O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir

um novo estoj o da coleção de…

um novo estoj o da coleção de Anne de Green Gables, apesar de ter quase todos os livros da série em edições diferentes.

— Você lê Anne de Green Gables? — perguntei. Peggy disse:

— Ah, é verdade! Fiz a m esm a coisa com a coleção de livros do Ursinho Pooh.

Por algum m otivo, isso era m ais fácil de visualizar que Irene se aconchegando para ler Anne de Green Gables. Apenas Nandina ainda não parecia convencida. — Vam os falar sobre isso am anhã — ela disse enquanto se encam inhava para a porta. — Estou atrasada para um com prom isso. — Mas é um a ideia, você não acha? — Charles gritou para ela. E então, para o restante de nós, j á que Nandina tinha saído: — Vocês não acham ? — Eu acho — respondeu Irene. — Na verdade, é um a ideia brilhante. — Ah, é apenas Marketing para Iniciantes — ele disse m odestam ente. — Parece m ais Tram bique para Iniciantes — com pletei. — Ei! Mas você m esm o disse que entendia o que eu estava tentando dizer.

— E entendo — respondi.

Provavelm ente tinha ficado com um pouco de invej a. Irene nunca tinha dito que algum a de m inhas ideias era brilhante. Eu tinha m ais um a tarefa antes de ir para casa: um a reunião em m inha sala com um tal de sr. Dupont, que queria publicar seus diários de viagem . O título de seu livro era Obj etos podem ter m udado de lugar, com o a plaquinha nos bagageiros do avião, o que eu achava prom issor. Mas o original propriam ente dito, pelo m enos pelo que tinha visto ao folheá-lo enquanto ele se sentava à m inha frente, consistia de descrições dram áticas de vistas de m ontanhas de tirar o fôlego e pratos nativos deliciosos que havia provado. 97

Claro que eu não tinha nada com isso. Discutim os custos, prazo para publicação, essas coisas, e eu disse a ele que seria um prazer fechar o negócio. Então, nos levantam os, apertei a m ão dele e ele foi em bora. Peggy era a única que ainda estava na sala. Estava sentada de costas para m im , digitando, e eu estava prestes a parar e fazer algum a observação am igável sobre com o ela não deveria trabalhar até tarde quando ela disse, ainda clicando com o m ouse:

— Não se esqueça de sua bengala.

Aquilo m e irritou, então resolvi nem parar. Sim plesm ente disse: — Já peguei — e passei por ela em direção ao cabide de casacos, onde tinha pendurado a bengala naquela m anhã.

— Você foi para casa sem ela duas vezes na sem ana passada — ela observou.

— Sim ? E daí? Você tem que adm itir que, de algum a m aneira, consegui m ancar até aqui no dia seguinte.

Atrás de m im , as teclas do com putador ficaram em silêncio. Eu m e virei para encontrar seus olhos m uito azuis e m uito arregalados. — Ah! — ela disse. — Então tem os que fingir que você não usa bengala? — Não, eu... É que na verdade eu não preciso dela — respondi. — Eu poderia m uito bem viver sem isso.

— Ah.

Eu m e senti m eio m al latindo para ela daquele j eito, m as ela j á tinha com eçado a digitar de novo, então sim plesm ente m e despedi: — Boa noite, então.

— Boa noite — respondeu, sem tirar os olhos da tela. 98

Não podia deixar de perceber que eu andava bem grosso aqueles dias. Pensei nisso enquanto dirigia para casa. Na reunião geral, naquela m anhã, quando Nandina instalou o silêncio batendo a caneta contra a caneca de café, quase arranquei a cabeça dela com os dentes. — Pelo am or de Deus, Nan — eu falei —, você tem de agir com o se estivéssem os em um Congresso Continental?

Mas Nandina sabia m uito bem responder:

— Sim , tenho, sim — ela havia respondido. — E você sabe m uito bem que odeio ser cham ada de “Nan”.

Peggy , por outro lado... Um a criança poderia ter desenhado aqueles olhos dela, com os cílios ao redor com o raios de sol. Estacionei o carro em frente à casa de Nandina e pensei: “Estou virando um daqueles velhos ranzinzas que as crianças têm m edo de visitar no Halloween”.

