações Unidas em 1963, ficou im ortalizado na canção “War” do m ais fam oso rastafári da história, Bob Marley .

Mesm o com essa história de luta e sobrevivência, a Etiópia sem pre foi um país bem

hum ilde e que sofreu m uito nos anos 1980 com um a séria epidem ia de fom e. A falta de chuvas nesse período provocou um a seca que, com o m au planej am ento do governo e a natural dificuldade da agricultura na região (aj udada em grande parte por décadas de desm atam ento

para produzir carvão), fez m ais de um m ilhão de vítim as. Os olhos do m undo inteiro se voltaram para um dram a que na era pré-internet parecia ainda m ais distante e sem solução. Im agens de crianças definhando e sendo devoradas por m oscas davam um a sensação de im potência ao m ais

abnegado filantropo. Mesm o ações hum anitárias capitaneadas pelas m aiores celebridades da época, com o o “We Are the World” de Michael Jackson, pareciam não chegar a arranhar a

superfície do problem a. Aquela enorm e m assa seguia m orrendo de fom e diante dos olhos do m undo. E diante dos olhos de crianças que, com o eu, viveram a década de 1980 e que, criadas com o auxílio de um a exím ia babá eletrônica cham ada televisão, tiveram registrada em seus

subconscientes a im agem de um a Etiópia de clim a im placável, de seca, fom e e m orte. Por todos esses m otivos, ficava claro que nenhum outro lugar poderia ser m ais perfeito para a prim eira incursão do Não conta lá em casa no continente africano.

 

Com poucos dias j á dava para perceber que Adis-Abeba, a capital do país, não era o que

poderíam os qualificar com o um lugar com o outro qualquer na África. Muito m ovim entada, com um a área urbana bem extensa e trânsito de cidade grande, Adis, para os íntim os, se destaca da m aioria das cidades do continente. A cidade é considerada a capital política da África devido ao seu posicionam ento geográfico e histórico-diplom ático. É nela tam bém que fica a sede da União Africana (baseada nos m oldes da União Europeia). Com quase a totalidade de sua população sendo constituída de negros, nos destacávam os ao dar um a sim ples cam inhada pelas ruas. Pela

prim eira vez, eu sentia na pele algo parecido com o que deve passar um a m ulher ocidental andando por Cabul, um hom ossexual na Arábia Saudita ou um negro em ... Bem , em diversas cidades do m undo, infelizm ente. Mas só pelo contraste. Em nenhum m om ento sofrem os qualquer

tipo de preconceito. Não nos sentim os acuados, m alvistos ou fom os m altratados. Muito pelo contrário. Todos foram m uito sim páticos, atenciosos e educados conosco. O povo etíope é alegre, de bem com a vida, bonito (várias top m odels m undiais são de lá) e adora se vestir bem . Você

anda na rua e vê senhores e senhoras cam inhando com um a postura orgulhosa, ostentando sem pre roupas típicas m uito representativas de sua cultura, extrem am ente coloridas,

im pecavelm ente lim pas e bem passadas. Pareciam todos im ponentes m onarcas africanos em seus traj es de gala. Excluindo-se algum as regiões tribais e a fronteira com a problem ática Som ália, a Etiópia era um país bem tranquilo de se visitar. E Adis-Abeba deixava isso evidente.

Em m enos de dois dias j á nos sentíam os totalm ente à vontade para circular a pé pelas im ediações do hotel ou nos em poleirar em um dos m uitos taxizinhos azuis (e caindo aos pedaços) para um a aventura por algum a área m ais afastada. Havíam os nos preparado física e

m entalm ente para encarar provações clim áticas. Porém , o conhecido e inclem ente sol africano não fez j us a sua fam a sanguinária. Pesca tinha até se m atriculado na academ ia nos m eses que antecederam a viagem . Reza a lenda que fez até flexão dentro da sauna para “ir se

aclim atando”. Para nossa surpresa, a tem peratura se m anteve am ena durante todo o tem po que estivem os por lá. As ruas da capital eram calm as apesar de m ovim entadas, o acesso aos itens

básicos de necessidade era fácil e até nos perm itíam os alguns luxos ocasionais. Nossa tão aguardada prim eira experiência na África estava se passando de form a pacata, segura e estável.

COM NOSSOS ENTREVISTADOS EM UM BAR NO INTERIOR DE UM CAMPO

DE REFUGIADOS DA ERITREIA, NA ETIÓPIA.

VOANDO DE PRIMEIRA CLASSE. UM FOKER 50 DA ETHIOPIAN

AIRLINES. MAS NÃO DEIXA DE SER PRIMEIRA CLASSE, NÉ?

Ocorre que, por m ais tranquila que parecesse para a gente, Adis não chegava a ser um a capital típica com o se poderia im aginar. Por exem plo, quando fom os film ar na rua que abriga as principais em baixadas dessa cidade que é referência de desenvolvim ento e civilização no

continente, esbarram os com vacas e bodes m uito m ais do que com diplom atas. Outro detalhe é que as representações oficiais dos países onde estávam os batendo à porta para tentar visto não eram os tradicionais Estados Unidos, França ou Inglaterra. Mas lugares com o Dj ibuti, Som ália e

Sudão. E, com o era de esperar, as burocracias e trâm ites legais nessas em baixadas eram obviam ente um caso à parte. Posso dizer que, depois dessa experiência na África, a palavra burocracia ganhou um novo significado. O que era para ser um a tarde acabou tornando-se dois

dias de papelada e idas e vindas de escritórios de obscuras nações africanas. Mas som os brasileiros e não desistim os nunca. Para o bem da verdade: estam os até acostum ados. No final

das contas, tudo se resolveu.

