O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir
— Ele faleceu quando eu estava no…
— Ahn, não.
— Ele faleceu quando eu estava no ensino m édio, m as, depois que com ecei a trabalhar com construção, às vezes eu o via por perto. Aqui e ali, sabe? Supervisionando o proj eto, vendo o que eu estava fazendo. Ele pegava um a viga de canto e a chacoalhava, para ver se estava firm e m esm o. Agachava-se para pegar um prego do chão. Algum as vezes, cheguei à construção cedo pela m anhã e encontrei um m onte de pregos enfileirados em um peitoril. Meu Deus, com o ele odiava desperdício!
Tentei interpretar a expressão de Gil — será que ele estava brincando? Mas ele estava de pé agora, um pouco inclinado para trás, os olhos apertados para observar o batente da j anela.
— Acho que ele fez esse tipo de coisa durante uns m eses — continuou, pouco depois. — Ele nunca disse nada. Nem eu. Eu só ficava ali, olhando para ele, im aginando o que ele estava procurando. Sabe, nós nunca fom os m uito próxim os. Não, senhor, nem um pouco. Não desde que eu era um m olequinho. Ele não aprovava m eu j eito rebelde de viver. Então, fiquei pensando o que ele queria. Bem , de qualquer j eito, ele foi em bora, não sei dizer exatam ente quando. Só parou de aparecer, e então eu percebi. Sabe o que eu acho agora?
— O quê? — perguntei.
Gil se virou e olhou para m im . Sua expressão estava perfeitam ente séria. — Acho que era um negócio inacabado — ele disse. — Ele se sentia m al por ter desistido de m im enquanto eu vivia revoltado e voltou só para garantir que eu estava bem .
— Então... você acha que ele conseguiu aquilo que queria? — perguntei. — Ele ficou satisfeito, no final?
— Ele ficou satisfeito. Bem ... Claro, eu acho que sim . Então anotou algum a coisa no bloco de post-its que carregava no bolso da cam isa, arrancou a prim eira folhinha e a grudou no batente da j anela.
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Eu estava sentado em um banco no shopping, enquanto Nandina estava na Apple Store. Odeio shoppings. Não teria ido com ela se não estivéssem os em um a m issão de trabalho. Mas a Apple Store estava lotada e com ecei a ficar irritado, então ela m e m andou sair. Estava sentado ali, inquieto, m al-hum orado e irritado, m as aos poucos m e acalm ei. E percebi que Dorothy estava sentada a m eu lado.
Eu não falei. Não olhei para ela. Ela não falou, tam bém . Parecia que tínham os concordado em com eçar do zero: sim plesm ente estarm os j untos, para com eçar. Sente-se. Não fale; não estrague tudo. Sim plesm ente sentem -se lado a lado e vej am o m undo passar.
Im agine duas estátuas em um a pirâm ide egípcia: hom em sentado, m ulher sentada, olhando para frente, receptivos. Vim os três velhinhas, em vestidos floridos e tênis brancos, esponj osos e enorm es, fazendo sua cam inhada. Vim os um casal de adolescentes passeando tão enroscado e entrelaçado que nos fazia im aginar com o é que eles não caíam de cara no chão. Observam os um a m ãe dando bronca em um m enino de uns 9 ou 10 anos de idade.
— Só quero que você saiba — ela dizia — que vou ter de m e desculpar com sua esposa todos os dias de seu casam ento por ter criado um a pessoa tão egoísta e im prudente.
Ficam os sentados ali por um bom tem po j untos, absolutam ente im óveis. Mas ela não foi em bora, exatam ente. Depois de um tem po, eu estava sentado sozinho de novo.
Agora que tinha aprendido a vê-la, ela com eçou a aparecer com m ais frequência. Ela não chegava propriam ente; eu percebia, aos poucos, sua 142
presença. Ela era o calor atrás de m im na fila do superm ercado; a silhueta à m inha direita enquanto eu cruzava o estacionam ento. Im agine que estej a abrindo cam inho no m eio de um a m ultidão com um am igo e com o, m esm o sem olhar, você sabe, de algum a form a, que seu am igo está m antendo o passo com você. Era assim com Dorothy . Essa é a m elhor m aneira que consigo descrever.
