O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir

nem as fotos de m eus pais…

nem as fotos de m eus pais se casando, ou de Nandina em seu vestido de batism o, ou de nós dois na festa de aniversário de algum a criança. Nem a única foto de m eu próprio casam ento: Dorothy e eu, lado a lado, na escadaria da igrej a de m eus pais, parecendo desconfortáveis e inseguros. Estávam os, os dois, m uito m al-vestidos: eu, em um terno m arrom curto dem ais nos punhos; Dorothy , em um a m alha azul berrante, esticada dem ais sobre a pequena m ontanha de sua barriga. Daqui a 50 anos, estranhos vão descobrir esse álbum em algum m ercado de pulgas em um estacionam ento, olhar para nós e virar a página, sem interesse o bastante para im aginar quem teríam os sido. Os funcionários de Gil e eu m al nos encontrávam os, pois tínham os horários diferentes. Eles chegavam todo dia de sem ana pela m anhã, quando estava acabando de tom ar café. Traziam copos de papel com café, fum egantes ao frio das prim eiras horas do dia, e lim pavam as solas dos sapatos com força no tapete do hall de entrada, para m e avisar que estavam lá. Após um a conversa rápida sobre o tem po, eu saía para trabalhar e, quando voltava, eles j á tinham ido em bora, não deixando nenhum sinal, a não ser seu pequeno ninho de pertences em um a trouxa no canto da sala de estar. No entanto, algum a coisa perm anecia no am biente — algo a m ais que a fum aça de seus cigarros. Eu m e sentia com o se tivesse interrom pido um a conversa sobre vidas m ais ricas e com pletas que a m inha e, quando passava pelos côm odos vazios, não estava apenas tom ando m inha casa de volta; na verdade, tinha um pouco de esperança de que talvez um a parte daquela riqueza toda pudesse ter sido deixada para trás, para m im .

No entanto, na sexta-feira, dois hom ens ainda estavam lá quando cheguei. Um estava acabando de envernizar o piso do solário, enquanto o outro recolhia latas de tinta, pincéis e rolos em um a caixa de papelão vazia. — A gente achava que j á teria term inado a esta hora — o cara da caixa m e disse —, m as o Gary aqui com prou a cor errada de verniz e tivem os que voltar. — Não foi culpa m inha, m ano! — Gary protestou. — Foi Gil que anotou o núm ero errado.

— Tá, falou — o outro hom em respondeu. — De qualquer m aneira, acabam os — ele m e disse. — Espero que você goste do resultado. — Quer dizer que vocês term inaram tudo? — perguntei. 163

 

— Aham .

— Não precisam fazer m ais nada?

— Não, a não ser que você queira.

Eu olhei a m eu redor. O lugar estava im pecável — as paredes da sala de estar de um branco brilhante, as novas estantes no solário esperando ser ocupadas. Alguém havia varrido os últim os sinais de serragem e os copos de papel e cinzeiros de tam pas de latas haviam desaparecido, o que m e fez sentir estranham ente abandonado.

— Não — respondi. — Não consigo pensar em nada. Gary se levantou e colocou o pincel sobre a tam pa de sua lata. — Mas o senhor não pode andar aqui, viu? — ele recom endou. — Por 24 horas. E depois, durante alguns dias, ande sem pre de sapatos. O senhor não sabe quantas pessoas acham que estão fazendo um favor para o piso andando só de m eia. Mas é a pior coisa.

— A pior coisa do m undo — o outro concordou. — O calor de seu corpo... — Gary com entou. — Meia velha de algodão...

— A sola do pé am assando a m adeira...

Eles ainda estavam resm ungando e fazendo que não com a cabeça quando Gil abriu a porta da frente. Eu sabia que era Gil porque ele sem pre batia à porta antes de abri-la.

— Oi, gente! — ele disse, aparecendo sob o arco de passagem para a sala de estar. Estava usando sua roupa pós-trabalho: calça cáqui e cam isa lim pa. — Oi, Aaron!

— Oi, Gil!

— Com o estão as coisas?

— Já estam os term inando, chefe — o hom em da caixa disse.

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Gil foi inspecionar o piso do solário.

— Está bonito — com entou. — Agora, espere 24 horas até pisar ali — ele m e disse — e então, por alguns dias...

— Eu sei: não andar só de m eia — com pletei. — É a pior coisa do m undo — ele disse.

Ele se despediu dos dois no hall de entrada e, dando um tapinha no om bro de Gary , lem brou-os de que tinham de estar na casa da sra. McCoy segunda-feira, pela m anhã (senti um a pontada de ciúm e) e voltou para a sala de estar.

— Então — eu disse —, ouvi dizer que o trabalho acabou aqui. Minha voz ecoou oca pela sala vazia.

— Ela está nova em folha — Gil m e disse.

— Na verdade, m elhor que nova — respondi. — Muito obrigado por todo o cuidado, Gil!

— Ah, im agine! Sem pre que precisar. Deus queira que não. — Deus queira que não — concordei.

— Na segunda-feira, vou m andar uns m eninos aqui para colocarem os m óveis no lugar. Você gostaria de estar aqui para isso? — Não, tudo bem . Não tem m uito segredo, num a casa pequena com o esta.

Ele fez que sim com a cabeça. E olhou ao redor para estudar a sala de estar.

— E os lim padores de j anelas... — ele disse. — Você vai precisar deles. Tenho um a lista, se você quiser.

— Tenho certeza de que Nandina conhece alguém . — Ah — disse Gil, de repente.

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Ele bateu a m ão sobre o bolso direito da frente das calças. O gesto, um pouco teatral, cham ou m inha atenção.

— Falando nisso... — ele disse, fingindo casualidade. E tirou um a caixinha de veludo azul do bolso, com certeza um a caixa de anel. — Ahá! — exclam ei.

— É, bem ...

Ele abriu a tam pa e se aproxim ou para m e m ostrar (senti um cheiro forte de colônia pós-barba). O anel era de ouro am arelo, com um pequeno diam ante brilhante.

— Mas que lindo, Gil! — eu disse. — Para quem é? — Ahahahah.

— Ela sabe disso?

