O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 17 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 16

 

NO SUNTUOSO e enorm e quarto do hotel, Rick Deckard lia as folhas a carbono, datilografadas, sobre os andróides Roy e Irm gard Baty.

Nestes dois casos, incluíam instantâneos telescópicos, fotos indistintas em 3D, que ele m al conseguia enxergar.

A m ulher parecia atraente. Roy Baty, contudo, era algo diferente. Algo pior. Farm acêutico em Marte, leu. Ou pelo m enos o andróide usara essa cobertura.

Na realidade, provavelm ente fora um trabalhador braçal, um peão, com aspirações de coisa m elhores. Será que andróides sonham ? Perguntou-se.

Roy Baty (inform avam os antecedentes) tem um ar agressivo, afirm ativo, de falsa autoridade. Dado a especulações m ísticas, este andróide propôs ao grupo a tentativa de fuga coletiva, garantindo-a ideologicam ente com pretensiosa ficção sobre a sacralidade da cham ada "vida" andróide. Além disso, este andróide roubou, e experim entou, vários tipos de drogas geradoras de fusão da m ente, alegando, quando surpreendido, que alim entava a esperança de prom over em andróides um a experiência grupal sem elhante à do m ercerism o, a qual, alegou, continua proibida aos andróides.

Evidentem ente é por isso que eles, ocasionalm ente, m atam seus em pregadores e fogem aqui para a Terra. Um a vida m elhor, sem servidão.

Com o Luba Luft, cantando Don Giovanni e Le Nozze, em vez de labutar na face estéril de um cam po cheio de pedras. Num m undo colonial basicam ente inabitável.

O relato tinha um aspecto patético. Um rude e frio andróide na esperança de passar por um a experiência que, devido a um deliberado defeito inerente à sua constituição, lhe estava vedada. Mas não conseguia interessar-se m uito por Roy Baty. Captou, pelas notas de Dave, algo de repelente pairando em volta desse andróide. Baty tentara forçar a criar para si m esm o, a experiência de fusão... quando fracassara, planej ara o assassinato de grande núm ero de seres hum anos...seguido da fuga para a Terra. E neste instante, especialm ente neste dia, ocorria a destruição gradativa dos oito andróides originais, até que só restavam três. E eles, os principais m em bros do grupo ilegal, estavam condenados, um a vez que, se não conseguisse pegá-los, algum a outra pessoa os pegaria. O tem po e a m aré, pensou. O ciclo da vida. Term inando desta m aneira o últim o pôr-do-sol. Antes do silêncio da m orte.

Nisto percebeu a existência de um m icro-universo, com pleto.

A porta do quarto foi aberta com um estrondo.

— Que vôo — disse sem fôlego Rachael Rosen entrando vestida com um longo casaco tipo escam a de peixe, com sutiã e short com binando. Trazia consigo um a grande e enfeitada sacola de papel. Este é um bom quarto. — Consultou o relógio de pulso. — Menos de um a hora. Fiz a viagem num bom tem po. — Estendeu a sacola de papel. — Eu trouxe um a garrafa. Bourbon.

— O pior dos oito continua vivo — disse Rick. — O que organizou o grupo.

Estendeu-lhe a inform ação sobre Roy Baty.

Rachael pôs de lado a sacola de papel e recebeu a folha.

— Localizou este? Perguntou term inada a leitura.

— Tenho um endereço de apartam ento. Lá nos subúrbios, onde provavelm ente uns dois especiais deteriorados, debilóides ou cabeças de cam arão, levam suas versões de vida. Rachael esticou a m ão:

— Vej am os os outros.

— Mulheres, am bos.

Entregou-lhes as folhas, um a referente a Irm gard Baty e a outra sobre um a andróide que a si m esm a cham ava de Pris Stratton.

Lançando um olhar à últim a folha, Rachael disse:

— Oh! — Sacudindo no chão as folhas, foi até a j anela do quarto para olhar o centro de São Francisco. — Acho que você vai ser derrotado pela últim a. Talvez não. Talvez você não se im porte. — Em palidecera e sua voz trem ia.

De repente, ela se tornara excepcionalm ente instável.

— Exatam ente, sobre o que é que você está resm ungando aí?

Apanhou as folhas, voltou a estudá-las, perguntando-se ao m esm o tem po que parte delas perturbara Rachael.

