O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 23 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 22

 

RECOLOCOU O telefone no gancho e não m ais despregou os olhos do ponto que se m overa do lado de fora do carro. A corcova no chão, entre as pedras. Um anim al, disse a si m esm o. Seu coração bateu devagar, sob a carga excessiva, o choque do reconhecim ento. Eu sei o que é, com preendeu. Nunca vi um deles antes, m as conheço pelos film es que m ostravam , no canal do governo.

Eles estão extintos!, disse a si m esm o.

Rapidam ente, tirou do bolso o am arfanhado e m uito usado catálogo da Sidney 's e virou as páginas com m ãos trêm ulas.

SAPO (Bufonidae), todas as variedades.

Extinto há anos. A criatura m ais preciosa para Wilbur Mercer, j untam ente com o j um ento. Mas, sapos, acim a de todas.

Preciso de um a caixa. Girou sobre si m esm o com dificuldade, coisa algum a viu no assento traseiro do hovercar; saltou, correu até a m ala, girou a fechadura, abriu-a. Encontrou um recipiente de papelão, dentro dele um a bom ba de com bustível sobressalente para o carro. Despej ou a bom ba, encontrou um pouco de estopa grossa e dirigiu-se em passos lentos para o sapo. Sem tirar os olhos dele.

O sapo, notou, com binava inteiram ente com a textura e tonalidade da poeira sem pre presente. Evoluíra, talvez, enfrentando o novo clim a, com o enfrentara antes todos os clim as. Se não se houvesse m ovido, j am ais tê-lo-ia visto. Ainda assim , estivera sentado a não m ais de m etro e m eio dele.

O que acontece quando a gente encontra — se encontra — um anim al que se j ulga extinto?, perguntou a si m esm o, tentando lem brar-se.

Isso acontecia tão raram ente. Havia algum a coisa sobre um a estrela de honra dada pelas Nações Unidas e um a som a em dinheiro. Um a recom pensa que chegava a m ilhões de dólares.

E, dentre todas as possibilidades — encontrar a criatura m ais sagrada para Mercer. Jesus, pensou, não pode ser.

Talvez isto se deva ao dano cerebral em m im : exposição à radiatividade. Eu sou um especial, pensou. Algum a coisa m e aconteceu. Com o o debilóide Isidore e sua aranha. O que aconteceu a ele está m e acontecendo. Será que foi Mercer quem providenciou isto?

Mas eu sou Mercer. Eu arranj ei isto, eu descobri o sapo. Encontrei-o por que vej o através dos olhos de Mercer.

Acocorou-se bem perto do sapo.

O anim al em purrara para o lado a poeira, a fim de fazer um buraco parcial para si m esm o, afastara a poeira com a anca, de m odo que só a parte superior de seu crânio chato e seus olhos proj etavam -se acim a do chão.

Entrem entes, seu m etabolism o reduziu-se quase à paralisação total, o anim al entrou em transe. Nos olhos não havia fagulha, nem percepção de sua presença e, horrorizado, pensou: ele está m orto, de sede, talvez. Mas se m overa.

Pondo de lado a caixa de papelão, cuidadosam ente com eçou a afastar a areia frouxa para longe do sapo. O bicho não pareceu obj etar, m as, claro, ele não tinha consciência de sua existência.

Ao erguer o sapo, sentiu-lhe a frieza peculiar; em suas m ãos, o corpo do anim al parecia seco e enrugado — quase m ole — e tão frio com o se houvesse fixado residência em um a caverna sob a terra, a quilôm etros do sol.

Naquele m om ento, o sapo se m exeu; com suas fracas pernas traseiras, tentou livrar-se de sua em punhadura, querendo, instintivam ente, afastar-se aos saltos.

Um bichão, pensou Rick. Adulto e sábio. Capaz, à sua m aneira, de sobreviver m esm o àquilo a que não estam os realm ente conseguindo sobreviver. Gostaria de saber onde ele encontra água para seus ovos.

