Notas d'arte
XXIV Uma Exposição de Estatuetas
Estudo―João Augusto Ribeiro
Estudo—
XXIV
Uma Exposição de Estatuetas
FRANCISCO GOUVEIA
Já era tempo de dedicar algumas palavras de justiça, ao distincto artista Francisco Gouveia, ácerca da visita que fiz á sua magnifica exposição de esculptura, aberta aqui no Porto, no Salão da Photographia Guedes, e cumprir o dever gratissimo de corresponder á galanteria e ao modo penhorante como elle me acolheu.
Francisco Gouveia
Francisco Gouveia
E faço-o, porque nunca antepuz á manifestação de admiração pelos trabalhos de qualquer artista de valor, outra qualquer manifestação.
A Arte, para mim a mais sublime das cousas, a mais insinuante das manifestações, tem um logar tão alto, tão deslumbrante, tão culminante que em frente d'ella eu julgo-me insignificantemente pequeno, e curvando-me reverente, fico depois extatico, cheio d'uncção na mais santa e na melhor das adorações.
Por isso, ao abalançar-me ao cumprimento d'um dever sagrado, eu commetteria um crime de lesa-religião artistica se não dedicasse algumas paginas á deliciosa exposição, que ha tempos tive o prazer de visitar.
Já o tenho dito varias vezes e hoje o repito: eu sempre que tenho ensejo de admirar uma obra de arte, pintura, esculptura, musica, ou seja o que fôr, nunca falto; sou dos que vou primeiro, e, quasi sempre, dos que sahem no fim.
É facil ficar perfeitamente embasbacado em frente d'um quadro, ou d'uma esculptura, durante horas, alheio a tudo quanto se passa em volta de mim, tal me tem succedido ante as obras de Malhôa, Salgado, Carlos Reis, Marques de Olivieira, etc., e como em nenhumas outras, ante as extraordinarias creações do sublime Teixeira Lopes.
Teixeira Lopes―F. Gouveia
Teixeira Lopes
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Por isso, como um fanatico pela Arte eu accorri ao Salão da Photographia Guedes a vêr os trabalhos, já para mim conhecidos de nome, do nosso querido concidadão Francisco Gouveia.
Que este artista, como todos os bons esculptores portuguezes, tambem é filho do Porto.
Francisco Gouveia, era um nome que se impunha já de ha muito á consideração e á admiração de todos nós, porque lá fóra, no estrangeiro, affirmava exhuberantemente, com os seus trabalhos, que nós os portuguezes tambem somos capazes de dar provas evidentes e definidas de intellectualidade e aptidão artisticas.
Entre muitos dos seus bellos trabalhos destacarei, para fazer notar aqui, o seu Beatriz de Portugal, que marcou d'uma fórma confirmativa e energica o seu saber e o seu modo de esculpir.
Este trabalho ao apparecer em Paris, de tal nomeada foi cercado, que mereceu a honra de ser reproduzido em diversas illustrações estrangeiras, onde se fizeram referencias honrosamente dignas ao nome do nosso artista.
Mas, como diz Xavier de Carvalho n'um pequeno esboço critico a respeito de Francisco Gouveia: «quiz ser o artista naturalista no minucioso detalhe, começando por nos dar um Eça de Queiroz apanhado n'uma pose verdadeiramente natural e sincera. Depois temos a serie das suas esplendidas estatuetas, tão cheias de vida plastica, d'um correctissimo desenho, mesmo quando o esculptor passa da maneira emocional do seu mestre querido Injabert á larga ébauche de Rodin que mesmo chegou a attingir na silhueta do grande artista rebelde».
E de facto assim é. Francisco Gouveia realisou este desideratum e ao abrir ao publico indifferente e á critica honrada e honesta d'uns, venenosa e malsinada d'outros, a sua exposição, fel-o, sem aspirar as louvaminhiches dos primeiros nem temer boas ou más apreciações dos segundos. Fel-o como affirmação publica do seu talento artistico e da sua persistencia do trabalho, fel-o como era justo que o fizesse.
Para isso traz-nos 78 trabalhos qual d'elles o mais fino, qual d'elles o mais correcto, qual o mais bem estudado, e mais bem executado.
