O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir

lixo reciclável na hora. Abria cada cartão…

lixo reciclável na hora. Abria cada cartão de pêsam es e o lia com o m aior cuidado, porque sem pre havia a chance de alguém revelar algo novo sobre m inha esposa. Alguém de seu trabalho, por exem plo: “A dra. Rosales era altam ente qualificada e sentirem os sua falta no Centro de Radiologia”. Bem , esse era m ais um ponto de vista sobre o que eu j á sabia. Ou um a antiga paciente: “Fiquei tão triste ao ler sobre a m orte da sua a sua perda dra. Rosales no j ornal. Ela m e aj udou m uito depois da m inha m astecto cirurgia, respondendo a todas as perguntas e m e tratando norm alm ente com dignidade”. Suspeitei que fosse um prim eiro rascunho enviado por engano, m as isso só tornava o cartão m ais significativo, porque revelava os sentim entos m ais sinceros da paciente. Ela valorizava as m esm as qualidades de Dorothy que eu: sua atitude sem rodeios, a m aneira com o evitava a condescendência. Aquela era a Dorothy por quem eu tinha m e apaixonado. Eu respondia a cada um im ediatam ente.

“Caro dr. Adam s,

Muito obrigado por sua carta. Você foi m uito gentil em escrever. Atenciosam ente,

Aaron Woolcott.”

“Cara sra. Andrews,

Muito obrigado por sua carta. Você foi m uito gentil em escrever. Atenciosam ente,

Aaron Woolcott.”

E, então, para a brigada da com ida:

“Cara Mim i,

Muito obrigado pelo m acarrão ao forno. Estava delicioso. Atenciosam ente,

Aaron.”

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“Cara fam ília Usher,

Muito obrigado pelo cheesecake. Estava delicioso. Atenciosam ente,

Aaron.”

Depois disso, o serviço de casa. Havia o bastante para m e m anter ocupado.

Prim eiro, varrer o hall de entrada. Aquilo não tinha fim . Todo dia, quando acordava, e toda noite, quando vinha para casa, um a cam ada fresca de pó branco e pedaços de gesso cobria o chão do hall. Às vezes, tam bém havia tufos de um a penugem cinza. Mas o que era aquilo? “Algum tipo de isolam ento térm ico fora de m oda”, pensei. Parei de varrer e olhei para as vigas. Não era algo que conseguisse olhar por m uito tem po, pareciam as entranhas de alguém .

Depois, lavar a roupa, exatam ente duas vezes por sem ana — um a para as roupas brancas e a outra para as coloridas. A prim eira vez que lavei as brancas, m e senti solitário. A leva incluía duas cam isas de Dorothy , um par de calcinhas de algodão e seus pij am as listrados. Eu tive que lavá-los, secá-los, dobrá-los, guardá-los nas gavetas corretas e alinhar as pontas, arrum á-los e alisá-los. Mas, depois dessa, as outras foram m ais fáceis. Não era um a tarefa desconhecida, afinal. Geralm ente, ficava com quem precisava de roupas lim pas prim eiro e, norm alm ente, era eu. Agora, eu gostava de descer as escadas para o porão frio e m eio escuro, onde não havia o m enor sinal do carvalho. Às vezes, ficava lá em baixo um pouco, depois de transferir as roupas m olhadas da m áquina de lavar para a secadora, descansando as palm as das m ãos sobre a superfície da secadora e sentindo-a vibrar e esquentar.

Então, ia pegar as coisas j ogadas na cozinha e no quarto. Nada de m ais. Dorothy era a “acum uladora” de nossa fam ília. Mas nessa altura eu j á tinha recolhido várias peças de roupa dela pela casa e tinha levado seu pente e seu rem édio para alergia para o arm ário dos rem édios. Eu não fazia nenhum esforço para j ogar coisas fora. Ainda não.

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É claro que, à noite, o telefone tocava várias vezes, m as eu sem pre checava o identificador de cham adas antes de atender. Se fosse Nandina, tinha que atender. Ela viria até m inha porta em pessoa se eu não garantisse a ela que estava no m undo dos vivos. Mas os Millers, sem pre m e cham ando para ouvir a sinfonia com eles, ou a eterna Mim i King... Felizm ente, tive o bom senso de desativar a secretária eletrônica. Eu a tinha deixado ligada por um tem po, e o fardo de culpa pelas ligações não retornadas quase acabou com igo, até m e lem brar do botão “Desligar”.

— Estou bem — dizia a Nandina. — E com o você está desde as 5 horas, a últim a vez que a vi?

— Não sei com o você está aguentando — ela dizia. — Onde é que você se senta? Com o é que ocupa suas noites?

— Eu tenho vários lugares para m e sentar e ocupações não m e faltam . Na verdade, neste m om ento m esm o eu... Ah, não. Preciso desligar! Desligava e olhava para o relógio: 8 horas. Ainda? Eu sacudia o pulso para garantir que o segundo ponteiro estivesse se m exendo. E estava.

Às vezes, a cam painha tocava. Ah, com o odiava aquela cam painha! Era um toque em duas notas, com um a voz dourada, “ding dong”. Um a coisa m eio de igrej a, m eio arrogante. Mas m e sentia com pelido a atender, porque m eu carro estava estacionado lá fora e era óbvio que eu estava em casa. Suspirava e m e encam inhava para o hall. Na m aioria das vezes, era Mary -Cly de Rust. Não tanto Jim . Jim parecia estar tendo problem as para pensar no que dizer para m im nesses dias, m as Mary -Cly de definitivam ente não tinha esse problem a: — Olhe, Aaron — ela dizia —, sei que você não quer com panhia, então não vou m e introm eter. Mas preciso ver se você está bem . Você está bem ? — Estou, obrigado.

— Então, está bem . Fico feliz em saber.

Ela acenava anim ada e afirm ativam ente com a cabeça, girava sobre os calcanhares e ia em bora.

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Preferia os vizinhos que m e evitavam . As pessoas que olhavam de repente em outra direção se estivessem levando os cachorros para passear quando eu saía de casa, pela m anhã. Aquelas que entravam em seus carros com as costas retas, taticam ente voltadas para m im enquanto eu entrava em m eu carro.

Certa noite, a cam painha tocou, fui atender e era um hom em que eu não conhecia, um hom em em form ato de barril, com um a barba castanha e curta e cabelos castanhos, com fios grisalhos, que m ais pareciam um esfregão sobre sua cabeça.

