Não Conta Lá em Casa
Iraque
Estar no Iraque é com o participar daquelas partidas de porradobol na escola. Quando você é m oleque (e realm ente só se aplica às crianças do sexo m asculino), um a das m ais adrenalizantes aventuras em sua vida é invadir o j ogo de porradobol dos caras m ais velhos. Sim ,
porradobol. Aquela derivação do popular esporte bretão que possui um a única regra: aniquilar o adversário com um a bolada certeira e m ais violenta possível. Você fica lá correndo de um lado para outro com o um a galinha sem cabeça, rindo nervoso pela endorfina liberada ante a
im inência da catástrofe. Megatons explodem ao seu redor, forçando-o a m udar de direção em um a corrida frenética a lugar nenhum . O seu cérebro se encontra totalm ente vazio, com o em um m antra de sobrevivência. Seu único filete de consciência lhe ordena a correr, desviar, fugir.
Bum ! Outra bom ba explode, desta vez no peito de um coleguinha que j az chorando no chão. A brincadeira para ele acabou. Nessa hora, sua determ inação triplica. É um a questão de honra
perm anecer naquele ringue, entender a lógica por trás daquele j ogo irracional e perm anecer “vivo” até o incerto fim da partida. Em um m isto de ignorância infantil e estúpida dem onstração de coragem , você se diverte adiando o quanto pode o m assacre do qual provavelm ente se tornará
vítim a. Inconscientem ente, esses pequenos seres inocentes estão vivenciando algo que lhes m oldará o caráter para sem pre. Um ciclo natural que põe em cheque a evolução da espécie e celebra a hereditariedade da estupidez hum ana. Muito anterior ao bully ing. Um crucial rito de
passagem infantoj uvenil, pois logo com eçará a fase de se interessar por garotas. E, aí, grande parte da tranquilidade, diversão e inocência de sua vida estará perdida para sem pre.
Era m ais ou m enos isso que a gente sentia durante nossos poucos e intensos dias na capital e
centro nervoso (bota nervoso nisso) do Iraque. Bagdá, naquele m om ento, representava o epicentro de tudo que havia de m ais caótico, perigoso, instável, errado e lam entável no m undo.
Obviam ente, não se pode deixar de lado o fato de que esse local é considerado o berço da civilização tal qual a conhecem os e cenário de algum as das m ais im portantes passagens da Bíblia. Reza a lenda que foi na Mesopotâm ia, onde hoj e está o Iraque, que a Torre de Babel foi
erguida. Aquela história do hom em querendo criar um a estrutura alta o bastante para se sentir m ais próxim o de Deus, a consequente indignação do Todo-Poderoso com a audácia e o castigo que ele enviou logo em seguida, fazendo com que todos passassem a falar idiom as diferentes e
nunca m ais se entendessem . Irônico, não é? Mas há m ais, a tradição islâm ica acredita que a Arca de Noé tam bém foi construída por ali. A lenda da Arca diz que Deus, decepcionado com a perversidade e a violência hum anas, decidiu inundar o planeta. Pouparia apenas Noé, único
hom em considerado correto por Ele, e m ais um m acho e um a fêm ea para perpetuar cada espécie anim al. Por falar em ironia bíblica, o próprio Jardim do Éden, paraíso e berço da
hum anidade, e tam bém da rebelião, do egoísm o e do pecado, estaria localizado na região dos rios Tigre e Eufrates, próxim o tam bém do Iraque.
Fato é que nossa experiência em Bagdá pode se resum ir a um m isto de m edo, encanto e
constante excitação. Poderíam os com pará-la com um a partida de porradobol com os deuses. E em solo sagrado! Quatro desavisados brasileiros colocando o destino à sorte e andando assustados em m eio a explosões fatais por todos os lados. Estivem os im ersos por alguns dias em um cenário de guerra. Sem nenhum exagero. Turism o por lá ainda era um conceito totalm ente descabido dentro da realidade que encontram os. Fom os vistos com extrem a desconfiança, até incredulidade. Ainda no salão de em barque, percebíam os que nossos com panheiros de voo eram
com postos em sua totalidade pelo que poderíam os classificar com o dublês do Ram bo. Ex-m ariners ou fuzileiros totalm ente focados em sua m issão. Durante o voo, os trogloditas de cabelo raspado, m ochilas m ilitares e olhar sisudo espalhados pelas poltronas da classe econôm ica
contrastavam com quatro j ovens desavisados no estilo m ezzo neo-hippie-despoj ado m ezzo nerd-aventureiro-ouvindo-iPod, autênticos peixes fora d’água. Entre um a nervosa ida ao banheiro e outra, Pesca finalm ente conseguiu estabelecer contato com um de nossos “colegas”. Ao indagar
qual seria a m elhor form a de sair do aeroporto em Bagdá, recebeu de volta a pergunta: “O seu ‘com boio’ está de helicóptero ou veículo blindado?”
