O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 3 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 2

 

NUM PRÉDIO gigantesco, vazio, em ruínas, que outrora abrigara m ilhares de pessoas, um único aparelho de TV anunciava seus produtos à sala vazia.

Antes da Guerra Mundial Term inus, aquela ruína sem dono fora habitada e bem conservada. Ali era um dos subúrbios de São Francisco, a um a curta distância pelo m onorail expresso: a península inteira tagarelara com o um a árvore cheia de pássaros, transbordante de vida, opiniões e queixas, e, naquele m om ento, seus zelosos proprietários ou haviam m orrido ou em igrado para um m undo-colônia. Principalm ente, a prim eira alternativa; a guerra fora dispendiosa, a despeito das previsões valentes do Pentágono e de sua autocom placente nave científica, a Rand Corporation — que, na verdade, existira não m uito longe dali. Com o os donos de apartam ento, a em presa fora em bora, evidentem ente para sem pre.

Ninguém lhe sentia a falta.

Além disso, ninguém hoj e se lem brava por que estourara a guerra ou quem , se é que alguém , a vencera.

A poeira que contam inara a m aior parte do planeta não se originara em país algum , e ninguém , nem m esm o o inim igo do tem po da guerra, contara com ela. Em prim eiro lugar, estranham ente, m orreram as coruj as. Na ocasião, este fato pareceu quase engraçado, os gordos e fofos pássaros brancos caídos aqui e ali, em quintas e em ruas. Aparecendo não antes do anoitecer, com o no tem po em que viviam , ninguém as notou. Pestes m edievais haviam -se m anifestado de m aneira parecida, sob a form a de num erosos ratos m ortos.

Esta peste, contudo, descera das alturas.

Depois das coruj as, claro, seguiram -se outras aves, m as, por essa altura, o m istério j á fora descoberto e bem com preendido. Antes da guerra, estivera em andam ento um m odesto program a de colonização, m as agora que o sol deixara de brilhar sobre a Terra, o esquem a entrou num a fase inteiram ente nova. Em conexão com o m esm o, um a arm a de guerra, o Com batente Sintético, fora m odificada. Capaz de funcionar em um m undo alienígena, o robô hum anóide — estritam ente falando, o andróide orgânico — transform ara-se na besta de carga m óvel do program a de colonização.

De acordo com um a lei prom ulgada pelas Nações Unidas, todos os em igrantes recebiam , autom aticam ente, a posse de um subtipo andróide de sua escolha e, por volta de 1990, a variedade desses subtipos desafiava todo e qualquer entendim ento, assim com o acontecera com os autom óveis am ericanos na década de 60.

Este fora o incentivo final: o servo andróide com o cenoura, e a precipitação radiativa com o porrete.

As Nações Unidas haviam tornado fácil em igrar, e difícil, senão im possível, perm anecer.

Potencialm ente, continuar na Terra significava o indivíduo, de repente, ver-se classificado com o biologicam ente inaceitável, um a am eaça à hereditariedade cristalina da raça. Um a vez classificado com o especial, o cidadão, m esm o que aceitasse a esterilização, desaparecia da história. Deixava, na verdade, de fazer parte da hum anidade.

Ainda assim , aqui e ali, pessoas recusavam -se a em igrar. Isto, m esm o para os indivíduos envolvidos, constituía um a irracionalidade que confundia. Logicam ente, todos os regulares j á deviam ter em igrado. Talvez, deform ada com o estava, a Terra continuasse fam iliar, um a coisa à qual se apegar. Ou, possivelm ente, o não-em igrante pensava que o toldo de poeira acabaria finalm ente por se esgotar.

De qualquer m odo, perm aneceram m ilhares de indivíduos, a m aioria aglom erada em áreas urbanas, onde podiam m utuam ente se ver, se anim ar com a presença m útua. Estes pareciam ser os relativam ente sensatos. Mas em duvidoso acréscim o a eles, perm aneciam ocasionais entidades peculiares nos subúrbios virtualm ente abandonados. John Isidore, o alvo dos berros de seu aparelho de televisão, enquanto se barbeava no quarto, era um deles.

Andando ao léu, sim plesm ente chegara a este lugar nos prim eiros dias depois da guerra. Naqueles tem pos horrendos, ninguém soubera, realm ente, o que andava fazendo. Populações inteiras, desenraizadas pela guerra, vaguearam de um lado para outro, grilaram em prim eiro lugar um a região e depois outra.

