O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 19 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 18

 

— TRAGA AQUI pra cim a o resto de m inhas coisas — ordenou Pris a R. J. Isidore. — Em particular, o aparelho de TV. Para que a gente possa ouvir o anúncio de Buster.

— Isso m esm o — concordou Irm gard Baty, olhos brilhantes saltando de um lado para outro. — Precisam os de um aparelho de TV. Já estam os há m uito tem po esperando e a coisa vai com eçar logo.

— Meu próprio aparelho pega o canal do governo — disse Isidore. Num canto da sala de estar, sentado num a poltrona funda, com o se tencionasse perm anecer ali para sem pre, com o se houvesse decidido fazer da cadeira seu lugar de m oradia, Roy Baty arrotou e disse paciente:

— É o program a de Buster Am igão e seus Am icíssim os Am igos que querem os assistir Isi. Ou prefere que eu o cham e de J. R.? De qualquer m odo, com preendeu? Assim , quer ir buscar o aparelho?

Sozinho, Isidore desceu o corredor ecoante e vazio a cam inho da escada. Dele desprendia-se ainda a potência forte, fragrante da felicidade, a sensação de ser, pela prim eira vez em sua m onótona vida, útil a alguém . Outras pessoas dependem de m im agora, exultou, enquanto descia os degraus cobertos de poeira até o andar em baixo. E, pensou, será bom ver Buster Am igão novam ente na TV, em vez de sim plesm ente escutá-lo no rádio do cam inhão da loj a. E assim é que deve ser, com preendeu. Hoj e à noite, Buster Am igão vai fazer a sua cuidadosam ente docum entada e sensacional denúncia. Assim , graças a Pris, Roy e Irm gard, vou assistir ao que será provavelm ente a m ais im portante notícia divulgada em anos. O que é que você acha disto? Perguntou a si m esm o.

A vida, para J. R. Isidore tom ara, teria um a direção ascendente. Entrou no antigo apartam ento de Pris, desligou a tom ada do aparelho de TV e soltou a antena. O silêncio, bruscam ente penetrou. Sentiu os braços se tornarem im ponderáveis. Na ausência dos Baty s e de Pris, descobria-se com o que desaparecendo, tornando-se estranham ente inerte com o o aparelho de televisão que acabara de desligar. A pessoa tem que conviver com outras, pensou. Para viver, absolutam ente. Quero dizer, antes deles chegarem , eu podia suportar isto, viver sozinho no prédio. Você não pode voltar, pensou. Não pode partir de pessoas para não-pessoas. Em pânico, pensou, sou dependente deles. Graças a Deus, eles ficaram .

Seriam necessárias duas viagens para levar as coisas de Pris para o apartam ento do andar superior. Levantando o aparelho de TV, resolveu levá-lo prim eiro e, em seguida, voltar a apanhar as valises e roupas restantes.

Minutos depois, consegui levá-lo para cim a.

Os dedos doendo, conseguiu colocá-lo num a m esinha de café na sala de estar. Os Baty s e Pris observavam -no im passíveis.

— Nós pegam os um bom sinal neste prédio — arquej ou ele, enquanto ligava a tom ada e prendia a antena.

— No tem po em que eu assistia a Buster Am igão e seus...

— Sim plesm ente, ligue o aparelho — disse Roy Baty. — E cale a boca. Ele fez o que lhe m andavam e correu para a porta.

— Mais um a viagem — disse — e tudo estará aqui.

Dem orou-se um pouco ali, aquecendo-se no calor da presença deles.

— Ótim o — disse Pris, voz distante.

Isidore saiu, m ais um a vez. Eu acho, pensou, que eles estão m e explorando, de algum a m aneira. Mas não se im portou. Eles ainda são bons am igos para um a pessoa ter, disse a si m esm o.