— Só em teoria. Já falam os sobre casam ento. Meu Deus — ele disse —, acho que deveria ter pedido para você prim eiro. Tipo: pedir a m ão dela. — Pode levar — eu falei e acenei com vontade. — Obrigado! — ele respondeu, com um sorriso. E olhou para o anel. — Eu sei que a pedra não é m uito grande, m as o j oalheiro disse que é perfeita. Não tem a m enor falha, ele disse. Tive que acreditar nele. Será que eu conseguiria reconhecer um defeito?

— Ela vai am ar o anel — eu disse a ele.

— Espero que sim ! — ele ainda estudava o anel. — Com o você sabia o tam anho de anel que ela usa? — Enquanto ela estava tom ando banho, peguei um lápis e tracei um círculo ao redor do anel de opala que ela usa.

Ele ficou verm elho e olhou para m im de relance, talvez preocupado por ter revelado m ais do que deveria. Eu com entei: — Ah, que ótim o! Não consigo pensar em um cunhado m elhor. 166

— Obrigado, Aaron! — ele fechou a caixa e a colocou de volta no bolso. — Tem um a aliança que com bina com ele, m as achei m elhor garantir que Nandina goste deste anel, antes de com prar o outro. Já sei que ela quer que eu use aliança.

— Pois é, essa gente hoj e em dia... — eu disse. Com ecei a levantar m inha m ão esquerda para m ostrar a ele m inha aliança, que eu ainda usava, quando pensei: “Não sei”. Poderia parecer falta de tato. Nenhum casal que acabou de com prar alianças quer ser lem brado que, um dia, um deles terá de aceitar o anel do outro das m ãos de um a enferm eira ou de um agente funerário.

Foi m eio irritante precisar esperar até segunda-feira para que os m óveis fossem colocados no lugar. Com ecei a adiantar as coisas — arrastando o tapete da sala de estar até lá e desenrolando-o, pondo alguns dos obj etos m ais leves nos respectivos lugares. Na noite de sábado, quando o piso do solário estava seco, coloquei nas estantes os livros que restaram . Peguei os álbuns de fotos da cozinha e os alinhei em ordem , a com eçar pelos m ais antigos. Mesm o o m ais recente não era m ais tão recente assim . A últim a foto daquele álbum — o arbusto borboleta de m inha m ãe, totalm ente florido — veio im ediatam ente depois da foto de nosso casam ento, j á que datava do final do verão de 1996. Ou 1997, no m áxim o, porque m eu pai m orreu no com eço de 1998, e era ele quem tirava as fotos da fam ília.

Esse negócio de não legendar as fotos m e lem brava aqueles cem itérios antigos onde os nom es j á se apagaram das lápides e você não sabe quem foi enterrado ali. Você vê um a pequena lápide cinza, com um cordeiro m eio derretido no topo, e sabe que ali deve estar o corpo do filho de alguém , m as não consegue ler seu nom e ou as palavras que os pais escolheram para dizer com o sentiam sua falta. Há tantos entalhes aleatórios na pedra e os próprios pais j á estão m ortos há tanto tem po, que tudo acaba sendo esquecido. 167

Até m esm o o arbusto borboleta de m inha m ãe m e parecia pungente, com seus ram os de flores de um roxo elétrico e vibrante. Apesar de que, na verdade, o arbusto ainda existia: ficava bem no quintal de Nandina, e eu podia vê-lo toda vez que levava o lixo para fora.

Em nossa foto de casam ento, é claro que Dorothy não estava usando a bolsa estilo carteiro, m as sua bolsa m ais chique era igualm ente volum osa e utilitária — um retângulo pesado de couro m arrom , com um a alça que cruzava seu peito com o um a cartucheira. Ela tinha dito: — Você quer que eu use um vestido branco? Eu faria isso. Não m e im portaria. Poderia perguntar a m inha recepcionista se ela m e levaria a esse lugar que ela conhece. Pensei em um vestido, ah, não tom ara-que-caia nem nada assim , m as talvez com um decote m ais profundo, e branco, não brilhante, nem com renda, só um branco m ais lustroso, sabe do que estou falando? E estava pensando em um buquê de flores brancas. Flores do cam po e rosas brancas... a flor de laranj eira é branca? Sei que elas não são cor de laranj a, apesar de o nom e enganar. Não estou pensando em véu, essas coisas... Nem um a cauda longa. Mas um vestido elegante e clássico, para m arcar a ocasião. O que acha?

— Ah, m eu Deus, não! Pelo am or de Deus, não! — respondi. — Ah!

— Nós não som os desse tipo de gente, graças aos céus — eu disse. — Não, é claro que não — ela concordou.

Na fotografia, a m alha azul não era m uito apropriada, m as na vida real tinha ficado bonita, até onde m e lem bro (as fotos sem pre deixam as pessoas m ais bregas, j á percebeu?). De qualquer form a, eu nunca havia prestado m uita atenção a coisas com o aquelas. Na época, estava sim plesm ente feliz por ter conquistado a m ulher que queria. E acredito que ela estava feliz por ter m e conquistado — o oposto diam etral daquele “colega de apartam ento” carente que exigia dem ais dela.

Então, por que nosso casam ento era tão infeliz?

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Porque era infeliz, sim . Posso dizer isso agora. Ou, ao m enos, era difícil. Fora de sincronia. Sem coordenação. Parecia que nunca tínham os aprendido a ser um casal com o os outros. A gente deveria ter feito um curso ou algum a coisa assim ; é isso que digo para m im m esm o hoj e. Certa vez, quando estávam os chegando perto de um aniversário de casam ento — o nosso quinto, acho —, eu a convidei para j antar.

— Estava pensando no Old Bay — disse a ela. — O prim eiro lugar aonde levei você.

— O Old Bay — ela repetiu. — Jura? Você se esqueceu de que a gente não conseguia nem ler o cardápio lá?

— Ah, tudo bem — respondi, um pouco desapontado. Por razões sentim entais, pelo m enos, você poderia achar que ela teria aceitado. — Então onde? — perguntei.

— Talvez no Jean-Christophe?

— Jean-Christophe? Francam ente!

— O que há de errado com esse lugar?

— O Jean-Christophe é tão pretensioso! Eles trazem esses pratinhos m inúsculos e cheios de fru-frus, e você tem que fazer um show, fingindo estar surpreso e agradecido.

