O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 16 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 15

 

Solene, cerim oniosam ente, fizeram a votação.

— Nós ficam os aqui — disse firm e Irm gard. —Neste apartam ento, neste edifício.

— Eu voto que m atem os o Sr. Isidore e nos escondam os em algum outro lugar — disse Roy Baty. Ele e a esposa — e John Isidore — voltaram -se rigidam ente para Pris. Em voz baixa, ela resolveu:

— Eu voto para que façam os aqui nossa defesa. — E acrescentou em voz m ais alta: — Acho que o valor de J. R. para nós supera o perigo que ele encerra, o de saber. Obviam ente, não podem os viver entre hum anos sem serm os descobertos. Foi isso o que m atou Polokov, Garland, Luba e Anders. Foi isso o que m atou todos eles.

— Talvez eles tenham feito j ustam ente o que estam os fazendo — observou Roy Baty.

— Depositaram fé, confiaram em um dado ser hum ano, que pensaram que era diferente. Com o você disse, especial.

— Nós não sabem os se foi isso — obj etou Irm gard.

— Isso é apenas um a conj ectura. Acho que eles, que eles...

— Fez um gesto vago. — Andaram por aí. Cantaram em um palco, com o Luba. Nós confiam os ...eu vou-lhe dizer no que foi que nós confiam os e que nos pôs nesta encrenca toda, Roy : em nossa droga de inteligência superior! — Olhou zangada para o m arido, seus pequenos e altos seios subindo e descendo rápidos. — Nós som os tão sábios...Roy, você está agindo assim , nesse m om ento. Droga, você está agindo assim agora!

— Eu acho que Irm tem razão — apoiou-a Pris.

— Assim , confiam os nossas vida a um tipo subpadrão, bichado... — com eçou Roy, m as desistiu. — Estou cansado — disse sim plesm ente. — Foi um a longa viagem , Isidore. Mas não ficarem os m uito tem po aqui. Infelizm ente.

— Tom ara que eu possa tornar agradável a estada de vocês aqui na Terra — disse feliz Isidore.

Tinha certeza de que poderia. Parecia-lhe a coisa m ais fácil do m undo, a culm inação de toda sua vida — e da nova autoridade que m anifestara naquele dia no videofone, no trabalho.

LOGO QUE, oficialm ente, deixou o trabalho naquela noite, Rick Deckard cruzou a cidade para a rua dos anim ais: os vários quarteirões dos grandes com erciantes de bichos, com suas im ensas vitrinas e cartazes atraentes.

Ainda não o deixara a nova, horrível e excepcional depressão que o abatera antes naquele dia. Isto, estar entre anim ais e negociantes de anim ais, parecia o único ponto fraco no véu de depressão, um a falha através da qual poderia, talvez, agarrá-la e exorcizá-la, No passado, de qualquer m odo, a vista de anim ais, o cheiro de transações financeiras envolvendo altas som as, fizeram m uito por ele. Talvez, nesse instante, o efeito fosse o m esm o.

— Sim , senhor — disse um novo e elegantem ente vestido vendedor, em tom de prosa, quando ele ficou olhando boquiaberto, expressão vidrada e hum ilde para as peças expostas. — Está vendo algum a coisa que o agrade?

— Estou vendo um bocado de coisa de que gosto. É o custo que m e incom oda — disse Rick.

— O senhor sim plesm ente nos diz o tipo de negócio que quer fazer — sugeriu o vendedor —, o que quer levar para casa e quanto quer pagar. Levarem os a proposta ao nosso gerente de vendas e obterem os sua aprovação.

— Eu tenho três m il, em dinheiro. — O Departam ento, no fim do dia, pagara sua recom pensa. — Quanto custa — perguntou — aquela fam ília de coelhos ali?

— Senhor, se o senhor pode fazer um pagam ento inicial de três m il, posso transform á-lo no proprietário de algum a coisa m uito m elhor que um casal de coelhos. Que tal um bode?

— Não pensei m uito em bodes — disse Rick.

— Posso perguntar se isto representa um a nova faixa de preços para o senhor?

