O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir
— Mas ela foi criada na religião…
— Sem velório.
Um a pausa.
— Mas ela foi criada na religião — ele argum entou. — Sim , m ... m as...
Parecia m elhor deixar a conversa neste patam ar: “Sim , m as...”. — Bem — Ty rone disse, um m inuto depois —, de qualquer m aneira, não seria fácil deixarm os os anim ais aqui.
— Certo.
— Ela sofreu?
— Não!
Respirei fundo m ais um a vez.
— Não — eu disse —, ela não sofreu.
— Ela sem pre foi voluntariosa. Quando decidia algum a coisa... — É verdade.
— Eu m e lem bro de um a vez, quando éram os crianças, e eu e outros m eninos estávam os m ascando piche m ole da estrada. Era um dia m uito quente. Dorothy chegou e a gente disse: “Aqui, Dorothy , experim ente um pouco tam bém ”. E ela falou: “Vocês estão de brincadeira?” e “por que é que vou querer com er um a estrada?”.
Isso parecia m esm o com o j eito de Dorothy . Eu poderia ouvi-la dizendo aquilo. Dorothy ainda criança sem pre tinha m e parecido inim aginável, m as agora conseguia im aginá-la claram ente.
— Ela ganhou esse nom e por causa da m enina em O Mágico de Oz — Ty rone disse. — Acho que ela deve ter m encionado isso. — Ah, não. Ela não m encionou.
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— Foi ideia de nosso avô. Foi ele quem deu todos os nossos nom es. Ele queria garantir que todos soassem am ericanos. — Entendo.
— Então... — ele com eçou — Bem , de qualquer form a, obrigado por ligar! Sinto m uito pela sua perda.
— E eu, pela sua perda — respondi.
Nada m ais havia para qualquer um de nós dizer, apesar de sentir um a estranha relutância em perm itir que ele desligasse. Por um m om ento, enquanto ele falava, Dorothy tinha sido, de novo, com o era antes: voluntariosa, firm e e teim osa. Não a vítim a passiva que tinha se tornado em seus últim os dias. Ainda bem que eu tinha um em prego. Meu trabalho foi m inha salvação. Chegava cedo, não tinha intervalos, não parava nem para alm oçar. O único problem a eram m eus colegas, aparentem ente tristes e m uito solícitos. Bem , com exceção de Irene. Ninguém poderia acusar Irene de solicitude. Mas eu a estava evitando porque, não sei, acho que, ao longo dos anos, havia tido um a paixonite por ela e, agora, aquilo m e parecia obsceno. De repente, eu nem gostava dela m ais.
Então, fazia questão de chegar ao escritório antes dos outros, corria para m inha sala e fechava a porta atrás de m im . Mais tarde, escutava Nandina chegando, ou pelo m enos achava que era Nandina, j á que chegar cedo, para ela, era um a regra. Então, Charles e Peggy , e finalm ente Irene. Eu ouvia sussurros na sala lá fora, risadas e telefones tocando. Às vezes, Peggy batia à m inha porta com as pontas dos dedos.
— Aaron? Você está aí?
— Aham .
— O café está pronto. Quer que eu traga para você? 41
— Não, obrigado.
Hesitação. E depois aqueles sapatos de sola m acia arrastando-se para longe.
Eu nunca havia planej ado trabalhar na em presa da fam ília. Fizera faculdade em Stanford, do outro lado do continente, e lá esperava perm anecer e conquistar m eu lugar no m undo. Mas m eu pai teve seu prim eiro ataque cardíaco logo que m e form ei. Ele m e pediu para voltar para casa e tom ar conta de tudo enquanto se recuperava. Olhando para trás agora, vej o com o m e deixei ser enganado. Na verdade, Nandina estava tom ando conta de tudo m uito bem . Acho que eu sim plesm ente gostava de pensar que alguém precisava de m im . Além disso, eu não tinha nada m ais específico em m ente, com m eu diplom a em Língua Inglesa.
