O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir

— A gente estava falando sobre o…

— A gente estava falando sobre o solário. Aaron está dizendo que gostaria de tirá-lo de lá.

— Tirar o solário? Tirá-lo da casa?

— Foi isso que ele disse.

— Bem , isso não faz sentido nenhum — Nandina disse para m im . — Você vai perder dinheiro na venda.

Perguntei:

— E o que m e im porta o valor da venda?

— Já é um a casa m inúscula. Você precisa daquela sala. — Nandina, você se im porta? Estam os tentando ter um a conversa em particular.

— Você só está bravo com o solário. É isso.

— Bravo!

— Você está sendo... em ocional, por causa do que aconteceu ali. — Pelo am or de Deus, Nandina, o que você tem a ver com isso? — Tenho um a ideia — Gil entrou na conversa. Ele falou em um a voz extrem am ente baixa e com um ar de quem está sendo razoável, com o se estivesse negociando um tratado. — E se m antivéssem os o solário, m as m udássem os sua direção?

Perguntei:

— Direção?

— Por exem plo, no m om ento parece que você tem um a escrivaninha saindo daquela parede cheia de prateleiras que j unta o solário à casa, certo? A parede onde a TV estava pendurada, aquela que a m atou. Fiz que sim com a cabeça.

Ele continuou:

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— E se, agora, fizéssem os um plano para que a escrivaninha ficasse de frente, virada para o centro da sala? Melhor assim , certo? Você teria a vista do j ardim da frente. Então, podem os colocar prateleiras ao longo de toda a circunferência, sob as j anelas. Prateleiras em butidas e baixas. Seria um a disposição totalm ente diferente.

Respondi:

— Bem , não sei.

Apesar de ter percebido que ele tinha razão.

Nandina deve ter adivinhado o que notei, porque disse: — Obrigada, sr. Bry an!

Então, se virou e finalm ente nos deixou em paz. Gil se sentou novam ente no sofá e continuou falando com seus papéis. O sr. Hogan disse que havia tido um a inspiração para seu livro. Ele achava que deveria incluir as cartas que m andara para sua m ãe. Por m im , tudo bem . Na verdade, só im prim iríam os o livro para ele. Mas eu não havia m e dado conta de que ele queria dizer adicionar as cartas originais, escritas à m ão. Ele as deixou sobre m inha m esa no com eço de outubro: um a pilha de 8 centím etros de envelopes, am arrados com um a fita de cetim que algum dia j á tinha sido azul.

— Aqui está um exem plo — disse, pegando uns dos envelopes. Ele era um hom em baixinho, corcunda, de cabelos brancos, com m anchas cor-de-rosa m eio quadradas no rosto que o faziam parecer anim ado. Ele tirou a carta do envelope com seus dedos tortos. Mesm o de onde eu estava, podia ver que era quase ilegível: um rabisco de caneta desbotado e acinzentado sobre um papel irregular que m ais parecia casca de cebola.

Eu disse:

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— O senhor teria que pedir para alguém digitar tudo isso, é claro. — Aqui estou contando para ela o que eles nos davam para com er. Estou dizendo com o sinto falta do peixe frito e das ovas de peixe que ela fazia. — Sr. Hogan, o senhor está pensando em m andar alguém digitar essas cartas?

— Aqui estou dizendo que não tinha com ido biscoitos de verdade desde que saíra de casa.

— Quem digitou o m anuscrito original? — perguntei a ele. O original tinha chegado bem apresentado, o que nem sem pre podem os esperar em nosso negócio (e nem tínham os esperança de receber um original por e-m ail). — Foi m inha nora — ele respondeu.

— Sua nora poderia digitar essas cartas tam bém ? — Não quero pedir para ela.

Achei que não fazia sentido perguntar o porquê. A boa vontade das pessoas um dia acaba. Acontece. Fui abrir a porta de m inha sala. — Peggy ! — cham ei. — Você pode trazer aquela lista de digitadores profissionais?

— Claro.

— Eu vou ter que pagar por isso? — o sr. Hogan perguntou para m im . — Bem , sim .

— Porque m eu dinheiro não cresce em árvore, sabe. — Não acho que sairia caro.

