O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir
Capitulo 8 · Um a noite, acordei e ouvi sussurros…
Um a noite, acordei e ouvi sussurros vindos do quarto de Nandina. E um a m anhã, alguns dias m ais tarde, quando estava m e barbeando no banheiro, m e arrisquei a olhar pela j anela e vi Gil Bry an saindo de casa e andando em direção à rua, entrando na cam inhonete, dando a partida e indo em bora. Ah, eu estava atrapalhando os dois, com certeza! Tinha chegado a hora de voltar para casa.
Os pedreiros ainda estavam trabalhando, com o Nandina e Gil fizeram questão de lem brar quando m encionei m eus planos naquela noite. Mas, na verdade, eu poderia j á ter voltado há sem anas, se não m e im portasse com os pedreiros chegando cedo pela m anhã. Quando contei para Nandina e Gil, os dois só disseram : “Ah. Bom ...”, e “se você tiver certeza, então...”, e am bos pareceram aliviados. Com ecei a arrum ar m inhas coisas logo depois do j antar. Eu m e m udei na tarde seguinte, um a sexta-feira, depois de sair m ais cedo do escritório.
A parte principal de m inha casa estava vazia, brilhante e fazendo eco, tão intocada quanto um a casa de bonecas vazia. Mas com o m óveis aleatórios e caixas de papelão entupiam m eu quarto inteiro, resolvi ficar no quarto de hóspedes. Eu estava feliz por ter um a desculpa para não voltar para m inha cam a. Acho que estava com m edo daquilo trazer de volta lem branças dem ais — não dos dias de casado, m as das sem anas depois que o carvalho caiu, quando fiquei deitado ali noite após noite, tentando im aginar com o podia seguir com m inha vida.
Não voltei para casa apenas por causa de Nandina e Gil. Vam os falar a verdade: a outra razão, a razão principal, era que esperava ver Dorothy lá. Nas duas sem anas desde que ela tinha aparecido à j anela do escritório, não houve sinal dela, nem um vislum bre sequer. Eu havia procurado por ela em vão nas calçadas, no m eio da m ultidão e sem pre que estranhos estivessem esperando por algum a coisa em um a fila. Eu virava a cabeça para trás em cruzam entos inesperadam ente, na expectativa de que ela estivesse atrás de m im . Eu havia m e 157
sentado conspicuam ente em bancos de praças públicas e m e esforçado para sentir a m anga da blusa dela encostando-se à m inha. Nada. Ela estava m e evitando.
Em casa, concentrei-m e nos locais onde ela tinha aparecido antes: a rua e o quintal. No sábado, m e levantei com o raiar do sol e, depois de um café da m anhã im provisado — duas barras de granola de um a caixa de com ida no quarto —, dei um a volta no quarteirão, apoiando m inha bengala na calçada quase que silenciosam ente para não acordar os vizinhos. Tudo que vi foi um gato preto, um tipo insultantem ente paranoico que saiu correndo assim que m e aproxim ei. A solidão m e fazia sentir m ais forte. Estava feliz por ter voltado para casa.
Quando o sol j á brilhava lá fora, arrastei um a cadeira de ferro do j ardim da frente para o quintal. Eu m e sentei de costas para a casa. Meu Deus, a gram a estava acabada! O verão tinha sido seco e a gram a m ais parecia palha. As azaleias estavam atrofiadas e m irradas e o círculo de serragem onde a árvore ficava tinha afundado um palm o ou m ais.
Provavelm ente eu estava delirando ao pensar que Dorothy apareceria aqui. O quintal estava tão pelado! Não havia esconderij o. Não havia som bra o bastante para se esquivar do brilho do sol.
Finalm ente, m e levantei e entrei em casa para pegar as chaves. Fui de carro para o superm ercado, onde reuni um a quantidade considerável de provisões. Parecia que estava fazendo com pras para um a fam ília de dez pessoas (acho que estava m e preparando para m e isolar e esperar em m inha caverna até que Dorothy resolvesse aparecer, por m ais que dem orasse). De volta a casa, escavei alguns utensílios de cozinha de dentro das caixas no quarto e preparei um bem balanceado alm oço — proteína, am ido, um a verdura —, então, saí e m e sentei na cadeira de ferro de novo, por falta de algo m elhor para fazer. Alguns m inutos depois, m e levantei para desenrolar a m angueira. A gram a fazia um barulho áspero sob m eus pés. Coloquei o borrifador de água perto das azaleias, liguei a torneira no m áxim o e m e sentei de novo. E foi assim que descobri os prazeres de observar um gram ado sendo regado. Juro que podia sentir a gratidão da gram a. Os passarinhos pareciam gratos, tam bém . Um pequeno grupo deles apareceu do nada, com o se a notícia tivesse se espalhado de algum a form a, e eles piaram , cantaram e flutuaram por 158
entre as gotas. A cadeira era reta dem ais, forçando-m e a sentar m uito ereto, e seus arabescos e rococós m achucavam m inhas vértebras. Ainda assim , senti m e invadir um a deliciosa sensação de paz. Virei o rosto e, com os olhos apertados por conta da luz do sol, acom panhei o arco form ado pela água, que regava para lá e para cá, com o um a m oça girando a saia ao andar. Eu praticam ente afoguei aquele quintal.
