O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 13 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 12

 

NA CASA DA ÓPERA, foram inform ados de que o ensaio term inara. E que Luba Luft fora em bora.

— Ela disse para onde pretendia ir? — perguntou Phil Resch, m ostrando a um em pregado de palco sua identificação da polícia.

— Para o m useu. — O em pregado exam inou a identificação. — Disse que queria ir ver a exposição de Edvard Munch que há por lá atualm ente. Acaba am anhã. E Luba Luft, pensou Rick, acaba hoj e.

Enquanto os dois desciam a calçada em direção ao m useu, perguntou Phil Resch:

— Que chances você dá? Ela bateu as asas. Não vam os encontrá-la no m useu.

— Talvez — disse Rick.

Chegaram ao prédio, verificaram onde era a exposição de Munch, e subiram . Pouco depois, andavam ao léu entre pinturas e xilogravuras. Num erosas pessoas haviam com parecido para ver a exposição, incluindo um a turm a de escola secundária e, enquanto a voz aguda da professora ressoava por todas as salas reservadas à m ostra.

Rick pensou: Era com isso que você esperaria que soasse — e parecesse — um a andróide. Em vez de se parecer com Rachael Rosen e Luba Luft. E com o hom em ao seu lado. Ou, m elhor, a coisa a seu lado.

— Você j á ouviu falar em um andróide possuir algum bichinho de estim ação? — perguntou-lhe Phil Resch.

Por algum a razão, Rick sentiu a necessidade de ser brutalm ente honesto; j á com eçara a preparar-se para o que o aguardava.

— Em dois casos que conheço, andros possuíram e cuidavam de anim ais. Mas isto é raro. Pelo que pude aprender, a coisa geralm ente falha, o andro é incapaz de m anter vivo o anim al. Para florescer, o anim al precisa de um am biente de calor hum ano. Exceto répteis e insetos.

— Um esquilo precisaria disso? De um a atm osfera de am or? Por que Buffy está indo m uito bem , tão lustroso com o um a lontra. Eu o escovo e penteio, dia sim , dia não. — Em frente a um quadro a óleo, Phil Resch parou e ficou a exam iná-lo com atenção. O quadro m ostrava um a criatura calva, oprim ida, com um a cabeça parecendo um a pêra invertida, as m ãos fechadas em horror nas orelhas, a boca aberta num im enso e m udo grito. Ondas contorcidas do sofrim ento da criatura, ecos de seu grito, vibravam no ar que a cercava; o hom em , ou m ulher, o que quer que fosse, estava contida em seu próprio uivo. Cobrira as orelhas para não ouvir seu próprio som . A criatura encontravase num a ponte e não havia ali ninguém m ais e ela gritava em com pleto isolam ento. Separada — ou a despeito — da explosão de seu grito.

— Ele fez um a xilografia disto — disse Rick, lendo o cartão preso com um percevej o em baixo do quadro.

— Eu acho — especulou Phil Resch — que é assim que um andro deve sentir-se. — No ar, traçou circunvoluções, visíveis no quadro, do grito da criatura. —Eu não m e sinto assim , de m odo que eu talvez não sej a... — Interrom peu-se quando várias pessoas se aproxim aram para ver o quadro.

— Lá está Luba Luft — apontou Rick e Phil Resch parou sua lúgubre introspecção e autodefesa. Em passos m edidos, os dois se dirigiram para ela, sem pressa, com o se nada os esperasse. Com o sem pre, era vital preservar a atm osfera com um . Outros hum anos, sem conhecim ento da presença de andróides entre eles, tinham que ser protegidos a todo custo — m esm o ao de perderem a presa.

Tendo nas m ãos um catálogo im presso, Luba Luft, usando calças j ustas brilhantes e um a espécie de colete dourado ilum inado, parecia absorta em frente a um quadro: o desenho de um a m oça, m ãos cruzadas, sentada à beira de um a cam a. com um a expressão de confuso espanto e um novo e sorrateiro m edo gravado na face.