— Gil Bry an — ele se apresentou. — Em preiteiro — e m e deu um cartão de visitas.

A lâm pada lá de fora fazia a pele suada, debaixo de seus olhos, brilhar de um a m aneira que achei digna de confiança. Foi a única razão pela qual não fechei a porta de novo. Ele disse:

— Eu sou o cara que colocou a lona em seu telhado. — Ah, sim .

— Vej o que o senhor ainda não m andou arrum ar o telhado. — Ainda não — respondi.

— Bom , aqui está m eu cartão, se um dia quiser que alguém o conserte. — Obrigado.

— Sei que esta deve ser a últim a coisa que passa pela sua cabeça, neste m om ento.

— Bem , obrigado — respondi. Então, fechei a porta, m as lentam ente, para não ofendê-lo. Gostei da m aneira com o ele disse aquilo. Mesm o assim , j oguei o cartão dele na tigela de porcelana, porque estava ignorando o telhado propositalm ente, assim com o havia ignorado aqueles m édicos espiando a sala de espera. “Telhado? Que telhado?”, eu deveria ter perguntado para o sr. Bry an. “Não vej o nada de errado com o telhado.” 49

O horário m ínim o que m e perm itia ir para a cam a era às 9 horas da noite. Eu m e convenci a ler um pouco antes de desligar a luz; não dorm iria im ediatam ente. Estava com um a biografia enorm e de Harry Trum an, que com eçara a ler antes do acidente. Mas não conseguia avançar m uito. “A leitura é a prim eira a ir”, m inha m ãe dizia, querendo dizer que era um luxo que o cérebro dispensava sob coação. Ela j urava que, depois da m orte de m eu pai, nunca conseguira ler nada m ais exigente que o j ornal, pela m anhã. Na época, achei que era m uito m elodram a da parte dela, m as agora m e flagrava lendo o m esm o parágrafo seis vezes e, m esm o assim , não saberia dizer do que se tratava. Minhas pálpebras ficavam pesadas e eu acordava, de repente, com o livro escorregando da cam a e caindo no chão. Então, pegava o controle rem oto e ligava a TV, que ficava sobre a côm oda. Eu assistia — ou só olhava petrificado — a docum entários, debates e com erciais. Ouvia os locutores anunciando os efeitos colaterais dos rem édios que tentavam vender.

— Ah, claro — dizia a eles —, vou sair correndo e com prar isso aí am anhã m esm o. Por que deixar um a pequena diarreia m e incom odar, ou um a insuficiência renal, ou um ataque cardíaco?

Dorothy odiava quando eu respondia assim .

— Você se im porta? — ela perguntava. — Não consigo ouvir nada do que estão dizendo.

Essa televisão era pequena, aquela televisãozinha extra na qual às vezes assistíam os ao j ornal da noite ou quando estávam os nos preparando para dorm ir. A m aior ficava no solário. Era um a Sony Trinitron antiga. Jim Rust m e dissera, no hospital, que fora a TV que am assara o peito de Dorothy ; os bom beiros contaram que ela tinha caído do suporte, no canto. Os aparelhos Sony Trinitron são fam osos por seu peso incom um . Um tem po atrás, Dorothy e eu tínham os conversado sobre com prar um daqueles aparelhos de TV com som estéreo e tela plana, m as decidim os que 50

 

não tínham os dinheiro suficiente. Se tivéssem os um a TV de tela plana, será que Dorothy ainda estaria viva?

Ou se o paciente dela não tivesse cancelado... Ela nem estaria em casa na hora em que a árvore caiu.

Ou se ela tivesse ficado na cozinha em vez de ir para o solário. Se eu tivesse dito: “Vam os ver se eu consigo achar esses Triscuits”, ido à cozinha para aj udá-la a procurar e então m e sentado com ela à m esa, enquanto ela com ia os biscoitos.

Mas não, não. Eu tive que sair pisando duro e ficar de m al no quarto, com o se o fato de ela se recusar a se conform ar com os Wheat Thins tivesse algum a im portância.

Ah, e todos aqueles hábitos irritantes dela que eu costum ava criticar: a trilha de lenços de papel am assados e canecas de café vazias que ela deixava logo depois de acordar, sua desconsideração em relação a questões m ais refinadas sobre a ordem e o conforto dom ésticos. E daí? Sua tendência a exagerar um pouco a im portância de seu diplom a de m edicina quando conhecia gente nova. “Prazer, dra. Rosales”, ela dizia, em vez de “Meu nom e é Dorothy ”, de m aneira que você conseguia enxergar aquele j aleco branco m esm o quando ela não o estava usando (não que ela conhecesse gente nova com m uita frequência: nunca tinha visto m uito sentido em se socializar).

E aqueles sapatos m eio ortopédicos que ela preferia: às vezes, eles m e pareciam hipócritas. Um a dem onstração da seriedade dela, de sua nobreza — um a repreensão a todos nós.

Tom ei gosto por m e alim entar desses pequenos defeitos e não apenas por refletir sobre a razão de m e irritarem tanto. Eu desej ava que eles ainda m e irritassem , para que eu pudesse parar de sentir saudade dela! Mas, de algum a form a, não funcionava desse j eito. Eu queria poder ter dito a ela que ficara de vigília no hospital. Odiava pensar que ela pudesse ter sentido que estava passando por tudo aquilo sozinha.

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E ela não teria se divertido com todas aquelas travessas de m acarrão ao forno?

Acho que esta é um a das piores coisas de se perder a própria esposa: é a única pessoa com quem você poderia discutir tudo isso. A TV se infiltrou em m eu sono, se é possível cham ar de sono esse estado irregular de sem iconsciência. Sonhei que a guerra no Iraque estava ficando m ais com plicada e que Hillary Clinton estava fazendo cam panha para a nom eação do Partido Dem ocrata. Rolei sobre o controle rem oto e, de repente, alguém gritou:

— ... em aço inoxidável, afiada, e usada por chefs... Eu m e sentei rápido na cam a, os olhos arregalados e o coração batendo forte, com a boca seca com o gaze. Desliguei a TV e m e deitei novam ente. Fechei os olhos e resm unguei entre os dentes:

— Vá dorm ir, m as que inferno!