— Então não faça um show — ela disse. — Só cruze os braços no peito e faça cara de bravo.

— Muito engraçado! — respondi. — Por que você foi pensar j usto no Jean-Christophe? É m ais um a das ideias de sua recepcionista? O Jean-Christophe nem existia quando estávam os nam orando.

— Ah, eu não sabia que precisava ter um significado histórico! — Dorothy — eu disse —, você prefere não sair para com em orar? — Eu disse que queria, não disse? Mas então você sugere esse lugar velho e bolorento, onde seus pais iam com er. E quando questiono a ideia, você fica de m au hum or e rej eita tudo que eu sugiro.

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— Eu não rej eitei “tudo”, só o Jean-Christophe. Acontece que não gosto de restaurantes onde os garçons precisam de m ais atenção que m inha acom panhante.

— Então, onde você gostaria de com er?

— Ah, deixe para lá! — eu disse. — Não m e im porto. Vam os ao Jean-Christophe m esm o.

— Bem , se você não se im porta, então por que sair? — Você está deliberadam ente tentando não entender o que estou dizendo? — perguntei. — O que eu quero é que a gente tenha um bom j antar, preferivelm ente sem que eu m e sinta com o se estivesse em algum tipo de peça. E estava pensando em um lugar que significasse algum a coisa para nós dois. Mas, se você quer ir ao Jean-Christophe, então tudo bem , vam os ao Jean-Christophe.

— O Jean-Christophe foi só um a sugestão. Há outras possibilidades. — Com o onde?

— Bem , e o Bo Brooks?

— Bo Brooks? Aquela barraca de caranguej o? No nosso aniversário de casam ento?

— A gente foi ao Bo Brooks algum as vezes quando estávam os nam orando. Com certeza, corresponderia ao critério da “significância”. — Sim , m as...

Parei e olhei para ela.

— Você não entende m esm o, não é? — perguntei. — Não entendo o quê?

— Deixe para lá!

— Eu nunca vou entender sej a lá o que for se você se recusar a discutir isso — ela disse, e agora estava falando em sua voz de m édica, sua voz 170

supercalm a de “vam os ser razoáveis”. — Por que você não com eça pelo com eço, Aaron, e m e diz exatam ente o que tinha im aginado para nosso j antar de aniversário de casam ento?

— Que tal saber o que você im agina? — perguntei. — Você não pode se esforçar um pouco para ter suas próprias ideias?

— Eu j á ofereci um a das m inhas ideias. Duas ideias, na verdade, e você rej eitou am bas. Então, agora é com você, Aaron. Por que estou contando esta história?

Esqueci.

E esqueci onde acabam os indo j antar, tam bém . Um desses lugares, não m e lem bro. O que lem bro é dessa sensação fam iliar de cansaço e desam paro, a sensação de que estávam os confinados em um gaiola de roedores, lutando obstinadam ente, e sem vencedores, entre nós. Eu estava lavando legum es para o j antar e, ao m e virar na pia para pegar um pano de prato, vi Dorothy .

— Você está aqui — falei.

Ela estava de pé, a m eu lado, tão perto que teve que dar um passo para trás para dar espaço para eu m e virar. Estava usando um a de suas cam isas brancas sim ples e as calças pretas de sem pre, tinha um a expressão séria e pensativa — a cabeça inclinada para o lado e a sobrancelha erguida. — Pensei que você nunca m ais fosse voltar — eu disse. Ela não parecia m uito surpresa com isso e só fez que sim com a cabeça. Continuou m e estudando, com o se eu tivesse que m e preocupar. — Foram os biscoitos? — perguntei. — Você ficou brava porque com i os biscoitos de Peggy ?

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— Você deveria ter falado que gostava de biscoitos — ela disse, e não sei por que eu havia duvidado que ela falasse de verdade nessas visitas, porque sua voz era absolutam ente real: baixa e m eio m onótona, em um tom constante. Eu disse:

— O quê? Mas não gosto de biscoitos.

— Eu poderia ter feito biscoitos para você — ela disse.

— Mas do que está falando? Por que eu iria querer que você fizesse biscoitos para m im ? Por que é que estam os perdendo tem po discutindo sobre biscoitos, pelo am or de Deus?

— Foi você que com eçou — ela disse.

Será que eu j á tinha vivido essa cena antes? Fiquei m orrendo de cansaço de repente.

Ela continuou:

— Eu costum ava achar que era culpa de sua m ãe. Ela era tão dram ática! Não é à toa que você afastava as pessoas daquele j eito. Mas então, pensei: “Hum , culpa”. Quem sabe por que deixam os um a pessoa nos influenciar m ais que a outra? Por que não seu pai? Ele não fazia tem pestade em copo-d'água. — Eu afastava as pessoas? — perguntei. — Não é j usto, Dorothy . E o seu com portam ento, hein? Usando seu j aleco branco m esm o quando saíam os para j antar; carregando sua grande bolsa estilo carteiro. “Eu sou a dra. Rosales”, você dizia. Sem pre tão ocupada, tão profissional! Fazer biscoitos? Você nunca fez nem um a xícara de chá para m im quando eu estava resfriado! — E se tivesse feito o chá? O que você teria feito? — ela perguntou. — Jogado a xícara longe, tenho certeza. Ah, e eu m e incom odava com o que as outras pessoas pensavam de m im . Sua m ãe e sua irm ã, as pessoas de seu escritório... Eu podia ver sua secretária pensando: “Coitado, coitado do Aaron. A esposa dele é tão fria! Tão independente, tão egoísta! Não o valoriza nem a m etade do quanto o valorizam os aqui”. “Isso m ostra o quanto você sabe”, eu queria dizer a ela. “Por que ele não se casou com outra pessoa, se queria ser m ais paparicado? Se eu m e com portasse de outra m aneira, você acha que teríam os ficado j untos?”

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Respondi:

— Não foi por isso que ficam os j untos.

— Ah, e não foi? — ela perguntou.

Ela se virou para olhar pela j anela acim a da pia. Algum as horas antes, eu havia ligado o borrifador de novo e podia ver com o os olhos dela acom panhavam o j ato-d'água de lá para cá.