— Eu, geralm ente, não ando por aí com três m il no bolso — reconheceu Rick.

— Era isso o que eu pensava, quando o senhor falou em coelhos. O problem a com coelhos, senhor, é que todo m undo tem um deles. Eu gostaria de vê-lo subir para a classe dos bodes, que acho que é a sua. Para ser franco, o senhor m e parece m ais um am igo dos caprinos.

— Quais são as vantagens dos bodes?

— A evidente vantagem do bode — explicou o vendedor — é que ele pode ser ensinado a dar cabeçadas naqueles que queiram roubá-lo.

— Não se eles o atingem com um dardo paralisante e descem por escada de corda de um hovercar pairando no alto.

Sem se deixar abater, o vendedor continuou:

— Um bode é leal. E possui um a alm a livre, natural, que nenhum a gaiola pode prender. E nos bodes há um aspecto adicional excepcional, que o senhor talvez desconheça. Com m uita freqüência, quando a pessoa investe num anim al e o leva para casa, descobre algum a m anhã que ele com eu algum a coisa radiativa e m orreu. Um bode não é incom odado por quase-alim entos contam inados. Pode com er ecleticam ente, m esm o coisas que derrubariam um a vaca ou um cavalo e, principalm ente, um gato. Com o investim ento a longo prazo, acham os que o bode — e especialm ente a cabra — oferecem vantagens sem concorrência ao criador sério.

— Esse bode é fêm ea?

Notara um bode preto, grande, colocado bem no centro da j aula. Dirigiu-se para lá e o vendedor acom panhou-o. O bode, achou Rick, era belo.

— Sim , esse bode é fêm ea. Um bode núbio preto, m uito grande, com o o senhor pode ver. É um a oferta soberba no m ercado deste ano, senhor. E estam os oferecendo a um preço atraente, m uito, m uito baixo.

Tirando do bolso o am arfanhado Sidney 's, Rick consultou na lista bodes, núbios, pretos.

— Será um a com pra à vista? — perguntou o vendedor. — Ou o senhor vai dar de entrada um anim al usado?

— Só dinheiro — disse Rick.

Num pedaço de papel, o vendedor rabiscou um preço e, em seguida, por um instante, quase furtivam ente, m ostrou-o a Rick.

— Caro dem ais — disse Rick. Tom ou o papel da m ão do vendedor e escreveu um a cifra m ais m odesta.

— Nós não poderíam os vender um bode por esse preço — protestou o vendedor. Escreveu outra cifra. — Esse bode tem m enos de um ano. A esperança de vida dele é m uito longa. — Mostrou a cifra a Rick.

— Negócio feito — disse.

Assinou o contrato com reserva de dom ínio, deu com o entrada seus três m il dólares — todo o dinheiro do prêm io — e logo depois viu-se no carro, m uito confuso, enquanto em pregados da loj a aj eitavam a gaiola da cabra. Sou dono de um anim al agora, disse para si m esm o. De um anim al vivo, não elétrico. Pela segunda vez em m inha vida.

A despesa, o endividam ento contratual, apavoravam -no.

Descobriu que trem ia um pouco. Mas eu tinha que fazer isto, afirm ou para si m esm o A experiência com Phil Resch... Tenho que recuperar m inha confiança, m inha fé em m im m esm o e em m inha capacidade. Ou não vou conservar m eu em prego.

Com as m ãos dorm entes, lançou o hovercar para o alto, a cam inho de seu apartam ento, e de Iran. Ela vai ficar zangada, pensou. Porque o anim al vai preocupá-la, a responsabilidade. E um a vez que ela fica em casa o dia todo, um bocado de trabalho de m anutenção do anim al caberá a ela.

Mais um a vez, sentiu-se desalentado.

Ao pousar no telhado de seu prédio, passou algum tem po no carro, com pondo m entalm ente um a história bem verossím il para contar à esposa. Meu em prego exige o anim al, pensou, raspando o fundo de seus argum entos. Questão de prestígio. Não poderíam os continuar por m ais tem po cuidando de um a ovelha elétrica, isso m inava m inha m oral Talvez eu possa lhe dizer isso, resolveu.