— Vam os abrir o uísque. — Levou a sacola para o banheiro, apanhou dois copos e voltou. Parecia ainda distraída e incerta — e preocupada. Rick sentiu-lhe a fuga rápida e os seus pensam entos ocultos: as transições m ostravam -se em seu rosto carrancudo, tenso. — Será que você pode abrir isto? — perguntou ela. — Vale um a fortuna, com o você sabe. Não é sintético. É de antes da guerra, feito com m alte autêntico. Pegando a garrafa, Rick abriu-a e encheu dois copos com a bebida.

— Diga-m e qual é o problem a — sugeriu.

— Ao telefone — com eçou Rachael — você m e disse que se eu viesse aqui hoj e à noite, você desistiria dos três andros restantes. "Vam os fazer um a coisa diferente", você disse. Mas aqui estam os nós.. .

— Diga-m e o que foi que a perturbou — pediu ele.

Encarando-o, desafiadora, Rachael respondeu:

— Diga-m e o que é que vam os fazer, em vez de nos alvoroçarm os e nos preocuparm os com esses três últim os andros Nexus-6.

Desabotoou o casaco e levou-o até um arm ário, onde o pendurou. Isto deu a Rick a oportunidade de dar um a boa olhada no corpo dela. As proporções de Rachael, notou m ais um a vez, eram estranhas. Com sua abundante m assa de cabelos pretos, a cabeça parecia grande, e devido aos seios pequeninos o corpo assum ia um a postura esgalgada, quase infantil. Mas os grandes olhos, com os longos e finos cílios, só podiam ser de um a m ulher adulta; neles term inava a sem elhança com a adolescência.

Rachael descansava, bem de leve, sobre a parte dianteira dos pés, e seus braços, da form a com o pendiam , curvavam -se nas articulações. A postura, refletiu, de um cauteloso caçador, talvez da raça Cro-Magnon. A raça do altos caçadores, refletiu. Nenhum excesso de carne, barriga chata, pequenas nádegas e peito am plo.

Rachael fora m odelada de acordo com o tipo físico céltico, anacrônico e atraente. Abaixo dos curtos shorts, as pernas, esguias, tinham um a aparência neutra, não sexual, não m uito bem acabadas, em curvas núbeis. A im pressão total, contudo, era boa, Em bora, definitivam ente, de um a m ocinha, não de um a m ulher. Exceto pelos olhos inquietos, ardilosos.

Provou o bourbon. O poder da bebida, sabor e cheiro fortes, havia-se tornado quase estranho para ele e teve dificuldade em engoli-la. Rachael, ao contrário, nenhum a dificuldade teve com a sua.

Sentando-se na cam a, Rachael alisou distraída a colcha, num a expressão, nesse m om ento, de m elancolia, Ele pôs o copo na m esinha de cabeceira e sentou-se ao lado dela. Sob o seu peso, a cam a cedeu e Rachael m udou de posição.

— O que foi? — perguntou. Segurou-lhe a m ão, que achou fria, ossuda, ligeiram ente úm ida — O que foi que a perturbou?

— A últim a droga de tipo Nexus-6 — disse ela, falando com um esforço — é do m esm o tipo que eu.

Olhou fixam ente para a colcha, encontrou um fio e com eçou a rolá-lo entre os dedos e transform á-lo num a bolinha. — Não notou a descrição? É a m inha. Ela pode usar de m odo diferente o cabelo, vestir-se de outra m aneira . pode ter m esm o com prado um a peruca. Mas, quando a vir, você vai entender o que estou querendo dizer. — Riu, irônica. — Foi um a boa coisa que a em presa tenha adm itido que sou um a andro. De outro m odo, você provavelm ente teria ficado louco quando conhecesse Pris Stratton. Ou pensasse que ela era eu.

— Por que isso a incom oda tanto assim ?

— Bolas, eu vou estar j unto quando você aposentá-la.

— Talvez não. Talvez eu não a encontre.

— Eu conheço a psicologia Nexus-6. Esse é o m otivo porque estou aqui. É por isso que posso aj udá-lo. Eles estão escondidos, j untos, os últim os três. Em volta de um tipo m entalm ente desequilibrado que se diz cham ar Roy Baty. É quem dirigirá a defesa crucial, total, final deles. — Mordeu os lábios. — Jesus! — exclam ou.