— Quer que o com pre para você? — perguntou Rick a Luba Luft. Ao lado dela, segurava-a levem ente pela parte superior do braço, dizendo-lhe, pela frouxa em punhadura, que sabia que tinha sua posse, que não precisava fazer força para detê-la. No outro lado, Phil Resch colocou a m ão no om bro dela e Rick viu a protuberância de um tubo de laser. Phil Resch não tencionava arriscar-se, não depois do quase fracasso com o Inspetor Garland.

— Não está à venda. — Luba Luft lançou-lhe um olhar preguiçoso e, em seguida, violento, quando o reconheceu. Seus olhos desm aiaram e a cor dim inuiu em seu rosto, deixando-o cadavérico, com o se j á com eçasse a apodrecer, com o se a vida houvesse, num instante, se retirado para algum ponto bem dentro dela, deixando o corpo à sua ruína autom ática. — Eu pensei que o haviam prendido. Quer dizer que o soltaram ?

— Srta. Luft — ele apresentou —, este é o Sr. Resch. Phil Resch, esta é a fam osa cantora de óperas, Luba Luft.

A Luba, disse: — O guarda uniform izado que m e prendeu é um andróide. Com o era tam bém o superior dele. Você conhece, conhecia, um certo Inspetor Garland? Ele m e disse que vocês todos chegaram aqui em um a única nave, com o um grupo.

— O departam ento policial para o qual ligou — disse-lhe Phil Resch —, e que opera de um prédio na Mission, é a agência organizadora, através da qual parece que seu grupo se m antém em contato. Eles se sentem tão confiantes que até contratam um caçador de cabeças hum ano. Evidentem ente...

— Você? — perguntou Luba. — Você não é hum ano. Não m ais do que eu. Você é andróide, tam bém .

Caiu um silêncio até que Phil Resch disse em voz baixa e controlada:

— Bem , tratarem os disso no m om ento oportuno. — Virou-se para Rick: — Vam os levá-la para m eu carro.

Escoltada de cada lado enquanto a em purravam na direção do elevador do m useu, Luba Luft não os acom panhou de bom grado, m as; por outro lado, não resistiu ativam ente. Aparentem ente se resignara. Rick vira isso antes em andróides, em situações cruciais. A força de vida artificial que os anim ava com o que falhava, se pressionada dem ais, pelo m enos em alguns deles. Não em todos. E podia explodir furiosam ente. Os andróides, contudo, possuíam , isto ele sabia, um desej o inato de perm anecerem despercebidos. No m useu, com tantas pessoas andando em volta, Luba Luft tenderia a perm anecer inativa. O choque real — para ela provavelm ente o últim o — teria lugar no carro, onde ninguém m ais poderia vê-los. Sozinha, com apavorante subtaneidade, ela podia descartar-se de suas inibições. Preparou-se — e não pensou em Phil Resch. Conform e Resch dissera, seu assunto seria tratado no devido tem po. Ao fim do corredor, perto dos elevadores, havia sido instalada um a espécie de loj inha que vendia gravuras e livros de arte. Luba parou, procurando ganhar tem po.

— Escute — disse ela a Rick. Um pouco de cor voltara a seu rosto. Um a vez m ais ela parecia, pelo m enos por um curto instante, viva.— Com pre para m im um a reprodução daquele quadro que eu estava vendo quando você m e encontrou. Aquele da m oça sentada na cam a.

Após um m om ento, Rick virou-se para a vendedora, um a m ulher de m eia-idade, bochechas caídas e cabelos grisalho preso num a rede:

— A senhora tem um a cópia de Puberdade, de Munch?

— Apenas neste livro de sua obra reunida — respondeu a vendedora, pegando um belo volum e em papel lustroso. — Vinte e cinco dólares.

— Vou levá-lo — resolveu Rick e estendeu a m ão para tirar a carteira.

— Meu departam ento — com entou Phil Resch —, nem em um m ilhão de anos incluiria em seu orçam ento despesas para...

