Notas d'arte

António de Lemos · Capítulo 19 de 32

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Notas d'arte

XVII Amadores Portuenses

N'uma bem lançada cruz, que se destaca, em todo aquelle fundo tenebroso da noute tragica do Calvario, pende, deliciosamente desenhado, e admiravelmente tratado, um Christo que nos chama o olhar, n'uma contemplação muda de admiração e respeito.

Que de cousas sentenciosas se poderiam dizer da sua execução? Mas para que fazel-o, se o publico conhece bem o merito artistico do nosso amigo?

E a Camara Municipal do Porto, que parece querer agora fazer qualquer cousa de bom a bem da arte portugueza, acaba de adquirir este bello trabalho, para o museu municipal.

Quando os nossos leitores poderem admirar mais este soberbo quadro de Julio Costa, hão de reconhecer que a apreciação que d'elle faço nada tem de exagerada.

 

Na Cruz―Quadro de Julio Costa

Na Cruz—Quadro de

 

1902.

 

XVII

 

AMADORES PORTUENSES

 

D. MARGARIDA RAMALHO

Discipula de JULIO COSTA

 

Tendo que traçar algumas ligeiras palavras, para as N 'A , a respeito d'uma senhora, que, como amadora, se torna notavel na pintura, devo pedir venia, e formando um bello arco com lyrios e rozas enfeitar esta pagina.

D. Margarida Ramalho

D. Margarida Ramalho

Depois, respeitosamente, com um certo ar á Antiga, pondo um pé atraz, fazer uma reverencia o mais gentilmente que possa, e estendendo a minha forte e grossa mão de trabalhador honesto, pegar levemente nos dedos finos da delicada mão d'essa senhora, e levando-a fidalgamente aos labios, beijar-lh'a, pedindo-lhe licença para lhe dedicar duas phrases desataviadas, n'um pequenino artigo sobre o seu valor como amadora de pintura.

Ella, sorrindo, naturalmente dirá que sim, e então eu começarei a escrever, cheio d'aquelle doce encanto que nos vem d'esses olhos vivos e d'um rosto lindo.

E que isto vá sem ar de madrigal, porque estou velho de mais já para isso, e muito especialmente porque eu já não sou só... Adeante!...

Comecemos pois, nada de perder tempo em rebuscamentos de estylo.

Dentre a multidão enorme de amadores de pintura, multidão cujo calculo é impossivel fazer, ha alguns, não muitos que merecem especial menção, e que devem passar n'estas simples N

'A ao lado dos verdadeiros artistas, como affirmação de que o

talento, acaba por não distinguir uns dos outros.

Não pense o leitor que eu vou transplantar para aqui, todos os amadores de talento que ha na cidade da Virgem. Isso seria impossivel.

Vou apenas apresentar-vos uns dous ou tres, com incitamentos para os outros.

E a aprezentação d'estes amadores, visa a dous fins:—animar os alumnos, na esperança de se verem glorificados um dia publicamente, em lettra redonda e excitar os professores para que desde que encontrem nos seus discipulos aptidões para o desenho e para a pintura, ou esculptura, os obriguem a destacar-se no nosso meio artistico.

Não devem portanto, os que não apparecem n'este livro, vêr da minha parte, n'esta falta, o desejo de os não notar. Não, não é assim; é que nos limites d'este volume não cabem todos, e por isso só aqui aparecem aquelles com quem mais em contacto estou e de quem mais de perto conheço as obras.

Se algum dia porém eu voltar a publicar outro volume como este, então dedicar-lhes-hei uma grande parte d'elle e alli apparecerão todos os amadores, que o mereçam, está bem de ver.

E, não me deixava eu alargar por ahi abaixo em salamalekes para os amadores da pintura, sem me lembrar, quasi, que tinha que dedicar estas paginas a uma senhora?

Queira V. Ex. a desculpar, minha senhora, e entremos no nosso assumpto.

 

—Como foi que eu conheci pessoalmente esta senhora, que de ha muito conhecia de nome?

Vou explical-o.

Ás noutes reuno-me muitas vezes com o velho amigo Julio Costa e discutimos muitos e variados casos. Entre essas conversas muitas vezes nos entretemos a fallar de Arte. N'uma d'essas occasiões, discutindo aptidões de alumnos, Julio Costa fallou-me largamente d'esta sua discipula, que mostrava uma disposição especial definida para a pintura.

