O Caçador de Androides
Capítulo 7
ENTÃO É ASSIM, pensou J. R. Isidore, apertando ainda na m ão o cubo m ole de m argarina. Talvez ela m ude de idéia sobre eu cham á-la de Pris. E possivelm ente sobre o j antar tam bém , se eu conseguir achar um a lata de verduras de antes da guerra. Mas talvez ela não saiba cozinhar, lem brou-se de repente. Muito bem , eu posso. Preparo o j antar para nós dois. E m ostro-lhe com o, de m odo que ela possa fazê-lo no futuro, se quiser. Provavelm ente, vai querer, logo que eu lhe m ostre com o. Tanto quanto posso entender, a m aioria das m ulheres, m esm o j ovens com o ela, gosta de cozinhar. É um instinto.
Subindo os degraus escuros, voltou para seu apartam ento.
Ela está realm ente fora de alcance, pensou enquanto vestia seu uniform e branco de trabalho. Mesm o que se apressasse, chegaria atrasado e o Sr. Sloat ficaria zangado, m as, e daí? Por exem plo, ela j am ais ouvira falar em Buster Am igão. E isso é im possível. Buster é a pessoa viva m ais im portante, exceto, claro, "Wilbur Mercer... Mas Mercer, refletiu, não é um ser hum ano. Evidentem ente, é um a entidade arquetípica vinda das estrelas, superposto sobre nossa cultura por um gabarito cósm ico. Pelo m enos, foi isso que ouvi pessoas dizerem . É isso o que o Sr. Sloat diz, por exem plo. E Hannibal Sloat deve saber.
Estranho que ela não sej a coerente sobre seu próprio nom e, ponderou. Talvez precise de aj uda. Posso lhe dar algum a aj uda?, perguntou a si m esm o. Um especial, um debilóide?
O que é que eu sei? Não posso casar, não posso em igrar e, no fim , a poeira vai acabar com igo. Não tenho coisa algum a a oferecer.
Vestido e pronto para sair, deixou o apartam ento e subiu ao telhado, onde se encontrava estacionado seu usado e arruinado hovercar.
Um a hora depois, ao volante do cam inhão da com panhia, apanhara o prim eiro anim al defeituoso do dia. Um gato elétrico. Deitado na gaiola plástica à prova de poeira do cam inhão, arfava espasm odicam ente. Quase se pensaria que era real, observou Isidore, voltando ao Hospital Van Ness de Anim ais de Estim ação — a pequena em presa com o nom e cuidadosam ente m al escolhido, que m al conseguia sobreviver no duro e com petitivo cam po de reparos de falsos anim ais.
O gato, em seu sofrim ento, gem eu.
Uau, pensou Isidore, ele parece m esm o que está m orrendo. Talvez sua bateria de dez anos de duração tenha entrado em curto e todos os seus circuitos estej am sistem aticam ente queim ando. Um trabalho grande. Milt Borogrove, m ecânico do hospital, teria as m ãos ocupadas. E eu não dei um a estim ativa do custo ao dono, pensou deprim ido Isidore. O cara sim plesm ente m e lançou o gato nas m ãos, disse que ele com eçara a enguiçar durante a noite e depois, acho, foi trabalhar. De qualquer m odo, de repente, cessara a m om entânea troca verbal: o dono do gato subira para o céu em seu novo e belo m odelo de hovercar, feito sob m edida. E aquele hom em constituía um novo cliente.
Ao gato, disse:
— Você não pode esperar até chegarm os à loj a? — O gato continuou a gem er. — Vou recarregá-lo, enquanto estam os a cam inho — decidiu. Baixou o cam inhão para o telhado disponível m ais próxim o e lá, tem porariam ente estacionado e com o m otor em funcionam ento, foi até o fundo do veículo, abriu a gaiola de transporte à prova de poeira, a qual, j untam ente com seu uniform e branco e o nom e do cam inhão, criavam a im pressão total de um verdadeiro veterinário apanhando um anim al de verdade.
