O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir

Então, peguei m inhas coisas e saí…

Então, peguei m inhas coisas e saí pisando duro zangado com todos e ainda m ais zangado com igo m esm o, por ter ficado doente. Odeio parecer um inválido!

No entanto, um a vez sozinho no carro, m e perm iti uns gem idos e resm ungos. Espirrei e deixei sair um “aaaaaah”, com o se estivesse m uito m ais doente do que realm ente estava. Olhei de relance para o espelho retrovisor e vi que m eus olhos estavam cheios de lágrim as. Meu rosto estava verm elho e m eu cabelo, úm ido e em baraçado.

Nós m orávam os perto da Alam eda Cold Spring, em um a área m alcuidada, cheia de árvores, a alguns m inutos de carro do centro da cidade. Nossa casa era térrea, pequena e branca. Não exatam ente o que você poderia cham ar de “chique”, m as, pensando bem , eu e Dorothy não éram os do tipo que lê revistas de decoração. A casa nos servia m uito bem : tudo em um único andar, com um solário cheio de luz adj unto à sala de estar, onde colocávam os o com putador e em pilhávam os as revistas de m edicina de Dorothy . Minha intenção era ir diretam ente para o solário e trabalhar um pouco. Tinha trazido um original para casa para editá-lo. No entanto, j á na m etade da sala de estar, m e vi fazendo um desvio para o sofá. Eu m e afundei nele e resm unguei de novo, então, deixei que os papéis caíssem no chão e m e estiquei todo.

Mas você sabe com o um resfriado reage à posição horizontal. Im ediatam ente, não conseguia m ais respirar. Minha cabeça parecia um a bala de canhão. Esperava cair no sono; no entanto, de repente fiquei alerta, irritadiço e rabugento. Com ecei a achar a bagunça norm al de nossa sala de estar extrem am ente irritante — o m iolo da m açã escurecendo sobre a m esinha de centro, as roupas para passar em pilhadas na poltrona, os j ornais sobre o sofá interferindo com a localização de m eus pés. Um a parte de m inha m ente se tornou repentinam ente arroj ada e m e im aginei saltando do sofá e colocando tudo no lugar, até arrastando o aspirador de pó para cá e fazendo algum a coisa quanto àquela m ancha no carpete em frente à lareira. Meu corpo continuava deitado ali, lerdo e cheio de dor, enquanto m inha m ente repetia freneticam ente as m esm as tarefas. Fiquei exausto.

O tem po deve ter passado de algum a m aneira, porque, quando ouvi a cam painha tocar, olhei para o relógio e vi que passava do m eio-dia. Eu m e 16

 

levantei com um suspiro e fui até o hall de entrada abrir a porta. Nossa secretária estava ali com um saco de superm ercado apoiado no quadril.

— Já está se sentindo um pouco m elhor? — ela m e perguntou. — Ah, sim .

— Bom , eu trouxe sopa para você — ela disse. — A gente sabia que você não faria alm oço.

— Obrigado, m as não estou...

— É m elhor prevenir que rem ediar! — ela recitou. Em purrou a porta com o cotovelo e entrou. — As pessoas sem pre se perguntam qual é a versão certa: “É m elhor prevenir que rem ediar” ou “Prevenir é m elhor que rem ediar”, m as contanto que não usem o “do que rem ediar”, acho que as duas construções estão certas.

Nessa altura, ela j á havia passado por m im no hall de entrada — um a daquelas m ulheres que têm certeza que sabem o que é m elhor para você em todas as situações. Na verdade, não m uito diferente de m inha irm ã, a não ser pelo fato de Nandina ser alta e desaj eitada, enquanto Peggy era gordinha e com covinhas — um a pessoa dourada e cor-de-rosa, com um a nuvem de cachos dourados e um a adoração por roupas rendadas dem ais de loj as de caridade Eu Gostava de Peggy (fizem os o ensino básico j untos, o que pode ter levado m eu pai a contratá-la), m as toda aquela gentileza era só fachada. Era ela quem segurava as rédeas daquele escritório; ela era m uito, m uito m ais que um a secretária. Sem pre que tirava um dia de folga, o resto de nós sim plesm ente desm oronava — e não conseguia nem achar o gram peador. Agora, ela j á estava a cam inho da cozinha, infalível, pé ante pé em suas sapatilhas chinesas, apesar de nunca ter pisado em nossa cozinha antes, até onde eu m e lem brava. Fui atrás dela, dizendo:

— Sério, não estou com fom e. Não estou com fom e m esm o. Tudo que eu quero fazer é...

— Só um pouquinho de sopa? — ela perguntou. — Sopa crem osa de tom ate? Ou de frango com m acarrão?

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— Nenhum a das duas — a frase saiu m ais com o “denhuba das duas”. Eu poderia estar em um com ercial para spray nasal.

Ela continuou:

— A sopa crem osa de tom ate foi ideia de Nandina, m as eu pensei na sopa de frango por causa da proteína.

— Denhuba das duas! — respondi.

— Então tá, só um chá. Meu chá m ágico para dor de garganta. Ela colocou o saco de com pras sobre o balcão e tirou de lá um a caixa do chá Constant Com m ent.

— Eu com prei descafeinado — explicou — para não interferir no seu sono. Porque, você sabe, o sono é a m elhor cura para tudo. — Em seguida, vieram um lim ão e um pote de m el. — Você deveria voltar para o sofá. — Mas eu não...

