Notas d'arte
XXII Notas ligeiras d'uma Exposição
Que Carneiro Junior desculpe este deslizar de cousas a respeito do seu talento artistico e da sua exposição.
E, a proposito d'esta e outras exposições, não será mau repetir que o meu fim não é outro senão vêr se se obriga o publico a interessar-se um pouco mais por o nosso meio artistico. Conheci alguns homens cheios de dinheiro e com pretenções a ter bom gosto, que nunca na sua vida gastaram dez tostões, que fosse, em uma pintura, a não ser na pintura obrigatoria das portas e das janellas da sua casa. Têm, quando muito oleographias ricamente encaixilhadas nas suas salas de receber.
Pois é preciso que esses homens que podem, venham ás exposições, puchem pelos cordões á bolsa, comprem quadros aos artistas que levam uma vida de trabalho e de estudo para nos darem com palpitações flagrantes os retratos que executam, e com vibrações de luz e de côr as paisagens que retalham da grande Mãe Natureza para telas, que poderemos ter no nosso quarto de trabalho, recordando-nos pedaços da nossa querida terra, tão bella de paisagens, tão deslumbrante de sol.
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Notas ligeiras d'uma Exposição
Maio é o mez das flores, dos poetas e dos artistas. E a comprovar o meu dizer lá se abriu n'este mez das graças e das bençãos, a 5.ª Exposição de Bellas-Artes, que a prestante aggremiação Instituto de Estudos e Conferencias, com o seu grande empenho de vulgarisar entre nós o gosto pela Arte, promoveu.
D. Lucilia Aranha Grave
D. Lucilia Aranha Grave
Como simples informador d'um limitado publico lá fui n'essa romagem artistica no primeiro dia, mas, porque me vi rodeado por todos os pintores portuenses, não me atirei a tomar notas, nem a esmiuçar detalhadamente tudo aquillo.
Dois dedos de conversa a este, mais dous áquelle, ouvindo opiniões que passavam no ar, n'um quasi sussurro de confidencias, não podia o meu espirito socegadamente fazer a apreciação sentidamente minha, que eu queria fazer. Depois, eu tenho a veleidade de ter opinião, de pensar só... e não fazer como muitos que se deixam ir na correnteza do que lhe dizem os espiritos santos de orelha.
Eu vou sempre umas tres ou quatro vezes ás exposições d'arte, e fico burguezmente, como um bom mercieiro, estatico deante de todos os quadros... em alguns como n'uma adoração pelo bem executado, n'outros como n'um pasmo, do arrojo da concepção e n'outros então, assombrado, fulminado, ante a imbecilidade com que elles são feitos. E depois, serenamente, sem pretenções, nem vaidades, com a franqueza com que fallaria a um conhecido de ha muito, venho dizer ao publico a impressão que tive.
Paisagem―Aurelia de Sousa
Paisagem— de
Não levo a minha franqueza ao ponto de ser descortez com os artistas que conheço, nem a incensar bajuladoramente aquelles de quem sou amigo: não... sou um critico moderado... sem coterie, e honestamente independente.
O vernisage (eu estou muito visto em termos francezes, não acham?) esteve este anno, como em poucos, animado de artistas...
O salon tinha um quer que era de superior. Os artistas tinham-se dado ali rendez-vous...
Aos grillos―Julio Ramos
Aos grillos—
Uma coisa faltava para dar a nota chic, e fina... eram os rostosinhos galantes d'algumas das nossas damas. Se ellas tem apparecido, poderia dizer n'este artigo com aquelle meu gesto á Augusto Rosa, que o outro me encontrou, que a abertura da Exposição tinha estado muito curiosa, muito becarre.
Faltaram porém essas notas estridulas de garridice das senhoras, mas, em compensação appareceram por lá magnificos tipos caricaturaes e grotescos!... Se até eu estive lá!!!...
Agradou-me á primeira vista o conjuncto do certamen, se bem que de visita mais demorada, como a que em outra vez fiz, não trouxe de lá a mesma impressão.
Ahi está, se eu tivesse feito de afogadilho este artigo teria dito que a exposição era geralmente boa, e agora não, não seria tão pessimista. Recortarei pois do catalogo alguns nomes como os de mais destaque.
