Notas d'arte
VI Esculptores Portuenses
VI
ESCULPTORES PORTUENSES
FERNANDES DE SÁ
Uma das manifestações mais vivas da arte é a esculptura. Esculpir em marmore ou em bronze a figura de um individuo, é, como que, deixal-o por toda a vastidão dos seculos á admiração, ao respeito ou á saudade dos seus concidadãos ou dos seus amigos.
Fernandes de Sá
Fernandes de Sá
É a nota constantemente vibrante de uma individualidade. Mais duradoura do que a pintura, é ella que, arrostando nos logares publicos com a intemperie dos tempos, mostra aos que passam um capitulo da historia dos povos, um acto de alta philantropia, ou a saudosa recordação d'um ente querido que a morte nos roubou.
E não é só isso; empolgando o nosso espirito, dá a concepção perfeita d'uma ideia genial que o artista quiz vivificar, dando á dura e informe pedra ou ao frio bronze a pulsatibilidade da natureza viva.
A esculptura, na sua larga e educativa esphera, desde o poema grandioso da patria, nos heroes que faz reviver, até aos santos, que a religião faz venerar nos altares, com a larga escala de mil variadas manifestações, é uma das mais difficeis, se não a mais difficil de todas as manifestações artisticas.
E d'ahi o insignificante quociente de esculptores, em relação aos pintores.
E, todo este preambulo para vos dizer, que visitei hontem a exposição de esculptura, que o notavel estatuario Fernandes de Sá abriu no seu gracioso atelier da rua de Alvares Cabral, d'esta cidade.
Este moço esculptor, cujo nome não é já uma esperança, mas sim uma affirmação segura, dá-nos, com a exposição dos seus trabalhos feitos aqui e em Paris, a demonstração mais definida e assente, de que é um d'aquelles artistas que mais futuro teem, dentro da sua especialidade.
Não o queremos collocar a par do grande, do genial Soares dos Reis, mas pomol-o aproximadamente no mesmo plano de Teixeira Lopes; depois, elle é novo e tem uma vontade de ferro;
Desafio―Fernandes de Sá
Desafio— de
ora estes dois bellos elementos, a mocidade e a energia, juntos ao seu grande talento e ao seu muito saber, dão-nos a garantia de que elle ha de fulgurar, como um astro de primeira grandeza, na sublime arte de Milo.
Fernandes de Sá, a continuar assim, não ha-de ser notavel só entre nós, ha-de sel-o tambem lá fóra, no estrangeiro. E bom será que assim succeda, para que no mundo civilisado se faça a verdadeira justiça aos nossos artistas e se não pense que isto aqui é uma terra de selvagens.
Mas, deixemos estas divagações e entremos no assumpto que me proponho expôr: Notar as obras que Fernandes de Sá expõe, e isto ao de leve, como quem quer e não póde, por falta de elementos, embrenhar-se em philosophicos problemas d'arte.
Dezoito são os trabalhos expostos, qual d'elles o mais empolgante, qual o mais bem executado.
Camões (estatua em marmore de Carrara)―Fernandes de Sá Camões (estatua em marmore de Carrara)— de
Desde o largo trabalho—Camões—até á pequenina cabecita da galante—Bébé—todos elles são soberbos e dignos de especial menção.
Camões, estatua em marmore de Carrara, destinada ao Museu de Artilheria de Lisboa. Após o naufragio, o grande epico portuguez salva, n'um heroico esforço, a sua espada e o seu poema—eis o assumpto representado por esta bella estatua. N'uma attitude de desesperada ancia, o corpo fidalgo de Camões, sobre uma rocha, a mão direita crispada agarrando-se a uma saliencia da penedia, na esquerda a espada e o poema sobre o coração, parece escorregar, resvalando na voragem da onda, que n'um desespero revoltoso se quebra de encontro áquella molle de marmore. Sublime de concepção. Na figura elegante e adelgaçada de Camões ha linhas d'uma senhoril fidalguia.
Tratado aquelle marmore com o encanto e o amor d'um verdadeiro portuguez, o esculptor não perdeu uma minudencia, por mais pequena que fosse. Tudo estudado com perfeita segurança, com verdadeira mestria, desde a musculatura reteza e vigorosa d'um desesperado em lucta com o mar, até ao desalinho da roupagem, tudo elle viu, tudo elle estudou conscienciosamente. E, fugindo da vulgaridade das concepções sobre este thema, Fernandes de Sá realisou—segundo o nosso modo de vêr—uma obra genial.