O carro de Nandina estava parado em frente à garagem , com o m e desapontei ao ver. Esperava que ela ainda não tivesse voltado de seu com prom isso. Suspirei e m e arranquei de trás do volante. Talvez eu devesse ir direto para m eu quarto — e ignorá-la com pletam ente. Mas, quando abri a porta da frente, eu a ouvi falando na cozinha. Evidentem ente, seu com prom isso era em casa, com alguém que ia consertar algum a coisa, talvez. Então a pessoa respondeu, e era Gil. Reconheci a voz dele, apesar de não conseguir ouvir o que estava falando. Ainda de casaco, fui até a cozinha.

— Olá — eu disse.

Gil estava sentado à m esa, com a j apona pendurada na cadeira e as m angas de sua cam isa de flanela arregaçadas. Nandina estava de pé ao balcão, fatiando um a laranj a.

— Aaron! — exclam ou, virando-se. — Não ouvi você entrando. 99

— Oi, Gil — eu disse.

Ele acenou com um a de suas m ãos de luva de beisebol e respondeu: — Tudo bem , Aaron?

— Tudo certo lá na casa? — perguntei. Geralm ente ele não vinha até m ais tarde.

Ele respondeu:

— Ah, sim . — E com eçou a procurar algum a coisa nos bolsos da cam isa. — Mas eu trouxe o orçam ento para a parte elétrica — ele disse. — Está aqui em algum lugar...

— Estou preparando um a bebida para o Gil — Nandina explicou para m im . — Você quer um a tam bém ?

— O que tem aí?

— Suco de laranj a, um kiwi, gengibre, um papaia... — Uau!

— ... m etade de um m elão, duas hastes de aipo... Ela estava com a centrífuga de sucos sobre o balcão — um eletrodom éstico com plicado que não tinha visto há alguns anos, desde que ela nam orara um vegan. Eu m e lem brei que dava o m aior trabalho. Supostam ente, você poderia colocar a centrífuga na lava-louça, m as não era m uito prática, j á que algum as peças entupiam a m áquina.

Espere aí.

Quando ela estava nam orando um ...

Olhei para ela e então para Gil, que estava sentado placidam ente à espera de sua bebida. Olhei para Nandina de novo. Ela ficou verm elha. Eu disse:

— Ah.

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CAPITULO 5

Com o é que não m e dei conta de tantos sinais? As frequentes introm issões de Nandina em m inhas reuniões com Gil, por exem plo. Claro, ela sem pre tinha sido enxerida, m as aquilo j á era um caso extrem o: quando eu e Gil estávam os conversando na sala de estar, ela descobria sim plesm ente que precisava pegar um livro na estante e, então, aproveitava para nos oferecer algo para beber. Quando voltava com a bandej a, ficava por perto o m áxim o que podia, casualm ente, às vezes dando sua opinião, até que se encam inhava para um a cadeira e sentava-se ali com o quem nem percebe o que está fazendo.

E a prontidão dela para ir de carro até m inha casa pelos m otivos m ais banais — esvaziar a geladeira, dar um a olhada no gesso, verificar m inha escolha do piso caram elo não-sei-o-quê. E sem pre durante o dia, não é m esm o? Quando era provável que Gil estivesse por lá tam bém . E todas as perguntas que ela fizera sobre o passado dele? E não é que ela não estava perguntando por suspeitar dele? Era curiosidade pessoal. Com o um a colegial que investiga os detalhes m ais triviais sobre o m enino pelo qual tem um a paixonite — o horário de sua aula de educação física, onde fica a sala dele... E, exatam ente com o um a colegial, ela aproveitava cada oportunidade que tinha para dizer o nom e dele. “Gilead”, ela dizia, e a colher ficava abandonada dentro da panela.

Além disso, não vinha m ais usando aquele roupão de ficar em casa. Há sem anas.

Mas será que era recíproco?

Senti um a pontada que era quase dor. Eu não poderia suportar ter de sentir pena dela.

Mas pense bem : Gil não precisava se encontrar com igo com tanta frequência. Eu j á tinha dito a ela, m ais de um a vez, que o trabalho parecia estar seguindo bem e que ele só precisava m e avisar quando aparecesse algum 101

problem a. Porém , ele parecia ter assuntos para discutir o tem po todo. E, a cada reunião, m ostrava-se m ais falante, os assuntos m ais estranhos vinham à tona e parecia que eu estava conversando com um am igo. E eu m e gabando que era de m im que ele estava ficando tão próxim o! Sentira um cheiro no ar quando ele viera aqui recentem ente e identifiquei um toque de colônia Old Spice. Até disse: “Alguém aqui tem planos para hoj e à noite”, esperando que ele fosse em barcar em um a conversa rápida sobre sua vida social. No entanto, ele sim plesm ente ficou verm elho, e fiquei m e perguntando se tinha exagerado — ou suposto rápido dem ais que nossa relação ia além de em pregador e prestador de serviço.

