Notas d'arte
XVIII Novos quadros de ARTUR LOUREIRO
XVIII
Novos quadros de ARTUR LOUREIRO
I
Os quadros que n'este momento se acham expostos no atelier do delicado artista Arthur Loureiro, devem ser vistos com attenção, porque esses trabalhos fazem resaltar rapidamente todo o segredo emotivo. Não são como certos quadros que precisam para serem comprehendidos uma intuição especial e definida.
Arthur Loureiro
Arthur Loureiro
Não, nas telas de Loureiro logo nos resalta clara e ridente a verdade, tendo o grandioso merito de se incutirem no nosso espirito pelo espectaculo de linhas e de côres harmoniosas, de leves sensações, lembranças e sonhos que se misturam pouco a pouco com o prazer da impressão visual.
Arthur Loureiro, inegavelmente, é um grande artista, e embora alguem não goste d'isso, é d'aquelles que aferrado ao seu trabalho lucta lealmente, sinceramente, na ideia firme e correcta de mostrar que sabe e que tem fundos recursos para grandes e luminosos emprehendimentos.
Loureiro, embora o julguem um triste, um melancholico, não é d'aquelles que preferem o aroma resinoso dos bosques e o perfume das flores, na doçura d'um crepusculo, na hora em que a nossa alma sobe tristemente ás regiões do ideal, e que os objectos se descoram e a paisagem toma uma attitude recolhida e quieta!... Não, elle verdadeiro filho do norte, onde as raparigas, vermelhas como romãs e os rapazes, valentes como heroes, cantam poemas sublimes de amor e de luz, n'uma musica altisonante e harmoniosamente alegre, elle, ama mais o grande sol de luz intensa e forte e o sussuro que nos dá a nitida impressão da vida e do trabalho.
E tudo isso se vê nos seus quadros, n'esses cincoenta trabalhos expostos, que são, como já o disse um meu collega da imprensa, como que provas definidas para um concurso de Arte. Com aquelles documentos, Loureiro affirma que em todos os generos de pintura é um mestre. No retrato, na paisagem, na marinha, no estudo d'animaes, no genero decorativo, em todos elles o nosso artista se nos apresenta verdadeiramente grande. E senão, á vol d'oiseau, rapidamente, vejamos: Os tigres que anatomia e que correcção; como se desenha tão nitida e tão visivelmente o traço de todo aquelle animal n'uma postura molle de traição e de força. Como vemos através d'aquelle olhar felino e do aveludado da sua garra, a indole perversa que d'elle se acolhe. E com que verdade estão tractados aquelles olhos brilhantes e magoadores, d'um outro, que por traz do que está no primeiro plano, parecem fitar o espectador, na esperança de filal-o, n'um salto rapido e traiçoeiro. É inegavelmente um d'estes trabalhos que só por si fazem o nome laureado a um artista.
Estudo decorativo. Simplesmente soberbo e encantador. Entre flores, envolvendo-se n'um veu de gaze transparente e lucido, sae como uma deslumbrante rosa, toda viço e frescura, uma linda creança, encantadora e meiga como um anjo, tendo na mão uma haste de flores-saudades. N'um fundo rutilante de luz, como na aureola ridente d'uma fresca manhã de Agosto, destaca essa linda figura. E como foi desenhada e como foi executada. Alma de poeta, d'esses poetas que cantam as manhãs claras do sol e os rostos lindos das raparigas, foi a que concebeu aquelle quadro e que o executou. Nada mais...
O retrato do Chico Anthero.—Perdão, doutor, tratal-o assim, mas, francamente, quando olhei para o seu retrato não pude respeital-o e pedi-lhe que contasse uma d'aquellas suas historietas. Não contou, mas é tal a semelhança, tal a expressão, tão seu aquelle modo e tão psychologicamente estudado aquelle quadro que me pareceu mesmo ouvil-o a larachear e a rir.
Retrato de Sá d'Albergaria―Pintado por Arthur Loureiro
Retrato de Sá d'Albergaria—Pintado por
É um primor de execução, é um assombro de correcção.
