O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir

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Anne Ty ler nos leva a um rom ance sábio, assustador e profundam ente tocante em que descreve um hom em de m eia-idade, desolado pela m orte de sua esposa, que tem m elhorado gradualm ente pelas aparições frequentes da m ulher — na casa deles, na estrada, no m ercado. Com deficiência no braço e na perna direita, Aaron passou sua infância tentando se livrar de sua irm ã, que queria m andar nele. Então, quando conhece Dorothy , um a j ovem tím ida e recatada, ele vê um a luz no fim do túnel. Eles se casam e têm um a vida relativam ente m odesta e feliz. Mas quando um a árvore cai em sua casa, Dorothy m orre e Aaron com eça a se sentir vazio. Apenas as aparições inesperadas de Dorothy o aj udam a sobreviver e encontrar certa paz. Aos poucos, durante seu trabalho na editora da fam ília, ele descobre obras que presum em ser guias para iniciantes durante os cam inhos da vida e que, talvez para esses iniciantes, há um a m aneira de dizer adeus. 2

 

CAPITULO 1

A coisa m ais estranha sobre a volta de m inha esposa do m undo dos m ortos foi a reação das pessoas.

Por exem plo, estávam os dando um a volta pela Praça Belvedere, num a tarde de início de prim avera, quando encontram os nosso antigo vizinho, Jim Rust.

— Mas vej a só, quem diria — ele disse para m im . — Aaron! Então, Jim notou Dorothy ao m eu lado. Ela ficou olhando para ele com um a m ão na testa, protegendo os olhos do sol. Ele arregalou os olhos e se virou para m im de novo.

Eu disse:

— Tudo bem , Jim ?

Estava na cara que ele teve que se controlar.

— Ahn... tudo ótim o — respondeu. — É que... Na verdade... É claro que sentim os sua falta! A vizinhança não é a m esm a sem você. Ele estava se concentrando em m im — especificam ente em m inha boca, com o se eu estivesse falando. Nem olhou para Dorothy . Aj ustou o eixo do corpo especialm ente para excluir Dorothy de sua linha de visão. Fiquei com pena dele. Eu disse:

— Bom , m ande um abraço para todos! — E continuam os andando. A m eu lado, Dorothy soltou um a de suas risadas secas. Outras pessoas sim plesm ente fingiam não reconhecer nenhum de nós dois. Ao nos avistarem de relance, à distância, a surpresa alterava suas expressões e elas desapareciam a toda velocidade para a próxim a rua, m uito 3

ocupadas, com m uito a fazer e im portantes preocupações em m ente. Eu não poderia criticá-las. Sabia que era m uito para assim ilar. No lugar delas, talvez eu m e com portasse da m esm a m aneira. Gosto de pensar que não, m as seria bem possível.

Quem m e faz gargalhar são os que se esqueceram que ela tinha m orrido.

Tudo bem , só houve dois ou três casos — pessoas que m al nos conheciam . Um a vez, na fila do banco, fom os descobertos pelo senhor von Sant, que tinha cuidado da papelada de nossa hipoteca há alguns anos. Ele estava cruzando a recepção e parou para perguntar:

— E a casa? Ainda gostam dela?

— Ah, sim — respondi.

Sim plesm ente para m anter tudo sim ples.

Fiquei pensando com o a lem brança o atingiria alguns m inutos depois. “Espere aí”, ele diria para si m esm o, ao se sentar novam ente à sua m esa, “não ouvi alguém dizer que...?”

A não ser que nunca tenha pensando na gente de novo. Ou não tenha ouvido a notícia, para com eço de conversa. Então, sem pre acharia que a casa continuava intacta, que Dorothy ainda estava viva e que nosso casam ento era feliz, m as tam bém nada extraordinário.

