Notas d'arte

António de Lemos · Capítulo 27 de 32

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Notas d'arte

XXV Manuel Monterroso

XXV

 

MANUEL MONTERROSO

 

Tenho para mim este modo de pensar, talvez exotico, mas convicto, de que a caricatura é um maravilhoso remedio para muitas doenças sociaes.

Bem sei que nem sempre a cura se faz e a caricatura é applicada sem resultados praticos.

Manuel Monterroso

Manuel Monterroso

Mas, muitas vezes, a maior parte d'ellas, a applicação adquada, d'uma caricatura, no momento psychologico, produz tal revolução no meio onde é lançada, que a doença social desapparece como por encanto.

Com todos os remedios acontece a mesma coisa. Quantas vezes um illustre clinico applica um caustico, cheio de confiança, convencido que dentro de duas horas a pelle do doente estará levantada e suppurante, e apesar do medicamento estar em pleno effeito, o caustico falha, ou porque o doente já não dá reacção para que o resultado seja satisfatorio, e n'esse caso está morto, ou então por que a pelle é de tal fórma grossa e callejada que não ha nada que a possa atravessar e remover!

As doenças da sociedade são tal qual as doenças dos homens. E ella propria tambem tem anomalias como qualquer doente.

Uma sociedade morta, ou quasi a dar o ultimo suspiro, póde ser causticada com caricaturas, que não resurgirá. E o mesmo succederá se ella pela desfarçatez dos seus caracteres fôr uma sociedade estanhada, endurecida e callejada. Mas se entre essa sociedade alguma coisa houver ainda que vitalmente sinta as picadas ardentes da caricatura, então ella resaltará e viverá pondonorosamente espurgada do mal que a amortecia e definhava.

 

Dr Leopoldo Mourão

Dr Leopoldo Mourão

Caricatura

de

Publicada na Voz Publica

A mesma revolução se faz na vida social dos homens isoladamente. Caricaturados por um lapis mordaz, mas fino, que os apresente á irrisão publica, sob qualquer dos seus aspectos ridiculos, elles remorder-se-hão na sua vaidade intima e, procurarão, embora disfarçadamente, curar-se dos seus defeitos, se é que o mal da desfarçatez os não contaminou tão intimamente, que os tenha posto por completo fóra da acção benefica, embora torturante do medicamento.

Muitos, muitissimos factos poderiam ser apontados como provas indiscutiveis e irrefutaveis, se quizessemos d'um modo affirmativo e terminante impôr a nossa opinião. Mas, não, não temos nem esse desejo, nem essa vaidade. Ao delinear estas linhas, simplesmente o fazemos como o avant-propos á apresentação que tentamos fazer d'um dos mais distinctos medicos portuenses, e no momento presente o primeiro caricaturista portuguez.

Hoje que infelizmente perdemos o maior de todos os nossos caricaturistas—o grande, o incomparavel mestre—Bordalo Pinheiro, posso dizer abertamente que Manuel Monterroso é entre nós o unico capaz de seguir tão gloriosamente como o Mestre, as suas deslumbrantes pisadas e seu genio fulgurante e radioso.

 

Uma pagina da Parodia―Manuel Monterroso

Uma pagina da Parodia—

 

E, não quero que Monterroso me agradeça estas verdades sinceras que me saltam da penna, ditadas pelo pensamento, espontaneamente, lealmente, taes como as sinto. Não, nem o meu fim é esse. Se lhe dedico algumas palavras é porque na minha pequenez de insignificante amador de Arte, tenho por elle, pelo seu lapis fino e caustico e pelo seu muito talento artistico, uma profunda admiração.

Extasiava-me diante das caricaturas de Bordalo com a veneração adoravel de verdadeiro admirador, do engraçado, do mordaz, do bello e do correcto.

Hoje ante o traço fino, seguro, preciso e mordaz de Monterroso tambem me permitto ficar extasiado. E tudo isto porque o considero um optimo caricaturista, um perfeito desenhista.

Incapaz, como sou, de faltar á verdade, não escrevia que o achava grande, nem o diria tão afoitamente, se não estivesse, como estou, convencido de tal.

Não digo isto, é bom que se saiba, para me dar ares; digo-o porque rebuscando e procurando na pequena galeria dos caricaturistas portuguezes, não encontro nenhum que possa passar-lhe adiante.

João Oliveira Ramos

João Oliveira Ramos

Caricatura de

Publicada na Voz Publica

Nem mesmo o Manuel Gustavo, que ainda assim, para, mim, é um dos melhores.

Pois, nem mesmo esse, que tão intimamente conviveu com o Mestre, que tão de perto recebeu as suas lições, póde dizer ousadamente a Manuel Monterroso:—eu valho mais do que tu... o primeiro logar pertence-me...

Por que de facto não vale. Manuel Monterroso tendo a intuição natural de fazer bonecos, (como elle diz), conhecendo anatomicamente o homem (ou elle não tivesse sido um dos bons

discipulos do terrivel Lebre[1], possuidor d'uma retentiva verdadeiramente photographica, elle, vendo uma vez um individuo, apanha-lhe immediatamente, não só as linhas geraes, mas os mais pequenos detalhes caricaturaes: e, n'estas condições, com estes predicados e alem de tudo isto uma boa dóse de talento, realisa desenhando verdadeiras obras primas.