No apartam ento em baixo, reuniu e enfiou em valises as peças de roupa da m oça. Pesadam ente carregado, percorreu com esforço o corredor e com eçou a subir a escada. Num degrau à sua frente, algum a coisa pequenina m ovia-se na poeira. No m esm o instante, deixou cair as valises, tirou do bolso um a garrafa de rem édio, de plástico, que, com o todo m undo, levava consigo j ustam ente para um a ocasião com o essa. Um a aranha, que m al conseguia ver, m as viva. Com todo o cuidado, colocou-a na garrafa e fechou bem a tam pa — que fora perfurada com um a agulha. No andar superior, à porta do apartam ento, parou para recuperar o fôlego.

" ...sim , senhor, pessoal, a ocasião é agora. Aqui, Buster Am igão, esperançoso e confiante em que vocês estão tão ansiosos com o eu para com partilhar da descoberta que fiz e que, por falar nisto, foi confirm ada por pessoal de pesquisa de alta classe, que trabalhou horas extras para tanto na últim a sem ana. Hei, hei, pessoal, é o seguinte!”

— Eu achei um a aranha — disse John Isidore.

Os três andróides levantaram os olhos, desviando por um m om ento a atenção da tela de TV.

— Mostre-m e — disse Pris, estendendo a m ão.

— Não fale enquanto Buster está falando — disse Roy Baty.

— Eu nunca vi um a aranha — retrucou Pris. Colocou a garrafa de rem édio na m ão e exam inou a criatura em seu interior. — Tantas pernas. Por que ela precisa de tantas pernas, J. R.?

— É assim que as aranhas são — explicou ele, o coração batendo forte. Tinha dificuldade em respirar. — Oito pernas.

Levantando-se, disse Pris:

— Sabe o que é que eu penso J. R.? Acho que ela não precisa dessas pernas todas.

— Oito? — repetiu Irm gard Baty. — Por que não poderia passar com quatro? Corte quatro e vam os ver.

— Im pulsiva, abriu a bolsa e tirou um a tesoura nova e afiada, que entregou a Pris. J. R. Isidore sentiu um profundo terror.

Levando a garrafa para a cozinha, Pris sentou-se à m esa de café de J. R, Isidore. Tirou a tam pa da garrafa e deixou sair a aranha.

— Provavelm ente, ela não vai poder correr tão depressa — observou — m as, de qualquer m odo, não há aqui nada para ela pegar. Ela vai m orrer, de qualquer j eito. Pegou a tesoura.

— Por favor — disse Isidore.

Pris olhou curiosa para ele:

— Ela vale algum a coisa?

— Não a m utile — pediu ele, ofegante. Im plorante.

Usando a tesoura, Pris cortou um a das pernas da aranha.

Na sala de estar, na TV, Buster Am igão dizia:

" Dêem um a olhada nesta am pliação de um a seção do fundo de cena. Este é o céu que vocês vêem usualm ente. Espere. Espere, este aqui é Earl Param eter, chefe de m inha equipe de produção, que vai explicar a vocês a descoberta que fizeram e que, virtualm ente, abalará o m undo."

Pris am putou outra perna, segurando a aranha com a borda da m ão. Sorria.

" Am pliações das im agens de vídeo — dizia nesse m om ento um a voz na TV —, quando suj eitas a rigoroso exam e de laboratório, revelam que o pano de fundo cinza do céu e a lua durante o dia. em frente aos quais m ove-se Mercer, são não apenas terrestres, m as artificiais."

— Você está perdendo a denúncia! — gritou nervosa Irm gard. Correu até a porta da cozinha e viu o que Pris fazia nesse m om ento. — Oh, deixe isso para depois — insistiu; adulando-a. — É m uito im portante o que eles estão dizendo. Prova que tudo aquilo em que acreditávam os.

— Cale a boca — ordenou Roy Baty.

— ... é verdade — term inou Irm gard.

Continuava através do aparelho de televisão:

" A lua é pintada. Nas am pliações, um a das quais vocês estão vendo agora na tela, aparecem as pinceladas. E há m esm o algum a evidência de que as ervas raquíticas e espalhadas e o solo desolador e estéril — talvez m esm o as pedras atiradas em Mercer por supostas entidades ocultas — são igualm ente falsas. É bem possível, na verdade, que as 'pedras' sej am feitas de plástico m ole e que não ocasionem ferim entos autênticos."