Além disso, por que é que ele dissera para ela, e não para m im , que viria m ais cedo naquela noite?

Não disse nada diretam ente para nenhum dos dois. Aceitei um copo do suco de Nandina, sentei-m e para conversar com eles por alguns m inutos e deixei que Gil apresentasse o relatório de seu dia de trabalho. Na verdade, estava extrem am ente alerta e vi com o Nandina continuou por perto, m esm o quando o assunto era um a instalação elétrica antiquada que tinham descoberto na parede de m inha sala de estar — um tópico nada interessante e que, com certeza, dispensava a opinião dela. Vi com o as m ãos dos dois se tocaram sem querer quando ele passou para ela o copo vazio. Agora, ela estava apoiada no batente da porta e inclinava a cabeça sedutoram ente, enquanto nos despedíam os ao final da visita.

Então, ela voltou correndo para a cozinha, para com eçar a preparar o j antar, sem nem olhar para m im , nem perm itir que eu a interrogasse. É claro que não fui atrás dela. Era um a m ulher adulta. E tinha direito à privacidade.

Até então, tudo o que sabia sobre Gil m e fazia gostar dele. Ele parecia ser um hom em bom — honesto, confiável, habilidoso, gentil. Podia não ter term inado a faculdade, m as era claram ente inteligente e im aginei que ele e 102

 

Nandina estavam m ais ou m enos no m esm o nível. Assim , não tinha obj eção algum a.

Mas não pude deixar de m e sentir um pouco, hum ..., saudoso ao vê-los j untos nas sem anas seguintes.

Já era abril, com eço da prim avera. Apesar de o tem po ainda estar m eio frio, os narcisos am arelos j á estavam desabrochando e as árvores com eçavam a florescer. Gil e Nandina passaram a sair j untos abertam ente para nam orar, se é que se podia cham ar isso de nam orar. No prim eiro encontro, pouco tem po depois do dia do suco, Nandina m e inform ou de soslaio que não faria o j antar no dia seguinte. Gil sugerira que eles experim entassem um café novo em Ham pden, ela disse. Eu disse: “Ah, tudo bem , vou requentar aquele ensopado de carne, então”, — com o se a com ida fizesse diferença nesse caso. Na noite seguinte, sentei-m e para ler o j ornal no sofá e, quando Gil apertou a cam painha, deixei que Nandina atendesse. Ele entrou na sala de estar e disse: “Oi, Aaron”. Levantei a cabeça e perguntei: “Tudo bem , Gil?”. Ele parecia tím ido, m as determ inado, o rosto recém -barbeado e brilhante, e sua cam isa de m anga curta cuidadosam ente passada. Há quanto tem po ele estava vindo a esta casa em roupas lim pas dem ais para serem aquelas que ele usava no trabalho? Desde quase o com eço de nossas reuniões, m e dei conta. Então, pode ser que ele j á sentisse atraído por Nandina desde o início. Eu estava sinceram ente feliz por eles. Mesm o assim , depois que saíram , quando voltei para m eu lugar no sofá e fiquei vendo os dois através da j anela da frente, senti um a punhalada no coração ao vê-los andando lado a lado em direção à cam inhonete de Gil. Eles estavam quase se tocando, faltava pouco: havia talvez uns 3 centím etros de distância entre os dois, e era possível perceber que, de algum a m aneira, am bos estavam m uito conscientes daquele espaço — altam ente conscientes, eletricam ente conscientes. Por um m om ento, lem brei-m e de quando tinha acabado de conhecer Dorothy e ela se ofereceu para m e m ostrar seu local de trabalho. Ela se levantou e foi até a porta do consultório; eu pulei de m eu lugar para segui-la, passei por ela e alcancei a porta por cim a de sua cabeça, só para abri-la para ela. Devo tê-la confundido. Ela deu um passo para trás. Por um m om ento, ficou abrigada sob m eu braço e, apesar de não haver nenhum ponto de contato entre nós, senti que estava cercando seu corpo com um a cam ada invisível de calor e proteção. Mesm o em tão pouco tem po eu j á a am ava.