 

Adis-Abeba pode ser considerada tam bém a capital m undial da aj uda hum anitária. Todos

os aspectos da Etiópia colaboram para isso. A “m á fam a” da Etiópia atraía cidadãos voluntários de diversas partes do m undo, o que acarretava um a enorm e profusão de ONGs no país. Com o era nossa obrigação, e tam bém por ser um a form a diferente e bastante eficaz de conhecer a

realidade dos lugares que visitam os, fom os em busca de representantes e trabalhadores de diversas dessas organizações. Alm oçam os com australianas que lutam contra a prostituição infantil, fom os recebidos por entidades da Holanda que procuram novas soluções tecnológicas

para o problem a da seca e pegam os carona com am ericanos dedicados a levantar fundos para cam panhas de prevenção contra a Aids. Foi num desses interessantes encontros, em m eio a fatos

estarrecedores e dados alarm antes, que, totalm ente por acaso, conhecem os nosso prim eiro am igo africano, Musbah. Alto, m agro e bem -arrum ado com o os etíopes em geral, Musbah era um j ovem esperto, apesar de calado, e engraçado, apesar de tím ido. Nos cum prim entava no

estilo dos rappers am ericanos (aperto de m ão estalado puxando para um rápido abraço) e sem pre dava um j eito de encaixar um a piadinha entre suas explicações tão com pletas que pareciam saídas direto da Wikipedia. Com seu j eito m oleque e sorriso fácil, logo se integrou à

pequena equipe. Musbah ficou tão íntim o da gente que, brincando com ele, o apelidam os de “o garoto m ais inteligente da Etiópia”. Sem pre que o cham ávam os assim , ele abria um sorriso de canto de boca, dizia: “No, no...”, m as no fundo dava para ver que ficava todo orgulhoso. O

m otivo do apelido era que ele havia acabado de com pletar o período escolar na capital, graças à aj uda de um a organização internacional de assistência à educação. A ONG em questão (que

estávam os visitando e pediu que não tivesse seu nom e m encionado, exigência curiosa que analiso m ais adiante neste capítulo) atuava havia m ais de um a década na Etiópia, retirando crianças de um a vida sem qualquer perspectiva de futuro em vilarej os pobres e afastados do centro e dando a elas aloj am ento decente, com ida e acesso à educação de qualidade. Musbah era um a dessas

crianças. Deixara sua vila e fam ília (que visitava um a vez a cada dois m eses) havia m uitos anos e era hoj e um dos m aiores casos de sucesso da organização. Justificando seu novo apelido, “o garoto m ais inteligente da Etiópia” tinha acabado de ganhar um a bolsa de estudos na

Universidade de Nova York. Gostam os do m oleque e parece que ele de nós, porque logo arrum ou um a desculpa e convenceu seus tutores a passar os dias seguintes conosco a título de nos apresentar a verdadeiro país. A barreira da língua não seria problem a, j á que seu inglês, em bora

carregado daquele sotaque de cantor de reggae, era m uito bom . (O idiom a oficial da Etiópia é o am árico. Apesar de am bos terem a m esm a origem , cuidado para não confundir com o

aram aico, a língua m orta falada no Oriente Médio nos tem pos de Jesus Cristo.) Seria a prim eira vez na vida que Musbah entraria em um avião. Justam ente para deixar sua terra natal e ir m orar em um país tão distante do seu. Em todos os aspectos. Ele estava m uito ansioso e agitado, m as se

ofereceu para nos m ostrar um pouco da “sua” Adis enquanto não chegava o dia de partir.

 

O prim eiro ponto na excursão de Musbah foi o Mercatto, um m ercado popular de dim ensões gigantescas. Um bairro em form a de cam elódrom o. Ou um cam elódrom o em form a de bairro. Era um em aranhado insano de pessoas, tendas, anim ais, loj inhas, barracas e com idas,

quase sem pre im possíveis de identificar, e que eram vendidas e consum idas ali na própria calçada. Tam bém havia m uitos pedintes e, é claro, alguns trom badinhas que, segundo nos alertaram , visavam principalm ente aos estrangeiros. Por isso, era bom não dar pinta — o que era

m eio difícil para nós por m otivos óbvios — e tom ar certo cuidado. O que im pressionava m esm o no Mercatto era o tam anho do lugar e a variedade dos produtos. Vim os gente vendendo desde burros até m aterial de construção, passando por especiarias, roupas e m uito café. Tudo naquele

esquem a bem inform al e im provisado. Apesar da fam a do café brasileiro, aprendem os ali nas ruas do m ercadão com os com erciantes algo que m uita gente desconhece: o café é originário da

Etiópia. Nosso gourm et oficial e especialista no produto, Felipe UFO, provou e afirm ou que o café de lá é realm ente m uito bom .