Retrato do dr. Julio de Mattos.—Bello trabalho feito na largueza subtil d'um quadro d'arte, não com a preoccupação d'um retrato para galeria de definidores da ordem terceira, mas um retrato intimo, que temos no nosso gabinete de trabalho, ou no nosso quarto, retrato para nós, para consolo da nossa alma e dos nossos. Tal é o retrato do dr. Julio de Mattos, que incompleto como está, já mostra que ha-de ser um quadro tão bello, tão bem feito como o do Chico Anthero.
O retrato do dr. Magalhães de Lemos tambem é um bello trabalho.
Ha mais dois retratos de senhora, dois estudos, como Loureiro lhe chamou, mas que são dous primores. Loureiro adoptou para os seus retratos uma fórma e um tamanho especial o que lhe dá uma gracilidade gentil e meiga, deixem-me assim dizer.
Em quanto á Paisagem muito teria que dizer se podesse alargar este artigo, mas como me não é possivel n'este momento, limito-me a fallar dos seguintes quadros:
Rua do Meio.—Da vulgaridade d'uma rua, com casas de um lado e d'outro, e uma egreja no primeiro plano, teve Loureiro a habilidade de fazer um dos seus para mim mais interessantes quadros.—E porque? perguntará o leitor. Outro qualquer o faria...—Mas não fazia. Para isso é preciso saber-se vêr e vêr muito bem, conhecer mil pequenas cousas e transplantal-as para a tela com uma especial pericia e arte... d'onde se conclue que aquella rua não é como não é uma coisa chata, sem relevo. Aquella rua é um quadro e dos mais interessantes.
Montanhas da Galliza, Corgo, Monte de Santa Tecla, Alto de Santo Antonio, Barra de Caminha. Tudo isto são retalhos sublimes da natureza, que Loureiro transplantou á tela com uma verdade flagrante e uma technica segura.
Fecho por aqui este meu despretencioso artigo fazendo apenas uma leve consideração. Ha no nosso Muzeu quadros de quasi todos os pintores portuenses, mas não vimos ainda lá nenhum de Arthur Loureiro. Agora, como nunca ha occasião para que a Camara do Porto, que parece se interessa um pouco pelas cousas d'Arte da nossa terra, compre um quadro a Loureiro para o Muzeu Municipal.
E porque não ha-de fazel-o!?... Tem este artista dois quadros que estão a pedir transplantação para logar, onde todos os possam apreciar condignamente e são: os Tigres ou Por montes e vales.
Cumpre á camara do Porto este dever de gratidão para com o artista distincto, que após 20 annos de ausencia, volta a Portugal cheio de Arte a glorificar-nos com os seus trabalhos.
II
ARTHUR LOUREIRO
Nada ha que mais me enthusiasme e me anime, do que saber que ainda ha, quem, dentro da esphera da Arte, tenha iniciativas e emprehendimentos de coisas uteis e aproveitaveis, sem mira a vanglorias ou a fabulosos lucros, unica e exclusivamente pela Arte.
Ha annos, todo eu me enthusiasmei, quando meia duzia de artistas, homens de lettras e amadores, tentaram crear no Porto uma sociedade de Arte, que infelizmente, como todas as coisas uteis, cahiu ao tentar elevar-se; digo mais, morreu de morte affrontosa ao nascer.
Depois, perante a iniciativa do Instituto de Estudos e Conferencias, que parecia vir dar a nota correcta de que as exposições d'Arte seriam verdadeiros concursos de trabalhos definidos de artistas, tambem me enthusiasmei, porque imaginei que, com os elementos de que elle dispunha poderia fazer muito melhor do que o que tem feito, se bem que tenha feito alguma coisa.
Apparece depois um sr. Magalhães, que não conheço, em communicados nas gazetas, a dizer verdades amargas a respeito do Palacio de Crystal e a reclamar para aquellas duas alas lateraes, que foram em tempo bazares, escólas de pintura, de lavores femininos, etc., emfim, reclamando o aproveitamento d'aqnelles dois esplendidos atelieres em alguma coisa de util para a Arte... Mas, infelizmente as verdades que o sr. Magalhães dizia, ficaram perdidas como perolas em chiqueiro de porcos, porque a gerencia do Palacio de Crystal achou mais util tel-os assim vasios, do que aproveitados em qualquer coisa... Assim, podia em noites de spleen, passear n'ellas, como a sombra do Hamlet, sem tropeçar em qualquer coisa que tornasse o Palacio interessante ao publico, mais do que os macacos e o sr. Vieira da Cruz!... E essa idéa, como era boa, morreu, n'um significativo desprezo por parte dos interessados no rejuvenescimento do Palacio de Crystal.