Então, é isto o que Mercer vê, pensou, enquanto laboriosam ente fechava a caixa, am arrando-a repetidas vezes. Vida que não podem os m ais distinguir; vida cuidadosam ente enterrada até a testa na carcaça de um m undo m orto. Em cada brasa extinta do universo, Mercer provavelm ente percebe vida que ninguém nota. Agora eu sei, pensou. E tendo um a vez visto através dos olhos de Mercer, provavelm ente j am ais pararei. E andróide nenhum , pensou, cortará as pernas deste anim al. Com o fizeram com a aranha do debilóide.

Com todo o cuidado, colocou a caixa am arrada no assento do carro e sentou-se ao volante.

É com o ser criança outra vez, pensou.

Nesse m om ento, todo o peso o deixara, e a fadiga m onum ental, opressiva. Espere só até que Iran ouça isto.

Agarrou o aparelho e com eçou a discar. Depois, parou.

Vou fazer disto um a surpresa, concluiu.

Vai ser um vôo de apenas trinta ou quarenta m inutos para voltar para lá. Ansioso, ligou o m otor e, logo depois, cortava o céu em direção a São Francisco, a m il e duzentos quilôm etros ao sul.

No órgão condicionador Penfield, Iran Deckard estava sentada com o indicador da m ão direita tocando o m ostrador num erado. Mas não discou. Sentia-se inquieta e doente dem ais para fazer algum a coisa: um fardo que excluía o futuro e quaisquer possibilidades que ele poderia algum dia ter contido.

Se Rick estivesse aqui, pensou, ele m e faria discar 3, e assim eu m e descobriria querendo discar algum a coisa im portante, fervilhante de alegria ou, se não isso, então possivelm ente um 888, o desej o de assistir à televisão, qualquer que fosse o program a. O que será que estão m ostrando? pensou.

Em seguida, pensou aonde teria ido Rick. Ele pode estar de volta e, por outro lado, pode não estar, disse a si m esm a, e sentiu os ossos dentro do corpo se encolherem de velhice. Um a batida à porta do apartam ento.

Pondo de lado o m anual Penfield, levantou-se de um salto, pensando: não preciso discar agora Já tenho o que quero...se for Rick.

Correu para a porta e abriu-a de par em par.

— Hei — disse ele.

Ali estava, um corte no rosto, as roupas am arrotadas e cinzentas, m esm o o cabelo saturado de poeira. As m ãos, a face. .. a poeira colava-se a todas as partes de seu corpo; exceto aos olhos. Arredondados de espanto, seus olhos brilhavam com o os de um m enino.

Ele parece, pensou ela, com o se tivesse estado brincando e chegou o m om ento de voltar para casa. Descansar, tom ar um banho e contar tudo sobre os m ilagres do dia.

— Que bom ver você — disse ela.

— Eu tenho um a coisa para lhe m ostrar. — Trazia e segurava com as duas m ãos um a caixa de papelão. Quando entrou, não a depositou em lugar algum . Com o se, pensou ela, a caixa contivesse algo frágil e valioso dem ais para soltar. Queria guardá-la eternam ente em suas m ãos.

— Vou-lhe preparar um a xícara de café.

No fogão, apertou o botão de café e, um m om ento depois, colocava um a im ponente caneca ao lado dele na m esa da cozinha.

Segurando ainda a caixa, ele sentou-se e em seu rosto perm anecia o olhar esbugalhado. Em todos os anos que o conhecia, j am ais vira aquela expressão em seu rosto!

Algo acontecera desde que o vira pela últim a vez, desde que, na noite passada, ele saíra no carro. Agora, voltara e com ele essa caixa.

Na caixa, estava tudo o que lhe acontecera.

— Vou dorm ir — disse ele. — O dia inteiro. Telefonei e consegui falar com Harry Bry ant. Ele m e disse para tirar o dia de folga e descansar. Que é exatam ente o que vou fazer.

Com todo o cuidado, pôs a caixa sobre a m esa e apanhou a caneca. Obediente, porque ela queria que fizesse isso, bebeu o café.

Sentada em frente a ele, ela perguntou:

— O que é que você tem aí nessa caixa, Rick?

— Um sapo.

— Posso vê-lo? — Ficou observando até que ele desam arrou a caixa e retirou a tam pa.