Passam os o resto de nossos dias em Adis na com panhia de Musbah. Ele nos levou ao

circuito tradicionalm ente turístico da cidade, passando por igrej as, m onum entos a Jah (ou im perador Selassiê) e prédios históricos. Pegávam os um a van superlotada, com o fazia a galera local, e circulávam os a capital por horas e horas. Volta e m eia um a parada para visitar um ponto de m aior destaque. Com o o Museu Nacional da Etiópia. Os j ardins careciam de um trato, e o prédio, ainda obedecendo a um a bela arquitetura clássica, precisava de boa m anutenção. O grande m useu ficava localizado bem no centro de Adis e possuía um ar m eio abandonado e

hum ilde, não deixando transparecer a im portância dos tesouros históricos que abrigava. Eram esculturas m ilenares e vários registros e resquícios da civilização etíope, seus reis e dinastias. No entanto, o que colocava aquele pequeno m useu no circuito internacional da arqueologia era o fato

de lá se encontrarem alguns dos m ais im portantes fósseis descobertos até hoj e. Hom inídeos, australopitecos, Hom o erectus e por aí vai. Revivem os ali, em um a única tarde, m uitos e m uitos anos de aulas de ciências da escola. Mas o grande destaque m esm o é que nesse m useu se

encontra o m ais fam oso e talvez m ais antigo fóssil do m undo. Lucy, segundo os especialistas acreditam , tem cerca de 3,2 m ilhões de anos! A ossada foi descoberta em 1974 sob as areias do

deserto de Afar. A sala onde se encontra o fóssil do m ais fam oso hom inídeo do planeta parece ter sido tratada com especial carinho pelos responsáveis do m useu. Os restos m ortais de Lucy ficam em um túm ulo de vidro ao centro do salão, a ilum inação é m ais baixa, o clim a m ais

soturno e o silêncio im pera. Com o não poderia deixar de ser, entram os no am biente circunspectos e respeitosos da seriedade do recinto. Até que ouvim os um a voz cadavérica dizendo: “Hello, I am Lucy ! I am here!” (Oi, eu sou Lucy ! Estou aqui!) Acham os de m au gosto

e inadequado. Mas, enfim , provavelm ente era um a tentativa de interatividade estranha que agradava aos locais. A voz insistia: “Com e to m e. I like y ou! I love y ou! I am y our wife, Leo!” (Venha aqui. Gosto de você! Eu te am o! Sou sua m ulher, Leo!) Leo??? A vozinha cadavérica não

era efeito especial do m useu, m as apenas UFO que surgiu às gargalhadas detrás de um a porta orgulhoso de sua gracinha inapropriada. Era hora de encerrar o passeio.

TROCANDO IDEIA COM UM INSUSPEITO (E ENCACHAÇADO)

“PROFETA” DE LALIBELA.

EU E BRUNO PESCA DANDO UMA VOLTA PELAS ANCESTRAIS IGREJAS DE

LALIBELA.

Musbah foi o anfitrião perfeito. E Adis-Abeba, o ponto de partida ideal para entenderm os um pouco da Etiópia. História, cultura, clim a, geografia... fom os apresentados a um intensivão de África em alguns poucos dias. O passo seguinte soava m ais desafiador: deixar a relativa

tranquilidade de um a das m ais proem inentes capitais africanas e ir de encontro às regiões m ais com plicadas e representativas daquele m esm o país.

 

A cidade de Lalibela fica a um a hora de voo (em um Focker 50 da Ethiopian Airlines) da capital Adis-Abeba. A sensação é de deixar a “cidade grande” e chegar à África de verdade.

Bem m ais próxim a da realidade m édia do país, que tem 80% de sua população m orando no cam po e um nível econôm ico m uito abaixo do que vim os na capital (e que j á não era grande

coisa), Lalibela se destaca por ser Patrim ônio da Hum anidade. A cidade abriga m ais de um a dezena de igrej as cristãs ortodoxas seculares em um espaço m enor do que o bairro onde eu m oro. A principal delas, a de São Jorge, está pleiteando o posto de oitava m aravilha do m undo.

Não vou m e surpreender se conseguir conquistá-lo. Mas, se a eleição for pela internet, vai ficar difícil: só se acha conexão discada por aqui. E instalada em um as cabanas im provisadas. O Com ando Nerdice (eu e Leondre), após criteriosa e sofrida avaliação, elegeu-a com o a m ais

lerda que encontram os até hoj e no m undo.

O m otivo da enorm e quantidade de igrej as espalhadas pela região é que Lalibela decidiu

criar um a alternativa a Jerusalém para os cristãos no século XII. Com o Jerusalém estava dom inada pelos árabes, os católicos ficaram im pedidos de cum prir a sua tradicional peregrinação até lá. Os cristãos da Europa ainda tinham a opção de Rom a, o resto ficou na m ão.

Assim , os etíopes resolveram erguer a sua própria cidade sagrada. Porém , o que diferencia Lalibela de um a cidade sagrada qualquer é a form a com que foram construídas as suas igrej as.

As igrej as m onolíticas, com o eles as cham am , são escavadas no solo, form ando im ensos

blocos únicos de um a pedra escura, argilosa e fria. Tente visualizar um grande buraco no chão, algo em torno de 40 m etros quadrados com uns 20 de profundidade. E, no centro desse buracão, um quadrado de pedra que parece ter brotado ali, no m eio da terra. Nesse quadrado são

escavados grandes portões, j anelas, nave central, púlpito, cruzes e decorações diversas. Tudo talhado no gigantesco bloco de pedra. Deve ter dado um trabalho e tanto. Ainda m ais se

lem brarm os que são m ais de dez dessas engenhosas obras de arte. Com o soubem os por nossas pesquisas, a m ais fam osa delas era a de São Jorge, que foi toda esculpida em form a de cruz e fica localizada no topo do m orro m ais alto da cidade. Um visual inesquecível.