EM FRENTE AO NOSSO HOTEL EM BAGDÁ, A PLACA FURADA DE
BALAS APONTA O CAMINHO QUE QUERÍAMOS SEGUIR A TODO
MOMENTO (SAÍDA!).
NOSSA PRIMEIRA VISÃO DO PALÁCIO, ANTES MESMO DE SABER QUE VIVERÍAMOS ALGUNS INTENSOS MOMENTOS
ALI DENTRO.
Até aquele m om ento, nossa intenção era fazer sinal para o táxi m ais próxim o.
O voo transcorreu sem m aiores problem as. A própria existência de um voo direto da Europa (Turquia) para Bagdá era um dos sinais que enganosam ente nos tranquilizava a respeito
da nossa próxim a m issão. Na verdade, era o único sinal além da propaganda am ericana. Não tínham os ainda entrado oficialm ente em território iraquiano quando na im igração tivem os outro choque de realidade. Havia duas filas: um a para quem possuísse visto de entrada m ilitar e outro
para turistas com uns. Adivinhem quantos indivíduos form avam a fila de turistas? Acertou quem disse quatro.
Tudo levava a crer que a experiência dessa vez seria para lá de intensa. “Mas ainda não vim os o clim a lá fora”, dizíam os uns aos outros em um a tentativa ineficaz de controlar o nervosism o. Se o clim a estiver tenso com o parecia, nem sairíam os da Zona de Segurança. Esse
era o único pensam ento, em um raro m om ento estávam os todos de acordo. Até então, nossa ideia era nos hospedar dentro da Zona Internacional de Segurança, território estabelecido pelas forças de coalizão. Altam ente m ilitarizado e, por isso, um dos poucos lugares realm ente seguros
no país. Tínham os feito um a extensa pesquisa, e diversos sites e revistas especializadas traziam reportagens de grupos (geralm ente de turistas norte-am ericanos) circulando pela área guiados por soldados, tirando fotos e agindo com o em um a viagem relativam ente norm al. Foi só ao
desem barcar em solo iraquiano que ficam os sabendo que a entrada na Zona de Segurança era exclusiva a altos funcionários do governo am ericano, m ilitares das forças de coalizão e
profissionais autorizados. Nosso taxista (sim , com m uito custo conseguim os um táxi na saída do aeroporto) foi quem nos alertou em um inglês lim itado, porém m uito convincente: “Sem Zona de Segurança, voltem para casa!”. Ou sej a: aqueles grupos de turistas, que tanto nos fizeram crer
que um outro Iraque era possível e j á estava em vias de acontecer, seriam para inglês ver. Mera propaganda para corroborar o discurso oficial de que “o Iraque voltava a ser um país de verdade!”, “as forças de coalizão estavam passando o com ando do país aos próprios iraquianos!”
e “o Iraque podia agora voltar ao norm al!”. Esses “turistas” eram de faz de conta e com certeza contaram com toda a logística, apoio e segurança do exército de seu país. Por nossa vez,
estávam os largados no Iraque sem pai, nem m ãe.
Mas a gente tinha um Plano B, que estava m ais para Plano Z, dada a sua distância de realidade para o Plano A. O B consistia em buscarm os guarida onde outros aventureiros a
trabalho naquele lugar esquecido por Deus haviam se hospedado enquanto faziam a cobertura j ornalística das Guerras do Golfo. Descobrim os que o hotel Sheraton Ishtar era o favorito de dez entre dez correspondentes de guerra internacionais. O problem a é que, na m esm a hora em que
descobrim os isso, ficam os sabendo tam bém que o prédio é a m ais alta construção em Bagdá e, por cham ar tam anha atenção com sua im ponência, acaba sendo o alvo favorito para a prática de tiro ao alvo de foguetes, m orteiros e outras variações de artilharia pesada dos insurgentes.