“Não” virou “dão”. Peggy m e escutou, finalm ente. Ela se virou da pia, onde j á tinha com eçado a encher a chaleira.

— Olha só sua voz! — ela disse. — Será que devo ligar para Dorothy ? — Não! — “Dão”.

— Posso deixar um a m ensagem no consultório dela. Eu não teria que interrom pê-la.

— Dão.

— Bom , você é quem sabe — ela disse, e colocou a chaleira no fogão. Nosso fogão era tão antigo que você tinha que acendê-lo com um fósforo, o que, de algum j eito, ela j á sabia, porque pegou a caixa de fósforos sem ter que procurar por ela. Eu m e sentei em um a das cadeiras da cozinha e a vi cortar o lim ão ao m eio e esprem er a m etade em um a caneca, enquanto discutia os poderes com provados da pectina das frutas para aj udar o sistem a im unológico. — Foi por isso que com prei Constant Com m ent — explicou —, porque esse chá tem casca de laranj a. — Então contou que, quando ficava gripada, o 18

 

que raram ente acontecia porque, pelo j eito, sim plesm ente tinha essa resistência natural e inata contra resfriados...

Não é à toa que o nom e do chá é Constant Com m ent (“com entário constante”).

Ela colocou um a quantidade enorm e de m el sobre o suco de lim ão. Juro, pelo m enos um quarto de xícara. Não sei com o haveria lugar para a água naquela caneca. Então, pôs dois saquinhos de chá, am arrando a cordinha na asa da caneca com o dedo m indinho em riste, com o um a dam a de antigam ente — o que ela deve ter feito de brincadeira, porque disse, em seguida, com um sotaque inglês carregado:

— Ah, m as o chá ficará adorável, m eu bom rapaz! Percebi, de repente, que estava com um a dor de cabeça terrível e que tinha certeza de que ela não estava ali até Peggy chegar. Enquanto esperávam os pela infusão do chá, ela foi pegar um a m anta de sofá. Nós não tínham os um a m anta de sofá, até onde eu sabia, m as não consegui dizer isso a ela, porque o silêncio e a paz foram m uito bem -vindos. Então ela voltou, ainda falando. Contou que, quando seu pai ficava resfriado, costum ava com er um a cebola.

— Crua — ela disse —, com o se fosse um a m açã. Ela trouxe um a m anta feita de hexágonos costurados j untos. É possível que tenha encontrado a m anta em nosso arm ário de roupa de cam a, ao lado do quarto, e eu sabia que tínham os deixado o quarto um a bagunça. Bem , é isso que as pessoas devem esperar quando aparecem sem ser convidadas. Ela colocou a m anta ao redor de m eus om bros e a prendeu sob m eu queixo, com o se eu tivesse 2 anos de idade, enquanto eu m e encolhia o m áxim o possível. — Um a vez, quando m inha m ãe ficou gripada, m eu pai a obrigou a com er um a cebola — ela com entou —, m as ela vom itou tudo na hora. Meus ouvidos estavam m eio entupidos, e a voz dela ficou abafada e distante com o algo que você ouve em um sonho. Entretanto, o chá, um a vez pronto, realm ente aliviou a dor de garganta. O vapor quente tam bém aj udou um pouco m inha respiração. Tom ei o chá aos 19

 

goles, lentam ente, aconchegado sob a m anta. Peggy disse que, na opinião dela, seu pai deveria ter cozinhado a cebola.

— Ou talvez ele devesse ter fervido a cebola com m el — continuou —, porque você sabe com o o m el é cheio de propriedades antibacterianas. Agora ela j á estava passando um pano sobre o balcão. Não tentei im pedi-la. Que bem teria feito? Tom ei o restante do chá — o fundo doce de doer o dente — e, sem dizer nada, coloquei a caneca sobre a m esa e voltei para a sala de estar. A m anta m e seguiu fazendo um barulho de “sssshhhh”, arrastando pedaços de lã e m igalhas pelo cam inho. Caí no sofá. Eu m e aninhei em posição fetal para evitar tocar os j ornais e caí em um sono pesado. Quando acordei, a porta da frente estava se abrindo. Achei que fosse Peggy indo em bora. Mas, então, ouvi o tinir das chaves aterrissando na tigela de porcelana no hall. Cham ei:

— Dorothy ?

Ela passou pela porta lendo algum a coisa, um cartão-postal que deve ter encontrado no chão, ao lado da abertura da caixa do correio. Ao olhar para cim a, ela disse:

— Ah. Você está doente?

— Só um pouco resfriado — eu m e esforcei para m e sentar e olhei para o relógio. — São 5 horas!

Ela não m e entendeu e disse:

— Tive um a consulta cancelada.

— Dorm i a tarde inteira!

— Você não foi trabalhar? — ela perguntou.

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— Fui, m as Irene m e m andou voltar para casa. Dorothy deu um a risadinha (ela conhecia o j eito de Irene). — E então Peggy trouxe sopa.

Outra risadinha: conhecia o j eito de Peggy , tam bém . Ela j ogou a correspondência sobre a m esinha de centro e tirou a bolsa estilo carteiro. Dorothy não gostava de bolsas com alça curta. Ela levava sua bolsa estilo carteiro para todo lugar — um negócio de couro m arrom arranhado com os com partim entos tão cheios a ponto de estourar, do tipo que os espiões usavam nos film es preto e branco antigos. Seu j aleco de m édica, que agora ela estava tirando, tinha um a m arca diagonal m eio suj a no peito, por causa da alça da bolsa. Muitas pessoas confundiam Dorothy com a funcionária de um restaurante — m as não a chef. Às vezes eu achava isso divertido, m as nem sem pre.

