Notas d'arte

António de Lemos · Capítulo 15 de 32

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Notas d'arte

XIII Amadores Portuenses

1904.

 

Panneaux decorativo na Sala da Bolsa no Porto―Velloso Salgado

Panneaux decorativo na

Sala da Bolsa no Porto

 

XIII

 

AMADORES PORTUENSES

 

D. JOANNA ANDRESSEN SILVA

 

D. Joanna Andressen Silva

D. Joanna Andressen Silva

Sinceramente e no mais grato dos respeitos vou deixar em breves linhas as minhas impressões sobre o merito artistico d'esta illustre senhora, amadora distincta d'esculptura, illustre pelo talento e pela fidalguia do caracter, um caracter d'oiro, propenso ao bem, cheio de fé e de bondade.

Eu sei que biographar um amador é trabalho de certo folego, muito especialmente quando o amador é distincto, como esta illustre senhora; mas eu não venho com mais largas ideias que fazer uma simples resenha dos seus trabalhos, resenha esta que servirá ao mesmo tempo de ligeira nota de carteira da visita que fiz ha dias ao seu atelier. A isso, só a isso, me abalanço, convencido de que cumprindo um dever de cortezia presto ao publico, ao que aprecia as manifestações d'Arte, um interessante e util favor.

Não me alargarei em detalhes minuciosos do grande problema—a Arte. Rapidamente, aqui e alli, tocarei aquellas notas, que veja de mais necessidade ferir, para completo comprehendimento do assumpto.

 

Salão do palacete de D. Joanna Andressen Silva

Salão do palacete de

D. Joanna Andressen Silva

N'esta altura, cabia perfeitamente, como preambulo a estes pseudo-perfis, uma larga tirada sobre Escolas d'Arte, Evoluções da Arte, Variedade de gostos artisticos, Papel moral da Arte, etc. Não enveredarei por esse caminho, deixo esse estudo aos outros, aos que com mais direito e mais conhecimentos possam fallar do assumpto.

Sou apenas uma especie de reporter artistico, que vem sempre que d'isso tem occasião, trazer a noticia d'um amador que se torna notado, d'um artista que está em fóco, d'um atelier que se recommenda pela sua disposição e pelo recheio, e d'um salon que se abre em exposição de trabalhos isolados ou collectivos.

Feitas as precisas explicações, vou dar principio á minha singela narração, sem balofas adjectivações e sem assumir o ar solemne e grave de Pater Magister. Serei simples e breve como convem aos que escrevem para todos: para os que se embrenham nos profundos e intrincados problemas sociaes e artisticos e para aquelles que só sabem ler. Farei portanto todo o possivel para que facilmente me faça compreender e alguma coisa de util, traga, ao fim, em bem da Arte.

Foi n'uma manhã formosissima, de sol forte e claro que fiz a minha primeira visita ao atelier da Ex. ma a Snr. D. Joanna Leheman Andressen Silva.

Ao fundo da Rua Antonio Cardoso, rua que partindo da formosa Avenida da Boa-Vista, vae findar no Campo Alegre, fica o sumptuoso palacete onde reside esta talentosa amadora. A vivenda só em si é um encanto. A bella casa, circumdada de formosos parques e jardins, tem um aspecto grandioso e rico que se impõe. Os jardins e o parque que a rodeiam são deliciosos trechos onde as musas predilectas bafejam e inspiram os menos lyricos a compor deliciosas bucolicas e onde os menos artistas encontram retalhos de paisagem encantadora e suggestiva para transplantar á tela.

Canto do Atelier

Canto do Atelier

Eu não posso fallar d'essa paisagem adoravel que me não sinta enlevado pelos seus encantos naturaes. Como é bello tudo quanto d'alli se avista! Como é soberbo todo esse quadro immenso, cheio de vida e de luz, deixando-nos apreciar por momentos o bulicio da cidade, a serenidade das aguas do Douro, que serpeia lá em baixo, a agitação continua do mar, cujas ondas se vem ao longe n'um revolutear continuo, e a tranquilidade da vida aldeã, que se adivinha com as primeiras casinhas que se descobrem do outro lado, no Monte das Chãs!...

Transpostos o jardim e o parque entra-se n'uma ampla galeria, onde, bibelots caros e artisticos se juntam n'uma delicada confusão que contrasta com o fino do mobiliario e a riqueza das tapeçarias. Apenas alli introduzido, logo me appareceu a distincta amadora, cheia de attenções e cuidados que encantam, convidando-me a visitar o seu atelier. Acedi da melhor vontade e caminhei vagarosamente encantado pela conversa fluente e interessante da illustre senhora que tem a alma d'uma fina artista e a virtude d'uma delicada e cuidadosa dona de casa.

 

Busto de mademoiselle Eliza Andressen

Busto de mademoiselle

Eliza Andressen N'essa passagem atravez de todo o interior formoso e confortavel da habitação, passagem que fiz com a religiosa uncção de quem visita um museu intimo, tive a grata ventura de pousar a vista em admiraveis trabalhos de Antonio Teixeira Lopes, Marques d'Oliveira, Julio Costa, Julio Ramos, Candido da Cunha e muitos outros, e entre estes alguns dos mais consagrados artistas estrangeiros.