Em primeiro logar, e affirmando cada vez mais a caracteristica de um primoroso paisagista, Marques de Oliveira, com as suas trese telas de paisagem e marinha, e ainda como affirmativa de que elle toca com o mesmo saber a nota da figura, uma primorosa Cabeça de velha, tão finamente tratada, tão cuidadosamente desenhada e collorida que me maravilhou.
A seguir vem Candido da Cunha, esse delicioso poeta nostalgico de pintura, que me suggestiona com os seus quadros, poentes deliciosos, onde parece que, atravez d'uma doce tonalidade de aldeia, se ouve o religioso toque das Avè-Marias. É Candido da Cunha um d'estes pintores que ao serem vistos uma vez nos seus trabalhos, deixam ficar na nossa retentiva o seu modo especial de pintar, para nunca mais se esquecer, tal é o seu sentimento.
Paisagem―Candido da Cunha
Paisagem— da
Torquato Pinheiro tambem se nos apresenta bem, com uns nove quadros, que a não ser aquelle seu tom gris-violete, tão seu, tão peculiar, me fariam uma mais larga impressão. Destacarei porém as Lavadeiras na levada, Á vista do Marão, Sol de tarde e Fim de tarde (Real, Porto).
Julio Ramos, tambem nos dá quadros que demonstram o seu saber, especialmente o Fim da tarde, que é, a meu vêr, um explendido trabalho.
José de Brito vem á exposição com dous retratos a oleo, um pastel e algumas aguarellas. Dos retratos a oleo notei como bem executado especialmente o de D. Margarida G. Oliveira.
Lavadeiras na levada―Torquato Pinheiro
Lavadeiras na levada—
O seu pastel—Retrato do conselheiro Avides, é um bello trabalho. Este artista é para mim um dos melhores desenhistas a pastel. As suas aguarellas são bem feitas, muito bem feitas.
João Augusto Ribeiro.—Esse bello artista que conheci como um dos bons, vem á exposição com seis quadros. Destacarei O Estudo (de troncos), Depois da chuva, A Madrugada, que me parecem affirmar d'uma maneira categorica que Ribeiro é um bello artista.
D. Margarida Costa Romão
D. Margarida
Costa Romão
Ha ainda Eduardo de Moura com um quadrinho muito interessante Um interior de um aido, onde o assumpto é estudado com cuidado, e pintado com saber, dando a confirmação de que este artista não é uma vulgaridade.
Mais alguns artistas ha na exposição, mas, para não desviar o espirito do leitor, nem lhe massar a paciencia, não me occuparei d'elles, nem dos seus trabalhos. Não é porque alguns não mereçam a minha attenção especial, mas, tenho que dedicar duas palavras a algumas senhoras artistas, e aos amadores, e se fosse a gastar muito tempo e espaço, pouco poderia dizer d'estes ultimos.
Quando entrei pela primeira vez na exposição, logo me saltou á vista um quadro de Camelias, que eu julguei ser do velho Costa o grande pintor de flores. Aproximei-me e com surpreza vi que não era d'elle, mas, sim de D. Margarida Costa Romão, uma nova que ao apparecer nos diz logo quanto vale. Mas, não admira, lá diz o dictado:—filho de peixe sabe nadar—e D. Margarida Costa é filha de um bello pintor, o Julio Costa. Pois esta senhora com os seus tres quadros dá-nos a impressão sincera de que se continuar, como principia, ha-de ser uma grande artista.
D. Alice Grillo Lima. Já muito nossa conhecida como uma verdadeira artista, tambem d'esta vez se nos apresenta com muita correcção e saber. São bons os seus dous quadros de camelias.
D. Sophia de Sousa, n'esta exposição vem desfazer uma desagradavel impressão que me tinha ficado d'uma exposição anterior. Agora, com pujança artistica, apresenta-me seis quadros, entre os quaes, com uma garridice soberba digna de nota, o seu Ao sol,
Ao Sol―Sophia de Sousa
Ao Sol— de
que é um trabalho largo, definido, cheio de luz, de côr, de transparencia. Uma paisagem e o Margens do Ave, são trabalhos dignos de menção.