— Já gastei m inhas econom ias de um a vida inteira nisso. Peggy entrou na sala, trazendo um a folha de papel. Ela parecia estar usando um a anágua de aram e por baixo da saia. Eu nem sabia que ainda existiam essas arm ações. Ela perguntou:

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— Com o está a artrite hoj e, sr. Hogan?

— Ele disse que vou precisar m andar digitar essas cartas — o sr. Hogan contou a ela.

— Ah, tudo bem ! — Peggy respondeu. — Tenho um a lista enorm e aqui de pessoas que podem aj udar o senhor.

— Acho que não tenho dinheiro para isso.

Peggy olhou para sua lista, com o se pudesse encontrar algum a solução ali.

— Estas são as cartas que escrevi para m inha m ãe — disse o sr. Hogan, oferecendo as cartas com as duas m ãos. — Achei que elas pudessem dar um sabor a m ais para m inha história.

— Ah, cartas do front de batalha são sem pre boas! — Peggy respondeu. — Bem , as m inhas são da Flórida.

— Mesm o assim — ela disse.

— Escrevi sobre com o tinha saudade da com ida dela: o peixe frito e as ovas de peixe.

— Adoro ovas de peixe — Peggy com entou.

Eu disse:

— Bom , em caso de...

— Estou vivendo de m inha aposentadoria — o sr. Hogan contou. Ele estava olhando fixam ente nos olhos de Peggy , e a carta que ele segurava trem ia. Peggy propôs:

— Quer saber, sr. Hogan, pode deixar que eu digito as cartas para o senhor.

Com o se eu não soubesse que isso aconteceria! — Mas você vai m e cobrar? — o sr. Hogan perguntou. 82

— Ah, não! — ela respondeu. — Im agine...

— Bom , obrigado! — agradeceu. Sem m uito sentim ento, se você quer saber.

Eu disse:

— É m uita gentileza sua, Peggy — m as em tom severo, com o se estivesse reprovando sua atitude.

Porém , isso não valeu de nada. Peggy só deu um sorrisinho para m im , e o sr. Hogan estava ocupado colocando a carta de volta no envelope. Sem pre m e preocupei com a possibilidade de nossos clientes m ais velhos se sentirem insultados por Peggy . Sua voz m elada e seus m odos exageradam ente

respeitosos

poderiam

ser

vistos

com o

piedade.

Condescendência. Eu a teria achado condescendente. Mas ninguém m ais parecia ter a m esm a opinião. O sr. Hogan colocou a pilha de cartas nas m ãos dela com toda a felicidade do m undo e então m e disse, em pinando o queixo de m aneira com bativa:

— Eu tinha certeza de que tudo se resolveria!

De algum a form a, eu tinha sido voto vencido. Não era a prim eira vez. Depois que o sr. Hogan foi em bora, eu disse para Peggy : — Espero m esm o que você saiba no que está se m etendo. — Ah, sim — ela respondeu com suavidade.

Então, se ofereceu para buscar um café para m im , apesar de j á estarm os no m eio da tarde. Eu nunca tom ava café à tarde, o que ela sabia m uito bem . Só estava m udando de assunto.

Se não fosse por Peggy , Dorothy teria encontrado seus Triscuits exatam ente onde os tinha deixado. Às vezes, eu pensava nisso. Ficava rem oendo estes pensam entos: será que eu poderia dizer que, se não fosse por Peggy , Dorothy ainda estaria viva? Mas, na verdade, poderia não ter feito diferença. Muitas vezes Dorothy levava seus Triscuits para o solário. Provavelm ente, nada diferente teria acontecido se ela os tivesse encontrado. 83

Então, eu não podia m esm o culpar Peggy . Apesar de parecer que havia m otivo para ficar irritado com ela esses dias. Ela era tão, m as tão doce, que m e enj oava. Irene fazia o m elhor que podia para m e evitar, com o se a tristeza fosse contagiosa, e Charles nem ao m enos m e olhava nos olhos. Ah, eu estava por aqui com m eus colegas de trabalho!

Talvez devesse tirar um as férias, m as com o preencheria m eu tem po, então? Eu nem tinha um passatem po.

— Eu deveria com eçar a trabalhar com o voluntário, sei lá — disse para Peggy . — Procurar algum a instituição de caridade. O problem a é que não consigo pensar em nada específico que poderia fazer. Peggy parecia prestes a dizer algum a coisa, m as então deve ter m udado de ideia.