Excelente. Entre diversos incidentes e atentados, um dos m ais m arcantes ocorreu em outubro de 2005 e levou o hotel a ficar fechado para reform as por m ais de um ano.
Ah, m as pelo m enos é um Sheraton, certo? Errado! Apesar do nom e, o hotel não tem qualquer vínculo com a grande rede hoteleira há m ais de vinte anos. Com a prim eira Guerra do Golfo, a m aior cadeia de hotéis do m undo decidiu cortar os laços com erciais com o governo
iraquiano, porém Saddam gostava do nom e e decidiu continuar a usá-lo m esm o sem perm issão. Apesar de reaberto há pouco m ais de um ano, o visual digno de ruínas das instalações m ostrava que com certeza não encontraríam os vidrinhos de xam pu no banheiro ou chocolatinhos no
travesseiro. Só um dos elevadores funcionava e, m esm o assim , quebrava a toda hora. Preferíam os usar as escadas de em ergência e descer dez andares desviando de reboco e pedaços de paredes desabadas. Os extensos corredores e salões eram todos cobertos de poeira, havia
buracos nas paredes, pedaços do teto parcialm ente com prom etidos e detritos por toda parte. Era com o se um a bom ba tivesse acabado de explodir por ali. E talvez tivesse. Os atentados nos
arredores (sem pre ocorridos fora da Zona de Segurança, claro) eram rotineiros. Mesm o a enorm e quantidade de postos de controle, blitze, soldados de todos os ranques e procedência espalhados pelo local eram capazes de evitá-los. As constantes paradas para revista que
aconteciam por toda parte de Bagdá, longe de nos fazer sentir seguros, aum entavam a adrenalina e o m edo de algo pior. É que esses pontos criados para conferir docum entação, abrir m ochila, revistar o carro etc. eram os alvos favoritos de atentados de diferentes grupos religiosos, m ilícias
e/ou facções param ilitares.
LÁ NO ALTO, O PALÁCIO DE SADDAM HUSSEIN.
DETALHES NA DECORAÇÃO DA ENTRADA DO PALÁCIO ENALTECENDO SEU FALECIDO INQUILINO.
Visto esse cenário, decidim os que havia sido um erro de planej am ento ir conferir a realidade do Iraque naquele m om ento. Nos deixam os levar por um a divulgação unilateral da m ídia e acabam os caindo de paraquedas em um país que ainda vive um dos piores capítulos de
sua j á com plicada história. Mas tínham os que continuar nossa peregrinação em busca de com ida e de im pressões, pessoas, situações, algo que fosse nos dar ao m enos indícios do real estado das coisas ali. Tudo o que encontrávam os eram ruas vazias, poucos carros apressados e m uitos
veículos, equipam entos e grupam entos m ilitares. Além , é claro, dos interm ináveis postos de controle. Para nossa sorte, um dos locais m ais representativos da cidade ficava a alguns m etros do nosso hotel e dava para ir a pé. A praça Firdous, de diversas m aneiras, era um lugar m uito
representativo do Iraque de ontem e de hoj e. Firdous em português significa “paraíso”. Mas o que sobrou daquela pequena pracinha estava longe disso. Era ali que ficava a estátua gigante de
Saddam Hussein (m ais precisam ente de 12 m etros), que foi derrubada em 2003 pelas forças am ericanas diante de um a m eia dúzia de iraquianos com transm issão ao vivo para m ilhões de lares em todo o m undo. Muitos dizem que foi um dos atos m ais encenados da história das guerras
desde a foto do hasteam ento da bandeira norte-am ericana em Iwo Jim a.4 Restaram apenas os destroços da base da estátua, ainda com a estrutura de ferro toda torta e enferruj ada aparecendo por dentro do reboco de cim ento. Lixo e poeira com pletam o visual. Nenhum a alm a viva para
aproveitar o dia ali.