O m ecanism o elétrico, dentro de sua pelagem cinzenta convincentem ente autêntica, gorgolej ou e expeliu bolhas, vidradas suas videolentes, as m andíbulas de m etal trancadas. Isto sem pre o deixara atônito, esses circuitos de "doença" instalados nos falsos anim ais. A peça que segurava nesse m om ento no colo fora construída de tal m aneira que, quando um com ponente básico enguiçava, a coisa toda parecia não quebrada, m as organicam ente doente. Ele teria m e enganado, pensou Isidore, enquanto tateava pela pele falsa do estôm ago, em busca do painel de controle oculto (bem pequeno nessa variedade de anim al artificial), além dos term inais da bateria de rápido carregam ento. Não encontrou nenhum dos dois. Tam pouco pôde procurar m uito tem po: o m ecanism o entrara quase em pane total. Se o defeito consiste de um curto, refletiu, que está queim ando todos os circuitos, então talvez o m elhor sej a soltar um dos cabos da bateria; o m ecanism o parará e nenhum outro m al será feito. E lá na loj a, Milt pode recarregá-lo.
Habilm ente, passou os dedos pela pseudo-espinha óssea. Os cabos deviam estar por ali. Um trabalho danado de perfeito, um a im itação absolutam ente perfeita. Os cabos não eram visíveis nem m esm o com a observação m ais cuidadosa. De ser um produto Wheelright & Carpenter — custam m ais, m as vej am só que bom trabalho fazem .
Desistiu. O falso gato deixara de funcionar, de m odo que evidentem ente o curto-circuito — se era isso o que fazia m al à coisa — acabara com o suprim ento de energia e o m ecanism o básico de propulsão. Isso vai custar um bocado de dinheiro, pensou, pessim ista. Bem , a coisa evidentem ente não passara pela lim peza e lubrificação trianual, o que fazia toda a diferença. Talvez isto ensine a seu dono — da pior m aneira.
Voltando para o assento do m otorista, colocou o volante em posição de subida, ganhou o ar m ais um a vez com um zum bido e reiniciou o vôo de volta à oficina de reparos.
De qualquer m odo, não ouvia m ais o chiado asm ático, de dar nos nervos, do falso gato. Podia relaxar. Engraçado, pensou, m esm o que eu saiba, racionalm ente, que é falso o som em itido por um falso anim al que queim a seu elem ento propulsor e ligações do suprim ento de energia, m eu estôm ago está revirado. Com o gostaria, pensou tristem ente, de conseguir outro em prego. Se não houvesse sido reprovado naquele teste de inteligência, não estaria reduzido a este trabalho ignom inioso, com os subprodutos em ocionais que o acom panham .
Por outro lado, os sofrim entos sintéticos dos falsos anim ais não incom odavam Milt Borogrove ou o chefe de am bos, Hannibal Sloat. Assim , talvez a culpa sej a m inha, disse a si m esm o. Talvez, quando um a pessoa se deteriora e retroage na escada da evolução, com o eu, quando m ergulha na fossa da sepultura do m undo sendo um especial, bem , é m elhor abandonar esta linha de indagação. Coisa algum a o deprim ia m ais do que os m om entos em que com parava seus atuais poderes m entais com os que antes possuíra. Todos os dias, declinava em sagacidade e vigor. Ele e m ilhares de outros especiais em toda a Terra, todos eles a cam inho do m onte de cinzas. Transform ando-se em entulho vivo.
Para arranj ar um a com panhia, ligou o rádio do cam inhão e sintonizou o program a de áudio de Buster Am igão, o qual, com o a versão de TV, continuava durante vinte e três ininterruptas e cálidas horas por dia... a hora restante sendo tom ada por um a despedida religiosa, dez m inutos de silêncio e recom eço religioso...
"— ... que prazer tê-la no program a outra vez — dizia Buster Am igão. — Vej am os, Am anda. Fazem dois dias inteiros desde que tivem os sua últim a visita. Com eçando algum novo film e, querida?"
