O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 22 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 21

 

À prim eira luz da m anhã, a terra em baixo se estendia aparentem ente para sem pre, cinzenta e j uncada de lixo. Pedras do tam anho de casas haviam rolado e parado próxim as um as das outras e ele pensou: isto parece um a sala de despacho, depois de m andadas em bora todas as m ercadorias. Perm anecem apenas fragm entos de engradados, os recipientes que em si m esm o nada significam . Antigam ente, refletiu, aqui cresciam colheitas e anim ais pastavam . Que pensam ento estranho, que algum anim al pudesse ter pastado aqui. Que lugar estranho para m orrer, pensou.

Baixou o hovercar e deslizou durante algum tem po sobre a superfície. O que Dave Holden diria de m im agora?perguntou a si m esm o. Em um sentido, sou o m aior caçador de cabeças que j am ais viveu: nenhum j am ais aposentou seis tipos Nexus-6 num único período de vinte e quatro horas e nenhum provavelm ente j am ais fará isto. Eu devia telefonar para ele, disse a si m esm o.

Um a encosta atravancada de m orro levantou-se à sua frente; ergueu o hovercar quando o m undo se aproxim ou. Cansaço, pensou. Eu não devia estar guiando ainda. Desligou a ignição, planou por algum tem po e, em seguida, Pousou. O veículo tom bou e rebotou pela encosta, espalhando pedras, subindo, até que parou finalm ente com um chiado.

Levantando o telefone, cham ou a telefonista de São Francisco.

— Ligue-m e com o Hospital Monte Sion — disse.

No m esm o instante, outra telefonista apareceu na videotela:

— Hospital Monte Sion.

— Vocês têm aí um paciente cham ado Dave Holden — explicou. — Eu poderia falar com ele? Ele está suficientem ente bem para atender?

— Um m om ento; vou verificar isso, senhor. — Tem porariam ente, a tela escureceu. Passou-se algum tem po. Rick tom ou um a pitada do Rapé do Dr. Johnson e sentiu um calafrio. Sem o aparelho de aquecim ento do carro ligado, a tem peratura com eçava a cair verticalm ente.

— O Dr. Costa inform a que o Sr, Holden não pode receber telefonem as — inform ou a telefonista, reaparecendo.

— Trata-se de assunto policial — disse ele, colando na tela sua identificação.

— Um m om ento. — Mais um a vez, a telefonista desapareceu. Mais um a vez, Rick tom ou um a pitada do Rapé do Dr. Johnson. O m entol do produto tinha um cheiro horrível, cedo assim pela m anhã. Baixou a j anela do carro e lançou no lixo a pequena lata am arela, — Não, senhor — disse a telefonista, m ais um a vez na tela. — O Dr. Costa não acha que o estado do Sr. Holden perm ita que atenda ao telefone, por m ais urgente que sej a o assunto, por, pelo m enos...

— Muito bem — disse Rick. E desligou.

O ar tam bém tinha um cheiro ruim . Subiu outra vez a j anela. Dave está realm ente acabado, refletiu. Gostaria de saber por que eles não m e pegaram . Porque m e m ovi rápido dem ais, decidiu. Tudo num dia só. Não podiam ter esperado isto. Harry Bry ant tinha razão.

O carro se tornara frio dem ais, de m odo que abriu a porta e saiu. Um vento m efítico, inesperado, com eçou a penetrar em suas roupas e ele com eçou a andar, esfregando as m ãos um a na outra.

Teria sido bem agradável conversar com Dave, pensou. Dave teria aprovado o que eu fiz. Mas acho tam bém que ele teria com preendido a outra parte, que penso que nem Mercer com preende. Para Mercer, tudo é fácil porque ele aceita tudo. Coisa algum a lhe é estranha. Mas o que eu fiz, pensou, isso se tornou estranho a m im . Na verdade, tudo em m im se tornou antinatural. Eu m e tornei um ser antinatural.

Continuou a andar, subindo a colina e, a cada passo, aum entava o peso sobre ele. Estou cansado dem ais para subir, pensou. Parando, enxugou o suor picante dos olhos, lágrim as salgadas produzidas por sua pele, por todo seu corpo dolorido.

Depois, zangado consigo m esm o, cuspiu — cuspiu com raiva e desprezo, por si m esm o, com ódio total, no chão estéril. Em seguida, continuou a subir penosam ente a encosta, o terreno solitário e desconhecido, rem oto a tudo. Coisa algum a vivia ali, exceto ele. O calor. Esquentara, agora; evidentem ente, passara o tem po. E sentiu fom e. Não com ia só Deus sabia havia quanto tem po. Fom e e calor com binados, um gosto venenoso parecendo derrota. Sim , pensou, é isso o que é: fui derrotado de algum a m aneira obscura. Por ter m orto os andróides? Pelo assassinato de m inha cabra por Rachael?