— Oh! — disse, vendo-o.

Por algum a razão, o bicho assustou-a. — Ele m orde? — perguntou.

— Pegue-o. Ele não m orde. Sapos não têm dentes.

Tirou o sapo da caixa e estendeu-o a ela. Suprim indo a aversão, ela pegou-o.

— Eu pensei que os sapos estivessem extintos — disse, virando-o, curiosa, sobre suas pernas. Pareciam quase inúteis. — Sapos podem saltar, com o rãs? Quero dizer, este pode saltar subitam ente de m inhas m ãos?

— As pernas de sapos são fracas — explicou Rick. — Esta é a principal diferença entre um sapo e um a rã, essa e a água. A rã perm anece perto da água, m as um sapo pode viver num deserto. Encontrei este no deserto, perto da fronteira de Oregon. Onde tudo m ais m orreu.

Esticou a m ão para tom á-lo de volta. Mas ela descobriu algum a coisa. Ainda segurando-o de cabeça para baixo, m exeu no abdôm en e, em seguida, com a unha, localizou o m inúsculo painel de controle. Com um estalido, abriu-o.

— Oh! — A expressão do rosto dele desm oronou aos poucos. — Isso m esm o, agora estou com preendendo. Você tem razão.

Crista baixa, olhou m udam ente para o falso anim al. Tom ou-o dela e m exeu-lhe nas pernas, com o se confuso — não parecia entender inteiram ente. Em seguida, com todo o cuidado, colocou-o na caixa.

— Eu gostaria de saber com o foi que ele conseguiu chegar a um a parte tão desolada da Califórnia com o aquela. Não há m aneira de saber para quê.

— Talvez eu não devesse ter-lhe dito... que ele é elétrico. — Espichou a m ão, tocou-lhe o braço. Sentia-se culpada, vendo o efeito que aquilo produzira nele, a m udança.

— Não — disse Rick —, estou satisfeito em saber. Ou m elhor. .. — Ficou silencioso.

— Eu preferiria saber.

— Quer usar o condicionador de estado de espírito? Sentir-se m elhor? Você sem pre tirou m ais dele, m ais do que eu, sem pre.

— Eu vou ficar bem .

Sacudiu a cabeça, com o se tentasse clareá-la, ainda confuso. A aranha que Mercer deu ao debilóide, Isidore, provavelm ente tam bém era artificial. Mas isto não im porta. As coisas elétricas tam bém têm suas vidas. Insignificantes com o essas vidas são.

— Você parece com o se tivesse andado centenas de quilôm etros.

— Foi um dia longo — concordou ele, abaixando a cabeça.

— Deite-se na cam a e durm a!

Ele fitou-a e, em seguida, com o se perplexo:

— Acabou, não? — Confiante, pareceu esperar que ela lhe dissesse, com o se ela soubesse. Com o se ouvir a si m esm o dizer isso nada significasse. Tinha um a atitude dúbia em relação às suas próprias palavras; elas não se tornavam reais até que ela concordasse.

— Acabou — disse ela.

— Deus, que m issão gigantesca — disse Rick. — Logo que com ecei, não houve m ais para m im m aneira de parar. Ela continuou a m e levar, até que finalm ente peguei os Baty s e então, de repente, não tive m ais coisa algum a para fazer. E aquilo. .. — Hesitou, evidentem ente atônito com o que com eçara a dizer. — Aquela parte foi pior. Depois que term inei o serviço. Não podia parar porque nada m ais haveria, depois que eu parasse. Você teve razão esta m anhã quando disse que eu nada m ais sou senão um policial grosseiro, com m ãos grosseiras.

— Eu não acho m ais isso — retrucou ela. — Estou sim plesm ente feliz dem ais em tê-lo de volta em casa, que é o seu lugar. — Beij ou-o e isto pareceu agradá-lo. O seu rosto se anim ou, quase tanto quanto antes — antes dela ter-lhe m ostrado que o sapo era elétrico.

— Você acha que eu agi m al? — perguntou ele. — Pelo que fiz hoj e?

— Não.

