O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 14 de 23

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O Caçador de Androides

Capítulo 13

 

COMO UM ARCO de fogo puro, John R. Isidore cruzou o céu de final da tarde a cam inho de casa, term inado seu dia de trabalho. Será que ela ainda está lá? pensou.

Lá naquele velho apartam ento cheio de entulho, assistindo ao program a de Buster Am igão na TV, trem endo de m edo toda vez que im agina que alguém vem pelo corredor. Incluindo, acho, eu m esm o.

Parara antes num arm azém de secos e m olhados do m ercado negro. No assento ao seu lado, balançava para a frente e para trás um a sacola na qual havia guloseim as com o pasta de feij ão de soj a, pêssegos m aduros e um bom e m acio queij o de cheiro forte, enquanto ele, alternativam ente, acelerava e reduzia a velocidade do carro.

Tenso naquela noite, dirigia algo erraticam ente. E seu supostam ente consertado carro tossia e rateava, com o andara fazendo durante m eses, antes da revisão. Safados, pensou Isidore.

O cheiro dos pêssegos e do queij o saturava o carro, enchendo-lhe as narinas de prazer. Só raridades, pelas quais desperdiçara o salário de duas sem anas — tom ado por conta ao Sr. Sloat. E, além disso, sob o assento, onde não podia rolar ou quebrar, um a garrafa de vinho Chablis oscilava de um lado para o outro: a m aior de todas as raridades!

Guardara-a num cofre de segurança no Bank of Am erica, conservando-a com o um tesouro, recusando-se a vendê-la por m ais que lhe oferecessem , para o caso de, em algum distante, tardio, últim o m om ento, aparecer um a m ulher. Isto não acontecera, não até este m om ento.

Com o sem pre, o telhado m orto, j uncado de lixo de seu prédio de apartam entos deprim iu-o. Indo do carro até a porta do elevador, reduziu sua visão periférica: concentrou-se no valioso saco e na garrafa que levava, tom ando todo o cuidado para não tropeçar num entulho qualquer e esborrachar-se num a ignom iniosa ruína econôm ica. Ao chegar o elevador, rangendo, entrou e apertou o botão — não do seu andar — m as do andar m ais baixo, onde naquele m om ento residia a nova m oradora, Pris Stratton. Logo depois, estava à frente da porta dela, batendo com a borda da garrafa, seu coração despedaçando-se dentro do peito.

— Quem é? — perguntou um a voz, abafada pela porta, m as ainda clara. Um tom am edrontado, m as afiado com o um a lâm ina.

— Sou eu, J. R. Isidore — respondeu vivam ente, adotando a nova autoridade que tão recentem ente adquirira graças ao videofone do Sr. Sloat. — Trouxe algum as coisas boas e acho que podem os fazer um j antar m ais do que razoável.

A porta foi aberta, até certo ponto. Pris, luz algum a na sala às suas costas, olhou para o corredor às escuras.

— Você parece diferente — com entou ela. — Mais adulto.

— Nós tivem os algum as questões de rotina a tratar durante o expediente, hoj e. O habitual. Se você m e d-d-deixasse entrar...

— Você falaria sobre elas. — Não obstante, abriu a porta o suficiente para que ele entrasse. Em seguida, vendo o que ele trazia, soltou um a exclam ação, sua face ilum inada por um exuberante j úbilo de elfo.

Mas, quase no m esm o instante, sem aviso algum , um a am argura letal cobriu-lhe a face, acom odou-se nela com o se fosse concreto. O j úbilo desaparecera.

— O que é? — perguntou ele.

Colocou o em brulho e a garrafa na cozinha e voltou apressado para a sala. Num a voz sem expressão, Pris respondeu:

— Para m im são um desperdício.

— Por quê?