Veio por fim Arthur Loureiro, esse laureado artista que todos nós conhecemos, pelo seu talento, e lança a idéa de uma escóla d'Arte, tal como ellas são no estrangeiro. Lucta com mil difficuldades ao principio para poder realisar o seu plano, e eu ao saber do seu emprehendimento todo me enthusiasmo um momento, para pensar logo em seguida que a sua idéia ha-de morrer, como morreram todas as outras. Mas, tal não succede; Arthur Loureiro se no fundo é um bom portuguez e um genuino portuense, vem saturado d'essa convivencia de vinte annos com os inglezes, gente que tem tanto de aventureiros como de previdentes. Debaixo d'essa esplendida orientação Loureiro cria a sua escola de pintura para senhoras e não desanima, confiado em que querer é poder.
Retrato do dr. Francisco Anthero―Arthur Loureiro
Retrato do dr.
Francisco Anthero
E hoje é elle o unico artista que, no nosso meio, realisa este grande melhoramento, em prol da Arte: ter uma escola onde vão os seus discipulos, n'uma confraternisação artistica, tomar as sábias lições que elle lhes dá com a sua proficiencia e saber.
E, com que arte, e com que cuidado, elle soube transformar uma sala fria e desconfortavel n'um atelier, que se não é um especimen, é no entanto um delicado recinto onde o gosto decorativo do artista se casa perfeitamente com a severidade das paredes, onde pousam como scintilantes fulgurações de genio, trabalhos, estudos e composições do professor, de mistura com gessos de estudo.
Fui ha dias ao atelier-escola, precisamente no momento em que terminavam as lições e as alumnas, fulgurantes de mocidade e alegria, saiam n'um chilrear que encantava. Os cavalletes, espalhados pelo atelier, eram como sentinellas que ficavam guardando os logares das discipulas. Passei-os em revista, cheio de curiosidade e de interesse em notar n'aquelles esboços as disposições de quem os tinha executado. Aqui, desenho dos principiantes, de diversos objectos, taes como garrafas, jarros, pucaros, etc., e onde elles, emquanto desenham, vão tendo noções do que é a perspectiva pratica.
Mais além, estudos de fructas e flores, e entre esses os d'uma discipula que compõe e applica aos tecidos as flores e os fructos que desenha e que pinta do natural.
Outros, desenhos de gessos das differentes escolas, grega, romana e renascença... Mais além, cópias flagrantes a oleo, dos modelos vivos e dos costumes populares portuguezes.
Uma verdadeira escola, methodica e definida, onde os alumnos não copiam os seus trabalhos de modelos que veem de França ou da Allemanha ás grosas, mas sim do natural; estudando desde as mais rudimentares noções de traços e linhas, até aos intrincados problemas da perspectiva, sós por si, apenas com as indicações do professor.
São tambem para notar as pastas carregadas de estudos que os discipulos executam em casa, após as lições, e que são documentos irrefutaveis do bom aproveitamento d'este systema de ensinar o desenho e a pintura.
Entre os discipulos de Loureiro, ha um que se torna notavel, porque com 48 lições apenas, uma cada semana, tem feito maravilhosos progressos. D'este discipulo, já eu tive occasião de fallar, quando em tempo dediquei duas linhas a uma exposição que Loureiro fez e em que appareceram alguns estudos d'elle.
Ha tempos, porém, quando visitei o atelier-escola, tive uma boa occasião de vêr de novo trabalhos seus feitos alli: uma bella copia a oleo do gesso, correcta de execução e de desenho e mais uns trabalhos que elle fizera fóra da escola, em passeio d'Arte pelo campo e pela praia. Havia uma marinha bem tocada, e uma
paisagem delicadamente pintada e superiormente estudada e desenhada, não fallando n'um interessante quadro de camelias, que me encantou. Talvez porque eu gosto muito de flores, e aquellas estavam tão frescas, que me fizeram uma magnifica impressão.
