O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 18 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 17

 

DEPOIS, desfrutaram de um grande luxo: Rick m andou o serviço de quarto trazer café. Durante um longo tem po, perm aneceu sentado na grande poltrona de folhagem verde, preta e dourada, bebericando o café e m editando sobre as horas seguintes. Rachael, no banheiro, m urm urava, cantarolava e chapinhava num banho quente de chuveiro.

— Você fez um bom negócio ao fazer aquele negócio — gritou ela, depois de fechar a água; pingando água, os cabelos am arrados num elástico, apareceu nua e rosada na porta do banheiro. — Nós, andróides, não podem os controlar nossas paixões físicas, sensuais. Você provavelm ente sabia disso. Na m inha opinião você se aproveitou de m im .— Ela, contudo, não parecia realm ente zangada. Se algum a coisa, tornara-se alegre e certam ente tão hum ana com o qualquer m oça que ele conhecera. — Tem os, realm ente, que ir pegar aqueles três andros hoj e à noite?

— Tem os — disse ele. — Dois que eu aposentarei; um que você aposentará. — Com o dissera Rachael, o negócio fora feito.

Envolvendo-se num a grande toalha branca de banho, Rachael perguntou:

— Você gostou?

— Gostei.

— Você irá novam ente para a cam a com um a andróide?

— Se fosse j ovem , e caso se parecesse com você.

— Sabe qual é — perguntou Rachael — a esperança de vida de um a robô hum anóide com o eu? Eu existo há dois anos. Quantos anos m ais você calcula que eu disponho?

Depois de hesitar por um instante, ele respondeu:

— Mais ou m enos m ais dois anos.

— Eles nunca puderam solucionar esse problem a. Quero dizer, a substituição de células. A renovação perpétua ou, de qualquer m odo, sem i-perpétua. Bem , é isso aí. —

Vigorosam ente, com eçou a enxugar-se. Seu rosto tornou-se inexpressivo.

— Sinto m uito — disse Rick.

— Bolas — disse Rachael —, estou arrependida de ter m encionado isso. De qualquer m odo, evita que seres hum anos fuj am para ir viver com um andróide.

— E isso é verdade tam bém com os tipos Nexus-6?

— É o m etabolism o. Não a unidade cerebral.

Saiu do banheiro, vestiu a calcinha e com eçou a se preparar.

Ele se vestiu tam bém . Juntos, conversando pouco, subiram para o cam po do telhado, onde seu hovercar fora estacionado pelo agradável garagista hum ano, vestido de branco. No m om ento em que tom avam a direção dos subúrbios de São Francisco, Rachael observou:

— Está fazendo um a noite agradável.

— A esta hora, m inha cabra provavelm ente está dorm indo — respondeu ele. — Ou talvez caprinos sej am anim ais noturnos. Alguns anim ais j am ais dorm em . Ovelhas, nunca, não que eu pudesse ver. Todas as vezes em que olham os para elas, estão olhando para a gente.

— Que tipo de esposa você tem ?

Ele não respondeu.

— Você ...

— Se você não fosse um a andróide — interrom peu-a Rick —, se eu pudesse; legalm ente, m e casar com você, eu casaria.

— Ou poderíam os viver em pecado, exceto que eu não sou viva — observou Rachael.

— Legalm ente, não é. Mas é, realm ente. Biologicam ente. Você não é feita de circuitos transistorizados, com o um falso anim al. Você é um a entidade orgânica. — E em dois anos pensou, você se desgastará e m orrerá. Porque nós nunca solucionam os o problem a da substituição das células, conform e você m esm a disse. Assim , acho que não im porta, de qualquer m aneira.

Este é o m eu fim , disse a si m esm o. Com o caçador de cabeças a prêm io. Depois dos Baty s, nenhum m ais. Não depois disto, desta noite.

— Você parece tão triste — observou Rachael.

Estendendo a m ão, ele tocou-lhe o rosto.

— Você não vai ser m ais capaz de caçar andróides — disse ela, calm a. — Assim , não fique triste. Por favor.

Ele olhou-a fixam ente.