E o nom e de m inha agente de seguros era... Concepción. Com o eu poderia ter m e esquecido disso? Mas ela teria m ais a tratar com Gil do que com igo. Então, passei para ela o celular de Gil e os dois ficaram tão próxim os com o com parsas, conversando por e-m ail, pessoalm ente e m andando docum entos por fax. A pasta de Gil havia se m etam orfoseado em um caderno de três dedos de espessura, cheio de divisórias coloridas, repleto de estim ativas, recibos, diagram as e listas. Ele trazia o caderno quase toda noite, depois do j antar, e se sentava no sofá para espalhar os papéis sobre a m esinha de centro, explicando o progresso do trabalho em um nível de detalhe que deixaria o Reform a de Cozinhas para Iniciantes m ais que satisfeito. As vigas danificadas j á tinham sido substituídas e o telhado estava quase pronto. Seu obj etivo era term inar tudo antes de o tem po piorar, ele disse. Ele se preocuparia com o interior da casa m ais tarde, depois que ficasse frio dem ais para trabalhar no lado de fora. Havia contratado dois carpinteiros extras e, até então, tudo estava dentro do prazo, com o eu poderia checar se fosse lá dar um a olhada. Eu disse: — Talvez um dia desses.

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Ele olhou para m im por um m om ento. Pensei que fosse com eçar a m e pressionar com o as outras pessoas faziam (m inha irm ã, para ser m ais exato), m as tudo que ele disse, finalm ente, foi:

— Tudo bem .

— Quero dizer, é claro que vou ter de ver tudo um a hora dessas. — Claro! — ele respondeu. — Enquanto isso, posso continuar vindo aqui. Não tem problem a nenhum .

De quem ele m e lem brou naquele m om ento? Ah, é claro: Peggy . Peggy com o sr. Hogan, tão solícita e cheia de tato. Ele e Peggy form ariam um belo casal, na verdade. Tive que sorrir ao im aginar a cena: Peggy com sua arm ação de aram e de pastorinha, de m ãos dadas com Gil, que m ais parecia um urso cinzento.

— Ei — eu disse —, Gil, você é casado?

Ele respondeu:

— Ahn, não — com vergonha e baixando a cabeça, com o se faz ao se esquivar de um cum prim ento.

— Você nunca foi casado?

— Não. — Ele esfregou a barba. — Eu m eio que j oguei m inha j uventude no lixo — ele se perm itiu dizer um m om ento depois. — Larguei a faculdade, m e envolvi com a turm a errada... Acho que perdi a oportunidade de m e casar. — Bom , com certeza, você se recuperou bem . — Pode acreditar — ele disse —, se não fosse pelo m eu prim o, ainda estaria caindo de algum banco de bar. Meu prim o Abner. Ele m e deu este em prego e salvou m inha vida, para falar a verdade.

— E seu irm ão? — perguntei.

— Que irm ão?

— Mas não é Irm ãos Bry an Em preiteiros Ltda.? 85

 

— Ah, sim . Mas só porque “Prim os Bry an” não ia funcionar. — Não?

— Vej a bem , todo m undo diria ao telefone: “Posso falar com o sr. Prim o, por favor?”.

Dei risada.

— Não, não tenho irm ãos — ele contou. — Só um m onte de irm ãs, sem pre no m eu pé.

— Ah, e eu não sei? — respondi. — Irm ãs...

— Bem — ele disse, com o se estivesse aproveitando a oportunidade —, desculpe-m e m encionar isso, m as estava pensando se você vai querer fazer algo sobre suas coisas.

— Minhas coisas — repeti.

— Os papéis e obj etos pessoais que deixou na casa. E sua correspondência. Toda vez que entro lá, tem cartas espalhadas por todo o chão do hall de entrada. Não que eu m e incom ode de trazer tudo para cá, m as você sabia que pode acessar o site dos Correios e pedir que eles com ecem a entregar toda a correspondência aqui?

— Você tem razão — respondi. — Vou providenciar isso. — E tam bém tem suas coisas de cozinha. Os pratos nos arm ários. Quando com eçarm os a trabalhar lá dentro, seria m elhor em pacotar tudo e levar as caixas para o quarto ou outro lugar.

— Pode deixar — respondi.

— Sua irm ã j á levou o que tinha na geladeira, m as tem outras coisas, com o caixas de cereal, latas, enfim .

— Minha irm ã foi lá?