— Eu tinha recebido um a oferta para trabalhar em Chicago — ela m e contou num tom reflexivo. — Mas nunca contei para você. Era de um de m eus antigos professores, alguém que eu adm irava. Ele m e ofereceu um em prego m uito m elhor do que o que eu tinha aqui — o salário era o m esm o, m as dava m ais prestígio e era m ais interessante, e eu m e senti honrada por ele ter se lem brado de m im . Mas você e eu tínham os acabado de ir ao cinem a j untos, pela prim eira vez, e eu não conseguia pensar em m ais nada além de você. Olhei fixam ente para ela. Eu m e senti com o se m óveis pesados estivessem sendo arrastados na m inha cabeça. — Mesm o depois que nos casam os — ela continuou —, de vez em quando aparecia um paciente que usava suporte ou talas e coisas assim , com fechos de velcro, e enquanto eles tiravam a roupa na sala de tratam ento de m eu consultório, eu conseguia ouvir os fechos se abrindo e pensava: “Ah!”, e lem brava de você.

Queria m e aproxim ar dela, m as tinha m edo de assustá-la. E ela não parecia m uito convidativa. Continuava olhando pela j anela, com os olhos fixos no j ato-d"água.

Eu disse:

— Mas provavelm ente eu guardei aquele espinho de uva-espim para você. — Não tinha certeza se ela sabia do que eu estava falando, então, com pletei: — Mas não para fazer você se sentir m al pela viagem a Los Angeles. Talvez, inconscientem ente para... ah, talvez para m ostrar que eu precisava de você.

Agora ela olhou para m im .

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— A gente deveria ter ido ao Bo Brooks — eu disse. — Quem se im porta se é um a barraca de caranguej o? Nós teríam os nos arrum ado: você, no lindo vestido branco no qual queria se casar, e eu, em m eu sm oking, e com eríam os no deque, onde todo m undo estaria usando j eans e regata. Ao passarm os entre eles, todos olhariam para nós, e daríam os um adeusinho gracioso a la Rainha Elizabeth, e eles dariam risada e aplaudiriam . A cauda do vestido seria um problem a — ela ficaria presa nas tábuas de m adeira, cheias de farpas —, então eu a recolheria nos braços e a carregaria, atrás de você, até nossa m esa. “Duas dúzias de caranguej os j um bo e um balde de cervej a gelada” — eu pediria à garçonete, depois de nos sentarm os, e ela desenrolaria grandes folhas de papel pardo. Então, viriam os caranguej os, fum egantes, j ogados entre nós, form ando um a enorm e m ontanha alaranj ada e apim entada. Dorothy ainda não havia dito nada, m as pude ver que sua expressão estava ficando m ais leve. Ela até poderia estar com eçando a sorrir, pelo m enos um pouco.

— A garçonete perguntaria se queríam os babadores, m as diríam os que não, que aquilo era para turistas. Então, pegaríam os nossos m artelinhos e ficaríam os ali, m artelando com o crianças do j ardim da infância em algum a atividade criativa, com pedaços de casca voando para todo lado e aterrissando em seu vestido e em m eu sm oking, m as riríam os m esm o assim . Afinal, por que nos im portaríam os? A gente sim plesm ente daria risada e continuaria m artelando.

Dorothy j á estava sorrindo de verdade agora, e seu rosto parecia brilhar. Na verdade, ela estava brilhando por inteiro, e ficando difusa e transparente. Era com o quando você olha para a esquerda o m áxim o que pode, sem virar a cabeça, para tentar enxergar o próprio perfil. No início, seu perfil está lá, m as não se m ostra com pletam ente: nada m ais é que um a linha, um contorno. Então, ela desapareceu com pletam ente.

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CAPITULO 9

Nunca m ais vi Dorothy depois disso. Fiquei alerta no com eço, m as, no fundo, sabia que ela havia desaparecido para sem pre. Hoj e em dia, vou até o quintal sem a m enor expectativa de encontrá-la. Coloco Maeve em sua cadeirinha de bebê, com eço a em purrar o balanço gentilm ente e tudo que consigo pensar é em com o esta m anhã de sábado está bonita. Mesm o cedo assim , a luz do sol parece líquida, derretendo-se sobre m inha pele.

— Mais, papai, m ais! — Maeve pede. “Mais” é sua palavra favorita, o que revela m uito sobre ela. Mais abraços, m ais m úsicas, m ais cócegas, m ais do m undo em geral. Ela é um a daquelas crianças que parecem m ais repletas de alegria do que o norm al por estar neste planeta — um a loirinha forte que não para quieta, tem preferência por j ardineiras j eans e tênis de cano alto, o m elhor equipam ento para escalar, correr, rolar m orro abaixo e se m eter em confusão. Já m e tornei um especialista em pegar o balanço bem no m eio e assim , com um a m ão só, em purrá-lo em linha reta. Quando ele volta, eu o em purro ainda m ais alto apertando a palm a da m ão contra o tecido fofo que fica entre as alças (por baixo da j ardineira, Maeve ainda está usando fraldas, m as estam os tentando resolver isso). Ela se inclina sobre a barra da frente e agita as perninhas cheia de entusiasm o, desviando sua traj etória. Mas sou paciente: quando o balanço se aproxim a de novo, agarro a corrente para com eçar novam ente. Ainda tem os algum as horas antes que sua m ãe volte para casa, depois de resolver algum as coisas na cidade.

— E vam os nós! — eu digo, e Maeve responde: — Iupiii!