Descendo do carro, tirou do assento traseiro a gaiola da cabra e, resfolegando, conseguiu colocá-la no chão. A cabra, que deslizara para um lado durante a m udança de posição, considerou-o com acesa perspicácia, m as não em itiu som algum . Desceu até seu andar e seguiu um cam inho conhecido pelo corredor até a porta,

— Hei — recebeu-o Iran, ocupada na cozinha com o j antar. — Por que chegou tão tarde?

— Venha até o telhado — disse ele. — Quero lhe m ostrar um a coisa.

— Você com prou um anim al. — Tirou o avental, passou pensativa a m ão pelo cabelo e saiu com ele do apartam ento, percorrendo am bos em grandes e ansiosos passos o corredor. — Você não devia tê-lo com prado sem m im — reclam ou. — Eu tenho o direito de participar de um a decisão dessas, a aquisição m ais im portante que nós j am ais.

— Eu queria que fosse um a surpresa — desculpou-se ele.

— Você ganhou algum dinheiro de prêm io hoj e — acusou-o Iran.

— Ganhei — concordou Rick —, aposentei três andros. — Entraram no elevador e, j untos, aproxim aram -se m ais de Deus. Eu tinha que com prar o anim al — disse.

— Hoj e, algum a coisa saiu errada. Um a coisa sobre aposentá-los. Para m im , não teria sido possível continuar sem com prar um anim al. — O elevador chegou nesse m om ento ao telhado. Saiu à frente da m ulher na escuridão da noite e levou-a à gaiola. Ligando os holofotes — m antidos ali para uso de todos os residentes do prédio — apontou para a cabra, em silêncio. À espera da reação dela.

— Oh, m eu Deus — disse baixinho Iran. Foi até a j aula, olhou para dentro, recuou e, em seguida, deu a volta, exam inando a cabra de todos os ângulos. — Ela é real? — perguntou. — Não é falsa?

— Absolutam ente real — assegurou ele. — A m enos que m e tenham passado a perna.

— Mas isso raram ente acontecia. A m ulta por falsificação seria astronôm ica: duas vezes e m eia o pleno valor de m ercado do anim al. — Não, não m e passaram para trás.

— É um bode — disse Iran. — Um bode preto núbio.

— Fêm ea — corrigiu-a Rick. — Assim , m ais tarde, talvez possam os cruzá-la. E terem os leite, com o qual poderem os fazer queij o.

— Poderem os tirá-la daí? Colocá-la onde está a ovelha?

— Ela precisa ficar am arrada — disse ele. — Pelo m enos durante alguns dias. Em voz baixa e estranha, disse Iran:

— "Minha vida é am or e prazer." Um a velha canção, de Joseph Strauss. Lem bra-se?

Quando nos conhecem os? — Pôs suavem ente um a das m ãos no om bro dele, inclinou-se e beij ou-o. — Muito am or E m uito prazer.

— Obrigado — disse ele, e abraçou-a.

— Vam os descer correndo e dar graças a Mercer. Depois, poderem os voltar aqui novam ente e dar logo a ela um nom e. Ela precisa de um nom e. E talvez você possa arranj ar um a corda para am arrá-la. — E com eçou a afastar-se.

Ao lado de sua égua, Judy, penteando-a e escovando-a, o vizinho, Bill Barbour, gritou para eles: — Hei, que bonito bode vocês arranj aram , Deckard. Parabéns. Boa noite, Sra. Deckard. Talvez vocês ganhem cabritinhos. Eu talvez troque m eu potro por uns dois cabritos.

— Obrigado — disse Rick. E seguiu Iran na direção do elevador, — Isto lhe cura a depressão? — perguntou à esposa, — Cura a m inha.

— Claro que cura m inha depressão — garantiu ela. — Agora podem os dizer a todo m undo que a ovelha é falsa.

— Não há nenhum a necessidade de fazerm os isso — retrucou ele, cauteloso.