Eu j á tinha ido m orar com m inha irm ã, que vivia na antiga casa de nossos pais, em Baltim ore. Foi por isso que Dorothy voltou naquela época? Ela nunca gostou m uito de Nandina. Ela a achava m andona dem ais. Bom , ela era m andona dem ais. É. E principalm ente com igo, porque tenho algum as deficiências. Acho que ainda não m encionei isso. Tenho um problem a na perna e no braço direito. Nada que m e im peça de viver, m as você sabe com o são as irm ãs m ais velhas.

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Ah, e eu tam bém dem onstro certa hesitação ao falar, m as apenas interm itentem ente. Eu m esm o raram ente percebo. Na verdade, tenho pensando m uito no que teria feito Dorothy escolher aquele m om ento para voltar. Não foi im ediatam ente após sua m orte, que é quando m ais se espera. Foram m eses e m eses depois. Quase um ano. É claro que eu poderia ter sim plesm ente perguntado a ela, m as, de algum a form a, não sei, a pergunta parecia indelicada. Não consigo explicar exatam ente por quê. Um a vez, encontram os Irene Lance, de m eu escritório. Ela é responsável pela diagram ação. Dorothy e eu estávam os voltando do alm oço. Ou, pelo m enos, eu tinha alm oçado e Dorothy estava m e acom panhando, enquanto eu voltava. De repente, vim os Irene vindo de St. Paul em nossa direção. Era difícil não notá-la na m ultidão. Ela era sem pre a m ulher m ais elegante da rua, o que não era lá um grande desafio em Baltim ore, m as ela pareceria elegante em qualquer lugar. Era alta, loira platinada e, naquele dia, usava um casaco longo e fluido, com a gola virada para cim a, protegendo seu pescoço, e a barra rodopiando ao redor de suas canelas, à brisa refrescante da prim avera. Fiquei curioso. Com o um a pessoa com o Irene lidaria com esse tipo de coisa? Então, dim inuí o ritm o, o que fez com que Dorothy reduzisse o dela, e, quando Irene finalm ente nos viu, estávam os quase parados na rua, só esperando para ver o que ela faria.

Ela parou subitam ente, a m eio m etro de nós dois. — Ai... m eu... Deus...! — exclam ou.

Nós dois sorrim os.

— UPS — ela disse.

— O quê? — perguntei.

— Liguei para a UPS para falar sobre um a entrega e não tem ninguém no escritório.

— Bem , não se preocupe. Nós estam os voltando para lá agora m esm o — respondi.

Usei a palavra “nós” de propósito, em bora Dorothy provavelm ente fosse desaparecer antes de eu entrar no prédio.

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Mas tudo o que Irene disse foi:

— Obrigada, Aaron! Eu devo estar com Alzheim er. E foi em bora, sem falar m ais nada.

Ela deveria m esm o se preocupar com Alzheim er se soubesse o que tinha acabado de ignorar.

Olhei de relance para Dorothy , esperando que risse da situação tam bém , m as ela estava seguindo sua própria linha de pensam ento: — Morangos Silvestres, ela disse, em um tom reflexivo de voz. — Com o?

— É de quem Irene m e faz lem brar. Da m ulher naquele film e antigo do Bergm an: a nora, com o coque puxado para trás. Lem bra-se dela? — Ingrid Thulin — respondi.

Dorothy ergueu as sobrancelhas levem ente, para m ostrar que estava im pressionada, m as que não era tão difícil assim desenterrar aquele nom e. Eu era apaixonado por Ingrid Thulin desde a faculdade. Gostava daquele ar indiferente e controlado dela.

— Quanto tem po você acha que vai dem orar para Irene se dar conta da situação?

Dorothy sim plesm ente deu de om bros.

Para ela, nossa situação era m uito m ais real do que para m im . Talvez a razão pela qual eu não tivesse perguntado a Dorothy por que ela tinha voltado quando voltou era porque isso faria com que ela se perguntasse a m esm a coisa. Se ela tivesse sim plesm ente voltado aos poucos, vagueando sem perceber, com o se retorna a um endereço antigo por força do 6

hábito, então, se eu trouxesse o assunto à tona, ela poderia dizer: “Ah! Mas que coisa! Eu deveria estar indo em bora!”.

