Notas d'arte

António de Lemos · Capítulo 22 de 32

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Notas d'arte

XX uma Exposição de Quadros

Ahi fica em rapidas linhas o que eu posso dizer do discipulo de Arthur Loureiro, o bello discipulo que faz honra ao professor.

 

1904.

 

Barra, Foz do Douro―Manuel Lucio

Barra, Foz do Douro—

 

XX

 

UMA EXPOSIÇÃO DE QUADROS

 

do Instituto de Estudos e Conferencias

 

No louvavel intento de desenvolver a Arte de pintura entre nós, o Instituto de Estudos e Conferencias, realisou no pateo da Misericordia mais uma outra exposição. É pois d'este certamen artistico que me vou occupar n'este rapido artigo.

 

Sousa Pinto

Sousa Pinto

Fui lá, quando a exposição era vedada ao publico. Unicamente ali tinham entrada os socios do Instituto e os delegados da imprensa, e por isso muito á vontade me demorei por lá umas duas horas a analysar.

Só o quadro de Sousa Pinto me reteve boa parte do tempo. Que aquillo é, para mim, o que se chama o requinte da perfeição.

Não abalançarei opinião sobre tal trabalho, porque me julgo infinitamente pequeno para discutir obra tão magistral.

Sousa Pinto, tem o seu nome feito, nome glorioso que se impõe lá fóra, nos grandes centros artisticos, como o Salon, onde os seus quadros são recebidos com toda a consideração e premiados com as melhores recompensas. E a critica sabia e correcta dos grandes analystas da Arte, essa critica que é indomavel como a justiça, tem dito que elle é um grande, um superior pintor. Gloriosa coisa é por isso, para nós, podermos admirar hoje na nossa despretenciosa exposição um trabalho de tão requintada perfeição como o Ferreiro de Sousa Pinto. Portanto, antes de entrar na enumeração dos trabalhos expostos, consinta a direcção do Instituto de Estudos e Conferencias que a felicite por ter, como vulgarmente se diz, mettido esta lança em Africa; porque Sousa Pinto não quer sujeitar-se á critica portugueza, e n'estas condições foge de apparecer nas nossas exposições.

Mas não nos demoremos mais, sigamos para diante, que eu vim para lhe fallar do conjuncto da Exposição, e não só de um artista.

 

José de Brito no seu atelier

de no seu atelier

 

Aberto pois o catalogo acha-se inscripto como n.º 1 o snr. Almeida e Silva, que desta vez me convence de que é um artista. Eu estava mal impressionado com elle, os seus trabalhos, talvez por muita meticulosidade de acabamento e pelo recortado das figuras e dos assumptos, tinham o quer que fosse de oleographico. Mas, n'esta exposição, elle vem mais pujante de execução, mais artista. E em qualquer dos generos em que se apresenta mostra aptidões definidas. Entre esses trabalhos destacarei: O Rio Pavia no Outomno, Manhã d'Outubro, Veterano de Ormuz, Tranquillidade, Retrato do snr. D. Diogo d'Almeida (Reriz). Ha mais alguns quadros, mas esses são inferiores.

 

Crepusculo Matutino―Candido da Cunha

Crepusculo Matutino— da

 

Segue-o José de Brito, com dous retratos a oleo de que não gosto nada. No entanto noto o Retrato de Antonio Ramos Pinto, a pastel, que é muito bem feito, e as aquarellas, que apresenta são todas bem tocadas, especialmente umas tres que são um primor de execução. As Margens do Leça, (2 quadros), Caminho de Nevogilde e Villarinha, especialmente.

Abel Cardoso, com quatro quadros, dos quaes destacarei o Tapada. Ha uma portinha vermelha a destacar na linha do muro da quinta, que dá uma nota interessante. O retrato do militar esse, meu Deus, é phantastico.

Candido da Cunha. Sempre o sentimental artista que desde sempre conheci. Tem tres quadros, qual d'elles o mais bem feito, sempre com um ar nostalgico do pôr do sol, que elle tão distinctamente pinta. O Crepusculo Matutino é um delicioso encanto.