E tudo isto, todo este batalhão de Arte se espalha pela casa, gentilmente, nos seus logares proprios, n'uma bem estudada escolha de luz.

Entramos na sala de jantar depois de termos atravessado o salão de baile. Maravilhou-me a magnificencia das pratas, das louças e dos crystaes, mas acima de tudo a confecção e o estylo do mobiliario. Avancei uma pergunta:—-«Quem fôra o auctor d'aquella maravilha? Quem a desenhara?»

E a distincta amadora, sorrindo, contou-me a historia d'aquella mobilia, dizendo n'uma adoravel simplicidade que para a sua execução fizera dous desenhos; um era aquelle, o outro, mais decorativo, mais cheio de flores, fôra posto de parte porque seu primeiro marido não gostara d'elle.—«E eu tambem», concluiu a illustre amadora.

Assim devia ser, porque, por mais formoso que o outro fôsse, aquelle desenho que alli estava, com certeza o havia de supplantar, porque é uma verdadeira maravilha de Arte, quer em concepção, quer em execução.

Em seguida atravessamos o jardim, onde brincavam os filhinhos de D. Joanna, e passamos ao atelier. É este construido sob a sombra protectora e amiga d'algumas bellas arvores; banha-o de luz intensissima uma larga janella que lá do alto se abre para a estrada.

Uma vez alli dentro, analisei detidamente tudo o que lá se achava, desde o mais insignificante desenho até á mais bem lançada esculptura, desde a mais pequena revista até ao mais precioso livro de Arte. E apoz isto, entrei n'um largo inquerito. Sentados n'uns artisticos escabelos, conversamos um pouco sobre arte, discutimos escolas e processos, analisamos rapidamente trabalhos que conheciamos de memoria e por ultimo fallamos da educação artistica da nossa gente. N'esta altura averiguei que D. Joanna desde creança revelara uma grande disposição para a esculptura.

 

Busto de mademoiselle Ramos Pinto

Busto de mademoiselle

Ramos Pinto

Seu pae, um bom e honrado negociante allemão, que viera para o Porto estabelecer-se, pratico como era, costumava brindar seus filhos com livros de desenho, que mandava vir d'Allemanha. D. Joanna toda se enthusiasmava com esses brindes, que collecionava cuidadosamente e d'onde fazia copias para estudos, revelando desde essa epocha uma vocação especial para o desenho.

Quando menina teve como professora Madame Bizarro, que bem conhecida foi no Porto pelos seus trabalhos em miniatura e bordados.

Foi, portanto, sob a direcção d'esta desenhista correcta e sabedora que ella começou a seguir verdadeiramente o caminho da Arte. Depois, foi por algum tempo para a Allemanha, e ahi, vivendo na intimidade da familia Katzenstein, teve occasião de acompanhar muito de perto e receber mesmo indicações utilissimas do conhecido pintor Katzenstein, irmão do Consul d'Allemanha n'esta cidade. Durante essa epocha D. Joanna amavelmente pousou para modelo de algumas das figuras dos quadros d'esse excellente artista, já por vezes devidamente apreciado no Porto, por quadros de certo merecimento artistico, que tem exposto em varios certamens a que tem concorrido.

Com estes dois impulsionadores, Madame Bizarro e Katzenstein, D. Joanna volta a Portugal, cheia d'uma grande boa vontade de ser alguma coisa mais do que a vulgaridade no nosso meio artistico. E para isso chama para lhe completar a educação d'arte dous dos mais notaveis artistas e mais insignes professores: Marques d'Oliveira, o paisagista sabedor e poetico e Teixeira Lopes o genial estatuario, cujo nome é uma verdadeira gloria da Arte Nacional.

 

Busto de Mademoiselle Maria Joanna Andressen

Busto de Mademoiselle

Maria Joanna Andressen

E, recebendo lições d'um e d'outro com um aproveitamento pouco vulgar, D. Joanna revela-se não uma amadora distincta, mas uma distinctissima artista. Affirmam-no exuberantemente os seus trabalhos, internecedores pelo encanto com que são concebidos e executados.

D'alguns d'esses magnificos trabalhos vão aqui photogravuras, pelas quaes facilmente se vê que aquillo que affirmo não é senão a sentida expressão da verdade. Na photogravura Recanto de atelier, ha uma figurita sobre a meza, maquette de um trabalho em tamanho natural, e que se intitula Rapaz jogando a malha, que é um assombro de bem executado.

Entre os gessos que ornam o atelier ha um que merece especial mensão. É um Christo na Cruz original do grande e saudoso Soares dos Reis.

Nos trabalhos de D. Joanna salientam-se duas Cabeças de rapazes, bustos de dois filhos seus, mas dos quaes por motivos especiaes não pude obter photographia.

Parecerá ao leitor que quem executa tão bellos trabalhos não necessita mais de professor; não o entende assim D. Joanna e, n'essas condições, como quer ser tambem alem de esculptura uma pintora distincta, ouve e recebe orientações e lições do velho Costa, o meu querido amigo Antonio José da Costa, o artista que mais linda e sabiamente pinta flores em Portugal.