Ou talvez ela pensasse que eu estava perguntando o que ela está fazendo aqui. E para que tinha voltado, em outras palavras. É com o quando você pergunta a um hóspede quanto tem po ele vai ficar e ele suspeita que, na verdade, a pergunta sej a: “Quando é que vou m e livrar de você?”. Talvez por isso achei que não seria m uito educado perguntar. Eu m orreria se ela fosse em bora. Já tinha passado por aquilo um a vez. Não achava que pudesse fazer isso de novo.

Ela era baixa, m eio gordinha e tinha um a cara séria. Seu rosto era largo, com pele cor de azeitona, e achatado de um j eito atraente, olhos negros e calm os notadam ente nivelados, com aquela sim etria perfeita que faz com que o observador se sinta descansado. Seu cabelo, que ela m esm a cortava em um estilo quadrado, descuidado e sem graça, era profunda e absolutam ente negro e uniform e (sua fam ília tinha vindo do México há duas gerações). E, m esm o assim , não acho que outras pessoas reconheciam com o ela era atraente, porque ela escondia essa qualidade. Ou não, não era nem isso: ela nem suspeitava desse fato o bastante para escondê-lo. Ela usava óculos de lentes redondas com o os olhos de um a coruj a, que m enosprezavam o form ato de seu rosto. Suas roupas deixavam o corpo atarracado — calças largas e de pernas retas, cam isas de alfaiataria m asculinas e sapatos pesados com sola crepe, os favoritos das garçonetes de lanchonetes. Só eu noto as rugas finas com o fios de prata que envolvem os pulsos e o pescoço dela. Só eu conhecia seus pés queridos e rechonchudos, as unhas, pequenas conchas do m ar. Minha irm ã dizia que Dorothy era velha dem ais para m im , m as só porque eu tinha sido bobo ao dizer a verdade quando ela m e perguntou. Mesm o sendo oito anos m ais velha que eu — 43 quando m orreu —, ela parecia ser m ais j ovem , graças à boa e forte pele latina. Além disso, ela tinha “enchim ento” o bastante para rechear qualquer ruga. Com Dorothy , você nem pensaria em idade.

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Minha irm ã tam bém dizia que ela era baixinha dem ais para m im , e é inegável que, quando nós nos abraçávam os, todas as partes erradas de nossos corpos se encontravam . Eu tenho 1,93 m etro. Dorothy não chegava a 1,55 m etro. Segundo m inha irm ã, se você nos visse andando na rua j untos, pensaria que eram pai e filha indo para a escola.

E profissional dem ais, m inha irm ã dizia. Ahá! Aí está um defeito novo. Dorothy era m édica. Eu trabalho com o editor na editora de m inha fam ília. Sem grandes disparidades, certo? O que Nandina queria dizer é que ela era dedicada dem ais à profissão. Obcecada dem ais pelo trabalho. Ela saía de casa cedo para trabalhar, ficava lá até tarde, não m e recebia com os chinelos na m ão quando eu chegava em casa e m al sabia fritar um ovo. Por m im , tudo bem .

Mas não para Nandina, obviam ente.

Talvez sej a um cam inho m uito, m as m uito longo a ser percorrido e, por isso, Dorothy tenha dem orado aqueles m eses todos para voltar. Ou talvez ela tivesse tentado ficar sem m im , com o eu j á tinha tentando ficar sem ela — para “superar” m inha perda, “fechar o ciclo”, “seguir em frente” e todas aquelas frases ridículas que as pessoas usam quando o incitam a suportar o insuportável. Mas, no final das contas, ela havia encarado o fato de que sim plesm ente sentíam os dem ais a falta um do outro. Ela tinha desistido e voltado.

Era nisso que eu queria acreditar.