— Mas nós podem os dizer — insistiu Iran. — Com preenda, agora nós não tem os nada para esconder. O que sem pre quisem os, realizou-se. É um sonho! — Mais um a vez, pôs-se nas pontas dos pés, inclinou-se e beij ou-o, habilm ente, o hálito ansioso e errático fazendo-lhe cócegas. Ela estendeu a m ão para apertar o botão do elevador. Algum a coisa avisou-o. Algum a coisa obrigou-o a dizer:

— Não vam os descer ainda para o apartam ento. Vam os ficar aqui com a cabra. Vam os sim plesm ente nos sentar, olhar para ela e talvez lhe dar algum a coisa para com er. Para que com eçássem os, a loj a m e deu um saco de aveia, E podem os ler o m anual sobre m anutenção de caprinos. Incluíram isso tam bém , sem cobrar extra. Vam os cham á-la de Euphem ia. — O elevador, porém , chegara e Iran j á entrava. — Iran, espere — disse ele.

— Seria im oral de nossa parte não nos fundirm os com Mercer num gesto de gratidão — respondeu Iran. — Segurei hoj e os punhos da caixa e ela m e aliviou um pouco a depressão... apenas um pouco, não com o isto. Mas, de qualquer m odo, fui atingida por um a pedra, aqui. — Mostrou o punho, onde ele viu um a pequena contusão escura. — E lem bro-m e que pensei com o ficam os m elhor, num a situação tão m elhor, quando estam os com Mercer. A despeito da dor. Dor física, m as, espiritualm ente, j untos. Senti todo m undo, em todo m undo, que havia feito a fusão no m esm o m om ento. — Com a m ão, im pediu que se fechasse a porta corrediça do elevador.

— Entre, Rick. Isto levará apenas um m om ento. Você raram ente experim enta a fusão. Quero que você transm ita agora a todas as pessoas o estado de espírito em que se encontra. Você deve isso a elas. Seria im oral conservar isto apenas para nós m esm os. Ela, claro, tinha razão. Assim , entrou no elevador e, m ais um a vez, desceram .

Na sala de estar, em frente à caixa de em patia, Iran rapidam ente ligou-a, sua face anim ada de crescente satisfação.

A em oção ilum inava-a com o se ela fosse um a lua nova crescente.

— Eu quero que todo m undo saiba — disse ao m arido. — Um a vez, isto aconteceu com igo. Um a vez entrei em fusão e captei alguém que acabava de adquirir um anim al. E depois, certo dia... — Seu rosto ensom breceu-se m om entaneam ente, desaparecido o prazer. — Certo dia, com ecei a receber de alguém cuj o anim al tinha m orrido. Mas outros de nós com partilham os com elas nossas diferentes alegrias... eu não tinha nenhum a, com o você bem pode im aginar, e isso anim ou a tal pessoa. A gente pode até m esm o fazer contato com um suicida potencial. O que tem os, o que estam os sentindo poderia...

— Elas terão nossa alegria — com entou Rick —, m as nós perderem os. Trocarem os o que sentim os pelo que elas sentem . Nossa alegria se perderá.

A tela da caixa de em patia m ostrava nesse instante correntes velozes de vivas e inform es e cores. Inspirando profundam ente, a esposa segurou firm e os dois punhos.

— Nós não perderem os realm ente o que sentim os, não se o m antiverm os claram ente na m ente. Você nunca, realm ente, sentiu a sensação de fusão, sentiu, Rick?

— Acho que não — respondeu. Mas, nesse m om ento, pela prim eira vez, com eçou a perceber o valor que pessoas com o Iran obtinham com o m ercerism o. Possivelm ente, sua experiência com Phil Resch, o caçador de cabeças, alterara algum a m inúscula sinapse nele, fechara um circuito neurológico e abrira outro. E isto, talvez, tivesse ocasionado um a reação em cadeia.

— Iran — disse em tom urgente, puxando-a da caixa de em patia. — Escute aqui. Quero lhe falar sobre o que m e aconteceu hoj e.

Levou-a até o sofá e sentou-a de frente para ele.

