O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 4 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 3

 

A CAMINHO do trabalho, Rick Deckard, e só Deus sabia quantos outros m ais, parou por um m om ento para olhar, disfarçadam ente, em frente a um a das m aiores loj as de bichos de estim ação de São Francisco, no espaço destinado aos anim ais. No centro da vitrina, que ocupava um quarteirão inteiro, um a avestruz em um a j aula aquecida de plástico, retribuiu-lhe o olhar. A ave, segundo a placa de inform ação presa à gaiola, acabara de chegar de um zoológico de Cleveland. Era a única avestruz da Costa Oeste.

Depois de fitá-la, Rick passou m ais alguns m inutos olhando fixam ente para a etiqueta do preço. Prosseguiu em seguida, na direção do Palácio da Justiça, na Lom bard Street, e descobriu que estava atrasado um quarto de hora para o trabalho. No m om ento em que abria o gabinete, seu superior, o Inspetor de Polícia Harry Bry ant, ruivo, orelhas de abano, relaxadam ente vestido, m as de olhos vivos, consciente de tudo que tinha im portância, gritou para ele:

— Encontre-m e às nove e trinta no gabinete de Dave Holden. — Enquanto falava, o Inspetor Bry ant folheava rapidam ente um a prancha, onde estavam presas folhas de papel de seda datilografadas. — Holden — continuou, afastando-se — está no Hospital Monte Sion, com um a queim adura de laser na espinha, Vai passar lá pelo m enos um m ês. Até que um a dessas novas seções plásticas de espinha vertebral cole devidam ente.

— O que foi que aconteceu? — perguntou Rick, com um calafrio. O principal caçador a prêm io do departam ento estivera bem até a véspera. Ao fim do dia, com o sem pre, ele partira em seu hovercar a cam inho de seu apartam ento, na congestionada área de alto prestígio de Nob Hill, na cidade. Por cim a do om bro, Bry ant m urm urou algum a coisa sobre nove e trinta no escritório de Dave, e deixou Rick sozinho.

Ao entrar no seu gabinete, ouviu às suas costas a voz da sua secretária, Ann Marsten:

— Sr. Deckard, sabe o que aconteceu com o Sr. Holden? Foi atingido. Seguiu-o até o escritório fechado o abafado e pôs em funcionam ento a unidade de filtragem do ar.

— Sim — respondeu ele distraído.

— Deve ter sido um desses novos andros, ultra-sabidos, que a Rosen Association está fabricando — opinou a Srta. Marsten. — Leu a brochura da com panhia e as folhas de especificação? A unidade cerebral Nexus-6 que estão usando agora é capaz de selecionar num cam po de dois trilhões de constituintes, ou dez m ilhões de trilhas neurais separadas. — Baixou a voz. — O senhor perdeu a cham ada no videofone esta m anhã. Quem m e contou foi a Sra. Wild. A cham ada chegou pela m esa exatam ente às nove.

— Um a cham ada para aqui? — perguntou Rick.

— Um a cham ada do Sr. Bry ant para o WOP... na Rússia. Perguntando se eles queriam apresentar um a queixa oficial ao representante da Rosen Association no Leste.

— Harry ainda quer que a unidade cerebral Nexus-6 sej a retirada do m ercado?

Não se sentia surpreso. Desde que foram anunciadas as especificações e relatórios de desem penho em agosto de 1991, a m aioria das forças policiais que tratava de andros fuj ões andava protestando.

— A política soviética não pode fazer m ais do que nós — disse. Legalm ente os fabricantes da unidade cerebral Nexus-6 operavam de acordo com disposições de lei colonial, tendo sua fábrica autom ática localizada em Marte. — O m elhor que faríam os m esm o era sim plesm ente aceitar a nova unidade, com o um desses fatos inescapáveis da vida — opinou. — Sem pre foi assim , no caso de todas as unidades cerebrais aperfeiçoadas que surgiram .

Lem bro-m e dos uivos de dor quando a Suderm ann apresentou seu velho T-14 em '89. Todas as forças policiais no Hem isfério Ocidental alegaram que teste algum lhes revelaria a presença, em caso de entrada ilegal aqui.

Para dizer a verdade, durante algum tem po eles tiveram razão. Mais de cinqüenta andróides T-14, segundo lem brava, haviam de um a m aneira ou de outra, conseguido chegar à Terra e passaram despercebidos em alguns casos, um ano inteiro. Mas logo depois foi criado o Teste de Em patia Voigt, pelo Instituto Pavlov, na União Soviética. E nenhum andróide T-14, pelo m enos tanto quanto se sabia, conseguira passar nesse teste.

— Quer saber o que foi que a Polícia russa disse? — perguntou a Srta. Marsten. — Eu tam bém sei isso — continuou, anim ando-se seu rosto am arelado e pintalgado de sardas.