É elle o sr. Manuel Lucio um dos amadores que, se continuar assim, mais brilhantemente poderá affirmar o que se tem dito de Loureiro:
que se é grande como artista, não o é menos como professor.
Mas, voltemos á escola. Tem ella sobre todos os outros atelieres a grande vantagem de estar installada nos jardins do Palacio. Quando a primavera, ridente, enche aquelle recinto de flores e de sol, cá para fóra, para o ar livre, vem os discipulos, e, ou recolhem nas suas telas as flores lindas e frescas e os pontos de vista deliciosos que d'alli se disfrutam, ou estudam e pintam pequeninos recantos do jardim variados e bellos. E tudo isto realisa Arthur Loureiro, não sem largas e complicadas difficuldades, que felizmente elle vê cobertas de bom resultado, se bem que com pouco interesse.
Ao vir-me embora depois de ter dado os meus parabens sinceros ao professor pela sua iniciativa, pensava em como aquelle bello recinto do Palacio de Crystal poderia ser aproveitado para tanta, tanta coisa util, em vez de jazer ignominiosamente alli, mudo e sinistro como um crime.
E que tudo isso se poderia fazer se quem o dirige, visse mais alguma coisa do que umas reles exposições de flores e aves e do que umas festarolas de arraial com musica do Zé da Gaita e fogo d'artificio do Devezas!...
Tigres―Arthur Loureiro1
Tigres—
III
ARTHUR LOUREIRO A B -A
Ha tempos n'uns bem elaborados artigos da Voz Publica, alguem, que eu não sei quem é, veio apresentar a ideia de que Arthur Loureiro deveria ser professor da nossa Academia de Bellas-Artes.
Achei tão acceitavel e tão util para a Academia essa ideia, que n'este momento em que me tenho de occupar da sua exposição de quadros, entendi dever acompanhar na sua propaganda quem tão desinteressadamente a apresentou. Não é que eu venha a campo combater afincadamente em favor d'este artista, não, venho só como mero espectador do grande palco da vida applaudir quem soube apresentar a ideia.
Arthur Loureiro foi um dos mais distinctos discipulos das nossas academias de Bellas Artes e tem a sua folha de bom profissional, resplandecendo de brilho e cheio de gloria immoredoira.
Não foi no seu paiz natal que elle se completou em arte, foi no estrangeiro, nas grandes terras onde ser-se pintor não é uma mera galanteria de gente fina; foi nas terras onde se faz da Pintura alguma coisa mais pratica e mais definida do que entre nós.
Voltou tarde á patria, vinte annos passados sobre o seu curso. Quer isto dizer, que elle vem mais senhor do metier do que aquelles que meramente se demoram lá por fóra uns tres ou quatro annos. É certo que muitos que estudaram no estrangeiro nem sempre ao voltar veem mais vigorosos e mais trabalhadores do que quando partiram. Mas elle não.
Arthur Loureiro, foi unicamente para trabalhar e affirmam-no exuberantemente os cargos que por lá occupou distinctamente, taes como:—examinador das classes de Arte da National Gallery of Victoria, e director e professor de 1.ª classe dos cursos de Dezenho e Pintura do Presbiteriam Ladier College em Melbourne, na Australia.
Só no mundo―Quadro de Arthur Loureiro
Só no mundo—Quadro de
Ora estes cargos dados a um estrangeiro, a um portuguez, o que affirmam é o que o seu nome era ali conhecido e que estava á altura de occupar esses logares com toda a hombridade e todo o saber. Mas ha mais, quando terminou o seu curso em Portugal foi classificado para pensonista em Paris, onde fez uma larga e profunda aprendizagem d'arte.
Concorreu a muitas e variadas exposições, onde os seus quadros foram sempre apreciados como mereciam. Entre esses deveremos notar como primordiaes a Exposição Religiosa da Belgica onde o seu quadro, A Visão de Santo Stanislau de Kastka, foi acolhido com enthusiasmo por toda a critica, e muito especial referencia mereceu ao celebre critico religioso, l'Albé Moeller. E ainda em Londres, onde concorreu, a convite, á Greater Britian Exibition, em 1899 e foi recompensado com diploma d'honra e medalha de ouro. Ha pouco foi elle eleito Academico de Merito da Academia da Victoria, em Melbourne.