"— Bem , eu ia fazer um film e ontem , m as, bem , eles queriam que eu com eçasse às sete..."
"— Sete da m anhã?" — interrom peu-a Buster Am igão.
"— Sim , isso m esm o, Buster, sete da m anhã!" — Am anda Werner soltou seu fam oso riso, quase tão im itado com o o de Buster. Am anda Werner e várias outras senhoras, belas, elegantes, de seios cônicos, originárias de países não especificados e vagam ente definidos, além de alguns cham ados hum oristas, constituíam o núcleo perpétuo da program ação de Buster. Mulheres com o Am anda Werner j am ais faziam film es, nunca apareciam em peças de teatro. Viviam vidas belas, refinadas, com o convidadas do program a interm inável de Buster, aparecendo, calculara Isidore certa vez, um as setenta horas por sem ana no vídeo.
Com o era que Buster Am igão encontrava tem po para gravar seus program as de áudio e vídeo?, perguntou-se Isidore. E com o era que Am anda arranj ava tem po para ser convidada dia sim , dia não, m ês após m ês, ano após ano? Com o era que continuavam a falar daquele j eito? Eles nunca se repetiam — não, tanto quanto podia saber. Suas observações, sem pre espirituosas, sem pre novas, não eram ensaiadas. O cabelo de Am anda brilhava, seus olhos faiscavam , seus dentes reluziam ; ela nunca pifava, nunca se cansava, nunca lhe faltava um a resposta inteligente para a torrente contínua de piadas, graçolas e agudas observações de Buster.
O Program a Buster Am igão, transm itido pelas ondas sonoras e pelo vídeo para toda a Terra, via satélite, cobria tam bém os im igrantes nos planetas-colônias. Transm issões experim entais, dirigidas para Próxim a Centauri, haviam sido tentadas, para o caso de a colonização hum ana chegar até aquela distância. Tivesse o Salander 3 chegado ao seu destino, os viaj antes teriam encontrado o Program a Buster Am igão à espera, e teriam ficado satisfeitos.
Mas havia algo em Buster Am igão que o irritava, um a coisa específica. De m odo sutil, quase ridicularizava as caixas de em patia. Não um a, m as m uitas vezes. Na verdade, fazia isso exatam ente naquele instante.
"—... nada de arranhões de pedras em m im " — disse ele a Am anda Werner. — "E, se vou subir a encosta de um a m ontanha, vou querer levar com igo um as duas garrafas de cervej a Budweiser!" — A platéia no estúdio bateu palm as e Isidore ouviu um borrifo de palm as isoladas. — "E m ostrarei, de lá de cim a, m inha denúncia cuidadosam ente docum entada... a denúncia que será feita dentro de exatam ente dez horas a partir de agora!"
"— Eu tam bém , querido!" — borbotou Am anda. — "Leve-m e com você! Vou com você e, quando atirarem um a pedra, eu o protej o." — Mais um a vez, a audiência uivou e John Isidore sentiu um a raiva confusa e im potente surgir em sua nuca. Por que seria que Buster Am igão dava sem pre essas tacadinhas no m ercerism o? Aparentem ente, ninguém se incom odava com isso. Até as Nações Unidas aprovavam isso. E não obstante, as polícias am ericana e soviética haviam declarado publicam ente que o m ercerism o reduzira a taxa de crim es, ao tocar os cidadãos m ais preocupados com as tributações de seus vizinhos. A hum anidade precisa de m ais em patia, declarara várias vezes Titus Corning, Secretário-Geral das Nações Unidas. Talvez Buster estej a com ciúm e, conj ecturou Isidore, Certo, isto explicaria a coisa: ele e Wilbur Mercer concorrem um com o outro. Mas pelo quê?
Nossas m entes, decidiu Isidore. Estão lutando pelo controle de nossos eus psíquicos: a caixa de em patia, de um lado, e as gargalhadas e as piadas im provisadas de Buster, do outro. Vou ter que dizer isso a Hannibal Sloat, resolveu. Perguntar se é verdade. Ele deve saber.