— Com m eu dinheiro — esclareceu Rick, entregando as notas à m ulher e o livro a Luba. — Agora, vam os em bora — disse a ela e a Phil Resch.

— Foi um a grande bondade sua — reconheceu Luba, quando entraram no elevador. — Há algum a coisa m uito estranha e com ovente nos hum anos. Um andróide j am ais teria feito aquilo. — Olhou de soslaio, friam ente, para Phil Resch. — Isto não teria ocorrido a ele. Com o ele disse, nunca, nem em um m ilhão de anos. — Continuou a olhar para Resch, neste m om ento com hostilidade e aversão m ultiplicadas. — Eu, realm ente, não gosto de andróides. Desde que cheguei aqui; vinda de Marte, m inha vida tem consistido em im itar os hum anos, em fazer o que eles fariam , em agir com o se eu tivesse os pensam entos e im pulsos que um hum ano teria. Im itar, no que m e interessa, um a form a de vida superior. — A Phil Resch, disse: — É assim que tem sido com você, Resch?

Tentando ser...

— Eu não posso agüentar isto — disse Phil Resch, enfiando a m ão no casaco, à procura,

— Não — ordenou Rick, segurando-lhe a m ão.

Resch recuou, afastando-se dele. — O Teste Boneli — lem brou Rick.

— A coisa adm itiu que é um andróide — retrucou Resch. — Nós não tem os que esperar.

— Mas aposentá-la — com entou Rick — por que ela o está aborrecendo... Dê-m e isso.

— Tentou tom ar o tubo de laser da m ão de Resch, m as não conseguiu. Resch girava dentro do apertado elevador, evitando-o, toda sua atenção em Luba. — Muito bem — concordou Rick. — Aposente-a. Mate-a agora. Mostre-lhe que está certa. — Mas notou que Resch ia fazer isso m esm o. — Espere. .

Phil Resch atirou e, no m esm o instante, Luba Luft, num espasm o de m edo de criatura encurralada, torceu-se e girou para longe, caindo enquanto fazia isso. O feixe errou o local para onde fora apontado, m as, quando Resch abaixou-o, abriu um estreito orifício, silenciosam ente, no estôm ago da m oça. Ela com eçou a gritar, gritou agachada contra a parede do elevador. Com o no quadro, pensou Rick e, com seu próprio laser, m atou-a.

O corpo de Luba Luft desm oronou para a frente num m onte, o rosto prim eiro. Nem m esm o trem eu.

Com o tubo de laser. Rick queim ou e reduziu sistem aticam ente a cinzas o livro de reproduções que, m inutos antes, com prara para Luba.

Fez esse trabalho m inuciosam ente, calado.

Phil Resch observava, sem com preender, sua face um a m áscara de perplexidade.

— Você podia ter ficado com o livro — disse, quando o trabalho acabou. — Ele lhe custou...

— Você acha que andróides têm alm a? — interrom peu-o Rick.

Inclinando a cabeça para um lado, Phil Resch fitou-o, m ais perplexo ainda.

— Eu tinha dinheiro de sobra para o livro — disse Rick. — Ganhei hoj e, até agora, três m il dólares e não estou nem ainda pela m etade.

— Você está reclam ando Garland? — perguntou Phil Resch. — Mas fui eu que o m atei, não você. Lá, você ficou sim plesm ente olhando. E Luba, tam bém . Eu a peguei.

— Você não pode cobrar — lem brou-lhe Rick. — Não de seu próprio Departam ento, nem do nosso. Quando chegarm os ao seu carro, eu lhe aplicarei o Teste Boneli e o Voigt-Kam pff e então verem os. Mesm o que você não estej a na m inha lista. — Mãos trêm ulas, abriu a pasta e procurou entre as cópias am arfanhadas a carbono.

— Não, você não está aqui. Assim , legalm ente, não posso reclam ar a recom pensa por m atá-lo. Para ganhar algum a coisa, tenho que alegar que fui eu quem m atou Luba Luft e Garland.