Quando ela foi para a cozinha, sabia que ia pegar seus biscoitos Triscuits. Era seu lanchinho para o fim de expediente todo dia: exatam ente seis Triscuits, porque seis era a “porção recom endada”, indicada na caixa. Ela dem onstrava um a devoção servil ao conceito da “porção recom endada”, m esm o quando era m etade de um cupcake (o que é m ais com um do que se pode im aginar).

Mas acontece que os Triscuits tinham desaparecido naquele dia. Ela gritou da cozinha:

— Você viu os Triscuits?

— O quê? Não — respondi. Coloquei os pés no chão e estava dobrando a m anta.

— Não consigo encontrá-los. Eles não estão no arm ário. Eu não falei nada, j á que não tinha resposta algum a. Um m om ento depois, ela apareceu sob o arco da sala de j antar. — Você lim pou a cozinha? — perguntou.

— Quem , eu?

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— Não tem nada sobre o balcão. E não consigo encontrar nada. Fiz um a careta e respondi:

— Deve ter sido Peggy .

— Queria que ela não m exesse em nada. Onde ela poderia ter colocado os Triscuits?

— Não faço a m enor ideia.

— Olhei no arm ário, olhei na despensa...

— Tenho certeza que eles vão aparecer algum a hora — respondi. — Mas o que vou com er até lá?

— Biscoitinhos Wheat Thins? — sugeri.

— Eu não gosto de Wheat Thins — disse Dorothy . — Eu gosto de Triscuits.

Encostei a cabeça no sofá de novo. Estava ficando m eio cansado do assunto, para falar a verdade.

Infelizm ente, ela percebeu.

— Isso pode não ser im portante para você — ela disse —, m as não com i nada o dia inteiro. Só tom ei café! Estou m orrendo de fom e. — Bem , e isso é culpa de quem ? — perguntei (a gente j á tinha passado por essa discussão antes).

— Você sabe que sou ocupada dem ais para com er. — Dorothy — tentei —, desde a hora em que você acorda, pela m anhã, até a hora em que chega em casa, à tardinha, fica vivendo de café com leite e açúcar. Principalm ente leite e açúcar. E você ainda diz ser m édica. — Eu sou m édica — respondeu. — Um a doutora que trabalha m uito. Não tenho tem po livre.

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— O resto do m undo tam bém não, m as todo m undo dá um j eito de arrum ar tem po para um a refeição aqui e ali.

— Bom , talvez o resto do m undo não sej a tão esforçado — argum entou. A essa altura ela j á estava com os punhos apoiados no quadril. Parecia um pouco com um buldogue. Eu nunca tinha percebido antes. Ah, por que, por que, por que você tinha que perceber aquilo j usto naquela tarde? Por que eu não poderia ter sim plesm ente dito: “Olha, está na cara que você está fam inta, e isso a está deixando de m au hum or. Vam os para a cozinha achar algum a coisa para com er”?

Eu sei por quê. É porque, logo em seguida, ela disse: — Mas o que você saberia sobre isso? Você e suas enferm eiras, que vêm correndo fazer um a sopinha caseira.

— Não era caseira, era de lata — respondi. — E eu não pedi sopa nenhum a. Nem com i. Eu disse a Peggy que não queria. — Então, com o é que ela foi parar na m inha cozinha? — Ela fez chá para m im .

— Chá! — Dorothy repetiu. Parecia que eu tinha dito “ópio”. — Ela fez chá para você?

— E o que há de errado com isso?

— Você nem gosta de chá.

— Era chá m edicinal, para m inha garganta.

— Ah, para sua garganta — Dorothy falou, com um a com paixão exagerada.

— Eu estava com dor de garganta, Dorothy .

— Um a dor de garganta de nada, e todo m undo vem correndo. Por que isso sem pre acontece? Multidões de funcionários devotados se estapeando para vir tom ar conta de você.

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— Bom , alguém , alg... alguém tinha que m e aj udar — respondi. — Eu não vej o você cuidando de m im .

Dorothy ficou quieta por um m om ento. Então, tirou os punhos do quadril e foi andando até sua bolsa estilo carteiro. Ela a pegou e foi para o solário. Ouvi o couro ranger, quando ela colocou a bolsa sobre a escrivaninha, e o chiado da cadeira giratória.

Discussão idiota. Nós tínham os discussões assim de vez em quando. E que casal não tem ? Não vivíam os num conto de fadas. Mesm o assim , essa discussão em particular m e pareceu especialm ente inútil. Na verdade, eu odiava que cuidassem de m im e havia deliberadam ente escolhido um a m ulher que não ficasse correndo atrás de m im com o esposa. E Dorothy não se im portaria se alguém fizesse chá para m im . Provavelm ente, ela ficaria aliviada. Essa era apenas um a daquelas briguinhas bobas sobre coisas com as quais nenhum dos dois se im portava nem um pouco, m as agora tínham os batido em retirada para nossos cantos e não sabíam os com o sair de lá. Eu m e icei do sofá e cruzei o hall de entrada a cam inho do quarto. Fechei a porta sem fazer barulho e m e sentei à beira da cam a, onde tirei m eus sapatos e m eu suporte (uso um suporte de polipropileno para corrigir pé chato). As tiras de velcro fazem um barulho com o se estivessem sendo rasgadas quando as abro — rec, rec — e estrem eço, porque não queria que Dorothy adivinhasse o que eu estava fazendo. Queria que ela ficasse curiosa, só um pouco.

