Não Conta Lá em Casa

André Fran · Capítulo 10 de 16

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Não Conta Lá em Casa

Somália

A Som ália é provavelm ente o destino m ais perigoso do m undo e, exatam ente por este m otivo, a parada que m ais nos deixava apreensivos em nossa prim eira incursão africana com o Não conta lá em casa. Ainda no Brasil, a gente j á pesquisava há algum tem po a situação do lugar

e tentava estabelecer contatos que nos perm itissem descobrir a viabilidade real de chegarm os lá (de preferência com vida!). Era com um durante todas essas viagens alguém com entar: “Isso aqui está m uito Falcão negro em perigo!” A expressão era usada em situações m ais tensas ou

locais que parecessem especialm ente inóspitos. Um m isto de piada interna de hum or negro e código de alerta para a equipe (nós quatro). A expressão é um a alusão ao film e que narra a

história real de um helicóptero do exército am ericano que é abatido em Mogadíscio, capital da Som ália. Ou sej a: assim com o Bagdá na prim eira tem porada, a Som ália era um daqueles lugares que, por m edo, ansiedade e curiosidade estava o tem po todo em nossa cabeça durante a

produção da segunda tem porada do program a. Porém , quando chegam os à África, nossa ida à desafiadora Som ália tornou-se quase um a obsessão. Sabíam os que o país estava em guerra civil há m ais de 20 anos, que m ilícias se digladiavam nas ruas e que este era provavelm ente o único

país que visitaríam os onde o sequestro de estrangeiros era m ais popular que o Ronaldinho Gaúcho. Ficam os sabendo tam bém que hom em branco naquelas bandas era praticam ente considerado com o m ulher. E, m uitas vezes, acabava estuprado sem cerim ônia. Que beleza! É

claro que podia haver certo exagero e distorção nas inform ações que nos eram passadas. Mas era óbvio que, independentem ente de quais fossem esses m otivos, eles eram baseados em algo

real. E era j ustam ente esse “algo real” que nos deixava bastante apreensivos. Para usar um term o bem leve.

ENCALHADOS NO DESERTO.

RELAXANDO COM A PRESENÇA DA ONU.

DANDO UM MERGULHO COM SEGURANÇA PARTICULAR: CENAS COTIDIANAS DE SOMALILÂNDIA.

Graças a essa fixação quase sadom asoquista, ainda na Etiópia com eçam os as m ovim entações para conseguir entrar em território som ali. O lugar, que estava há algum tem po abandonado nas m ãos de um a espécie de anarquia selvagem , se encontra hoj e dividido em cinco

regiões autônom as, sendo as três principais: a Som ália, propriam ente dita, cuj os em baixadores do próprio país desaconselham visitar, porque é im possível até m esm o sair do aeroporto em segurança; Puntlândia, região costeira que fica bem na ponta do Chifre da África e onde piratas

são m ais com uns do que surfistas; e Som alilândia, um a região autônom a que busca a sobrevivência, a ordem e o reconhecim ento da com unidade internacional por seu feito im provável e adm irável de ter conquistado a paz em m eio a esse cenário caótico.

Apesar do desej o de Pesca de surfar na costa coalhada de piratas de Puntlândia (parece que há m esm o boas ondas por lá), percebem os que nossa única chance de entrar na Som ália

seria por Som alilândia. E focam os isso. Até porque, m uito m ais interessante que conferir os perigos de um a região inviável e aparentem ente sem solução seria apresentar sua vizinha ansiosa por m ostrar ao m undo que, com em penho, perseverança e patriotism o, é possível superar os

m aiores desafios. Antes m esm o de seguir para lá, nosso planej am ento j á apontava para um a viagem inesquecível. Conseguim os o im pensável: encontram os um a espécie de em baixada da Som alilândia em Adis-Abeba. Falam os com im portantes autoridades e até entrevistam os o

m inistro das Relações Exteriores da região. E o negócio só prom etia m elhorar à m edida que avançávam os em nossos preparativos. Prom essas de entrevistas com piratas, garantia de soldados fazendo a nossa segurança, excursão pelo escritório local da ONU, visita a cavernas

com hieróglifos de dez m il anos… A gente estava cada vez m ais em polgado.

Foi quando, em pleno Dj ibuti, prestes a encarar a viagem de doze horas pelo deserto que

nos levaria a um dos m ais aguardados destinos da história do Não conta lá em casa, fui acom etido pela m aior infecção alim entar da m inha vida. Seguindo conselhos gerais, só bebi água engarrafada e, apesar do calor, não aceitei gelo em m eu refrigerante durante todo o tem po no

Dj ibuti. Mesm o assim , fui acom etido por um a violenta disenteria que m e deixou m ais extenuado que um corredor etíope ao fim da m aratona. Pouparei os leitores de estôm ago fraco dos detalhes, m as basta dizer que tive de pegar o prim eiro voo de volta para o Brasil. Até hoj e agradeço aos

céus pela tripulação não ter desconfiado do passageiro de olhar aflito e suando frio que se trancou no banheiro por m ais de duas horas. Pior do que o m al-estar estom acal teria sido ser confundido com um terrorista, obrigando a aeronave a retornar ao seu ponto de partida por razões de

segurança. Só consegui ver a Som ália, ou Som alilândia, na televisão. Um m isto de orgulho e invej a invadiu m eu ser ao contem plar, do conforto do m eu lar, m eus três inseparáveis

com panheiros de viagem cum prindo à risca a tresloucada m issão de contar a história desse país que não era país.

VIAJANDO PELO DESERTO: TRÂNSITO

DE CAMELOS.

PESCA FURANDO MEU OLHO (LITERALMENTE) DURANTE TREINAMENTO NA ITÁLIA.