— Só para pegar as coisas da geladeira.

— Eu não sabia disso.

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— Acho que ela não quis incom odá-lo.

Olhei para a folha que segurava, que m ostrava os gastos da reform a. Eu disse:

— Sei que parece pouco razoável com o estou relutante em voltar à casa. Mas é que acho que seria, não sei, dem ais para m im . Ele disse:

— Bem , eu entendo.

— Para falar a verdade, não sei se quero voltar lá algum dia. — Ah, m as espere até a gente consertar tudo — ele m e disse. — Estava pensando em instalar as tábuas de m adeira em um tom m ais claro. Quer dizer, se você aprovar.

— Mesm o assim — respondi —, m esm o com as tábuas m ais claras. Ele esperou, pacientem ente, com os olhos fixos nos m eus. — Ei! — tive um a ideia. — Você gostaria de com prar a casa? Com prar com o, sei lá, investim ento? Depois da reform a, você poderia ganhar um bom dinheiro vendendo a casa, aposto.

Então, m eio que dei risada, no caso de ele próprio com eçar a rir tam bém . Mas ele não riu. Ele respondeu:

— Não tenho dinheiro para isso.

— Ah.

— Olha — ele disse —, não se preocupe com suas coisas. Vou falar para os m eninos em pacotarem tudo, contanto que você não se im porte com eles revirando suas coisas.

— Mas é claro que não! — respondi. — Provavelm ente eu não sentiria falta de nada se eles levassem tudo para o lixão. — Bem , isso eles não vão fazer. Então, se a gente encontrar algo de que você possa precisar aqui, trago tudo na cam inhonete da próxim a vez que vier. 87

— Bem , obrigado!

Lim pei a garganta. Eu disse:

— Só m ais um a coisa...

Ele esperou.

— Você acha que poderia m e trazer um as roupas? — Roupas.

— O que estiver no guarda-roupa e na côm oda, do outro lado da cam a. — Ahn... — ele disse.

Eu m ostrei o que estava usando. Até então, vinha dando um j eito com as roupas que tinha encontrado em m eu antigo quarto, m as não havia dúvida de que m eu estilo estava um pouco j ovem dem ais. — Você pode j ogar tudo na caçam ba da cam inhonete — acrescentei. — Não estou pedindo para em pacotar nada.

— Bem — ele respondeu —, podem os dar um j eito nisso. — Obrigado! — agradeci.

Sabia que deveria ficar agradecido por Nandina ter feito aquela excursão à geladeira (apesar de não ter a m enor dúvida de que havia um elem ento investigativo nessa história). Ah, sem pre que parava para exam inar a situação, podia ver que estava cercado por pessoas que estavam fazendo o m elhor para cuidar de m im . E não era apenas Nandina. Charles trouxera fatias do bolo de banana da m ulher dele, em brulhadas em papel-alum ínio, pesadas com o tij olos. Irene deixava folhetos em m inha m esa sobre aventuras arriscadas, criadas para m e fazer pensar em outra coisa — voos de asa delta, escalada de paredões de pedra e m ergulhos em recifes de corais. Meus ex-vizinhos sem pre m e ligavam e m e convidavam para j antar, e, quando eu dava algum a desculpa, diziam : “Tudo beeeeem m m ...”, com um a lerdeza relutante que significava que, dessa vez, eles m e deixariam escapar, m as não para sem pre. E Luke tinha transform ado nosso j antar no restaurante em um evento quase sem anal, enquanto Nate havia retom ado nossos j ogos de raquetebol na academ ia. 88

Mas eu não era nada bom em aceitar as coisas de m ão beij ada. Principalm ente com Nandina. Com Nandina, estava sem pre na defensiva, reclam ando a cada introm issão e j ogando longe seus m ais bem -intencionados com entários. Não que ela não m erecesse um pouco, tam bém . As coisas que ela inventava! Um a vez, por exem plo, ela disse:

— Pelo m enos você não vai ter de se acostum ar com nada m uito diferente na vida dom éstica. É que a Dorothy nunca cozinhava para você, nem nada do gênero.

— Não — foi m inha resposta—, nós tínham os um casam ento m uito igualitário. Nós nos tratávam os com o dois adultos com petentes. Em outra ocasião, quando m e ofereci para lavar nossas roupas: — É claro que Dorothy achava suficiente apenas separar as roupas brancas das coloridas — ela m e disse em um tom de quem está se segurando —, m as, com o regra, separam os as coloridas e, então, as m ais claras das m ais escuras.