Fiquei quieto e ouvindo o que ela estava fazendo, m as tudo que consegui escutar foi outro rangido. Não era da bolsa dela. Ela estava longe dem ais para eu conseguir ouvir aquilo. Decidi que provavelm ente era um a das tábuas no chão.

Eu m e estiquei na roupa de cam a am assada e fiquei olhando para o teto. Não havia chance de conseguir dorm ir agora. Tinha acabado de perceber. Eu havia dorm ido a tarde inteira. Deveria ir para a cozinha e com eçar a preparar algum a coisa com um cheiro gostoso, algum a coisa que atraísse Dorothy de seu solário. Que tal um ham búrguer? Eu sabia que tínham os m eio quilo de... CREC! Um rangido ainda m ais alto. Na verdade, não era um rangido, m as o barulho de algum a coisa batendo, porque o rangido se estendeu dem ais e depois se transform ou em TUM!, com batidas m enores em seguida, e 24

 

tinidos, rangidos e baques avulsos. Minha prim eira reação (eu sei que foi ridícula) foi pensar que Dorothy estava m uito m ais brava do que eu pensava. Mas, m esm o enquanto pensava nisso, tive que adm itir que ela não era do tipo que dava chilique. Eu m e sentei na cam a e m eu coração com eçou a m artelar. Cham ei:

— Dorothy ? — saí da cam a com esforço. — Dorothy ! O que foi isso? Cheguei à porta só de m eias e então m e lem brei de m eu suporte. Eu poderia andar sem ele, de algum a m aneira, m as dem oraria dem ais. Voltar para a cam a e colocar o suporte? Não, não tinha tem po para isso. E onde é que eu tinha colocado m inha bengala? Quem saberia? Abri a porta do quarto. Parecia que eu estava na entrada de um a floresta. O hall era um a confusão de galhos, folhas e pedaços de troncos. Até o ar estava cheio de cascas de árvores — pedaços de casca seca flutuando em um a neblina poeirenta, e um pequeno pássaro ou inseto m uito grande surgindo de repente do nada. “Pings!” e “tics!” e “pops!” isolados se m anifestavam , enquanto obj etos diferentes se acom odavam em seus lugares — um painel de vidro caindo de um a j anela, algum a coisa aterrissando no chão de m adeira. Eu m e segurei em um galho m eio quebrado e o usei com o suporte enquanto abria cam inho. Não estava claro o que havia acabado de acontecer. Eu estava em um torpor, talvez até m esm o em choque. Minha com preensão de tudo chegando atrasada. Tudo o que eu sabia era que a floresta ficava m ais fechada na sala de estar e que Dorothy estava além dela, no solário, onde eu não podia ver nada além de folhas, folhas, folhas e galhos tão grossos quanto m eu corpo. — Dorothy !

Nenhum a resposta.

Eu estava perto da m esinha de centro. Conseguia ver um a ponta da m esa, a extrem idade entalhada em estilo “ovo e âncora”, e não é interessante que eu tenha pensado na frase “ovo e âncora” com tanta facilidade? Olhei na direção do solário de novo e vi que j am ais conseguiria abrir cam inho no m eio daquela m ata, então, com ecei a voltar, planej ando sair pela porta da frente e ir por fora até o outro lado da casa, para a entrada do solário. No entanto, a cam inho do hall de entrada, passei pela m esinha com um abaj ur, perto do sofá (o sofá estava invisível), onde ficava tam bém o telefone sem fio, cheia de 25

pedaços de casca de árvore. Peguei o telefone e apertei o botão “ligar”. Milagrosam ente, ouvi o barulho de cham ada. Tentei apertar 911, m as m inha m ão trem ia tanto que continuei pressionando o botão de “j ogo da velha” sem querer. Precisei ligar m ais duas vezes até a ligação finalm ente ser feita. Levei o fone ao ouvido.

Um a m ulher disse:

— Pois não, invente um a am bulância.

— O quê?

— Pois não, invente um a am bulância.

— O quê?

— É da polícia — ela disse, em tom cansado. — Incêndio? Ou am bulância?

— Ah, pol... polí... ou... Eu não sei! Incêndio! Não, am bulância! Am bulância!

— Qual é o problem a, senhor? — ela perguntou. — Um a áááárrvore aqui! — respondi, e foi naquele m om ento que com ecei a entender o que estava acontecendo. — Um a árvore caiu sobre m inha casa!

Ela anotou as inform ações tão devagar que parecia que aquela lentidão toda era educativa, com o se ela estivesse m e ensinando a m e com portar. Mas eu tinha coisas a fazer! Não podia ficar ali o dia todo! Eu tinha lido em algum lugar que os telefonistas do 911 conseguiam detectar o endereço de quem estava ligando com um equipam ento especial, e não conseguia entender por que ela estava m e fazendo todas aquelas perguntas, para as quais ela j á deveria saber a resposta. Eu disse:

— Eu tenho que ir! Eu tenho que ir! — O que, absurdam ente, m e lem brou um a criança que precisava ir ao banheiro e, ao m esm o tem po, percebi que tinha que ir ao banheiro tam bém . Fiquei pensando quanto tem po levaria para que eu pudesse fazer um a tarefa tão m undana novam ente. 26

Ouvi um a sirene ao longe. Ainda não sei se foi m eu telefonem a que a trouxe. Em todo o caso, larguei o telefone sem falar “tchau” e fui cam baleando para o hall de entrada.