 

Paisagem―Marques d'Oliveira

Paisagem—M d'O

D. Alice Grillo, tem tres quadros, um de Flores, outro de Rosas e fructos, e um Estudo de velha. Para mim os dous primeiros são superiores. As laranjas são bem pintadas, de bella côr e as rosas e os amores perfeitos, são lindamente tocados, d'uma grande frescura.

Marques d'Oliveira. Eis um nome que se impõe e que sempre que se apresenta nos deixa convencidos de que é um talentosissimo artista. Nos seus quadros, ha um certo quê que demonstra a technica superior d'este mestre de pintura. E embora alguns criticos queiram abocanhar o nome feito d'este artista, elle supplanta toda essa inveja, que outra cousa não era o que eu ouvi dizer d'elle. Dos quadros expostos, pincelados de uma fórma correcta e distincta, destacarei o Rua de Agueda, Effeito da tarde (Agueda), Cães da Ribeira, Espinho, Effeito da tarde (Espinho), o que quer dizer que são todos.

 

Guardando vaccas―Eduardo Moura

Guardando vaccas—

D. Julia Molarinho. É pintora da nova ala que vae dando a nota do seu merecimento. Os seus quadros Cabeça de preto, Cabeça de rapaz, Poente e Pochade, são bem feitos, especialmente os dous primeiros. Tem mais quadros, que não me prenderam a attenção.

Eduardo Moura. Apresenta-se com um só quadro, se bem que pelas suas aptidões deveria ter exposto mais. É um trabalho bem feito, digno de ser admirado.

Thomaz de Moura. Com uma Cabecita de rapariga regularmente executada. Ha tambem muito de monotono no fundo, um azul indefinido.

D. Leopoldina Pinto. Tres quadros de Flores e fructos. Tem um quadro de Geranios que está bem tocado, d'uma certa frescura. Esta senhora é especialista n'esta qualidade de flores. Já n'outra exposição apresentou um quadro de geranios que era um assombro de perfeição. Os crysanthemos esses não são bons. No quadro Fructos, ha umas uvas bem tratadas, com bastante transparencia.

Arthur Prat. É um pintor de côres retumbantes. Os seus quadros são como fanfarras de luz. Gosto d'elles porque me dão muito bem a nota estridula e alegre dos campos do sul. Apresenta dez quadros, alguns d'elles regularmente feitos e regularmente estudados.

Julio Ramos. Esse paisagista que tanto nos tem encantado com os seus quadros, apresenta-se tambem d'esta vez com muita distincção, se bem que me não prenda a attenção, como d'outras vezes que tem exposto.

Carlos Reis. Ora aqui está um pintor que é para mim um genial artista. Seguidor dos moldes de Silva Porto, apresenta-se n'esta exposição com cinco quadros que são uma maravilha.

Julio Ramos no seu atelier

no seu atelier

O Idilio, é uma pintura deslumbrante. O retrato de minha mãe, é tambem um superior trabalho, feito com toda a correcção, d'um verdadeiro mestre.

Augusto Ribeiro, nos seus quadrinhos mignons apresenta-se admiravelmente—até nem parece o artista de outros tempos. Agora mais socegado, mais accentuado, fez-nos a pintura do nosso Minho em paginas d'album, mas muito bem feitas.

João Augusto Ribeiro. Com um quadro só, um Estudo de velho, primoroso de desenho e de côr, flagrante de verdade.

 

Torquato Pinheiro

Torquato Pinheiro

D. Aurelia de Sousa. Dous trabalhos a oleo de que não gosto e um pastel—N'um jardim antigo, que está muito bem executado.

D. Sophia de Sousa. Apresenta quatro quadros, dos quaes destacarei como mais digno de menção a Paisagem. É uma verdadeira artista.

Julio Teixeira Bastos. Seis telas expostas. Destaco O Melro, como sendo a que mais impressão me fez.

Torquato Pinheiro. É com toda a correcção que se nos apresenta, n'este certamen, este conceituado artista. Dos seis quadros expostos notarei como melhores os seguintes:—Tarde no Corgo, correctissimo, Rua da Pedreira e Crepusculo.