Notas d'arte
XIX Amadores Portuenses
1903 a 1904.
XIX
AMADORES PORTUENSES
MANUEL MARIA LUCIO JUNIOR
Discipulo de ARTHUR LOUREIRO
O Arthur Loureiro é um velho rapaz, pintor d'alma e
Manuel Lucio no Atelier de Arthur Loureiro
no Atelier de
coração, trabalhador infatigavel, cavaqueador ameno e interessante, amigo dedicado, e, acima de tudo isto, professor consciencioso e sabedor.
Ora eu, que gosto de passar bem o meu tempo, vou muitas vezes, e especialmente aos domingos, ao Palacio de Crystal, dar dous dedos de cavaco ao Arthur Loureiro, no seu delicado e interessante atelier. Appareço alli por volta da hora e meia. É quando elle acaba de dar lição ao Manuel Lucio, que, quasi sempre, quando eu entro ainda lá está dentro, com a sua blouse vestida, paleta em punho, dando as ultimas pinceladas no modelo que copia.
Outro dia, copiava elle uma velha; quando entrei, estava já limpando os seus pinceis e a paleta para se ir embora.
Nas faces de Arthur Loureiro pairava um alegre sorriso de satisfação.
Que se teria passado de extraordinario para que elle estivesse tão sorridente?!... Alguma boa nova da familia ausente, ou grande bem estar na sua delicada saude?!... Talvez as duas coisas juntas!? Quem sabe?...
—Esperemos os acontecimentos, disse eu commigo, avido, no entretanto de conhecer o motivo d'aquella intima alegria. O que fôr soará, pensei, porque o Loureiro com a sua peculiar franqueza, não occulta por muito tempo o motivo que o faz estar assim satisfeito e alegre. E assim foi...
Mal o Lucio saiu, virou-se para mim e sem mais, disse-me, indicando a porta por onde saira:—É um discipulo que me ha-de dar honra, podes crer... Tem bastante disposição e é muito applicado... Ha-de dar muito se continuar assim, e se se convencer que isto de pintura não se aprende em dous dias.
Queres vêr? E sem esperar resposta levantou o tampo do seu divan-arca, saccou de lá de dentro uma pasta com desenhos e algumas pinturas a oleo, dizendo: são d'elle.
Eram de facto estudos que o Manuel Lucio tinha executado em casa, longe das vistas do professor, mas sob a orientação e as lições que o Loureiro lhe dava, proficua e sabiamente aproveitadas.
Era especialmente por isso, porque tinha encontrado, n'aquelles estudos que n'esse dia o discipulo trouxera á sua apreciação, a boa vontade, a applicação e a disposição natural de que elle era dotado, que Loureiro alegremente se sorria.
E elle tinha razão. Manuel Lucio, que eu tinha por um exterior, um balofo, quando o via passar ostentosamente, as suas sobrecasacas talhadas pelos ultimos figurinos, as suas gravatas espaventosas e ricas, onde pousavam joias caras e os seus chapeus altos sempre muito polidos e muito lustrados, não era o que eu pensava.
Olhava-nos, parecia ter um ar sobranceiro de enfant-gaté, ou, como eu costumo dizer portuguesissimamente, menino bonito, e sentia-se por elle um quer que fosse, que obrigava a pôl-o, com uma certa reserva, na devida distancia a que se põem sempre os infatuados, que não valem nada e que julgam ser verdadeiras notabilidades. Era um juizo errado aquelle que eu fazia; reconheço agora que não o conhecia, e nunca lhe tinha encontrado nem podia encontrar predicados por que o admirasse. Estava de sobre-aviso a seu respeito.
Marinha―Manuel Lucio
Marinha—
Hoje, porém, ponho de parte essa opinião errada que d'elle fazia e isso porque tendo acompanhado com grande interesse os estudos d'esse discipulo, e o seu aproveitamento n'aquella risonha escola
d'Arte, que o bom Loureiro tem no seu interessante atelier dos jardins do Palacio de Crystal, e como o reconheço digno de ser notado entre os amadores que n'este momento ha pelo Porto, vou dedicar-lhe algumas palavras de incitamento, para que não esmoreça na empreza da Arte em que o seu bom gosto e as suas disposições artisticas o metteram. Não pense, porém, Manuel Lucio que eu vou incensal-o louvaminheiramente; não, vou rapidamente em duas leves pennadas dedicar-lhe algumas palavras de elogio merecido e sincero.