Naquela época, a precipitação fora esporádica e altam ente variável, com alguns Estados quase livres dela, enquanto outros eram saturados. Os deslocados m oviam -se com o deslocam ento da poeira. No início, a península sul de São Francisco estivera livre da poeira e grande núm ero de pessoas reagira, fixando-se ali. Ao chegar a poeira, uns m orreram e outros foram em bora. J. R. Isidore perm anecera.

O aparelho de TV berrava: . duplicatas dos dias dourados dos Estados do Sul antes da Guerra Civil! Sej a com o criado particular sej a com o incansável trabalhador braçal no cam po, o robô hum anóide fabricado sob m edida — proj etado especificam ente PARA SUAS PRÓPRIAS NECESSIDADES, PARA VOCÊ E SOMENTE PARA VOCÊ — élhe entregue à sua chegada, inteiram ente gratuito, totalm ente equipado, da form a especificada por você antes de sua partida da Terra. Este com panheiro leal, que não lhe causará problem a algum , na m aior e m ais ousada aventura im aginada pelo hom em na história m oderna lhe dará..." E assim continuava, interm inavelm ente.

Será que estou atrasado para o trabalho, perguntou a si m esm o Isidore, enquanto continuava a raspar o rosto. Não possuía um despertador de trabalho. De m odo geral, dependia dos sinais da TV para saber que horas eram . De qualquer m odo, a TV alegava que aquele era o quinto (ou sexto?) aniversário da fundação da Nova Am érica, a principal colônia am ericana em Marte. Seu aparelho de TV, parcialm ente quebrado, pegava apenas o canal que fora nacionalizado durante a guerra e que assim continuava.

O governo, em Washington, dando prosseguim ento ao program a de colonização, era o único patrocinador, ao qual Isidore era obrigado a ouvir.

"Vam os ouvir agora a palavra da Sra. Maggie Klugm an", sugeriu o locutor a Isidore, que queria apenas saber a hora. "Im igrante recém -chegada a Marte, vam os ouvir a Sra. Klugm an num a entrevista gravada ao vivo em Nova York. Sra. Klugm an, de que m odo a senhora com para sua vida na contam inada Terra com sua nova vida aqui, num m undo rico com todas as possibilidades im agináveis?"

Um a pausa e, em seguida, um a voz cansada, seca, de m ulher de m eia-idade, respondendo: "Acho que o que eu e m inha fam ília m ais notam os aqui foi a dignidade".

"Dignidade, Sra. Klugm an?", perguntou o locutor. "Isso m esm o", confirm ou a Sra. Klugm an, agora da nova York, em Marte. "É um a coisa difícil de explicar, ter um criado particular, no qual a gente pode confiar nestes tem pos perturbados... Acho isto tranqüilizador."

"Lá na Terra, Sra. Klugm an, nos velhos dias, a senhora tam bém se preocupava com a possibilidade de ser classificada com o especial?"

"Oh, m eu m arido e eu quase m orríam os de preocupação. Claro, logo que em igram os, a preocupação desapareceu, felizm ente para sem pre."

Para si m esm o, pensou am argam ente John Isidore: e para m im , tam bém , sem eu ter que em igrar. Era um especial há m ais de um ano, e não apenas no tocante aos genes deform ados de que era portador. Pior ainda, não conseguira passar no teste de faculdades m entais m ínim as, o que o tornava em linguaj ar popular, um debilóide. Sobre ele descia o desprezo de três planetas. Contudo, a despeito de tudo isto, sobrevivia. Tinha seu em prego, de dirigir um a cam ioneta e o cam inhão de entregas de um a firm a de consertos de falsos anim ais.

O Van Ness Hospital para Bichos de Estim ação e seu som brio e gótico dono, Hannibal Sloat, aceitaram -no com o ser hum ano e isto ele apreciava.

Mors certa, vita incerta, declarava ocasionalm ente Sloat.

Isidore, em bora houvesse escutado essa expressão certo núm ero de vezes, tinha apenas um a vaga idéia do que ela significava. Afinal de contas, se um debilóide conseguia entender latim , então ele deixava de ser debilóide. Sloat, quando isto lhe fora m encionado, reconhecera a verdade da observação. E havia debilóides infinitam ente m ais estúpidos do que Isidore, que não podiam desem penhar função algum a e que perm aneciam em asilos estranham ente denom inados de "Instituto de Ofícios Especiais da Am érica", tendo, com o sem pre, a palavra "especial" se introduzido no título, de algum a m aneira.

"... seu m arido não sentia proteção", dizia o locutor da TV, "em bora possuísse e usasse continuam ente um caro, desaj eitado protetor genital de chum bo, Sra. Klugm an?"

"Meu m arido...", com eçou a Sra. Klugm an, m as, nesse m om ento, tendo acabado de barbear-se, Isidore entrou na sala e desligou a TV.