Vê-se bem claro, por tudo isto, que Arthur Loureiro era considerado e muito, lá fóra, como um verdadeiro artista que é.
Estou d'aqui a vêr a balburdia que vae no nosso meio artistico por estas minhas despretenciosas notas, mas não são ellas mais do que o desejo de provar que o homem está á altura de occupar um logar de professor na nossa Academia.
Porque estou bem certo de que elle, chamado a dar provas publicas do seu saber artistico, ellas serão convincentes.
Se elle é um grande artista, não é menos um grande trabalhador, incansavel; trabalhando, quer em quadros para expôr e vender, quer dando lições áquelles que desejam bem conhecer a arte de pintar, no seu atelier, no Palacio de Crystal Portuense. N'esse mesmo atelier já por varias vezes tive o prazer de visitar exposições organisadas por elle.
Ali me mostrou elle que embora longe de nós por tanto tempo, não se deshabituara das côres e da luz da nossa boa terra. Não veiu inebriado com o nebulozo da Escocia, com o cinzento da França, nem com o vermelho violaceo da Italia.
Veiu isento de escolas, preoccupando-se só com o que via na natureza tal qual ella se apresentava, vibrante de luz se o sol espadanava rutilantemente no espaço, nebuloso e triste, se a nevoa cobria a atmosphera e a paisagem que pintava.
Era como que o executor da verdade tal como ella deve ser. Era, emfim, um paisagista perfeito e definidamente portuguez.
Pois bem, todos ahi viram as suas recentes exposições, e que eu saiba, ainda ninguem amesquinhou o seu muito merecimento; pelo contrario todos foram á uma a dizer que elle tinha valor. A critica, que deve ser sincera e justa, não teve por onde o atacar, nem veiu dizer d'elle senão que era bom, por isso a sua entrada como professor de paisagem na Academia de Bellas Artes, do Porto, deveria ser acolhida por todos os professores e alumnos com enthusiasmo, se bem que a nossa Academia não seja para largas manifestações.
Mas deixemos agora o artista para fallarmos da sua ultima exposição.
No atelier de Arthur Loureiro, ha um não sei que de conforto que nos prende. Sob a sua direcção tem-se transformado aquella fria sala n'um bellissimo gabinete, onde se podem passar horas e horas admiravelmente bem. Decorado com simplicidade, mas com um especial cachet de galanteria os seus quadros destacam alli maravilhosamente.
Vou fallar delles, como sei, ou como entendo.
Como nota primordial destacarei o grande quadro, cujo titulo é De aldeia em aldeia e que inspirou ao bello poeta M. Ricca, esta quadra:
Sob a cruz pesada e feia
Da miseria que a consomme
Corre d'aldeia em aldeia, Na Via-sacra da fome.
De aldeia em aldeia―Arthur Loureiro
De aldeia em aldeia—
É um soberbo trabalho, desenhado com cuidado e pintado com amor. Uma velhita andrajosa atravessa um trecho de paisagem, por um caminho encharcado. Que correcção e que luz, verdadeira obra prima que um grande mestre não se envergonhará de assignar.
No pinhal. É um delicioso estudo de pinheiros, graceis e altos com a sua coma dum verde foncé, que parece sussurrar com a aragem que passa.
Mar agitado. Agua deliciosamente tratada e transparecendo atravez d'ella a penedia que ella cobre. Luz deliciosa de grande ar.
Vaga quebrada. É um pequeno quadro em que uma vaga se espadana como champanhe de encontro a um rochedo. Com que vigor está pintada essa molle de agua, que n'um desdobrar vertiginoso e bravo encontra um obstaculo e se desfaz para o ar, como n'um grito de desespero!
Retrato de G. Nogueira. Este retrato é um primor de parecença e de trabalho. Loureiro poz n'elle um cuidado especial e amigo; é uma obra prima.
Nevogilde. Um trecho de paisagem portuense, muito sentida, muito nossa.