Logo que parou o cam inhão no telhado do Hospital Van Ness de Pequenos Anim ais, apanhou rapidam ente a gaiola plástica com o falso gato im óvel e desceu as escadas correndo para o escritório de Hannibal Sloat. No m om ento em que entrou, Sloat levantou os olhos de um a página de estoque de peças sobressalentes, seu rosto cinza e riscado de rugas trem endo com o águas agitadas. Velho dem ais para em igrar, Hannibal Sloat, em bora não fosse um especial, estava condenado a arrastar-se pelo resto de seus dias na Terra. A poeira, com o passar dos anos, havia-o corroído, encolhido seu corpo e lhe tornado as pernas finas com o as de um a aranha, o andar trôpego. Via o m undo através de óculos literalm ente enevoados pela poeira. Por algum a razão, Sloan j am ais lim pava os óculos. Era com o se houvesse desistido; aceitara a suj eira radiativa e ela iniciara seu trabalho, há m uito tem po, de sepultá-lo. E j á lhe turvava a vista. Nos poucos anos que lhe restavam , degenerariam seus outros sentidos, até que sobrasse apenas sua voz de ave e, em seguida, ela em udeceria tam bém .
— O que foi que você trouxe? — perguntou o Sr. Sloat.
— Um gato com um curto no suprim ento de força. — Isidore colocou a gaiola na escrivaninha coberta de docum entos do patrão.
— Por que o está m ostrando a m im ? — indagou Sloat.
— Leve-o para a oficina e entregue-o a Milt. — Contudo, pensativam ente, abriu a porta e deu um puxão no gato. Outrora, fora m ecânico. Um m ecânico m uito bom .
— Acho que Buster Am igão e o m ercerism o estão lutando pelo controle de nossas alm as psíquicas — disse Isidore.
— Se é assim — com entou Sloat, exam inando o gato, — Buster está ganhando.
— Está ganhando agora — afirm ou Isidore — m as, no fim , vai perder.
Sloat ergueu a cabeça e fitou-o.
— Por quê?
— Porque Wilbur Mercer renova-se sem pre. Ele é eterno. No alto da colina, ele é em purrado para baixo, Cai na sepultura do m undo, m as sem pre se levanta. E nós com ele. Assim , tam bém som os eternos. — Sentia-se bem , falando assim tão desem baraçado. Em geral, na presença de Sloat, gaguej ava.
— Buster é im ortal, com o Mercer. Não há diferença entre eles.
— Com o é que ele pode ser? Ele é um hom em .
— Não sei — reconheceu Sloat. — Mas é verdade. Mas eles nunca adm itiram isso, claro.
— É assim que Buster Am igão pode fazer quarenta e seis horas de program a por dia?
— Isso m esm o — concordou Sloat.
— E Am anda Werner e aquelas outras m ulheres?
— Elas são im ortais tam bém .
— Será que são um a form a de vida superior, vinda de outro sistem a?
— Eu nunca consegui aparar isso com certeza — disse Sloat, ainda exam inando o gato.
Nesse m om ento, tirou os óculos cobertos de pó, e olhou sem eles para a boca sem iaberta. — Com o apurei conclusivam ente no caso de Wilbur Mercer — term inou em voz quase inaudível. Soltou um a praga e, em seguida, um a série de palavrões que pareceu a Isidore durar um m inuto inteiro.
— Este gato — disse finalm ente Sloat — não é falso. Eu sabia que isto ia acontecer um dia. E ele está m orto. — Olhou fixam ente para o cadáver do gato. E soltou outro palavrão.
Usando seu suj o avental de pano azul grosso, o corpulento e sardento Milt Borogrove apareceu à porta do escritório.
— O que é que está havendo? — perguntou. Vendo o gato, entrou e levantou o anim al.
— O debilóide — disse Sloat — trouxe-o para cá. — Nunca, anteriorm ente, utilizara ele essa palavra em frente a Isidore.