Infelizm ente, o Iraque naquele m om ento parecia algo ainda com pletam ente inviável com o país. Fazendo um a análise política bem grosseira e sim plista: os EUA não estavam m ais se
im portando e tinham declarado: “Estam os de saída, se virem !” Isso depois de terem arrasado um dos m aiores centros da hum anidade. E nós ali, perdidos no m eio disso tudo. Quatro viaj antes desavisados, crentes de que iriam conhecer sítios históricos de um a cultura m ilenar. O que dizer
da culinária local? Nada. Estávam os em pleno m ês do Ram adã, o nono m ês do calendário islâm ico, quando os m uçulm anos praticam o seu j ej um ritual e se alim entam apenas após o
anoitecer. “Ah, m as pelo m enos vocês podiam se alim entar à noite!” Errado! Quando ficava escuro todos os lugares fechavam as portas. Por quê? Bem , porque o país ainda estava praticam ente em guerra! Ou sej a: tenso ao quadrado. O único alim ento local que consum im os
nesses dias de tensão na Mesopotâm ia foi cervej a. Pois é, bebem os álcool, em plena luz do dia e durante o Ram adã! Bem no Oriente Médio e logo no Iraque, onde o com ércio e consum o da bebida só foram liberados após a ocupação am ericana, em 2005. Mas nossa contravenção etílica foi m otivada exclusivam ente por respeito aos locais, sério.
Explicando: nosso único contato no Iraque não ia poder nos dar m uita atenção. Percebem os isso logo de cara, quando ele inform ou que não poderia estar no aeroporto para nos buscar
conform e o com binado. A princípio, não nos preocupam os m uito com o desfalque. Até porque o cara estava longe de ser um especialista em segurança ou herói de guerra altam ente condecorado. Nosso “am igo” era apenas um artista local, m eio acim a do peso e avançado em
idade, que nos foi indicado pelos funcionários do albergue em que nos hospedam os no Irã. Ainda em Teerã, quando confidenciam os no lobby os nossos planos de seguir para o Iraque em alguns dias, um a im ensa com oção se form ou até que conseguiram que o parente de alguém se
prontificasse a nos receber em Bagdá. O que acabou não ocorrendo na prática para nossa aflição. Mas o cidadão se sentiu tão m al e preocupado por nos deixar totalm ente à deriva em sua
conturbada cidade que enviou o seu destem ido sobrinho, encarregado de nosso transporte e segurança.
O j ovem Youssef era um a versão m ais j ovem e ainda m ais robusta de seu tio. Se a veia
artística corria m esm o na fam ília, o gordinho não seguia as artes plásticas com o seu tio pintor, m as era um verdadeiro profissional da stand-up com edy . Mesm o sem entender um a palavra do que ele dizia, a gente não parava de rir um m inuto com seu gestual exagerado, as expressões
dram áticas e os dois beij inhos com que fazia questão de cum prim entar UFO a cada vez que nos encontrava. Era essa adiposa figurinha que garantia o nosso suprim ento diário de cervej a. Acho que ele considerava aquilo m eio que necessário para conseguirm os encarar com o m ínim o de
tranquilidade o cotidiano errático de seu país, m as ele j urava que era por “não adm itir que quatro visitantes de fora passassem necessidade por conta de algo arbitrário e alheio a nossa cultura”. E
tom e de latas e latas de cervej a im portada vagabunda a qualquer hora do dia. Mesm o quando a gente deixava claro enfaticam ente que não havia a m ínim a necessidade, ele fazia o pit-stop obrigatório e se em brenhava pelos becos m ais escuros e esquisitos para satisfazer a nossa (e acho
que principalm ente a sua) sede de álcool. E lá vinha ele com um saco de plástico preto estufado de latinhas e um sorriso m aroto no rosto. Toda vez que nos aventurávam os a sair por Bagdá, o contato com exército, soldados, arm as e m ilícias era parte da estressante rotina. Por isso, ele
pedia apenas que bebêssem os abaixado no carro. A que obedecíam os, claro. Consum indo o produto com sofreguidão e desespero, escondidos no banco de trás de um carro suj o enquanto cruzávam os vizinhanças nada am istosas. Um toxicôm ano não pareceria tão deprim ente
com parado a nós naquele m om ento. Éram os verdadeiros crim inosos agindo contra a lei dos hom ens e, pior ainda, contra as leis de Deus! Em solo sagrado! Até um a sim ples cervej inha era
um perrengue em Bagdá.