Quando abri a porta da frente, só vi m ais árvore lá fora. De algum a m aneira, eu achava que, quando saísse de casa, a passagem estaria livre. Em purrei os galhos, espantei insetos e poeira. A sirene era tão alta que parecia um a faca entrando em m eus ouvidos. Então, parou, e pude ver o cam inhão de bom beiros depois de m e desvencilhar da últim a árvore: lindo e verm elho vivo, com um a am bulância parando atrás dele. Um hom em em uniform e com pleto de bom beiro — m as por quê? — pulou de dentro do cam inhão e gritou: — Não se m exa! Fique aí! Eles vão trazer um a m aca! Continuei andando. Afinal, com o eles saberiam para onde levar a m aca se eu não m ostrasse o cam inho?

— Pare! — ele gritou.

Um hom em da am bulância — sem m aca; nem sinal da m aca — veio correndo e m e im obilizou com os braços com o se fosse um a cam isa de força. — Espere aí! Não tente andar — ele disse. O bafo dele tinha cheiro de chili.

— Eu consigo andar sem problem as — falei para ele. — J. B.! Traga a m aca!

Eles acharam que eu é quem estava ferido. Acho. Quero dizer, ferido devido às últim as circunstâncias. Tentei lutar contra ele. Eu disse: — Minha esposa! Do outro... do outro... do outro... — Beleza, am igo! Fiquei calm o.

— Onde ela está? — o bom beiro perguntou.

— Do outro lado da...

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Tentei apontar com o braço. Mas, quando m e virei para ver para onde estava apontando — o lado norte da casa —, percebi que ele não existia m ais. Tudo o que conseguia ver era árvore e m ais árvore. O bom beiro disse:

— Ah, não, cara!

Eu conhecia aquela árvore. Era um carvalho branco. Sem pre estivera em nosso quintal, provavelm ente desde m uito antes de a casa ser construída, e era enorm e, com pelo m enos m eio m etro de diâm etro na base e com um a inclinação tão pronunciada na direção de nosso telhado que eu insistia para que um a inspeção fosse realizada todo m ês de setem bro, quando os paisagistas vinham fazer a poda. Mas eles sem pre m e garantiram que a árvore estava saudável. Velha, sim , talvez não com tantas folhas quanto antes, m as saudável. — E, além disso — o paisagista tinha m e dito —, se ela fosse cair algum dia, está tão perto da casa que não faria m uito estrago. Na verdade, ela se apoiaria na casa, j á que não há espaço suficiente para ganhar velocidade. Mas ele estava errado. Para com eçar, era óbvio que a árvore não estava saudável. Ela havia tom bado em um dia sem nenhum sinal de vento, nem ao m enos um a brisa. E, em segundo lugar, ela tinha provocado um grande estrago. Tudo bem , no com eço, a árvore havia se apoiado (deve ser sido o prim eiro rangido que ouvi), m as, então, atingiu o telhado bem no m eio, derrubando tudo. E tinha acabado com o solário.

Eu disse, aflito:

— Tire-a de lá! Tire-a de lá! Tire-a de lá!

O hom em que estava m e segurando falou:

— Beleza, irm ão, espere aí!

A essa altura, ele j á estava m e carregando. Meus j oelhos tinham parado de funcionar, por algum m otivo. Ele m e levou até um a cadeira de j ardim , de ferro forj ado, que a gente nunca tinha usado, e m e aj udou a m e sentar. — Dói algum a coisa? — perguntou, e eu respondi: 28

 

— Não! Tire-a de lá!

Eu bem que queria sentir dor. Eu odiava m eu corpo. Odiava ficar sentado ali, com o um boneco, enquanto hom ens m ais fortes e capazes lutavam para salvar m inha esposa.

Eles cham aram reforços e pediram m otosserras, m achados, carros de polícia para bloquear a rua e um guindaste para içar a m aior parte do tronco da árvore. Gritaram em seus rádios e se em brenharam pelos galhos. Isso deve ter levado um bom tem po, m as não saberia dizer quanto. Enquanto isso, um a m ultidão se j untou, nossos vizinhos e pessoas que sim plesm ente passavam por ali. A velha Mim i King, do outro lado da rua, trouxe-m e um copo de chá gelado (dei um gole de m entira, só para ser educado). Jim Rust colocou um a m anta de berço cor-de-rosa sobre m eus om bros. Fazia uns 26 graus e eu suava em bicas, m as agradeci a ele.

— Ela vai ficar bem — eu disse a ele, porque ele m esm o não havia dito nada, e achei que alguém deveria falar isso.

Ele disse:

— Espero que sim , Aaron.

Ficava irritado quando as pessoas diziam m eu nom e assim . Eu era a única pessoa ouvindo. Ele não precisava especificar com quem estava falando, pelo am or de Deus!

Dois hom ens vieram cam baleando por entre os galhos, com um a pilha enorm e de roupas velhas. Colocaram a pilha sobre a cadeira e m eu coração quase saiu pela boca. Eu disse:

— O que...