Apparecem n'esta exposição alguns amadores entre elles, um com muitos quadros, o sr. Hugemin, que já em tempos fez uma exposição só sua, onde deu provas evidentes de que é um amador-artista de valor.
Entre as amadoras está a snr.a D. Maria Afflalo, que pela primeira vez expõe os seus trabalhos e que fazendo-o prova que tem muitas aptidões artisticas e é uma discipula que honra sobremaneira o seu professor José de Brito.
D. Leopoldina Pinto, com o seu quadro Flores e fructos, apresenta mais uma prova do seu saber pinturar.
D. Maria Afflalo
D. Maria Afflalo
D. Clotilde Rocha Peixoto, é uma discipula da Academia de Bellas Artes que se apresenta com um largo quadro inspirado na deliciosa poesia de Campoamor:
Quién supiera escribir!
É um amplo trabalho executado visivelmente com muita e muita proficiencia. Ha uma das figuras (o padre) que está traçado com correcção e muita propridade.
Poderei affirmar que esta amadora é uma das novas que mais firmemente demonstra que ha-de ser uma bella artista.
Ainda figuram na exposição mais algumas senhoras, taes como: Viscondessa de Sistello, Condessa de Alto Mearim, D. Maria Alto Mearim, D. Beatriz Alto Mearim.
A condessa de Alto Mearim confirma de um modo justificado o seu talento hors ligne na confecção do bello quadro Poveretta.
José Romão Junior
José Romão Junior
D. Beatriz Alto Mearim, apparece com o seu estudo a pastel; tambem lhe não fica a dever nada. É este seu trabalho uma prova incontestavel do seu muito merito artistico.
D. Maria Luiza Alto Mearim apresenta duas cabecinhas interessantes e regularmente bem feitas.
Viscondessa de Sistello, com tres paisagens feitas com conhecimento de Arte, especialmente uma, que é bellamente feita.
Ha na exposição dois trabalhos de esculptura, um de Fernandes de Sá, Rapto de Ganymedes, outro de José Romão Junior, Cabeça de estudo.
A respeito do primeiro artista já eu disse atraz n'um desenvolvido artigo, o que pensava d'elle. Successor indiscutivel de Teixeira Lopes, é um bellissimo talento.
Do segundo, Romão Junior, é a primeira vez que vejo trabalhos seus, e confesso que a Cabeça de velho que apresenta, me dá uma magnifica impressão.
Poveretta―Condessa de Alto Mearim
Poveretta—Condessa de
A figura lançada com largueza tem magnificos requisitos. É uma demonstração evidente de que Romão Junior maneja o cinzel e o escopro com proficiencia. Um novo de talento que, de futuro, ha-de continuar a affirmar que a raça dos esculptores portuenses é das de primeira ordem.
Na secção aguarella só figuram os nomes de dois concorrentes José de Brito, de quem atraz já fallei e D. Isabel Lauer.
Esta ultima com dois quadrinhos de figuras. Para mim não me desagrada o operario, se bem que nenhum d'elles por completo me prenda muito a attenção. Bastante amaneirados e muito exquisitos.
Com desenho a pastel apparecem tambem só dois concorrentes: José de Brito, artista consumado n'este genero, e D. Beatriz Alto Mearim.
Falta fallar de duas secções, ainda: desenho a claro-escuro e arte applicada. Na primeira das secções ha um trabalho delicioso de Torquato Pinheiro, um fino desenho do Convento de Santa Clara de Villa do Conde, trabalho impeccavel de correcção e firmeza.
Luiz Bastos, traz-nos retalhos d'essa linda Coimbra a cidade dos Bachareis, apanhados em estudos varios do Choupal, do Rio Mondego, de Santo Antonio dos Olivaes, etc. Alguns feitos com mestria.
Na arte applicada, Jorge Collaço, o distincto caricaturista do Supplemento de O Seculo. Os seus azulejos são interessantes e dignos de nota, especialisando o grande quadro Reviravolta, estudado com interesse e executado com cuidado.