Notas d'arte
XIV Pintores Portuenses
É desnecessario proseguir. Já fica dito o bastante sobre as impressões recebidas na primeira visita que fiz ao atelier de D. Joanna Leheman Andressen Silva, n'essa manhã deliciosa, de que conservo as mais gratas recordações, não só pelo prazer de avaliar de perto os superiores trabalhos d'essa illustre amadora, mas muito especialmente pelas preclaras virtudes do seu caracter delicado e requintadamente attencioso.
Ficarei por aqui, convencido de que a critica sincera e desapaixonada, dos Mestres d'esta boa terra portugueza, hade dizer mais e melhor, sobre os meritos artisticos da illustre senhora a quem acabo de referir-me, quando um dia tiver de apreciar devidamente os seus trabalhos.
Guarda fiel―Antonio José da Costa
Guarda fiel— da
XIV
PINTORES PORTUENSES
ANTONIO JOSÉ DA COSTA
Ha nomes que, em qualquer parte que se pronunciem, se impõem á consideração de todos nós.
Antonio José da Costa
Antonio José da Costa O que encima este artigo é um d'elles.
Como homem e como pintor Antonio José da Costa deve ser respeitado e admirado. Como homem porque é um cavalheiro em toda a acepção da palavra; como pintor porque é um mestre.
É muito grande a minha ousadia, em tentar desenhar, n'um pequeno artigo, uma figura culminante da pintura em Portugal; e não vos admireis, leitores amigos, que eu diga isto, nem julgueis que, ao afirmal-o, queira empanar a gloria de muitos dos nossos pintores. Não. Se considero Antonio José da Costa um grande artista, não quer isto dizer que o julgue maior que alguns outros, mas simplesmente accentuar que elle é um dos grandes artistas da pintura em Portugal.
Para mais ao deante reservaremos o fallar d'esses artistas, grandes como este ou talvez ainda mais, mas, cada um no seu genero.
Rosas e Peonias―Antonio José da Costa
Rosas e Peonias
da
Não quero, nem procuro saber quando e como é que Antonio Costa se fez pintor: o que tento é provar que elle hoje é, em Portugal, um soberbo paisagista e o primeiro pintor de flores. E se conseguir isto parece-me que terei dado o meu tempo por bem empregado. Que o mais facil e o mais demonstrativo seria dizer: vêde esses quadros de que vos dou a gravura; vizitae as muitas casas de amadores onde elles estão espalhados: vizitae as exposições onde elles apparecem; ide ao atelier do artista e ficareis convencidos d'esta verdade indiscutivel.
Mas isso é infelizmente impossivel; os amadores que possuem quadros, com raras excepções, fazem monopolio dos trabalhos que compram, parecendo ter medo que os outros, só de lh'os verem, lh'os damnifiquem. E o artista mora lá para Bellos Ares, tão longe do centro da cidade, que, chegados ao seu atelier, o cançaço seria
tanto que não vos deixaria vêr com a devida attenção, as lindas coisas que elle vos mostraria. Descançai pois que eu,—dando-vos, a traços largos, um relato da obra do artista—vou privar-vos da fadiga d'essa romagem.
Para a pintura como para todas as demais manifestações da Arte é necessario, em logar primordial, a disposição natural do individuo. Não basta só a boa vontade. Mas quando esta se alia áquella então tem-se realisado o supremo ideal, e, embora diga o ditado que «querer é poder» n'este caso esse ditado falha porque muitos artistas conheço eu de muito boa vontade e que querem chegar a onde vão os mestres e nunca lá chegam. E porque? Porque lhe falta a bossa artistica, a disposição natural.
Outros tempos. (Esboço)―Antonio José da Costa
Outros tempos. (Esboço)— da
Ora com Antonio Costa dá-se o caso de elle ter, alem da sua grande boa vontade, a intuição, a disposição natural para a pintura.
É um paisagista, com uma vista perspicaz de observador, que, ao tracejar um estudo, faz resaltar logo a nota caracteristica e determinante do assumpto. E ao olhar esse estudo, no conjuncto de cores e de tons, nós temos a impressão completa e perfeita do que elle queria dizer nos seus quadros. Dous esboços acompanham este trabalho, e ambos demonstram sobejamente o movimentado assumpto, que nos seria revelado pelos quadros, se elles tivessem tido completa execução.