Eu m e levantei com esforço da cadeira e quase fui ao chão. Tive que m e apoiar em Jim . Ele gritou para os hom ens:

— Ela está viva?

E eu pensei: “Ele não tem nada com isso! EU é que deveria perguntar isso!”. Mas o bom beiro respondeu:

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— Ela ainda tem pulsação! — E senti tanta gratidão por Jim que m eus olhos se encheram de lágrim as.

Apertei o braço dele com força e pedi:

— Me leve, m e... — e ele entendeu e m e levou para m ais perto dela. O rosto dela ainda tinha o m esm o form ato de lua, as bochechas arredondadas e lisas, os olhos fechados, m as ela estava m uito suj a. E a m ontanha onde ficava seu decote agora m ais parecia um a... caverna. Mas era com preensível! Ela estava deitada de costas! Você sabe com o o seio de um a m ulher fica reto quando ela deita de...

— Pelo m enos não há sinal de sangue — eu disse para Jim . — Não estou vendo sangue nenhum .

— Não, Aaron — ele respondeu.

Queria que ele parasse de dizer m eu nom e.

Queria acom panhá-la na am bulância, m as havia pessoas dem ais cuidando dela. Elas pediram que eu as encontrasse no hospital. A esposa de Jim , Mary -Cly de, havia acabado de chegar e disse que Jim m e levaria de carro até lá. Mary -Cly de era professora e cheia de um a autoridade im pressionante. Quando afirm ei que eu m esm o poderia ir dirigindo, ela respondeu: — É claro que pode, m as você teria que estacionar o carro, essas coisas, então vam os fazer dessa m aneira, tudo bem ?

Respondi hum ildem ente:

— Tudo bem .

Ela perguntou onde é que poderia encontrar m eus sapatos, e Jim disse: 30

— Ah, Mary -Cly de, ele não vai se preocupar com sapatos num a hora dessas!

Mas, na verdade, eu m e preocupava. Desculpe-m e, m as m e im portava, sim . Então, disse a ela onde eles estavam e pedi que trouxesse o suporte tam bém .

Eles levaram Dorothy para o Johns Hopkins. Era o hospital com a m ais alta tecnologia, o m ais avançado e m oderno, então era m uito bom . Por outro lado, era o lugar que qualquer m orador de Baltim ore com o m ínim o de bom senso saberia evitar, exceto sob as circunstâncias m ais terríveis — um labirinto dickensiano gigante, insensível, onde os pacientes poderiam definhar esquecidos por horas em corredores no porão, com as paredes descascando, o que era m uito ruim . Ah, sej a bem -vindo ao m undo do parente m ais próxim o: notícias boas, notícias ruins, feliz, triste, feliz e triste de novo, ao longo de dias que duravam para sem pre. A cirurgia fora bem -sucedida, m as de repente não tinha sido, e ela teve de ser levada às pressas de volta para a sala de operação. Ela estava “estabilizada” — sej a lá o que isso significasse, m as então todas as suas m áquinas ficaram m alucas. Foi tanta loucura que, toda vez que um m édico espiava a sala de espera, eu olhava ostensivam ente em outra direção, com o um prisioneiro tentando disfarçar para que seu torturador não pudesse perturbá-lo. As outras pessoas — os estranhos acam pados em seus próprios grupos aconchegantes ao m eu redor — olhavam para cim a com esperança; não eu. Eles perm itiram que eu a visse brevem ente, em grandes intervalos. Mas não sei se você poderia cham ar aquilo de vê-la. O rosto dela estava totalm ente escondido por tubos, fios e m angueiras. Um a m ão estava descoberta sobre o lençol, um a de suas m ãos rechonchudas e bronzeadas, com os nós dos dedos m ais escuros, m as estava perfurada por outro tubo e cheia de fita adesiva, então eu não podia segurá-la. E seus dedos estavam frouxos e m oles com o argila. Era óbvio que ela não sentia m eu toque, em qualquer circunstância. — Adivinhe só, Dorothy — eu disse àquela form a sem m ovim ento —, sabe aquele carvalho que vivia m e preocupando? Eu tinha tanta coisa para lhe dizer! Não apenas sobre o carvalho. Nem sei por que m encionei o carvalho. Eu queria dizer: “Dorothy , se eu pudesse apertar o botão de „rebobinar" agora m esm o e nos levar de volta para nossa casinha, j am ais teria m e trancado no quarto. Teria seguido você até o solário. 31

 

Teria vindo por trás de você, quando você estava sentada à escrivaninha, e encostado m inha face à sua cabeça m orna até que você se voltasse para m im ”. Ela teria dado risada se tivesse ouvido aquilo. Até certo ponto, eu teria rido tam bém .