Não sei onde foi que ela aprendeu isso. É um a palavra que associo às tirinhas de j ornal, e ela a pronuncia tão perfeitam ente que quase consigo vê-la im pressa em um balão sobre a cabeça de Maeve. 175

Houve um a época em que pensar em m e casar de novo m e parecia inconcebível. Não conseguia entender com o as pessoas faziam isso. Quando Nandina com entou sobre um novo casam ento com o um a possibilidade para m eu futuro distante, senti um peso no estôm ago. Eu m e senti com o alguém que olha para um prato de com ida após um a refeição pesada. “Ah, m as isso m uda de relance para ela. Ela não tinha a m enor noção. No Natal, depois que ela e Gil ficaram noivos, fom os à casa de tia Selm a para o alm oço de Natal, com o sem pre, a não ser pelo fato de Gil ter ido j unto. E, no cam inho para lá, enquanto eu dirigia, Nandina sim plesm ente nos inform ou que Roger e Ann-Marie levariam a am iga de Ann-Marie, Louise. Nem consigo dizer com o odeio quando a palavra “am iga” é usada num a situação com o essa. Sabia m uito bem quem era essa Louise. Era a fam osa Viúva da Véspera de Natal, a única que presum ivelm ente poderia ter lidado m uito bem com a m orte do m arido se ele não tivesse m orrido antes de um feriado. E sim , eu conseguia ver o que estava por trás daquele convite. — Esse era para ser um program a de fam ília. — Mas é! — ela respondeu, alegrem ente.

— Jam ais poderia classificar um a conhecida da terceira m ulher de nosso prim o com o m em bro da fam ília.

— Aaron, tenha paciência! É Natal! É hora de acolher as pessoas que não têm para onde ir.

— Por quê? Ela é m oradora de rua?

— Ela é... Sei lá. Talvez a fam ília dela m ore do outro lado do país. E esta época é especialm ente triste para ela, você sabe. Note a om issão cuidadosa de frases reveladoras com o “tanto em com um ” e “apresentar vocês dois”. Mas eu não era bobo. Eu sabia. 176

Quando chegam os à casa de tia Selm a, Louise j á estava sentada em seu lugar, instalada na ponta de um sofá vazio. Roger e Ann-Marie estavam acom odados em poltronas e Gil e Nandina pegaram a nam oradeira. Então, naturalm ente, sentei-m e ao lado de Louise.

Ela era m ais ou m enos o que eu esperava: um a m oça m agra e atraente, com cabelo castanho e assim étrico que se m exia habilidosam ente para o lado, quando ela inclinava a cabeça. Ela inclinava a cabeça com frequência em nossos prim eiros m inutos j untos, estudando-m e com olhos brilhantes enquanto em barcávam os na conversa quebra-gelo de sem pre. Descobri que era do tipo de pessoa que introduzia até a inform ação m ais com um com “Você está sentado?” — um a pergunta que eu sem pre com parara ao ato de rir das próprias piadas. Quando perguntei o que ela fazia, por exem plo: — Você está sentado? — ela disse. — Sou editora! Igual a você! Mas trabalho com o free-lance.

A m agreza dela era do tipo conquistado artificialm ente, com dietas. Dava para perceber que ela não tinha o peso que deveria ter por seu vestido j usto, que, claram ente, havia sido escolhido para acentuar os ossos da clavícula e a saliência de seu quadril. Não sei por que aquilo m e irritava. Acho que, se tivéssem os gostado um do outro, isso não teria m e irritado, m as, a essa altura, j á tínham os chegado ao estágio desesperador em que você percebe que a outra pessoa é “outra” dem ais para se im portar com ela. Louise tinha parado de inclinar a cabeça para o lado charm osam ente, e seu olhar passou a acom panhar outras conversas na sala. Eu m e senti im pelido a m e desculpar com todos e ir para casa.

Durante o alm oço, ela estava sentada à m inha direita (nesse ano, os lugares haviam sido m arcados com cartões, para evitar qualquer engano). No entanto, agora que ela j á tinha desistido de m im , passara a fazer a m aior parte de suas observações para Gil, sentado do outro lado da m esa. Ela anunciou para ele, durante a sopa, que tinha um a relação “m uito especial” com relógios. — Toda vez que olho para um , m esm o que de relance, você sabe que horas são? Nove e doze.

Gil respondeu:

— Ah... — e enrugou a testa.

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— E nove e doze é... Você está sentado?

Ele m andou um olhar im pressionado para o próprio colo. — Nove e doze é o dia em que nasci.

— Ahn?

— Nove de dezem bro. Não é estranho? E isso acontece m uito m ais vezes do que a ciência pode explicar. Bem , na m inha prim eira viagem a Londres, anos e anos atrás, é claro que fui ver o Big Ben, e adivinhe que horas eram quando cheguei lá?

Gil parecia estar em pânico.

Eu respondi:

— Doze horas e nove m inutos?

— O quê? Não, m eu aniversário é...

— Porque afinal você estava na Inglaterra, onde eles dizem o m ês prim eiro e o dia depois.

— Não... Na verdade...

— Aaron — Nandina interrom peu —, conte para Louise sobre o Diferença de Horário em Viagens para Iniciantes. — Eu esqueci — respondi.

— Aaron.

Ela pensou que eu estava fazendo aquilo de propósito, m as, sinceram ente, havia esquecido m esm o. Não conseguia pensar em m ais nada além do núm ero infinito de horas até que pudesse escapar dali. Até lá, tínham os tanta com ida a enfrentar! Não apenas a sopa (que era crem e de farinha, pelo j eito), m as presunto assado em um sobre tudo de rodelas de abacaxi, brócolis com azeitonas e tédio e purê de batata doce pavim entado com m arshm allows em m iniatura, seguido por bolo de frutas para a sobrem esa e — ah, m eu Deus — um a segunda sobrem esa, que Louise havia trazido: um prato de biscoitos com form ato de estrelas, sinos e guirlandas. Mandei um olhar de 178

 

“viu só?” para Nandina, porque um a das coisas que ela m ais odiava eram contribuições inesperadas para um alm oço ou j antar, m as ela estava brava dem ais com igo para responder. Os biscoitos eram brancos com o parede e finos com o papel, polvilhados com açúcar cristal verm elho e verde. Peguei um , por educação, e dei um a m ordida, m as não tinha gosto algum . Apenas um a doçura sem graça e insípida. Eu o coloquei em m eu prato e com ecei a rezar por café. Não que houvesse planej ado tom ar um a xícara àquela hora, m as o café seria o sinal do fim da interm inável refeição. Já era final de tarde e um a luz crepuscular cinza se em brenhava na sala de j antar.

Enquanto eu dirigia para casa, Nandina m e passou um serm ão com pleto:

— Por que você não consegue se com portar com um a civilidade do tipo m ais básico? — ela m e disse. Estava sentada no banco de trás e tinha se inclinado tanto para frente para m e repreender que seu queixo estava apoiado no encosto de m eu banco. — Você estava literalm ente fazendo pouco daquela pobre m oça!