Você poderia achar que sonhei com Dorothy , m as não. A coisa m ais próxim a disso foi a lufada de álcool isopropílico sobre a qual alucinei durante a noite, antes de cair no sono de novo. Ela trazia aquele cheiro em sua pele, no final de cada dia de trabalho. No com eço de nosso casam ento, eu costum ava ter sonhos bem vívidos sobre visitas do m édico da fam ília em m inha infância, vacinações e assim por diante, evocados pela fragrância de álcool enquanto dorm ia ao lado dela. Agora, o fantasm a desse cheiro m e deixava acordado e alerta, e um a ou duas vezes cheguei a dizer seu nom e em voz alta: — Dorothy ?

Mas nunca recebi um a resposta.

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As travessas de m acarrão ao forno foram se tornando m enos frequentes, e as cartas pararam de chegar. Com o as pessoas conseguem seguir em frente tão facilm ente? Bem , sim , é claro. Novas tragédias acontecem todos os dias. Eu tinha que reconhecer isso.

Parecia m eio insensível fazer m eu check-up dental sem estral, m as fui. Então, com prei m eias novas. Meias, entre tantas coisas! Tão triviais! Mas todas as m inhas m eias velhas estavam furadas no dedão. Um a noite, m eu am igo Nate m e ligou — WEISS N. I. em m eu identificador de cham ada. Ele, eu atenderia sem problem as. Logo de cara, falei: — Nate! Com o vai? — sem esperar que ele se anunciasse prim eiro. Mas aquilo evidentem ente foi um erro, porque pude sentir um a breve hesitação antes que ele dissesse:

— Olá, Aaron! — em voz baixa, m uito lúgubre, nada parecida com o estilo dele.

— Que tal um j ogo am anhã? — perguntei.

— Com o é?

— Um j ogo de raquetebol! Estou ficando velho aqui. Todas as m inhas articulações estão enferruj ando.

— Ah, bom , m as... Eu liguei para convidá-lo para j antar — ele disse. — Jantar?

— Sim , a Sony a disse que precisávam os convidar você para um a visita. Sony a devia ser a esposa dele. Eu não a conhecia. Acho que ele deve tê-la m encionado algum as vezes, m as não tínham os aquele tipo de am izade. Tínham os um a am izade de raquetebol. Nós nos conhecem os na academ ia. Respondi:

— Visita... à sua casa, você quer dizer?

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— Isso.

— Bom ... Meu Deus, Nate, não sei. Nem sei onde você m ora! — Moro em Bolton Hill — respondeu.

— E tam bém é que... ultim am ente ando m uito ocupado com o trabalho. Você nem im agina com o estou ocupado! Mal tenho tem po para com er um sanduíche. E, quando tenho tem po, tem tanta com ida sobrando na geladeira, assadeiras... assadeiras... de m acarrão e... cheesecakes. É praticam ente um em prego em tem po integral sim plesm ente fa-fazer iss-s-so tudo... com er tudo! — Entendo — ele disse.

— Mas obrigado.

— Tudo bem .

— Diga à Sony a que agradeço a lem brança.

— Tudo bem .

Eu quis revisitar a ideia do raquetebol, m as tinha feito tanta questão de dizer que andava ocupado que achei que seria um erro. Então, sim plesm ente m e despedi.

Nem m eia hora depois, o telefone tocou de novo. Dessa vez era TULL L. Atendi, m as j á estava m ais atento dessa vez. Tudo que disse foi: — Alô.

— Oi, Aaron, é Luke.

— Oi, Luke.

— Posso entender por que você não quis ir à casa de Nate. — Com o é?

— Ele m e contou que você recusou o convite. Eu disse:

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— Você está falado de Nate Weiss?

— Sim , ué!

— Você conhece Nate Weiss?

— A gente se conheceu na sala de espera do hospital, lem bra? Quando nós dois fom os fazer a visita.

Isso vinha acontecendo bastante ultim am ente. Juro que não m e lem brava m esm o da visita dos dois, e m uito m enos que tinham se conhecido. Mas disse:

— Ah, é m esm o!

— Ele disse que teve a im pressão de que você ainda não está pronto para um j antar.

— Não, m as para um j ogo de raquetebol... — respondi. — Estou m e coçando aqui para j ogar de novo.

Houve um a pausa. Então, Luke disse:

— Infelizm ente, não sei j ogar raquetebol.

— Ah.

— Mas estava pensando se não seria dem ais, para você, suportar reunir todo m undo, e as esposas tam bém , agora...

— Ah, não. Por Deus, não! — respondi todo j ovial. — Isso não m e perturba nem um pouco.

Outra pausa. Então, ele disse:

— Estava pensando se você gostaria de vir ao restaurante, então. Ele queria dizer o restaurante dele, que foi a razão pela qual fom os apresentados, na época do Jantar Fora para Iniciantes. Respondi: — Bom , boa ideia, Luke! Talvez na próxim a... 55

— Só eu, você e o Nate. Só os hom ens. Sem esposas. A gente poderia j antar cedo e, então, você poderia ir para casa quando tivesse vontade. O que acha?

Não queria fazer aquilo tam bém , m as o que podia dizer? Ele tivera a boa vontade de organizar tudo. Os dois tiveram boa vontade. Duvido que teria feito o m esm o se estivesse no lugar deles. Eu era m ais do tipo “seguindo em frente”; do tipo “talvez, se eu não m encionar sua perda, você esqueça o que aconteceu”. Para falar a verdade, desej ei que eles fossem assim tam bém . Mas tudo bem : era preciso acabar logo com aquilo. Encontrei os dois logo após o trabalho, na noite seguinte, um a terça-feira chuvosa e cheia de vento no m eio de setem bro. Havia chovido o dia inteiro e as condições na estrada estavam terríveis. Ainda por cim a, não conseguia encontrar vaga para estacionar. Quando finalm ente entrei no restaurante (toalhas de linho branco, piso de tábuas largas, certa am abilidade cansada), Nate e Luke j á estavam sentados a um a m esa. Eles form avam um a dupla pouco provável. Nate era sofisticado, som brio e profissional em seu terno preto de advogado, enquanto Luke era um daqueles tipos de um a cor só, cabelo-bege-pele-bege, em calças cáqui esfarrapadas e com um a barriguinha protuberante. No entanto, pareciam não ter problem as para encontrar assuntos para discutir, a j ulgar pela m aneira com o as cabeças estavam próxim as. Tive a clara im pressão de que estavam falando sobre m im : com o lidar com igo, quais tópicos seria seguro discutir com igo. Mal tinha puxado a cadeira para m e sentar quando Nate perguntou: — E esse tem po, hein? — em um tom j ovial com o qual eu não estava fam iliarizado.