Não sabia, m as enquanto continuava a andar cansadam ente, um a m ortalha vaga e quase alucinatória toldou sua m ente.

Quando deu por si, estava num ponto sem noção de com o chegara lá,, a um passo de um a queda certam ente fatal pela encosta — caindo de m odo hum ilhante e im potente, pensou, sem m esm o um a única pessoa para presenciar o fato. Ali não havia ninguém para registrar sua degradação, ou a de alguém , e a coragem ou o orgulho que pudessem m anifestar-se no fim perm aneceriam sem registro: as pedras m ortas, as ervas daninhas atacadas pela poeira, secas e m orrendo, nada percebiam , de coisa algum a se lem brariam , sobre ele ou elas m esm as.

Naquele m om ento, a prim eira pedra — e não era de borracha ou de plástico m ole e m acio — atingiu-o na região inguinal. E a dor, o prim eiro conhecim ento de solidão e sofrim ento absolutos, tocou-o em todo o corpo, em sua form a real sem disfarces. Parou. Em seguida, acicatado — o acicate invisível m as real, que não podia ser desobedecido —, reiniciou a subida. Rolando para cim a, pensou, com o as pedras.

Estou fazendo o que as pedras fazem . Sem vontade. Sem que isto signifique coisa algum a.

— Mercer — disse, arquej ante. Parou, estatelado. À sua frente, distinguiu a figura nevoenta, im óvel. — Wilbur Mercer! É você? — Meu Deus, com preendeu. É m inha som bra. Tenho que sair daqui, descer desta colina!

Recuou, atabalhoado. Um a vez, caiu; nuvens de poeira obscureciam tudo e fugiu delas — cada vez m ais depressa, deslizando e tropeçando nos seixos soltos. À frente, viu seu carro estacionado. Estou de volta aqui em baixo, disse a si m esm o. Saí da colina. Abriu com força a porta do carro e esprem eu-se para dentro. Quem foi que m e atirou pedras?, perguntou a si m esm o. Ninguém ! Mas por que isto m e incom oda? Eu passei por isto antes, durante a fusão. Enquanto usava m inha caixa de em patia, com o todo m undo. Isto não é novo. Mas foi. Porque, pensou, fiz isto sozinho.

Trem endo, apanhou um a nova lata de rapé no porta-luvas. Tirando a fita aderente protetora, tom ou um a grande pitada, descansou, m etade do corpo dentro do carro, as pernas de fora, na terra árida e em poeirada. Este era o últim o lugar para vir, com preendeu. Não devia ter vindo aqui. E, naquele instante, estava cansado dem ais para voltar.

Se eu apenas pudesse falar com Dave, pensou, ficaria tudo bem com igo. Poderia escapar daqui, voltar para casa, para a cam a. Ainda tenho m inha ovelha elétrica e tenho m eu em prego. Haverá m ais andros para aposentar; m inha carreira não acabou; não aposentei ainda o últim o andróide existente. Talvez sej a isto, pensou, estou com m edo que não haj a m ais.

Olhou para o relógio. Nove e trinta.

Apanhando o telefone, discou para o Palácio de Justiça, na Lom bard.

— Ligue-m e para o Inspetor Bry ant — disse à telefonista da polícia, Srta, Wild.

— O Inspetor Bry ant não está no escritório, Sr. Deckard. Saiu no seu próprio carro, m as não consigo nenhum a ligação com ele. Ele deve ter deixado o veículo tem porariam ente.

— Ele disse para onde tencionava ir?

— Algum a coisa sobre os andróides que o senhor aposentou na noite passada.

— Ligue-m e então com m inha secretária — pediu.

Um m om ento depois, apareceu na tela a face am arelada, peculiar, de Ann Marsten.

— Oh, Sr. Deckard... O Inspetor Bry ant anda à sua procura. Acho que ele está subm etendo seu nom e ao Com issário Cutter, para um elogio em fé-de-ofício. Porque o senhor aposentou aqueles seis...

— Eu sei o que foi que eu fiz — grunhiu ele.

— Isso nunca aconteceu antes. Oh, sim , Sr. Deckard, sua esposa telefonou. Quer saber se o senhor está bem . O senhor está?

Ele perm aneceu calado.

— De qualquer m odo — opinou a Srta. Marsten —, talvez fosse bom o senhor telefonar, ela deixou recado avisando que vai ficar em casa, à sua espera.

— Ouviu falar de m inha cabra? — perguntou ele.

— Não, eu nem m esm o sabia que o senhor tinha um a cabra.