Silêncio, que saltou das obras de m adeira e das paredes e o sufocou com um terrível e total poder, com o se gerado por um a im ensa usina m otriz.

Subia do chão, do carpete cocado que ia de parede a parede, soltava-se dos eletrodom ésticos quebrados e sem i-quebrados da cozinha, as m áquinas m ortas que nem um a única vez haviam funcionado desde que estava ali.

Escorria do poste de ilum inação inútil da sala de estar, m isturando-se com a vazia e m uda descida de si m esm o do teto m anchado por m oscas.

Conseguia, na verdade, em ergir de todos os obj etos dentro de seu cam po de visão, com o se ele — o silêncio — quisesse suplantar todas as coisas tangíveis. Daí, assaltava não só seus ouvidos, m as tam bém seus olhos. Ao lado do aparelho apagado de TV, experim entou-o com o se fosse visível e. à sua própria m aneira, vivo. Vivo! Antes, sentira com freqüência sua austera aproxim ação; quando chegava, estourava sem sutileza, evidentem ente incapaz de esperar. O silêncio do m undo não podia controlar m ais sua cobiça. Não m ais.

Não, quando virtualm ente vencera.

Perguntou-se se as outras pessoas que haviam perm anecido na Terra experim entavam assim o vazio. Ou seria isto peculiar à sua peculiar identidade biológica, um a anorm alidade criada por seu inepto aparelham ento sensorial? Questão interessante, pensou. Mas com quem poderia ele com parar notas?

Vivia sozinho nesse prédio cego, em ruínas, de m il apartam entos desocupados que, com o todos seus iguais na cidade, dia após dia, m ergulhava em ruína entrópica cada vez m aior. No fim , tudo no prédio se m isturaria, seria anônim o e idêntico, um m ero m onte, parecendo um pudim e elevando-se até o teto de cada apartam ento. E depois disso, o edifício abandonado se acom odaria e m ergulharia em indistinção, sepultado pela poeira eternam ente presente. Mas, por essa altura, claro, ele m esm o estaria m orto, outro fato interessante a prever, pensou, enquanto perm anecia ali sozinho na sala de estar abandonada, apenas com o silêncio do m undo, um silêncio sem pulm ões, que a tudo penetrava, irresistível.

Melhor, talvez, voltar a ligar a televisão. Os anúncios, porém , dirigidos aos regulares que restavam , am edrontavam -no. Inform avam -no, de um núm ero incontável de m aneiras, que ele, um especial, não era desej ado. Não tinha utilidade. Não podia, m esm o que quisesse, em igrar. Neste caso, por que escutar? perguntou-se, irritado. Diabos os levem , a eles e sua civilização. Espero que lá aconteça um a guerra — afinal de contas, teoricam ente, isto podia acontecer — e que eles acabem com o a Terra. E que todos os que em igrarem se transform em em especiais,

Muito bem , pensou, vou trabalhar. Estendeu a m ão para a m açaneta que abria a porta para o corredor apagado e encolheu-se todo ao ver a vacuidade do resto do edifício. A vacuidade estava à espera dele, ali fora, a força que sentira, m uito ocupada, penetrando em seu apartam ento específico. Deus, pensou, e voltou a fechar a porta. Não estava pronto para escalar aqueles degraus ressoantes até o telhado vazio, onde não possuía anim al algum . O eco de si m esm o, subindo; o eco de coisa algum a. Tem po de agarrar os guidões, disse a si m esm o, e cruzou z sala de estar até a caixa preta de em patia. Ao ligá-la, o leve e habitual cheiro de íons negativos subiu do suprim ento de energia; inalou-o ávido, j á se anim ando. Em seguida, o tubo de raios catódicos brilhou com o um a im agem de TV, fraca, de im itação, um a colagem form ada de cores aparentem ente ao acaso, rastros, e configurações que, até que os guidões fossem agarrados, nada significava. Assim , tom ando um a profunda respiração para se controlar, segurou os punhos gêm eos.

A im agem tornou-se nítida e viu im ediatam ente um a paisagem fam osa, a velha, parda, estéril ladeira, com tufos de ervas secas que pareciam ossos, apontando, inclinadas, para um céu som brio e sem um sol. Um a única figura, de form a m ais ou m enos hum ana, subia cansadam ente a encosta, um hom em velho usando um robe inform e, de cor baça, um a proteção tão insuficiente com o se houvesse sido arrancada do vazio hostil do céu.