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Nós nos conhecem os em m arço de 1996, durante o Câncer para Iniciantes. O dr. By ron Worth era nosso autor — m édico generalista, clínico geral, que j á tinha fornecido m aterial para Trabalho de Parto para Iniciantes e Ataque Cardíaco para Iniciantes. Mas esses livros não eram m uito técnicos, entende? Eram m ais com o itens de um a coleção de sugestões para a vida diária: com o dorm ir confortavelm ente nos últim os m eses de gravidez, com o pedir pratos m ais saudáveis nos restaurantes. Para o livro sobre câncer, o dr. Worth j á tinha entregado a seção sobre quim ioterapia, que incluía algum as receitas que pareciam deliciosas, de vitam inas ricas em calorias, m as que não estava m uito com pleta em term os de radiologia, com o ele m esm o dissera. Ele com entou que, provavelm ente, precisaríam os consultar um especialista. E foi assim que m arquei um a reunião com a dra. Dorothy Rosales, que tinha tratado do sogro de Charles depois de um a cirurgia de tireoide. Ela usava um j aleco branco tão engom ado que talvez pudesse ficar de pé sozinho, m as suas calças estavam am assadas e enrugadas, em parte porque eram com pridas dem ais para ela. Elas se acum ulavam sobre os sapatos, m ais parecidos com tam ancos, e se prendiam na parte de trás do salto. Isso fazia com que ela parecesse ainda m ais baixa, e m ais larga tam bém . Dorothy estava de pé, próxim a a um a estante de livros, quando a recepcionista m e levou até seu consultório. Estava consultando um volum e grande e pesado e, com o tinha m iopia, havia em purrado os óculos para cim a da testa, o que lhe dava um aspecto de quatro-olhos m uito peculiar, que m e fez sorrir no instante em que a vi. Mas, m esm o à prim eira vista, gostei de seu rosto largo e bronzeado e de sua expressão tranquila. Eu m e parabenizei ao perceber que o cabelo curtíssim o, que não a favorecia, era — com o se diz — “m ais negro que a asa da graúna”. Eu disse:

— Dra. Rosales?

— Sim .

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— Meu nom e é Aaron Woolcott. Liguei para falar da consultoria para nosso livro.

— Sim , eu sei.

Isso m e deixou m eio sem graça por um m om ento. Hesitei e, então, estendi a m ão:

— Prazer em conhecê-la! — eu disse.

A m ão dela era m orna e acolchoada, m as a pele era áspera. Ela apertou a m inha com eficiência e, então, afastou-se para colocar os óculos de volta à posição adequada.

— O que aconteceu com seu braço? — ela m e perguntou. É verdade que, ao estender o braço para cum prim entar alguém , tendo a apoiar o cotovelo com m inha m ão boa. Mas a m aioria das pessoas não percebe, ou, pelo m enos, não com enta. Respondi: — Ah, só um a doença que tive na infância.

— Hum — ela m urm urou. — Bem , sente-se.

Eu m e sentei em um a cadeira de plástico em frente à m esa dela. Im aginei que, geralm ente, duas pessoas viriam à prim eira consulta — um casal, ou um filho ou filha m ais velhos acom panhando o pai ou a m ãe. Esse consultório deve ter visto visitantes bem nervosos. Mas a dra. Rosales, sentada atrás de sua m esa, tranquila e sem pressa, os deixaria m ais confiantes instantaneam ente. Ela j untou as palm as das m ãos e disse: — Não sei ao certo o que você quer de m im .

— Bom , não esperam os que você escreva nada — expliquei. — Tem os um m édico generalista fazendo isso para nós, o dr. By ron Worth.

Fiz um a pausa, dando tem po a ela para ver se reconhecia o nom e. Em vez disso, ela continuou m e observando. Os olhos dela era de um preto lím pido, sem nenhum toque de outra cor por trás. Pela prim eira vez, m e passou pela cabeça que ela poderia ser estrangeira, quer dizer, m ais estrangeira que um a m era descendente de latinos.

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— O dr. Worth está tentando dar a nossos leitores algum as dicas para lidar com os obstáculos diários enfrentados por quem tem câncer — expliquei. — Ele j á discutiu as questões em ocionais, a relação entre m édico e paciente, os aspectos práticos das várias opções de tratam ento... exceto a radiação, com a qual ele não tem experiência. Sugeriu que consultássem os um oncologista radiologista, que poderia nos esclarecer m elhor sobre o assunto. Em term os m ais concretos, dizer o que o paciente pode esperar — Entendo — ela disse.