Fizem os todo o circuito das 13 igrej as em um único e cansativo dia de trekking. Passam os o dia inteiro andando por m orros, trilhas e ladeiras em um a altitude de m ais de 2.500 m etros. Para

quem quiser fazer um a com paração, basta lem brar do sufoco que os j ogadores da seleção, atletas altam ente preparados, passaram ao j ogar em Quito, exatam ente com os m esm os 2.500 m etrinhos acim a do nível do m ar. É j ogador vom itando e ofegando para lá e para cá, e o Galvão

criticando: “É culpa da altitude! Com o é que a Fifa não proíbe isso, Arnaldo?” Im agina, então, o que isso foi para nós, sedentários “levantadores de garfo” e praticantes de “alterocopism o”. Com o não bastasse, aquelas m oscas características que vem os em im agens de arquivo na TV

pousando no rosto de pobres m eninos etíopes definhando de fom e, teim aram em aparecer. Felizm ente, apesar da pobreza da cidade, não vim os nenhum m enininho passando fom e. Já as

m oscas estavam lá, pousando o tem po todo na nossa boca, olho e orelha sem a m enor cerim ônia. Mas tudo foi recom pensado quando entram os em um a dessas igrej as de m ais de novecentos anos no exato m om ento em que estava acontecendo um a sessão de exorcism o!

 

Cada um a dessas igrej as está sob os cuidados de um ou m ais sacristãos. Pequenos e franzinos anciãos africanos que parecem saídos de um film e com suas roupinhas surradas, eles passam o dia tom ando conta das igrej as, fechando-as apenas no horário do alm oço. O interior

delas, com o é de esperar, era extrem am ente úm ido e escuro. Então, esses sacristãos im provisam um as poucas lâm padas, que m al dão conta de ilum inar o local. Dentro do am biente há aquela leve penum bra e um cheiro de m ofo de séculos passados que propiciam um clim a tétrico.

Com o quem está na chuva é para se m olhar, não nos fizem os de rogados e, um a vez ali, entram os em cada um a das 13 igrej as. Quando chegou a vez de conhecerm os a últim a delas, j á era bem tarde. E, consequentem ente, j á estava bem m ais escuro. Mal dava para ver algum a

coisa lá dentro. Conseguim os apenas distinguir um a estranha m ovim entação e uns gem idos baixinhos e ritm ados vindos lá do fundo. Parecia um a reza sofrida e incessante. Sem querer

incom odar, nos aproxim am os do sacerdote responsável, que vinha acom panhando tudo de longe, e perguntam os o que estava acontecendo. Ele disse apenas um a palavra: “Exorcism o.” A expressão de m edo surgiu tão rápido em m eu rosto quanto a j ovem africana, que apareceu toda

enrolada em panos suj os, vindo afoita lá de trás. Olhos esbugalhados, gritando e gesticulando m uito, dava a entender que estava m uito incom odada com a nossa presença. Quando am eaçou atirar um a garrafa na nossa direção, j á tínham os batido em retirada. Nos explicaram depois que esses exorcism os são, de certa form a, com uns por ali. Moças com o essa que vim os são noviças. Jovens aspirantes a freiras passando por um ritual de preparo religioso. A lenda diz que o dem ônio, incom odado com m ais um a hum ana disposta a se alistar nas forças divinas, tenta

realizar a possessão de m odo a trazê-las para o seu lado. É nesse m om ento que se faz necessário o exorcism o.

A explicação sinistra só fez o m eu m edo crescer. Tentei apressar m eus colegas para que

saíssem os dali o quanto antes, e eles pareciam calm os dem ais para o m eu gosto. Perguntei a Leondre se ele não se im pressionava com essa questão de espíritos, possessões dem oníacas... Ele se virou para m im com um risinho debochado e disse: “Fran, isso é tudo besteira!” Foi só ele

term inar de pronunciar a frase que ouvim os um estrondo surdo com o o de um tam bor gigante ecoando por todo o interior daquela caverna escura. Foi a deixa para transform arm os a

cam inhada em corrida e sair dali rapidinho.

 

Continuando nossa peregrinação pelos confins da Etiópia, nossa próxim a m issão era encarar um a viagem de uns 400 quilôm etros e doze horas pelas infam es estradas etíopes. A

relação espaço/tem po pode ter parecido estranha para quem está visualizando as freeway s dos EUA, um a Autobahn alem ã ou até as nossas rodovias no Brasil. Mas todos nos alertavam que a tal “estrada” era ruim em um nível realm ente preocupante. Para chegar a Axum , partindo de

Lalibela, é necessário percorrer um a serra com altitudes acim a dos 2 m il m etros. Mas não há com o com pará-las com as serras do nosso país. Na Etiópia, a im pressão que se tem é que você vai circundando a encosta de um a m ontanha até o topo só que ao chegar lá no alto se depara com

outra em cim a dessa m ontanha. E assim sucessivam ente! É im possível destacar um a da outra porque elas se sobrepõem em um am ontoado de cadeias a perder de vista. Quando você atinge um dos pontos m ais altos e olha para baixo, o visual é im pressionante: um a sucessão de cânions

sem fim . Cientistas afirm am que as placas tectônicas nessa região do globo estão se dividindo e, futuram ente, ali nascerá um novo m ar. Essa parte da Etiópia parece m esm o outro planeta.