Padeira de Avintes. É um delicioso estudo dos nossos costumes populares. Modelo gracil e airoso como são todas as nossas lavradeiras, correctamente desenhado, primorosamente pintado.
Barcos. Um quadrito interessante, onde ha dois barcos que parece boiarem docemente nas aguas mansas do rio, sob um ceu suave d'um azul transparente e bom.
Mais outros quadros ainda, todos elles confeccionados com mestria; alguns estudos de desenho, cabeças rigorosamente estudadas nos seus claros-escuros.
E esta exposição não está a abarrotar de exemplares, mas toda ella comporta coisas lindas e boas.
Ao sahir d'ali, vem-se sob a impressão sincera de que tudo aquillo é nosso, e muito nosso.
Vem-se tão bem disposto, que se fica com o desejo de lá voltar muitas mais vezes.
Paisagem―Arthur Loureiro
Paisagem—
Flora―Quadro de Arthur Loureiro
Flora—Quadro de
IV
M A ARTHUR LOUREIRO
Eu já disse algures que Arthur Loureiro era um poeta na pintura e hoje o repito aqui, no desprendimento sincero de quem o admira pelo seu talento. Os seus quadros são bucolicas de côr e de luz. Ha-os que são como deliciosos sonetos camoneanos. Ha-os que são verdadeiros poemas. As pequenas telas veridicamente portuguezas, com a sua côr e a sua luz d'aldeia, são como cantigas de namorados entre os rumorejos do trabalho campestre.
Arthur Loureiro, talvez, porque viveu muito tempo longe da sua patria, ao voltar, como que tentou, n'um largo sentimento de amor patrio, desforrar-se d'aqui não ter vivido sempre. E n'uma subtileza ideal desenhou e pintou a grande alma portugueza, desde a Torre dos Clerigos, até ao mais escondido recanto do Minho. A sua obra é como que o grito sentido do filho prodigo que volta ao fim de muito tempo á casa paterna. E que foi elle senão um filho prodigo da Arte, que andou por terras estranhas a expandir o seu talento em grandes
manifestações, e que ao voltar, um pouco abatido da grande lucta, nos mostrou que, se alguem o julgava já um estrangeiro, a sua alma pulsava no mais sublime enthusiasmo por tudo o que é nosso, por tudo o que era portuguez, desde as suas paisagens até aos seus homens.
E agora mais uma vez fallemos dos seus quadros, e dos do seu discipulo.
Antes porém de entrar na enumeração dos seus trabalhos ahi vae uma opinião.
Na occasião em que eu visitava a exposição entravam ali um grande pintor portuguez (Souza Pinto), um grande actor portuguez (Augusto Rosa), e um grande actor francez (Coquelin Ainé). Pois estes três cavalheiros insuspeitos para todos, depois de larga apreciação aos trabalhos expostos, quedaram-se em frente d'um quadro que ha muito está no atelier A Primavera, e Souza Pinto, esse artista cujo nome resôa no estrangeiro como um clarim de gloria nacional na arte de pintura, disse que se admirava que aquelle quadro ainda não tivesse sido adquirido para o muzeu nacional como um especimen de boa pintura e de soberbo desenho.
Tambem eu teria soltado o meu brado de admiração, se não soubesse que o Estado e as Camaras não teem dinheiro para essas cousas, e só o teem para festejos balofos, para comesainas opiparas
Pinheiros―Arthur Loureiro
Pinheiros
e para bolos rendosos aos afilhados; para mais nada. A galeria nacional de pintura no Porto é talvez mais parca do que a do mais pequeno amador. É uma vergonha!!...
Adeante, que vamos gastando muito tempo com considerações philosophicas.
Pois os quadros expostos de Loureiro, são 17 novos e uns 8 já vistos.