E Luke em endou a pergunta com :

— Você tem acom panhado os Orioles?

Eu m e senti com pelido a responder em um a voz gentil, m ais alta que o norm al e com m ais entusiasm o:

— Sabe que não tenho acom panhado os Orioles ultim am ente? — respondi, e im ediatam ente quis tom ar as palavras de volta, porque sabia que seria m al interpretado.

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E foi o que aconteceu. Nate disse:

— Bem , é claro que não tem acom panhado. Você tem coisas m uito m ais im portantes com que se preocupar.

— Não, eu só quis dizer que...

— Você dois deveriam experim entar as ostras! — interrom peu Luke. — Já está na época de ostras!

Luke era um hom em tão quieto que era bizarro vê-lo tão anim ado. Além disso, ele claram ente se sentia pouco à vontade ali, parado, em seu local de trabalho. Ficava olhando de relance para as outras m esas, erguendo as sobrancelhas de m aneira significativa para os garçons, fazendo cara feia por cim a da cabeça de Nate em direção à cozinha. — Pessoalm ente, recom endo as ostras cruas — ele m e disse, de m aneira distraída —, m as, se preferir, pode pedir as... hum ... — então parou para tentar ouvir o que um hom em baixo, de avental m anchado, sussurrava em seu ouvido.

— ... as ostras à Rockefeller, ostras à Rockefeller — Nate com pletou a frase para ele. — São ótim as! Eles usam um bacon especial que vem do norte do Estado de Nova York.

— Você j á com eu aqui antes? — perguntei.

— Sim , nós viem os aqui sem ana passada — respondeu e, então, deu um leve sorriso, que não consegui entender no m om ento. Será que foi porque ele deixou escapar que ele e Luke j á tinham se encontrado antes, talvez para cogitar sobre o “problem a do Aaron”? Não, pensando bem , deve ter sido o “nós” que o constrangeu, porque, em seguida, ele disse, com o se estivesse se corrigindo: — Depois que o conheci, pensei em experim entar a com ida daqui. Então, aparentem ente, o plano daquela noite era evitar m encionar qualquer coisa sobre esposas. Fingir que nenhum deles tinha esposa. Enquanto isso, Luke, que tinha se virado para nós depois que o hom em do avental fora em bora, disse:

— Desculpe, m as a chef ficou sem costeletas de cordeiro, só isso — e eu sabia que ele era casado com a chef. Sob circunstâncias norm ais, ele teria dito 57

 

que Jane ou Joan ou sei lá qual era o nom e dela ficara sem costeletas de cordeiro, e tam bém a teria apresentado para m im . Mas aquelas não eram circunstâncias norm ais.

Eu m e tornei perverso. Às vezes, isso acontece. Com ecei a m encionar esposas pelos cotovelos — cada elocução da palavra “esposa” caindo com um baque surdo sobre a m esa com o um a pedra.

— Sua m ulher tam bém gostou das ostras à Rockefeller? — perguntei a Nate.

Ele se m exeu na cadeira e respondeu:

— Ah, hum ... Ela não com e frutos do m ar.

— Você sabe, nunca parei para pensar nisso... — disse a Luke. — Sua m ulher virou chef antes de vocês se casarem ou depois? — Ééé, na verdade, foi antes — respondeu. — Bom , precisam os tom ar um a decisão sobre o vinho. — E, acom odando-se m ais à frente na cadeira, cham ou o garçom , ansioso.

Então, m e com padeci e deixei a conversa fluir para canais m ais ou m enos norm ais. Nate se revelou um am ante da com ida pela com ida, falando sem parar sobre fazendas de ostras e o m elhor fornecedor de carne de porco orgânica. Luke, de quem se esperaria a m aior preocupação com esse tipo de coisa, não parecia nem um pouco interessado e passou a m aior parte do tem po de olho naquilo que as outras pessoas estavam com endo, ou não com endo o suficiente, ou com o que elas pareciam satisfeitas. Dentro de um período suportável de tem po, conseguim os sobreviver àquela noite. — Precisam os fazer isso de novo! — disse Nate, enquanto nos despedíam os, e Luke reforçou:

— Sim ! Vam os fazer disso um a coisa frequente! Ah, ou não. Mas fiz que sim com a cabeça, cheio de entusiasm o, e apertei as m ãos deles. Agradeci a Luke pelo j antar, que ele se recusou a nos deixar pagar.

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Não agradeci a nenhum dos dois pelo evento em si — pelo ato de se reunirem com igo. Isso im plicaria que aquilo teria sido um gesto de caridade e, com certeza, eu não precisava de caridade algum a.

Então, levantei m eu colarinho, acenei de m aneira desenvolta para os dois, com m inha bengala, e segui em m eio ao tem poral da m aneira m ais pretensiosa possível.

Mesm o assim , tenho que dizer que m e senti um pouco, talvez, desolado, enquanto dirigia sozinho para casa.

A luz do lado de fora deveria se acender autom aticam ente ao anoitecer, m as parece que a lâm pada queim ara. Mais um aborrecim ento sob a chuva. Pisei em algum as poças enquanto andava pela calçada até m inha casa, e a barra da calça j á estava bem m olhada. Destranquei e enfiei a m ão pela porta, para acender a luz do hall de entrada, m as, pelo j eito, estava queim ada, tam bém . E, ao tentar abrir a porta totalm ente, encontrei algum tipo de resistência. Um barulho de alguém pisando em cascalho m e assustou. Olhei para o hall escuro e consegui enxergar o contorno de vários obj etos brancos e irregulares. Eu os cutuquei com um pé. Pedras? Não, gesso. Pedaços de gesso. Em purrei a porta com m ais força e ela se abriu m ais alguns centím etros. Meus olhos j á estavam aj ustados à escuridão. Contra a cor preta do chão, vi fragm entos brancos e então um m onte de branco — pedrinhas, torrões e folhas brancas. Pensando bem , o ar que eu estava respirando naquele m om ento estava cheio de pó. Senti a vontade de tossir se acum ular na garganta. E então ouvi um gotej ar alto e contínuo, vindo de algum lugar dentro da casa. Fechei a porta de novo. Voltei para o carro, pisando nas m esm as duas poças novam ente, e m e sentei atrás do volante, onde passei vários m inutos recom pondo os pensam entos. Então, respirei fundo, trem endo, e coloquei a chave na ignição.