Mas vej a só que curioso: m eu resfriado tinha desaparecido. Não estou dizendo que sarei; o resfriado sim plesm ente desapareceu em algum ponto entre o chá que tom ei e o m om ento em que entrei naquela sala de espera. Acho que aconteceu enquanto eles tentavam salvar Dorothy . Eu m e lem bro de estar sentado sob o cobertor cor-de-rosa de Jim Rust, sem espirrar, nem assoar o nariz. Talvez um resfriado possa ser exorcizado de um a pessoa pela queda de um a árvore, ou por um traum a psíquico. Ou por um a com binação dos dois. Eles continuaram m e dizendo para ir para casa por um m om ento, para descansar. Na verdade, queriam dizer ir para a casa de Nandina, j á que todos achavam que m inha casa estava inabitável. Jim e Mary -Cly de m e encoraj aram , além de todas as pessoas do trabalho e vários colegas aleatórios (evidentem ente, o carvalho havia sido m encionado no j ornal). Eles chegaram com sanduíches em brulhados em papel lam inado e potes plásticos de salada, para os quais eu m al conseguia olhar, m enos ainda com er — até m esm o Irene apareceu com um a caixa de bom bons caros — e prom eteram tom ar conta de tudo enquanto eu descansava um pouco. Mas m e recusei a sair. Suspeito que achava que, de algum a m aneira, estava aj udando a m anter Dorothy viva (não ria!). Fiquei com as m esm as roupas suj as e sem fazer a barba, o que m e deu coceira. Depois que Mary -Cly de localizou m inha bengala, com ecei a fazer cam inhadas curtas pelos corredores. Não porque queria, m as porque m inha perna com eçara a doer por falta de uso. Caí um a vez, quando estava indo ao banheiro. Então, decidi escolher um horário logo após m eus m inutos reservados para Dorothy e inform ar a equipe para onde estava indo exatam ente e quando estaria de volta.

— Tudo bem — eles respondiam , m al escutando o que eu dizia. Quando m e separava dela, passava agitado, um a série de instruções: — Vocês precisam checar se ela está aquecida o bastante. Acho que ela não está m uito...

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— Sim , vam os tom ar conta disso. Pode ir.

O que eu queria m esm o era dizer:

— Esta aqui é um a pessoa especial, vocês entendem ? Não é só m ais um a paciente. Quero ter certeza de que vocês sabem disso. — Aham ... — eles teriam m urm urado.

Andei para lá e para cá nos corredores com a sensação de que algum a coisa estava se tornando cada vez m ais fina: elásticos frágeis se esticando entre m im e Dorothy . Então, vi algum as coisas que preferia esquecer. Vi crianças com olhos enorm es, sem cabelo; hom ens esqueléticos esforçando-se para respirar; e velhos deitados em m acas, com tantos sacos plásticos e tubos presos ao corpo que não pareciam m ais seres hum anos. Olhei para o outro lado. Não podia ver aquilo. Eu m e virei e voltei para m eus torturadores. Os sapatos apareceram à m inha frente em um a tarde de quarta-feira. Eu sabia que era quarta porque o j ornal, na cadeira ao m eu lado, tinha um a foto colorida de um a lasanha noj enta de frutos do m ar (parece que quarta-feira sem pre é dia de com ida nos j ornais). Os sapatos eram tam ancos. Tam ancos de couro preto. Acho que era aquilo que a equipe do hospital costum ava usar, com o eu havia observado. Nada profissional. Olhei para cim a. Era um enferm eiro; eu o conhecia. Ou o reconheci, quero dizer. Ele era um dos funcionários gentis. Ele perguntou:

— Sr. Woolcott?

— Sim .

— Venha com igo.

Levantei-m e e peguei m inha bengala. Eu o segui pela porta e para a UTI. Ainda não era horário de visita. Não fazia nem m eia hora que eu tinha 33

 

acabado de fazer a visita. Eu m e senti im portante, privilegiado, m as tam bém um pouco, sei lá, apreensivo.

Os fios e tubos tinham sido retirados e ela estava deitada, m isteriosam ente quieta. Antes eu j á achava que ela estava quieta dem ais, m as não fazia a m enor ideia. Eu tinha sido tão ignorante! 34

 

CAPITULO 3

Havia um a loj a de laticínios na Estrada Reistertown, com um a placa de vidro branca ilum inada que dizia “A PRIMEIRA PARA CLIENTES SOFISTICADOS”. Ela m ostrava a silhueta de um a m ulher em purrando um carrinho de bebê — um a piada interna, acho — que estava sim plesm ente galopando, dando passos largos e confiantes, em um vestido rodado à altura dos j oelhos, em bora estivéssem os na era da m inissaia. Sem pre que m inha fam ília passava de carro por aquela placa, eu pensava em m inha irm ã. Isso foi antes de m inha irm ã chegar à adolescência, m as, m esm o assim , ainda pensava nela, j á que Nandina parecia ter nascido esguia, desaj eitada e sem noção nenhum a de m oda. Não estou dizendo que ela não era atraente. Ela tinha olhos cinza-claros, um a pele excelente e cabelos castanhos brilhantes que ela sem pre usava penteados para trás, presos com um a única presilha prateada. Mas a presilha conta tudo: ela ainda a usava, em bora fosse fazer 40 anos no próxim o aniversário. Um a m enina envelhecida, era o que ela era, e fora assim desde o com eço da infância. Usava sapatos de boneca, baixos e achatados com o um a barca, para m inim izar a altura. Os cotovelos se proj etavam com o cabides para casacos e suas pernas desciam , retas com o bam bus, até seus tornozelos de bolas de pingue-pongue.

Na tarde em que Dorothy m orreu, ela m e levou de carro do hospital para casa e, ao lado dela, invej ei sua insensibilidade. Ela m anteve as duas m ãos no volante, nas posições de 10 e 2 horas, exatam ente com o nosso pai havia ensinado há tantos anos. Sua postura era im pecável (ela nunca tinha sido daquele tipo de m ulher que acha que andar com om bros caídos dá a im pressão de ser m ais baixa). Prim eiro, tentou j ogar conversa fora — que dia quente, não há previsão de chuva, pobres fazendeiros —, m as, quando viu que eu não estava pronto para isso, parou. Esta era um a boa qualidade de Nandina: ela não se im portava com o silêncio.

