O Caçador de Androides

Philip K. Dick · Capítulo 7 de 23

Páginas do PDF

O Caçador de Androides

Capítulo 6

 

O APARELHO de TV berrava. Descendo os degraus cobertos de poeira do grande prédio de apartam entos para o nível em baixo, John Isidore identificou, nesse m om ento, a voz conhecida de Buster Am igão, borbotando, feliz, para sua audiência, que cobria todo o sistem a.

"—... hei, hei, pessoal! Hora para um a curta notícia sobre o tem po am anhã. Em prim eiro lugar, a costa leste dos Estados Unidos. O satélite Mangusto inform a que a precipitação será especialm ente pronunciada perto do m eio-dia e que, em seguida, desaparecerá. Assim , vocês todos, queridos am igos, que estavam pensando em sair, devem esperar até a tarde, hem ? E por falar em esperar, faltam agora apenas dez horas para aquela grande notícia, m inha denúncia especial! Digam a seus am igos para assistir! Vou revelar um a coisa que os deixará tontos. Bem , vocês podem pensar que é apenas o habitual..." No m om ento em que Isidore bateu à porta do apartam ento, a televisão m orreu im ediatam ente, caindo na inexistência. Não silenciara sim plesm ente, deixara de existir, assustada, de volta à sua cova pela batida à porta.

Ele sentiu, por trás da porta fechada, a presença de vida, além daquela da TV. Fazendo um esforço, suas faculdades fabricaram ou captaram um m edo obcecado, m udo, de parte de alguém que se retirava para longe dele, alguém lançado para a parede m ais distante do apartam ento num a tentativa para evitá-lo.

— Hei — cham ou. — Eu m oro lá em cim a. Ouvi sua TV. Vam os nos conhecer. Certo?

— Esperou, à escuta. Nenhum som , nenhum m ovim ento. Suas palavras não haviam conseguido relaxar a pessoa. — Eu lhe trouxe um cubo de m argarina — insistiu, m ais perto da porta, num esforço para penetrar-lhe a espessura. — Meu nom e é J. R. Isidore e trabalho para o conhecido veterinário, Sr. Hannibal Sloat. Você deve ter ouvido falar nele. Sou um a pessoa séria, tenho em prego. Eu guio o cam inhão do Sr. Sloat. A porta foi aberta um pouco e ele viu, dentro do apartam ento, um a figura fragm entada, m al alinhada, se contraindo toda, um a m oça que se encolheu e procurou afastar-se, m as, ainda assim , segurando a porta, com o se precisasse de um apoio físico. O m edo fazia-a parecer doente, distorcia-lhe as linhas do corpo, e ela dava um a im pressão com o se alguém a houvesse quebrado toda e depois, m aliciosam ente, a tivesse consertado m al. Os olhos dela, enorm es, olhavam -no, vidrados, fixos, enquanto ela fazia um esforço para sorrir.

Com um a súbita com preensão, ele disse:

— Você achou que ninguém vivia neste prédio. Pensou que estivesse abandonado. Inclinando a cabeça, a m oça m urm urou:

— Sim .

— Mas — disse Isidore — é bom ter vizinhos. Diabo, até que você aparecesse, eu não tinha vizinho nenhum . — E isso não era nada divertido, Deus sabia.

— Você é o único? — perguntou a m oça. — Neste prédio, além de m im ? — Parecia m enos tím ida nesse m om ento. Endireitou o corpo e, com a m ão direita, arrum ou o cabelo escuro. Nesse m om ento, viu que ela possuía um bom corpo, em bora pequeno, e bonitos olhos bem destacados por longos cílios pretos. Olhando para trás dela, notou que a sala estava toda desarrum ada, com valises aqui e acolá, abertas, seu conteúdo m eio derram ado pelo chão coberto de detritos. Mas isto era natural. Ela m al acabava de chegar.

— Sou o único, além de você — garantiu-lhe Isidore. — E não vou incom odá-la. — Sentiu-se deprim ido. Seu oferecim ento, exibindo a característica de um velho e autêntico ritual de antes da guerra, não fora aceito. Na verdade, a m oça nem parecia notá-lo. Ou, talvez, ela não soubesse para que servia um cubo de m argarina. Teve essa intuição; a m oça parecia m ais confusa do que qualquer outra coisa. Perdera o pé e flutuava im potente num redem oinho cada vez m ais fundo de m edo. — Bacana aquele cara, o Buster — disse, tentando fazer com que ela afrouxasse a rigidez da postura. — Gosta dele? Assisto ao program a todas as m anhãs, e à noite, quando volto para casa. Vej o o program a dele enquanto j anto e depois o program a coruj a até a hora de ir dorm ir. Pelo m enos assistia, até que m eu aparelho pifou.