Rapto de Ganimedes, é um grupo em gesso, que vós já conheceis de quando esteve ahi exposto na Exposição da Sociedade de Bellas-Artes, onde mereceu a segunda medalha, tendo já adquirido a terceira medalha na exposição de Paris de 1900.
Beijo Materno, (grupo em gesso). Verdadeiro poema de amor maternal. Uma linda mulher, deliciosamente esculpida, sustendo no collo um formoso bébé, que ella beija n'uma subtil ancia de ternura. Foi este o seu trabalho final para o concurso de esculptura em Paris, como pensionista do Estado. É um encanto.
Vaga. Este gesso é d'uma bella idealisação. Uma formosa mulher, completamente nua, de linhas primorosas, pousa sobrenadando nas ondas revoltas d'um profundo mar e reclina-se docemente, como adormecida ao marulhar da agua. Ao contemplal-a deu-nos o coração um baque e confrontando na mente a mnemonica de quadros vistos, lembrámo-nos d'um, que nos pareceu a reproducção em pintura d'aquelle soberbo trabalho, e no nosso espirito ficou como que um espinho a esse respeito. Alguem, mal intencionado, poderia dizer que José de Brito tinha ido alli beber a sua inspiração e o modelo para o seu quadro A Vaga. Nós não nos abalançamos a tanto, nem isso queremos pensar sequer, porque José de Brito é um grande pintor...
Beijo materno (grupo em gesso)―Fernandes de Sá
Beijo materno (grupo em gesso)— de
Dois bustos, em marmore que são a reproducção exacta das pessoas que representam.
O retrato do dr. Correia de Barros, é um trabalho bem feito, cheio de verdade e de vida.
Ha tambem uma Cabeça de velha, que é primorosa.
No Pobre (bronze dourado) e no Desafio (bronze) ha flagrancias de expressão, detalhes minuciosos de execução, que revelam o cinzel subtil, consciencioso e correcto de quem os executou.
Ah! Mas, onde se revela o coração delicado e a alma poetica do moço esculptor, é no grupo Irmãs. Que soberba obra! Com que carinho, com que amisade não foi executado aquelle gesso!
Vê-se que o artista poz alli toda a sua alma de moço e de moço apaixonado. Aquellas duas raparigas, d'um olhar meigo e terno, que o estatuario delineava, com certeza emquanto elle trabalhava cobriam-no com os seus doces olhares n'uma caricia amiga de irmãs. Alli poz elle toda a sua alma lyrica, como no Camões, poz toda a alma patriotica.
Ha tambem uma Cabeça de velha (bronze dourado), muito bem feita.
Notavel tambem um Estudo em barro, coberto com patine verde que lhe dá um tom de novidade. O assumpto é uma cabeça de mulher do povo, com o seu lenço. Nas linhas de aquelle rosto ha muita verdade, e um tal ar de languidez, que logo se nota que dentro da alma do modelo havia um certo quê de pena ou de saudade.
E tudo isto é lindo e tudo isto é bello, não esquecendo fallar nas cabecitas de creanças que lá vimos. Deixei para o fim isto, porque tendo eu uma predilecção especial por creanças, comprazia-me todo em ser n'ellas que fallasse por ultimo.
São quatro estes trabalhos: Cabeça de creança, Bébé, Beija-flor, Estudo de creança.
Que encantadores! Com que amor elle não esculpiu no frio marmore aquellas quatro perolas, aquellas deliciosas creanças, que são mesmo um primor!
Uma vez, n'uma exposição que Teixeira Lopes fez no pateo da Bolsa, havia lá um bébé, o retrato d'um sobrinho d'elle, e eu, estando alli só, não me furtei ao desejo de o beijar e beijei-o, tal era o seu encanto.
Pois quando visitei a exposição de Fernandes de Sá, se lá me visse só, posso affirmal-o, beijava todas essas creanças n'uma infinita alegria, porque as julgava vivas. São realmente uns delicados e subtis bustos, que me deslumbraram.
E eis em meia duzia de linhas a noticia da visita que fiz, por uma linda manhã, ao atelier de Fernandes de Sá, onde a luz forte do sol, coada atravez dos brancos transparentes, n'uma doçura meiga, fazia resaltar os marmores esculpidos, como n'uma luminosa penumbra de sonho.
E permitta o moço esculptor, que tão gentilmente nos recebeu, e com tanta modestia nos apresentou os seus gloriosos trabalhos, que lhe digamos que o seu talento lhe dá direito a mais um pouco de
orgulho, e não a querer deixar-se ficar na modestissima sombra dos que pouco valem. O seu nome e a sua obra, repito, não são uma esperança, não; são uma affirmação segura de que elle é um dos primeiros estatuarios portuguezes.