— Você tem certeza de que eu sou um andróide? Foi isso realm ente o que Garland disse?

— Foi isso o que ele disse.

— Talvez ele estivesse m entindo — lem brou Phil Resch. — Para nos separar. Com o estam os separados agora. Nós som os m alucos, deixando que eles nos separem . Você tinha toda razão a respeito de Luba Luft... Eu não devia ter deixado que ela m e irritasse daquele j eito. Devo ser sensível dem ais. Isso seria natural para um caçador de cabeças, acho. Você, provavelm ente, reage da m esm a m aneira. Mas, escute aqui, nós teríam os, de qualquer m aneira, de aposentar Luba Luft, dentro de m eia hora a partir de agora... apenas m ais m eia hora. Ela nem m esm o teria tido tem po de folhear aquele livro que você lhe deu. Mas ainda não consigo pensar por que o destruiu. Isso foi um desperdício. Não posso seguir seu raciocínio. Não é racional, é esse o m otivo.

— Eu vou abandonar este negócio — disse Rick.

— F. trabalhar em quê?

— Qualquer coisa. Seguros, corretagem , com o Garland devia estar fazendo. Ou em igrarei. Sim . — Inclinou a cabeça. — Vou para Marte.

— Mas alguém tem que fazer este trabalho — observou Resch.

— Podem usar andróides. Será m uito m elhor se andros fizerem isto. Eu não posso m ais. Já enchi. Ela era um a cantora m aravilhosa, O planeta poderia tê-la usado. Isto é um a loucura.

— Isto é necessário. Lem bre-se: eles m ataram hum anos para conseguirem fugir. E se eu não o tivesse tirado da estação de polícia da Mission, eles o teriam m atado. Foi para isso que Garland m e cham ou. Foi por isso que ele disse para eu ir ao seu escritório. Polokov quase não o m atou? E Luba, quase? Estam os agindo defensivam ente. Eles estão aqui, em nosso planeta... são alienígenas cruéis, ilegais, fazendo-se passar por...

— Por policiais — com pletou Rick. — Com o caçadores de cabeças.

— Muito bem . Aplique-m e o Teste Boneli. Talvez Garland tenha m entido. Acho que ele m entiu... Falsas m em órias sim plesm ente não são tão boas assim . O que é que você diz de m eu esquilo?

— Sim , seu esquilo Esqueci-m e de seu esquilo.

— Se eu for um andróide — disse Phil Resch —, e você m e m atar, pode ficar com m eu esquilo. Vou botar isto no papel, deixá-lo a você em testam ento.

— Andros não podem deixar coisa algum a. Não podem possuir coisa algum a para deixar em testam ento.

— Neste caso, fique sim plesm ente com ele — sugeriu Phil Resch.

— Talvez eu faça isso — retrucou Rick. O elevador chegara ao prim eiro andar. Abriram -se as portas. — Fique aqui com Luba. Vou cham ar um carro de patrulha para levá-la ao Palácio de Justiça. Para o teste de m edula óssea. — Viu um a cabine telefônica, entrou, inseriu um a m oeda e, os dedos trem endo, discou. Enquanto isso, um grupo de pessoas, que estivera à espera do elevador, reunia-se em volta de Phil Resch e do corpo de Luba Luft.

Ela era realm ente um a cantora soberba, pensou, quando desligou, com pletada sua ligação. Não entendo isto: com o um talento com o aquele pode ser um passivo para nossa sociedade? Mas não era o talento, lem brou a si m esm o, era ela. Com o é Phil Resch, pensou. Ele é um a am eaça exatam ente da m esm a m aneira, pelas m esm as razões. Por isso, não posso desistir agora. Saindo da cabine, abriu cam inho entre o grupo, de volta a Resch e ao corpo tom bado da andróide. Alguém a cobrira com um casaco. Não o de Resch.