Na época de m eu tataravô, cham ava-se a em presa de “editora de cavalheiros”, o que era um eufem ism o para “editora que publica livros à custa dos autores”. Até hoj e, éram os m eio reticentes em relação a isso, apesar da palavra “cavalheiros” ter sido substituída, em tem pos m odernos, por “independentes”. Mesm o assim , o princípio ainda era o m esm o. A m aioria de nossos autores nos pagava, e eles não recebiam nada bem m inhas sugestões sobre a edição do texto, apesar de, acredite, precisarem delas, e m uito. Na verdade, se não fosse por Charles, depois que aqueles esquem as de “publicação independente” com eçaram a aparecer na Internet, eu poderia m uito bem ter ficado sem em prego. Charles era nosso representante de vendas e inventou, sozinho, o conceito da série Para Iniciantes — Guia de Vinhos para Iniciantes, Orçam ento Mensal para Iniciantes, Treinam ento de Cães para Iniciantes. O conceito se assem elhava ao daquela coleção Para Dum m ies, m as sem o tom de voz de líder de torcida — eram livros m ais dignos. E o proj eto gráfico era m uito m ais clássico, com páginas com corte rústico, encadernação com lom bada, capa dura, brilhante e cara. Além disso, éram os m ais específicos — às vezes, até de m aneira absurda, se quiser saber (vej a, por exem plo, o Arm ário de Especiarias para Iniciantes). Tudo se torna gerenciável quando dividido em nichos pequenos o bastante — esta era a teoria, m esm o para as lições m ais com plicadas da vida. Assim , não era o Livro de Receitas para Iniciantes, m as Sopas para Iniciantes,Sobrem esas para Iniciantes e Jantares para Iniciantes, o que guiava o leitor ao longo de um a refeição perfeita para seus convidados, do com eço ao fim , incluindo a lista do superm ercado. Não 42
era Educação dos Filhos para Iniciantes, m as Bebês que sofrem de Cólicas para Iniciantes — nosso best-seller, em sua form a m ais m odesta, e ainda sendo reim presso desde o lançam ento.
Eu era responsável por editar todos eles sozinho, e Irene supervisionava o proj eto gráfico — m esm o que os cham asse de “livros-presente”. Então, Charles com eçou a prom over a coleção com o se fosse um hom em possuído. Ele estava convencido de que, m ais cedo ou m ais tarde, a série nos deixaria ricos, apesar de isso não ter acontecido até agora. As pessoas m uitas vezes se referiam a nós com o “a editora dos Iniciantes”, m as com certeza não era esse nosso nom e. Pelo am or de Deus, não! Não inspiraria nem um pouco de confiança. Nós éram os a Editora Woolcott, as palavras escritas em letras de fonte alta, esguia e sem serifa, todas em caixa baixa, o que j á foi considerado m uito m oderno (m as im presso apenas na capa dos livros da série Iniciantes, é claro, j á que as lom badas eram m uito finas).
Nas prim eiras sem anas após a m orte de Dorothy , eu estava trabalhando no Observação de Pássaros para Iniciantes. Com o sem pre, um especialista, um ornitólogo da Universidade de Mary land, havia sido contratado para fornecer a m atéria-prim a, e o resultado fora um a sobrecarga de inform ações incoerentes que eu estava lutando para colocar em ordem — tam bém com o sem pre. Geralm ente, eu m e concentrava na im agem m ental de um leitor específico, da m esm a m aneira que m andam os grandes oradores dirigirem suas palavras a um ouvinte específico. Eu tinha decidido que nosso leitor, nesse caso, era um a m oça que havia sido convidada para um a sessão de observação de pássaros por um rapaz de quem gostava. Seria o prim eiro encontro deles. É claro que ninguém esperaria que ela soubesse os nom es em latim para os pássaros que via (apesar de m eu especialista estar doido para fornecê-los), m as precisava de aj uda ao escolher quais roupas usar, qual equipam ento levar e quais perguntas fazer. Ou será que deveria ficar em silêncio absoluto? Com o se esperava, m eu especialista nem pensou em resolver essas questões. Liguei para consultá-lo, várias vezes. Deixei notas escritas à m ão nas m argens. Eu risquei, risquei e risquei. Acabei ficando com um livro fino dem ais e tive de ligar para ele m ais um a vez.
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No final de cada dia, guardava tudo em m inha m esa, pegava m inha bengala, m e levantava e m e aproxim ava da porta de m inha sala. Então, endireitava os om bros e assum ia um a expressão que esperava ser anim ada e distraída. Então, abria a porta e saía.
