Notas d'arte

António de Lemos · Capítulo 28 de 32

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Notas d'arte

XXVI a Baixella Barahona

XXVI

 

 

A BAIXELLA BARAHONA

 

Venho cheio d'um sincero enthusiasmo fallar-vos agora exclusivamente d'um dos maiores acontecimentos para a arte de ourivezaria portugueza, e não só para ella como para a Arte, na verdadeira accepção da palavra; da Baixella Barahona!

Columbano Bordallo Pinheiro

Columbano Bordallo Pinheiro

É esta já bem conhecida em todo o Portugal, pelo que d'ella tem dito os jornaes de Lisboa, mas um brado mais, d'um sincero amador, nunca faz mal para engrossar o côro de hossanas, que em volta de tão magnificente obra, se tem levantado por todos quantos a tem visto.

A casa Leitão & Irmão, innegavelmente os primeiros joelheiros e ourives portuguezes, levaram a cabo a execução da obra mais monumental e mais artistica no seu genero, que se tem feito em Portugal ha cem annos para cá. E estou bem certo que será preciso passar um incalculavel numero de annos para que se faça uma outra obra assim.

Dous são os motivos, que me levam a acreditar n'esta profecia: «A falta de homens de gosto e de dinheiro, como o dr. Francisco Barahona; e a falta de comprehensão da maior parte da gente, de que a Arte é a manifestação mais bella e mais brilhante do desenvolvimento espiritual e intellectual d'uma nação».

Serpentina da Baixella Barahona

Serpentina da Baixella Barahona

Mas, como não me julgo com competencia para divagações philosophicas sobre Arte, Dinheiro e Gosto, vou entrar no meu assumpto—A Baixella Barahona—da qual estão em exposição o Centro de meza, e as Duas serpentinas.

São estes tres monumentos, deixem-me assim chamar-lhe, uma coisa phantastica. Delineados sobre motivos esculpturaes do tempo de D. João V, harmonisou-se n'uma contextura brilhante, encantadora, fazendo-nos passar, como que em revista as decorações architectonicas dos monumentos da epocha, os escudos d'armas da casa real de D. João V, as talhas douradas dos conventos, as conchas nacaradas dos mares, que nós portuguezes dominamos nos nossos tempos de navegadores, e as aguas espraindo-se nas nossas formosissimas praias onde o mar bate altisonante, cantando ainda restos das nossas passadas glorias.

É como que a orquestração muda d'uma epopeia de deslumbramento e de luxo. Mereciam um poema, tal é o seu primor e a sua riqueza.

Por ambas as vezes, que fui vêr estas deslumbrantes obras de arte, fiquei estasiado algumas horas, na contemplação d'ellas, e cada vez que as olhava novos encantos lhe achava; aqui eram os festões de flores que pareciam baloiçar ao sopro da aragem, pendentes das mãos torneadamente papudas dos deliciosos amores; mais em baixo, os golphinhos com as suas fauces escancaradas d'onde jorram torrentes d'agua que se espraiam pelo enconchado da base; de todos os lados, as nacaradas conchas encurvadas caprichosamente n'um anichamento sublime de preciosidades do fundo do mar, e contornando tudo isto n'uma justeza de fórma, n'um carocolar de serpente, d'um brunido admiravel, como que uma fita de seda que mãos delicadas de fadas se entretivessem a dispôr alli, como cercando aquella serie de deliciosas coisas.

Alguem que tenha visto a Baixella, dirá: e as figuras que alli existem onde as deixará ficar o chronista?

As figuras essas são deslumbrantes de contextura, e se me deixei ficar para o fim a fallar n'ellas, é, que tão fundo me feriram no espirito que lhe reservo um logar mais ao fim do artigo para que quem me ler nunca se esqueça d'ellas.

 

Centro de meza da Baixella Barahona

Centro de meza da Baixella Barahona

 

O centro, como muito bem diz o nosso amigo M. Oliveira Ramos, na memoria escripta expressamente para ser distribuida pela casa Leitão aos seus convidados, compõe-se d'uma taça oblonga de amplo bojo, enfunada para a base e recordando talvez na sua fórma, o casco dos nossos galeões do periodo aureo.

De cada lado d'esta taça e como sentados no rebordo, ha duas figuras; um Fauno e uma Bachante.

O Fauno, tendo n'uma das mãos uma frauta de Pan, ri brejeiramente para um amor que parece ter-se deitado na base a analysar aquelle typo tão caracteristico e tão bem delineado. E a Bachante com um exhuberante cacho d'uvas, tenta o outro amor que, deitado tambem, nos dá a impressão suave d'um delicioso bébé a quem uma nympha estivesse fazendo negaças com em brinquedo.

Mas, é tal o deslumbrante das fórmas e o rigor da anatomia d'estas figuras, tão primorosamente modeladas e tão assombrosamente executadas que parece que aquella fria prata, de que são feitas, se anima e palpita. Todo o conjuncto é bello, mas as figuras extasiaram-me.

Columbano Bordallo Pinheiro, ao modelar aquelles primores de arte, (talvez isto seja uma heresia), fez, a meu vêr, um dos seus trabalhos mais geniaes, a manifestação mais ampla do seu muito talento.

 

Magdalena―Columbano Bordallo Pinheiro

Magdalena

 

Porque é preciso ter-se muito talento para se realisarem obras d'aquellas.

Ficarei por aqui, se bem que não era esse o meu desejo, mas a falta d'espaço e de tempo, a isso me obrigam. Antes porém de fechar cumpre-me fazer, por este meio, o que já fiz pessoalmente, dar um aperto de mão, a quem se abalançou a uma empreza como esta e saudar enthusiasticamente com o meu fraco appoiado os grandes collaboradores d'esta manifestação de arte portugueza,—o dr. Francisco Barahona, o verdadeiro patriota que sabe como ninguem comprehender para que serve o dinheiro,—Columbano Bordallo Pinheiro, que para essa obra deu parte do seu eu artistico—Augusto Luiz de Sousa e Francisco Ignacio Cardoso os dois artistas ourives sob a direcção dos quaes se executou tal obra.

Aos snr. Leitão & Irmão um bravo! Um bravo enthusiastico d'um humilde admirador.

E para fechar, folgarei immenso ouvindo dizer que esses tres monumentos vão mostrar ao mundo inteiro, na Exposição de Paris, que em Portugal ha verdadeiros artistas e homens de arte.