— Quem ...— com eçou a m oça e, logo em seguida, interrom peu-se, m ordendo o lábio com o se estivesse furiosa. Evidentem ente, consigo m esm a.

— Buster Am igão — explicou ele. Parecia-lhe estranho que essa m oça j am ais tivesse ouvido falar desse que era o m ais conhecido dos côm icos da TV. — De onde foi que você veio? — perguntou, curioso.

— Não vej o no que é que isso im porta. — Lançou-lhe um rápido olhar. Algo que viu com o que reduzir-lhe a preocupação, e seu corpo se relaxou visivelm ente. — Terei prazer em receber visitas — disse — m ais tarde, quando estiver instalada. No m om ento, claro, está fora de cogitação.

— Por que fora de cogitação? — Estava perplexo, Tudo nela deixava-o perplexo. Talvez, pensou, eu tenha vivido aqui sozinho por um tem po longo dem ais. Eu m e tornei estranho. Dizem que debilóides são assim . O pensam ento fê-lo sentir-se ainda m ais deprim ido. — Eu poderia aj udá-la a desfazer as m alas — aventurou ele. A porta, nesse m om ento, virtualm ente foi fechada em sua cara. — E arrum ar seus m óveis.

— Eu não tenho m óveis — respondeu a m oça. — Todas estas coisas — indicou a saía às suas costas — j á estavam aqui.

— Elas não vão servir — garantiu Isidore. Podia ver isso com um sim ples olhar. As cadeiras, o carpete, as m esas — tudo apodrecera, desm oronando na ruína geral, vítim a da força despótica do tem po. E do abandono. Ninguém residira naquele apartam ento durante anos e o estrago era quase com pleto. Não podia im aginar com o ela pudera pensar em viver num lugar desses. — Escute aqui — disse, m uito interessado —, se derm os um a busca no prédio, procurando, provavelm ente vam os encontrar coisas que não estão tão acabadas assim . Um abaj ur de um apartam ento, um a m esa de outro.

— Eu faço isso — disse a m oça. — Eu m esm a, obrigada.

— Você entraria sozinha nesses apartam entos? — Isto era um a coisa em que ele não podia acreditar.

— Por que não? — Mais um a vez ela estrem eceu, nervosa, fazendo careta ao perceber que dissera algum a coisa errada.

— Eu tentei, um a vez — disse Isidore. — Um a única vez. Depois daquela vez, eu sim plesm ente volto para casa, entro no m eu lugar e não penso m ais no resto. Os apartam entos onde ninguém m ora, centenas deles e todos eles cheios de coisas que as pessoas tinham , com o fotografias de fam ília, roupas. Os que m orreram não podiam levar coisa algum a e, os que em igraram , não queriam . Este prédio, exceto pelo m eu apartam ento, está inteiram ente entulhado.

— Entulhado? — Ela não com preendeu.

— Entulho é obj eto inútil, com o correspondência descartada, caixas de fósforos; depois que a gente usa o últim o fósforo, ou a fita gom ada do j ornal da véspera. Quando não há ninguém em volta, o entulho se reproduz. Por exem plo, se a gente vai dorm ir deixando entulho no apartam ento, quando acorda na m anhã seguinte há duas vezes m ais. Ele aum enta sem pre cada vez m ais.

— Com preendo. — A m oça fitou-o, incerta, sem saber se devia acreditar nele ou não. Não tinha certeza se ele falava a sério.

-— Esta é a Prim eira Lei do Entulho — explicou ele.

— "O entulho expulsa o não-entulho." Tal com o a Lei de Gresham sobre o dinheiro ruim . E nesses apartam entos não há ninguém para com bater o entulho.

— Então, ele tom ou conta de todo o lugar — concluiu a m oça. Inclinou a cabeça. — Agora, com preendo.

— Seu lugar aqui — disse ele —, este apartam ento que escolheu... está entulhado dem ais para se viver nele. Podem os fazer recuar o fator entulho. Podem os fazer com o eu disse, fazer incursões pelos outros apartam entos. Mas...— interrom peu-se.

— Mas o quê?

— Não podem os vencer — disse Isidore.

— Por que não? — A m oça saiu para o corredor, fechando a porta às suas costas, braços cruzados em frente a seus pequenos seios, olhando-o séria, ansiosa para com preender. Ou, de qualquer m odo, assim lhe pareceu. Pelo m enos, ela estava escutando.