Dos antigos nada direi senão que são soberbos, dos modernos, d'esses alguma coisa mais escreverei. Entre todos ha um que me encanta profundamente. É O Pinhal!... Um dia ouvi dizer a alguem que o pinheiral era um motivo que não dava nada na pintura, pela sua fórma, pela sua côr e pela sua uniformidade. N'essa occasião, não me quiz manifestar, eu não sou pintor e não queria cahir em erro deante de quem tinha obrigação de conhecer o assumpto melhor do que eu, mas, cá para mim mantinha a minha opinião formada; o pinheiro presta-se á pintura, a questão é sabel-o desenhar e pintar. E Loureiro com o seu quadro Pinhal veiu completamente preencher a minha modesta opinião. Alli, n'aquella tela esguia, sob a correcção impeccavel de desenho, erguem-se uns pinheiros, que parecem balançar sob a pressão do vento que passa assobiando na sua ramaria.
A Feira Nova—É uma delicada pochade verdadeiramente caracteristica do que são as nossas feiras no Minho, sob barracas de lona branca, que se prendem aos troncos das arvores, com o borborinho de centos de lavradores e lavradeiras, acotovelando-se na furia de serem os primeiros a vêr o que ha alli para vender.
A Carvalheira—Uma larga arvore de folhas amarellecidas que começam a cahir sob o ventinho frio do inverno; é deliciosamente estudada.
E a Desfolhada, e a Estrada do Gerez (sob a chuva), as Alminhas e o Caminho de Besteiros—e todos elles, emfim, como são tão verdadeiramente nossos, tão sentidamente portuguezes, verdadeiramente minhotos, nos seus verdes inconfundiveis, na sua luz inimitavel.
Entre as tres cabeças de estudo, ha duas de uma velha, que são um encanto. Traçadas na meticulosidade de pormenores, são feitas largamente com pulso de quem é um verdadeiro artista.
Além dos trabalhos do mestre, que são como sempre magnificos, tomando uma das paredes do atelier, estão os trabalhos do discipulo, do snr. Manoel Maria Lucio Junior, que ha unicamente um anno, estuda com Loureiro, desenho e pintura.
Aos meus collegas da imprensa, como que tem passado despercebido o trabalho d'este amador, que entra agora no nosso meio artistico. Ora eu, que inegavelmente sou o mais incompetente dos apreciadores dos quadros, sempre lhe quero dispensar duas linhas.
Manuel Lucio é um rapaz da nossa fina sociedade, que todos nós conhecemos como sendo um dos elegantes da nossa terra.
Durante muito tempo julguei-o um bon vivant, dedicando unicamente o seu espirito ao talho d'um veston ou ao feitio de uma gravata. Um dia, porém, entrando a visitar Loureiro no seu atelier-escóla encontrei lá este cavalheiro dando lição de desenho. Acabada a aula, Loureiro mostrou-me trabalhos de varios discipulos e abrindo uma arca artistica que elle ali tem, tirou de dentro varios desenhos e disse-me:—são feitos pelo Lucio, é um rapaz de habilidade.—E de facto os desenhos que elle apresentou, revelavam uma certa disposição para a Arte.
D. Adelia Ramos : Discipula de Arthur Loureiro
D. Adelia Ramos
Discipula de
Arthur Loureiro
Passaram-se tempos, o mestre foi para fóra e ao voltar encontrou-se em frente d'um discipulo que lhe dá honra, porque Manuel Lucio, dotado d'uma vontade de ferro em conhecer o methodo de desenho e de pintura tem trabalhado denodadamente e tem conseguido com isso e com as bellas indicações do professor o que muitos com idas ao estrangeiro não tem conseguido.
Quatorze são os trabalhos expostos por este intelligente discipulo de Loureiro. Cinco trabalhos a oleo, cinco pasteis e quatro desenhos a lapis.
Entre os desenhos notarei O Contador, que é uma prova irrefutavel do modo como elle interpretou as noções de perspectiva indicadas; na pintura a oleo notarei os Cravos e um retalho de paisagem, onde as côres e os tons estão bem achados, resaltando os planos da chateza vulgar, propria dos estudos de amadores.
Aonde porém eu admiro a disposição artistica de Manuel Lucio é nos pasteis, especialisando uns Effeitos d'agua, um Poente e um Ceus nublados.
Innegavelmente o discipulo dá honra ao mestre e o mestre deve estar orgulhoso por ter achado, quem tão bem tenha sabido comprehendel-o e tão sabiamente aproveite as suas indicações. E recebam os dous, mestre e discipulo a sincera expressão do meu applauso.