Laranj a, árido e recortado em um relevo incom parável. Sem dúvida foi a pior e a m elhor viagem de carro que j á fiz na vida. A pior porque essas m ais de doze horas foram cum pridas quicando nos buracos da em poeirada “estrada”. Sim , entre aspas, porque não há asfalto, m ureta

de proteção ou placas de sinalização. Só buracos. Seria m ais apropriado cham á-la de “esburacada” do que “estrada”. E a m elhor porque o visual variava entre interm ináveis e assustadores desfiladeiros sem -fim e algum as cenas que faziam com que a j anela de nossa van parecesse um a tela de cinem a. Vim os por exem plo um engarrafam ento de cam elos, um tanque italiano da Segunda Guerra Mundial abandonado e diversos vilarej os africanos com seus habitantes peculiares.

 

Ainda a cam inho de Axum , passam os pela pequena cidade de Sekota, que foi o cenário principal das terríveis im agens de seca e fom e que não paravam de pipocar nas telas de TV em m eados dos anos 1980. Ironicam ente, foi ali tam bém o pit-stop escolhido por nosso m otorista

para o alm oço. Não chegam os a ver sinais de fom e extrem a com o nos arquivos de 25 anos atrás. Mas a m endicância e a quantidade de crianças nas ruas (im pressiona a quantidade de crianças m uito novinhas pelas ruas da Etiópia quando você deixa a capital) não perm itiram que nosso

alm oço (pão com ovo e tom ate) fosse dos m ais agradáveis. Nessa área notam os tam bém um a presença bem forte de ONGs e carros da ONU. Im pressiona a quantidade dessas organizações

não governam entais atuando na Etiópia.

OBSERVANDO A IMPRESSIONANTE IGREJA DE SÃO

JORGE, ESCULPIDA EM FORMA DE CRUZ EM UM ÚNICO

BLOCO DE PEDRA.

DÁ PARA PERCEBER COMO ME MISTUREI BEM COM OS LOCAIS DA

CIDADE DE LALIBELA. ESTOU QUASE CAMUFLADO NA FOTO.

A situação precária do terreno para cultivo, a m á utilização do solo ao longo dos anos e os ciclos de seca, som ados a altas taxas de natalidade, form aram um coquetel fatal para a região. Ainda há lugares na Etiópia sofrendo com epidem ias de fom e. Muitos acreditam que o papel

daquelas organizações pareça m eio panfletário/assistencialista e questionável. O problem a com as ONGs aqui, m uitos afirm am , faz m uitas delas serem avessas a câm eras ou publicidade, e, com o todas estão sendo bancadas por capital estrangeiro, acabam com petindo em desigualdade

com a iniciativa local. Isso acarreta um ciclo tão vicioso quanto inj usto. Oportunism o é a palavra m ais usada pelos detratores da chuva de ONGs em solo etíope. Um a questão que faz lem brar o Brasil, que tem na Am azônia, rica em recursos naturais, ONGs dispostas a proteger os cerca de

250 m il índios que habitam um a região do tam anho da Europa, enquanto no árido sertão nordestino m ilhões de brasileiros padecem sem nenhum a organização que abrace sua causa.

Ouvim os críticas que questionam se realm ente há interesse por parte dessas organizações de que não haj a m ais im agens de crianças africanas definhando na seca, pois são essas m esm as tristes im agens que j ustificam a sua existência e sustento. Com plicado, m as, com o bem observou

m eu com panheiro de viagem Bruno Pesca: “Quando você vê a condição em que vivem as crianças que nos cercavam nas ruas pedindo com ida, qualquer tipo de aj uda é um a reação hum ana natural e traz um alívio im portante para quem está passando necessidade.”

 

Se a estrada de Lalibela até Sekota era a pior e m elhor que eu j á havia encarado na vida, a de hoj e conseguiu rapidam ente bater esse recorde. Mas só no quesito “ruindade”. OK, o visual

continuava arrebatador. Mas a qualidade dessa nova seção da “estrada” era m uito, m as m uito, pior. Foram cerca de dez horas brincando de touro m ecânico dentro de um a van abarrotada de equipam entos e m arm anj os suados e enj oados. Para am enizar o calor, era necessário que as

j anelas perm anecessem ligeiram ente abertas o tem po todo. A poeira da estrada de terra batida invadia o veículo por todos os lados. Com apenas m eia hora de viagem , nosso cabelo, roupa e m ochilas j á pareciam relíquias arqueológicas. Mas tudo isso valia a pena porque estávam os indo

em busca de um a das paradas m ais im portantes de todo o traj eto. Ignorando recom endações de ONGs e dos locais, fom os sem autorização nenhum a em direção a um dos m aiores cam pos de

refugiados eritreus na Etiópia.