Não contei que provavelm ente Dorothy teria j ogado todas as categorias em um a leva só na m áquina e deixado por isso m esm o. Cada vez m ais eu conseguia ouvir os pensam entos de m inha irm ã: “Que pena que a esposa dele m orreu, m as será que ela valia toda essa tristeza m esm o? Será que ele tem de continuar assim ?”. — Você acha que as pessoas nem percebem quando deixa de se barbear por um dia ou usa as m esm as roupas a sem ana toda — ela com entou —, m as percebem , sim . Betsy Hardy m e disse que trocou de calçada outro dia, ao vê-lo na rua, porque pensou que talvez você não quisesse que alguém o visse naquelas roupas. Eu disse: “Ah, é m uita gentileza sua se preocupar com isso, Betsy , m as, honestam ente, acho que ele não está nem ligando”. — Betsy Hardy ? Eu não a vi.

— Ela viu você, é disso que estou falando — Nandina disse. — Eu achei que você estivesse planej ando buscar algum as roupas m elhorzinhas em sua casa.

— Ah, Gil vai trazer tudo para cá.

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— O quê? Você quer dizer que deixou que ele m exesse em suas coisas? — Bem , sim .

Ela estreitou os olhos.

— Quando Jim Rust recom endou Gil — ela perguntou —, ele deu algum a dica sobre o passado desse hom em ? Ele lhe contou a história dele? De onde ele é? Ele é de Baltim ore?

— Não há nada de errado com ele, Nandina. Acredite em m im . — Estava curiosa, só isso!

— Ele nunca deveria ter contado para você que estava no AA. — Não tenho nada contra o AA.

— Se ele precisa, é m elhor que estej a no AA, então — argum entei. — Bem , é claro que sim . Você acha que perguntei sobre as referências dele por causa dessa coisa do AA? Tenho toda a com paixão por ele estar no AA. E não é? Toda vez que vem aqui, só ofereço suco ou lim onada. — Verdade — respondi.

Mas eu sabia que era porque ela o flagrara, um a vez, com um a lata de Coca-Cola. Nandina tinha um problem a sério com refrigerantes. Não é que ela sim plesm ente não gostasse de refrigerantes: para ela, eles eram um ultraj e m oral. Se existisse um program a de 12 passos para um dependente de Coca-Cola, aposto que ela faria um a doação bem gorda para ele. Bem , m as escute o que estou dizendo: eu não tinha m otivos para reclam ar dela. Ela m e acolhera sem hesitar quando eu não tinha m ais para onde ir e não dem onstrava a m enor irritação ao m e ver atrapalhando sua rotina diária. Ela era m eu parente vivo m ais próxim o. A gente tinha lem branças de infância que ninguém m ais conhecia.

Muitas vezes, quando estávam os sozinhos, um de nós com eçava um a frase com o nosso pai fazia: “Não é preciso dizer que...” — com eçávam os. Era a piadinha de sem pre de m eu pai, se é que se pode cham ar isso de piada. E então o outro sorria.

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Ou quando estávam os dando um a olhada na porcelana, depois que Gil trouxe tudo — a tigela do hall de entrada, com suas cam adas de correspondência inútil e cardápios de restaurantes delivery e papéis aleatórios. Um a noite, espalhei tudo sobre a m esa da cozinha, enquanto Nandina estava fazendo o j antar, e ali estava o cartão de visita dos Irm ãos Bry an. Eu disse: — Gilead!

— O quê?

— É o nom e do Gil: Gilead Bry an. Eu achava que era Gilbert. Nandina parou de m exer a sopa e disse:

— Gilead, com o na m úsica?

— Com o na m úsica — respondi, e houve m ais um m om ento “não é preciso dizer que...”. Afinal, quantas pessoas poderiam se lem brar de O Bálsam o de Gileade? Era o hino religioso predileto de m inha m ãe, que ela cantava enquanto arrum ava a cozinha, e eu sem pre achei que fosse a “balsa” de Gileade. Quando um de m eus prim os debochou ao m e ver cantando errado, Nandina arrebentou o tabuleiro do Banco Im obiliário na cabeça dele. Morar nessa casa de novo não era tão ruim assim . Na verdade, era bem aconchegante.