Silêncio.

— É claro que pagarem os pelo seu tem po e citarem os sua contribuição no prefácio.

Pensei em continuar falando e contar para ela que, depois de Trabalho de Parto para Iniciantes, um a parteira, cuj o nom e havia sido m encionado no livro, havia conseguido triplicar a clientela. Mas não tinha certeza se m édicos procuravam prom over seus negócios da m esm a m aneira. Especialm ente esta m édica. Ela não parecia precisar de nada. Parecia inteira em si m esm a. Parecia fascinante.

— Então — eu disse —, é quase m eio-dia. Posso levar você para alm oçar para discutirm os isso m ais a fundo?

— Não estou com fom e — ela respondeu.

— Ahn...

— Então — ela continuou —, você só quer saber m ais sobre o processo? Mas o processo é diferente para cada tipo de tum or. E até m esm o para cada paciente.

— Ah, bem , não precisaríam os entrar em m uitos detalhes — expliquei. —

Nada extrem am ente m édico, ahahah!

Eu estava agindo com o um idiota. A dra. Rosales continuava sentada ali, m e observando. Com ecei a torturar m eu cérebro em busca de alguns exem plos de perguntas, m as nada m e veio à m ente. Afinal, tinha ido apenas para com binar o trabalho. Depois disso, o dr. Worth assum iria. 106

 

Mas nem pensar que eu o deixaria assum ir nada com Dorothy Rosales.

— Tudo bem — eu disse. — Tenho um plano. Nesta tarde, vou fazer um a lista de tudo aquilo que precisam os saber. Então, antes de decidir se quer participar ou não, pode dar um a olhada nas perguntas. Talvez durante o j antar. Eu poderia levá-la para j antar. A não ser que... seu m arido a estej a esperando em casa?

— Não.

— Jantar no Old Bay — eu disse. Tive que m e esforçar para tirar a alegria de m inha voz. Já tinha notado que ela não estava usando aliança, m as hoj e em dia isso não quer dizer m uita coisa. — Assim que você sair do trabalho hoj e. — Eu não entendi — ela disse. — Por que isso tem que envolver com ida? — Bom ... você precisa com er, certo?

— Certo — ela respondeu, e parecia aliviada. Eu poderia dizer que esse era o tipo de lógica de que ela gostava. — Tudo bem , senhor... — Woolcot. Aaron.

— Onde fica esse Old Bay ?

— Ah, posso levá-la de carro. Passo aqui para buscá-la. — Não se preocupe — ela disse. — Nosso estacionam ento tem parquím etro.

— Com o assim ?

— Nosso estacionam ento. A gente paga por hora. Não faz sentido gastar m ais do que j á gasto.

— Ah.

Ela se levantou, e fiquei de pé, tam bém .

— Não vou term inar aqui até as 7 horas — ela disse.

— Tudo bem ! Vou reservar um a m esa para as 7h30. O restaurante fica só a quinze m inutos daqui.

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— Nesse caso, 7h15 seria m ais adequado — ela disse. — Está bem — concordei —, às 7h15, então.

Peguei um cartão de visitas de m inha carteira e anotei o endereço do Old Bay . Com o regra, eu teria escrito no lado em branco do cartão, m as, dessa vez, escolhi a frente. Queria que ela se fam iliarizasse com m eu nom e. Queria que com eçasse a m e cham ar de “Aaron”.

Mas tudo o que disse quando nos despedim os foi: “Então, tchau”. Ela não falou m eu nom e de qualquer form a. Nem se im portou de m e m ostrar a saída.

Eu sabia que ela não era de Baltim ore, porque qualquer um de Baltim ore saberia onde ficava o Old Bay . Era aonde todos os nossos pais costum avam ir para j antar. Um lugar antiquado, por bons e m aus m otivos (a sopa de caranguej o, por exem plo, era um a delícia, m as os garçons tinham 80 anos e o am biente era triste, frio e úm ido). Eu havia escolhido o restaurante por razões geográficas, j á que não ficava m uito longe do consultório de Dorothy , m as tam bém porque não queria um lugar com ar de negócios, nem eficiente dem ais. Queria que ela com eçasse a pensar em m im sob um a luz m ais leve e social.