E foi assim que fui m orar com m inha irm ã.

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CAPITULO 4

Nandina m orava na casa em que crescem os, um sobrado com um a grande varanda à frente e telhado m arrom , ao norte de Wy ndhurst. Mesm o sob a chuva, ficava a apenas cinco m inutos de carro. Quase desej ei que ficasse m ais longe. Chegando lá, estacionei em frente à casa, m as fiquei no carro por um m inuto, pensando em com o deveria dizer aquilo. Não queria confessar o estado real de m inha casa, porque Nandina j á estava m e enchendo a paciência há sem anas para que eu com eçasse a reform a. Mas se eu sim plesm ente aparecesse sem nenhum a explicação e pedisse m eu antigo quarto de volta, ela pensaria que eu estava tendo um a crise nervosa ou algum a coisa assim . Ficaria toda m aternal e cuidadosa. Ela ficaria em ocionada. Bem , com o acontece às vezes, ela m e surpreendeu. Abriu a porta da frente quando apertei a cam painha e então analisou a situação — m eu cabelo m olhado, as roupas úm idas, os flocos de gesso branco presos à barra da m inha calça. Então, disse:

— Entre e fique no tapete, enquanto vou buscar um a toalha. — É que... entrou um pouco de água no hall de entrada — contei a ela. Ela estava a cam inho da cozinha, m as gritou de volta: — Tire os sapatos e deixe-os aí.

— Eu estava pensando em ... Só por esta noite... Mas ela tinha desaparecido. Fiquei ali, pingando sobre o tapete, inspirando os cheiros de m inha infância — cera em pasta da Johnson e papel de parede m ofado. Mesm o durante o dia, a casa era escura, com suas j anelas pequenas, estranham ente localizadas, e tecidos pesados. Nessa noite, parecia tão som bria que m e senti obrigado a piscar continuam ente para lim par a visão. — Seus sapatos, Aaron. Tire os sapatos — m andou Nandina, de volta. Ela trazia um pano de prato desbotado. Esperou enquanto tirava m eus sapatos e 60

tam bém o suporte, e então m e deu o pano de prato. Era um daqueles panos de prato com calendário, que nossa m ãe pendurava acim a da m esa da cozinha. “1975”, dizia. Sequei o rosto e então o cabelo.

Nandina perguntou:

— Cadê sua bengala?

— Não sei.

— Você a deixou no carro?

— Talvez.

— Você trouxe algum a roupa?

— Não.

Ela se aproxim ou um pouco, apesar de saber que não adiantava oferecer o braço, e entram os na sala de estar. Ela tinha cheiro de xam pu e estava usando um roupão quadriculado (m inha irm ã era um a das últim as m ulheres dos Estados Unidos a colocar um roupão para ficar em casa, todos os dias, ao final do dia de trabalho). Ela esperou que eu m e aj eitasse no sofá e então disse: — Vou ver se você tem algum chinelo aqui.

Provavelm ente eu tinha. E m ais um m onte de outras coisas. Minha m ãe nunca havia esvaziado m eu quarto depois que saí de casa. Enquanto Nandina estava no andar de cim a, afundei-m e no sofá e olhei para o teto. Era realm ente um teto m uito sólido, o gesso cor de crem e, de antigam ente, que tinha um m edalhão no centro, e nenhum a rachadura, nem m esm o fina com o um fio de cabelo à vista.

Lem brei do carro de m eu colega de quarto, na faculdade: um Chevrolet que m ais parecia um a pilha de ferrugem , que vivia engasgando por m otivo algum . Um dia, o carro finalm ente m orreu. Ele saiu do carro, desparafusou a placa e partiu andando com ela. Nunca olhou para trás. Queria poder fazer o m esm o com m inha casa. Eu não sentiria falta de absolutam ente nada. Deixe que desapareça da face da Terra. Não m e im portaria nem um pouco. 61

Nandina voltou com um par de m ocassins de veludo cotelê, dos quais eu tinha m e esquecido com pletam ente. E m e trouxe o suporte, que coloquei antes de experim entar os m ocassins.

— Então — Nandina disse —, você j á j antou? — Hum , j á.

— Aaron — ela protestou.

— O quê?

— Diga a verdade.

— Com i m eia dúzia de ostras cruas, um bolinho de caranguej o, purê de batata com alho, um a salada “deusa verde”, torta de m açã com chantili e duas taças de vinho.

— Nossa! — Nandina exclam ou.

Tentei não parecer convencido.

— E qual é exatam ente — ela perguntou —, o estado atual da sua casa? — Ah... — fiquei pensando. — Bem , no m om ento, o teto do m eu hall está m eio cheio de água.

— Entendo.

— Poderia acontecer com qualquer pessoa — expliquei. — Ontem choveu a noite toda, lem bra? E hoj e, o dia todo tam bém . Nandina disse:

— Mas m e parece que...

— Mas podem os f-f-f-falar sobre isso am a-m a-m anhã? — perguntei. — É que agora estou exausto. Tem lençol na m inha cam a? — É claro.

Sim , é claro, por que é que fui perguntar? Eu m e levantei, bocej ei e m e espreguicei com afinco.

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— Acho que j á vou, então — eu disse. — Obrigado por m e acolher assim , sem avisar. Prom eto que não vou incom odar você por m ais de um a noite ou duas.

— Aaron, você pode ficar aqui para sem pre. Não precisa m e avisar. Eu m e sentia tão derrotado que a ideia de ficar ali para sem pre quase m e pareceu tentadora.