— Anim e-se — disse ele. Pegou-lhe o pequeno queixo na palm a da m ão e levantou-lhe a cabeça, de m odo que ela teve que olhá-lo. Com o será beij ar um a andróide, pensou.

Inclinando-se um pouco, beij ou-lhe os lábios secos. Nenhum a reação se seguiu; Rachael perm aneceu im passível. Com o se não houvesse sido afetada. Ainda assim , ele sentiu um a coisa diferente. Ou, talvez, era m ero desej o seu pensar assim .

— Eu gostaria — disse Rachael — de ter sabido disso antes de vir para cá. Eu nunca teria vindo. Acho que você está m e pedindo dem ais. Sabe o que eu sinto? Em relação a essa andróide Pris?

— Em patia — respondeu ele.

— Algum a coisa assim . Identificação. Lá vou eu. Meu Deus, talvez sej a isso o que vai acontecer. Na confusão, você m e aposentará, não ela. E ela poderá voltar a Seattle e levar m inha vida. Nunca m e senti assim antes. Nós som os m áquinas, estam padas com o quem estam pa rolhas de m etal de garrafas. É um a ilusão que eu, eu pessoalm ente, exista. Sou apenas representativa de um tipo.

Estrem eceu.

Ele não pôde deixar de sentir-se alegre; Rachael se tornara tão piegam ente sentim ental e abatida...

— Form igas não se sentem assim — disse —, e elas são fisicam ente idênticas.

— Form igas, Elas não sentem , ponto final.

— Gêm eos hum anos univitelinos. Eles não...

— Mas eles se identificam entre si. Sei que eles têm um laço especial, em pático. — Levantando-se, pegou a garrafa, um pouco trôpega, reencheu seu copo e bebeu-o de um gole. Durante algum tem po, vagueou pelo quarto, sobrancelhas som briam ente contraídas. Em seguida, com o vindo para o lado dele por acaso, sentou-se na cam a. Lançou para cim a as pernas e estirou-se, encostando-se nos grandes travesseiros. E suspirou. — Esqueci-m e dos três andros — disse, a voz dem onstrando cansaço. — Estou tão esgotada da viagem , acho. E do que descobri hoj e. Só quero dorm ir.

— Fechou os olhos. — Se eu m orrer — m urm urou — talvez eu nasça novam ente quando a Rosen Association estam par sua próxim a unidade de m eu subtipo. — Abriu os olhos e fitou-o ferozm ente. — Você sabe — perguntou — por que eles vieram realm ente para cá? Por que Eldon e os outros Rosens, os hum anos, queriam que eu viesse com você?

— A fim de observar — sugeriu ele. — Detalhar exatam ente o que um Nexus-6 faz que o denuncia no Teste Voigt-Kam pff.

— No teste ou de outra m aneira. Tudo o que lhe dá um a característica diferente. E, em seguida, apresentar um relatório, de m odo que a em presa possa fazer m odificações em banho de zigotos de fatores de DNS. E depois terem os o Nexus-7. E quando ele for descoberto, m odificarem os o m odelo m ais um a vez e, no fim , a em presa conseguirá um tipo que não poderá ser distinguido de um ser hum ano com um .

— Você conhece o Teste Boneli de Reflexo de Arco?

— Nós estam os trabalhando tam bém nos gânglios espinais. Algum dia, o Teste Boneli desaparecerá na m ortalha encanecida de ontem do esquecim ento espiritual. Sorriu inocentem ente, em contraste com suas palavras.

A esta altura, ele não podia discernir-lhe o grau de seriedade. Um tópico de um a im portância capaz de abalar o m undo e, no entanto, discutido com leviandade; um traço andróide, possivelm ente, pensou. Nenhum a percepção em ocional, nenhum senso de sentim ento do significado real do que dissera. Só as definições rasas, form ais, intelectuais, das palavras separadas.

E m ais, Rachael com eçara a im plicar com ele. Im perceptivelm ente, passara de lam entar seu próprio estado para azucriná-lo sobre o dele.

— Diabos a levem — disse.

Rachael riu.

— Estou bêbada. Não posso ir com você. Se sair daqui — fez um gesto de despedida — , eu fico, durm o e depois você pode m e contar o que foi que aconteceu.