O hom em , Wilbur Mercer, continuava a subir laboriosam ente, enquanto, segurando-se ao guidão, John Isidore, aos poucos, experim entava o desaparecim ento da sala de estar onde se achava; os m óveis arruinados e as paredes se esfum aram , e deixou absolutam ente de vê-los. Descobriu-se, em vez disso, m ais um a vez entrando na paisagem da colina desolada, do céu desolado. Sim ultaneam ente, não viu m ais a subida do velho. Seus próprios pés, nesse m om ento, arrastavam -se, procuravam apoio, entre as pedras soltas conhecidas; sentia a m esm a velha, dolorosa, irregular aspereza sob os pés e, novam ente, o cheiro da névoa acre do céu — não o céu da Terra, m as de algum lugar alienígena, distante, m as, ainda assim , graças à caixa de em patia, bem presente.

Fizera a travessia da m aneira habitual e desnorteante, e a fusão física — acom panhada de identificação m ental e espiritual — com Wilbur Mercer viera a acontecer. Com o fazia com todas as pessoas que, neste m om ento, seguravam os punhos gêm eos, aqui na Terra ou em um dos planetas-colônias. Experim entou-os, os outros, incorporou a tagarelice de seus pensam entos, ouviu em seu próprio cérebro o ruído de suas m uitas existências individuais. Eles — e ele — im portavam -se com um a única coisa, apenas, e esta fusão de suas m entalidades orientava-lhes a atenção na colina, na subida, na necessidade de ascender. Passo após passo ela continuava, tão lenta que era quase im perceptível. Mas estava ali. Mais alto, pensou, enquanto pedras corriam barulhentas sob seus pés. Hoj e, chegam os m ais alto do que ontem e, am anhã — ele, a figura com posta de Wilbur Mercer, ergueu os olhos para exam inar a ladeira à frente.

Im possível distinguir o fim . Longe dem ais. Mas o fim chegaria.

Um a pedra, lançada contra ele, atingiu-lhe o braço. Sentiu a dor. Virou-se parcialm ente e outra pedra passou por ele, errando, bateu na terra, e o som sobressaltou-o. Quem ?, perguntou-se, procurando ver se identificava seu atorm entador. Os velhos antagonistas, m anifestando-se na periferia de sua visão. Aquilo, ou eles, haviam -no seguido o cam inho todo, m orro acim a, e continuaria até o topo.

Lem brou-se do topo, do inesperado nivelam ento da colina, quando term ina a subida e com eça a outra parte. Quantas vezes fizera aquilo? As várias vezes se tornaram indistintas; futuro e passado se tornaram indistintos um do outro, o que j á experim entara e o que finalm ente experim entaria, fundiram -se, de m odo que nada restou, senão o m om ento, a parada ali e o descanso, durante o qual esfregou o corte deixado em seu braço pela pedra. Deus, pensou cansadam ente, de que m aneira é isto j usto? Por que estou sozinho aqui em cim a, sendo atorm entado por algum a coisa que nem m esm o consigo ver? Em seguida, no seu íntim o, a tagarelice m útua de todo m undo na fusão quebrou a ilusão de solidão.

Você tam bém sentiu isso, pensou ele. Sim , responderam as vozes. Fom os atingidos, no braço esquerdo; dói com o o diabo. Muito bem , disse ele, é m elhor com eçarm os a nos m over outra vez. Voltou a andar e todos os outros o acom panharam no m esm o instante. Certa vez, lem brou-se, aquilo fora diferente. Muito tem po antes, antes da chegada da m aldição, num a parte m ais antiga e m ais feliz de sua vida. Eles, seus pais adotivos, Frank e Cora Mercer, haviam -no encontrado flutuando num a balsa de avião, inflada, ao largo da costa da Nova Inglaterra... ou fora no México, perto do porto de Tam pico? Não se lem brava nesse m om ento das circunstâncias. A infância fora boa; am ara toda a vida, especialm ente os anim ais, conseguira m esm o, na verdade, reviver anim ais m ortos da form a com o haviam sido antes. Vivera com coelhos e insetos, onde quer que houvesse sido, na Terra ou num m undo-colônia, agora esquecera disso, tam bém . Mas lem brava-se dos m atadores porque o haviam capturado com o um anorm al, m ais especial do que os dem ais especiais. E, devido àquilo, tudo m udara.

A lei local proibia a faculdade de reversão do tem po, graças à qual os m ortos voltavam à vida haviam -lhe dito isso com toda a clareza possível durante seu décim o sexto ano.