— Se ainda estivesse vivo — disse Milt —, poderíam os levá-lo a um verdadeiro veterinário. Duvido que isto valha a pena. Alguém por aí tem um exem plar do Sidney 's?
— O s-s-seu s-s-eguro cobre isto? — perguntou Isidore a Sloat. Sob o corpo, suas pernas vacilaram e achou que a sala com eçava a tornar-se m arrom , pintalgada de pontos verdes.
— Cobre — respondeu Sloat finalm ente, m eio rosnando, — Mas é o desperdício que m e irrita. A perda de m ais um a criatura viva. Você não pôde ver, Isidore? Não notou a diferença?
— Eu pensei — conseguiu Isidore dizer — que fosse um trabalho realm ente bem -feito. Tão bem -feito que m e enganou. Quero dizer, parecia vivo e um trabalho tão bom assim ...
— Acho que Isidore não pôde ver a diferença — observou baixinho Milt. — Para ele, todos são vivos, falsos anim ais inclusive. Ele provavelm ente tentou salvá-lo. —
Virando-se para Isidore, disse: — O que foi que você tentou fazer, recarregar a bateria?
Ou localizar o curto?
— I-s-so m esm o — reconheceu Isidore.
— Ele provavelm ente estava tão doente que não teria feito a m ínim a diferença — com entou Milt. — Deixe em paz o debilóide, Han. Ele tem um bom argum ento: os falsos estão com eçando a parecer quase reais, principalm ente com esses circuitos de doença que estão instalando nos novos m odelos. E anim ais vivos, de fato, m orrem . Este é um dos riscos de possuí-los. Nós sim plesm ente não estam os acostum ados com isso, por que tudo o que vem os são os falsos.
— Que droga de desperdício — repetiu Sloat.
— De acordo com M-m ercer — observou Isidore —, t-toda vida retorna. O ciclo é c-cccom pleto tam bém para a-anim ais. Quero dizer, todos nós subim os com ele, m orrem os ...
— Diga isso ao cara que era dono deste gato — sugeriu Sloat. Sem saber bem se o patrão falava sério, Isidore perguntou :
— O senhor quer dizer que vou ter que fazer isso? Mas é o senhor que faz sem pre as videocham adas. — Tinha fobia aos videofones e, para ele, era virtualm ente im possível fazer um a cham ada, especialm ente no caso de estranhos. O Sr. Sloat, claro, sabia disso, tam bém .
— Não o obrigue a fazer isso — disse Milt. — Eu faço. — Estendeu a m ão para o aparelho. — Qual é o núm ero dele?
— Eu tenho o núm ero em algum lugar. — Isidore procurou nos bolsos de seu guardapó.
— Eu quero que o debilóide faça isso — disse Sloat.
— Eu n-n-não p-posso usar o videofone — protestou Isidore, o coração batendo-lhe com força. — Porque sou cabeludo, feio, suj o, encurvado, desdentado, e grisalho. Além disso, a radiação m e faz m al. Penso que vou m orrer.
Milt sorriu e disse a Sloat:
— Acho que se m e sentisse assim , tam bém não usaria o videofone. Vam os com isso, Isidore. Se não der o núm ero do dono, não vou poder telefonar e você terá que fazer isso. — Estendeu cordialm ente a m ão.
— O debilóide faz a cham ada — insistiu Sloat — ou está despedido. — Não olhou nem para Isidore nem para Milt, apenas fixam ente para a frente.
— Ora, vam os — protestou Milt.
— Eu n-n-não gosto de ser c-cham ado de debilóide. Quero dizer, a p-p-poeira tam bém f-fez um bocado com o senhor, fisicam ente. Em bora, talvez n-n-não ao seu cérebro, com o no m eu caso. — Estou dem itido, com preendeu. Não posso dar o telefonem a. De repente, lem brou-se de que o dono do gato partira em grande velocidade para o trabalho. Não haveria pessoa algum a em casa. — A-a-acho que posso telefonar para ele — disse, tirando finalm ente do bolso a etiqueta com a inform ação.