Deixe-m e dizer, de um a vez por todas, que não estava louco. Ou, em outras palavras: eu tinha perfeita consciência de que ver um a pessoa m orta era loucura. Sinceram ente, não acreditava que os m ortos voltassem para a Terra (de onde?) e eu nunca, m esm o quando criança, achei que fantasm as existissem .
Mas ponha-se em m eu lugar: pense em um a pessoa que você perdeu e de quem vai sentir saudade até o fim de seus dias e então im agine encontrar essa pessoa em público. Você vê seu pai, que m orreu há m uito tem po, passeando à frente com as m ãos nos bolsos. Ou ouve sua m ãe cham á-lo: “Querido?”. Ou seu irm ãozinho, que caiu em um buraco, em um rio congelado, quando tinha 6 anos, por exem plo, passar por você com seu cheiro de pastilhas de m enta para garganta e luvas úm idas. Você não questionaria sua sanidade, porque não suportaria pensar que não é real. E com certeza não exigiria explicações, nem alertaria as pessoas ao redor ou estenderia a m ão para tentar tocá-la, nem que sentisse que um toque valeria desistir de qualquer coisa. Você seguraria a respiração. Ficaria o m ais im óvel possível. Pediria à pessoa am ada que não fosse em bora de novo.
Descobri que ela se sentia m ais confortável ao ar livre que dentro de casa (ao contrário de quando estava viva) e ficava longe de Nandina: nunca aparecia em m eu escritório. Em am bos os casos, era com preensível, acho. Ela e Nandina sem pre tiveram um relacionam ento extrem ado e acredito que se sentiria um a intrusa em m eu local de trabalho. Não que alguém teria sido hostil, m as você sabe com o são as relações sociais no escritório, a fofoca aconchegante de m esa em m esa, as piadas que nunca desaparecem e o vocabulário especializado.
No entanto, era m ais difícil de entender por que ela nunca visitava nossa própria casa — pelo m enos, o lado de dentro. Você não acha que ela ficaria curiosa? O m ais próxim o que havia chegado tinha sido a calçada. Mas, então, 143
em um a m anhã de dom ingo, eu a vi no quintal, ao lado de onde o carvalho ficava. Foi um a das poucas ocasiões em que ela j á estava no lugar antes de eu chegar. Olhei pela j anela da cozinha e a vi de pé ali, olhando para a serragem , com as m ãos enfiadas nos bolsos de seu j aleco de m édica. Cheguei até ela em tem po recorde, apesar de ter deixado m inha bengala em algum lugar da casa. E disse — m eio sem ar:
— Você vê que eles retiraram qualquer sinal da árvore. Até m oeram o toco.
— Aham — ela respondeu.
— Eles perguntaram se eu queria colocar outra planta no lugar, um pé de bordo ou algo assim . Os pés de bordo crescem rápido, segundo eles, m as eu recusei. A gente nunca teve sol o suficiente aqui — eu disse. — Talvez agora... Parei. Não queria falar sobre aquilo. Durante todos os m eses em que ela não estava por perto, eu tinha guardado tantas coisas para falar com ela, tantas notícias sobre a casa, a vizinhança, os am igos, o trabalho e a fam ília, m as, agora, elas m e pareciam irrelevantes. Insignificantes. Se você se distanciar de um evento o bastante, ele se nivela e se m istura à paisagem de sem pre. Lim pei a garganta. E disse:
— Dorothy !
Silêncio.
— Não consigo pensar que você estej a m orta, Dorothy . Ela desviou os olhos da serragem .
— Morta? — ela perguntou. — Ah, m as não estou... Bem , talvez você cham asse isso de m orte. Não é estranho? Esperei.
Ela voltou a estudar a serragem .
— Você está feliz? — perguntei. — Tem saudade de m im ? Sente falta de estar viva? É difícil para você? Pelo que você está passando, Dorothy ? 144
Ela olhou para m im de novo. E disse:
— É tarde dem ais para dizer pelo que estou passando. — O quê? Tarde dem ais?
— Você deveria ter m e perguntado antes.
— Perguntando antes do quê? — quis saber. — Do que você está falando? Então, Mim i King cham ou:
— Iuhuuu! — ela apareceu de repente pelos fundos da casa, acenando. Estava vestindo suas roupas de ir à igrej a e até estava usando chapéu. Acenei de volta, m eio sem vontade, esperando que fosse suficiente, m as não, lá veio ela, andando em nossa direção m eio cam baleando, o que queria dizer que estava de salto alto. Eu disse:
— Mas que inferno! — e m e virei para Dorothy . É claro que ela não estava m ais lá.