Da m aneira com o falo, até parece que m inha irm ã era um a tirana, m as ela não era m esm o. Só queria o m elhor para m im , por isso, era tão crítica. Ela via o m elhor em m im . Quando o m enino do vizinho m e cham ou de Frankenstein, depois que fiquei alto desse j eito, Nandina m e disse que eu a lem brava Abraham Lincoln (fingi ficar em ocionado com a constatação, apesar de Abraham Lincoln não ter um a aparência à qual eu gostaria de ser 8

 

com parado). Quando fiquei nervosíssim o antes de convidar Tiffy Preveau para o baile de form atura, no prim eiro ano do Ensino Médio, Nandina ensaiou com igo por horas e horas, j ogando-se no papel de Tiffy de m aneira tão convincente que quase perdi a língua na hora de falar com ela. — Você... Você... Você... — eu gaguej ava.

— Com ece dizendo um a palavra que com eça com “q” — Nandina m e aconselhou, saindo do personagem por um m inuto. — Quer... Quer... ir ao baile com igo? — perguntei. — Ah, m as eu adoraria, Aaron! — ela disse, num a voz falsa e anim ada. — Mas m e diga um a coisa: você sabe dançar?

— Ah, sei, sim .

— Porque eu adoro dançar, sabe, de verdade. E estou falando de dançar m úsica agitada. Vou ficar louca!

— Eu consigo dançar m úsica agitada — respondi. E conseguia m esm o. Nandina tinha m e ensinado. A adolescência da própria Nandina não tinha sido um a história de sucesso (ela tinha quase 1,83 m etro, m esm o depois de tirar os sapatos com pridos com o bananas, e tinha chegado ao últim o ano do Ensino Médio sem ir a baile nenhum ), m as m e ensinou um m onte de passos convincentes o bastante. Ela m e m ostrou com o m order o lábio inferior com o se estivesse sendo transportado pela batida de Pum p Up the Volum e e posicionou m eu braço direito para que parecesse m enos com um a asa quebrada e m ais com um a bandeira, hasteada triunfantem ente o m ais alto que ela poderia forçá-lo. Ainda bem que ninguém m ais estava dançando j untinho e abraçado. Eu não precisaria agarrar m inha parceira com os dois braços, nem nada nesse estilo. E eu precisaria aprender a viver sem palavras que com eçassem com “v”, Nandina m e disse. Para ela, eu as usava deliberadam ente: “você” e “viu”, por exem plo. Bastava ter um a chance.

— Isso pode não ser totalm ente verdade — eu disse a ela (falei quase sem dificuldade, j á que ela não era m ais nada além de m inha irm ã, de novo). 9

 

— Está vendo só o que estou dizendo? Você poderia ter sim plesm ente dito: “isso é m entira” — ela respondeu.

Acontece que Tiffy não aceitou m eu convite. Ela disse que j á tinha com prom isso. Mesm o assim , Nandina foi gentil ao oferecer aj uda. Errei ao usar a palavra “deficiências” anteriorm ente. “Diferenças” seria m ais preciso. Porque não sou realm ente deficiente. Posso ser diferente das outras pessoas, m as não sou m enos afortunado. Eu acredito nisso. Ou posso ser m enos afortunado, m as não m ais infeliz que os outros. Isso provavelm ente está m ais próxim o da verdade. Às vezes, acho que sou m enos afortunado que os outros, m as m uito, m uito m ais feliz.

Então, acho que estou m e enganando, porque provavelm ente todo m undo pensa que tem algum direito especial em relação à felicidade. O m ais estranho é que, em bora eu tenha sem pre sido assim , m e sinto exatam ente com o qualquer outra pessoa. Observando através das j anelas de m eus olhos, im agino m inhas costas retas, m eu pescoço altivo e m eus braços com um diâm etro sim étrico. Mas, na verdade, com o m inha panturrilha e m eu pé direitos são um peso m orto, tenho que arrastar m inha perna direita atrás de m im , por isso m e inclino para o outro lado para contrabalançar o peso, e isso deixa m inha coluna torta. Quando estou sentado, quase ninguém percebe, m as então eu m e levanto e entrego a situação. Eu tenho um a bengala, m as vivo deixando-a por aí. E apesar de ter m e treinado a deixar o braço direito ficar o m ais solto possível, ele insiste em voltar a um a posição retraída, com a m ão entortada para dentro, dobrada bruscam ente no pulso, com o se eu tivesse sofrido um derram e. Talvez eu tenha sofrido um derram e, não sei. Eu era um m enino 10