Passávam os pelos terrenos baldios, nos arrasados arredores do Hopkins, cheios de casas com j anelas e portas interditadas por tábuas de m adeira e calçadas cheias de lixo. Mas o que m e chocou foi com o todo m undo era 35

 

saudável. Aquela m ulher puxando o filho pequeno pelo pulso, aqueles adolescentes se em purrando na esquina, aquele hom em olhando quase invisivelm ente para dentro de um carro estacionado: não havia nada fisicam ente errado com eles. Um m enino, em um cruzam ento, tinha tanta energia que esperava pulando, enquanto passávam os por lá. As pessoas pareciam tão robustas, tão indestrutíveis!

Eu m e virei e olhei de relance através da j anela traseira para Hopkins, seu dom o antigo, as passarelas elevadas e os flancos de prédios altos — um a cidade com plexa inteira surgindo à distância, com o um a espécie de Cam elot. Então, olhei para a frente de novo.

Nandina queria m e levar para a casa dela. Ela achava que ninguém poderia viver na m inha. Mas eu queria ficar finalm ente sozinho, depois de todos aqueles olhares de pena e sussurros de com paixão, e insisti para que ela m e levasse para m inha casa. Eu deveria ter desconfiado quando ela cedeu facilm ente. Acontece que ela j á sabia que eu m udaria de ideia quando chegasse lá. Assim que chegam os a m eu quarteirão, ela dim inuiu a velocidade, para que eu pudesse absorver o efeito dos galhos e ram os acarpetando a rua inteira — m eus galhos e ram os. Ela finalm ente parou em frente à m inha casa e desligou o carro.

— Que tal eu ficar esperando aqui — ela propôs —, só para garantir que você vai se sentir confortável na casa?

Por um m inuto, não respondi. Só conseguia olhar para a casa. Era verdade que estava m uito pior do que eu im aginava. A árvore caída estava por toda parte, não em linha reta, m as espalhada por todo o j ardim , com o se tivesse se espatifado com o im pacto. Todo o lado norte da casa estava desm oronado e o que havia sido o solário estava quase que totalm ente achatado no chão. A m aior parte do telhado estava coberta por um plástico azul brilhante. Era obra de Jim Rust. Eu m e lem brava vagam ente de quando ele m e contara que faria isso. O plástico caía sobre a trave horizontal da casa de um a m aneira que m e lem brava o decote entre os seios de Dorothy , quando os bom beiros a trouxeram para fora, m as deixe para lá! Não pense nisso; pense em outra coisa. Eu m e virei para Nandina e disse:

— Vou ficar bem . Obrigado pela carona!

— Talvez eu devesse entrar com você.

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— Nandina, pode ir.

Ela suspirou e ligou o carro de novo. Dei um beij o rápido em sua bochecha — um a concessão (geralm ente não sou carinhoso assim ). Então, m e icei para fora do carro, fechei a porta e saí andando. Dem orou um pouco até que fosse em bora, m as finalm ente ela se foi. No caso de os vizinhos estarem assistindo a tudo pela j anela, fiz questão de m e aproxim ar com o qualquer outro hom em voltando para casa. Apunhalei a calçada da frente com vigor com m inha bengala; olhei em redor para os galhos caídos com certo interesse. Destranquei a porta da frente, a abri e a fechei atrás de m im . E m e apoiei nela com o se tivesse levado um chute no estôm ago.

Um a luz azul m isteriosa enchia o hall de entrada, vinda através da lona azul no telhado, que aparecia por entre os buracos no teto. A sala de estar era um a m ata fechada dem ais para desbravar e é claro que nem tentei enxergar o que havia além do solário. Pisei em um m onte de cartas no chão e abri cam inho para a parte de trás da casa. Na cozinha, fiquei aliviado ao encontrar apenas alguns pedaços de casca de árvore sobre as superfícies e um vidro quebrado por um galho perdido. Mas a sala de j antar, à direita, estava em ruínas. Fechei a porta depois de um a olhada rápida. Tudo bem . Um a pessoa poderia viver m uito bem sem um a sala de j antar! Eu poderia com er na cozinha. Fui até a pia e abri a torneira. A água fluiu im ediatam ente.

Havia um a caneca dentro da pia, a parte de dentro envernizada de m el seco e pontilhada de serragem , um a colher de chá inclinada a seu lado. Às vezes, parece que os m om entos m ais recentes aconteceram há tanto, tanto tem po!

Voltei para o hall de entrada para checar o quarto de hóspedes, o banheiro e nosso quarto. Tudo bem . Talvez eu pudesse transform ar o quarto de hóspedes em um a sala de estar provisória, até a reform a term inar. Encontrei um gafanhoto no boxe do banheiro. Deixei que ele ficasse lá. No quarto, fiquei tentado a sim plesm ente m e deitar e cair no sono — na verdade, não tanto no sono, m as em um estado de inconsciência —, m as não cedi. Eu tinha um a tarefa a cum prir. Fui para o lado da cam a de Dorothy e abri a gaveta de seu criado-m udo. Meu m edo era que ela tivesse levado sua agenda de contatos para o 37