 

Raphael Bordallo Pinheiro

Raphael Bordallo Pinheiro

Caricatura em barro

de

Fulgurantissimas de graça são as varias paginas, que muitas vezes, de collaboração com os litteratos Campos Monteiro e Guedes d'Oliveira, viram a luz na Parodia.

Notavel como trabalho de verve fina e delicadissima a caricatura que foi offerecida ao Dr. João Pereira Dias Lebre, professor de anatomia da Escola Medica do Porto, no anno em que elle se jubilou.

Notaveis os seus trabalhos, que tem distribuidos por amigos, em amistosas dadivas.

Caricaturas avulsas de typos conhecidos feitas em intimas camaradagens e que o grande publico nunca teve o prazer de vêr, mas que eu conheço perfeitamente bem. Não fallando nas caricaturas que a largos traços de carvão elle lança rapidamente sobre o papel branco que friamente apparece ao publico, quando em algum concerto de caridade elle vem tambem coadjuvar o luzimento d'essa festa, com a irradiação do seu genio repentista e correcto.

N'essas occasiões é que elle tem mostrado mais publicamente a facilidade com que retem e executa o desenho caricatural dos typos apresentados.

A todos quantos tenho visto fazer este genero de trabalho, tenho notado uma coisa: elles ao apresentarem-se em publico trazem já no seu cerebro estudados e desenhados os typos a executar, e assim invariavelmente nos atiram com o José Luciano, o Hintze Ribeiro, o Burnay, o Zé Povinho, o Rei de Inglaterra, o Rei de Portugal e outros personagens, cujo perfil está de ha muito conhecido e estudado, perfis que, a maior parte das vezes, eu mesmo, leigo em desenho e em caricatura, ia desenhar depois de uma leve recordação.

Manuel Monterroso, não faz assim. Uma vez no palco ou estrado, lança a vista por sobre a plateia, e com aquelles olhinhos vivos e penetrantes fóca um individuo. Olha-o duas vezes e em seguida, costas voltadas ao publico elle ahi vae, carvão em punho, traçando, rapida e precisamente o typo que escolheu. É assim que elle faz;

nunca trouxe de casa, no seu caderno de apontamento, as notas typicas dos individuos a desenhar.

Mas, não só como desenhista e caricaturista a lapis ou a aguarella, elle é notavel. Ha alguma coisa mais a notar no meu artista.

Como ceramista tambem é para ser notado e muito.

O Rei da Peça―Caricatura de Manuel MonterrosoO Rei da Peça―Caricatura de

Manuel Monterroso

O Rei da Peça—Caricatura de

Publicada no Primeiro de Janeiro

 

—Ora? dirá o leitor! Como ceramista? Pois não lhe conhecia essa prenda?!

—Nem eu! Mas ha tempos em conversa, a rirmos sobre mil coisas diversas e muito especialmente sobre bonecos, Manuel Monterroso disse-me á queima roupa: Sabe, vou fazer bonecos em barro, caricaturas de outra especie.

—Você está a brincar, disse-lhe eu.

—Não estou, não, verá. E a primeira ha-de ser a do Bordalo (ainda elle era vivo). Dito isto, despediu-se de mim, e, bem contra minha vontade, não o tornei a vêr durante uns poucos de dias.

Nem mais me tinha lembrado d'isso, quando uma bella manhã vejo entrar o Monterroso pela porta dentro com um embrulhosito na mão, dizendo:—Cá está a obra.

 

Os Donos da Casa―Caricatura de Manuel Monterroso

Os Donos da Casa—Caricatura de

Publicada no Primeiro de Janeiro

 

Corri apressado ao seu encontro, obrigo-o a mostrar-me o embrulhito e... ante a apparição que se fazia deante dos meus olhos eu ficava estasiado.

Uma delicada, uma fina maquete da figura em corpo inteiro do grande mestre da Caricatura, apparecia diante de mim, admiravelmente lançada, sabiamente estudada e medida, bellamente executada. Não parecia o primeiro trabalho de um amador, não. Era o trabalho de quem sabe e muito, como o barro se

espalma e se contorna, como se modela e como se vivifica.

 

José Ribeiro―Caricatura em barro de Manuel Monterroso

José Ribeiro—Caricatura

em barro de

 

Não penseis que faço o elogio balofo d'uma insignificancia. Faço simplesmente a resenha verdadeiramente sincera de uma das mais notaveis manifestações do talento do meu querido caricaturista.

Não resisti, abracei-o, felicitando-o e pedi-lhe que continuasse n'aquelle novo systema de caricaturar os homens notaveis do nosso tempo, e do nosso conhecimento. Prometteu-me continuar mas, a sua medicina e os seus muitos afazeres, não tem consentido que os meus olhos possam vêr mais d'aquellas deliciosas obras.

A reproducção em bronze da maquete, em que fallei foi elle, como manifestação da sua muita admiração e amizade pelo grande mestre, levar-lh'a a Lisboa, onde Bordalo, como eu, se extasiou ante a disposição artistica de Monterroso e a execução d'aquelle trabalho.

E, posto isto, posso fechar o artigo porque já provei bem á evidencia que Manuel Monterroso é innegavelmente um rapaz de indiscutivel talento.

Mas, perguntará o leitor: a que veiu aquelle prologo em que se fez jogar a medicina e a caricatura como meios curativos da sociedade e das gentes?!

Eu explico. É que se não tivesse gasto tanto tempo ainda vos havia de dizer como é que o Manuel Monterroso póde ser ao mesmo tempo um grande caricaturista e um bello medico. Isso porém fica para segundas leituras.