O Caçador de Androides
Capítulo 9
NO ENORME ventre de baleia de aço e pedra construído para form ar a velha e duradoura Casa da Ópera, encontrou em andam ento um ecoante, barulhento e ligeiram ente m al organizado ensaio. Ao entrar, reconheceu a m úsica, A Flauta Mágica, de Mozart, o prim eiro ato da cena final. Os escravos do m ouro — em outras palavras, o coro — iniciaram a canção um com passo m ais cedo, e isto anulara o ritm o sim ples dos sinos m ágicos. Que prazer! Adorava A Flauta Mágica.
Sentou-se num a das poltronas do balcão nobre (ninguém pareceu lhe notar a presença) e se pôs confortável. Naquele m om ento, Papageno, em sua fantasia de pelagem feita de penas de aves, cantava j untam ente com Pam ina, as palavras que sem pre lhe enchiam de lágrim as os olhos, quando e se pensasse nelas.
Konnte j eder brave Mann
solche Glockchen finden,
seine Feinde würden dann
ohne Milhe sobivinden.
Bem , pensou Rick, na vida real não existem esses sinos m ágicos que façam com que o inim igo desapareça sem esforço algum . Que pena! Mozart, não m uito depois de ter com posto A Flauta Mágica, falecera — na casa dos trinta anos — de um a doença renal. E fora sepultado num túm ulo anônim o de indigente.
Pensando nisto, perguntou-se se Mozart tivera algum a intuição de que o futuro não existia, que j á esgotara seu pouco tem po. Talvez eu tenha, tam bém , pensou Rick, observando o desenrolar do ensaio. Este ensaio term inará, a representação term inará, os cantores m orrerão, finalm ente a últim a partitura da m úsica será destruída, de um a form a ou de outra. No fim , o nom e "Mozart" desaparecerá e a poeira terá vencido. Se não neste planeta, então em outro. Podem os evitá-la durante algum tem po. Com o os andros podem m e evitar e existir por um período finito um pouco m aior. Mas eu os pego ou algum outro caçador de cabeças. De um a certa m aneira, deu-se conta, sou parte do processo de entropia que destrói form as. A Rosen Association faz e eu desfaço. Ou, de algum a m aneira, é assim que deve parecer a ela.
No palco, Papageno e Pam ina iniciavam um diálogo.Interrom peu a introspecção para escutar.
Papageno: "Minha criança, o que devem os agora dizer?
Pam ina: "- A verdade. É isso o que direm os. "
Inclinando-se para a frente a fim de observar, Rick estudou Pam ina, vestida em seu pesado hábito, de sua touca descendo o véu que lhe em oldurava os om bros e a face. Reexam inou a folha de inform ações e, em seguida, recostou-se, satisfeito. Acabo de ver m inha terceira andróide Nexus-6, com preendeu. Essa aí é Luba Luft. Um pouco estranho o sentim ento que seu papel exige.
Por m ais vital, ativa e bonitona que sej a um a andróide fugida, ela dificilm ente pode dizer a verdade. De qualquer m odo, sobre si m esm a.
No palco, Luba Luft continuava a cantar e ele ficou surpreso com a qualidade da voz: com parava-se com as m elhores, m esm o com as das notáveis em sua coleção de fitas. A Rosen Association construíra-a bem , isto tinha que reconhecer. E, m ais um a vez, viu-se subespécie aetem itatis, o destruidor de form as, cham ado pelo que ali ouvia e via. Talvez, o quanto m elhor ela represente, o m elhor cante, m ais necessário eu sej a. Se os andróides houvessem perm anecido subpadrão, com o os antigos q-40s fabricados pela Derain Associates, não haveria problem a nem necessidade de m inha perícia. Gostaria de saber quando é que devo fazer isto, pensou. Tão logo quanto puder, provavelm ente. Ao fim do ensaio, quando ela se dirigir para o cam arim .
Ao fim do ato, o ensaio foi suspenso tem porariam ente. Seria reiniciado, disse o m aestro em inglês, francês e alem ão, dentro de hora e m eia. Em seguida, foi em bora. Os m úsicos deixaram seus instrum entos onde estavam e se afastaram tam bém . Levantando-se, Rick dirigiu-se para os bastidores, para os cam arins; seguiu o rabo da fila do elenco, sem pressa, pensando. Será m elhor assim , acabar logo com a coisa. Passarei algum tem po conversando com ela, testando-a na form a do possível. Logo que eu tiver certeza — m as, tecnicam ente, não poderia ser senão depois do teste. Talvez Dave tivesse tido um palpite errado a respeito dela, conj ecturou. Mas duvidava disso. Já, instintivam ente, seu senso profissional reagira, E não com etera um erro ainda... em todos os seus anos no departam ento.