Continuara a fazer isso secretam ente por m ais um ano, nos bosques que ainda restavam , m as fora denunciado por um a velha que nunca vira e de quem nunca ouvira falar. Sem consentim ento de seus pais, eles — os m atadores — haviam bom bardeado o nódulo excepcional que se form ara em seu cérebro, atacando-o com cobalto radiativo, e isto o m ergulhara num m undo diferente, de cuj a existência j am ais suspeitara. Fora um poço de cadáveres e ossos m ortos e lutara durante anos para sair de lá. O j um ento e, especialm ente, o sapo, as criaturas que para ele eram as m ais im portantes, haviam desaparecido, tornados extintos, restando apenas fragm entos que apodreciam , um a cabeça sem olhos aqui, parte de m ão ali. Finalm ente, um a ave que viera ali para m orrer lhe dissera onde estava. Mergulhara na tum ba do m undo. Não poderia sair até que os ossos espalhados à sua volta se transform assem de novo em criaturas vivas; ligara-se ao m etabolism o de outras vidas e, até que elas se levantassem , ele tam pouco podia despertar.

Não sabia naquele m om ento quanto tem po durara aquela parte do ciclo. De m odo geral, coisa algum a acontecera, de m odo que fora im ensurável. Mas, finalm ente, os ossos recuperaram carne; as cavidades oculares se encheram e novos olhos haviam visto, enquanto, ao m esm o tem po, bicos e bocas restauradas cacarej avam , ladravam e m iavam . Possivelm ente, ele fizera isso; talvez o nódulo extra-sensorial em seu cérebro houvesse finalm ente renascido. Ou talvez não tivesse realizado isso; com toda probabilidade, podia ter sido um processo natural.

De qualquer m odo, não afundara m ais; com eçara a subir, j untam ente com os dem ais. Há m uito tem po, perdera-os de vista. Evidentem ente, subia sozinho. Mas eles estavam ali. Ainda o acom panhavam ; sentia-os, estranham ente, dentro de si.

Isidore perm aneceu onde estava, segurando os dois punhos, sentindo-se com o se abarcasse todos os dem ais seres vivos. Em seguida, relutante, desligou-se. Aquilo tinha que term inar, com o sem pre, e de algum m odo seu braço doía e sangrava no lugar onde a pedra o atingira.

Soltando os punhos, exam inou o braço e, em passos trôpegos, foi até o banheiro do apartam ento para lavar o corte. Não era o prim eiro ferim ento que recebia quando em fusão com Mercer e, com toda probabilidade, não seria o últim o. Pessoas, especialm ente idosas, haviam m orrido, especialm ente depois, no alto da colina, quando com eçava, a sério, o torm ento. Será que conseguirei passar por aquilo novam ente? Pensou, enquanto enxugava o ferim ento. Havia possibilidade de um a parada cardíaca. Seria bem m elhor, refletiu, se eu m orasse num a cidade, onde os prédios têm um m édico de serviço com aquelas m áquinas ressuscitadoras elétricas. Aqui, sozinho neste lugar, é arriscado dem ais.

Mas tinha certeza de que correria o risco. Sem pre o correra antes. Com o a m aioria das pessoas, m esm o idosas e fisicam ente frágeis.

Usando um lenço de papel secou o braço ferido.

E ouviu, abafado e distante, o som de um aparelho de TV.

É alguém neste prédio, pensou, alucinado, incapaz de acreditar. Não é a m inha TV, ela está desligada e estou sentindo a ressonância no chão. É em baixo, em outro nível, inteiram ente.

Não estou m ais sozinho aqui. Outro m orador m udou-se para cá, ocupou um dos apartam entos abandonados e está tão perto que posso ouvi-lo. Tem que ser no nível dois ou três, certam ente não m ais baixo. Vam os ver, pensou rapidam ente. O que é que se faz quando chega um novo m orador? Passa-se por lá e tom a-se algum a coisa em prestada, é isso o que se faz? Não conseguia lem brar-se, isto j am ais lhe acontecera antes, ali ou em qualquer outro lugar; pessoas se m udavam , pessoas em igravam , m as ninguém j am ais vinha. É m elhor levar-lhe algum a coisa, resolveu. Com o um copo de água ou, m elhor ainda, de leite; sim , é isso m esm o, leite, farinha de trigo ou, talvez, um ovo — ou, especificam ente, seu sucedâneo.

Olhando no refrigerador — o com pressor pifara m uito tem po antes — encontrou um duvidoso cubo de m argarina. Levando-o, nervoso, o coração batendo com dificuldade, desceu para o nível inferior. Tenho que m e m anter calm o, pensou. Não deixar que ele perceba que eu sou um debilóide. Se descobrir que eu sou, não vai falar com igo. Por algum a razão, é sem pre assim que acontece. Por que será?

Desceu apressado o corredor.