Notas d'arte

António de Lemos · Capítulo 25 de 32

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Notas d'arte

XXIII Amadores Portuenses

E eis, meu amigo publico, a impressão sincera de quem viu a exposição com a independencia caracteristica do seu pensar e com a antecipada disposição de não regatear merecimentos a quem os tivesse, nem adular aquelles que, sendo mediocres, aspiram á enfatuada bazofia de serem notaveis. Sinceridade e nada mais.

É provavel que os verdadeiros entendedores não pensem como eu, mas lá diz o dictado:—que seria, do amarello se não houvesse mau gosto.

Deveria fechar já aqui a minha informação mas vejo lá expostos uns azulejos, panneaux, etc., que se desculpam por serem o reclame de uma fabrica de Ceramica, porque, se tem sido apresentados como trabalhos artisticos, então deveriam ser exautorados rigorosamente.

E adeus, que não tenho tempo para mais, nem sei mesmo se alguem terá coragem de ler isto até ao fim.

 

Barcos de pesca―Julio Ramos

Barcos de pesca—

 

XXIII

 

AMADORES PORTUENSES

 

ALBERTO AYRES DE GOUVEIA

Discipulo de MARQUES DE OLIVEIRA

 

Este meu biographado não é precisamente um amador; poderia, sem receio ele ser contraditado, e sem medo de errar, incluil-o francamente no numero dos nossos mais distinctos pintores, e isso porque os seus trabalhos artisticos são de molde a dar-lhe esse fôro.

 

Alberto Ayres de Gouveia

Alberto Ayres de Gouveia

Alegro-me ao escrever este artigo, e alegro-me porque é sempre com consolo que me refiro áquelles que, possuidores de algum valor, se não deixam adormecer á sombra ele alguns louros colhidos na paz doce da mandria, antes tentam a mais e mais fixar as suas aptidões, n'um trabalho serio e proveitoso.

E, Alberto Ayres tem feito isto. Desde que se emprehendeu a pintar tem trabalhado com afinco e muitissimo proveito.

Conhecia de ha muito este rapaz, que, pela sua avultada fortuna, pelas relações de familia, e por viver na alta roda, onde se dava o prazer de ser um dos eleitos, eu tinha na conta de um excellente cavalheiro, um fino homem de sala, cavaqueador com espirito e mais nada!

Mas, enganei-me redondamente, o que não é para admirar, porque acontece a muito boa gente.

O meu biographado era tudo aquillo e ainda mais alguma coisa:— um amador enragé da pintura.

Como soube eu isto e como tive emfim a confirmação do seu merecimento artistico? Vou tentar dizel-o em poucas palavras.

Nas noites frias de inverno temos por costume reunirmo-nos alguns amigos em cavaqueira alegre e discutimos n'essas occasiões muitissimas coisas, problemas d'Arte, mundanismo, casos alegres do dia, philosophando de vez em quando sobre politica, litteratura, celebridades, theatros, etc., etc. Não é um cenaculo, nem uma academia, é um cercle algo espiritual, onde a alegria tem especialmente o seu logar.

Pois n'uma d'essas cavaqueiras abordou-se o assumpto pintores e amadores, e entre outros nomes veiu á tela da discussão o nome de Alberto Ayres de Gouveia, que um dos circunstantes conhecia perfeitamente.

Elogiou-o, fez a historia da sua aprendizagem d'Arte e eu fiquei como se costuma dizer com a pedra no sapato e, como observador que sou, tratei immediatamente de me informar do merecimento verdadeiro ou falso d'este amador.

De divagação em divagação e de informe a informe, vim a concluir que o meu amigo tinha muita razão e que Alberto Ayres era de facto um rapaz de incontestavel merecimento artistico.

Mas, não só como pintor elle deveria ser apreciado, como auctor e amador dramatico tambem. Eu me explico.

Um anno, estando a banhos como de costume, na formosa e aristocratica praia da Granja, alli deu as suas provas de amador, desempenhando, n'uma festa de caridade, alguns papeis de umas deliciosas comedias, que elle proprio tinha escripto, e que, segundo entendedores do genero, eram verdadeiras joias litterarias finamente buriladas.

E, com esta minha eterna mania de conversar, uma tarde, no atelier do meu muito amigo e infeliz Manuel San Romão, fallando-lhe dos divertimentos da Granja e a respeito do baile Luiz XV que alli se dera, das finas recitas que a gentil colonia alli a banhos, costuma realisar, o nome de Ayres de Gouveia foi citado e eu disse como me tinham inspirado sobre o seu merito litterario e artistico.

Manuel San Romão, com aquelle seu modo correcto e fino e aquelle seu espirito ousado e emprehendedor, n'um gesto todo de enthusiasmo fallou-me d'elle dizendo, que no que elle era notavel era na pintura e citava um formoso retrato do Snr. D. Antonio Ayres de Gouveia, então Bispo de Bethesaida, hoje Arcebispo da Calcedonia e tecendo-lhe os mais rasgados elogios, affirmou-me que elle era um amador que havia de futuro marcar epocha entre os artistas (mestres) portuguezes.

 

A palavra do Mestre―Alberto Ayres de Gouveia

A palavra do Mestre— de

 

A opinião de Manuel San Romão, era para mim como uma pagina do Evangelho; elle que lhe via merecimento era porque na verdade o tinha.

O retrato se não era uma maravilha, dizia San Romão, era no entanto uma obra acceitavel e cheia de bellos predicados, um verdadeiro quadro tocado com proficiencia, desenhado com saber, d'um colorido doce e d'uma mais que regular semelhança.

Ao ouvir isto, logo se me arreigou no espirito a ideia de que elle tinha talento e me nasceu o desejo de ter de vizu a confirmação d'isso, o que só poderia conseguir visitando o seu atelier e a sua galeria, pois que elle, nem expunha, nem vendia os seus trabalhos.