— Sim — respondi — e ela estava fazendo pouco de m im . Reconheça, Nandina, que éram os com o água e óleo. Im agine, um a editora profissional dizendo que algum a coisa era “m uito especial”. — Ah, m as ela trabalha com o free-lance! — Nandina falou, em tom m ais calm o.

E Gil disse:

— Então... — e m e perguntou se estava sendo difícil dirigir sob a neblina. Ele sem pre parecia infeliz quando Nandina e eu discutíam os. Eu os deixei na casa de Nandina, com a despedida m ais breve possível, e fui para casa. Chegando lá, vesti m inhas roupas confortáveis, m e servi um a bebida e m e sentei para ler, m as não conseguia m e concentrar. Eu estava deprim ido dem ais: não sabia exatam ente por quê. Não via a hora de vir para casa desde que tinha chegado à casa de tia Selm a, não deveria estar m e sentindo aliviado agora?

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Então, m e ocorreu que, secretam ente, nas profundezas m ais som brias de m eu subconsciente, eu havia tido a esperança de que Louise e eu gostássem os um do outro.

Entre o Natal e o Ano Novo, fecham os o escritório e Nandina com eçou, a todo vapor, os preparativos para o casam ento. Ela conseguiu fazer tudo em um a sem ana só: m uito eficiente, adm ito. A cerim ônia aconteceu no últim o dia do ano, na antiga igrej a de m eus pais, que Nandina ainda frequentava. Eu a levei até o altar; sua m elhor am iga da escola foi a m adrinha; e o prim o de Gil, o padrinho. Os únicos convidados eram tia Selm a e sua fam ília, as três irm ãs de Gil e as fam ílias delas e a equipe da Editora Woolcott. Depois, fizem os um a recepção m odesta em m inha casa, apesar de eu não ter contribuído m uito. Peggy e a m adrinha cuidaram da com ida, Irene fez a decoração e Roger ficou responsável pelas bebidas. Eu fui apenas um espectador inocente. Então, Nandina e Gil foram viaj ar por um a sem ana pela Costa Leste, o que parecia um a escolha estranha no m eio do inverno, m as gosto não se discute, eu acho. Geralm ente era um a época m eio devagar na editora, então não foi problem a não ter Nandina por perto para com andar a equipe. Eu estava editando um novo título independente, Por que Decidi Continuar Vivendo, escrito por um professor de inglês do ensino m édio. Basicam ente, era um a lista de m ercado de m om entos “inspiradores”, com o: “Para ver o sol ficar laranj a à noite por trás da placa do Dom ino Sugars”. Eu lia trechos em voz alta para a equipe na sala principal. “Para sentir um bebê recém -nascido segurar m eu dedo indicador”, eu lia, Charles grunhia e Irene m andava um “shhh” distraído, enquanto Peggy dizia: “Ahhh. Bem , é m esm o um a boa razão!”. Eles eram todos tão previsíveis!

Irene folheava grossas revistas que aparentem ente não m ostravam nada além de propagandas de cosm éticos. Charles pegava o telefone e m onitorava o que pareciam ser discussões bem acaloradas entre as filhas, que ainda estavam de férias enquanto os pais j á tinham voltado ao trabalho. Peggy decidira praticar digitação sem olhar para as teclas de num erais e sím bolos, m as nunca passou das teclas do alfabeto.

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Ao m eio-dia de nosso últim o dia de liberdade, por assim dizer, fom os todos j untos para o Gobble-Up Café, deixando o escritório sozinho, o que teoricam ente não deveríam os ter feito, e pedim os vinho no alm oço, o que quase nunca fazíam os. O Gobble-Up estava tão pouco acostum ado a servir álcool que a lista de vinhos dizia, em sua totalidade: “Chardonnay $5, Merlot $5, Rosé $5”, e, quando perguntei à garçonete: “Que Merlot vocês têm ?”, ela respondeu: “É um vinho tinto?”.

Pedi um a taça m esm o assim , as m ulheres pediram Chardonnay e Charles tom ou um a cervej a. Peggy ficou m eio tonta com apenas dois goles e disse que considerava todos nós sua fam ília. Irene anunciou que, e por que não, depois do alm oço aproveitaria a liquidação de casacos da Nordstrom . Charles atendeu a um a ligação no celular, contrariando as regras da casa, e esperou dem ais para sair do café, sussurrando: “Agora, calm a; fale m ais devagar; você sabe que não consigo entender um a palavra quando você chora”. Eu paguei a conta de todo m undo, o que provavelm ente significa que estava m e sentindo bem satisfeito.

Ao andar de volta para o escritório (passando por Charles, que ainda falava ao celular em frente ao café), contei para Peggy e Irene com o Nandina vinha se com portando de m aneira nada razoável depois do alm oço de Natal. Acho que, em m eu acesso de felicidade depois do vinho, esperava que elas fossem expressar algum tipo de indignação por m im . — Ela praticam ente fica de tocaia — eu disse —, ela e Ann-Marie; e m e planta ao lado dessas m ulheres com quem eu não tenho o m enor assunto, zero...

— Ah, m as pense bem , ela só quer aj udar — Peggy respondeu. — Ela quer que você encontre alguém .

Antigam ente, eu teria dito “Encontrar alguém ? E quem disse que quero alguém ?”. Mas, nesse dia em particular, ainda sob a influência de m inha depressão pós-alm oço-de-Natal, resolvi não discutir. Tudo que eu disse foi:

— Mesm o assim . Não é com o se perder a esposa fosse um hobby que eu poderia com partilhar com outras pessoas.

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No entanto, nem Peggy , nem Irene dem onstraram em patia propriam ente dita. Peggy apenas disse “tsc-tsc” e Irene saiu abruptam ente, porque j á havíam os chegado ao nosso prédio.

— Então, tchau! — ela disse, e foi fazer suas com pras. — Aquela m ulher era tão m agra que eu podia cortar um a m ão nos ossos da clavícula dela — contei a Peggy enquanto abria a porta. — Ela m astigava apenas com os dentes da frente. Trouxe biscoitos feitos de papelão de caixa de cam isa.