Meu quarto ficava no andar de cim a, na parte de trás da casa, perto do quarto de Nandina (que tinha sido dela desde a infância, em bora tivesse feito m ais sentido se ela tivesse se m udado para o quarto de nossos pais, que é m aior e m ais ilum inado, depois que eles m orreram ). Estava exatam ente com o o deixei quando fui para a faculdade: os m odelos de aviõezinhos enfileirados nas prateleiras; os discos de vinil do U2 e do Tom Petty ainda em pilhados abaixo do som . Achei um a calça de pij am a velha na côm oda, troquei de roupa e chequei a estante de livros em busca de algo para m e aj udar a dorm ir. Mas lá tive m enos sorte. Só consegui ver edições m altrapilhas de j ogos m atem áticos e quebra-cabeças lógicos. Quando criança, eu era bom neles, apesar de, às vezes, quando chegava a um problem a sem solução, um a parede intransponível (quase com o eu m e sentia realm ente, com vontade de bater a cabeça na parede), ficar bem violento, j ogando e quebrando coisas. Quando levo m inha m ente de volta àquelas cenas, m e vej o do lado de fora: intransigente e desesperado, o cabelo espetado, enquanto m inha m ãe ficava a um braço de distância tentando m e acalm ar, tentando m e segurar, m urm urando frases racionais:

— Aaron, por favor! É apenas um passatem po. Descanse um pouco e depois volte para eles, que tal?

Para onde aquela paixão toda tinha ido? Eu não era m ais assim , ainda bem .

Era obcecado por truques de m ágica. Eu os praticava por dias a fio e, então, com eçava a atorm entar os adultos.

— Escolha um a carta. Qualquer carta. Não m e m ostre. Espere aí! Você m e m ostrou a carta!

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E queria fazer carreira com o com ediante de stand-up. Eu decorava piadas de revistas e as testava com os parentes. — Então, esse cara estava andando pela rua até o reloj oeiro, todo corcunda, com um relógio carrilhão nas costas. Ele estava levando o carrilhão para o conserto, sabe. Daí, encontrou um am igo na rua, e o am igo disse... o am igo disse...

Mas nunca conseguia passar daquela parte sem cair na risada. Juro, eu achava que era a piada m ais sensacional que j á tinha ouvido na vida. — O am igo diz: “Você j á... você j á...”

Eu ficava sem ar de tanto rir, chorava de rir. Minhas bochechas ficavam cobertas de lágrim as e m eu estôm ago doía, e os tios ou tias que estavam m e escutando sim plesm ente sorriam para m im com cara de dúvida. — “Você j á pensou em com prar um relógio de pulso?” — O quê? — eles perguntavam , porque àquela altura eu j á estava ininteligível. Mas até repetir a piada era um grande esforço, porque eu rolava no chão de tanto rir.

Enxerguei isso do lado de fora, tam bém : m eu “eu” alegre, atabalhoado, com os braços ao redor de m inhas costelas e m eu corpo inteiro enroscado nessa agonia de pura alegria.

Não é à toa que nunca tive filhos. Eles teriam m e deixado triste dem ais. Quando Dorothy e eu estávam os nam orando, m al falávam os sobre filhos. Acho que Dorothy m encionou um a vez ou duas que não estava interessada, m as você não poderia cham ar aquilo de um a conversa séria. Então, agora, não haveria um a próxim a geração, porque não podia ver Nandina arrum ando um par tão tarde assim . A linhagem term inaria com nós dois. E não havia nada de m al nisso, pensei.

— Você não tinha percebido nenhum a m udança — m inha m ãe m e contou. — Você voltou de carro do hospital todo feliz, saltitante e contente de estar indo para casa, e se esborrachou do banco de trás antes que qualquer um de nós pudesse te alcançar...

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— Não quero ouvir — eu disse.

— ... e sua perna falhou e se dobrou, então você se sentou, com força, na calçada, m as não chorou. Estava tentando sorrir, m as apenas um lado de seus lábios se virava para cim a, então você olhou para nós dois com essa expressão confusa no rosto, m as ainda estava tentando...

Eu pedi:

— Mãe, pare! Eu não quero ouvir, j á falei!

Ela podia ser m eio devagar, nossa m ãe. Eu sabia que ela só queria o m elhor para m im , m as, m esm o assim , parecia que tinha passado m inha infância tentando afastá-la de m im . Era só: “Não!”, “Sai daqui!” e “Eu consigo fazer sozinho!”. Nunca passei pela porta sem que ela gritasse atrás de m im : — Não esqueça sua bengala!

— Não preciso de m inha bengala!

— Precisa da bengala, sim . Lem bra o que aconteceu no m ês passado no Estádio Mem orial?

Eu rangia os dentes e parava no m eio do cam inho, olhando para a rua, até ela se aproxim ar trazendo a bengala.

Ela m orreu em 1998, apenas seis m eses depois de nosso pai. Ataques cardíacos, os dois. Agora, quando m e lem bro de com o ela ficava m e cercando, até que não era tão ruim assim . Parecia com ovente. Mas eu sabia que, se ela aparecesse aqui nesse m om ento e m e perguntasse o que é que eu estava pensando, indo dorm ir usando a cam isa que tinha usado o dia inteiro, eu responderia, m al-educado, m ais um a vez:

— Me deixe em paz! Não tem problem a!

Caí no sono quase instantaneam ente, pela prim eira vez desde a m orte de Dorothy . Sonhei que Jim m y Vantage ainda m orava na casa ao lado, apesar de, na verdade, ter se m udado no final do sétim o ano. A gente foi até Stony Run procurar tartarugas. Mas Jim m y andava rápido dem ais para m im e eu não conseguia acom panhá-lo. Em certo ponto, eu estava engatinhando na calçada, gritando e pedindo que ele dim inuísse o ritm o. O que era estranho, porque, 65

 

geralm ente, em m eus sonhos, eu tendo a ter um corpo m ais que totalm ente capaz. Praticam ente tenho asas. Mas, nesse sonho em especial, é com o se eu estivesse cheio de nós, enrolado e arquej ando em busca de ar. Então, acordei e, por um m om ento, pensei que ainda podia sentir o cim ento áspero da calçada nas palm as das m ãos.

Nandina disse que sabia exatam ente para quem ligaria: Cartola Reparo de Telhados. Eles vinham substituindo as telhas da casa de nossos pais há m uitos anos, ela disse, e tinha certeza de que entenderiam que m eu telhado teria de ser prioridade.

— Vou ligar para eles hoj e — ela disse. — E você, enquanto isso, deveria ligar para seu agente de seguros. Ou j á fez isso? — Hum ...