— Está vendo? — disse Sloat a Milt. — Ele pode, se tiver que dar o telefonem a. Sentado ao videofone, aparelho na m ão, Isidore discou.
— Isso m esm o — concordou Milt —, m as ele não devia ter que fazer isso. E ele tem razão. A poeira afetou-o. Você está quase cego e, dentro de uns dois anos, não vai m ais ouvir.
— E pegou você tam bém , Borogrove. Sua pele está da cor de bosta de cachorro.
Na videotela aparecera um rosto, um a m ulher de aparência bem -cuidada, m itteleuropaische, que usava os cabelos num coque apertado.
— Sim ? — disse ela.
— S-S-Sra. Pilsen? — perguntou Isidore, o terror percorrendo todo seu corpo. Não pensara nisso, naturalm ente, m as o dono tinha um a esposa que, naturalm ente, se encontrava em casa. — Eu queria lhe f-f-falar a respeito do seu g-g-gato. — Interrom peu-se e esfregou num tique nervoso o queixo. — Seu gato.
— Oh, sim , o senhor veio buscar Horace — disse a Sra. Pilsen, — É m esm o pneum onia? Foi isso o que o Sr. Pilsen pensou.
— Seu gato m orreu — disse Isidore.
— Oh, não, Deus no céu!
— Nós o substituirem os — disse ele. — Tem os seguro.
— Lançou um olhar ao Sr. Sloat, que pareceu de acordo.
— O proprietário de nossa firm a, o Sr. Hannibal Sloat — parou, à procura de palavras
— pessoalm ente...
— Não — disse Sloat — nós lhe darem os um cheque. No valor da lista de preços da Sidney 's.
—... pessoalm ente escolherá outro gato para substituí-lo — descobriu-se Isidore dizendo.
Tendo iniciado um a conversa que não podia suportar, verificava que não podia livrar-se dela. O que dizia possuía um a lógica intrínseca que não tinha m eios de deter, e que teria que ir forçosam ente até sua conclusão. Sloat e Milt Borogrove olharam -no fixam ente enquanto ele continuava:
— Dê-nos as especificações do gato que desej a. Cor, sexo, subtipo, tais com o Manx, Persa, Abissínio...
— Horace m orreu . — disse a Sra. Pilsen.
— Ele estava com pneum onia — explicou Isidore. — Morreu a cam inho do hospital. Nosso m édico-chefe, Dr. Hannibal Sloat, disse que no estado em que ele se encontrava, coisa algum a poderia tê-lo salvo. Mas, Sra. Pilsen, não é um a boa notícia a de que vam os substituí-lo? Certo?
Lágrim as enchendo-lhe os olhos, a Sra. Pilsen disse:
— Só havia um gato com o Horace. Ele costum ava, desde que era apenas um gatinho, olhar para a gente, com o se estivesse fazendo um a pergunta. Nunca com preendem os que pergunta era essa. Talvez, agora, ele saiba a resposta. — Novas lágrim as apareceram . — Acho que, no fim , todos nós descobrirem os.
Ocorreu um a inspiração a Isidore:
— Que tal um a duplicata elétrica exata de seu gato?
Podem os conseguir um soberbo serviço artesanal da Wheelright & Carpenter, no qual todos os detalhes do antigo anim al são fielm ente reproduzidos em perm anente...
— Oh, isso é horrível — protestou a Sra. Pilsen. — O que é que o senhor está dizendo?
Não diga isso a m eu m arido. Não sugira isso a Ed ou ele enlouquecerá. Ele am ava Horace m ais do que qualquer outro gato que j á teve, e teve gatos desde m enino. Tom ando o videofone de Isidore, Milt disse à m ulher:
— Podem os dar-lhe um cheque no valor listado na Sidney 's ou, com o sugeriu o Sr. Isidore, podem os escolher um novo gato para a senhora. Sentim os m uito a m orte de seu gato, m as, com o disse o Sr. Isidore, ele estava com pneum onia, um a doença quase sem pre fatal. — Continuou a falar em tom profissional.