— Nenhum caçador de cabeças continuou — disse Rachael —, depois de ter estado com igo. Exceto um . Um hom em m uito cínico. Phil Resch. E ele é doido. Trabalha num cam po só seu.

— Com preendo — disse Rick. Sentia-se em botado. Inteiram ente. O corpo todo.

— Mas esta viagem que estam os fazendo — disse Rachael — não será desperdiçada porque você vai conhecer um hom em m aravilhoso, espiritual.

— Roy Baty — disse ele. — Conhece todos eles?

— Conheci-os a todos, quando eles ainda existiam . Conheço três, agora. Tentam os detêlo esta m anhã, antes de você com eçar a trabalhar com a lista de Dave Holden. Eu tentei novam ente, pouco antes de Polokov encontrar você. Mas, depois disso, tive que esperar.

— Até que eu pifasse — sugeriu ele. — E tivesse que cham á-la.

— Luba Luft e eu fom os am igas m uito íntim as durante quase dois anos. O que você

pensava dela? Gostava dela?

— Gostei dela.

— Mas m atou-a.

— Phil Resch m atou-a.

— Oh, então Phil acom panhou-o de volta até a Casa da Ópera, Nós não sabíam os disso. Nosso sistem a de com unicações pifou, m ais ou m enos nessa ocasião. Sabíam os apenas que ela fora m orta. Naturalm ente, presum im os que por você.

— Com base nas notas de Dave — observou Rick —, acho que posso ainda continuar e aposentar Roy Baty. Mas talvez não Irm gard Baty. — E não Pris Stratton, pensou. Mesm o agora; m esm o sabendo de tudo isto. — De m odo que tudo o que aconteceu no hotel consistiu num a. .

— A em presa — explicou Rachael — queria pegar os caçadores de cabeças, daqui e da União Soviética. Isto parecia funcionar... por m otivos que não conseguíam os com preender inteiram ente. Nossas lim itações, m ais um a vez, acho.

— Duvido que funcione com tanta freqüência e tão bem com o você diz — contestou ele, zangado.

— Mas funcionou com você.

— Isso é o que vam os ver.

— Eu j á sei — declarou Rachael. — Quando vi aquela expressão em seu rosto, aquela m ágoa. Eu procuro isso.

— Quantas vezes você fez isto?

— Não m e lem bro. Sete, oito. Não, acredito que é a nona. — Ela, ou m elhor, a coisa, inclinou a cabeça. — Sim , nove vezes.

— Essa idéia é bem antiga — com entou Rick.

Sobressaltada, Rachael disse:

— O q-quê?

Em purrando o volante para a frente, Rick colocou o carro em planeio de descida.

— Ou, de qualquer m odo, é assim que m e parece. Vou m atá-la — disse ele. — E, depois, vou pegar Roy e Irm gard Baty, e Pris Stratton, sozinho.

— E por isso que você está pousando? — Apreensiva, acrescentou: — Há um a m uita. Eu sou propriedade, propriedade legal, da em presa. Não sou um andróide que está aqui fugido de Marte Não estou na m esm a classe que os outros.

— Mas — disse ele —. se eu puder m atá-la, posso m atar os outros tam bém . As m ãos delas m ergulharam na bolsa volum osa, inchada, cheia de entulho. Procurou frenética e, em seguida, desistiu.

— Droga de bolsa — disse feroz. — Jam ais consigo encontrar coisa algum a nela. Você m e m atará de um a m aneira que não doa? Quero dizer, faça isso com cuidado. Se eu não resistir, certo? Prom eto não lutar. Concorda?

— Eu agora com preendo por que Phil Resch disse aquilo — observou Rick. — Ele não estava sendo cínico. Sim plesm ente aprendera dem ais. Tendo passado por isto... Sim plesm ente, não posso censurá-lo. A experiência deform ou-o.

— Mas da m aneira errada. — Nesse m om ento, externam ente, ela parecia m ais controlada. Mas continuava basicam ente agitada, tensa. Ainda assim , aquele fogo som brio desaparecera e a força da vida escoava-se dela, com o ele, com tanta freqüência, observara nos casos de outros andróides. A clássica resignação. Aceitação m ecânica, intelectual, daquilo com que um organism o autêntico — com dois bilhões de anos de pressão para viver e desenvolver o desej o de viver — j am ais se reconciliaria.