Eu sabia que era por causa de Mim i. Mesm o quando ainda estava viva, Dorothy sem pre tentava escapar de um a visita de Mim i. Porém , de algum a form a, não encarei seu desaparecim ento com o um a form a de m e repreender, pessoalm ente. “Você deveria ter m e perguntando antes”, ela m e disse. “É tarde dem ais”, ela m e disse. E foi em bora.
Era tudo culpa m inha, não podia deixar de sentir isso. Mim i estava tropeçando nos arbustos agora, m as m e virei, com um peso no peito, e fui m ancando até m inha casa.
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CAPITULO 7
Em setem bro, tivem os um a reunião no trabalho para planej ar o Natal. A m aioria de nós achou difícil conj urar qualquer tipo de espírito de final de ano, estava fazendo uns 26 graus e as folhas ainda não tinham com eçado a cair. Mas nos reunim os na sala de Nandina: Irene e Peggy no sofá, Charles e eu em duas cadeiras de rodinhas, em purradas de algum a outra sala. Com o era de se esperar, Peggy havia trazido com es e bebes — biscoitos caseiros e chá de hortelã gelado —, pelos quais Nandina a agradeceu, apesar de não ver necessidade daquilo (“Às vezes, m e sinto na escola de novo” — ela m e disse um a vez — “e Peggy é a m ãe da classe”). Aceitei um biscoito por educação, m as deixei-o sobre um guardanapo na m esa de Nandina.
Irene estava usando sua lendária saia-lápis hoj e. Era tão j usta que, ao se sentar, ela precisava puxá-la para cim a dos j oelhos, revelando as pernas longas e esbeltas, que ela cruzava duas vezes, prendendo a ponta de um sapato atrás do tornozelo da outra perna. Peggy usava os babados de sem pre, incluindo um suéter de m anga curta e rendada, pois sem pre dizia que o ar condicionado da Editora Woolcott era gelado dem ais. E Nandina presidia a sessão de trás de sua m esa, em seu vestido de cintura alta, que fazia com que parecesse que acabava de ter descido de um a carruagem , com as palm as das m ãos precisam ente j untas à sua frente.
— Para com eçar — ela disse —, preciso saber se alguém teve algum a ideia brilhante para nosso m arketing de final de ano. Ela olhou para o grupo. Silêncio. Então, Charles engoliu um a porção de biscoitos e levantou a m ão.
— Isso vai parecer um pouco grandioso dem ais — ele disse —, m as acho que encontrei um a m aneira de vender nossa coleção Para Iniciantes inteira, em um pacote só.
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Nandina parecia surpresa.
— Vocês j á ouviram falar daqueles “pais helicópteros”? — ele perguntou, para o restante de nós. — Esses tipos m odernos que ligam para os filhos que j á estão na faculdade toda hora para ter certeza de que seus queridinhos estão sobrevivendo sem eles? Nada que Janie e eu planej em os fazer, acredite em m im , se conseguirm os fazer com que as m eninas saiam de casa. Mas, de qualquer form a, esta é exatam ente a ideia de presente que seria atraente para um “pai helicóptero”: colocaríam os toda a coleção em um a série de caixas que im itam m adeira com tam pas corrediças. Abra as caixas e você vai encontrar instruções para qualquer tipo de eventualidade. Não apenas os títulos dos “m ontar-um a-casa-para iniciantes” ou “com o-cuidar-de-um a-fam ília”, m as Vida para Iniciantes, do com eço ao fim , do berço à sepultura. E a m elhor parte é que as caixas que im itam m adeira podem ser usadas com o estantes m odulares para livros. Essa m olecada só precisa em pilhar as caixas em seus apartam entos, com o topo virado para frente, puxar as tam pas e pronto. Se chegou a hora de m udar de casa, é só tam par tudo de novo e j ogar no cam inhão de m udanças. Ainda não está na hora do livro sobre am am entação ou do livro sobre divórcio? Eles podem deixá-los em um a caixa no porão até chegar o m om ento. — E o que m ais? Aposentadoria para Iniciantes tam bém ? — Irene perguntou. — Planej am ento de Velórios para Iniciantes? — Ou colocá-los em um depósito. Ouvi dizer que essa m olecada hoj e em dia tam bém tem depósitos.