Detendo um figurante, perguntou-lhe onde ficava o cam arim da Srta. Luba Luft. O figurante, usando a m aquilagem e o traj o de lanceiro egípcio, apontou. Chegou à porta indicada, viu um a nota escrita pregada nela, dizendo: SRTA. LUFT -PARTICULAR, e bateu.
— Entre.
Entrou. Viu a m oça sentada à penteadeira, um a bem usada partitura encadernada em pano sobre os j oelhos, fazendo anotações aqui e ali com um a caneta esferográfica. Usava ainda a fantasia e a m aquilagem , m enos a touca, que colocara num cabide.
— Sim ? — disse ela, erguendo os olhos. A m aquilagem para o palco alargava-lhe os olhos, enorm es e am endoados, que se fixaram nele e não se desviaram . — Estou ocupada, com o o senhor pode ver. — No seu inglês, um leve vestígio de sotaque.
— Para m im a senhora é m elhor do que a Schwarzkopf — disse Rick.
— Quem é o senhor? — O tom dela m antinha fria reserva — e aquele outro frio que ele encontrara em tantos andróides. Sem pre os m esm os: grande intelecto, capacidade de realizar m uito, m as tam bém isto. Era um a coisa que deplorava. Mas sem isso não podia localizá-los.
— Sou do Departam ento de Polícia de São Francisco — respondeu.
— Oh? — Os im ensos e sérios olhos não pestanej aram , não reagiram . — O que é que o senhor quer aqui? — O tom de voz dela, estranham ente, parecia gracioso. Sentando-se num a cadeira próxim a, ele abriu o fecho da pasta.
— Fui enviado aqui a fim de aplicar na senhora um teste-padrão de perfil de personalidade, o que não levará m ais de dez m inutos.
— Isto é necessário? — Com um gesto indicou a grande partitura encadernada em pano.
— Tenho m uita coisa a fazer. — Nesse m om ento, ela com eçara a parecer apreensiva,
— É necessário. — Tirou da pasta os instrum entos Voigt-Kam pff e com eçou a m ontálos.
— Um teste de quociente de inteligência?
— Não. De em patia.
— Tenho que colocar m eus óculos — Estendeu a m ão para abrir a gaveta da penteadeira.
— Se a senhora pode m arcar a partitura sem óculos, tam bém pode subm eter-se a este teste. Vou-lhe m ostrar alguns desenhos e fazer diversas perguntas. Enquanto isto .— levantou-se, aproxim ou-se dela e pregou-lhe no rosto profundam ente pintado os discos sensitivos. — E esta luz — continuou, aj ustando o ângulo do fino feixe — E isto é tudo.
— O senhor pensa que eu sou andróide? É isso? — Sua voz caíra quase até o ponto de extinção, — Eu não sou andróide. Nunca fui nem m esm o a Marte. Nem nunca vi um andróide! — Seus cílios alongados trem eram involuntariam ente e ele notou que tentava dar um a aparência de calm a. — O senhor tem inform ação de que há um andróide no elenco? Eu teria prazer em aj udá-lo e, se fosse um andróide, eu teria esse prazer?
— Um andróide — observou ele — não se im porta com o que acontece com outro andróide. Esta é um a das indicações que procuram os.
— Neste caso — disse a Srta. Luft — o senhor tem que ser um andróide. — Essas palavras deixaram -no surpreso. Olhou-a fixam ente. — Porque — continuou ela — seu trabalho é m atá-los, não? O senhor é o que cham am de... — Fez um esforço para se lem brar.
— Um caçador de cabeças a prêm io — respondeu Rick. — Mas eu não sou andróide.
— Esse teste que o senhor quer aplicar-m e... — A voz dela com eçou a voltar. — O senhor j á se subm eteu a ele?
— Já — confirm ou ele, inclinando a cabeça. — Há m uito, m uito tem po, quando com ecei a trabalhar no departam ento.
— Isso talvez sej a um a falsa recordação Às vezes, andróides não têm falsas m em órias?