" Em outras palavras" interrom peu-o Buster Am igão "Wilbur Mercer não está sofrendo, absolutam ente."

O pesquisador-chefe dizia nesse m om ento:

" Nós finalm ente conseguim os, Sr. Am igão, localizar o antigo especialista em efeitos especiais de Holly wood, Sr. Wade Cortot, que declara categoricam ente, baseado em anos de experiência, que a figura de 'Mercer5 bem pode ser sim plesm ente um figurante cruzando um estúdio de áudio. Cortot chegou a ponto de dizer que reconhece o estúdio com o um que foi usado por um pequeno cineasta, hoj e desem pregado, com o qual teve vários negócios há algum as décadas."

"Segundo Cortot" garantiu Buster Am igão "não pode haver virtualm ente dúvida algum a".

Pris j á cortara três pernas da aranha, que se arrastava infeliz sobre a m esa da cozinha, procurando um a m aneira de escapar, um cam inho para a liberdade. Não encontrou nenhum .

"Para serm os absolutam ente francos, acreditam os em Cortot" prosseguia em um a voz seca e potente o chefe de pesquisas "e passam os um bocado de tem po exam inando film es de publicidade de figurantes outrora em pregados pela agora defunta indústria cinem atográfica de Holly wood".

"E você descobriu que..."

— Escutem isso — disse Roy Baty. Irm gard olhou fixam ente para a tela da TV e m esm o Pris interrom peu a m utilação da aranha.

"Localizam os, após o exam e de m ilhares e m ilhares de fotografias, um hom em m uito velho, cham ado Al Jarry, que fez algum as pontas em film es de antes da guerra. De nosso laboratório, enviam os um a equipe à casa de Jarry, em East Harm ony, Indiana. Vou deixar que um dos m em bros dessa equipe revele o que encontrou.”

Silêncio e, em seguida, um a nova voz, igualm ente banal.

"A casa na Lark Avenue, em East Harm ony, esquálida, caindo aos pedaços, situa-se nos arrabaldes da cidade, onde ninguém vive m ais, com exceção de Al Jarry. Cordialm ente convidado a entrar e sentado na sala de estar cheirando a velhice, m ofo, cheia de entulho, vasculhei, por m eios telepáticos, a m ente apagada, cheia de destroços, nebulosa, de Al Jarry, sentado à m inha frente."

“Escutem ” disse Roy Baty, à beira da cadeira, com o prestes para saltar.

“Descobri" continuou o técnico "que o velho realm ente fez um a série de film es curtos para o vídeo, de quinze m inutos, por conta de um em pregador que j am ais conheceu. E, conform e havíam os teorizado, as 'pedras' eram de plástico esponj oso. O 'sangue' era ketchup e. .." o técnico soltou um a risadinha "o único sofrim ento que o Sr. Jarry suportou foi ter que passar um dia inteiro sem um trago de uísque."

" Al Jarry " disse Buster voltando à tela. "Bem , bem . Um velho que, m esm o na flor da idade, j am ais chegou a ser coisa algum a que ele m esm o ou nós pudéssem os respeitar. Al Jarry fez um film e repetitivo e m onótono, um a série deles, na verdade, para um a pessoa cuj o nom e não soube... e não sabe ainda hoj e. Com freqüência, os adeptos da experiência do m ercerism o têm dito que Wilbur Mercer não é um ser hum ano, que é, na verdade, um a entidade superior arquetípica, talvez vinda de outra estrela. Bem , em certo sentido, esta alegação revelou-se correta. Wilbur Mercer não é hum ano, na verdade não existe. O m undo que ele escala é um barato, com um estúdio de áudio de Holly wood, que se transform ou em entulho há anos. E quem perpetrou essa fraude contra o sistem a solar? Pense nisso por algum tem po, pessoal,"

— Talvez j am ais venham os a saber — m urm urou Irm gard.