Como conseguir porém isto? Quasi impossivel, porque o amador fugia á visita que eu tentava fazer-lhe, querendo assim deixar-se ficar no encoberto mysterio d'uma modestia, que não tinha razão de existir.

Passara-se tempo, muito tempo, sem que eu tivesse o prazer de, encontrando-o, lhe manifestar o desejo que tinha de n'uma visita ao seu atelier, vêr o que elle tinha realisado em Arte.

Em 1902, abre uma das exposições que o Instituto de Estudos e Conferencias tão proveitosamente tem organisado e realisado no Pateo da Misericordia. Era um magnifico dia de vernisage, e eu ao entrar sou immediatamente attrahido d'um modo particular e suggestivo, por umas poucas de telas que me saltam á vista impressionantemente. Tomo do catalogo e folheando inquiri quem é o seu auctor. O nome de Alberto Ayres de Gouveia era o que se lia por cima dos numeros que eu procurava. Eram, de facto, de molde a impressionar os trabalhos expostos. Á mente me saltou, como uma doce recordação, a conversa que tivera com Manuel San Romão e immediatamente me convenci de que quem pintava aquelles quadros não podia ser apellidado de simples amador.

Era indiscutivelmente muito mais do que isso, era um verdadeiro artista e com trabalhos taes, que alguns pintores, com nome feito, não desdenhariam assignar.

Em artigo que n'outro logar publíco a elles me referi e alli disse alguma coisa do que pensava a tal respeito. Agora porém que dedico ao seu auctor duas paginas do meu livro, em especial, não será demais tornar a fallar d'elles.

Eram para mim esses trabalhos primorosos, mas, se alguns defeitos tinham eram elles por si tão insignificantes que apenas mereciam o reparo ligeiro e unicamente indicativo, sem que viesse aggravado com a investida descortez e brutal de certa critica imperduravel e muitas vezes inconsciente. Porque os trabalhos expostos eram indicados no catalogo simplesmente como d'amador, mas d'amador distincto e correcto em verdade.

E bastava só isto, que elles fossem de amador, mas feitos firmemente com largueza de traço, precisão de côr, correcção de desenho e de perspectiva, definidos emfim como de verdadeiro artista, para espantar a critica de campanario e os entendedores bon marché.

E tudo isto porque? Porque habitualmente os amadores quando apparecem em publico com trabalhos seus, são estes tão banaes e tão simples que passam perfeitamente desapercebidos entre os trabalhos dos artistas, sem lhe fazerem mossa, ou sem lhe provocarem confrontos.

Com Alberto Ayres, porém, não se dava isso, apparecia pela primeira vez, mas tão desassombradamente e com trabalhos de tal folego, que até houve quem não quizesse acreditar que eram d'elle. Mas eram e tão bons que poderiam entrar com gloria em qualquer concurso, pois tenho a certeza que ao seu auctor seria dada uma primeira classificação.

 

Christo morto―Alberto Ayres de Gouveia

Christo morto— de

 

Então é que mais e mais se me encasquetou na cabeça a ideia de observar toda a sua obra, conhecel-o no seu intimo, na sua maneira de vêr e de pintar, e depois de um assedio em forma consegui que elle me desse a honra de permittir-me uma visita d'Arte. E visitei então a sua formosissima casa, onde se espalham artisticos bibelots e bellos trabalhos de muito valor artistico. Fiz esta visita cheio d'uma suave uncção que se deve aos templos onde se sacrifica a um Deus. N'aquella casa sacrificava-se a Deusa Arte e por isso reverente alli me conservei.

Conversando durante algum tempo contou-me a sua iniciação na arte de pintar, e como, sob a competente e abalisada inspecção do grande Marques d'Oliveira, pôde conseguir o que fazia.

Desenhou muito, e quando lançava os seus vôos para mais alto, sob indicações do professor, foi em viagem artistica pela Europa, aos paizes onde mais afincadamente se rende culto á Arte e alli estudou nos museus e nas escolas de pintura alguma coisa que lhe désse conhecimentos uteis. E assim, analysando e estudando os quadros geniaes dos mestres e acompanhando os adeantamentos e os progressos das novas escolas, percorreu os muzeus de Madrid, Paris, Londres e Italia, não com a despreoccupação de um touriste, mas com a observação religiosa d'um crente, sob a indicação e a companhia de Marques de Oliveira, seu professor e que é entre os que pontificam na Pintura, um dos que mais sabiamente sabem vêr, porque é dotado d'um espirito critico especial e finissimo.

Da visita que fiz ao atelier d'este distincto amador, ficou a mais grata e a melhor das impressões.

D'entre as telas que vi, as que mais fundamente me impressionaram foram a mo mo Leitura das prophecias , Retrato do Ex. e Rev. Snr. Arcebispo de Calcedonia, A palavra do Mestre, Retrato do proprio auctor, Retrato de A. Burnay, Estudo, Baixo imperio, Appolo e Cabeça d'estudo (carvão), que são admiraveis.

 

S. João lendo as prophecias―Alberto Ayres de Gouveia

S. João lendo as prophecias— de

 

D'alguns d'estes trabalhos, apresento as gravuras, que pude conseguir, quebrando quasi á força a modestia do meu biographado.

El-Rei D. Carlos, n'uma visita que fez á Exposição de Bellas-Artes em Lisboa, fez menção especial dos seus quadros, chamando-lhe pintor notavel e de pulso.

E de facto El-Rei não se enganou porque Alberto Ayres de Gouveia está na galeria dos artistas de pintura portuguezes mais distinctos.

 

Paisagem―Candido da Cunha

Paisagem— da