— Meus superiores estão cientes do teste que fiz — disse Rick. — É com pulsório.
— Talvez houvesse certa vez um ser hum ano que se parecia com o senhor e, no correr do tem po, o senhor m atou-o e ocupou-lhe o lugar. E seus superiores não sabem disso. — Ela sorriu. Com o se o convidando para que concordasse com ela.
— Vam os prosseguir com o teste — disse ele, tirando a lista das perguntas.
— Eu m e subm eterei ao teste — disse Luba Luft — se o senhor se subm eter prim eiro Mais um a vez, ele olhou-a fixam ente, sem saber o que dizer.
— Isto não seria m ais j usto? — perguntou ela. — Neste caso, eu teria certeza a seu respeito. Não sei, o senhor parece tão estranho, tão duro, tão peculiar. — Trem eu. E sorriu outra vez Esperançosam ente.
— A senhora não seria capaz de adm inistrar o Teste Voigt-Kam pff. Ele exige grande experiência, Agora, por favor, ouça com toda atenção. Essas perguntas dizem respeito a situações sociais que pode encontrar e delas participar. O que quero da senhora é um a declaração de reação, o que faria. E quero a reação com tanta rapidez quanto puder. Um dos fatores que vou anotar é a defasagem tem poral, se houver. — Selecionou a pergunta inicial. — Está sentada assistindo à televisão quando, subitam ente, descobre um a vespa andando pelo seu punho. — Olhou para o relógio, contando os segundos. E verificou, tam bém , os m ostradores gem inados.
— O que é um a vespa? — perguntou Luba Luft.
— Um inseto que pica e voa.
— Oh, que coisa estranha. — Seus olhos im ensos alargaram -se em aceitação infantil, com o se ele lhe houvesse revelado o principal m istério da criação. — Existem ? Nunca as vi.
— Morreram por causa da poeira. Não sabe, realm ente o que é um a vespa? Você devia estar viva quando havia vespas. Isso foi há apenas...
— Diga-m e a palavra alem ã.
Ele fez um esforço para pensar na palavra alem ã que significa vespa, m as não conseguiu.
— Seu inglês é perfeito — disse irritado.
— Meu sotaque — retrucou ela, corrigindo-o — é perfeito. Tem que ser, para papéis em obras com o as de Purcell, Walton e Vaughan William s. Mas m eu vocabulário não é m uito grande. — Olhou-o, tím ida.
— Wespe — disse ele, lem brando-se da palavra alem ã.
— Ach, sim , eine Wespe. — Riu. — E qual foi a pergunta? Já m e esqueci.
— Vam os tentar outra. — Era im possível, nesse m om ento, obter um a reação significativa. — Você está assistindo a um velho film e na TV, um film e de antes da guerra. Mostra um banquete. A entrada — engoliu a prim eira parte da pergunta — consiste de cachorro cozido, recheado com arroz.
— Ninguém m ataria e com eria um cachorro — respondeu Luba Luft. — Eles custam um fortuna. Mas acho que seria um cachorro de im itação, um sucedâneo. Certo? Mas eles são feitos de fios e m otores. Não podem ser com idos.
— Antes da guerra — disse ele em voz áspera.
— Eu não havia nascido ainda antes da guerra.
— Mas viu velhos film es na TV.
— O film e foi feito nas Filipinas?
— Por quê?
— Porque — explicou Luba Luft — nas Filipinas o povo costum ava com er cachorros cozidos e recheados com arroz. Lem bro-m e de ter lido isso.
— Mas, sua reação... — disse ele. — Quero sua reação social, em ocional, m oral.
— Ao film e? — Ela pensou durante um m om ento. — Eu desligaria e m udaria para Buster Am igão.
— Por que desligaria?
— Ora — disse ela irritada —, quem , diabos, quereria ver um velho film e passado nas Filipinas? O que foi que aconteceu nas Filipinas, exceto a Marcha da Morte de Bataan, e o senhor ia querer ver isso? — Olhou-o, indignada. Nos m ostradores, os ponteiros giraram em todas as direções.
Depois de um a pausa, ele disse, m edindo as palavras:
— Você aluga um a cabana na m ontanha.
— Ja. — Ela inclinou a cabeça. — Continue. Estou esperando.
— Num a área ainda luxuriante.
— Perdão! — Ela fez concha com a m ão ao ouvido. — Nunca ouvi essa palavra.