Som ente no com eço da noite, quando os pernilongos atacaram , é que fechei a torneira. Então, entrei para fazer o j antar e depois tentei ler um pouco, na pequena e pouco prática poltrona no canto do quarto de hóspedes. Mas estava tão inexplicável e irresistivelm ente sonolento que logo deixei o livro de lado e fui para a cam a. Dorm i sem m exer nem um dedo, eu acho, até quase 9 horas da m anhã seguinte.
Passei a m anhã de dom ingo arrastando várias caixas do quarto para a cozinha, colocando panelas e pratos no lugar e a com ida nos arm ários, que cheiravam à tinta fresca. Gostei de estabelecer os lugares exatos para casa coisa. Antigam ente, j am ais poderia fazer isso — pelo m enos, não com a esperança de que fossem perm anecer ali, com Dorothy por perto. Quando m e peguei pensando assim , balancei a cabeça com força, com o se pudesse derrubar o pensam ento dali.
Depois de desem pacotar o que podia, fui para o quintal de novo, com o um torcedor fanático, desesperado para voltar a assistir ao j ogo. A gram a ainda estava branca e am arelada, m as não m ais crocante. Levei o borrifador de água até as m oitas ao lado da alam eda, afundando na terra m olhada a cada passo, liguei a torneira e voltei para m inha cadeira.
A essa altura, eu j á tinha aprendido que, quando a luz do sol atravessava a nuvem de respingos de certa m aneira, eu conseguia ver outras coisas. Quer dizer, coisas que não estavam ali de verdade. Mas não Dorothy , infelizm ente. Num instante, vi um tipo de coluna, um a coluna coríntia toda decorada, erguendo-se enquanto o topo se dividia e, depois, dissolvendo-se em partículas; em outro, um a m ulher, em um vestido bege com prido, cheia de pressa. E então — o m ais estranho — vi um balanço, e um hom em de cam iseta em purrando um a criança sentada naquelas cadeirinhas de balanço para bebês e crianças m enores. Tam bém vi m inha cota de arco-íris, não é preciso dizer, e vários lençóis de tafetá se desenrolando e espalhando pelo gram ado. 159
Mas nunca Dorothy .
Vi um a m ulher com um guarda-chuva, m as — vej a só! — ela era real. Era Mim i King passando por entre os arbustos e m udando o peso de um pé para outro, com o um a m enina se preparando para pular corda, até que finalm ente se j ogou no m eio dos respingos de água e em ergiu do outro lado, chacoalhando o guarda-chuva antes de fechá-lo.
— Olá, Aaron! — ela cum prim entou e veio afundando até m im , em seus saltos altos de dom ingo, espalhando, pelo cam inho, buracos com o os deixados por ganchos de barracas.
Quando ela chegou perto, levantei-m e e a cum prim entei: — Bom dia, Mim i!
— Desse j eito — ela disse —, você vai acabar ganhando um a floresta am azônica!
— Preciso fazer m inha parte pelo planeta — respondi. Ela colocou a ponta do guarda-chuva entre os pés e as m ãos sobre o cabo.
— Você está m orando aqui de novo? — perguntou. — Achei que tinha chegado a hora.
— Todos nós pensávam os que você tinha ido em bora para sem pre. — Ah, não! — falei, com o se j á não tivesse pensado nisso tam bém . — Bem , na sem ana passada, estava conversando com Mary -Cly de e perguntei: “Alguém não deveria contar para ele que o pessoal que ele contratou ainda está vindo para cortar um a gram a que não existe m ais?”. Mas Mary -Cly de disse: “Ah, tenho certeza que ele deve saber! Os pedreiros estão aqui; com certeza eles devem ter contado para ele”. “Bom , isso eu j á não sei”, respondi para ela, “acho que pedreiros não são m uito sensíveis em relação a gram ados”. — Você quer se sentar, Mim i? — perguntei. Eu m e senti m al pelos sapatos dela, que agora estavam engessados por m eio dedo de lam a e folhas am areladas de gram a.