— Você é m aldoso — Peggy m e disse, com expressão séria. Ela colocou a bolsa sobre sua m esa e tirou o casaco.

Hesitei.

— Peggy — cham ei.

— Hum ?

— Sabe os biscoitos de aveia com gotas de chocolate que você faz? — Sim .

— Aqueles grandões cheios de chocolate que você trouxe faz um tem po? — O que é que tem ?

— Sabe aqueles pedacinhos que eles tinham na m assa? Uns flocos crocantes. Não eram gotas de chocolate, nem castanhas, m as algum a coisa m ais dura... com o pedras.

— Grãos de soj a torrados — ela respondeu. E pendurou o casaco no cabideiro.

— Grãos de soj a torrados — repeti.

— Para ter m ais proteína — explicou. E então disse: — Só você m esm o para achar que eram pedras em biscoitos que fiz de presente para vocês. — Eu não disse que achava que eram pedras. Eu disse que eram com o pedras.

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— Você não tem vergonha m esm o, Aaron. Nem um pouco — ela m e disse, e se sentou à sua m esa.

— O quê?

— Qualquer outra pessoa ficaria agradecida quando alguém tenta se aproxim ar. Mas você fica ocupado dem ais investigando os m otivos por trás disso.

Eu disse:

— Mas de que m otivos você está falando?

— Nem consegue enxergar. Nem percebe. Você deixa que ela passe batido.

— Deixar quem passar batido? — perguntei. — Você está falando da Louise?

Peggy j ogou as duas m ãos para cim a.

— Ah — falei —, espere aí!

Mas ela j á tinha girado para olhar para o com putador e com eçou a digitar furiosam ente. Fiquei ali olhando para ela por um m om ento e então fui para m inha sala. Pendurei m eu casaco e m e sentei à m esa. Mas não voltei ao trabalho. Eu havia deixado m inha porta aberta e ainda podia vê-la — as luzes de seu cabelo bagunçado sob as lum inárias do teto, as duas cachoeiras de renda branca caindo de seus cotovelos corretam ente posicionados. Conhecia Peggy desde o prim eiro ano. Eu m e lem bro do arm ário extra de que ela precisava para seus bichos de pelúcia, das anáguas que ela usava sob a saia no ensino básico (alguns de nossos colegas m ais m al-educados a cham avam de “pastorinha”) e é claro que a conhecia de tanto ela falar, falar e falar no escritório (ela gostava m uito de conversar). Nos finais de sem ana, ela nos contou um a vez, gostava de ir à loj a de m aterial de construção Stebbins e perguntar aos atendentes grisalhos com o é que se consertava um a porta solta, ou o que fazer quando a ponta de um a das folhas do papel de parede teim ava em se enrolar. Ela realm ente precisava dos 183

 

conselhos deles, ela disse, m as tam bém era reconfortante. Isso a fazia lem brar da época em que seu pai estava vivo.

O presente que ela se dava depois de um dia difícil era trocar o j ornal da noite na TV por film es de Fred Astaire.

E ela não achava que suas roupas eram esquisitas (ela respondeu a um a pergunta nada delicada de Irene). As roupas eram um a m aneira de fazer um esforço — fazer algo especial pelas pessoas que a cercavam . E ela adorava cozinhar, eu sabia disso. Dizia que cozinhar era com o dançar: tinha os m esm os m ovim entos m arcados e a m esm a sensação de se seguir um sistem a e um a sequência. Eu podia entender isso. Eu a im aginava preparando um a refeição perfeita sem nenhum passo em falso, cantarolando enquanto se m ovia pela cozinha. Ela colocaria um a tigela de barro cheia de flores na m esa e então pegaria os guardanapos de linho e os dobraria para form ar cabaninhas de índio.

Eu a im aginava servindo essa refeição, com o garfo à m inha esquerda e a faca e a colher à m inha direita, em vez de tudo j ogado sobre a m esa, com o eu fazia. O prato depositado habilm ente à m inha frente, posicionado de m aneira tão exata que o garfo se m ovia um pouco m ais à esquerda para abrir espaço. O leve calor da com ida levitando gentilm ente até m eu rosto. Peggy desam arrando seu avental antes de se sentar à m inha frente. Eu m e levantei e fui até o lado de sua cadeira. Lim pei a garganta. E disse:

— Peggy ?

— O quê?

— Você gostaria de... você gostaria de sair com igo, um dia? Os dedos dela pararam sobre o teclado. Ela se virou e olhou para m im .

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— Sair, sabe, num encontro — expliquei (no caso de não ter sido claro o suficiente).

Ela m e estudou por um m om ento. E então:

— Por que você não convida Irene?

— Irene?

— Eu achava que Irene era quem você tanto adm irava. — Ah, bem , era — respondi. — E ainda é. Mas é com você que eu gostaria de sair.

Ela continuou m e estudando. Fiquei de pé um pouco m ais reto e tentei parecer o m elhor que podia. Eu disse:

— Você não m e daria um a chance?

Após um longo m om ento, ela respondeu:

— Bem , eu poderia. Eu gostaria de te dar um a chance. E ela deu.

Levo Maeve de volta para casa para tom ar suco de m açã e, enquanto ela tom a seu suco, sento-m e à m esa da cozinha para ler o j ornal. Mas Maeve vê m inha bengala, apoiada ao lado da porta dos fundos, larga seu copo com tam pa e tudo e anda devagarzinho para pegar a bengala e a trazer para m im , com o um cachorrinho trazendo sua coleira.

— Passear? — ela pergunta. — Passear?

— Tom e seu suco de m açã prim eiro.

Ela deixa a bengala cair no chão, abandona-a sem olhar para ela, pega o suco de m açã e tom a tudo de um a vez, com os olhos fixos em m im o tem po 185

todo — olhos castanhos, com o os m eus, m as desproporcionalm ente grandes e cercados por cílios, com o raios de sol, com o os de Peggy (sem pre fico adm irado com o os genes de duas pessoas tão diferentes podem se j untar tão bem em seus filhos). Ela bate o copo de suco na m esa e bate palm as, pronta para fechar negócio.

— Passear, papai — ela diz.

