Notas d'arte
IX a Mulher Artista
Que a memoria saudosa d'este morto querido, que foi um dos mais deslumbrantes aguarellistas portuguezes, me releve o vir eu hoje, o mais insignificante dos seus admiradores, tiral-a da modesta indifferença publica para a expôr á veneração e respeito de todos aquelles que vêem nos artistas alguma cousa de elevado e de verdadeiramente sublime.
1904.
Uma sevilhana―Aguarella de M. San Romão
Uma sevilhana—Aguarella de
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IX
A MULHER ARTISTA
S. M. a Rainha
S. M. R
Ha dias, n'uma roda onde estavam senhoras, n'uma conversa larga e em que se debateram varios assumptos, um houve, que especialmente me prendeu a attenção. Discutia-se Arte em geral, e um dos homens, cavaqueador enragé emerito e apologista da não emancipação da mulher, desfechou abruptamente esta phrase: «Não posso admittir que a mulher seja uma esculptora ou uma pintora».
Escusado será dizer-vos que esta phrase fez no grupo o effeito de um duche frio e forte. Após, porem o choque, houve, como era de esperar, a reacção, e, como poderam, os paladinos da sala, debateram e rebateram a estranha declaração, com factos, n'uma larga demonstração de erudição e talento.
Eu fiquei-me callado, esperando melhor occasião para poder dizer serenamente, sem precipitação, as considerações que tinha a fazer sobre tal assumpto.
D. Aurelia de Sousa
D. Aurelia de Sousa
E hoje, perfeitamente á vontade, sem pressões de especie alguma nem necessidades de galantear, vou dizer o que penso da mulher artista, e como eu teria desarmado o gracioso se logo me tivesse permittido dizer-lhe alguma coisa em resposta ao seu repto.
A mulher é um dos mais perfeitos trabalhos da natureza, quer vista sob o lado plastico e physico, quer sob o moral e espiritual. É como nenhum outro ente dotada d'um espirito, que, quando bem educado, se inclina sempre para o Bello, para o Ideal. Ella, muito mais do que o homem, deixa-se assenhorar das impressões, e o seu coração, muito mais passionavel que o nosso, mais facilmente se commove e se infiltra d'uma doce alegria ou d'uma saudosa tristeza.
Como nenhum outro individuo ella descobre e comprehende pequeninos nadas psychologicos, que passam despercebidos aos nossos olhos.
Por isso, quando educada e industriada no grande problema da Arte, deve facilmente adquirir elementos magnificos para execuções de vulto, e de obras que venham tocadas d'uma suave poesia.
Depois, se a mulher tem o direito de dançar e de cantar, e se lhe admiram as qualidades raras de eximia bordadora, porque negar-lhe o direito de, tomando os pinceis e o escopro, pintar, esculpir e indo mais longe mesmo, escrever livros, cujo encanto será deliciosamente bom? Ora ella canta e dança desde a origem do mundo e borda desde as eras mais remotas da antiguidade; portanto, que direito nos assiste a nós, que caminhamos para o maximo da perfeição, de evitar que ella nos dê as manifestações mais brilhantes do seu ser artistico, do seu temperamento singular? Impossivel.
Estudo de creança―Aguarella de S. M. a Rainha Estudo de creança—Aguarella de . . a
Isto seria verdadeiramente barbaro!...
Para que ella cante ou dance, só se lhe exige que tenha talento vocal ou choreographico, tal qual o que se exige ao homem para os mesmos fins. E, se tal succede e a logica existe, qual a razão porque durante tanto tempo se puzeram entraves ao franco estudo da pintura, da esculptura e da litteratura, ás mulheres?
Bem sei que o canto, a dança e a musica, eram considerados por todos, como dotes necessarios e sem os quaes uma senhora não podia briosamente frequentar a sociedade.
Menina que não dançasse, em noite de baile, era como flôr sem aroma, que se ficava estiolando em canteiro, d'onde tinham sido colhidas todas as olorosas rozas e violetas. Havia pois a necessidade de se aprender a dançar, e todas tentavam ser eximias no minuete, na gavota, na pavana, na valsa, na polka, e no pas-de-quatre.
Tia Bertha―D. Branca Assis
Tia Bertha— .