— Oh... — Encolheu os om bros, afastou-se, sem direção fixa, as m ãos profundam ente enterradas nos bolsos da saia pesada, um tanto antiquada. — Algum dia, eu lhe direi. —

Ergueu a vista. — De qualquer m odo, foi m uita bondade sua. Agora, gostaria que fosse em bora. Não sinto vontade de conversar com ninguém . — De m odo vago, dirigiu-se para a porta que dava para o corredor. Arrastando os pés; parecia esgotada, sua reserva de energia quase extinta.

— Eu sei o que é que há com você — disse ele.

— Oh? — A voz dela, quando reabriu a porta do corredor, caiu ainda m ais para um tom desalentado, abatido, estéril.

— Você não tem am igos. Você está m uito pior do que quando a vi esta m anhã.Acontece isto porque...

— Eu tenho am igos. — Um a autoridade inesperada endureceu-lhe a voz e, palpavelm ente, ela recuperou forças. — Ou tinha. Sete deles. Isso era para com eçar, m as agora os caçadores de cabeças j á tiveram tem po de trabalhar. Assim , alguns deles, talvez todos, estão m ortos. — Foi devagar até a j anela, olhou para a escuridão e para as poucas luzes, aqui e ali. — Eu talvez sej a a única dos oito que sobrou. Assim , você talvez tenha razão.

— O que é um caçador de cabeças?

— Pessoas com o você não devem saber. Um caçador de cabeças é um assassino profissional, a quem se fornece um a lista de pessoas que deve m atar. Ele recebe um a som a — m il dólares é a taxa atual, segundo sei — por cabeça que elim ina. Geralm ente, ele tem tam bém contrato com a m unicipalidade e recebe um salário. Mas o m antêm baixo para que ele sinta incentivo.

— Tem certeza? — perguntou Isidore.

— Tenho. — Inclinou a cabeça. — Você quer dizer, se tenho certeza do incentivo? Sim , ele tem um incentivo. Ele gosta de fazer isso.

— Eu acho — retrucou Isidore — que você está enganada. — Nunca, em toda sua vida, ouvira falar em tal coisa. Buster Am igão, por exem plo, j am ais a m encionara. — Isso não está de acordo com a atual ética m erceriana — observou ele. — Toda a vida é um a: "hom em algum é um a ilha", com o disse Shakespeare nos velhos tem pos.

— John Donne.

Isidore gesticulou, agitado.

— Isso é a pior coisa que ouvi até hoj e. Você não podia cham ar a polícia?

— Não.

— E eles estão atrás de você? É possível que eles venham aqui e m atem você? — Com preendia, nesse m om ento, porque a m oça agia de form a tão furtiva. — Não é de espantar que você estej a com m edo e não queira falar com pessoa algum a. — Mas, pensou, isso deve ser um a desilusão. A m oça deve ser psicótica. Com m ania de perseguição. Talvez devido a dano cerebral provocado pela poeira. Talvez sej a um a especial. — Antes disso, eu pego eles — prom eteu.

— Com o quê? — Levem ente ela sorriu, m ostrando dentes pequeninos, regulares, brancos.

— Vou pedir licença para portar um tubo de laser. É fácil de conseguir, por aqui, onde não há quase ninguém . A polícia não faz ronda... A pessoa deve cuidar de si m esm a.

— E quando você estiver no trabalho?

— Eu peço um a licença.

— Isso é m uita bondade sua, J. R. Isidore — disse Pris. — Mas se os caçadores de cabeças pegaram Max Polokov, Garland, Luba, Hasking e Roy Baty... — Interrom peuse por um m om ento. — Roy e Irm gard Baty. Se estão m ortos, então nada m ais realm ente im porta. São m eus m elhores am igos. Por que diabos não tenho notícias deles? — praguej ou, zangada.

Indo até a cozinha, Isidore apanhou pratos, terrinas e copos em poeirados, há m uito tem po sem uso. Antes de com eçar a lavá-los, deixou correr, até clarear, a água quente enferruj ada. Logo depois, Pris apareceu, sentou-se à m esa. Isidore abriu a garrafa de Chablis e dividiu os pêssegos, o queij o e a pasta de feij ão.