Bem , não adiantou m uito, porque ela chegou em seu j aleco de m édica. Casais bem -vestidos se espalhavam pelo salão, as m ulheres em tons pastéis delicados de com eço de prim avera, e lá estava Dorothy , ao lado do m aître, com sua bolsa de couro, estilo carteiro, pendurada atravessada sobre o peito e as m ãos bem enterradas nos bolsos de seu j aleco branco engom ado. Fiquei de pé e acenei. Ela veio até a m esa, deixando o m aître falando sozinho.

— Oi — ela disse ao se aproxim ar. Foi para a cadeira em frente à m inha, m as fui m ais rápido e a puxei, para que ela se sentasse. 108

 

— Sej a bem -vinda! — falei enquanto ela se sentava. Voltei para m inha cadeira. — Obrig... obrigado por vir.

— É tão escuro aqui! — disse, observando o salão. Ela se libertou da bolsa e a colocou a seus pés. — Você espera que eu leia algum a coisa nesta escuridão?

— Ler? Ah, não, só o cardápio — respondi, e dei um a risadinha que soou falsa. — Liguei para o dr. Worth para pedir um a lista de perguntas para fazer para você, m as ele disse que preferiria que m arcássem os um horário para que você pudesse m e explicar tudo sobre os equipam entos do tratam ento. Ver o processo do com eço ao fim , com o se eu fosse um paciente. Na verdade, eu não tinha dito um a palavra sobre isso com o dr. Worth, m as duvidava que ele fosse desaprovar que eu fizesse parte da pesquisa para ele.

Dorothy perguntou:

— Então... viem os a este restaurante só para m arcar um a reunião? — Mas tam bém precisam os discutir o contrato. Quanto você gostaria de receber, por exem plo, e... o que você gostaria de beber? Nosso garçom havia chegado, por isso, perguntei. Dorothy parecia surpresa, talvez im aginando, por um m om ento, que aquela era m ais um a decisão profissional. Então, sua expressão se acalm ou e ela pediu ao garçom : — Um a Pepsi Diet, por favor.

— Diet! — exclam ei. — Um a m édica tom ando adoçantes artificiais? Ela piscou.

— Você não sabe o que o aspartam e faz com seu sistem a nervoso central? — perguntei. Eu havia sido fortem ente influenciado por Nutrição para Iniciantes, sem m encionar a cruzada de m inha irm ã contra os refrigerantes. — Tom e um a taça de vinho. Vinho tinto. É bom para o coração. — Bom ... Tudo bem .

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Aceitei a lista de vinhos do garçom e escolhi um Malbec, duas taças. Quando o garçom saiu, Dorothy disse:

— Não estou m uito acostum ada a beber álcool. — Mas com certeza conhece as virtudes da dieta m editerrânea, não? — Conheço — respondeu. E estreitou os olhos. — E sei que você deve ter ouvido falar do azeite de oliva.

— Olhe — ela disse —, você vai com eçar a m e dizer quais são os sintom as?

— O quê?

— Estou aqui para discutir o proj eto de um livro, está bem ? Não quero ter que checar algum a sarda de nada que possa ser câncer. — Checar o quê? Mas que sarda?

— Ou ouvir sobre aquela vez em que você achou que seu coração parou de bater por um segundo.

— Você está louca? — perguntei.

Ela parecia estar m ais em dúvida ainda.

— Meu batim ento cardíaco está perfeito! — eu disse. — Do que é que você está falando?

— Desculpe — ela disse.

Ela baixou os olhos para o prato. Então, em purrou a colher m eio centím etro para a direita. E disse:

— Muitas vezes, as pessoas de fora do consultório m e pedem conselhos de graça. Mesm o se só estiverem sentados a m eu lado em um avião. — Mas eu pedi? Você m e ouviu pedir algum a coisa? — Bom , eu pensei que...

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— Isso é um grande equívoco — disse a ela. — Se eu precisar de conselho, vou m arcar um a consulta com o m édico da fam ília. Que é excelente, se você quiser saber. Além disso, ele conhece todo o m eu histórico m édico, não que eu tenha qualquer m otivo para ligar para ele.

— Eu j á pedi desculpas.

Ela tirou os óculos e os poliu com o guardanapo, ainda olhando para baixo. Seus cílios eram volum osos, m as m uito curtos e pesados. Sua boca se fechou em um a linha fina e infeliz.