"Talvez j am ais venham os a saber" disse Buster Am igão. "Tam pouco podem os sondar a finalidade estranha que se escondeu por trás dessa m entira. Sim , pessoal, m entira. O m ercerism o é um a im postura!"

— Acho que nós sabem os — disse Roy Baty. — É óbvio. O m ercerism o surgiu...

“Mas pensem no seguinte" continuou Buster Am igão. "Perguntem a vocês m esm os o que é que o m ercerism o faz. Bem , se querem os acreditar em seus m uitos praticantes, a experiência funde. .."

— É essa a em patia que os hum anos têm — observou Irm gard,

"... hom ens e m ulheres, em todo o sistem a solar, num a única entidade. Mas um a entidade que é controlável pela cham ada voz telepática de 'Mercer'. Notem isso. Um falso e politicam ente inclinado Hitler poderia..."

— Não, é aquela em patia — disse vigorosam ente Irm gard. Punhos cerrados, dirigiu-se para a cozinha e confrontou Isidore. — Isso não é um a m aneira de provar que os hum anos podem fazer um a coisa que nós não podem os? Isto porque, sem a experiência de Mercer, tem os sim plesm ente a palavra de vocês de que sentem esse negócio de em patia, essa coisa com partilhada, coletiva. Com o é que vai a aranha? — Debruçou-se sobre o om bro de Pris.

Usando novam ente a tesoura, Pris am putou outra perna da aranha.

— Quatro agora — disse. Catucou a aranha. — Ela não quer andar, m as pode. Roy Baty apareceu à porta, respirando fundo, um a expressão de pessoa realizada no rosto.

— Está feito. Buster disse alto e bom som , e quase todos os hum anos no sistem a ouviram -no dizer: "O m ercerism o é um a im postura." A experiência toda de em patia é um a im postura. — Aproxim ou-se e olhou curioso para a aranha.

— Ela não quer tentar andar — disse Irm gard.

— Eu posso fazé-lo andar — Roy Baty tirou um a caixa de fósforos do bolso, acendeu um deles, aproxim ou-o da aranha, cada vez m ais, até que ela debilm ente se m oveu para longe.

— Eu estava certa — disse Irm gard. — Eu não disse que ela podia andar só com quatro pernas? — Olhou expectante para Isidore. — O que é que há? — Tocando-lhe o braço, disse: — Você não perdeu coisa algum a. Nós lhe pagarem os o que — com o é que é

cham ado? — o preço que consta do católogo da Sidney 's No fique tão triste assim . Não foi im portante isso sobre Mercer, o que eles descobriram ? Toda aquela pesquisa? Hei, responda. — Catucou-o, ansiosa.

— Ele está abalado — disse Pris. — Porque tem um a caixa de em patia. No outro côm odo. Você a usa J.R.? — perguntou-lhe.

— Claro que ele usa isso — disse Roy Baty. — Todos a usam , ou usavam . Talvez, agora, eles com ecem a pensar nisso.

— Eu não acho que isso acabe com o culto de Mercer — opinou Prist. — Mas, exatam ente neste m inuto, há por ai um bocado de seres hum anos infelizes. — A Isidore, disse: — Esperam os, durante m eses. Nós todos sabíam os que ia acontecer. — Hesitou e disse em seguida: — Bem , por que não? Buster é um dos nossos.

— Um andróide — explicou Irm gard. — E ninguém sabe. Nenhum hum ano, quero dizer.

Usando a tesoura, Pris cortou m ais um a perna da aranha. De repente, John Isidore em purrou-a para um lado e levantou a criatura m utilada. Levou-a até a pia e afogou-a. Nele, sua m ente, suas esperanças, afogaram -se tam bém . Com tanta rapidez com o a aranha.

— Ele está realm ente abalado — disse nervosa Irm gard. — Não fique assim , J. R. Por que não diz algum a coisa? — Voltou-se para Pris e para o m arido. — Isso m e deixa tam bém terrivelm ente abalada, ele ali j unto à pia, sem dizer um a palavra. Não disse coisa algum a desde que ligam os a TV.