— O que é essa coisa branca aí? Não o queij o — disse ela, apontando.

— É feita de feij ão de soj a. Eu gostaria de ter um pouco... — Interrom peu-se, enrubescendo. — Antigam ente, era com ido com caldo de carne.

— Um andróide... — m urm urou para si m esm a Pris.

— Este é o tipo de lapso que um andróide com ete. É isto o que os desm ascara.

Aproxim ou-se, parou ao seu lado e, em seguida, para sua com pleta certeza enlaçou-o pela cintura e, por um instante, apertou-o. — Vou experim entar um a fatia de pêssego — disse ela e, com todo o cuidado, apanhou um a escorregadia fatia rosa-alaranj ada, sedosa, com seus longos dedos. Mas, quando com eu a fatia, com eçou a chorar.

Lágrim as frias desceram -lhe pelo rosto e m olharam o peito do vestido. Isidore não sabia o que fazer, de m odo que continuou a dividir a com ida. — Droga — disse ela, furiosa.

— Bem ... — Afastou-se dele e andou de um lado para o outro, vagarosam ente, em passos m edidos, em volta da sala. — ... com preenda, nós vivíam os em Marte. É por esse m otivo que conheço andróides. — A voz dela trem ia, m as ela conseguiu continuar. Obviam ente, significava m uito para ela ter alguém com quem falar.

— E as únicas pessoas na Terra que você conhece — disse Isidore — são seus com panheiros ex-em igrantes.

— Nós nos conhecíam os de antes da viagem . De um a colônia próxim a a Nova Nova York. Roy Baty e Irm gard tinham um a farm ácia. Ele era farm acêutico e ela cuidava dos cosm éticos, crem es, ungüentos. Em Marte, as pessoas usam um bocado de preparados para a pele. Eu... — Hesitou. — Eu com prei várias drogas de Roy... Eu precisava delas no princípio, porque... bem , de qualquer m odo, aquilo é um lugar horrível. Isto — com um único e violento gesto varreu a sala, o apartam ento — isto nada é. Você pensa que estou sofrendo porque m e sinto solitária. Droga, Marte toda é solitária. Muito pior do que isto aqui.

— Os andróides não fazem com panhia a vocês? Eu ouvi um com ercial sobre... — Sentando-se, com eçou a com er. Ela, tam bém , apanhou um copo de vinho e bebeu, sua fisionom ia sem expressão. — Eu entendi que os andróides aj udavam .

— Os andróides tam bém se sentem solitários — disse ela.

— Gostou do vinho?

Ela pôs o copo na m esa.

— É bom .

— É a prim eira garrafa que vej o em três anos.

— Nós voltam os — disse Pris — porque ninguém deve ser obrigado a m orar lá. O planeta não foi concebido para ser habitado, pelo m enos não no últim o bilhão de anos. Ele é tão velho. A gente sente isso nas pedras, a terrível antiguidade. De qualquer m odo, no princípio, consegui drogas com Roy. Eu vivia para aquele novo analgésico sintético, a silenizina. E então conheci Horst Hartm an, que tinha um a loj a de filatelia, de selos raros do correio. Lá a gente tem tanto tem po que é obrigada a escolher um hobby, algum a coisa a que possam os nos dedicar interm inavelm ente. E Horst despertou m eu interesse pela ficção pré-colonial.

— Você quer dizer velhos livros?

— Histórias escritas sobre viagens espaciais, m as antes das viagens espaciais.

— Com o era que podia haver histórias sobre viagens espaciais antes...

— Os autores — explicou Pris — inventavam essas histórias.

— Baseados em quê?

— Em im aginação. Verificou-se depois que m uitas delas estavam totalm ente erradas. Por exem plo, escreviam sobre Vênus com o se fosse um paraíso selvagem , com m onstros enorm es e m ulheres usando peitorais faiscantes. — Olhou-o, atenta. — Isto o interessa? Mulheres grandalhonas com longos cabelos louros am arrados em tranças e peitorais faiscantes, do tam anho de m elões?