Chegando lá, foi im pressionante constatar que m ais de 20 m il pessoas prefiram viver nas condições com que nos deparam os a ter que suportar a terrível realidade de sua terra natal. E em

um país “inim igo”, um a vez que a disputa na fronteira entre os dois países é ferrenha! Nosso m otorista, Adriano Im perador (apelidado por sua sem elhança com o j ogador de futebol brasileiro), tinha conhecidos na área e garantiu que conseguiríam os entrar no cam po sem m aiores problem as. “Está tranquilo! Deixa com igo!”, foi o que conseguim os traduzir de seu gestual. De fato, íam os passando por barreiras protegidas por rifles e nos em brenhando cada vez

m ais no interior do gigantesco cam po. Barracas im provisadas com lona ou m adeira em um a sequência interm inável preenchiam am bos os lados da estreita estradinha de barro. Quando aparecia um a construção de tij olo, se destacava com o algo luxuoso. O Im perador nos guiou por

m ais alguns quilôm etros entre curvas e desvios daquele labirinto de barracos e chegam os, então, ao bar do único m orador do local que falava inglês. O chão do estabelecim ento era de barro e o teto, coberto por um a lona im provisada de algum a tenda do ACNUR (Alto- Com issariado das

Nações Unidas para Refugiados). As únicas opções no cardápio eram Coca-Cola ou cervej a. Contrastando com a pobreza do bar, só m esm o a riqueza dos relatos do em preendedor local e de

sua fam ília. A esposa e suas duas filhas o aj udam no em preendim ento m ais do que inform al que conseguiram m ontar dentro do cam po para garantir o sustento e a sobrevivência. Um cotidiano de provação e trabalho duro que tornava o sorriso perm anente no rosto dos quatro por vezes

incom preensível. “Liberdade não se com pra!” foi a frase sim ples e, ao m esm o tem po, carregada de significado que nosso entrevistado nos deixou com o m ensagem final, e que parecia resum ir e traduzir perfeitam ente o sentim ento de todos os seus m ilhares de vizinhos.

PESCA OBSERVA A GRANDE ESTELA DERRUBADA NO

SOLO DE AXUM DESDE O SÉCULO IV.

UFO FAZ AMIZADES COM OS LOCAIS DURANTE UMA PARADA A CAMINHO

DE LALIBELA.

Após quilôm etros e quilôm etros de curvas, buracos e m uita poeira, chegam os ao nosso

destino final: Axum ! E não havia m uito tem po para relaxar na piscina do hotel, curtir o lounge ou a sala de internet. Na verdade, nosso sim plório duas estrelas nem tinha nada disso. Largam os as m alas em poeiradas no quarto e fom os para a rua descobrir o que a cidade tinha a oferecer

naquele calorento dia de verão. Sede, suor e m ais sede. E nós quatro cam inhando pelas ruas e m orros de Axum , a cidade m ais sagrada da Etiópia e antiga sede do “Reino de Axum ”, considerado um dos m ais poderosos entre o Im pério Rom ano e a Pérsia por volta do século I.

Axum até hoj e é local de peregrinações de fiéis da igrej a ortodoxa etíope e cristãos de todo o m undo. Em nossas cam inhadas pela cidade, volta e m eia esbarrávam os com grupos de excursão form ados em sua m aioria por velhinhos e velhinhas italianos ou portugueses. Um a m udança

radical no tipo de com panheiros de viagem que costum am os encontrar por nossos destinos.

Conhecem os tam bém as principais atrações turísticas do lugar, com o os obeliscos históricos

(reinstalados recentem ente após terem sido roubados pela Itália durante a Segunda Guerra Mundial) e os túm ulos da realeza etíope cuj o cheiro não negava seus vários séculos de idade. Isso tudo em um dia e a pé. Atravessam os m orros e m ais m orros sem qualquer sinal de placas ou

trilhas evidentes (o que nos fez errar o cam inho, refazer traj etos e andar em círculos por algum as horas). Ao todo, foram m ais de quatro horas de cam inhada sem dinheiro para água, o que não fez m uita falta j á que não havia nenhum lugar onde pudéssem os com prá-la, de qualquer j eito.

Dizem que, após algum as horas de esforço repetitivo em intensidade e carga alta, o corpo hum ano passa a secretar um a substância que traz um a sensação de bem -estar e calm a. Um

estado de espírito zen que às vezes pode gerar até delírios. Com o um alucinógeno naturalm ente produzido pelo corpo em estado alarm ante de fadiga.

Lem bro que, quando ainda estava no colégio, acom panhei em algum as oportunidades um

am igo que treinava para correr m aratonas. Ele fazia o traj eto do Pontão do Leblon ao Lem e (17 quilôm etros), ida e volta. E diversas vezes! Obviam ente, eu ia ao seu lado de bicicleta porque não sou m aluco. Minha função era levar bebidas isotônicas para ele ir se hidratando e providenciar

um bate-papo am istoso que tinha com o obj etivo distraí-lo da infindável quilom etragem a ser percorrida. Ele m e contava que, em diversas vezes durante os treinos, sentia claram ente o m om ento em que a cham ada endorfina era liberada em seu corpo. Dizia ele que ficava m eio

aéreo e que se em baralhava na contagem da distância percorrida com facilidade. Às vezes, acreditava j á estar chegando ao Leblon quando na realidade estava em Copacabana. Ou achava

que j á estava chegando perto de casa quando estava indo na direção contrária. Via dragões voadores vagando com anões nus em seus dorsos. Mentira, não chegava a tanto. “Era com o estar doidão!”, ele resum ia. Pois bem , se é que esta substância é m esm o liberada após esforço dem asiado, e que provoca sensações sem elhantes à ingestão de algum psicotrópico, acredito que

eu, UFO e Leo tivem os em Axum um a overdose de endorfina! Pesca sabiam ente preferiu a cam a do hotel a nos acom panhar na “leve cam inhadinha para fazer a digestão” que a gente im aginava estar prestes a realizar. O esforço hercúleo desem penhado por um j ogador de pelada

aposentado com hérnias lom bares (eu), um surfista sedentário (Leondre) e um fisiculturista am ador em fim de carreira (UFO) foi tam anho que nossas glândulas devem ter secretado um a quantidade de endorfina correspondente a um a overdose. Durante toda a cam inhada/escalada,

experim entei apenas as sensações típicas do abuso de aditivos: m edo, desconforto, dor, ansiedade e paranoia.