norm al aos 2 anos de idade; então, peguei um a gripe. Depois disso, não fui m ais norm al.

Mas aposto que seria canhoto de qualquer j eito, porque tenho um a caligrafia excelente e não precisei m e esforçar dem ais para chegar a esse ponto. Então, por esse lado, não sou tão desafortunado, concorda? Sei j ogar m uito bem com raquete, nado bem o bastante para não afundar, pelo m enos, e acho que dirij o m uito m elhor que a m aioria das pessoas. Meu carro tem pedais adaptados. No entanto, para virar o volante e trocar de m archa, não tenho problem as com os controles com uns. Passageiros novos ficam m eio apreensivos no com eço; depois de alguns quilôm etros, j á se esqueceram . Vivo sonhando acordado em trocar m eus pedais pelos norm ais, m as o Conselho Nacional de Trânsito tem essa regulam entação absurda. No com eço, cheguei a pensar que Dorothy tinha voltado em m issão especial. Que ela tivera perm issão para voltar apenas pelo tem po necessário para m e dizer algum a coisa, talvez, e depois partiria de novo (preciso dizer agora que quem havia perm itido que ela voltasse não é um a questão na qual eu gostaria de m e dem orar. Sou ateu. Tê-la aqui, para início de conversa, j á tinha sacudido m ais preconceitos do que eu conseguiria absorver com facilidade). Você até pode achar que eu estava louco para descobrir qual m issão seria aquela. Mas lem bre-se do corolário: “um a vez com pleta a m issão, ela partiria novam ente”. E acho que não conseguiria suportar isso. Então, adotei um tipo de abordagem zen. Eu vivia o m om ento. Dorothy aparecia; eu estava em paz. Eu não perguntava nada, não estudava os porquês e os portantos; só aproveitava estar ao lado dela. Se ela tivesse com eçado a dizer algum a coisa que parecesse um a m ensagem , eu faria tudo para desviar do assunto, m as ela não disse nada. Parecia que ela tam bém estava vivendo o m om ento. E então ela desaparecia de novo, m as não por m uito tem po. De algum a form a, eu sabia. Eu ficava esperando, tão quieto quanto um lago, até ela aparecer de novo. 11

 

Um a vez, ela m e perguntou:

— Com o anda a vida na casa de Nandina? Ela reclam a, faz m uito dram a? — Sim , bom , você lem bra com o ela é — respondi. Fiquei em silêncio por um m om ento. Então, disse:

— Você precisava perguntar? De algum m odo, eu achava que você j á sabia.

— Ah, não. Eu não sei de nada — Dorothy respondeu. Parecia haver tristeza em sua voz, m as, então, ela sorriu para m im . Achei que era im aginação m inha.

Minha m ãe com eçou a acreditar, em seus últim os dias de vida, que m inhas diferenças tinham sido culpa dela. Ela deveria ter cham ado o pediatra ainda no com eço da gripe, ou deveria ter m e levado correndo para o pronto-socorro e deixado o pediatra para lá.

— Mas eles só teriam m andando a gente de volta para casa! — eu disse para ela. — Eles teriam dito que era um vírus que estava por aí, que era para m e dar bastante líquido e m e deixar descansar.

— Eu teria m e sentado no chão e dito que a gente não sairia dali — ela disse.

— Ah, m as por que fazer tanto dram a por causa disso? Eu m e viro perfeitam ente bem .