— Ainda estão crescendo por lá árvores e arbustos. A cabana é rústica, feita de troncos de pinheiros e tem um a enorm e lareira. Das paredes pendem velhos m apas, reproduções de Currier e Ives, e em cim a da lareira há um a cabeça de cervo em palhada, um m acho adulto com um a galhada bem desenvolvida. As pessoas que estão em sua com panhia adm iram o décor da cabana e...
— Eu não com preendo as palavras "Currier", "Ives" ou "décor" — disse Luba. Parecia esforçar-se, no entanto, para descobrir o que essas palavras significavam . — Espere.
— Ergueu a m ão, anim ada. — Com arroz, com o o cachorro. Currier é aquilo que dá cor ao arroz. É curry em alem ão.
Ele não conseguia chegar a um a conclusão, Deus tivesse pena dele, se o nevoeiro sem ântico de Luba Luft tinha algum a finalidade. Depois de consulta consigo m esm o, resolveu tentar outra pergunta. O que m ais poderia fazer?
— Você está nam orando com um hom em — disse — e ele lhe pede que o visite em seu apartam ento. Enquanto está lá...
— O nein — interrom peu-o Luba. — Eu não iria lá. Essa é fácil de responder.
— Essa não é a pergunta!
— O senhor escolheu a pergunta errada? Mas eu com preendo essa. Por que a questão que eu com preendo é a errada? Não se espera que eu com preenda? — Mexendo-se nervosa, ela coçou o rosto, e soltou o disco adesivo, que caiu no chão e rolou para baixo da penteadeira. — Ach Gott — m urm urou ela, abaixando-se para apanhá-lo. Um chiado, de tecido que se rasga. De sua caprichosa fantasia.
— Eu o pego — disse ele e afastou-a para o lado. Aj oelhou-se, procurou em baixo da penteadeira até que seus dedos localizaram o disco.
Quando se ergueu, viu que olhava para um tubo de laser.
— Suas perguntas — disse Luba Luft em voz seca, form al — com eçaram a m udar para sexo. Eu achei que, no fim , chegariam a isso. O senhor não é do Departam ento de Polícia. O senhor é um tarado sexual.
— Pode exam inar m inha identificação. — Estendeu a m ão para o bolso do casaco. A m ão, notou, com eçara a trem er, corno acontecera no caso de Polokov.
— Se tocar aí — disse Luba Luft —, m ato-o.
— Você m atará, de qualquer m aneira. — Perguntou-se com o a coisa se teria desenvolvido, se houvesse esperado até que Rachael Rosen viesse aj udá-lo. Bem , de nada adiantava pensar nisso.
— Mostre-m e m ais algum as de suas perguntas. — Estendeu a m ão e ele, relutante, entregou-lhe as folhas. — Num a revista, você encontra um a foto de página inteira de um a m oça nua." Bem , esta é um a delas. "Você fica grávida do hom em que prom eteu casar com você O hom em vai em bora com outra m ulher, sua m elhor am iga. Você faz um aborto." A orientação de seu interrogatório é óbvia. Vou cham ar a polícia. Segurando ainda o tubo de laser em sua direção, atravessou a sala, apanhou o videofone e discou telefonista: — Ligue-m e com o Departam ento de Polícia de São Francisco — disse. — Preciso de um policial.
— O que você está fazendo — observou aliviado Rick — é a m elhor coisa possível. —
Ainda assim , parecia-lhe estranho que Luba houvesse resolvido fazer isso. Por que, sim plesm ente, não o m atava? Um a vez chegasse o patrulheiro, a chance dela desapareceria e tudo m ais lhe seria favorável.
Ela tem que pensar que é hum ana, decidiu ele. Obviam ente, não sabe. Minutos depois, durante os quais Luba m anteve-o sob cuidadosa m ira do tubo de laser, chegou um policial grandalhão usando seu arcaico uniform e azul e portando um a arm a e um a estrela.
— Muito bem — disse ele im ediatam ente, dirigindo-se a Luba. — Guarde essa coisa.
— Ela pôs de lado o tubo de laser e ele apanhou-o para ver se estava carregado. —
Agora, o que é que está acontecendo aqui? — perguntou-lhe. Antes que ela pudesse responder, ele virou-se para Rick: — E quem é o senhor? — indagou.