Nandina disse:
— Não estou conseguindo acreditar que esses “pais helicópteros” vão chegar a esse ponto, Charles.
— Eu tam bém — com pletou Irene. — Por que não dam os para os pais o Síndrom e do Ninho Vazio para Iniciantes e contornam os a questão toda? — A gente j á publicou esse? — Peggy perguntou. — Não, Peggy , eu estava brincando.
— É um a ideia — Charles disse. — Mas só depois que venderm os todos os outros livros, é claro. Anote aí, Peggy .
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— Ah! E, j á que estam os falando de novos títulos — Peggy disse, toda anim ada —, tenho um : A Esposa na Menopausa para Iniciantes. Nandina perguntou:
— Com o é?
— O hom em que veio consertar m eu fogão na sem ana passada. Ele estava m e contando com o sua m ulher está deixando-o louco por causa da m enopausa.
— Sinceram ente, Peggy — Nandina com entou —, onde você acha essas pessoas?
— Não fui eu! Foi o proprietário da casa que o recom endou. — Mas você deve ter feito algum a coisa para trazer o assunto à tona. Parece que as pessoas sem pre contam a vida inteira para você. — Ah, m as não m e im porto.
— Bem , eu, pelo m enos — com entou Irene —, tento m anter as coisas em um nível puram ente profissional. “Aqui é a cozinha”, digo, “o fogão fica aqui. É só m e cham ar quando acabar o conserto”.
Dei risada, m as os outros fizeram que sim com a cabeça educadam ente. — Eu j uro — Peggy disse a todos —, não foi culpa m inha. A cam painha tocou; eu atendi. O hom em entrou e disse: “m ulher”. E então: “m enopausa”. — Estam os fugindo do assunto aqui — Nandina continuou. — Alguém tem um a sugestão relacionada ao Natal?
Charles m eio que ergueu a m ão de novo.
— Bom ... — ele disse. Então olhou para o restante de nós. — Não que queira m e gabar, m as...
— Diga! — Nandina disse a ele. — Pelo j eito, você é o único inspirado aqui hoj e.
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Charles esticou a m ão para debaixo da cadeira para pegar um livro. A capa era de um couro m arrom sofisticado, toda trabalhada em dourado, com letras góticas que diziam : Minha Vida Maravilhosa, por. — Por...? — Nandina perguntou.
— Por quem quer escrever — Charles respondeu. — Quiser — Irene o corrigiu.
— Ah, m e desculpe! Que falta de tato a m inha. Então, esse livro seria um presente para a pessoa excêntrica da fam ília. Seus filhos entrariam em contato conosco para publicar suas m em órias — o que j á paga pela im pressão — e receberiam este boneco com capa de couro j á com nom e da pessoa. Na m anhã de Natal, explicariam que tudo o que a pessoa tem que fazer é escrever suas lem branças lá dentro. Depois disso, vai direto para as rotativas. Fácil. Ele segurava o livro acim a da cabeça e folheava as páginas sedutoram ente.
— E o que vai im pedir esse m aluco de apenas escrever no livro e deixar por isso m esm o? — perguntei.
— Melhor para nós — Charles explicou. — Serem os pagos por um a im pressão da qual não precisarem os cuidar. É estritam ente não reem bolsável, entende?
Eu m e segurei para não fazer um de m eus com entários do tipo Tram biques para Iniciantes, m as Peggy exclam ou: — Ah, m as coitados dos filhos!
— Quem paga aceita o desafio — Charles lhe disse. — Talvez a gente pudesse apenas oferecer o boneco, sem envolver a im pressão — ela sugeriu.
— Então, com o é que seria diferente daqueles livros do tipo Lem branças da Vovó, das loj as de cartões?
— Poderia ser m ais luxuoso?
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Charles suspirou.
— Para com eçar — ele falou —, as pessoas gostam de ver suas palavras im pressas. Metade desta em presa depende disso. E m ais: estam os tentando inventar o produto m ais caro possível.
— Mas e se a vida do cara não foi m aravilhosa? — Irene quis saber.
— Nesse caso, ele não vai ver a hora de esclarecer isso. Mal pode esperar para com eçar! Vai com eçar a escrever debaixo da árvore de Natal e se esforçar ao m áxim o, anotando as m ágoas e ignorando todos os parentes. — Bom , obrigada, Charles! — Nandina disse. — Com certeza, isso nos dá algo para pensar. Essa ideia da estante de livros m odular parece um pouco... am biciosa, m as, com certeza, deveríam os considerar o proj eto do livro de m em órias. Mais alguém ?