— Conheci outro caçador de cabeças — disse. — Um que nunca vi antes. Um tipo predatório, que parece gostar de destruí-los. Pela prim eira vez, depois de estar com ele, considerei os andros de m aneira diferente. Quero dizer, à m inha própria m aneira, eu estivera considerando-os com o ele. — Subm eti-m e a um teste, a um a pergunta, e confirm ei isso — continuou Rick. — Eu tinha com eçado a em patizar com andróides e vej a só o que isso significa. Você m esm a disse isso esta m anhã: "Aqueles pobres andros". De m odo que você sabe do que é que eu estou falando. Este foi o m otivo por que com prei a cabra. Nunca m e senti antes assim . Talvez pudesse ser um a depressão, com o essas que você sente. Agora posso com preender por que você sofre quando está deprim ida. Sem pre pensei que você gostava disso e que podia deixar esse estado a qualquer tem po, se não sozinha, pelo m enos com aj uda do condicionador. Mas quando a pessoa fica deprim ida daquele j eito, ela não se im porta, cai em apatia, porque a pessoa perde o senso de valor. Não im porta se a pessoa se sente m elhor, porque se não tem valor...

— O que é que você m e diz de seu trabalho? — O tom de voz dela atingiu-o com o um a estocada. Pestanej ou.— Seu em prego — repetiu Iran. — Quais são os pagam entos m ensais pela cabra? — Estendeu a m ão. Pensativo, ele tirou do bolso o contrato que assinara e entregou-o à esposa.

— Tudo isso — disse ela em voz fraca. — Os j uros. Meu Deus... só os j uros. E você fez isso porque estava deprim ido. Não, com o um a surpresa para m im , com o disse antes. — Devolveu-lhe o contrato. — Bem , isso não im porta. Ainda estou contente porque você com prou a cabra. Eu a am o. Mas é um enorm e ônus.

Parecia desolada.

— Eu posso m udar para outro trabalho — disse Rick. — O Departam ento realiza dez ou onze atividades diferentes. Roubo de anim ais. Eu poderia ser transferido para isso.

— Mas o dinheiro do prêm io. Vam os precisar dele, ou levam de volta a cabra.

— Eu conseguirei que prorroguem o contrato, de trinta e seis para quarenta e oito m eses. — Tirou do bolso um a caneta esferográfica e rabiscou rapidam ente nas costas do contrato. — Dessa m aneira, serão cinqüenta e dois e cinqüenta a m enos por m ês. Tocou nesse m om ento o videofone.

— Se não tivéssem os voltado para aqui — queixou-se Rick —, se tivéssem os ficado no telhado, fazendo com panhia à cabra, não teríam os recebido este telefonem a. Dirigindo-se para o videofone, disse Iran:

— Por que é que você está com m edo? Não vão tom ar a cabra, ainda não. — Com eçou a erguer o aparelho.

— É o Departam ento — disse ele. — Diga que eu não estou em casa. — Dirigiu-se para o quarto de dorm ir.

— Alô — disse Iran no aparelho.

Mais três andros, pensou Rick, que eu devia estar caçando hoj e, em vez de ter vindo para casa. Na videotela j á se form ara o rosto de Harry Bry ant, de m odo que era tarde dem ais para fugir. Sentindo duros os m úsculos das pernas, voltou ao aparelho.

— Sim , ele está — dizia nesse m om ento Iran. — Nós com pram os um a cabra. Dê um pulinho aqui para vê-la, Sr. Bry ant. — Um a pausa, enquanto ela escutava. Em seguida, passou o aparelho a Rick. — Ele tem um a coisa que lhe quer dizer. Dirigindo-se para a caixa de em patia, sentou-se sem dem ora e, m ais um a vez, agarrou os punhos duplos. Foi absorvida quase no m esm o instante.

Rick perm aneceu com o telefone na m ão, consciente da partida m ental da esposa, consciente de sua própria solidão.

— Alô — disse no aparelho.

— Tem os gente seguindo dois dos andróides restantes — inform ou Harry Bry ant. Falava do escritório. Rick notou a escrivaninha conhecida, a confusão de docum entos e papéis, o entulho. — Obviam ente, eles desconfiaram de algum a coisa... Deixaram o endereço que D ave lhe deu e agora podem ser encontrados no...espere. — Bry ant procurou na escrivaninha e, finalm ente, localizou o que queria.