— Está bem , Maevezinha.

Na casa ao lado, Mary -Cly de Rust está agachada j unto à sua floreira de petúnias. Quando passam os, ela diz: “Bom dia, senhorita Maeve!”, e se senta sobre os tornozelos, claram ente pronta para um a conversa, m as Maeve acena com a m ãozinha e continua andando, o rosto apontado para o sul, a cam inho do parque. Dou de om bros para Mary -Cly de, que dá risada e volta a arrancar os m atos da floreira.

Há um trailer de m etal em frente à casa dos Ushers. A irm ã de Ruth Usher e o cunhado, de Ohio, estão fazendo um a visita. Ontem , Maeve fez um tour pelo trailer e ficou extrem am ente im pressionada. Então, fico preocupado, achando que ela quererá parar por ali hoj e, m as ela não vê a hora de chegar ao parque. Lá, a atração principal é um pequeno lago, bom para se explorar. Não m e lem bro de term os ido algum a vez ao parque sem voltarm os encharcados.

Um casal que não conhecem os se aproxim a — um a m oça de cabelo preto e um rapaz usando um boné dos Phillies. Maeve está pronta para seguir em frente quando o rapaz diz:

— Olá, m enininha!

Ela para, ergue o rosto para olhar para ele e bate os cílios, sorrindo. Ainda não descobri com o ela escolhe as pessoas com quem quer interagir. Nem dois m inutos depois, um hom em passa correndo e tam bém a cum prim enta, m as ela nem olha para ele.

Enquanto nos aproxim am os da Alam eda Cold Spring, um carro dim inui a velocidade. Vej o o Honda de Nandina parando perto de nós.

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— Robirenna! — Maeve grita. É assim que ela se refere aos gêm eos quando está anim ada (Robby ganhou esse nom e por causa do pai de Gil; Brenna era o nom e de nossa m ãe). Os dois exam inam Maeve im passivelm ente do banco de trás e Nandina se estica para abrir a j anela do passageiro: — Vem os vocês no parque?

— Sim — respondo.

Se fosse Gil, teria nos oferecido um a carona, m as Nandina prefere obedecer à lei da cadeirinha para as crianças. Ela acelera de novo e Maeve se j oga, senta na calçada e com eça a chorar.

— Nós vam os vê-los em um m inuto, Maeve.

— Ver agora!

Pego sua m ão para aj udá-la a levantar. A m ão dela é um punho, um nó apertado de cetim , e ela tenta puxá-la de volta, m as eu a seguro com força. Às vezes, penso na história que Gil m e contou: com o seu pai tinha voltado dos m ortos para supervisionar o trabalho de Gil nas obras. Eu sei que Gil achava que algum a questão ainda m al resolvida havia trazido seu pai, m as ultim am ente m e ocorreu um a coisa: não poderia ter sido algum a questão m al resolvida de Gil? Será que Gil não estava pensando: “Meu Deus, queria tanto ter resolvido tudo com m eu pai”?

Mas ainda não m encionei isso a Gil, porque suspeito que ele tenha vergonha de ter m e contado aquela história.

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Robby e Brenna são vários m eses m ais velhos que Maeve, e parecem m esm o. Eles são m ais reservados, m ais contidos e têm aquela presença social que as creches parecem conferir às crianças. Ao chegarm os ao parque, eles j á estão profundam ente entretidos vendo um pai e um filho j ogando beisebol — o m enino rebatendo a bola com força, a m ãe e a irm ã torcendo ao lado. — Oi, Robby ! Oi, Brenna! — Maeve cham a.

Os dois apenas levantam levem ente o dedo indicador, sem tirar os olhos dos j ogadores. Sinto um a ponta de pena de Maeve, m as sua reação é filosófica. Ela sai andando sozinha ao redor do lago.

— Borboleta, papai! — ela avisa.

— Estou vendo, querida.

Nandina com eça a contar sobre um a discussão que está tendo com Charles. Tem a ver com Por que Decidi Continuar Vivendo, que decolou alguns anos trás e, inexplicavelm ente, deu lucro para o autor e para nós tam bém . Nos preparativos para o próxim o Natal, Charles está propondo um a sequência — talvez Por que Decidi Viaj ar Mais ou Por que Decidi Ter Filhos. Porém , o autor parece estar sofrendo de bloqueio criativo e agora Charles está sugerindo que recrutem os outros autores, ou que nós m esm os escrevam os os livros. Nandina diz:

— Será que não estou conseguindo enxergar algum a coisa aqui? Estou errada ao pensar que um livro desses é suficiente? Ou estou perdida para sem pre?

E eu respondo:

— Não, Nandina, acredite em m im ... — E então: — ... Uau! — Porque Maeve acabou de fazer um a curva fechada e se j ogou na água. — Saia daí, agora! — eu grito e estou atrás dela em um piscar de olhos, com Nandina por perto caso eu precise de aj uda.

— Tartaruga, papai! — diz Maeve (“tatuga”, com o ela pronuncia). — Saia daí agora m esm o!

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Enquanto a puxo de volta para a gram a, vej o os gêm eos nos observando, virando seus rostos idênticos de efígie de m oeda em nossa direção até que estej am os, sãos e salvos, em terra firm e novam ente. Então, eles se voltam para os j ogadores de novo, sem nenhum com entário. Você im agina que não pensei nem por um m om ento que pudesse ter inventado as visitas de Dorothy ? Que elas teriam sido apenas um devaneio, provocadas pela dor do luto ou por um acesso tem porário de loucura? Mas, nesse caso, explique-m e: com o ela poderia ter dito aquelas coisas que eu não sabia?

Que ela havia recusado um em prego m elhor por m inha causa. Que havia escondido seus sentim entos por m inha causa. Em poucas palavras, que m e am ava.

Será que inventei isso?

No cam inho para casa, Maeve anda lentam ente e reclam a. Ela diz que suas pernas estão ocupadas dem ais.

— Você está cansada — eu interpreto a inform ação para ela, m as ela fica ofendida.

— Não estou cansada! — ela diz.

Tenho a im pressão de que ela associava a palavra “cansada” a sonecas, que, para ela, são um a tortura, m esm o quando precisa dorm ir m esm o. Digo: 189