Desde a estatueta séria á estatueta caricatural, desde os medalhões graves ás mascarasitas patinados, nada ha alli que não seja correcto e que não seja perfeito.
Estudos regularmente anatomisados, dando o individuo em todo o seu ser, em todo o seu aspecto, com todo o ar natural, parecendo mover-se regular e compassadamente, vivificados, com movimentações naturaes, expressão definida no rosto. E tudo isto em estatuetas que variam entre 40 e 60 centimetros d'alto.
Eça de Queiroz―F. Gouveia
Eça de Queiroz
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Mas, ha para mim, entre todos os trabalhos expostos, um, que é dos mais extraordinarios—a caricatura psychologica do grande morto Eça de Queiroz!—Fulgurantissima de genio. Vemos n'ella, n'aquelle bronze, atravez da esgrouviada figura do romancista que nos assesta o monoculo n'uma persistente meticulosidade de observador a sua alma analysta, com um quê de sarcastico, como sorrindo-se interiormente de toda esta nossa sociedade, que elle olha atravez da sua impertinente lente. É simplesmente assombroso.
A minha vontade era fazer notar uma a uma as estatuetas, as composições, as caricaturas, as medalhas, mas isso é impossivel e portanto, em mais duas palhetadas vou fechar este artigo.
Entre os trabalhos estatueta-retratos, muitos d'elles de pessoas nossas conhecidas, ha alguns com quem appetece conversar um pouco. A do Marcos Guedes, a do Pae Ramos, (ambos estes collegas do Janeiro), a do Snr. Caetano Pinho da Silva, a do nosso querido Teixeira Lopes, a de Guedes d'Oliveira são magnificas. Ha tambem um retrato do grande poeta Guerra Junqueiro (phantasia), que é muito interessante. Guerra Junqueiro é apresentado com uma tunica que lhe cae sumptuosamente como a um propheta, tendo o braço direito levantado em menção de quem préga o Evangelho, e no braço esquerdo as taboas da lei. É delicioso de concepção e de execução.
Marcos Guedes―Guedes d'Oliveira―Guerra Junqueiro―Pae Ramos―Francisco
Gouveia
Marcos Guedes—Guedes d'Oliveira—Guerra
Junqueiro—Pae Ramos—
Na estatueta-composição destacarei: A viajante, A primeira esculptura, A parisiense, A tristeza, Meditações, Grupo de leitoras, Saudades e Ama parisiense (do jardim de Luxemburgo).
Mas que estou eu aqui a destacar, se todas ellas são boas, se todas ellas me encantaram?!...
As outras, terras-cotas, bronzes, etc., são, como estas, deliciosas obras, que merecem ser vistas e apreciadas devida e detalhadamente.
Não é esta exposição de molde a ser visitada como uma exposição de quadros, onde as côres nos venham de longe em varias tonalidades, á vista. Não, aqui precisamos de parar, analysar feições, expressões, linhas, tudo, emfim. É preciso deixar a vista pousar durante um pouco, para examinar toda aquella perfeição, toda aquella correcção, que não se póde vêr á vol d'oiseau. É preciso fazer como eu fiz, estar lá horas e voltar lá mais vezes, que de cada vez que se lá volta novas cousas se descobrem nos trabalhos expostos. Quem vê só uma vez, quasi sempre não vê nada.
Vou acabar por aqui, antes, porém, devo dizer que Francisco Gouveia é um d'estes rapazes insinuantes, com quem se sympathisa logo que se falle com elle uma vez.
Modesto em extremo, é um trabalhador de verdadeiro merito, e um espirito lucidissimo. E eu, ao fechar o meu artigo para as N
'A , aqui lhe deixo significadas, ainda que muito pallidamente, a
minha admiração ao seu grande talento artistico e a convicção de que o seu nome tem o direito indiscutivel de figurar a par do dos nossos primeiros artistas, pois exuberantemente conquistou um dos primeiros logares, como sacerdote magno, no templo da sublime Arte Portugueza.
Paisagem―Lucilia Aranha Grave
Paisagem—
Teixeira Lopes
Teixeira Lopes
Caim―Teixeira Lopes
Caim—