O restante de nós estava estudando a decoração, com o alunos que rezam para não serem cham ados pelo professor.
Um dos efeitos inesperados das visitas de Dorothy era que, cada vez m ais, eu via o m undo através dos olhos dela. Participei daquela reunião com o se fosse um estrangeiro, estranhando que aquelas pessoas pudessem levar assuntos com o aquele tão a sério. Pense bem : um a coleção de m anuais de instruções, cuj o obj etivo principal era ser superficial. Um a m iscelânea de m em órias de guerra e de filosofias de para-choque de cam inhão, que nenhum a outra editora nem se dignaria a folhear. Era essa a razão de m inha existência? Eu costum ava brincar com a ideia de que, ao m orrerm os, finalm ente ficam os sabendo para que a vida serviu. Nunca im aginei que poderia descobrir isso quando outra pessoa m orresse.
Já era hora do alm oço quando a reunião term inou, m as, em vez de ir ao café da esquina com os outros, eu m e retirei para m inha sala. Tinha trabalho a fazer, eu disse a eles. Quando estava finalm ente sozinho, girei m inha cadeira 150
para a j anela e fiquei olhando fixam ente para a paisagem esquálida de tij olos. Era um alívio não precisar m ais fingir que estava anim ado e largar aquela expressão de interesse.
Fiquei pensando na vez em que Dorothy estava na Rua Rum or olhando nossa casa. E quando andou a m eu lado, depois do alm oço. Pensei que, provavelm ente, nenhum de nós havia realm ente falado em voz alta durante nossos encontros. Nossas conversas tinham acontecido silenciosam ente em m inha m ente — m inhas palavras fluindo sem problem as, pelo m enos dessa vez, sem parar ou gaguej ar. É claro que era assim que m e lem brava de todas as m inhas conversas. Eu poderia perguntar a alguém : “Vo-vo-você po-pode passar endereço?”, m as, em m inha cabeça, era um firm e: “Você poderia m e passar seu endereço, por favor?”. Mesm o assim , nunca m e enganei. Sabia com o as palavras soavam . Eu parecia um a ligação de celular sem sinal decente. No entanto, com as visitas de Dorothy tinha sido diferente. Eu havia deslizado pelas frases sem o m ínim o esforço, porque havia falado apenas em m eus pensam entos. E ela os havia entendido. Tudo tinha sido tão fácil! Mas agora eu queria as dores e as delícias de um a vida norm al. Queria que m inhas consoantes interrom pessem m inhas vogais ao falar, m eus pés tocando os dela durante um abraço, m eu nariz cutucando o dela durante um beij o. Eu queria a realidade, m esm o que fosse im perfeita e repleta de falhas. Fechei os olhos e desej ei de todo o coração, que ela aparecesse só para colocar um a m ão em m eu om bro. Mas ela não veio. Ouvi os outros voltarem do alm oço — fragm entos de conversas e risadas. Um a cadeira foi arrastada. Um telefone tocou. Vários m inutos depois, alguém bateu à m inha porta.
Girei a cadeira para olhar para frente.
— Quem é? — perguntei (na verdade, eu disse: “Quem ?”). 151
A porta se abriu alguns centím etros e Peggy enfiou a cabeça por ela. — Você está ocupado? — perguntou.
— Bom ...
Ela entrou e fechou a porta cuidadosam ente (oh, não, m ais um a conversa profunda!). Ela estava com a palm a de um a m ão estendida, trazendo um biscoito sobre um guardanapo.
— Você deixou isso na m esa da Nandina — ela disse e colocou o guardanapo sobre um a pasta. — Achei que você fosse querer, j á que não saiu para alm oçar.
Ela trazia a lata de biscoitos debaixo do braço, toda pintada de hortênsias cor-de-rosa e lilás. A ponta de um guardanapo de papel decorado aparecia por baixo da tam pa. Ela colocou a lata sobre a pasta tam bém , m as nem a m encionou, com o se estivesse tentando fazer isso sem que eu percebesse. — Era dia de sanduíche de rosbife no Gobble-Up — ela contou. — Todos nós pedim os sanduíches de rosbife grelhado.
— Que ótim o! Vou ser o único que vai conseguir trabalhar hoj e à tarde. — Sim , j á estou com dor de estôm ago.