Na época do Natal, sem pre m andávam os fazer um a grande reim pressão de um de nossos títulos antigos, O Livro dos Presentes para Iniciantes. Colocávam os os livros em exposição, ao lado das caixas registradoras das loj as da cidade inteira, com um a fita verm elha de cetim am arrada ao redor de cada exem plar. Pessoalm ente, achava a fita ilógica. Afinal, o livro era “sobre” presentes, e não um presente. Mas Irene adorava a fita e tinha sonhado com isso há alguns anos, e Charles afirm ava que as vendas iam bem . Geralm ente, recorríam os a Charles para as questões de gosto do público. Ele era o único que levava aquilo que eu considerava um a vida norm al — casado com a m esm a 91

m ulher desde sem pre e às voltas com suas filhas trigêm eas adolescentes. Ele gostava de contar historinhas divertidas, anedotas no estilo Fam ília Dó-Ré-Mi sobre as filhas, e nós ficávam os por perto escutando, com o se fôssem os um bando de antropólogos estudando costum es estrangeiros. Nandina e eu deixávam os o Natal passar quase despercebido. Tínham os parado de trocar presentes há m uitos anos e, além da guirlanda falsa que ela com prara no superm ercado, não havia tentativa nenhum a de decorar a casa. No Dia de Natal, fom os j antar na casa de tia Selm a, com o fazíam os desde crianças. Nem m esm o m eu casam ento havia m udado aquilo, apesar de eu e Dorothy j urarm os, todos os anos, que faríam os algum a coisa diferente no Natal seguinte. A com ida era sinistra e a lista de convidados havia encolhido à m edida que vários parentes m orriam ou se m udavam para longe. Nesse ano, havia apenas cinco lugares à m esa: a própria tia Selm a, Nandina e eu, Roger (filho de tia Selm a) e sua terceira esposa, m uito m ais j ovem que ele, Ann-Marie. Não víam os Roger e Ann-Marie desde o últim o Natal, então tínham os que lidar com a questão da m orte de Dorothy . Roger era um a das pessoas a favor de fingir que nada tinha acontecido. Ele até estava visivelm ente desconfortável com m eu m au gosto em aparecer para o j antar, m as Ann-Marie foi direto ao assunto:

— Fiquei tão triste — ela disse — ao saber que Dorothy tinha falecido! — Obrigado — respondi.

— E no Natal passado ela estava tão bem !

— Sim ... ela estava bem .

— Mas com o você está? — ela m e perguntou. — Estou bem .

— Quero dizer, de verdade.

— Estou bem , apesar de toda a situação.

— Estou perguntando porque m inha am iga, sabe, a Louise, ela acabou de perder o m arido.

— Ah, sinto m uito!

92

 

— Ele faleceu na m anhã de ontem . Leucem ia. — Ontem ! — exclam ou tia Selm a. — Na véspera do Natal? — Pois é, e ela nunca m ais vai poder passar o Natal sem se lem brar de Barry .

— E tam bém fica difícil para m arcar o velório — com pletou tia Selm a. — Mas, Aaron — perguntou Ann-Marie —, você tem algum a palavra de sabedoria que eu possa passar para ela?

— Palavra de sabedoria — repeti.

— Tipo: com o lidar com esse processo do luto? — Eu bem que queria saber — respondi. — Acho que não posso aj udar m uito.

— Ah, tudo bem . Vou apenas dizer a ela que você sobreviveu — ela disse. Roger disse:

— Francam ente, Ann-Marie! Com o se sobreviver à m orte de um a pessoa querida fosse repreensível de algum a form a.

Mas

o

m ais

curioso

é

que,

naquele

m om ento,

percebi

que tinha sobrevivido m esm o. Im aginei a am iga de Ann-Marie acordando na m anhã de hoj e, o prim eiro dia inteiro da vida dela sem o m arido, e agradeci aos céus por j á ter passado daquela fase. Apesar de sentir um a dor constante, parecia que havia m e afastado um pouco, sem saber, daquela prim eira dor insuportável.