— Ele entrou no m eu cam arim — explicou Luba Luft. — Nunca o vi antes em toda m inha vida. Ele fingiu que estava fazendo um a pesquisa ou algum a coisa assim e queria m e fazer perguntas. Eu pensei que não havia problem a, disse que estava tudo bem , e então ele com eçou a m e fazer perguntas obscenas.
— Mostre-m e sua identificação — disse o policial a Rick, m ão estendida. Tirando-a, Rick explicou:
— Eu sou um caçador de cabeças a prêm io do Departam ento.
— Eu conheço todos os caçadores de cabeça — disse o policial, exam inando a carteira de Rick. — No Departam ento de Polícia de São Francisco?
— Meu supervisor é o Inspetor Harry Bry ant — disse Rick. — Eu fiquei com a lista de Dave Holden, agora que Dave está no hospital.
— Com o eu disse, conheço todos os caçadores de cabeça — repetiu o policial —, e nunca ouvi falar em você. — Devolveu-lhe a identificação.
— Telefone para o Inspetor Bry ant — sugeriu Rick.
— Não há nenhum Inspetor Bry ant — retrucou o policial.
Rick com preendeu logo o que estava acontecendo.
— Você é um andróide — disse ao policial. — Com o a Srta. Luft. — Dirigindo-se para o videofone, levantou o aparelho, — Vou ligar para o Departam ento. — E se perguntou quanto tem po teria antes que os dois andróides o pegassem .
— O núm ero — disse o policial fardado — é...
— Eu sei o núm ero. — Discou e, no m esm o instante, apareceu o rosto da telefonista da polícia. — Quero falar com o Inspetor Bry ant — disse.
— Quem está falando, por favor.
— Rick Deckard. — Ficou à espera. Enquanto isso, num dos cantos da sala, o policial tom ava as declarações de Luba Luft. Nenhum dos dois lhe prestava a m enor atenção. Um a pausa e, em seguida, a face de Harry Bry ant apareceu no vídeo.
— Um pequeno problem a — explicou Rick.
— O que é que está havendo? — perguntou a Rick. — Um dos suspeitos que estão na lista de Dave conseguiu telefonar e cham ar um guarda. Parece que não consigo provar a ele quem sou. Ele diz que conhece todos os caçadores de cabeça do Departam ento e que nunca ouviu falar em m im . — E acrescentou: — E tam pouco ouviu falar no senhor.
— Deixe-m e falar com ele — ordenou Bry ant.
— O Inspetor Bry ant quer falar com você. — Rick estendeu-lhe o videofone. O guarda deixou de interrogar a Srta. Luft e veio atender.
— Guarda Cram s — disse ele, em tom m arcial. Um a pausa. — Alô. — Escutou, disse alô várias vezes m ais, esperou e, em seguida, voltou-se para Rick. — Não há ninguém na linha. E ninguém na tela. — Apontou para a tela do videofone e nela Rick nada viu. Tom ando o aparelho da m ão do guarda, disse:
— Sr. Bry ant? — Escutou, esperou. Nada. — Vou discar outra vez. — Desligou, esperou e em seguida rediscou o conhecido núm ero. O telefone tocou do outro lado, m as ninguém atendeu, e continuou a cham ar sem parar.
— Deixe-m e experim entar — disse o guarda Cram s, tirando o aparelho da m ão de Rick.
— O senhor deve ter discado errado. — Discou. — O núm ero é 842...
— Eu sei o núm ero — disse Rick.
— Guarda Cram s cham ando — disse ao telefone. — Há algum Inspetor Bry ant ligado ao Departam ento? — Um a curta pausa. — Bem , e um caçador de cabeças cham ado Rick Deckard? — Mais um a vez, um a pausa. — Tem certeza? Poderia ele ter sido recentem ente...Oh, com preendo. Certo, obrigado. Não, a situação está sob controle. —
O guarda Cram s desligou e voltou-se para Rick.
— Eu o tive na linha — garantiu Rick. — Falei com ele. Ele disse que ia falar com o senhor. Deve ser problem a com o telefone. A ligação deve ter caído em algum a parte. Vocês não viram ...o rosto de Bry ant apareceu na tela e depois desapareceu? — Sentiuse confuso.
— Eu tenho as declarações da Srta. Luft, Deckard. Assim , vam os até o Palácio de Justiça para eu dar parte de você.
— Muito bem — concordou Rick. A Luba Luft, disse: — Volto daqui a pouco. Ainda não acabei m eu teste com você.