Um pouco m ais preparado para a ocasião, e sem pre em polgado, UFO se fazia, às vezes, de guia e personal trainer. Se em penhava para nos estim ular e incentivar a cada trecho com pletado: “Todo m undo quer ir para o céu, m as ninguém quer m orrer! Vam os, tim e de guerreiros! Raça!”

Em determ inados m om entos, nos encontrávam os em tal estado de extenuação que não era possível conj eturar palavras ou pensam entos coerentes. Apenas balbuciávam os reclam ações e resm ungos ocasionais. Ao chegar ao topo do que parecia ser m ais um a interm inável subida,

Leondre atestou, aliviado: “Tô m orto, m as tô vivo!”

Só não dá para reclam ar da vista e dos elem entos históricas no traj eto que eram realm ente m arcantes. Se valia o esforço despendido? Há controvérsias. Mas um a coisa que j á coloquei na

cabeça e encaro com o palavra de ordem em todos os m om entos dessas viagens com o Não conta lá em casa é que não posso perder nenhum a oportunidade de ver, conhecer ou vivenciar

algo que, dificilm ente, terei outra chance de fazer. Um a coisa é você desistir de um a noitada na Espanha, conhecer um belíssim o vinhedo francês ou visitar um a villa italiana. Mom entos especiais, m as que são possíveis de serem repetidos. Outra coisa é você abrir m ão de fazer

trekking pelos m orros acidentados de um a cidade bíblica perdida no m eio da Etiópia. Mais um a m issão que risquei da listinha!

FOTOS

 

A últim a e m ais im portante parada nesse extenuante percurso em Axum era tentar

conhecer a igrej a m ais antiga do país, a de Nossa Senhora Maria de Zion. Além de ter um belo nom e para um a igrej a, nela estaria supostam ente enterrada a Arca da Aliança, a grande caixa que contém as tábuas sagradas onde foram inscritos os Dez Mandam entos pelo próprio Deus Todo-Poderoso, posteriorm ente entregues ao profeta Moisés. Pouca coisa.

Obviam ente, j á im aginávam os que seria difícil ter qualquer tipo de acesso aos m andam entos ou à Arca. Só não sabíam os quão difícil seria. Fala-se que houve um encontro

alguns anos atrás entre o representante m áxim o da igrej a cristã etíope e o papa. O obj etivo da sacrossanta reunião consistia em decidir se era chegada a hora de revelar o conteúdo da Arca e as consequências que tal decisão traria para a Igrej a Católica e o m undo. Deve ter sido um

encontro tenso, caso realm ente tenha ocorrido. E considerando que a arca e os tais m andam entos realm ente existam , não é? Mas, depois de cam inhar por horas debaixo do inclem ente sol africano, resolvem os encarnar São Tom é e ir ver para crer.

Guias e seguranças arm ados nos inform aram logo no portão de entrada que era im possível ingressar na igrej a. Ou m esm o chegar perto dela, que era cercada por m uros, grades e guardas

arm ados. Som ente um m onge era autorizado a perm anecer lá dentro. E lá ele ficava durante as 24 horas do dia, fazendo a segurança do lendário obj eto sagrado. Era com o aquele espírito guardião da arca perdida nos film es de Indiana Jones. Falam os que tínham os vindo de longe só

para isso. Perguntam os se dava para “dar um j eitinho”, “quebrar o galho”. Se podíam os ver a Arca, tocar na Arca, film ar a Arca de longe... nada feito. Com o prêm io de consolação, conseguim os registrar im agens do tal m onge guardião, que provavelm ente foi atraído para o lado

de fora dos portões pelo barulho de nossos apelos. E só. Não seríam os eu, Leondre e UFO a revelar um dos m ais antigos segredos da hum anidade.

 

Para deixar a Etiópia, teríam os que m ais um a vez passar por Adis-Abeba. Dessa vez, em um voo rápido de Axum para a capital e de lá para casa. Parecia bem sim ples. A prim eira surpresa veio quando soubem os que nossas reservas no voo da Ethiopian Airlines haviam caído.

Não teríam os com o voltar na data m arcada. Axum tinha se revelado bem interessante e tranquila em nosso tour africano, porém ter que ficar por lá m ais um dia que fosse definitivam ente não estava nos planos. Determ inados, negociam os com todos os profissionais da com panhia aérea

que se encontravam na cidade (OK, não passavam de dois). Não havia saída, o único j eito de chegarm os a Adis na data de nossa conexão seria pegando os últim os quatro assentos disponíveis em um voo com tarifa bem m ais cara que partiria em apenas alguns m inutos. Não titubeam os. E

foi assim que, pela prim eira vez em m inha vida, viaj ei de prim eira classe.