— Não foi a TV — corrigiu-a Pris. — Foi a aranha. Não foi, John R. Isidore? Mas ele sobreviverá a isso — disse a Irm gard, que nesse m om ento se dirigia para a outra sala a fim de desligar a TV.

Olhando divertido para Isidore, disse Roy Baty :

— Está tudo acabado agora. Is. Para o m ercerism o, quero dizer. — Usando as unhas, levantou da pia o cadáver da aranha. — Talvez esta tenha sido a últim a aranha — disse ele, — A últim a aranha viva na Terra. — Refletiu por um m om ento. — Nesse caso, acabou tudo para as aranhas, tam bém .

— Eu... eu não m e sinto bem — disse Isidore.

Do arm ário da cozinha, tirou um a xícara. Ficou com ela na m ão durante algum tem po, não sabia exatam ente por quanto tem po. Em seguida, disse a Roy Baty :

— O céu que vem os por trás de Mercer é sim plesm ente pintado? Não é real?

— Você viu as am pliações na tela da TV — disse Roy Baty. — As pinceladas.

— O m ercerism o não acabou — disse Isidore. Algum a coisa atorm entava os andróides, algum a coisa terrível. A aranha, pensou. Talvez tenha sido a últim a aranha na Terra, com o disse Roy Baty. E a aranha m orreu; Mercer m orreu: notou a poeira e a ruína do apartam ento, espalhando-se e por toda parte — ouviu o entulho chegando, a desordem final de todas as form as, a ausência que, no fim , venceria. Crescia em volta dele, ali, segurando na m ão a xícara vazia de cerâm ica; os arm ários da cozinha estalaram e se partiram e ele sentiu ceder o chão sob os pés. Estendeu a m ão e tocou a parede. A m ão quebrou a superfície; partículas cinzentas escorregaram e desceram céleres, os fragm entos de reboco, lem brando a poeira radiativa do lado de fora. Sentou-se à m esa e, com o se fossem tubos podres, vazios, as pernas da cadeira se dobraram ; levantando-se rápido, pôs de lado a xícara e tentou consertar a cadeira, tentou devolver-lhe a form a certa. A cadeira se desfez em suas m ãos, soltandose e soltando os parafusos que antes haviam m antido num todo suas várias partes. Viu na m esa que se rachava, a xícara de cerâm ica, que um a teia de linhas finas crescia com o as lianas de um a videira e, em seguida, um a lasca soltou-se da borda, e apareceu a parte interna bruta, não vidrada.

— O que é que ele está fazendo? — ouviu distante a voz de Irm gard Baty. — Ele está quebrando tudo! Isidore, pare... Eu não estou fazendo isso... — disse ele. Trôpego, foi até a sala de estar para ficar sozinho. Ao lado do sofá esm olam bado olhou para a parede am arela, m anchada, que insetos m ortos, que outrora rastej avam , haviam deixado, e m ais um a vez pensou no corpo da aranha, com suas quatro pernas restantes. Tudo aqui é velho, com preendeu. Há m uito tem po com eçou a apodrecer e não vai parar. O cadáver da aranha tom ou conta de tudo.

Na depressão causada pelo afundam ento do assoalho, pedaços de anim ais apareceram , a cabeça de um corvo, m ãos m um ificadas que poderiam ter sido um a vez partes de m acacos. Viu um j um ento um pouco afastado, im óvel e ainda aparentem ente vivo. Pelo m enos, não com eçara ainda a apodrecer.

Dirigiu-se para ele, sentindo-se com o se seus ossos fossem gravetos, secos com o ervas, lascas sob seus pés. Mas antes de chegar ao j um ento — um a das criaturas que m ais am ava — um lustroso corvo azul desceu do alto e pousou no insensível focinho do j um ento Não faça isso, disse em voz alta, m as o corvo, rápido, bicou os olhos do j um ento. Mais um a vez, pensou. Está acontecendo com igo outra vez. Ficarei aqui em baixo durante um longo tem po, com preendeu.