Então, perguntei:

— Ei, Dorothy , quer com eçar de novo?

Houve um a pausa. Vi os cantos de sua boca com eçarem a trem er. Então ela olhou para m im e sorriu.

Fico triste ao pensar naqueles prim eiros dias de nam oro. A gente não sabia de nada. Dorothy nem sabia que era um nam oro, no com eço, e eu era com o um cachorrinho que cresceu dem ais, ao m enos é assim que m e vej o a essa distância. Eu estava pulando ao redor dela, todo anim ado, com a língua de fora, fazendo o m áxim o para im pressioná-la, enquanto ela se m antinha im passivelm ente alheia a tudo.

Mas, àquela altura da vida, eu j á havia tido m eus rom ances. Tinha deixado para trás as m eninas do ensino m édio, que tem iam que as pessoas as achassem estranhas e, então, não podiam ser vistas com igo. Na faculdade, m e tornei um proj eto de caridade para as aspirantes a assistentes sociais que todas as m oças da faculdade pareciam ser. Elas associavam m inha bengala a, vai saber, antigas feridas de guerra ou algum a coisa assim . Viam o cintilar prem aturo do branco em m eu cabelo com o um sinal de m isteriosos sofrim entos do passado. É claro que eu tinha alergia a esse ponto de vista, m as, no início, não sabia que era assim que elas m e viam (ou não queria ver). Eu sim plesm ente m e dedicava àquilo que considerava um am or verdadeiro. Mas, 111

assim que m e dava conta da situação, saía de perto. Ou às vezes elas iam em bora, depois de perderem toda a esperança de m e salvarem . Então eu m e form ei e, por um ano e m eio, fiquei quieto e sozinho, tom ando o cuidado de evitar um a série de doces j ovens que m inha fam ília parecia viver j ogando em m eu cam inho.

Agora você sabe por que achei Dorothy tão atraente — Dorothy , que nem discutiria a dieta m editerrânea com igo.

Fui ao consultório dela alguns dias depois para fazer um tour pelas salas de tratam ento, perguntando: “E se um paciente tivesse esse tipo de tum or”, “E se um paciente tivesse aquele tipo de tum or...”. Fui m ais um a vez com um a lista de questões que o dr. Worth supostam ente havia ditado para m im . Depois disso, é claro, tive que m ostrar o rascunho para ela durante m ais um j antar, dessa vez em um lugar com ilum inação m elhor. Então, houve um grande avanço: sugeri um cinem a para a noite seguinte. Algo que não tinha nada a ver com o trabalho. Com isso, ela teve um pouco de dificuldade. Vi com o estava trabalhando para se aj ustar à situação em sua m ente — m udando de “negócio” para “lazer”. Ela disse: — Não sei — e então com pletou: — Em que film e você estava pensando? — O que você preferir — respondi. — Vou deixar que escolha. — Bem ... — ela disse. — Tudo bem . Não tenho nada m elhor para fazer. Fom os assistir ao film e — um docum entário, que eu m e lem bre — e então, alguns dias depois, fom os ver outro. Depois, saím os para j antar m ais algum as vezes. Conversávam os sobre o trabalho dela, m eu trabalho, as notícias na TV e os livros que estávam os lendo (ela lia séria e pragm aticam ente, sem pre sobre algum assunto científico, isso quando não era especificam ente radiológico). Trocam os as histórias de sem pre sobre a infância. Ela não via a fam ília há anos, disse. E parecia surpresa pelo fato de eu m orar em um apartam ento a apenas quarteirões de distância de m eus pais. Naquele prim eiro film e, peguei o cotovelo dela para levá-la até sua cadeira, e, no segundo, sentei-m e com m eu om bro tocando o dela. Ao m e inclinar sobre a m esa para explicar algum a coisa durante um j antar, cobri as m ãos dela com as m inhas; ao m e despedir no final de cada noite, com ecei a dar 112

 

um abraço breve nela — não m ais que um abraço que eu daria em um a am iga. Ah, tudo bem , fui cauteloso m esm o! Ainda não a entendia com pletam ente; não conseguia ler seus sentim entos. E j á sabia que isso era im portante dem ais para m e arriscar com pequenos erros.