Aproxim ando-se de Phil Resch — que se encontrava de um lado, tirando vigorosas baforadas de um pequeno charuto cinzento — disse-lhe:

— Queira Deus que o teste revele que você é um andróide.

— Você realm ente m e odeia — exclam ou Phil Resch, espantado. — E assim , de repente. Não m e odiava lá na Mission Street. Não, enquanto eu estava salvando sua vida.

— Estou com eçando a perceber um padrão. Na m aneira com o você m atou Garland e, em seguida, m atou Luba. Você não m ata com o eu m ato. Tudo de que você precisa é um pretexto. Se tivesse um , você m e m ataria. Foi por isso que agarrou a possibilidade de Garland ser um andróide. Isto o tornava disponível para ser m orto. Eu gostaria de saber o que vai fazer quando for reprovado no Teste Boneli. Você com eteria suicídio?

Andróides, às vezes, fazem isso. — Mas a situação era rara.

— Sim , eu cuidarei disso — prom eteu Phil Resch. — Você não terá que fazer coisa algum a, salvo aplicar o teste.

Chegou nesse m om ento um carro de patrulha. Dele saltaram dois policiais, aproxim aram -se da m ultidão e im ediatam ente abriram cam inho. Um deles reconheceu Rick e inclinou a cabeça em sua direção. Bom , agora podem os ir, pensou Rick. Nosso negócio aqui está term inado. Finalm ente.

Descendo ele e Resch a rua, de volta à Casa da Opera, onde estava estacionado o hovercar, disse Resch:

— Vou-lhe entregar agora m eu tubo laser, de m odo que não vai ter que se preocupar com m inha reação ao teste. Em term os de sua própria segurança pessoal. — Estendeu a arm a, que Rick aceitou.

— Com o é que você se suicidaria sem ela? — perguntou. — Se não passar no teste?

— Prenderei a respiração.

— Pelo am or de Deus — exclam ou Rick, — Isso não pode ser feito.

— Num andróide não há interrupção autom ática no nervo pneum ogástrico. Com o há nos hum anos. Não lhe ensinaram isso quando o treinaram ? Disseram -m e isso há dez anos.

— Mas m orrer dessa m aneira — protestou Rick.

— Não há dor. Qual é o problem a com isso?

— É... — Fez um gesto, incapaz de encontrar as palavras apropriadas.

— Eu não penso, realm ente, que vá ter que fazer isso — observou Phil Resch. Juntos subiram até o telhado da Casa da Ópera e até j unto do hovercar de Resch. Colocando-se ao volante e fechando a porta, disse Phil Resch:

— Eu preferiria que você usasse o Teste Boneli.

— Não posso. Não sei com o avaliá-lo. — Teria que depender de você para um a interpretação das leituras, pensou. E isto está fora de cogitação.

— Você vai m e dizer a verdade, não? — perguntou Resch. — Se eu for um andróide, você m e dirá?

— Certam ente.

— Porque eu, realm ente, quero saber. Tenho que saber. — Reacendeu o charuto, m exeu-se no assento individual do carro, procurando um a posição m ais confortável. Evidentem ente, não pôde encontrá-la. — Você gostou realm ente daquele quadro de Munch que Luba Luft estava vendo? — perguntou. — Não gostei dele. O realism o na arte não m e interessa. Gosto de Picasso e...

— Puberdade data de 1894 — disse seco Rick. — Naquela época nada havia, salvo realism o. Você tem que levar isso em conta.

— Mas aquele outro; do hom em segurando as orelhas e gritando... aquilo não foi figurativo.

Abrindo a pasta, Rick tirou o equipam ento de teste.

— Refinado — disse Phil Resch, observando-o. — Quantas perguntas você tem que fazer antes de poder chegar a um a conclusão?

— Seis ou sete. — Entregou-lhe o disco adesivo. — Prenda-o ao rosto. Firm em ente. E esta luz... — Apontou-a com cuidado. — Ela perm anece focalizada em seu olho. Não se m ova. Mantenha o globo ocular tão im óvel quanto puder.