— Não — retrucou ele.

— Irm gard é loura — disse Pris — m as baixinha. De qualquer m odo, pode-se ganhar um a fortuna contrabandeando ficção pré-colonial, velhas revistas, livros e film es para Marte. Nada é tão excitante com o isso. Oh, ler sobre cidades e enorm es em presas industriais e colonização realm ente bem -sucedida. Você pode im aginar o que poderia ter sido. O que Marte devia ser. Canais.

— Canais? — Obscuram ente, lem brou-se de ter lido algum a coisa sobre o assunto. Nos velhos dias, acreditava-se que havia canais em Marte.

— Cruzando o planeta todo — continuou Pris. — E seres vindos das estrelas. Com sabedoria infinita. E histórias sobre a Terra, com cenário em nosso tem po e m esm o depois. Onde não há poeira radiativa.

— Eu pensaria — disse Isidore — que isto faria as pessoas se sentirem ainda piores.

— Não faz — respondeu seca Pris.

— Você trouxe consigo algum a coisa desse m aterial de leitura pré-colonial? — Ocorreu-lhe que devia experim entar um pouco disso.

— Não vale nada aqui porque na Terra a m oda nunca pegou. De qualquer m odo, por aqui há bastante, nas bibliotecas. É onde conseguim os todo o nosso... roubado de bibliotecas aqui na Terra e enviado por foguete autom ático a Marte. A gente está bobeando pelos espaços vazios à noite quando, de repente, vem os um clarão, e lá está um foguete, rachado, e velhas revistas de ficção pré-coloniais derram ando-se por toda parte. Um a fortuna. Mas, claro, a gente as lê antes de vendê-las. — O assunto com eçou a entusiasm á-la. — Entre todos...

Nesse m om ento, um a batida à porta que dava para o corredor, Lívida, Pris m urm urou:

— Não posso atender. Não faça nenhum barulho. Sim plesm ente fique sentado aí. — Fez força para escutar. — Será que a porta está fechada à chave — disse em voz quase inaudível. — Deus, tom ara que estej a. — Seus olhos, alucinados e poderosos, fixaram se im plorantes nele, com o se rezando para que ele transform asse aquilo em verdade. Um a voz distante cham ou do corredor:

— Pris, você está aí?

Um a voz de hom em :

— Som os nós, Roy e Irm gard. Recebem os seu cartão.

Levantando-se e indo até o quarto, Pris reapareceu logo depois, trazendo um a caneta e um pedaço de papel Voltou a sentar-se e rabiscou um a apressada m ensagem : VÁ ATÉ A PORTA.

Nervoso, Isidore tom ou-lhe a caneta e escreveu:

E DIGO O QUÊ?

Com raiva, Pris escreveu:

VEJA SE SÃO REALMENTE ELES.

Levantando-se, entrou som brio na sala de estar. Com o é que eu sei se são eles ? perguntou a si m esm o. Abriu a porta.

No corredor escuro havia duas pessoas, um a m ulher pequenina, bonita à m aneira de Greta Garbo, com olhos azuis e cabelos louros; e um hom em , m ais alto, com olhos inteligentes, m as sem expressão, e feições m ongóis que lhe davam um aspecto brutal. A m ulher usava um casaco na m oda, botas lustrosas de cano alto, e calça com prida afilando nos tornozelos; o hom em vestia cam isa am arrotada e calças m anchadas, o que lhe dava um ar de vulgaridade quase proposital. Ele sorriu para Isidore, m as seus olhos brilhantes e pequeninos perm aneceram evasivos.

— Nós estam os procurando... — com eçou a loura baixa, m as, nesse m om ento, seus olhos ultrapassaram a figura de Isidore, suas feições se dissolveram em enlevo e ela passou rápida por ele, gritando:

— Pris! Com o vai?

Isidore virou-se. As duas m ulheres se abraçavam nesse m om ento. Deu um passo para o lado e Roy Baty entrou, som brio e grande, sorrindo seu sorriso torto e m udo.