— Ele é um tarado — inform ou Luba Luft ao guarda Cram s. — Ele m e dá calafrios. —
Trem eu toda.
— Que ópera a senhora está ensaiando? — perguntou o guarda Cram s.
— A Flauta Mágica — respondeu Rick.
— Eu não perguntei a você. Perguntei a ela. — Lançou-lhe um olhar de desagrado.
— Estou ansioso para chegar ao Palácio de Justiça — disse Rick. — Este assunto precisa ser esclarecido. — Dirigiu-se para a porta do cam arim , a pasta firm e em sua m ão.
— Prim eiro, vou passar você em revista.
Habilm ente, o guarda Cram s correu-o com as m ãos e descobriu a pistola de serviço de Rick e o tubo de laser. Confiscou a am bos, depois de cheirar por um m om ento o cano da pistola. — Esta aqui foi disparada recentem ente — disse.
— Acabei de aposentar um andróide — explicou Rick. — Os restos dele estão ainda no m eu carro, lá em cim a no telhado.
— Muito bem — disse o guarda Cram s — vam os subir até lá e dar um a olhada. A Srta. Luft acom panhou os dois até a porta do cam arim :
— Ele não vai voltar, vai, seu guarda? Estou realm ente com m edo dele. Ele é tão estranho.
— Se ele está com o cadáver de alguém que m atou lá em cim a no carro — respondeu Cram s —, ele não vai voltar.
Em purrou Rick para a frente com o cotovelo e, j untos, os dois tom aram o elevador em direção ao telhado da Casa da Ópera.
Abrindo a porta do carro de Rick, o guarda Cram s exam inou em silêncio os restos do corpo de Polokov.
— Um andróide — disse Rick. — Recebi ordens de pegá-lo. Ele quase m e pegou, fingindo ser ...
— Vão tom ar seu depoim ento no Palácio de Justiça — interrom peu-o o guarda Cram s. Em purrou-o para seu carro policial estacionado próxim o, m arcado claram ente. Nele, pelo rádio, cham ou alguém para vir apanhar o que restava de Polokov.
— Muito bem , Deckard — disse, desligando —, vam os em bora.
Com os dois a bordo, o carro de patrulha levantou vôo do telhado e dirigiu-se para o sul. Algum a coisa, notou Rick, não era o que devia ser. O guarda Cram s dirigia o carro na direção errada.
— O Palácio de Justiça fica ao norte — disse —, na Lom bard.
—Aquele era o velho Palácio de Justiça — explicou Cram s. — O novo fica em Mission. Aquele velho prédio está se desintegrando. É um a ruína. Ninguém o usa há anos. Passou tanto tem po assim desde a últim a vez em que você foi preso?
— Leve-m e para lá — pediu Rick. — Para a Lom bard Street. — Com preendia tudo naquele instante, percebia o que os andróides, trabalhando j untos, haviam conseguido. Ele não sobreviveria a este passeio. Para ele, era o fim , com o quase fora para Dave — e com toda probabilidade seria, m ais tarde.
— Aquela pequena é bem bonitona — observou o guarda Cram s. — Claro, com aquela fantasia a gente não pode saber sobre o corpo. Mas eu diria que é bem bacana.
— Confesse que você é um andróide — disse Rick.
— Por quê? Eu não sou. O que é que você faz, anda por aí m atando gente e dizendo a si m esm o que eles são andróides? Com preendo porque a Srta. Luft ficou com m edo. Foi bom para ela ter nos cham ado.
— Neste caso, leve-m e para o Palácio de Justiça, na Lom bard.
— Com o eu disse...
— Isto só vai levar uns três m inutos — insistiu Rick. -— Quero vê-lo. Todas as m anhãs eu m e apresento para o trabalho. Quero ver se está abandonado há anos, com o o senhor diz.
— Talvez você sej a um andróide — replicou o guarda Cram s. — Com um a falsa m em ória, com o a que lhes dão. Pensou nisso? — Sorriu friam ente e continuou a dirigir para o sul.
Consciente de sua derrota e fracasso, recostou-se no assento. E, im potente, ficou à houvessem planej ado, agora que se tinham apossado dele.
Mas peguei um deles, disse espera do que viria em seguida. O que quer que os andróides a si m esm o. Peguei Polokov. E Dave pegou dois. Pairando sobre Mission, o carro policial do guarda Cram s iniciou a descida para o pouso.