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Mas ela ainda estava seguindo sua linha de pensam ento: — Ah, m as isso veio bem a calhar — continuou —, porque estive pensando em convidá-lo para j antar um a noite dessas. — Ah, bem , eu não estou... eu não estou...
— Queria que você conhecesse m inha sobrinha. Ela está sofrendo m uito depois que perdeu o m arido, e acho que falar com você faria bem a ela. — Mas não sou tão social assim — respondi.
— É claro que não! Você não percebe? Mas isso é diferente. Louise perdeu o m arido na m anhã da véspera de Natal, dá para im aginar? A coitadinha está acabada.
— Véspera de Natal? — perguntei. — Acho que ouvi falar dela. — Ah, então você sabe! Ela tinha aceitado que era um a doença term inal, m as nunca pensou que ele pudesse falecer na véspera de Natal. — Sim — eu disse —, acho que ela não vai poder nunca m ais com em orar o Natal de novo sem se lem brar disso.
Eu estava tentando dem onstrar com paixão, m as parecia que tinha feito um papel bom dem ais, j á que Mim i m e deu um olhar de surpresa e disse: — Mas é isso m esm o! Está vendo? Você teria tantas coisas para dizer a ela!
— Não, não! — m e apressei em responder. — Não, acredite em m im , não é com o se eu pudesse oferecer qualquer... dica para o dia a dia, ou algum a coisa assim .
— Dicas para o dia a dia?
— Além disso, agora vou ficar ocupado arrum ando tudo. Meu Deus, esse lugar está um a bagunça! Todas as m inhas coisas estão enfiadas em um quarto: m óveis, livros, bugigangas, abaj ures, cortinas, tapetes... Finalm ente eu a afastei dali com as palavras. Ela m e acenou m eio sem forças e se virou para voltar para a alam eda, levantando o guarda-chuva de novo 161
ao se aproxim ar do borrifador, apesar de eu ter educadam ente fechado a torneira no instante em que ela resolveu ir em bora. De qualquer m aneira, eu tinha que adm itir que o gram ado estava bem regado agora. Com o m e lem brei da bagunça no quarto, fui lidar com ele depois do alm oço. Ainda não fazia sentido colocar todas as coisas no lugar, j á que atrapalhariam os pedreiros, m as achei que j á podia pelo m enos j ogar algum as coisas fora. Os livros de m edicina de Dorothy , por exem plo, e talvez algum as quinquilharias decorativas que tendiam a se acum ular por nenhum m otivo útil. Acontece que m uitos dos livros haviam se m olhado — não só os de Dorothy , os m eus tam bém . Eles haviam secado m ais ou m enos, desde então, m as as capas estavam tortas e eles cheiravam a m ofo. Eu abri caixa por caixa de papelão, revirei-as desanim adam ente e, então, levei um a por um a para o hall de entrada, para que os funcionários de Gil as levassem para a rua. Eu havia m e apropriado dos álbuns de fotos de m inha m ãe depois que ela m orreu e agora m e sentia culpado pelo estado em que se encontravam . Eu os levei para a cozinha e os espalhei pela m esa e pelos balcões, onde folheei as páginas pretas desbotadas, na esperança de que tom assem um pouco de ar. Com as quinquilharias, fui m ais insensível. Por que eu m e im portaria com m eus sapatinhos de bebê cor de bronze (um pequenino par de Nikes, que espirituoso!), ou com o pequeno relógio de porcelana que estava sem pre atrasado, ou com o vaso em form a de tulipa que alguém nos deu quando nos casam os?
Jantei de pé, j á que a m esa estava coberta pelos álbuns. Passeei pela cozinha estudando fotografias em sépia enquanto com ia m eu taco. Hom ens com colarinhos altos, m ulheres em m angas bufantes, crianças com rostos solenes, cuj as roupas eram tão rij as quanto um a placa sanduíche de “com pra-se ouro”. Ninguém estava identificado. Acho que o dono do álbum acreditava que eles não precisavam ser identificados: todo m undo se conhecia naquela época, naquele m undo m enor. Mas a sépia m udou para preto e branco e, então, para as extravagantes cores da Kodak e nenhum a daquelas fotos tinha legenda — 162