Autom aticam ente, Rick tirou a caneta do bolso e, com o contrato de com pra da cabra sobre os j oelhos, preparou-se para escrever.

— Edifício Conapt 3967-C — continuou o Inspetor Bry ant, — Vá para lá logo que puder. Tem os que supor que eles sabem sobre os que você pegou: Garland, Luft e Polokov. Foi por isso que fugiram ilegalm ente.

— Ilegalm ente — repetiu Rick. Para salvar a vida.

— Iran disse que você com prou um a cabra — disse Bry ant — Hoj e m esm o? Depois que deixou o trabalho?

— A cam inho de casa.

— Eu vou aí ver a sua cabra depois que você aposentar os andróides que restam . Por falar nisto...falei há pouco com Dave. Contei o trabalho que lhe deram . Ele m anda parabéns e diz para tom ar m ais cuidado. Disse que os tipos Nexus-6 são m ais sabidos do que pensava, Na verdade, ele não queria acreditar que você pegou três num só dia.

— Três é suficiente — queixou-se Rick. — Não posso fazer m ais nada. Tenho que descansar.

— Mas am anhã eles desaparecem — disse Bry ant. — Saem de nossa j urisdição.

— Não tão cedo assim . Ainda vão ficar por aqui.

— Vá lá hoj e à noite — ordenou Bry ant. — Antes que eles se fortifiquem , Não esperam que você ataque tão depressa.

— Claro que esperam — disse Rick. — E vão estar à m inha espera.

— Está com m edo? Por causa do que Polokov...

— Eu não estou com m edo — declarou Rick.

— Então, qual é o problem a?

— Muito bem — concordou Rick. — Vou para lá. — Com eçou a baixar o telefone.

— Inform e-m e logo que obtiver algum resultado. Estarei aqui no escritório.

— Se eu os pegar, vou com prar um a ovelha.

— Você j á tem . Tem desde que o conheço.

— É elétrica — disse Rick. E desligou. Um a ovelha de verdade desta vez, disse a si m esm o. Tenho que conseguir um a. Com o com pensação.

A esposa continuava agachada em frente à caixa preta de em patia, o rosto em êxtase, Ficou ao lado dela durante algum tem po, um a das m ãos em seu peito, sentindo-o, subindo e descendo, a vida nela, a atividade. Iran não o notou: a experiência com Mercer, com o sem pre, tornara-se com pleta.

Na tela a figura apagada, velha, envolvida no m anto de Mercer, subia laboriosam ente e, no m esm o instante, um a pedra passou por ele. Observando-o, pensou Rick: m eu Deus, há algum a coisa pior na m inha situação do que na dele. Mercer não tem que fazer coisa algum a que lhe sej a estranha. Ele sofre, m as, pelo m enos, não se exige que viole sua própria identidade.

Curvando-se, suavem ente, tirou os dedos da esposa dos punhos duplos. Em seguida, ele m esm o, assum iu-lhe o lugar. Pela prim eira vez em sem anas. Obedecendo a um im pulso. Não planej ara isso. De repente, acontecera.

À sua frente, um a paisagem de ervas daninhas, sarças, um a desolação. O ar recendia a odores selvagens; isto era o deserto e não havia chuva.

Viu um hom em , um a luz triste em seus olhos cansados, cheios de dor.

— Mercer — disse Rick.

— Eu sou seu am igo — disse o velho. — Mas você deve continuar com o se eu não existisse. Pode com preender isto? — Estendeu m ãos vazias.

— Não — respondeu Rick. — Não posso entender isso. Eu preciso de aj uda.

— Com o é que eu posso salvá-lo — disse o velho — se não posso salvar a m im m esm o? — Sorriu. —Não com preende? Não há salvação.

— Então, para o que serve isto? — indagou Rick. — Para o que é que você serve?