Esperei que ela saísse, m as, em vez disso, ela puxou a cadeira em frente à m inha m esa. Mas só se em poleirou na pontinha do assento, o que considerei um bom sinal. Porém , ela tirou o suéter, o que definitivam ente era um m au sinal. Ela se virou para pendurá-lo nas costas da cadeira, alisando a renda nas m angas curtas para que se abrissem com o m alvas. Então, olhou de novo para m im . Repousou as m ãos sobre o colo.
— Acho que eles não gostaram m uito da m inha ideia — ela disse. — Qual ideia?
— A ideia da esposa na m enopausa. Você nem lem brava m ais? — Ah, sim — respondi.
Tentei arrastar m inha m ente de volta para a esposa na m enopausa. 152
— Bem — eu disse, após um a pausa —, talvez sej a porque estam os focados no Natal...
— Não, é sem pre assim . A Nandina sem pre m e diz: “Você é um a integrante crucial dessa equipe, Peggy ; não sei o que faríam os sem você, Peggy ”, m as quando proponho algum a coisa, sem pre m e derrubam . Eles não gastaram nem um segundo para pensar naquilo que disse hoj e pela m anhã, a não ser para rir da m inha cara por ter conversado com o cara do fogão. Eles não discutiram a ideia, não votaram nela. Então, Nandina vem dizer que Charles é o único com inspiração aqui. Você notou com o ela disse aquilo? Mas era um a boa ideia! Eles deveriam ter prestado m ais atenção! — Bom , será que... — eu com ecei. Estava tentando relem brar em que consistia exatam ente a ideia dela. — Será que eles não acharam que seria um livro... especializado dem ais?
— Especializado! Metade da população do m undo passa pela m enopausa. Não é o que se pode cham ar de um a doença rara ou exótica. — Sim , tudo bem , m as... Talvez o enfoque pareça um pouco estranho. Consigo ver Menopausa para Iniciantes, m as A Esposa na Menopausa para Iniciantes? Parece indicado para o leitor errado. — Não é indicado para o leitor errado — Peggy respondeu. Ela estava sentada em postura extrem am ente reta agora, e suas m ãos fechadas estavam com as pontas dos dedos brancas. — É indicado exatam ente para a pessoa que deveria receber essa inform ação: o m arido! Ele não tem a m enor noção! Ele diz: “O que está acontecendo com essa m ulher? Eu não entendo!”. E nós deveríam os explicar o que ele está presenciando. Diríam os o que ela precisa dele, com o ela está se sentindo inútil e velha agora e com o ele deveria cuidar ainda m elhor dela.
Sim , Peggy iria m esm o insistir nisso. Eu disse: — Peggy , eu sei o que você está dizendo, m as algum as pessoas sim plesm ente odeiam que os outros se preocupem com elas, sabe? Você j á considerou isso? Se a esposa dele está se sentindo inútil, talvez se sinta m ais inútil ainda se o m arido com eçar a tratá-la com o um bebê. Talvez ela até m esm o vá se ressentir disso.
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— Falar isso é a sua cara! — Peggy disse.
— O quê?
— Só você m esm o poderia achar que alguém poderia deixar um a pessoa ressentida ao lhe fazer um a gentileza.
— Mas só quis dizer que...
— Pessoas norm ais dizem : “Ah, obrigado, querido! Isso m e faz m e sentir m uito m elhor. Eu m e sinto m ais am ada e valorizada”. — Pode ser...
— Ah, m as não você. Você é tão sensível, tão irritadiço! Nós todos aqui andam os pisando em ovos porque poderíam os dizer algum a coisa errada. Eu respondi:
— Com o é que esse assunto chegou a m im , de repente? — Não é j usto, Aaron. Você espera dem ais de nós. Não tem os bola de cristal! Estam os todos fazendo o m elhor que podem os aqui; não sabem os tudo, só estam os tentando viver a vida do m elhor j eito, com o todo m undo! Então ela pulou da cadeira e saiu da sala, batendo a porta atrás dela. Meu Deus!
Fiquei de queixo caído, totalm ente perdido. Eu raram ente era envolvido em um a conversa tão irracional. O ponto A não levava ao ponto B, m as ao ponto H. Ou para os pontos X, Y, Z, sei lá!