Em abril, levei para ela um exem plar de Im posto de Renda para Iniciantes, que, na verdade, não era sobre im postos, m as sobre com o organizar com provantes e coisas assim . Ela dizia ser incorrigivelm ente desorganizada; e então, com o se estivesse querendo provar isso, esqueceu-se de levar o livro com ela ao sair do restaurante. Eu m e preocupei com o que aquilo poderia querer dizer. Senti que ela tinha se esquecido de m im — “o que vem fácil, vai fácil”, dizem por aí —, e não aj udou em nada quando m e ofereci para voltar com o carro, naquele m inuto, para buscá-lo, e ela disse para eu não m e im portar, que ela sim plesm ente ligaria para o restaurante m ais tarde. Será que ela se im portava com igo, m esm o que só um pouco? Então, ela perguntou por que é que eu não tinha um a placa de carro para deficientes. Estávam os indo para m eu carro depois de um a peça no Teatro Every m an. Respondi:

— Porque não preciso de um a placa de deficiente. — Você vai acabar com suas costas, andando tanto quando tem que m ancar assim . Estou surpresa por j á não ter acontecido. Eu não disse nada.

— Você quer que eu m ande um form ulário para o pessoal do Departam ento de Transportes?

— Não, obrigado — respondi.

— Ou talvez você prefira um aviso desses de pendurar no carro. Assim , poderíam os colocá-lo no m eu carro se eu estivesse dirigindo. — Já disse que não — respondi.

Ela ficou quieta. Entram os no carro e a levei em casa. A essa altura, eu j á sabia onde ela m orava — um apartam ento de porão perto do antigo estádio —, 113

 

m as ainda não tinha entrado em sua casa e havia planej ado sugerir que ela m e convidasse naquela noite. Mas não falei nada. Então, disse: — Bom , boa noite! — E m e estiquei por cim a dela para abrir a porta. Ela olhou para m im por um m om ento e respondeu: — Obrigada, Aaron! — E saiu.

Esperei até ela entrar sã e salva no prédio e fui em bora. Estava m e sentindo m eio deprim ido, para falar a verdade. Não que não estivesse m ais apaixonado por ela, m as m e senti m uito triste, de um a vez só. E m uito cansado. Cansado até os ossos.

Ainda insistindo no tem a “vam os ver os apartam entos um do outro”, tinha planej ado convidá-la para j antar em m inha casa. Estava pensando em preparar m eu fam oso espaguete com alm ôndegas, m as resolvi adiar alguns dias, porque parecia trabalho dem ais. Eu teria que com prar aquela m istura especial de carnes m oídas, para com eçar. Vitela etc. Carne de porco. E não confiava em qualquer superm ercado para isso; teria de ir ao açougue. Parecia um esforço grande dem ais para um prato que, na verdade, não era lá m uito especial. Dei um tem po. E m e convenci de que precisava de algum espaço. Pelo am or de Deus, nós tínham os saído seis vezes nas últim as duas sem anas — um a vez, duas noites seguidas!

Ela m e ligou na quarta-feira (tínham os nos visto pela últim a vez no sábado). Ela não tinha m eu telefone, então ligou para a Editora Woolcott. Peggy enfiou a cabeça dentro de m inha sala e disse: — Dra. Rosales: linha dois.

Ela poderia sim plesm ente ter transferido a ligação de sua m esa, m as, com certeza, estava pensando por que um a m édica estava ligando para m im . Eu m e recusei a satisfazer sua curiosidade.

— Obrigado — foi tudo o que disse, e esperei que saísse antes de tirar o fone do gancho.

— Alô? — eu disse.

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— Oi, Aaron, é Dorothy .

— Oi, Dorothy .

— Faz tem po que não falo com você.

Aquilo era direto dem ais para m eu lim ite de conforto. Eu fiquei m eio surpreso e, tenho que dizer, adm irado. Era m esm o típico dela. — Ah, ando tão ocupado! — disse.

— Ah.

— Muito trabalho.

— Bem , eu gostaria de convidá-lo para j antar — ela disse. — Jantar?

— Eu vou cozinhar.

— Ah!

Não sei por que aquilo era tão inesperado. Por algum m otivo, não conseguia im aginar Dorothy cozinhando. Apenas tentar im aginar m e fez ver suas m ãos, que tinham as costas lisas apesar dos dedos ásperos, douradas de tão bronzeadas e gordinhas. Fui atingido por um a onda de desej o. Respondi: — Eu adoraria j antar na sua casa.

— Que bom ! Que tal às 8 horas?

— Hoj e à noite?

— Hoj e, às 8.

— Estarei lá — respondi.

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