Eu m e endireitei na cadeira e respirei fundo. Foi então que com ecei a acreditar que conseguiria m esm o atravessar tudo isso. 93

 

Mesm o assim , duas noites m ais tarde, tive um daqueles pensam entos parecidos com sonhos, que passam pela cabeça quando se está quase dorm indo. “Mas com o assim ?”, pensei, “faz tem po que Dorothy não m e liga!” Ela tinha o costum e de m e ligar do trabalho, no com eço de nosso casam ento, só para dizer um “oi” e saber com o m eu trabalho estava indo. Então, pelo j eito, a lua de m el tinha chegado ao fim . Senti um a ponta de arrependim ento, apesar de saber que as coisas eram assim m esm o. Mas então despertei totalm ente e pensei: “Ah, ela m orreu!”. E não foi nem um pouco m ais fácil do que no com eço. “Não vou conseguir fazer isso,” pensei, “não sei com o. Eles não têm nenhum curso sobre isso, e eu não tenho nenhum a experiência!”.

Na verdade, não tinha feito progresso algum .

O inverno de verdade chegou na m etade de j aneiro. Havia vários centím etros de neve no chão e algum as sem anas de um frio sem com paixão. Mas o trabalho na parte de fora de m inha casa estava quase term inando, e Gil e seus funcionários j á estavam trabalhando lá dentro. Ele m e disse que estavam refazendo o gesso do teto agora.

— Ah, que bom — eu disse.

Mas não fui ver com m eus próprios olhos. Nandina foi. Ela fez seu relatório m ais tarde: disse que alguém tinha que com pensar m inha falta de educação. Perguntei:

— Falta de educação? Mas com quem eu fui m al-educado? — Com os caras que instalaram o gesso, claro! — ela respondeu. — Esses trabalhadores precisam saber que o cliente está gostando. Eles fizeram um trabalho excelente no teto. Sem falha nenhum a.

— Que bom !

94

 

— Agora, você vai ter que escolher o piso para o hall de entrada. — Sim , Nandina. Gil trouxe um as am ostras. Votei na cor “xarope de bordo”.

— Você votou em “m el quente”, m as com o vai saber com o o “m el quente” vai ficar no chão de seu hall se está sentado no sofá de m inha sala de estar?

— Tá bom , então, vá você — disse a ela —, j á que faz tanta questão! E ela foi. Voltou para anunciar que “m el quente” ficaria bem , ela achava, m as que, em sua opinião, “caram elo” funcionaria m elhor. Eu disse:

— Tudo bem . Então vam os com o “caram elo”. Esperei que aquilo fosse resolver as coisas, m as, por algum m otivo, ela não parecia m uito satisfeita.

No m eio daquele período m eio m orto entre Natal e Páscoa, Charles propôs um a nova estratégia de m arketing.

— A tem porada dos presentes vem aí — ele disse. — Dia das Mães, Dia dos Pais, form aturas, casam entos em m aio... E se a gente oferecer um a coleção dos livros da série Para Iniciantes, em balados j untos de acordo com o tem a? Por exem plo, casais de noivos poderiam levar Equipam entos de Cozinha para Iniciantes, Planej am ento

de

Cardápios

para

Iniciantes e Jantares para

Iniciantes. Sem publicar nada novo: só os livros que j á existem , m as em balados em cores diferentes. Estava pensando em um branco bem brilhante para os noivos; cor-de-rosa para o Dia das Mães, talvez. Vocês estão m e entendendo? Nandina respondeu:

— Por que você não falou sobre isso na reunião desta m anhã, Charles? 95

 

Já era fim de tarde e estávam os todos na sala grande para onde davam nossas salas. Nandina estava saindo m ais cedo, de novo. Ela estava com o casaco pendurado no braço. Mas Charles se m exeu confortavelm ente em sua cadeira e disse:

— Eu ainda não tinha pensado nisso hoj e pela m anhã. Tive a ideia durante o alm oço. Isso sem pre acontece com igo quando bebo um m artini na hora do alm oço. Preciso beber m ais.

Nandina virou os olhos e Irene riu sem tirar os olhos do catálogo que estava estudando. Mas eu disse:

— Eu entendo o que você está querendo dizer. — Mas não pode ser qualquer m artini — revelou. — Foi um dia lento e m atei um pouco de tem po reorganizando a série Para Iniciantes por título, em vez de data. Todos os tem as estavam fresquinhos na m inha cabeça. Eu disse:

— Para os form andos, podem os ter, na caixa, Entrevista de Em prego, Caça

à

Casa

Perfeita e Orçam ento

Mensal.