— Aaron! Já vai?
— E com o vão os passarinhos, Aaron?
— Você quer ir j antar lá em casa hoj e?
A últim a pergunta era de Nandina, que tam bém tinha sua própria sala, e bem m aior que a m inha. Nesses dias, sem pre inventava um j eito de estar na sala externa, bem na hora de eu ir em bora.
— Ah — eu respondia, — acho que vou para casa m esm o. Mas obrigado! Peggy am assava um lenço com borda de renda enquanto m e olhava. Charles ficava com os olhos fixos em seu com putador, o rosto ruborizado de vergonha. Irene se espreguiçava na cadeira e levantava a cabeça, calculando o tam anho do dano.
— Boa noite a todos! — eu dizia.
Então saía pela pesada porta de carvalho, para a rua, finalm ente a salvo. Chegando em casa, encontrava pratos de com ida na varanda. Acho que m eus vizinhos tinham com binado algum tipo de esquem a de rodízio entre eles, em bora estivessem superestim ando m inhas refeições diárias. Havia quentinhas de papel-alum ínio e caixas de isopor e refratários com todo tipo de prato (e que teriam que ser lavados e devolvidos depois), todos alinhados em fila e cheios de fita adesiva para que eu soubesse a quem agradecer: “Pensando em você. Os Ushers”; “Asse sem tam pa a 350o até ficar dourado e borbulhar. Mim i”. Eu destrancava a porta da frente e então m e virava para m anobrar tudo aquilo para dentro. Dali levava um por um dos itens para a cozinha, deixando m inha 44
bengala para trás sem pre que precisava das duas m ãos para carregar algo que pudesse derram ar. Colocava tudo ao lado da pia, antes de com eçar a incluir tudo em um a lista que eu m antinha sobre o balcão. Um a coluna das “oferendas” anteriores quase enchera a página: “Sue Borden — Ovos Recheados Gratinados; Jan Miller — um tipo de curry ”. Os prim eiros nom es estavam riscados porque eu j á tinha m andado cartões de agradecim ento para eles.
“Preciso m e lem brar de com prar m ais selos.” Estava usando m uito selos naqueles dias.
Depois de anotar cada prato, j ogava tudo no lixo. Odiava j ogar com ida fora, m as m inha geladeira estava lotada e eu não sabia m ais o que fazer. Assim , a salada de frango, o m acarrão ao forno, os tom ates com pesto... lixo, lixo, lixo. Era com o se estivesse elim inando o atravessador: direto da varanda para a lata de lixo, sem pausa interm ediária na m esa da cozinha. Às vezes, sem pensar, interceptava um a coxa de galinha ou um a costelinha e a roía enquanto trabalhava. Enquanto enxaguava o pirex, abria cam inho em um cheesecake estacionado ao lado da pia, apesar de não gostar m uito de cheesecake, especialm ente esse que ficava m ais m elado a cada vez que o tocava com os dedos m olhados. E então, de repente, j á estava satisfeito e m eus dentes m e davam aquela sensação saburrenta de ter com ido açúcar dem ais, apesar de nem ter m e sentado para fazer um a refeição propriam ente dita. Eu enxugava o refratário e o deixava na varanda, com um post-it grudado sobre ele: “Mim i”. Lá fora, era quase crepúsculo, aquele tipo de crepúsculo verde-claro que você vê ao final de um dia de verão. Eu podia ouvir as crianças gritando e um rastro de m úsica do rádio de um carro que passava por ali. Entrava de novo no hall e fechava a porta.
Em seguida, vinha a hora da correspondência, que cobria o chão do hall de entrada e se m ostrava um a am eaça à vida e a m eus m em bros, toda vez que pisava sobre ela. Eu recolhia todas as cartas e as levava para a cozinha. Agora, a cozinha era m inha sala de estar. Nunca tinha feito nada a respeito de m eu plano de transform ar o quarto de hóspedes. Usava a m esa com o escrivaninha, com o talão de cheques, a agenda de endereços e outros m ateriais de escritório enfileirados na outra ponta. Ah, m as com o eu estava em dia com m inhas responsabilidades! Eu pagava m inhas contas no dia em que chegavam , sem esperar a data de vencim ento. Jogava os catálogos e folhetos de propaganda no 45