Para isso, soccorro-me de alguns informes que Loureiro me deu e fallaremos os dous conjunctamente, eu pelo que tenho visto nas minhas visitas ao atelier-escola, e especialmente na ultima exposição de trabalhos de discipulos, elle pelo que tem apurado do estudo que o discipulo tem feito e de como tem recebido salutarmente as suas sabias lições. Comecemos pois.
Um dia, Arthur Loureiro que tinha aberto ao publico a sua escola de pintura para senhoras, confiado no bom gosto que ultimamente se estava desenvolvendo entre as madames para esta manifestação de Arte, viu entrar-lhe pela porta dentro este rapaz chic, que perguntava se elle quereria dar-lhe algumas lições de pintura. Loureiro immediatamente se promptificou a isso, mas sob condição que elle deveria começar por onde todos devem começar, pelos rudimentos de desenho. Só n'essas condições o poderia acceitar como discipulo.
Accedeu o nosso amador immediatamente, pois farto estava elle de saber que o pouco que tinha estudado com um soi disant de nada lhe valia e logo combinaram dar breve inicio aos seus trabalhos.
Ao principiar estas lições, Manuel Lucio, vinha cheio de uma inegualavel boa vontade, um honroso desejo de vir a ser na pintura, alguma coisa mais, do que as habituaes vulgaridades, e por isso, pondo completamente de parte as noções que recebera de um insignificante professor, que d'isso só tinha o nome, pois emquanto ao resto era d'uma nullidade completa, todo elle se dedicou a estudar e a cumprir as instrucções que Arthur Loureiro lhe ia dando.
E assim, foi desenhar, desde os primeiros rudimentos até á perspectiva, e isto por longas lições, sem nunca dar mostras de cançaço ou aborrecimento, pelo contrario sempre cheio d'um grande prazer em traçar firme e rapidamente o contorno e o claro-escuro dos objectos que copiava.
E ainda hoje continua e affincadamente, desenhando todos os dias, mesmo a fóra dos esboços que fez para os seus quadros.
Depois de ter desenhado muito a lapis e a carvão, copiando gessos e modelos, entrou então no desenho a côres, (pastel) e fez a paisagem e a figura, isto tudo do natural, e fel-o com uma tal garridice e um tal desenvolvimento que os seus trabalhos mereceram os applausos, não só do seu professor, mas da critica conscienciosa e honesta de alguns entendidos.
Após isto passou a pintar a oleo, no atelier, e sob a vista e a conceituosa informação de Loureiro, lançou á tela flores que estudou em todas as suas minudencias, sem comtudo fazer dos seus trabalhos, rendilhados e lambidos quadros.
Não, Manuel Lucio, estudou as flores desenhando-as e colorindo-as depois nos tons e nos valores que ellas deviam ter.
E emquanto no atelier-escola pintava flores sob a vista do professor, lá por fora, sósinho, apenas com as sabias noções recebidas tentava a paisagem a oleo.
Eram estas algumas das que Loureiro me mostrava, e de que eu vos dou umas gravuras.
Vieram em seguida os estudos a oleo de gessos, feitos com muita consciencia e extraordinaria proficiencia, e hoje estuda valentemente, como um verdadeiro amador de talento, o modelo vivo, e ainda ha pouco n'uma exposição de alumnos que Loureiro promoveu no seu atelier, elle lá estava com 19 trabalhos a oleo entre os quaes alguns havia que eram verdadeiramente maravilhosos de côr, de luz e de verdade, e 9 desenhos, provas irrefutaveis de quanto elle trabalha e do bem como trabalha.
Mas Manuel Lucio não é só um amador de pintura consciencioso, é tambem um burilador de litteratura hors ligne e um entendedor de coisas d'Arte. Deve-se á sua pessoa o prefacio do Catalogo da 1.ª Exposição de Alumnos no Atelier-Escola. N'esse prologo o nosso perfilado discorre sabiamente sobre as vantagens de desenhar perfeitamente para bem pintar. São uma serie de considerações bem feitas e profundamente estudadas, que dão a verdadeira orientação do seu modo de pensar e proceder n'este genero de sport artistico em que se metteu.
Depois, como tem muita leitura d'Arte, elle reune a um bello amador, um cavaqueador agradavel e um conhecedor cheio de saber.