— Eu descubro com Harry Bry ant — respondeu Rick. Sentia-se irritado. As bisbilhotices de escritório sem pre o aborreciam porque, no fim , eram nada m ais que a verdade. Sentando-se à escrivaninha, com eçou intencionalm ente a procurar algum a coisa na gaveta até que a Srta. Marsten, percebendo a deixa, foi em bora. Da gaveta tirou um antigo e enrugado envelope de papel pardo. Recostando-se na sua cadeira tipo executivo, m exeu no conteúdo até encontrar o que queria: os dados reunidos existentes sobre o Nexus-6.

Um a rápida leitura confirm ou as inform ações da Srta. Marsten: o Nexus-6 possuía, de fato, dois trilhões de constituintes, além de um a capacidade de escolha na faixa de dez m ilhões de possíveis com binações de atividade cerebral. Em 4,5 décim os de segundo um andróide equipado com essa estrutura cerebral podia assum ir qualquer um a de quatorze reações-posturas básicas. Bem , nenhum teste de inteligência podia encurralar um andro desses. Mas tam bém os testes de inteligência não haviam encurralado andro algum em anos. Não, desde as prim eiras e cruas variedades da década de 70. Os tipos andróides Nexus-6, refletiu Rick, superavam todas as classes de hum anos especiais em term os de inteligência. Em outras palavras, os andróides equipados com a nova unidade cerebral Nexus-6 haviam , a partir de um ponto de vista grosseiro, pragm ático, prático, evoluído além de um grande — em bora inferior — segm ento da hum anidade. Com todas as boas ou m ás conseqüências. Em alguns casos, o criado tornara-se m ais hábil do que seu senhor. Novas escalas de realização, contudo, com o por exem plo o Teste de Em patia Voigt-Kam pff, surgiram com o critérios para j ulgá-los. Um andróide, por m ais dotado que fosse de pura capacidade intelectual, não podia entender a fusão que, rotineiram ente, ocorria entre os seguidores do m ercerism o — um a experiência que ele, e virtualm ente todo m undo, incluindo debilóides subnorm ais, conseguiam realizar sem dificuldade.

Perguntara-se, com o, aliás, fizera a m aioria das pessoas um a vez ou outra, precisam ente por que um andróide saltava im potente, de um lado para outro, quando subm etido a um teste de m edição de em patia. Em patia, evidentem ente, existia apenas na com unidade hum ana, ao passo que inteligência em algum grau podia ser encontrada em todas as filas e ordens, incluindo os aracnídeos. Pelo m enos a faculdade de em patia provavelm ente requeria um instinto grupal intacto; um organism o solitário com o um a aranha, não teria utilidade para ela; na verdade, tenderia a abortar a capacidade da aranha de sobreviver. Torná-la-ia consciente do desej o de viver de sua presa. Daí, se a possuíssem , todos os predadores, m esm o os m am íferos altam ente desenvolvidos com o os gatos, m orreriam de fom e.

A em patia, chegara ele certa vez à conclusão, forçosam ente devia lim itar-se a herbívoros ou, de qualquer m aneira, a onívoros que podiam abster-se de um a dieta de carne. Isto porque, em últim a análise, o dom da em patia tornava indistintas as fronteiras entre caçador e vítim a, entre os bem -sucedidos e os derrotados. Com o no caso da fusão com Mercer, os dois subiam j untos ou, quando o ciclo acabava, caíam j untos na fossa do túm ulo do m undo. Estranho, a coisa lem brava um a espécie de seguro biológico, em bora de gum e duplo. Enquanto algum a criatura experim entava alegria, então a condição para todas as dem ais criaturas incluía um pouco de alegria. Contudo, se algum ser vivo sofria, no caso do restante a som bra não podia ser inteiram ente descartada. Um anim al gregário com o o hom em adquiriria com isso um fator de sobrevivência m ais alto, m as um a coruj a ou um a cobra seriam destruídas.

Evidentem ente o robô hum anóide constituía um predador solitário. Rick gostava de considerá-los dessa m aneira. Isto tornava suportável seu em prego. Ao aposentar, isto é, m atar um andro, não violava a regra de vida estabelecida por Mercer. Matarás apenas os m atadores, dissera-lhes Mercer no ano em que as caixas de em patia apareceram pela prim eira vez na Terra.

No m ercerism o, à m edida que evoluía e se transform ava num a teologia plena, o conceito de Os Matadores crescera insidiosam ente.

No m ercerism o, um m al absoluto puxava o m anto esfiapado do velho trôpego que subia, m as j am ais era claro quem ou o quê era essa m aligna presença. Um m ercerita sentia o m al sem com preendê-lo. Ou, em outras palavras, um m ercerita tinha liberdade para localizar a presença nebulosa dos Matadores onde quer que j ulgasse conveniente. Para Rick Deckard, um robô hum anóide fuj ão, que m atara seu senhor, fora equipado com um a inteligência m ais aguda do que m uitos seres hum anos, que nenhum a consideração sentia por anim ais, que não possuía capacidade de sentir alegria em pática pelo sucesso de outra form a de vida, ou sofrer com sua derrota — isto, para ele, sintetizava Os Matadores.