“A VARANDA” DE SADDAM.
VERSÃO IRAQUIANA DO SALÃO OVAL. DEVIDAMENTE
SAQUEADO.
Nesses m om entos m ais difíceis da vida é que geralm ente acontecem os episódios m ais
surpreendentes. Grandes riscos, geralm ente, trazem grandes recom pensas. Foi assim que, após um em aranhado de acontecim entos fortuitos, planej am entos furados, cara de pau e sorte deslavada, conseguim os nada m ais, nada m enos, do que entrar em um dos legítim os e
m aj estosos palácios de Saddam Hussein! Justam ente aquele que fica em um m orro artificial e dá vista para toda a Babilônia. Especialistas dizem que este era o principal e m ais opulento entre
todos os palácios do fam oso ditador, que possuía um a série de m oradias nababescas (e estratégicas) espalhadas por todo o território iraquiano. Hoj e, um a tabela de basquete no m eio do salão principal — abandonada por lá pelos soldados am ericanos que fizeram a farra saqueando
tudo — é o sím bolo perfeito do que foi a invasão am ericana nesse país. Um a das m aiores dem onstrações de falta de civilidade da história, levada a cabo em pleno berço da civilização. Sem entrar no m érito das ações do próprio Saddam , e para ficar restrito apenas à região da
Babilônia, onde estávam os: sítios arqueológicos e patrim ônios históricos da hum anidade foram postos abaixo para dar espaço à construção de heliportos das forças aliadas.
Inicialm ente, iríam os apenas visitar este m ilenar centro histórico da Babilônia. Além de
abrigar os lendários Jardins Suspensos da Babilônia, conhecidos com o a m ais im pressionante e m isteriosa das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, o lugar j á foi capital da antiga Sum éria (um dos
m ais avançados im périos de que se tem notícia) e onde foi redigido o Código de Ham urábi, o m ais antigo conj unto de leis existente (o m onólito onde estas leis foram escritas pode ser hoj e encontrado no Museu do Louvre, em Paris). Obviam ente, encontram os os fam osos portões que
dão nom e ao lugar (Babilônia = Portões de Deus) fechados. Quem em sã consciência iria fazer turism o dentro daquele cenário digno de Ram bo? Não dava nem para ficar surpreso ou decepcionado. Além de o Iraque estar praticam ente em guerra, e estarm os em pleno período do
Ram adã, o dia específico que escolhem os para o nosso passeio era tam bém dia do funeral de um im portante líder político. Quem seria louco de ir passear por Bagdá nessas condições? Pois é.
Não havia um carro sequer no im enso estacionam ento do local, nenhum oficial nos postos
de controle m ais próxim os, e os postos de inform ação estavam , literalm ente, abandonados. Nenhum a alm a viva em um raio de sei lá quantos quilôm etros. O cenário era de cidade
abandonada, igualzinho a essas dos film es de zum bi. Nosso “m otorista” e seu “am igo” (am bos entre aspas porque pareciam m ais soldados m ercenários do que qualquer outra coisa) que nos levaram até ali devem ter se com ovido com nossa decepção, pois decidiram que não
deixaríam os o local sem visitar algo histórico. “Querem ir ali?”, nos perguntaram apontando para um palácio que j á havíam os reparado há m uito tem po, pois se destacava por ser im ponente em m eio àquela paisagem desolada e abandonada no m eio do deserto. De início, acham os que eles estavam brincando, ou que chegaríam os no m áxim o até o portão de entrada do palácio, que se encontrava obviam ente interditado e cercado de bloqueios e aram e farpado. Porém , só por
garantia, respondem os “Claro!” em anim ado uníssono, com o três5 criancinhas prestes a adentrar o parque de diversões.
RABISCOS EM DIVERSOS IDIOMAS COBREM AS PAREDES DE TODOS OS
CÔMODOS DA ANTIGA MORADIA DO DITADOR MAIS FAMOSO DO
IRAQUE.