— Flutuações de reflexo — disse Phil Resch, dem onstrando conhecim ento do assunto.

— Mas não ao estím ulo físico. Você não m ede dilatação, por exem plo. Serão às perguntas verbais, o que cham am os de reação de esquiva.

— Você acha que pode controlá-la? — perguntou Rick.

— Não, realm ente. No fim , talvez. Mas não a am plitude inicial. Isto fica fora do controle consciente, Se não fosse... — Interrom peu-se. — Continue. Estou tenso. Desculpe-m e, falo dem ais

— Fale o quanto quiser — aconselhou Rick. Fale o cam inho todo até à sepultura, pensou. Se tiver vontade. Isto não lhe im portava.

— Se no teste eu revelar que sou andróide — tagarelou Phil Resch —, você terá renovada sua fé na raça hum ana. Mas desde que não vai ser assim , sugiro que com ece a elaborar um a j ustificativa? que explique...

— Vam os à prim eira pergunta — disse Rick, que j á instalara o equipam ento e os dois ponteiros trem iam nos m ostradores. — O tem po de reação é um fator, de m odo que responda com toda a rapidez que puder. — De m em ória escolheu a prim eira pergunta. O teste com eçara.

Depois, Rick perm aneceu em silêncio durante algum tem po. Em seguida, com eçou a reunir o equipam ento e guardá-lo na pasta.

— Posso ver pelo seu rosto — disse Phil Resch, exalando um suspiro de alívio com pleto, im ponderável, quase convulsivo. — Muito bem , você pode m e devolver m inha arm a. — Estendeu a m ão, palm a para cim a, à espera.

— Evidentem ente, você teve razão — respondeu Rick. — Sobre os m otivos de Garland. Querendo nos separar. Aquilo que você disse. — Sentia-se psicológica e fisicam ente cansado.

— Já elaborou sua j ustificativa? — perguntou Phil Resch. — Que m e explicaria com o parte da raça hum ana?

— Há um defeito na sua capacidade em pática, de assunção de papéis. Um defeito para o qual não fazem os testes. Seus sentim entos em relação a andróides...

— Claro que não fizem os testes para isso.

— Talvez devêssem os. — Nunca pensara nisso antes, nunca sentira em patia algum a em relação aos andróides que m atara. Sem pre supusera que, em toda sua psique, percebia o andróide com o um a m áquina inteligente — com o na sua opinião consciente. Ainda assim , em contraste com Phil Resch, havia-se m anifestado um a diferença. E, instintivam ente, sabia que tinha razão. Em patia para com um a construção artificial? perguntou a si m esm o. Para com algo que apenas finge ser vivo? Mas Luba Luft parecera autenticam ente viva, não apresentara o aspecto de um a sim ulação.

— Você com preende — perguntou quietam ente Phil Resch — o que isto significaria, se incluíssem os andróides em nossa faixa de identificação em pática, com o fazem os com anim ais.

— Nós não poderíam os proteger-nos?

— De m odo nenhum . Esses tipos Nexus-6...cairiam sobre nós e nos esm agariam . Você e eu, todos os caçadores de cabeças, nos colocam os entre o Nexus-6 e a hum anidade, som os um a barreira que m antém separados os dois. Além disso...— Interrom peu-se, notando que Rick, m ais um a vez, tirava da pasta o equipam ento de teste. — Pensei que o teste tinha acabado.

— Eu quero fazer a m im m esm o um a pergunta — explicou Rick. — E quero que você m e diga o que os ponteiros registram . Sim plesm ente m e dê a calibração. Eu posso com putá-la. — Colou o disco adesivo no rosto e colocou o feixe de luz de m odo a que incidisse diretam ente em seu olho. — Pronto? Observe os m ostradores. Nisto vam os excluir a defasagem tem poral. Quero sim plesm ente m agnitude.

— Certo, Rick — concordou de boa vontade Phil Resch.

