Notas d'arte
XV em Frente D'um Cartaz!...
Junto ao Cruzeiro―Antonio José da Costa
Junto ao Cruzeiro
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XV
EM FRENTE D'UM CARTAZ!...
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Antes de entrar no assumpto da minha Chronica, duas palavras de desculpa.
Não appareci na ultima semana porque estive com as maleitas, um diabo d'umas febres que apanhei quando era rapaz e ia brincar para os campos do Cyrne, alli para os lados do Reymão.
Pois essas maleitas, vieram atacar-me traiçoeiramente, como costumam, e quando eu me dispunha a escrever a Chronica tive de me enfiar em vale de lençoes a tremel-as... Um martyrio, que nem o leitor imagina.
Unica razão porque Vossas Excellencias se viram livres da minha proza a semana passada. Hoje, porém, não escapam. Estou agora fino como um pêro e muito bravo.
Portanto, se virem que arranco da espada com valentia, não vos afflijaes, porque ella é de cortiça, como era a da Justiça, para matar a Carriça... Ora pois, como a espada é de cortiça, não corta, o mais que pode fazer é arrolhar. Adiante.
No alto d'este arrazoado escrevi eu:—Em frente d'um cartaz!...—E sabeis a que cartaz me refiro? Não sabeis? Pois ides sabel-o. Ao cartaz executado por Julião Machado para reclame aos festejos carnavalescos no Porto.
—Porque vai elle dedicar uma Chronica a este cartaz, perguntarão lá de si para comsigo os leitores?
—Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo está muito longe de ser o que se desejava. Julião Machado é, inegavelmente, um bom artista, mas, d'esta vez, no traba —Por um simples motivo, meus senhores, porque entendo, que aquillo está muito longe de ser o que se desejava. Julião Machado é, inegavelmente, um bom artista, mas, d'esta vez, no trabalho apresentado deixou muito a desejar.
Cartaz―Julião Machado
Cartaz—
Não quer isto dizer que elle esteja mal feito, mal desenhado, mal colorido; não, o que quer dizer é que não era aquillo que se queria.
Que se queria, não digo bem; que eu queria e a maior parte do publico.
Aquillo, é um lindo desenho, para figurar em ponto pequeno, em uma pagina de revista, na capa d'um livro, ou ainda dum reclame-programma, para distribuir nos theatros, ou na rua.
Finura de traço, cuidado de desenho, doçura de cores... tudo alli ha; mas, faltam-lhe os requisitos essenciaes para o verdadeiro cartaz: largueza de traço, côres fortes e retumbantes, côres, que collocadas pelas paredes, tilintassem como crystaes que se partem, retumbassem como trovões, vibrassem como clarins, ou refulgissem como o sol.
Acima de tudo isso, era preciso que tivesse o caracter genuinamente portuguez, que infelizmente não tem. As figuras passam n'elle como se fossem a reprodução d'uma festa em pleno Paris—-o Boi gordo, por exemplo.
Unicamente, como nota portugueza, no primeiro plano um busto de lavradeira, e lá entre essa multidão apenas um capote e lenço, como que querendo fugir para fóra do traço delimitador do caixilho, talvez embaçado de se vêr seguido por tanta gente, que elle nem sabe quem é.
Os nossos mascaras caracteristicos, os chechés, os lavradores, os bebés, os gallegos, etc., etc., que davam a nota definida do nosso carnaval, esses, fugiram n'um desespero de se verem amarfanhados n'aquella pele-mele de mulheres em maillot, e mascaras que nós não conhecemos.
Mas a culpa não foi do artista. Elle viu assim o carnaval; viu n'aquella cocote fina e delicada, que o pierrot leva sobre o grande bombo, a Folia portugueza, e enganou-se!... A Folia portugueza não é assim tão fina e quasi ingenua, é muito mais expressiva, mais valente, de gesto largo e de fundas gargalhadas, atirando um grande punhado de bombons ou um bouquet de violetas, com ar de quem não está a estudar posições ao espelho, despreoccupadamente...
No meu entender, Julião Machado não realisou o verdadeiro programma.
Depois, ha alli qualquer coisa a mais, e que infelizmente me entristece: é vêr suspensas da mão da Folia, como se fossem duas grandes bexigas, as mascaras da Russia e do Japão. Não acho de grande intuição artistica aquellas duas figuras n'aquelle logar. Quando duas grandes nações se degladiam n'uma sangrentissima guerra, exquisito é que se aproveite esse caso para que, como n'um ridiculo de troça, a Folia atira sobre a multidão que se diverte com essas duas grandes figuras.
Mas... adeante; isso nem se discute.
Cartaz―Manuel Monterroso
Cartaz
O cartaz ahi está! É o que o publico póde vêr! Agora, o que o publico não pode vêr, é o cartaz que apresentou Manoel Monterroso, e é pena, porque se o visse havia de convencer-se de que este, como ninguem, comprehendeu qual o verdadeiro caracter que devia ter o cartaz.
No cartaz d'este distincto amador, havia de tudo, bello desenho, côres retumbantes, e verdadeiro caracter portuguez.
Depois, a concepção era genial, d'um bello artista.
No seu trabalho, uma verdadeira caricatura carnavalesca, revelava-se mais uma vez o seu espirito fino e observador e o seu traço caracteristico e definido.
As figuras que elle apresentava, eram recrutadas no nosso meio, de genuina originalidade portugueza. Oh! mas esse não apparece.
É que a commissão entendeu que devia premiar os dois e mandar executar só um. E porque seria isto? Que entendedores fôram os que determinaram resolução tão exotica? Porque não se fará a exposição do outro cartaz?
Cumpre ao Club, antes de apparecer em publico com o seu cortejo, fazer afixar o cartaz de Manoel Monterroso; sem isso terá dado uma prova de favoritismo, de preferencia a um artista, com o fim, talvez de amesquinhar outro. E isso não é de pessoas que dirigem um Club cuja divisa é—Pelo Porto!
Que appareça o cartaz de Monterroso, para que o publico o aprecie tal como elle merece, e para que se não fique julgando que o Carnaval será palido e desenchabido como o cartaz de Julião Machado.
E que o artista me desculpe, que eu não lhe quero mal. Venho unicamente, como um dos mais sinceros amigos do Club Fenianos Portuenses, pugnar pelo bom nome do mesmo e pelo interesse do meu querido Porto, que se prepara briosamente para receber os milhares de forasteiros que ahi virão assistir ao carnaval, que deve ser maravilhoso.