Com o antes. Sem pre dem ora m uito porque aqui coisa algum a j am ais m uda; chega um m om ento em que não ocorre nem m esm o apodrecim ento.

Soprou um vento seco e em volta deles desfizeram -se os m ontes de ossos. Até o vento os destrói, percebeu. Neste estagio. Pouco antes de o tem po cessar. Eu gostaria de m e lem brar de com o subir para fora daqui, pensou.

Olhando para cim a, nada viu a que pudesse se agarrar.

— Mercer — disse em voz alta, — Onde está você agora? Esta é a sepultura do m undo e estou nela m ais um a vez, m as desta vez você não está aqui tam bém . Algum a coisa rastej ou por cim a de seu pé. Aj oelhou-se e procurou-a, e encontrou-a, pois ela se m ovia tão lentam ente, a aranha m utilada, andando e parando com as pernas que lhe restavam .

Apanhou-a e segurou-a na palm a da m ão. Os ossos, com preendeu, reverteram -se, a aranha está viva outra vez.

O vento soprou, partindo, lascando os ossos restantes, m as ele sentiu a presença de Mercer. Venha, disse a Mercer. Rastej e por cim a de m eu pé e descubra algum a outra m aneira de m e alcançar. Está bem ? Mercer, pensou. Em voz alta disse:

— Mercer!

Por toda a paisagem à frente as ervas avançaram , contorceram -se e penetraram nas paredes em volta dele e nela trabalharam até que elas, as ervas daninhas, transform aram -se em seus próprios esporos. Os esporos expandiram -se, dividiram -se, explodiram dentro do aço podre e cacos de concreto que antes haviam sido paredes. Mas a desolação persistiu depois que as paredes desapareceram , continuou depois de tudo m ais. Exceto a frágil e obscura figura de Mercer. O rosto do velho virado para ele, com um a plácida expressão.

— O céu é pintado? — perguntou Isidore. — Há. realm ente as pinceladas que aparecem na am pliação?

— Há — confirm ou Mercer.

— Mas eu não posso vê-las.

— Você está perto dem ais — respondeu Mercer. — Você tem que ficar bem distante, com o ficam os andróides. Eles têm um a perspectiva m elhor.

— E por isso que eles dizem que você é um im postor?

— Eu sou um im postor — confirm ou Mercer. — Eles são sinceros. A pesquisa deles é autêntica. Do ponto de vista deles, eu sou um velho figurante aposentado, cham ado Al Jarry. Tudo aquilo, a denúncia, é verdade. Eles entrevistaram em casa, com o dizem . Disse a eles tudo o que queriam saber, que foi tudo.

—Incluindo aquilo sobre o uísque?

Mercer sorriu.

— Foi verdade. Eles fizeram um bom trabalho e, do ponto de vista deles, a denúncia de Buster Am igão foi convincente. Mas terão problem a para com preender por que coisa algum a m udou. Porque você está ainda aqui e eu estou ainda aqui. — Com o um gesto da m ão, Mercer indicou a colina desolada, o lugar conhecido. — Eu o tirei a pouco do ventre do m undo e continuarei a erguê-lo até que você perca o interesse e queira desistir. Mas terá que deixar de m e procurar por que eu nunca deixarei de procurá-lo.

— Eu não gostei daquilo sobre o uísque — disse Isidore. — Aquilo foi aviltante.

— Isso acontece porque você é um a pessoa altam ente m oral. Eu não sou. Não j ulgo, nem m esm o a m im m esm o.

Mercer estendeu um a das m ãos fechada, a palm a para cim a. — Antes que eu esqueça, tenho aqui um a coisa para você.

Abriu os dedos. Na m ão descansava a aranha m utilada, m as restauradas as pernas que haviam sido cortadas.

— Obrigado — disse Isidore, aceitando a aranha. Com eçou a dizer m ais algum a coisa. . Estrugiu o som da cam painha de alarm e.

— Há um caçador de cabeças no prédio! — rosnou Roy Baty. — Apaguem todas as luzes. Tirem -no da caixa de em patia. Ele tem que ficar em posição à porta. Vam os... em purrem -no!