Era, não uma d'estas senhoras, que se prendeu em simples bibelotagem d'Arte, mas, que, uma vez dada a estudar, queria ir para deante.

Julio Costa afeiçoou-se a esta discipula e dedica-lhe uma especial estima.

Uma noute, depois d'uma d'essas conversas muito vulgares entre nós, disse-me Julio Costa:—Você sabe, Lemos, fallei em si e na conversa d'hontem á minha discipula de Mattosinhos e manifestei-lhe o desejo que você tinha de visitar o seu pequenino atelier.

—E ella que disse?

—Que poderia ir quando quizesse, que bastava eu ter-lhe dito que tinha vontade que você visse os seus trabalhos, para immediatamente consentir; que eu, como professor, não lhe teria fallado n'ella, se não visse que ella tinha qualquer pequena coisa que merece apenas só vêr-se. E, confessava-me o Julio Costa: dizia isto tão cheia de modestia tão encantadoramente, que você deve lá ir e muito breve.

—Pois vou lá no domingo. E fui. Era meio dia, quando me apeei do electrico, na alameda de Mattosinhos, mesmo á porta da caza onde mora D. Margarida Ramalho.

A caza, com um doce aspecto de frescura, fica alcandorada um pouco acima do nivel da estrada, circundada por um jardimsito bem tractado e onde se ostentam bellas flores.

Das janellas desfructa-se o rio Leça, que indolentemente se espreguiça, n'um dulce far niente, até desaguar lá ao longe no mar, em Leixões. E, quasi em frente das janellas, na alameda, entre a frondosa ramaria das arvores, a figura de Passos Manuel impassivel e serena, n'uma atitude de resignado ante a aluvião de zangãos, que por este tempo de verão se encarregam de zumbir de volta d'elle, como os Passos d'hoje zumbem em volta da sua Memoria.

Perdoe-me a gentil senhora, mas ao apear-me do electrico e ao olhar para aquella figura, fiz estas mesmas considerações.

Pois bem, logo que cheguei subi ao jardim e bati docemente á porta. Veio abrir-m'a uma creadita loura, d'um louro acastanhado.

Perguntei se D. Margarida estava e entreguei o meu cartão de visita.

Voltou dentro em pouco dizendo que sim, que podia passar á sala. Entrei. D. Margarida não se fez esperar. É uma senhora nova, baixinha, magrinha e muito loira, interessante como um lindo biscuit. Recebeu-me o mais amavelmente possivel. Peço-lhe desculpa do meu atrevimento mas o Julio Costa tinha me fallado d'ella com tanto interesse, que tinha immediatamente feito nascer no meu espirito de admirador do bello, procurar ensejo de ir ver os seus deliciosos quadros.

 

Castanheira―D. Margarida Ramalho

Castanheira— .

 

Eram favores, do seu professor, dizia ella. Mas já que tinha vindo então sempre ia mostrar-me os seus trabalhos.

Entrei no atelier, um recantosinho alegre onde ella estuda os seus assumptos e onde os põe em execução, depois de ter em pleno ar livre, feito os esquissos e os precizos estudos.

É no atelier que ella tem os seus melhores trabalhos, pousados artisticamente pelas paredes, todos elles com magnificas qualidades de côr.

Aqui, é um quadro representando uma rapariga á porta d'uma taverna, com uma assadeira de castanhas, n'um taboleiro, castanhas já assadas, e n'um cesto ao lado maçãs. No fogareiro da assadeira ainda restos de lume. A rapariga, d'uns doze annos, olhos azues, cabello louro, poderiamos dizer dourado. Uma expressão dolente, um ar pensativo e triste, talvez, quem sabe? com receio de que não appareçam freguezes e ella tenha que levar tudo aquillo para casa, sem ter apurado vintem. Por detraz d'ella, vê-se uma grande pipa já vazia, no fundo escuro. É um quadro bem tratado, cheio de um intimo sentimento. Alli, uma Cabeça de velho, de barba branca amarellada e chapeu largo, é verdadeiramente interessante, feito com proficiencia, destaca deliciosamente da tela, e sente-se, que se a aragem passasse um pouco forte, aquella barba ondularia fluente e suave. Mais alem, n'uma boa e sã frescura, de moça sadia, uma Rapariga de Villar d'Andorinho, com o seu typico chapeu de maçanetas pretas, irradia vida e côr.

 

Cabeça de velho―D. Margarida Ramalho

Cabeça de velho

.