— Mercer disse que era errado, m as que devia fazê-lo, de qualquer m aneira. Um a coisa realm ente esquisita. Às vezes, é m elhor fazer um a coisa m á do que certa.

— É a m aldição que caiu sobre nós — disse Iran. — Aquela de que fala Mercer.

— A poeira? — perguntou ele.

— Os assassinos que encontraram Mercer no seu décim o sexto ano, quando lhe disseram que ele não podia inverter o tem po e trazer de volta as coisas à vida. De m odo que, agora; tudo o que ele pode fazer é continuar com a vida, indo aonde ela vai, para a m orte. E os assassinos atiram pedras. São eles que fazem isso. Ainda perseguindo-o. E a todos nós, na verdade. Foi um deles que cortou seu rosto, aí onde está sangrando?

— Foi — disse ele fracam ente.

— Você vai para a cam a agora? Se eu sintonizar o órgão para um am biente 670?

— O que é que isso produz? — perguntou ele.

— Um a longa e m erecida paz — respondeu Iran.

Ele levantou-se dolorosam ente, o rosto sonolento e confuso, com o se um sem -núm ero de batalhas houvessem sido travadas nele, durante m uitos anos. Em seguida, devagar, tom ou o cam inho do quarto de dorm ir.

— Muito bem — concordou. — Um a longa e m erecida paz.

Estirou-se na cam a, a poeira despregando-se de suas roupas e cabelos nos lençóis brancos. Não havia necessidade de ligar o órgão, com preendeu Iran, apertando o botão que tornava opacas as j anelas do quarto. Desaparecera a luz cinzenta do dia. Na cam a, após um m om ento, Rick adorm eceu.

Ela perm aneceu ali durante algum tem po, olhando-o para ter certeza de que ele não acordaria, não se sentaria, de m edo, com o às vezes fazia durante a noite. Em seguida, voltou à cozinha e se sentou m ais um a vez à m esa.

Junto a ela o sapo elétrico batia e arranhava em sua caixa. Perguntou-se o que seria que ele "com ia" e quanto custariam consertos seus. Moscas artificiais, decidiu. Abrindo o catálogo telefônico, procurou nas páginas am arelas sob acessórios para anim ais elétricos„ Discou, e quando o vendedor respondeu, disse:

— Eu gostaria de encom endar m eio quilo de m oscas artificiais que sej am capazes de voar e zum bir, por favor.

— É para um a tartaruga elétrica, m adam e?

— Um sapo — disse ela.

— Neste caso sugiro nosso sortim ento m isto de insetos artificiais rastej adores e voadores de todos os tipos, incluindo...

— As m oscas serão suficientes — disse Iran. — Quando poderá entregá-las? Eu não quero deixar o apartam ento. Meu m arido está dorm indo e quero ter certeza de que tudo vai correr bem com ele.

— Para um sapo — disse o em pregado — eu sugeriria tam bém um a poça perpetuam ente renovável, a m enos que ele sej a um sapo chifrudo, caso em que há um kit contendo areia, seixos m ulticoloridos, e pedaços de restos orgânicos. E se vai colocá-lo regularm ente através de seu ciclo de alim entação, sugiro que deixe nosso departam ento de serviços fazer um aj ustam ento periódico de língua. Num sapo, isto vital.

— Ótim o — concordou Iran. — Quero que ele funcione perfeitam ente. Meu m arido gosta m uito dele.

Deu o endereço e desligou.

E sentindo-se m elhor, preparou finalm ente para si m esm a um a xícara de café forte e quente.

 

FIM.

Table of Contents

APRESENTAÇÃO

CAPÍTULO 1

CAPÍTULO 2

CAPÍTULO 3

CAPÍTULO 4

CAPÍTULO 5

CAPÍTULO 6

CAPÍTULO 7

CAPÍTULO 8

CAPÍTULO 9

CAPÍTULO 10

CAPÍTULO 11

CAPÍTULO 12

CAPÍTULO 13

CAPÍTULO 14

CAPÍTULO 15

CAPÍTULO 16

CAPÍTULO 17

CAPÍTULO 18

CAPÍTULO 19

CAPÍTULO 20

CAPÍTULO 21

CAPÍTULO 22

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