Pensando em anim ais, lem brou-se da avestruz que vira na loj a. Tem porariam ente pôs de lado as especificações da unidade cerebral Nexus-6, tom ou um a pitada de rape Mrs. Siddon's N.° 3 & 4, e pensou. Em seguida, olhou para o relógio e viu que dispunha de tem po. Levantou o videofone da escrivaninha e disse à Srta. Marsten:

— Ligue-m e com a Happy Dog Pet Shop, na Sutter Street.

— Sim , senhor — respondeu a Srta. Marsten, abrindo sua caderneta de telefones. Eles não podem , realm ente, pedir aquilo tudo por um a avestruz, disse Rick a si m esm o. Esperam que a pessoa pechinche com o nos velhos dias.

— Happy Dog Pet Shop — declarou um a voz de hom em , na videotela de Rick apareceu um a pequena e contente face. Ele podia ouvir, no fundo, o barulho feito por anim ais.

— É a respeito daquela avestruz que os senhores têm na vitrina — explicou Rick, enquanto brincava com um cinzeiro de cerâm ica à sua frente. — Qual é a entrada que preciso pagar para com prá-la?

— Vam os ver... — disse o vendedor, apanhando um a caneta e um bloco. — De entrada, um terço do preço. — Fez os cálculos. — Posso saber senhor, se vai dar algo usado com o inicial?

Reservado, Rick respondeu:

— Eu ... eu ainda não resolvi.

— Vam os supor que para com prar a avestruz o senhor escolha um plano de trinta m eses — disse o vendedor. — A um a taxa de j uros baixa, bem baixa, de seis por cento ao m ês, isto equivaleria a um a am ortização m ensal, depois de um a razoável entrada...

— O senhor vai ter que baixar esse preço — disse Rick. — Tire dois m il e não dou nenhum outro artigo com o inicial. Pago em dinheiro vivo.

Dave Holden, pensou, estava fora de circulação. Isto poderia significar um bocado de coisas... dependendo de quantas m issões surgissem no m ês seguinte.

— Senhor — disse o vendedor — nosso preço de venda j á está m il dólares abaixo do catálogo. Verifique no seu Sidney 's. Eu espero. Quero que o senhor m esm o vej a que nosso preço é j usto.

Cristo, pensou Rick, Não estão arredando pé. Contudo, apenas por fazer, tirou do bolso do casaco o am arrotado Sidney 's, procurou avestruz, m acho-fêm ea, velha-j ovem , doente-sadia, nova-usada, e verificou os preços.

— Nova, m acho, j ovem , sadia — inform ou o vendedor. — Trinta m il dólares. — Ele, tam bém , estivera consultando seu Sidney 's. — Estam os cobrando exatam ente m il dólares m enos que o preço de catálogo. Agora, quanto à sua entrada...

— Vou pensar um pouco — disse Rick — e depois telefono para o senhor. — Fez o m ovim ento de desligar.

— Seu nom e, senhor? — perguntou alerta o vendedor.

— Frank Merriwell — respondeu Rick.

— Seu endereço, Sr. Merriwell? Para o caso de eu não estar aqui quando o senhor telefonar de volta.

Rick inventou um endereço e pôs o videofone de volta no gancho. Esse dinheiro todo, pensou. Ainda assim , pessoas com pram -nas; algum as pessoas têm tanto dinheiro assim . Levantando novam ente o telefone, disse áspero:

— Consiga-m e um a linha, Srta. Marsten. E não fique escutando. Trata-se de um a cham ada confidencial. — Olhou-a zangado.

— Sim , senhor — respondeu a Srta. Marsten. Desligou-se do circuito e deixou-o sozinho para enfrentar o m undo externo.

Discou, de m em ória, o núm ero da loj a de falsos anim ais, onde conseguira seu sucedâneo de ovelha. Na pequena videotela apareceu um hom em vestido com o veterinário.

— Dr. McRae — declarou ele.

— Fala aqui Deckard. Quanto custa um a avestruz elétrica?

— Oh, acho que poderíam os lhe cobrar m enos de oitocentos dólares. Em quanto tem po quer a entrega? Vam os ter que fabricá-la exclusivam ente para o senhor. Não há m uita procura de...

— Falo com o senhor depois — interrom peu. Lançou um olhar ao relógio e viu que m arcava nove e m eia. — Adeus.

Levantou-se rápido da cadeira e, pouco depois, chegou à porta do escritório do Inspetor Bry ant. Passou pela recepcionista de Bry ant, atraente, com cabelo prateado pela cintura, am arrado em tranças e, em seguida, pela secretária do inspetor, um m onstro prim evo de algum pântano j urássico, im óvel e ardilosa, com o algum a aparição arcaica fixada na sepultura do m undo.

Nenhum a das m ulheres falou com ele, nem ele com elas.

Abrindo a porta interna, inclinou a cabeça na direção de seu superior, que nesse m om ento falava ativam ente ao telefone.

Sentou-se, puxou do envelope as especificações do Nexus-6 que trouxera consigo e leuas m ais um a vez enquanto o Inspetor Bry ant continuava a falar. Sentia-se deprim ido. Ainda assim , logicam ente, devido ao súbito desaparecim ento de Dave da cena de trabalho, devia sentir-se pelo m enos m oderadam ente satisfeito.