Dos três ali no Hospital Van Ness de Pequenos Anim ais, Milt era o que se saía m elhor na questão de telefonem as de negócios.
— Eu não posso contar a m eu m arido — disse a Sra. Pilsen.
— Muito bem , m adam e — respondeu Milt e fez um a leve careta — nós telefonarem os para ele. Poderia m e dar o núm ero do trabalho dele? — Estendeu a m ão para pegar caneta e um bloco. Sloat passou-lhe os dois artigos.
— Escute aqui — disse a Sra. Pilsen. Parecia ter recobrado o ânim o. — Talvez o outro cavalheiro tenha razão. Talvez sej a bom eu encom endar um substituto elétrico de Horace, m as sem Ed j am ais saber. Poderia ser um a reprodução tão fiel que m eu m arido não notasse a diferença?
Em dúvida, Milt respondeu:
— Se é isso o que a senhora quer. Mas, segundo nossa experiência, o dono do anim al j am ais é enganado. Isto só acontece com observadores casuais, com o vizinhos. A senhora com preende, logo que se exam ina bem um anim al falso .
— Ed nunca se tornou fisicam ente íntim o de Horace, em bora o am asse, Era eu que cuidava de todas as necessidades pessoais de Horace, com o levá-lo à caixa de areia.
Acho que gostaria de tentar um sucedâneo e, se a coisa não desse certo, os senhores nos poderiam arranj ar um anim al autêntico para substituir Horace. Eu, sim plesm ente, não quero que m eu m arido saiba. Acho que ele não conseguiria sobreviver a essa perda. Foi por isso que ele nunca se aproxim ou m uito de Horace. Tinha m edo de aproxim ar-se. E quando Horace adoeceu — com pneum onia, com o o senhor disse —, Ed entrou em pânico e, sim plesm ente, não queria enfrentar a realidade. Foi por isso que esperam os tanto antes de cham ar os senhores. Dem orou dem ais, com o eu sabia, antes que vocês telefonassem , eu sabia. — Inclinou a cabeça, as lágrim as nesse instante sob controle. — Quanto tem po vai dem orar isso?
Milt fez um cálculo m ental:
— Podem os tê-lo pronto dentro de dez dias. Farem os a entrega durante o dia, enquanto seu m arido estiver no trabalho. — Encerrou a conversa, despediu-se, e desligou: — Ele vai saber — disse ao Sr, Sloat. — Dentro de cinco segundos. Mas se é isso o que ela quer...
— Donos que chegam a am ar seus anim ais — disse som brio o Sr. Sloat — ficam arrasados. Estou contente porque em geral não nos envolvem os com bichos de verdade.
Vocês com preendem que autênticos veterinários têm que dar telefonem as com o esse o tem po todo? — Olhou para John Isidore. — De algum as m aneiras, você não é tão estúpido, afinal de contas, Isidore. Você tratou do assunto razoavelm ente bem . Mesm o que Milt tivesse que intervir e tom ar a frente depois.
— Ele estava indo m uito bem . — disse Milt. — Deus, aquilo foi duro. — Apanhou o falecido Horace. — Vou levá-lo para a oficina. Han, telefone para a Wheelright & Carpenter e peça para m andar aqui o construtor deles, para m edir e fotografar o gato. Não vou deixar que o levem para a oficina deles. Eu m esm o quero com parar a réplica.
— Acho que vou m andar Isidore conversar com eles — decidiu o Sr. Sloat. — Foi ele quem com eçou isto. Deve poder tratar com a Wheelright & Carpenter depois de ter tratado com a Sra. Pilsen.
— Sim plesm ente, não deixe que eles levem o original — disse Milt a Isidore. Entregoulhe Horace. — Vão querer porque isso torna o trabalho deles m uito m ais fácil. Sej a firm e.
— H-h-hum m m — fez Isidore, pestanej ando. — Muito bem . Talvez sej a bom telefonar agora, antes que o corpo com ece a apodrecer. Corpos m ortos não apodrecem , ou coisas assim ? — Sentiu-se j ubiloso.