Ela m e deu um olhar ultrapaciente e, depois, um de “eu te conheço, m alandro”. Eu não era fã daquele olhar. Estávam os sentados à m esa da cozinha, com chá e cereal de m ilho — o café da m anhã tradicional de nossa fam ília, que eu tinha trocado anos atrás por café e torrada —, e ela tinha um bloco de anotações à frente, onde estava tom ando notas. Eu tam bém não era fã dos blocos de anotações dela. Eu disse:

— Não se preocupe. Tenho tudo sob controle.

— O que você quer dizer por “tudo”?

— O agente de seguros, o telhado... e vai ser m uito m ais que só o telhado. Isso m ostra o quanto você sabe sobre isso. Eu preciso de um em preiteiro.

— E você conhece algum ? — ela quis saber.

— É claro.

Não parecia m uito convencida.

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Eu disse:

— O nom e dele é... — E então com ecei a dizer de novo, com o alguém que lem bra os passos que percorreu para dar um grande salto. — O nom e dele é... Gil Bry an.

Foi a im agem da pele brilhante sob os olhos dele que trouxe o nom e à tona, finalm ente. Eu disse:

— Vou ligar para ele hoj e, para falar tam bém do que aconteceu com o teto.

— Bom — disse Nandina. — Então, tudo bem , acho. Ela parecia quase desapontada.

Fom os para o centro da cidade em carros separados, por insistência m inha. Eu disse:

— Quem sabe? A gente pode querer ir em bora em horários diferentes. — Não m e im porto em m udar m eus horários. — Mas, além disso — insisti —, posso ter de passar em casa depois do trabalho para pegar um as coisas.

— Quer que eu vá com você?

— Não.

Na verdade, não tinha intenção nenhum a de ir até em casa. Eu tinha revirado a côm oda e o guarda-roupa em m eu antigo quarto e encontrado m ais roupas que o necessário para aquilo de que precisava, contanto que não fosse exigente dem ais: cuecas frouxas e m eio infantis, calças j eans que m e serviam bem , apesar de terem a cintura um pouco alta, e um a cam isa azul de botões do oitavo ano. Você pode achar que cam isas de botões são eternas, m as o colarinho dessa estava um pouco espigado. Bem , deixa para lá! Para fazer a barba, dei um j eito com o barbeador descartável de plástico que tinha encontrado entre os suprim entos de reserva de Nandina no banheiro. Geralm ente, uso um barbeador elétrico. Fiz um a anotação m ental de com prar um novo em m eu horário de alm oço.

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Foi a prim eira vez que adm iti que não conseguiria encarar a visão de m inha casa: quando percebi que preferiria com prar um barbeador elétrico novo a buscar o m eu antigo no arm arinho do banheiro. Então, assim que cheguei ao trabalho, tranquei-m e em m inha sala e com ecei a fazer ligações. Prim eiro, deixei um a m ensagem na secretária eletrônica de m inha agência de seguro — para a em presa em geral, pois nem m e lem brava de quem seria m eu agente, j á que nunca tive que acionar o seguro antes. Depois, fiz um a busca na Internet por “gil bry an em preiteiro baltim ore”. Nenhum Gil à vista, m as havia um a “Irm ãos Bry an Em preiteiros Ltda.”. Liguei para o núm ero e, dessa vez, a ligação chegou a um ser hum ano de verdade. — Alôôô — disse um hom em , alto dem ais.

— Irm ãos Bry an?

— É.

— Gil Bry an?

— Não.

— Mas vocês têm um Gil Bry an?

— É.

— Eu poderia falar com ele, por favor?

— Ele saiu.

— Posso deixar um recado para ele?

— Anote aí o núm ero do celular dele.

Anotei o núm ero, m as não tentei ligar logo. A conversa com o prim eiro cara j á tinha m e cansado.

E se eu sim plesm ente vendesse a casa? Colocá-la no m ercado com o “precisa de reform as” (eles não sabem o quanto!). E pagar um a pessoa para pegar m inhas coisas, assim eu j am ais teria de colocar os pés lá dentro de novo. Com certeza, haveria pessoas que a gente poderia pagar para fazer isso. Eu 68

alugaria um pequeno apartam ento, j á m obiliado. Se algum a coisa acontecesse com ele, alugaria outro.

O livro sobre observação de pássaros j á tinha ido para Irene e eu estava trabalhando em um dos títulos independentes: Minha Guerra, do sr. George S. Hogan. No escritório, nós cham ávam os o livro de Guerra Núm ero Sessenta e Quatro. Por que é que tantos hom ens viam seu tem po de serviço m ilitar com o o evento decisivo de suas vidas? Eles poderiam ter vivido 90 anos ou m ais, ter se casado várias vezes e tido m eia dúzia de filhos e carreiras im pressionantem ente bem -sucedidas; m esm o assim , se pudessem escolher um a experiência que os definia, seria o Vietnã, ou a Coreia, ou a invasão da Norm andia. Isso era especialm ente difícil de im aginar no caso do sr. Hogan, porque sua guerra particular soava totalm ente tediosa: “Meu m elhor am igo no quartel era Cy Helm . Ele era um rapaz m uito bom . Não poderia ter pedido um am igo m elhor que o velho Helm , é o que sem pre digo”. Além de colocar um a vírgula depois de “velho Helm ”, não m exi m ais no texto. Era nossa política com os originais para publicação independente (algum as pessoas não queriam nem as vírgulas a m ais). Dei um a olhada em m ais três páginas e, então, esfreguei os olhos, espreguicei-m e e m e levantei para pegar um café.

Charles estava j ogando paciência no com putador. Ele era um hom em baixinho e atarracado, com o rosto eternam ente verm elho, um pouco m ais velho que o restante do pessoal do escritório, e tinha seus próprios horários m isteriosos com os quais ninguém interferia. Pelo j eito, Irene havia saído e Peggy estava enchendo a leiteira de crem e.

— Ah, pobre Aaron! — ela disse, ao m e ver. — Fiquei sabendo sobre seu teto.

Mandei um olhar m alevolente, de relance, para a porta da sala de Nandina.

— Quem você vai contratar para fazer o conserto? — ela perguntou. — Um cara.

— Porque eu conheço um bom ...

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— Não se preocupe. Já resolvi — respondi.

E com pletei:

— Obrigado m esm o assim ! — porque eu poderia ter soado um pouco abrupto.

Peggy não pareceu ter se ofendido. Ela m e passou a leiteira de crem e, com a alça virada para m im , e perguntou:

— Com o vai o livro do sr. Hogan?