— Ninguém pode vencer o entulho — disse ele —, exceto tem porariam ente e talvez num único lugar, com o no m eu apartam ento, onde criei um espécie de estase entre a pressão do entulho e do não-entulho, por ora. Mas, no fim , eu m orro ou vou em bora e o entulho tom ará conta, novam ente. Trata-se de um princípio universal, que opera em todo o universo; o universo inteiro está-se m ovendo para um estágio final de entulham ento total, absoluto. — E acrescentou: — Exceto, claro, pela ascensão de Wilbur Mercer.

A m oça fitou-o, curiosa.

— Não estou percebendo a relação.

— Isso é tudo o que há no m ercerism o. — Mais um a vez, sentiu-se perplexo. — Você não participa da fusão? Não tem um a caixa de em patia?

Depois de um a pausa, a m oça respondeu, m edindo as palavras:

— Não trouxe a m inha com igo. Achei que ia encontrar um a aqui.

— Mas um a caixa de em patia — disse ele, gaguej ando em sua agitação — é a posse m ais pessoal que um a pessoa pode ter! É um a extensão de seu corpo. É a m aneira com o você toca outros seres hum anos, a m aneira com o deixa de estar sozinho. Mas você sabe disso. Todo m undo sabe disso. Mercer perm ite m esm o que pessoas com o eu ... — Interrom peu-se. Mas tarde dem ais. Já lhe dissera e percebeu pelo rosto da m oça, pelo relâm pago de súbita aversão, que ela sabia. — Eu quase passei no teste de quociente de inteligência — disse ele em voz baixa e abalada. — Eu não sou m uito especial, apenas m oderadam ente, não com o alguns que você vê por aí. Mas essa é a coisa com a qual Mercer não se im porta.

— No que m e interessa — retrucou a m oça —, pode considerar isso com o um a grande obj eção ao m ercerism o. — Ela falava em voz clara e neutra. Queria apenas declarar um fato, com preendeu ele. O fato de sua atitude no que dizia respeito a debilóides.

— Acho que vou voltar lá para cim a — disse ele e com eçou a afastar-se dela. O cubo de m argarina na m ão fechada se tornara m ole e pegaj oso.

A m oça observou-o afastar-se, conservando ainda a expressão neutra. De repente, disse:

— Espere.

Voltando-se, ele perguntou:

— Por quê?

— Vou precisar de você. Para conseguir um m obiliário adequado. Dos outros apartam entos, com o você disse. — Dirigiu-se para ele, o torso nu, esguio e elegante, sem um gram a de excesso de gordura. A que horas você volta do trabalho? Você poderá m e aj udar, então.

— Você poderia, talvez, preparar o j antar para nós dois? — perguntou Isidore. — Se eu trouxesse os ingredientes?

— Não, tenho m uita coisa a fazer. — A m oça recusou o pedido tranqüilam ente e ele notou o fato, percebeu-o sem com preendê-lo. Agora que dim inuíra o m edo inicial dela, algum a coisa com eçara a em ergir. Algo m ais estranho. E, pensou ele, deplorável. Um a frieza. Com o, pensou ele, um sopro do vácuo existente entre m undos habitados; na verdade, de parte algum a. Não era o que ela fazia ou dizia, m as o que não fazia ou dizia.

— Noutra ocasião — disse a m oça, e voltou na direção da porta de seu apartam ento.

— Você guardou m eu nom e? — perguntou ele, interessado. — John Isidore, e que eu trabalho para...

— Você m e disse para quem trabalha. — Parou por um m om ento à porta, abriu-a e disse: — Para algum a incrível pessoa cham ada Hannibal Sloat, que tenho certeza que não existe fora de sua im aginação. Meu nom e é. .. — Lançou-lhe um de seus últim os olhares gelados, enquanto entrava no apartam ento, hesitou, e disse: — Eu sou Rachael Rosen.

— Da Rosen Association? — perguntou ele. — O m aior fabricante de robôs hum anóides usados em nosso program a de colonização?

Um a expressão com plicada passou no m esm o instante pelo rosto da m oça, rapidam ente, e logo desapareceu.

— Não — retrucou. — Nunca ouvi falar nessa em presa. Não sei de coisa algum a a respeito dela. Mais de sua im aginação de debilóide, acho. John Isidore e sua caixa de em patia pessoal, privada. Pobre Sr. Isidore.

— Mas seu nom e sugere...

— Meu nom e — disse a m oça — é Pris Stratton. O m eu nom e de casada. Sem pre o uso. Nunca uso outro nom e, senão Pris. Pode m e cham ar de Pris. — Pensou por um m om ento e, em seguida, corrigiu: — Não, é m elhor m e cham ar de Srta. Stratton. Porque nós não nos conhecem os, realm ente. Pelo m enos, não o conheço. A porta se fechou sobre ela e ele ficou sozinho no corredor escuro coberto de poeira.