Tudo bem que foi em um voo que durou no m áxim o quarenta m inutos. E em um a com panhia aérea que não figura entre as m elhores do m undo. Mas o serviço e toda a m ise-en-scène que acom panham esse tipo de regalia não eram ruins, não. Pelo contrário. A poltrona era espaçosa, as aerom oças m uito agradáveis e a refeição de bordo era... pitoresca. Em determ inado

m om ento nos foi servido um bolo de fubá em um guardanapo de pano. Para ser degustado com um suco de goiaba servido direto da j arra. Nada de talheres. Estava tudo bem gostoso, por sinal. Mas, para quem sem pre viu film es e sonhou com assentos deitando 180 graus, pratos gourm et

servidos em baixelas de prata e taças de cham panhe chegando m ais depressa do que m inha capacidade de bebê-las, aquilo não era bem o que eu esperava. Se não era exatam ente um a lição antropológica, um a m issão hum anitária ou um desafio aterrorizante, a viagem valeria pelo

m enos com o m ais um a história especial para contar aos netos. Entre tantas outras que fazem deste proj eto algo tão único e especial.

MUNIDOS DE NOSSOS TRADICIONAIS CAJADOS, VISITANDO UMA IGREJA PRÓXIMA À DA ARCA DA ALIANÇA, EM AXUM.

A últim a e m ais im portante parada nesse extenuante percurso em Axum era tentar

conhecer a igrej a m ais antiga do país, a de Nossa Senhora Maria de Zion. Além de ter um belo nom e para um a igrej a, nela estaria supostam ente enterrada a Arca da Aliança, a grande caixa que contém as tábuas sagradas onde foram inscritos os Dez Mandam entos pelo próprio Deus

Todo-Poderoso, posteriorm ente entregues ao profeta Moisés. Pouca coisa.

Obviam ente, j á im aginávam os que seria difícil ter qualquer tipo de acesso aos m andam entos ou à Arca. Só não sabíam os quão difícil seria. Fala-se que houve um encontro

alguns anos atrás entre o representante m áxim o da igrej a cristã etíope e o papa. O obj etivo da sacrossanta reunião consistia em decidir se era chegada a hora de revelar o conteúdo da Arca e as consequências que tal decisão traria para a Igrej a Católica e o m undo. Deve ter sido um

encontro tenso, caso realm ente tenha ocorrido. E considerando que a arca e os tais m andam entos realm ente existam , não é? Mas, depois de cam inhar por horas debaixo do inclem ente sol

africano, resolvem os encarnar São Tom é e ir ver para crer.

Guias e seguranças arm ados nos inform aram logo no portão de entrada que era im possível ingressar na igrej a. Ou m esm o chegar perto dela, que era cercada por m uros, grades e guardas

arm ados. Som ente um m onge era autorizado a perm anecer lá dentro. E lá ele ficava durante as 24 horas do dia, fazendo a segurança do lendário obj eto sagrado. Era com o aquele espírito guardião da arca perdida nos film es de Indiana Jones. Falam os que tínham os vindo de longe só

para isso. Perguntam os se dava para “dar um j eitinho”, “quebrar o galho”. Se podíam os ver a Arca, tocar na Arca, film ar a Arca de longe... nada feito. Com o prêm io de consolação,

conseguim os registrar im agens do tal m onge guardião, que provavelm ente foi atraído para o lado de fora dos portões pelo barulho de nossos apelos. E só. Não seríam os eu, Leondre e UFO a revelar um dos m ais antigos segredos da hum anidade.

 

Para deixar a Etiópia, teríam os que m ais um a vez passar por Adis-Abeba. Dessa vez, em um voo rápido de Axum para a capital e de lá para casa. Parecia bem sim ples. A prim eira surpresa veio quando soubem os que nossas reservas no voo da Ethiopian Airlines haviam caído. Não teríam os com o voltar na data m arcada. Axum tinha se revelado bem interessante e tranquila

em nosso tour africano, porém ter que ficar por lá m ais um dia que fosse definitivam ente não estava nos planos. Determ inados, negociam os com todos os profissionais da com panhia aérea que se encontravam na cidade (OK, não passavam de dois). Não havia saída, o único j eito de

chegarm os a Adis na data de nossa conexão seria pegando os últim os quatro assentos disponíveis em um voo com tarifa bem m ais cara que partiria em apenas alguns m inutos. Não titubeam os. E foi assim que, pela prim eira vez em m inha vida, viaj ei de prim eira classe.

Tudo bem que foi em um voo que durou no m áxim o quarenta m inutos. E em um a com panhia aérea que não figura entre as m elhores do m undo. Mas o serviço e toda a m ise-en-

scène que acom panham esse tipo de regalia não eram ruins, não. Pelo contrário. A poltrona era espaçosa, as aerom oças m uito agradáveis e a refeição de bordo era... pitoresca. Em determ inado m om ento nos foi servido um bolo de fubá em um guardanapo de pano. Para ser degustado com

um suco de goiaba servido direto da j arra. Nada de talheres. Estava tudo bem gostoso, por sinal. Mas, para quem sem pre viu film es e sonhou com assentos deitando 180 graus, pratos gourm et servidos em baixelas de prata e taças de cham panhe chegando m ais depressa do que m inha

capacidade de bebê-las, aquilo não era bem o que eu esperava. Se não era exatam ente um a lição antropológica, um a m issão hum anitária ou um desafio aterrorizante, a viagem valeria pelo m enos com o m ais um a história especial para contar aos netos. Entre tantas outras que fazem

deste proj eto algo tão único e especial.

LEONDRE, SEM SABER AINDA O QUE ESPERAR DE NOSSO VOO NA 1ª CLASSE DA ETHIOPIAN AIRLINES.