— Ah, ele tinha esse am igo m uito bom , sobre o qual estava lendo agora m esm o — contei a ela. — Muito bom m esm o. Sabe: um am igo m uito, m uito bom .

Peggy sorriu para m im . Ela era um a daquelas pessoas sem noção de ironia (bem , a não ser que você considerasse seu estilo de se vestir: com o um a m enininha cam ponesa; às vezes, acho que isso poderia ser levado em consideração). Mesm o assim , senti com o se tivesse que continuar, agora que estava afiado.

— Acho que poderia ser pior — eu disse. — Poderia ser Meus Anos com a Câm ara dos Vereadores. Esse é m eu sonho com o editor. Então, Charles entrou na conversa, de sua m esa do outro lado da sala: — Eu votaria em A Vida de um Advogado de Im óveis — ele disse, sem tirar os olhos da tela do com putador.

— Ah, com certeza! Com o eu poderia ter m e esquecido desse? — Você se lem bra do Reform a de Cozinhas para Iniciantes? — Peggy m e perguntou.

— Sii-i-im — respondi. Mas m inha m ente não tinha registrado aquele, por algum a razão.

— Eu estava pensando: o livro poderia ser útil agora que você está reform ando a casa.

— Uau! — falei. — Eu poderia m esm o consultar um de nossos livros? 70

Ela fez que sim com a cabeça, solenem ente.

— Meu Deus — eu disse —, aqueles livros não foram feitos para serem usados!

— Não?

— Bem , não de m aneira séria. Eles são m ais com o... um gesto, um presente. Coisas que você dá para outras pessoas.

— Mas, em Reform a de Cozinhas, eles dizem que você deve resolver tudo com o em preiteiro prim eiro, antes que ele com ece o trabalho. Achei que fosse im portante saber isso.

O “eles” a que ela se referia era eu m esm o, claro — eu e um proj etista de cozinhas aposentado do Condado Anne Arundel. Então, só respondi: — Ah, verdade. — E levei o café de volta para m inha sala, sem a m enor intenção de seguir a sugestão dela.

— Diga a ele que é o com prador que dá as cartas nesse m ercado, antes de decidir sobre o preço — Charles gritou para m im . — Com prador? Vendedor? Algum a coisa assim .

— Está bem .

O sr. Hogan estava descrevendo m anobras de cam po: “Sm ith e Donaldson estavam posicionados à m inha esquerda, a uns 45 m etros, e Merritt e Helm estavam escondidos no m atagal à m inha direita, m as eu não podia vê-los porque havia um a inclinação considerável no terreno, que se estendia por uns 180 m etros a norte-nordeste ao longo do...”. Meus olhos vaguearam em direção à estante de livros. A série Para Iniciantes ocupava várias prateleiras — um arco-íris de lom badas finas e brilhantes de tam anho idêntico. Eu m e levantei e fui exam iná-los m ais de perto. Os livros estavam expostos de acordo com a data de publicação, do m ais antigo para o m ais recente. Reform a de Cozinhas havia sido lançado m uitos anos atrás e estava na prateleira m ais alta. Eu o tirei de lá. “Saber o que você quer” era o prim eiro capítulo (“Em sua cozinha atual, onde você corta e pica os alim entos? Se é que VOCÊ corta e pica os

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alim entos”). “Conversando com o em preiteiro” era o segundo. Quase todo o restante do livro consistia de o que, agora, parece-m e um plano detalhado e desorganizado para construir um a cozinha interina no banheiro sobressalente. Levei o livro para m inha m esa e m e sentei para ler o capítulo sobre o em preiteiro. Aparentem ente, o elem ento essencial era controle. “Não pense que, depois de inform ar suas diretivas, você pode sim plesm ente relaxar e deixar seu em preiteiro fazer o que quiser. Insista que ele ou ela envie um prazo detalhado, por escrito, estabelecendo os passos a serem com pletados nas datas definidas. Sem analm ente, m arque reuniões para falar dos prazos e peça que ele ou ela apresente um com provante das despesas daquela sem ana.” Esta coisa do “ele-ela” era culpa de Nandina, apesar de ela sem pre passar longe da edição dos textos (para com eçar, não sabia nem soletrar. Era um a das m ulheres m ais inteligentes que eu conhecia, m as não conseguiria soletrar o bastante para salvar a própria vida). Fechei o livro, ainda m arcando a página com o dedo indicador, e estendi o braço para pegar o telefone. Pressionei os núm eros do telefone de Gil Bry an que tinha anotado.

— Alô? — ele disse.

Pelo m enos, não era rude com o o outro hom em . Ele falava em um nível norm al, sobre o barulho de algum a ferram enta elétrica ao fundo. Perguntei: — Gil Bry an?

— Sim .

— Aqui é Aaron Woolcott. Sou o dono daquela casa na Rua Rum or onde a... onde a...

Por algum m otivo idiota, não conseguia fazer as palavras saírem . — Onde a árvore caiu — Gil Bry an com pletou. — Certo. Mas, m esm o com a aj uda dele, não consegui continuar. Não posso explicar o que aconteceu. Meus olhos se encheram de lágrim as e não podia contar com m inha voz.

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— Você está pensando em consertar o telhado? — ele perguntou, um m om ento depois.

Engoli em seco e respondi:

— Sim .

— Posso ir aí e dar um a olhada, se você quiser. — Não estou lá — respondi. Lim pei a garganta.

— Então, talvez quando você for para casa, depois do trabalho? — Quer dizer, nunca estou lá. Estou m orando com m inha irm ã. Aquela chuva de ontem se infiltrou pela lona, e o teto do hall de entrada caiu. Gil Bry an assobiou por entre os dentes.

— Eu estava pensando... — continuei. — Você poderia passar na casa de m inha irm ã lá pelas 5h30, pegar a chave e dar um a olhada? — Ir lá sozinho. É isso?

— Sim .

Houve um a pausa. Então, ele disse:

— Bom , acho que posso fazer isso. Mas preferiria que você viesse j unto. Eu não disse nada.

— Então, tudo bem — falou. — Vou sozinho.

— Obrigado!

— E você quer que eu vej a só o telhado? Ou a parte de dentro tam bém ? — Tudo. Eu não sei. Dê um j eito. Você decide. — Tudo? Qual é o prazo que você tem em m ente? — Não tenho a m enor ideia — respondi. — O tem po que for necessário, acho.

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