Outros mais ainda, mas como nota final d'este recinto, um delicioso quadro que intitularei Volta da fonte. Uma rapariga muito esguia e muito fina desce uma rampa trazendo ao hombro um cantaro cheio de agua e isto por um sentimental fim de tarde.

Em todos estes trabalhos se denota uma perfeita orientação, um serio estudo. Vê-se que D. Margarida Ramalho não é uma amadora vulgar, que se atira inconscientemente a executar a pintura, sem primeiro a ter estudado conscienciosamente. Alli ha valores, tonalidades, tons e meios tons, perspectiva, desenho, arte emfim.

Saí do lindo atelier depois de demorada vizita, e de agradavel conversa por onde pude concluir que havia já 7 annos que estudava. Subindo a escada, no patamar encontram-se os seus primeiros estudos em dezenho, dos quaes destacarei como mais notaveis um Perfil de Mulher e uma Cabeça de expressão, de guerreiro. A todos esses trabalhos liga esta amadora uma especial predileção. A convite da illustre amadora entrei depois no seu boudoir, cheio do mais profundo respeito. Este quarto, mobilado com simplicidade, mas fino gosto, mereceu a minha attenção porque as suas paredes são decoradas delicadamente pela sua habitante.

N'um enlevado sentimento de amor pela Arte, D. Margarida Ramalho, entendeu e muito bem, que no seu quarto de dormir ella devia reunir e patentear aos seus olhos alguma coiza que saindo do seu esforço artistico constantemente lhe desse um doce effluvio emotivo e agradavel, e então traçou em largos panneaux, com os seus finos pinceis, deliciosas artemizias e frescas e orvalhadas rozas. Um verdadeiro encanto. Ao tecto deu o collorido azul duma suave atmosphera, como um vago sonhar do ceu. E sobre a cabeceira do seu leito pintou uma linda composição d'aquellas bellas flores—bons dias e boas noites, dentre as quaes pende um formozo Christo de marfim.

Quando o quarto estava completamente pintado, D. Margarida pediu ao seu professor que lhe pintasse alli qual couza que podesse, dizia ella, dar um ar de grandeza áquellas pobres flores. E Julio Costa, querendo ser agradavel á sua discipula porque vê n'ella uma verdadeira fanatica da Arte, e muito e muito a estima, pintou então n'um vão escuro da janella, um Fim de tarde. Numa larga planicie arida e muito extensa, lá ao fundo, o sol cae, e ao esconder-se deixa um tom alaranjado, donde saem fortes e espalhados raios dum vermelho intenso.

E D. Margarida conta-nos tudo isto timidamente. Porque ella é uma timida. Tem um grande respeito pela Arte e esse respeito cria-lhe uma indiscriptivel duvida sobre o seu poder executante d'obras de largo folego.

Fallei-lhe de trabalhos que conhecia de varios pintores e ella, como que se alterava, quando eu lhe dizia, que a achava com forças de tentar obras assim, e só me respondia: Está enganado, eu sei lá fazer tanto!... E apesar disso os seus trabalhos demonstram bem o contrario.

É vulgar, segundo me diz o Julio Costa, ao apresentar-lhe um assumpto para tractar, ella dizer-lhe: Eu não faço isso, porque é muito difficil, muito difficil. Depois, principia a desenhar cheia dum grande escrupulo, sempre com medo de errar, chegando ao fim e tendo executado o desenho e depois a pintura em equilibrio muito estimavel e mesmo muito notavel.

E ella faz isto tudo, porque admira intimamente a Arte e é uma doce adoradora do Bello.

Não se atreve ao mais difficil, sem consideração, sem respeito, treme ante o mais modesto e o mais singelo trabalho, e por isso consegue ser notavel entre os amadores de pintura.

Tinha feito a minha agradavel vizita e ia despedir-me, quando ao passar pela sala de visitas notei um bello piano. Atrevi mais uma pergunta:—Era ella tambem a amadora?... Era, e executando com talento. Rogada então para se fazer ouvir, descerrou o piano, passou suavemente os dedos pelo teclado e soltou lá de dentro um primoroso Nocturno de Chopin, que me deixou no espirito a nota viva do seu grande amor á Musica. D. Margarida é uma virtuose doublé de pianista e pintora.

Disse-lhe adeus, e ao saír para tomar o electrico que me trouxesse ao Porto, abençoava o Julio Costa, que tinha conseguido que eu passasse duas horas deliciosamente.

 

Impressão de Paris―Candido da Cunha

Impressão de Paris— da