— Mataram m inha cabra — disse Rick.

— Quem m atou, Sr. Deckard? Ladrões de anim ais? Acabam os de receber um relatório sobre um a nova e grande quadrilha, provavelm ente adolescentes, operando em ...

— Ladrões de vidas — disse Rick.

— Eu não estou entendendo, Sr. Deckard. — A Srta. Marsten observou-o atentam ente.

— Sr. Deckard, o senhor está com um a aparência horrível! E, m eu Deus, seu rosto está sangrando.

Erguendo a m ão, Rick sentiu o sangue. Provocado por um a pedra, provavelm ente. Mais de um a, evidentem ente, o atingira.

— O senhor está parecendo com Wilbur Mercer — disse ela.

— Eu sou — disse ele. — Eu sou Wilbur Mercer. Fundi-m e perm anentem ente com ele. E não posso desfundir-m e. Estou aqui, à espera da desfusão. Em um lugar qualquer, perto da fronteira do Oregon.

— Quer que enviem os alguém ? Um carro do Departam ento para apanhá-lo?

— Não — respondeu ele. — Eu não trabalho m ais no Departam ento.

— Evidentem ente o senhor trabalhou dem ais ontem , Sr. Deckard — disse ela em tom de desaprovação. — O que o senhor precisa é de repouso na cam a. Sr. Deckard, o senhor é o nosso m elhor caçador de cabeças, o m elhor que j am ais tivem os.

Direi ao Inspetor Bry ant quando ele chegar. Vá pra casa e pra cam a. Telefone agora m esm o para sua esposa, Sr. Deckard, porque ela está terrivelm ente, terrivelm ente preocupada. Vocês dois estão pavorosos.

— É por causa de m inha cabra — disse ele. — Não por causa dos andróides. Rachael enganou-se... Não tive problem a algum para aposentá-los. E o especial enganou-se tam bém , dizendo que eu não podia m ais entrar em fusão com Mercer. O único que teve razão foi Mercer.

— É m elhor o senhor voltar para a área da Baía, Sr. Deckard. Onde há gente. Não há nada vivendo aí perto do Oregon, não é verdade? O senhor não está sozinho?

— É estranho — disse Rick, — Tive a absoluta, total, ilusão, inteiram ente real, que m e tornara Mercer e que pessoas atiravam pedras em m im . Mas não da m aneira com o a gente experim enta quando segura os punhos de um a caixa de em patia. Quando a usam os, sentim os que estam os com Mercer. A diferença foi que não estive com pessoa algum a. Eu estava sozinho.

— Agora estão dizendo por aí que Mercer é um a im postura.

— Mercer não é um a im postura — disse ele. — A m enos que a realidade sej a. — Esta colina, pensou. Esta poeira e todas estas pedras, todas elas diferentes um as das outras.

— Estou com m edo — continuou ele — que não possa deixar de ser Mercer. Um a vez que se com ece, é tarde dem ais para recuar — Vou ter que subir novam ente a colina?, perguntou-se. Eternam ente, com o Mercer faz...encurralado pela eternidade. — Adeus — e com eçou a desligar.

— Vai telefonar para sua esposa? Prom ete?

— Sim , vou. — Inclinou a cabeça — Obrigado, Ann. — Descanso na cam a, pensou.

A últim a vez em que m e deitei num a cam a foi com Rachael. Na violação de um a lei. Cópula com um a andróide, inteiram ente contra a lei, aqui e nos m undos-colônias. Ela deve estar de volta agora a Seattle. Com os outros Rosens, reais e hum anóides. Eu gostaria de fazer com você o que você fez com igo, desej ou. Mas isto não pode ser feito com um andróide, porque ele não se im porta. Se eu a tivesse m orto ontem , m inha cabra estaria viva agora. Foi nesse m om ento que tom ei a decisão errada. Sim , pensou: tudo pode ser atribuído a isso e ao fato de ter ido para a cam a com você. Afinal de contas, você teve razão num a coisa: a experiência m udou-m e. Mas não da form a que você previu.

De um a m aneira m uito pior, decidiu.

Mas, ainda assim , não m e im porto, realm ente. Não m ais. Não, pensou, depois do que aconteceu lá em cim a, perto do topo da colina. Gostaria de saber o que aconteceria em seguida, se continuasse a subir e chegasse ao topo. Porque é lá que parece que Mercer m orre. É lá que o triunfo de Mercer se m anifesta, lá ao fim do grande ciclo sideral.

Mas se sou Mercer, pensou, j am ais posso m orrer, não em dez m il anos. Mercer é im ortal!

Mais um a vez, apanhou o telefone. Ia cham ar a esposa.

E ficou paralisado.