ESTA PROVAVELMENTE ERA A VISTA DE SADDAM HUSSEIN
AO ACORDAR DE MANHÃ E SEGUIR PARA O BANHEIRO PARA
ESCOVAR OS DENTES.
Algum as ligações foram feitas, conseguim os entreouvir um as discussões em árabe, até que surgiu do nada um senhor com pinta de m andachuva da área (apesar da ausência de uniform e oficial). Cabelos brancos, barba por fazer e barriga proem inente querendo ej etar os botões da
blusa grudada em seu corpo pelo suor, o tal senhor entra em nosso carro após cum prim entar rapidam ente e com certo m au hum or os nossos queridos guias. Eles, que não falavam um a palavra em inglês, viraram -se para nós e sinalizaram , sérios, para entrarm os logo na viatura.
Seguim os no carro em silêncio até a entrada do palácio, onde havia um a grande barreira feita com aquele típico aram e farpado m ilitar. Do tipo que só se encontra em países em guerra ou em film es de ação, diferente do que estam os acostum ados a ver cercando o galinheiro no sítio de um
tio qualquer. O senhor que nos acom panhava então salta calm am ente, envia um sinal de seu walkie-talkie e pede que suspendam a barreira para passarm os. Nesse m om ento, nos
entreolham os incrédulos. Com um aceno de cabeça confirm am os que estávam os pensando a m esm a coisa: em alguns m inutos, estarem os vivendo um a das m ais incríveis experiências de nossas vidas.
EU E A TABELA DE BASQUETE INSTALADA PELO EXÉRCITO
AMERICANO NO SALÃO PRINCIPAL DO PALÁCIO.
Com o j á havíam os reparado, im ensos tags feitos em spray preto pelo exército dos EUA m arcavam a entrada de cada construção nas im ediações. Elas indicavam “BLDG #2”, “BLDG #3” e assim por diante. Referindo-se a “building num ber one, two, three...”, ou “prédios núm ero
1, 2, 3...” Com o sabíam os, as tropas aliadas usaram a região da Babilônia com o base de operações e os prédios nos arredores acabaram sendo ocupados e tornando-se postos m ilitares. O palácio de Saddam recebeu o tag “BLDG #1”. Entre gestos e palavras ininteligíveis do oficial que
nos levou até aquele lugar e de nossos guias, percebem os que nossa presença ali era severam ente irregular e nosso tem po extrem am ente lim itado. Passam os pela im ensa porta principal decorada com im agens de gárgulas, deuses e do próprio Saddam e seguim os apressados pelos salões e
quartos do lugar.
Nossas m áquinas fotográficas não paravam , era um clique por segundo, quase. Leondre
apertou o REC registrando tudo sem cortes, pois sabia que não havia ali dentro um m om ento que não fosse ficar na história do program a. Nossos guias nos cham avam pelo nom e e diziam um a das poucas palavras em inglês que conheciam , m as que eram das m ais im portantes naquele
m om ento: “Hurry !” [Depressa!]. O lugar, que tinha as dim ensões (e valor histórico) de um pequeno m useu, estava totalm ente suj o e desarrum ado. Parecia ter sido abandonado às pressas. O que aum entava ainda m ais a im pressão de estarm os entrando ali no rastro bem recente das
tropas am ericanas. Tudo havia sido saqueado, m as a im ponência dos im ensos salões, das escadarias interm ináveis e até do lustre gigantesco em um a das salas dava a ideia perfeita da m egalom ania de seu inquilino original. Íam os correndo de um a sala para outra, registrando
nossas im pressões, enquanto os guias nos apressavam com m ais veem ência, aflitos por estarm os ali indevidam ente. Os banheiros, im ensos, eram ornados em ouro. O quarto principal tem um a
j anela de m ais de 10 m etros de altura. Elevadores, hoj e destruídos, interligavam os três andares da casa. Ao chegar ao terraço, um a vista deslum brante e privilegiadíssim a para toda a região da Babilônia.