— Exceto — disse ele — que não vai haver um depois, porque Roy Baty vai m e pegar.

— Mas, de qualquer m odo, não posso aj udá-lo m ais porque estou bêbada. Afinal de contas, você conhece a verdade, a dura, irregular, escorregadia superfície da verdade. Eu sou apenas um a observadora e não intervirei para salvá-lo. Não m e im porto se Roy Baty pega-o ou não, Eu m e im porto se m e pegam . — Esbugalhou os olhos. — Cristo, estou em pática com igo m esm a. E, se eu for àquele prédio arruinado nos subúrbios... —

Estendeu a m ão e brincou com o botão da cam isa dele. Em lentos e fáceis m ovim entos dos dedos com eçou a abri-la. — Não ouso ir porque andróides não têm lealdade um para com o outro e sei que aquela m aldita Pris Stratton m e destruirá e ocupará m eu lugar. Entendeu? Tire o paletó.

— Para quê?

— Para poderm os nos deitar — disse Rachael.

— Eu com prei um a cabra núbia preta — disse ele. — Tenho que aposentar m ais três andros. Tenho que acabar m eu trabalho e voltar para, j unto de m inha esposa, em casa. Levantou-se, deu a volta à cam a e foi até a garrafa de uísque. Com todo cuidado, serviu-se de um segundo drinque; suas m ãos, observou, trem iam apenas de leve. Provavelm ente, de fadiga. Nós dois, com preendeu, estam os cansados. Cansados dem ais para caçar três andros, com o pior dos oito dando as cartas. Ali naquele lugar, de repente, reconheceu que adquirira um m edo total, incontestável, do principal andróide. Tudo dependerá de Baty — dependera desde o com eço. Até então, enfrentara e aposentara, um depois do outro, m anifestações m ais fracas de Baty. Chegara agora a vez do próprio Baty. Pensando nisso, o m edo agravou-se, envolveu-o por com pleto, agora que o deixara aproxim ar-se de sua m ente consciente.

— Agora, eu não posso ir sem você — disse a Rachael.

— Não posso nem m esm o sair daqui. Polokov veio atrás de m im ; Garland virtualm ente procurou-m e.

— Você acha que Roy Baty virá pegá-lo? — Pondo de lado o copo vazio, ela inclinouse para a frente, estendeu as m ãos para trás e soltou o sutiã. Ágil, tirou-o do corpo, levantou-se, cam baleando, e riu alegre porque estava cam baleando. — Na m inha bolsa

— disse — tenho um m ecanism o que nossa fábrica autom ática em Marte constrói com o dispositivo de em er... — Fez um a careta. — Um aparelho de em ergência de segurança, que têm sem pre à m ão quando subm etem um andro recém -acabado a controles de inspeção de rotina. Apanhe-o. Parece um a ostra. Procure que você acha.

Ele j á com eçara a m exer na bolsa. Com o um a m ulher hum ana, Rachael tinha na bolsa todos os tipos concebíveis de obj etos surrupiados e escondidos. Continuou a busca interm inável.

Enquanto isso, Rachael tirara as botas com um pontapé e descera o fecho do short. Equilibrando-se sobre um pé, pegou a peça retirada com o dedão e atirou-a para o outro lado do quarto. Caiu de novo na cam a, rolou para apanhar o copo, acidentalm ente derrubou-o no chão carpetado.

— Droga — disse ela e, trôpega, levantou-se outra vez.

Ali de calcinha, ficou a olhá-lo m exendo em sua bolsa.

Em seguida, com gestos deliberados e toda atenção, puxou para trás as cobertas, deitouse e cobriu-se.

— É isto? — perguntou ele, m ostrando um a esfera m etálica, da qual se proj etava um botão.

— Esse aparelho faz com que o andróide entre em estado de catalepsia — disse Rachael, olhos fechados. — Durante alguns segundos. Suspende-lhe a respiração, a de vocês tam bém , m as hum anos podem agir sem respirar...perspirar durante alguns m inutos, m as o nervo pneum ogástrico de um andro...

— Eu sei. — Espigou-se. O sistem a nervoso autônom o do andróide não é tão flexível com o o nosso para iniciar e interrom per um a função. Mas, com o você disse, isto não funcionará por m ais de cinco ou seis segundos.