— Você se vira. É, acho que sim . E eu não diria um “a” se você tivesse nascido assim . Mas não nasceu. Você não é do j eito com o veio ao m undo. Você não é quem deveria ser.

— Talvez eu sej a exatam ente com o deveria ser — retruquei. 12

Ela apenas suspirou. Eu j am ais entenderia.

— De qualquer m aneira — continuei —, você ligou para o pediatra, sim . Você m e contou. Ligou assim que a febre aum entou. — Aquele hom em era um im becil! — ela disse, com m ais um a pedra na m ão. — Ele dizia que a febre é a cura da natureza para tudo. E j urava que um a febre não fazia tanto estrago quanto aquelas m ães histéricas que m ergulhavam os filhos em água gelada.

— Mãe, deixa para lá! — insisti.

Mas ela nunca deixou.

Ela era dona de casa (com o ela m esm a se definia), da últim a geração de m ulheres que se casavam assim que saíam da faculdade. Form ou-se em j unho de 1958 e casou-se em j ulho. Então, esperou dez anos para ter o prim eiro filho, pobre m ulher, m as m esm o assim não arrum ou em prego. Fico pensando: com o ela passava o tem po? Quando eu e Nandina nascem os, viram os a ocupação total dela. Ela fazia os trabalhos de Ciências com a gente, os dioram as; passava a ferro nossas cuecas e calcinhas; decorava nossos quartos em estilo de m enininha e de m enininho — botões de rosa para Nandina e bandeiras de tim es para m im . Nem vem ao caso que Nandina não era do tipo “botão de rosa” de m enina ou que todas as vezes em que tentei praticar um esporte m inha m ãe teve apoplexia.

Eu fui um a criança “durona”, apesar de m inhas diferenças. Era desastrado, m as anim ado, em polgado para entrar em qualquer brincadeira em nosso quarteirão. Minha m ãe literalm ente esprem ia as m ãos ao m e ver da j anela da frente, m as m eu pai dizia a ela que m e deixasse fazer tudo que eu m e sentia capaz de fazer. Ele não se preocupava tanto. É claro que ele passava o dia no escritório e j á estava na m eia-idade. Nunca foi o tipo de pai com quem eu podia j ogar bola nos finais de sem ana, nem pedir para ser técnico do tim e de beisebol da escola.

Então, passei a m aior parte de m inha infância m e defendendo das duas m ulheres de m inha vida — m inha m ãe e m inha irm ã, am bas à espreita para m e m im ar até a m orte. Mesm o quando ainda era bem novo, j á sentia o perigo. Você fica dom inado. Bonzinho e conivente. E assim elas conseguem ter você exatam ente onde desej am .

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Por que será que achei que Dorothy era um sopro de ar fresco, hein? A prim eira vez que ela m e viu, perguntou:

— O que aconteceu com seu braço?

Ela estava usando j aleco branco e perguntou em um tom brusco, clínico. Quando expliquei, ela sim plesm ente disse “ah” e passou para outro assunto. Quando andou em m eu carro, nem olhou para o lado, nem m esm o no com eço, para ver com o é que eu estava dirigindo. Ela estava ocupada dem ais em baçando os óculos com um sopro e lim pando-os com a m anga da blusa. Na prim eira vez em que m e ouviu gaguej ar (depois que m e apaixonei por ela e fiquei todo agitado e desconfortável), ela inclinou a cabeça para o lado e disse:

— O que foi isso? Algum dano cerebral ou só nervoso m esm o? — Ah, só... só... nervoso — respondi.

— Jura? Estava pensando... — ela disse — Quando você está lidando com o hem isfério esquerdo... Que saco!

— Com o é que é?

— Acho que deixei m inhas chaves no escritório — falou. Ela era única entre as m ulheres. Não havia ninguém com o ela. Meu Deus, ela deixou um enorm e vazio! Eu m e senti com o se tivesse sido apagado, com o se tivesse sido rasgado em dois.

Então, olhei para a rua e a vi de pé, na calçada. 14