Em voz alta, disse Rick:

— Estou descendo num elevador com um andróide que capturei. E, de repente, alguém o m ata, sem aviso.

— Nenhum a reação especial — observou Phil Resch.

— Que m arcas os ponteiros atingiram ?

— O esquerdo, 2,8. O direito, 3,3.

— Um andróide fem inino — disse Rick,

— Agora subiram para 4 e 6, respectivam ente.

— Isso é suficientem ente alto — concluiu Rick. Tirou do rosto o disco adesivo e desligou o feixe de luz. — Isso foi um a reação categoricam ente em pática. Mais ou m enos o que um suj eito hum ano dem onstra com a m aioria das perguntas. Exceto nos casos das perguntas extrem as, com o as que tratam de peles hum anas usadas decorativam ente... as realm ente patológicas.

— O que significa?

— Sou capaz de sentir em patia por, pelo m enos, certos andróides, específicos. Não por todos eles, m as... por um ou dois. — Com o por Luba Luft, disse a si m esm o. Assim , eu m e enganei. Não há coisa algum a de antinatural ou anti-hum ano nas reações de Phil Resch: sou eu.

E eu bem que gostaria de saber, pensou, se qualquer ser hum ano j á se sentiu assim antes a respeito de um andróide.

Claro; refletiu, isto talvez nunca m ais volte a acontecer em m eu trabalho. Isto poderia ser um a anom alia., algum a coisa, por exem plo, com m eus sentim entos no tocante a A Flauta Mágica. E à voz de Luba, na verdade, à sua carreira com o um todo. Certam ente isto nunca lhe acontecera antes, ou pelo m enos que ele soubesse. Não, por exem plo, no caso de Polokov. Nem no de Garland. E, com preendeu, se Phil Resch houvesse dem onstrado no teste que era um andróide, eu poderia tê-lo m orto sem sentir coisa algum a, depois da m orte de Luba.

Mas basta dessa distinção entre hum anos vivos autênticos e construções hum anóides. Naquele elevador no m useu, pensou, desci com duas criaturas, um a hum ana e a outra andróide... e m eus sentim entos foram o contrário do que deveriam ter sido. Do que estou acostum ado a sentir — do que tenho obrigação de sentir.

— Você está num a enrascada, Deckard — observou Phil Resch. Parecia divertir-se.

— O que. o que é que eu devo fazer?

— É sexo — disse Phil Resch.

— Sexo?

— Porque ela...a coisa... era fisicam ente atraente. Isso nunca lhe aconteceu antes? — Resch soltou um a gargalhada. — Disseram -nos que isso constitui um dos principais problem as na caçada de cabeças. Você não sabe, Deckard, que nas colônias há am antes andróides?

— Isso é ilegal — declarou Rick, conhecendo a lei sobre esse assunto.

— Claro que é. Mas a m aioria das variações em sexo é ilegal. Mas as pessoas as praticam , de qualquer m aneira.

— O que é que você m e diz de, não sexo, m as am or?

— O am or é outro nom e de sexo.

— Com o o am or pelo país — disse Rick. — O am or pela m úsica.

— Se é am or por um a m ulher, ou um a im itação andróide, é sexo. Acorde e olhe-se de frente. Deckard. Você queria ir para a cam a com um tipo fem inino de andróide, nada m ais, nada m enos. Eu m e senti assim , um a única vez. Quando iniciei a caçada de cabeças. Não deixe que isso o abata. Você se cura. O que aconteceu foi que sua ordem de valores se inverteu. Não a m ate, ou estej a presente quando ela for m orta, e, em seguida, sinta-se fisicam ente atraído. Faça isso ao contrário. Rick olhou-o fixam ente,

— Ir para a cam a com ela prim eiro. .

— ...e em seguida m atá-la — disse sucintam ente Phil Resch, m antendo seu sorriso duro, indecifrável.

Você é um bom caçador de cabeças, reconheceu Rick. Sua atitude prova isso. Mas, e eu?

De repente, pela prim eira vez na vida, ficou em dúvida.