Outro aspecto desse passeio nos m arcou de form a especial. A intervenção visual im posta pelos últim os ocupantes desse polêm ico e inegavelm ente histórico lugar. As pichações das tropas am ericanas não deixaram em branco um m etro quadrado das paredes da histórica edificação e,
som adas aos escom bros ainda espalhados pelo chão e a indefectível tabela de basquete instalada na gigantesca sala de j antar de Saddam , nos davam a im pressão de estarm os de certa m aneira presenciando em prim eiríssim a m ão um dos m ais recentes e trágicos capítulos da história
iraquiana. Ofensas em inglês a Saddam Hussein im provisadam ente rabiscadas com carvão nas paredes eram sím bolos carregados de significado.
Durante os cerca de 80 quilôm etros de volta ao hotel, os m inutos iniciais de com em oração por nosso grandioso feito foram naturalm ente dando lugar a um silêncio reflexivo. Nossas expressões sérias e o silêncio no interior do veículo não eram m ais fruto do m edo e da ansiedade.
Tentávam os apenas, cada um a seu m odo, organizar os pensam entos. Um esforço para contextualizar essa últim a e inacreditável aventura e, principalm ente, dar sentido àquilo tudo. A dualidade daquela situação era m uito forte e representativa da realidade atual do Iraque que visitam os. A capacidade do hom em de criar tam anha beleza (representada pela Babilônia e o próprio palácio) e ao m esm o tem po tanta destruição (quantas guerras e violência teriam testem unhado essas duas m agníficas construções?) parecia ter desenhado ali um cenário triste e
difícil de ser revertido. O que m ais haveria por trás desse quadro de instabilidade e violência? Nossa passagem tinha sido um erro, sem dúvida. Mas que lição havia para ser aprendida? O quanto de verdade existia por trás de tantas m entiras? A quem interessava a m assiva propaganda
enganosa de que fom os vítim as? Com o acontece em toda guerra, nossas indagações acabavam se resum indo em um desolado “por quê?”. Fizem os as m alas, seguim os para o aeroporto e no voo de volta para casa os m esm os conflitos m artelavam nossas cabeças. A dualidade da guerra
escancarada e evidenciada em sua face m ais obscena. Bem ali, em um dos m ais sagrados e históricos centros da hum anidade. Melancolia e excitação; esperança e lam ento; alegria e tristeza
se confrontavam e equilibravam nossas análises. É difícil tentar dar sentido ao incom preensível. Esse im enso ponto de interrogação nos acom panharia para sem pre ao nos lem brar de nossos poucos dias im ersos nesse conflito tão presente na vida do povo iraquiano. E, infelizm ente, esse
redem oinho de tensão, tristeza e incredulidade form ado pela violência da guerra parecia estar ainda longe de um fim .
DA SACADA DO PALÁCIO DE SADDAM, A
AMPLA VISTA PARA A CIDADE HISTÓRICA DA
BABILÔNIA.
OS PORTÕES DA BABILÔNIA (FECHADOS, CLARO).
Notas
4 Rum ores indicam que a lendária foto de Joe Rosenthal, que m ostra um grupo de fuzileiros
hasteando a bandeira dos Estados Unidos após a vitória na batalha de Iwo Jim a, teria sido
arm ada. Dizem que o hasteam ento oficial ocorreu horas antes, ainda debaixo de artilharia
pesada, e Rosenthal registrou apenas um a encenação.
5 Digo três porque Pesca tinha decidido se ausentar deste passeio. Ele argum entara, com toda a
lógica, que não via sentido em irm os fazer um passeio turístico se acabáram os de constatar
claram ente que o país ainda não estava preparado para tal. Havíam os inclusive discutido isso na
noite anterior e chegado à conclusão de que era esta a exata, e triste, m ensagem da nossa m issão.
A curiosidade e o senso de aventura falaram m ais alto para UFO, Leo e eu. Mas quem tinha
razão era Pesca, que preferiu ficar de fora dessa, na segurança do nosso hotel. Ironicam ente,
apenas um m ês após deixarm os Bagdá, soubem os pela im prensa que um novo atentado ao
Sheraton Ishtar havia feito m ais de sessenta vítim as entre hóspedes e funcionários que
conhecem os em nossa estada. A verdade é que ninguém estava seguro no Iraque naquele
m om ento.
LEONDRE DÁ SEU JEITO PARA FILMAR NO MEIO DOS PROTESTOS DURANTE A COP15, EM COPENHAGUE.