Depois começou a desenvolver-se o gosto pela musica; as audições de operas nos theatros de S. Carlos e S. João, a organisação de escolas particulares de canto, os concertos onde era chic apparecer, foram creando os amadores distinctos que no Porto e Lisboa teem affirmado exuberantemente que n'este nosso torrão, não ha só bom sol, ha tambem boas gargantas e bastante talento, (porque para se cantar bem não basta só ter uma boa voz é preciso tambem talento e arte). E assim appareceram em Lisboa e Porto as Ex.mas as Snr. D.
Maria Albergaria, D. Laura Gasparinho, D. Maria Viterbo Ferreira, D. Carminda Guerra Andrade, D. Laura Leite, D. Alice Freire Silva Braga, M.elle me me Lidia Oliveira, M. Sarah Mattos, M. Ilda Blanc, D. Stela Pinheiro, M. elle Castello Branco, Condessa d'Almeida Araujo, Condessa de Proença-a-Velha, D. Maria Thereza Valdez Pinto da Cunha, D. Carolina Palhares, D. Leopoldina Kopke de Carvalho, D. Beatriz Arroyo, D. Izabel Vallado, D. Elisa Lear, D. Albertina Arnaud, D. Julia Villares, D. Thereza Wandscheneider, D. Edwiges de Castro, D. Judith Marques, D. Bertha Leaham Camello, D. Camilla Katzeintein, D. Margarida Motta, D. Maria Luiza Mourão, D. Idalina Castro, D. Laura Leite, D. Anna Fins, D. Conceição Castello Branco Albuquerque, D. Margarida Fernandes Braga, D. Bertha Arroyo, D. Julia Pinto Moreira, D. Olinda Rocha Leão.
Quem espera desespera―Zeó Wauthelet Batalha Reis
Quem espera desespera—
Mas, tambem lá estava a necessidade de apparecer, de ser notado. Era preciso cantar para não ficar atraz das outras que apareciam, e assim se desenvolveu por completo o gosto pelo canto, essa arte sublime que, como dizia um philosopho, faz um ente transportar-se ao sol sem se lembrar de si.
Com a musica de pianno e rebeca, etc., o mesmo se dava, era como o canto, um genero de sport artistico. Toda a gente tocava, mas, era preciso ir mais longe, era preciso tocar bem para ser notado. Em qualquer parte onde se estivesse, n'uma sala, havia sempre muitos que podessem exhibir os seus dotes musicaes, mas, no meio deste mar de tocadores-amadores só se foram distinguindo os que tinham verdadeiro talento, e assim se notabilisaram ao pianno: D. Maria Josephina Pacifico, D. Elisa Baptista Souza Pacheco, D. Ernestina Freixo, D. Maria de Magalhães, D. Leonor Atalaya, D. Maria Ferraz Bravo, D. Esther Coelho de Campos, D. Carolina Suggia, D. Leonilda Moreira de Sá, D. Julieta Vieira Barbosa, D. Elvira Mattos, D. Maria Julia Brandão, D. Maria Helena Carvalho, D. Elisa Allegro, D. Bertha Marques Pinto, D. Aurelia Paiva, D. Maria Augusta Mattos, D. Luiza Margaride, D. Constança Pinto Moreira, D. Anna Oliveira Ramos, D. Virginia Suggia.
Em rebeca: D. Judith de Mello, D. Amelia Marques Pinto, D. Laura Barbosa, D. Irene Fontoura Madureira, D. Rosalia Maia, D. Ophelia d'Oliveira, D. Luiza Coelho de Campos.
Em violoncello: D. Guilhermina Suggia.
Em harpa: D. Virginia Viterbo e D. Anna Jane Menezes de Mattos.
E isto como o canto foi impulsionado, porque era preciso apparecer com vantagens sobre outros.
Condessa d'Alto Mearim
Condessa d'Alto Mearim
Com a pintura e esculptura porem não se dava isso. Os amadores de pintura só tinham occasião de mostrar os seus trabalhos, quando algum d'estes cabrions que teem o nome de possuidores de albuns, vinha pedir a esmola d'uma collaboraçãosinha, para esses repositorios exoticos de coisas varias e quiçá exdruxulas, onde se afundaram muitos poetas e se lapidaram muitos desenhadores.