Preciso de um livro cham ado Secretárias Dem entes para Iniciantes. Teriam os outros ouvido a discussão? Eles não poderiam ter ignorado aquela batida de porta épica, pelo m enos. Tentei ouvir algum a voz, m as não escutei nada. Na verdade, estava tudo quieto dem ais. Peguei o biscoito de m inha pasta e o estudei. Fiquei m eio inquieto. Nunca tinha visto Peggy perder a paciência antes. 154
Era um cookie de aveia com gotas de chocolate. Não era um disco plano, com o do tipo que a gente com pra no superm ercado; era com o um a pequena m ontanha, irregular com os flocos de aveia e repleto de gotas enorm es de chocolate; eram pedaços, não gotas. Dei um a m ordida experim ental. O chocolate ficou fresco sobre m inha língua antes de se derreter. A m assa havia sido assada pelo tem po perfeito — alguns poderiam dizer que não estava assada o bastante, m as não eu —, e era m acia por dentro e crocante por fora, com alguns pedacinhos pontudos de algum a coisa que provocava um contraste de texturas. Talvez castanha? Não, não castanha. Algum a coisa m ais dura que castanha, m ais arriscada que castanha. Eu não sabia m esm o. Pelo j eito, havia com ido o biscoito inteiro enquanto pensava sobre ele, então arranquei a tam pa da lata e peguei outro. Eu precisava saber o que era aquilo. Dei um a dentada e m astiguei lentam ente. Os flocos de aveia tinham sua própria e distinta identidade. Suspeitei que fossem do tipo de antigam ente, e não aquele de cozim ento rápido. Eu teria tom ado um copo de leite gelado, m as não se pode ter tudo. Term inei aquele biscoito e peguei m ais um . E outro. Eu m e sentia m eio bobo fazendo isso, m as, enquanto m astigava, fechei os olhos para saborear m elhor as diferentes texturas e para sentir os oásis de chocolate derretendo na língua. Então eu engolia, abria os olhos e dava outra m ordida. A lata de biscoitos de Peggy ficou sobre m inha m esa: era m ais um a coisa a saborear, pois, de certo m odo, alim entava m inha visão. Ela tinha um a lata especial para cada ocasião: um a verm elha, brilhante, para o Natal, com um Papai Noel na tam pa; um a verde-clara para a Páscoa, com um coelho usando um a boina; e essa de hortênsias, até o outono chegar, quando ela usava sua lata decorada com bolotas de árvores. Peguei m ais um biscoito. Mastigando sem perder o ritm o, transferi m eu olhar para o suéter que ela tinha deixado pendurado no encosto da cadeira. Não entendi m uito bem com o é que um suéter de m angas curtas poderia aquecer alguém , m as ela parecia adorar aquele, que era branco, com om bros volum osos e, depois, caía com o um a capa. As pontas das m angas eram cheias de babados de renda (claro) e m ais duas fileiras de renda se estendiam ao lado dos botões. Eu poderia apostar que até a calcinha de Peggy tinha babados. Passei um m om ento agradável pensando nisso: um sutiã todo acabado com rendas com ilhós, com o o guardanapo de papel da lata de biscoitos, e bem esticado até form ar um a ponte, em um leve declive entre os seios dela. Fui pegar m ais um biscoito da lata, m as, pelo j eito, eu tinha acabado com eles. Só havia m igalhas. Apertei a ponta do dedo sobre 155
as m igalhas e as lam bi, até com er todas. Então, dei um suspiro longo e satisfeito, inclinei-m e para trás na cadeira e girei na direção da j anela de novo. Essa era a j anela traseira do prédio, no térreo, e cheia de poeira, dando para a parte de trás de um prédio de tij olinhos à vista, acabado e repleto de varandas de m adeira descascando. Sob as varandas, havia um a fileira de latas de lixo e caixas de leite vazias, e, em frente a elas e tão im óvel que dem orei para m e dar conta, estava Dorothy .
Ela estava a uns 6 m etros de m im , do outro lado da rua, e eu não sabia se ela tinha m e visto. No entanto, olhava na direção da j anela. Seus braços estavam vazios, pendurados ao longo do corpo, e ela não estava usando a bolsa estilo carteiro. Tinha um ar de quem não sabe o que fazer consigo. Ela parecia quase perdida. Parecia não saber para onde ir em seguida. Eu m e levantei rapidam ente, m as, antes que conseguisse abrir a j anela, ela se virou e foi em bora.
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