— É o suficiente — m urm urou ela — para salvar sua vida. Assim , com preenda... — Ergueu-se, sentou-se na cam a. — Se Roy Baty aparecer por aqui, você deve estar com isso na m ão e apertar o botão dessa coisa. E enquanto ele estiver duro, sem suprim ento de ar para o sangue e suas células cerebrais se deterioram , você pode m atá-lo com seu laser,

— Você tem um tubo de laser — disse ele. — Em sua bolsa.

— Um a im itação. Andróides — bocej ou, olhos fechados — não têm perm issão para conduzir lasers.

Ele aproxim ou-se da cam a.

Contorcendo-se, Rachael conseguiu finalm ente rolar para cim a do estôm ago, o rosto enterrado no lençol branco.

— Este é o tipo lim po, nobre, virgem de cam a — declarou ela. — Apenas m oça:; lim pas, nobres, que... — Pensou um pouco. — Andróides não podem conceber filhos — disse em seguida. — Isto é m au?

Ele acabou de despi-la e lhe expôs o ventre pálido e frio.

— É um m al? — repetiu Rachael. — Não sei, realm ente. Não tenho com o saber. Com o é que é ter um filho? Por falar nisto, com o é nascer? Nós não nascem os, não crescem os; em vez de m orrer de doença ou velhice, gastam o-nos, com o as form igas. Form igas, novam ente, é isso o que som os. Não você. Quero dizer eu. Máquinas quitinosas capazes de reflexos, que não estão realm ente vivas. — Torceu a cabeça para um lado e disse em voz alta: — Eu não estou viva! Você não vai para a cam a com um a m ulher. Não fique desapontado, certo? Já fez am or antes com um a andróide?

— Não — confessou ele, tirando a gravata e a cam isa.

— Sei — disseram -m e que é convincente, se o hum ano não pensa m uito na coisa. Mas se pensar dem ais, se refletir no que está fazendo...então você não pode continuar. Por razões psicológicas.

Curvando-se, ele beij ou-lhe o om bro nu.

— Obrigada, Rick — disse ela, lânguida —, lem bre-se, porém , não pense nisto, sim plesm ente faça. Não pare e se m eta a filosofar, porque, do ponto de vista filosófico, é desolador, para nós dois.

— Mas depois — disse ele — eu ainda tenciono ir pegar Roy Baty. Ainda vou precisar de sua presença com igo. Sei que o tubo de laser que você tem na bolsa é...

— Você pensa que vou aposentar para você um de seus andróides?

— Eu penso que, a despeito de tudo o que disse, você m e aj udará no que puder. De outro m odo, você não estaria deitada aí nessa cam a.

— Eu am o você — disse Rachael. — Se eu entrasse num quarto e encontrasse um sofá forrado com seu couro, eu m arcaria pontos bem altos no Teste Voigt-Kam pff.

Hoj e à noite, em algum m om ento, pensou enquanto desligava a luz da cabeceira, vou aposentar um a Nexus-6 que se parece exatam ente com esta pequena nua. Meu bom Deus, pensou, acabei onde Pris Resch disse que eu acabaria. Faça am or com ela prim eiro, lem brou-se. Depois, m ate-a.

— Eu não posso fazer isto — disse ele e afastou-se da cam a.

— Eu gostaria que pudesse — respondeu Rachael trêm ula.

— Não por causa de você, m as por causa de Pris Stratton, do que vou ter que fazer com ela.

— Nós não som os a m esm a. Eu não m e im porto com Pris Stratton. Escute aqui. — Mexeu-se na cam a, levantando-se. Na escuridão, ele ainda assim conseguia distinguir a form a elegante, quase destituída de seios. — Faça am or com igo e eu aposentarei Stratton. Certo? Porque não posso suportar chegar assim tão perto e...

— Obrigado — disse ele. A gratidão, sem dúvida devido ao uísque, subiu em seu corpo, apertando-lhe a garganta.

Dois, pensou. Agora só tenho dois para aposentar, sim plesm ente os Baty s. Faria Rachael realm ente isso? Evidentem ente. Andróides pensavam e funcionavam assim . Ainda assim , em toda sua vida j am ais encontrara coisa parecida.

— Droga, venha para a cam a — disse Rachael.

Ele foi.