— Para lhe m ostrar — retrucou Wilbur Mercer — que você não está sozinho. Estou aqui com você, e sem pre estarei. Vá e faça seu trabalho, m esm o sabendo que é errado.

— Por quê? — perguntou Rick. — Por que devo fazê-lo? Vou pedir dem issão de m eu cargo e em igrar.

O velho respondeu:

— Pedir-lhe-ão que faça o m al onde quer que vá. Esta é a condição básica da vida, ser obrigado a violar sua própria identidade. Em algum a ocasião, todas as criaturas vivas têm que fazer isso. É a som bra final, a derrota da criação, a m aldição em ação, a m aldição que se alim enta de toda a vida. Em toda parte do universo.

— Isso é tudo o que você pode m e dizer? — perguntou Rick.

Um a pedra assoviou na sua direção; abaixou-se, m as ela pegou-o na orelha. Im ediatam ente, soltou os punhos e se viu, m ais um a vez, em sua sala de estar, ao lado da esposa e da caixa de em patia. A cabeça doia-lhe fortem ente com a pancada; levantando a m ão, notou que o sangue com eçara a correr, caindo em grandes e brilhantes gotas por um dos lados de seu rosto.

Iran, com um lenço, enxugou-lhe a orelha.

— Acho que estou contente porque você m e soltou. Eu realm ente não posso suportar isso, receber um a pedrada. Obrigado por ter recebido a pedrada em m eu lugar.

— Estou indo — disse Rick.

— Um trabalho?

— Três. — Tom ou-lhe o lenço e dirigiu-se para a porta, ainda tonto e, nesse m om ento, com vontade de vom itar.

— Boa sorte — disse Iran.

— Eu não consegui coisa algum a segurando esses punhos — explicou Rick. — Mercer m e falou, m as o que disse não aj udou. Ele não sabe m ais do que eu. Ele é sim plesm ente um velho subindo um a colina para m orrer.

— Mas essa não é a revelação?

— Eu j á tive essa revelação — retrucou Rick. Abriu a porta que dava para o corredor.

— Até m ais tarde. — Saindo para o corredor, fechou a porta às suas costas.

Conaot 3967-C, pensou, lendo o endereço nas costas do contrato. Isto fica longe, nos subúrbios. Lá quase tudo está abandonado. Um bom lugar para quem quer esconder-se. Exceto pelas luzes da noite. É por elas que m e guiarei, pensou. As luzes. Fototrópicas. Com o a m ariposa da caveira. E em seguida, depois disto, refletiu, não haverá m ais. Vou fazer algum a outra coisa, ganhar a vida de outra m aneira. Estes três são os últim os. Mercer tem razão. Tenho que acabar com isto. Mas, pensou, não acho que possa. Dois andros j untos...Isto não é um a questão m oral, é um a questão prática.

Eu, provavelm ente, não posso aposentá-los, com preendeu. Mesm o que tente. Estou cansado dem ais e hoj e aconteceram coisas dem ais. Talvez Mercer soubesse disso, refletiu. Talvez tenha previsto tudo o que vai acontecer.

Mas sei onde procurar aj uda, que m e foi oferecida antes e que recusei. Chegou ao telhado e um m om ento depois, na escuridão de seu hovercar, discou.

— Rosen Association — respondeu a telefonista de plantão.

— Rachael Rosen — disse ele.

— Perdão, senhor?

— Cham e Rachael Rosen — ordenou em voz áspera Rick.

— A Srta. Rosen está esperando . .

— Tenho certeza de que está — respondeu. E esperou.

Dez m inutos depois, o rosto pequeno e m oreno de Rachael Rosen apareceu na videotela.

— Alô, Sr. Deckard

— Está ocupada agora ou posso conversar com você? — perguntou. — Com o você disse hoj e, m ais cedo — m as não parecia que era o dia de hoj e; um a geração nascera e m orrera desde que falara com ela pela últim a vez. E todo o peso, todo o cansaço dela, resum ira-se em seu corpo; sentia o fardo físico. Talvez, pensou, por causa da pedra. Com o lenço, enxugou a orelha que ainda sangrava.

