Notas d'arte

António de Lemos · Capítulo 29 de 32

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Notas d'arte

XXVII Conclusão

Lisboa, 31-4-900.

 

XXVII

 

CONCLUSÃO

 

Fechando este volumesito despretencioso e vago, que fiz publicar, não com a vaidade de escriptor ou critico d'Arte,

O Desterrado―Soares dos Reis

O Desterrado— dos

mas simplesmente para reunir n'um mólho, pequenos e insignificantes artigos, que escrevi em dias socegados e alegres, e que appareceram em revistas e jornaes diarios após visitas feitas a Ateliers, Escolas e Exposições d'Arte, onde tive o superior prazer de passar algumas horas boas e distrahidas, julgo ter prestado um pequenissimo serviço ao meu paiz e á sua Arte.

São estas paginas simples notas de um amador. Nem ellas desejaram nunca ser mais do que isso. Escrevi-as sincera e desapaixonadamente sem interesses ligados aos artistas, nem o desejo de ser amavel para com elles.

Fil-o como conversador inveterado que sou, e que, no desejo constante de conversa, escolhi o grande publico para lhe expôr as minhas impressões pessoaes e quem sabe, faltas de sciencia e talvez de criterio.

Tenho dito mil vezes, n'essas paginas atraz o digo, e não ficará mal ao ir-me embora, repetil-o mais uma vez:—eu não sou um critico d'Arte, nem tenho pretenções a isso.

E, n'essas condições, sob uma tal ordem de ideias, interessando-me pelas exposições d'Arte, pelo desenvolvimento pintural dos discipulos e pelo engrandecimento dos professores, excitando os que começam para que breve se ponham ao lado dos que já vão na vanguarda, animando o publico e creando-lhe aos poucos o gosto pela Arte, dando noticias resumidas d'algumas exposições, destacando alguns artistas e amadores dos que mais em fóco tenho encontrado, embora sem aquelle tino especial de critica hors ligne, como convinha para tal emprehendimento, julgo no entanto, que contribuo dentro das minhas forças, para o desenvolvimento do gosto pela pintura e pela esculptura entre os meus compatriotas, com estes artigos.

N'um paiz como o nosso tão cheio de poesia, tão cheio de sol, tão cheio de côr, com costumes tão typicos e figuras tão accentuadamente caracteristicas, com pedaços de natureza (paisagem e marinha) tão cheia d'um extraordinario encanto, d'um collorido tão nosso, tão genuinamente bello, necessario se torna que elle seja sabiamente estudado e proficientemente transplantado á tela e vá mundo em fóra, fazer esta grande affirmação: que no nosso paiz, caracteristicamente pittoresco, que como poucos é dotado de bellezas naturaes dignas de serem admiradas por todo quanto em tourismo dá a volta ao mundo, ha uma pleiade de artistas, verdadeiramente grandes, e que valem tanto como os que ha bons lá pelo estrangeiro.

Se eu, debaixo d'este ponto de vista, apontando, notando, frizando, destacando e elevando, entre os que trabalham n'esta bella obra, aquelles que a meu vêr mais dignos são de menção, conseguir excitar os outros para que trabalhando honradamente, gloriosamente se possam collocar ao lado d'elles, darei por bem empregado o meu tempo.

E como não quero que se diga que esqueci os que mais gloriosamente teem batalhado n'esse combate da Arte, aquelles, que emquanto vivos produziram genialissimas obras, e seriam assombrosamente grandes em qualquer parte do mundo, aqui deixo ficar, nas ultimas paginas do meu livro, tres copias de tres trabalhos sublimes dos sublimes mestres, d'esse trio sagrado de sacerdotes magnos do templo da Arte—Soares dos Reis, Silva Porto e Raphael Bordallo Pinheiro.

E nada vos direi de taes genios artisticos porque para isso seria preciso escrever tres volumes, e acho que quem é tão pequeno como eu não se deve abalançar a empreza tão ardua e tão difficil, pois que para fazer o elogio d'estes sublimes mestres, exige-se pelo menos ser tão grande como elles na litteratura e na critica.

 

Conduzindo o rebanho―Silva Porto

Conduzindo o rebanho—

 

Por isso simplesmente, como significação de respeito e muita admiração ao seu grande talento, aqui lhe deixo significado o sentimento da minha muito grande veneração.

Havereis de ter notado n'este meu livro faltas extraordinariamente grandes, bem sei. Mas, que quereis, quem dá o que tem não é obrigado a mais.

Desejaria ainda fazer um catalogo, biographico e artistico dos nossos melhores artistas e das suas obras com sabias notas descriptivas, mas isso era trabalho largo de mais para quem tão fracamente maneja a penna e tão leves conhecimentos tem em tal assumpto.

 

Vinte annos depois―Raphael Bordallo Pinheiro

Vinte annos depois

 

Se um dia, porem, lá para o futuro, me achar com coragem de emprehender empreza de tal bojo e tanta responsabilidade prometto-vos que o farei o mais larga e o mais desenvolvidamente possivel.