No primeiro, que chamarei Outros tempos e que tem o duplo interesse de ser um repositorio de figuras conhecidas e muito populares no Porto, taes como o Dr. Pimentel, pae do escriptor Alberto Pimentel, o Amorim Vianna, o professor João Correia, o pintor Rezende, o Brown,
No Pinhal. (Esboço)―Antonio José da Costa
No Pinhal. (Esboço)
etc., que, na janella e na rua, assistem ao desfilar do regimento onde estamos a vêr perfeitamente o ar aguerrido e os jogos malabares d'esse grupo de porta-machados e seu tambor-mór que, descendo pela rua da Sovéla abaixo viram para o seu lado direito, para a travessa de Cedofeita, n'uma cadencia de marche-marche. E na massa quasi informe que os segue ha a intuição caracteristica do grosso do regimento.
No outro, n'um pinheiral esguio, onde bate o sol, veem-se duas figuras por determinar, estando uma com seu guarda-sol aberto; o terreno é empastado e ha no horisonte um quer que seja que nos diz que ali é o mar. Mas nada d'isto está definido, nada disto está executado e, no entanto, nós vemos perfeitamente n'aquellas manchas que o quadro seria assim.
Ora esta particularidade, este modo de fazer os estudos é que só é peculiar a quem nasceu para ser artista, e Antonio Costa é-o e em alto grau.
Depois, como desenha admiravelmente e possue essa grande propriedade de saber vêr os motivos a pintar, d'um pequeno retalho de paisagem, d'uma cancella, d'um casebre tosco, d'um portão de Quinta, d'um nada, faz um quadro que é sempre um encanto. Muitos e muitos são os seus trabalhos n'este genero. E mesmo n'aquelles, que a critica não acha completamente bons, ha sempre alguma cousa, muito até, que é excelente.
Por acaso tenho aqui na minha frente um jornal de 1893 onde um dos nossos criticos d'arte de mais cotação no Porto, diz o seguinte a respeito d'um quadro de Antonio Costa, Portaes do Marão:
Camelias―Antonio José da Costa
Camelias— da
«É um pedaço de pintura feito com uma sinceridade emovidissima de sensação e uma franca acção de pincel; em toda a obra do pintor portuense eu separo esta como a que melhor denuncía o seu talento por vezes desigual, com caprichos de intermitencia, mas talento legitimo testemunhado nos intervalos de superioridade com um explendido entono glorioso...»
Ora este attestado passado ha onze annos ao meu perfilado é a confirmação do que venho dizendo, e como na arte não é vulgar andar-se para traz, mas sim cada vez mais aperfeiçoar-se, cada vez mais estou na minha, que, se elle n'esse tempo era um bom artista, hoje é um grande artista.
Mas, Antonio José da Costa que, alem de pintor, tem o quer que seja de floricultor, um dia, ao cuidar das suas camelias, dos seus chrisanthemos e das suas rosas, resolveu, tal como as via, transplantal-as á tela, em pintura; e, com o seu muito saber e o seu arreigado gosto artistico, começou de nos dar quadros tão admiravelmente lindos e frescos como as flores que cultivava, e assim se fez o deslumbrante pintor de flores que agora é.
Junquilhos e Camelias―Antonio José da Costa
Junquilhos e Camelias
da
Ha no espirito de muita gente que pinta, a crença de que as flores são de facil execução e d'ahi esse enxame de amadores, que nos surge de todos os lados desatando a copiar flores dos modelos que a França e a Allemanha nos exporta continuamente. E pintam flores... mas que flores, Santo Deus!!!!
Para pintar flores é necessario ter na paleta alem das tintas fortes e vivas... um certo quê de orvalho, um pouco de sol e uma porção de ether, esse fino fluido que nos cerca. Ora isto é que só elle tem, só elle possue.
As suas camellias são tão frescas e tão carnosas que temos a impressão de que, se as tocassemos, ellas amareleciam tal qual as naturaes. Os seus chrisanthemos, na variadissima e arrevesada forma das suas petalas, parecem sair da tela em contorneações exoticas, envolvidos no tal ether em que fallei mais acima.
E as suas rosas, d'uma frescura e d'uma suavidade unica, ora aveludadas como seios de mulheres lindas, ora transparentes como gottas de orvalho, são admiraveis; parece até exalarem, em delicias, o aroma que lhes é tão caracteristico.
Em todas as suas flores emfim, existe o supra-summo da verdade e da perfeição...
Ao olhal-as não nos julgamos em frente d'um quadro, julgamo-nos n'um jardim...
Mas não são só flores que elle pinta deliciosamente. As fructas,
tambem são tratadas por este artista com o mais desvelado e carinhoso amor.
Conheço alguns quadros n'este genero que são um verdadeiro assombro.
Melhor do que eu porém fallam as gravuras publicadas no Portugal Artistico, reproducção de alguns quadros de Antonio José da Costa.
E julgo ter assim cumprido o meu dever de homenagem a um artista respeitado e querido.
1904.