— Eu não posso agüentar a m aneira com o vocês, andróides, desistem de tudo — disse ele selvagem ente. Nesse m om ento o carro quase tocava o chão. Ele teve que puxar para cim a o volante a fim de evitar um desastre. Freando, conseguiu pará-lo, sacudindo-se todo e derrapando. Desligou com um repelão o m otor e sacou o tubo de laser.

— No osso occipital, na base de m eu crânio — disse Rachael. — Por favor. — Virou-se, de m odo que não veria o tubo de laser. O feixe penetraria sem que ela o percebesse. Guardando o tubo, Rick disse:

— Não posso fazer o que Phil Resch aconselhou. — Religou o m otor e, um m om ento depois, subiam aos ares.

— Se você algum dia vai fazer isto — pediu Rachael —, faça-o agora. Não m e faça esperar.

— Eu não vou m atá-la. — Mais um a vez, em bicou o carro na direção do centro de São Francisco. — Seu carro está no St. Francis, não? Vou deixá-la saltar lá, e você pode voltar para Seattle. — Com estas palavras, acabou o que tinha a dizer. Continuou a dirigir em silêncio.

— Obrigada por não ter m e m atado — disse logo Rachael.

— Bolas, com o você disse, de qualquer m odo você só tem dois anos de vida. E eu tenho cinqüenta. Viverei vinte e cinco vezes m ais do que você.

— Mas você realm ente m e censura — disse Rachael. — Pelo que fiz. — Voltara a tranqüilidade e a ladainha de sua voz ganhou velocidade. — Você se com portou da m esm a m aneira que os outros. Os caçadores de cabeças a prêm io, com o você. Todas as vezes, ficam furiosos e falam em m e m atar, m as quando chega a hora, não conseguem . Exatam ente com o você, há pouco. — Acendeu um cigarro e tragou com prazer. — Você com preende o que isto significa, não? Significa que eu tinha razão. Você não conseguirá aposentar m ais andróide algum . Não apenas eu, m as os Baty s e Stratton, tam bém . Assim , volte para casa e para sua cabra, E descanse um pouco. — Subitam ente, bateu com força no casaco, violentam ente. — Ai! Um a brasa do cigarro caiu aqui... apagou. — Recostou-se no assento, relaxando.

Ele perm aneceu calado.

— Aquela cabra — disse Rachael —, você a am a m ais do que a m im . Mais do que a sua esposa, provavelm ente. Em prim eiro lugar, a cabra, depois sua esposa e, por últim o ...— Riu alegre. — O que é que a gente pode fazer, senão rir?

Ele não respondeu. Continuara em silêncio durante algum tem po enquanto Rachael procurava e encontrava o rádio do carro, ligando-o,

— Desligue isso — ordenou Rick.

— Desligar Buster Am igão e seus Am icíssim os Am igos? Desligar Am anda Werner e Oscar Scruggs? Está na hora de ouvir a grande e sensacional denúncia de Buster, quase na hora, finalm ente. — Inclinou-se para ver o m ostrador do relógio à luz do rádio. —

Daqui a pouco. Sabia a respeito disso? Ele vem falando no caso, preparando o am biente para ele, para...

Nesse m om ento, do rádio partiu a voz:

"—... hei, eu quero falar com vocês, pessoal, estou aqui, sentado com m eu am igão Buster, e estam os falando em ter um tem po realm ente bom , esperando, ansiosos, que chegue a hora para o que, eu sei, será o anúncio m ais im portante do..." Rick desligou o rádio.

— Oscar Scruggs — disse. — A voz de um hom em inteligente.

Rachael religou o rádio no m esm o instante.

— Eu quero escutar. Pretendo escutar. Isto é im portante, o que Buster Am igão tem a dizer em seu program a hoj e à noite.

A voz idiota pairou outra vez no alto-falante e Rachael Rosen recostou-se, procurando um a posição confortável.

Ao lado de Rick, na escuridão, a brasa do cigarro dela brilhava com o a traseira de um com placente vagalum e: um a indicação regular, que não trem ia, do sucesso de Rachael Rosen. Da vitória dela sobre ele.