E os amadores de esculptura? Esses, nem os havia. E se algum se dedicava a esse genero da divina Arte, era tão escondidamente que ninguem dava por elle.
Mas, sob o impulso grandioso do desventurado Silva Porto iniciava-se uma nova era d'Arte. Começaram de fazer-se exposições na cidade de Lisboa e na do Porto, exposições criteriosas que foram o inicio do renascimento da vida artistica portugueza e o marco milliario do bom gosto e do aproveitamento de muitos talentos ignorados e de muitas notabilidades nacionaes.
Promovidas na capital pelo grupo de Leão, esse brilhante gremio de que fizeram parte Columbano, Ramalho, Malhôa, Gyrão, etc.; e aqui, por um grupo de artistas e amadores de Bellas-Artes, sem designação especial de nome, mas entre os quaes figuravam Marques de Oliveira, Julio Costa, Marques Guimarães, Antonio Costa, o saudoso Xavier Pinheiro, Adriano Ramos Pinto,—as exposições d'arte teem sido actualmente realisadas pelo Instituto de Estudos e Conferencias.
D. Alice Grilo Lima
D. Alice Grilo Lima
D'ahi, do agrupamento desses artistas, e tentados pela gloria de se ver aplaudidos pela opinião publica e instigados pela critica amiga dos jornaes, fez-se uma como que revolta no meio da sociedade, que vive um pouco do espiritualismo Artistico do Bello, e como que resaltou uma nova pleiade de amadores, que tenta a pintura e a esculptura. No meio d'essa pleiade resaltam como caracteres artisticos definidos e assentes, individualidades cujos nomes temos que notar e descrever.
Apparece no alto, como verdadeira fulguração na arte de esculpir, a Duqueza de Palmella, a maior alma de artista que pode ter uma amadora. Os seus trabalhos perfeitamente executados são confirmações indiscutiveis do logar proeminente que ella deve occupar entre os que são sacerdotes na sublime arte de Milo.
No Porto, como sacerdotisa emerita d'essa arte, temos a Ex. ma a Sr.
D. Joanna Andressen Silva, de que mais adeante fallaremos em artigo especial.
Na pintura, confirma-se o que a principio digo, só se exige que as amadoras tenham talento, para se lhe poder garantir o logar ao lado dos homens na transplantação para a tela da natureza, em todas as suas variadas manifestações. E assim, tanto no Porto como em Lisboa, todos os dias se fazem novas revelações de senhoras que são verdadeiros sportwomen artisticas. E assim notaremos, D. Francisca Furtado, D. Sophia de Souza, D. Amelia de Souza, D. Julia Molarinho, D. Lucilia Aranha Grave, D. Olympia Faria de Abreu, D. Maria Afflalo, D. Alice Grillo Lima, Condessa d'Alto Mearim, D. Maria Luiza Alto Mearim, D. Branca de Araujo Assis, D. Constancia Avides, D. Maria Idalina Carneiro, D. Margarida Costa Romão, D. Josepha Garcia Greno, (fallecida), D. Herminia Victoria Lagoa, D. Amelia Lamas, D. Izabel Areias de Lima Lawer, D. Leopoldina Maia Pinto, D. Maria Teixeira de Moura, D. Laura Nobre, D. Clotilde Rocha Peixoto, Viscondessa de Cristello, Zeó Wauthelet Batalha Reis, D. Margarida Ramalho, D. Albertina Falker.
E, tudo isto, pela simples razão de haver exposições, onde se pode mostrar que se tem aptidões para a pintura ou para a esculptura, que se tem talento artistico emfim.
Portanto, desde que se tenha esse bello dom natural, que faz de nós um poucochinho mais do que a vulgaridade, não acho razão nenhuma para que se queira tirar á mulher o direito de publicamente mostrar que é um pouco superiora ás outras. Eu, sou d'aquelles que digo: que o saber não occupa logar, e, que, antes quero ver uma mulher pintar bem um quadro, do que pintar os olhos e os labios. No primeiro caso só pode mostrar que a preoccupa o espirito com alguma coisa donde lhe pode vir honra o louvor, no segundo caso... que não o preoccupa com nada...
Setembro 1904.
Orchideas―D. Alice Grilo
Orchideas— .