— O senhor cortou a orelha — disse Rachael, — Que pena.

— Você pensou, realm ente, que eu não lhe telefonaria? Com o você disse?

— Eu lhe disse — adm itiu Rachael — que sem m im um dos Nexus-6 o pegaria antes que o senhor o pegasse.

— Você se enganou.

— Mas está telefonando, de qualquer m odo. Quer que eu vá até aí, em São Francisco?

— Hoj e à noite — disse ele.

— Oh, é tarde dem ais. Vou am anhã. É um a hora de viagem .

— A ordem que recebi foi pegá-los hoj e à noite. — Interrom peu-se por um m om ento e depois disse: — Dos oito iniciais, sobraram três.

— O senhor dá a im pressão de que passou por m om entos horríveis.

— Se você não vir aqui hoj e à noite — disse Rick —, vou caçá-los sozinho e não poderei aposentá-los. Eu acabei de com prar um a cabra — acrescentou, — Com o dinheiro de prêm io dos três que peguei.

— Vocês, hum anos — riu Rachael. — Caprinos têm um cheiro horrível.

— Só os bodes. Li isso no livro de instruções que veio com ela.

— O senhor está realm ente cansado — com entou Rachael. — Parece confuso. Tem certeza, realm ente, que sabe o que está fazendo, pegar m ais três Nexus-6 no m esm o dia?

Ninguém j am ais aposentou seis andróides num único dia.

— Franklin Powers — disse Rick. — Há m ais ou m enos um ano, em Chicago. Ele aposentou sete.

— Da obsoleta variedade McMillan Y-4 — observou Rachael. — Isto é um a coisa diferente. — Pensou um pouco. — Rick, não posso ir, Nem m esm o j antei ainda.

— Preciso de você — disse. Senão, vou m orrer, pensou. Sei disso. Mercer sabia. Acho que você sabe, tam bém . E estou perdendo m eu tem po fazendo-lhe um apelo. Ninguém pode apelar para um andróide; não há nele coisa algum a que ressoe.

— Sinto m uito, Rick — disse Rachael —, m as não posso ir aí hoj e à noite. Terá que ser am anhã.

— Vingança de andróide — com entou Rick.

— O quê?

— Porque eu lhe dei um a rasteira na Escala Voigt-Kam pff.

— Você pensa isso? — Olhos esbugalhados, ela perguntou: — Realm ente?

— Adeus — disse Rick e com eçou a desligar.

— Escute aqui — interrom peu-o rapidam ente Rachael —, você não está usando a cabeça.

— Parece isso porque vocês tipos Nexus-6 são m ais inteligentes do que os hum anos.

— Não, eu realm ente não com preendo — suspirou Rachael. — Posso ver que você não quer realizar esse trabalho hoj e à noite ...talvez nunca m ais. Você tem certeza que quer que eu torne possível para você aposentar os três andróides restantes? Ou quer que eu o convença a não tentar?

— Venha até aqui — sugeriu ele — e nós alugarem os um quarto de hotel.

— Por quê?

— Por causa de um a coisa que ouvi hoj e — respondeu ele, rouco. — Sobre situações envolvendo hom ens, hum anos, e m ulheres, andróides. Venha a São Francisco hoj e à noite e eu desisto dos andros restantes. Farem os outra coisa.

Ela observou-o atenta, e em seguida disse bruscam ente:

— Muito bem . Vou para aí. Onde é que eu o encontro?

— No St. Francis. É o único hotel m ais ou m enos decente ainda em funcionam ento na área da baía.

— E você não fará nada até que eu chegue aí.

— Ficarei no quarto do hotel — prom eteu ele — assistindo a Buster Am igão na TV. A convidada dele nos três últim os dias foi Am anda Werner. Gosto dela. Poderia ficar olhando-a o resto de m inha vida. Ela tem seios que sorriem .

Desligou e sim plesm ente ficou ali durante algum tem po, a m ente vazia. Finalm ente, o frio do carro despertou-o. Ligou a chave de ignição e um m om ento depois tom ava a direção do centro de São Francisco.

E do St. Francis Hotel.