O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir

parecer habitada, apesar de estar vazia. Eu…

parecer habitada, apesar de estar vazia. Eu precisava ficar im óvel por um m inuto, reconquistar a sensação de solidão e, então, ir até a parte de trás da casa, e do corredor para a cozinha.

Nada de Dorothy . Cheiro de m adeira recém -cortada, fum aça de cigarro, gesso úm ido, m as nada de sabonete nem de álcool isopropílico. Na cozinha, ficava esperando por tanto tem po que o silêncio com eçava a ecoar para m im com o o silêncio dentro de um a concha, m as nunca dizia: “Oi, Aaron”. Será que ela tinha falado essas palavras em voz alta? Ou apenas em m inha m ente, assim com o falei para ela em pensam ento? Teria a cena acontecido apenas em m inha cabeça? Será que eu estava tão perturbado pela dor que a havia criado do nada?

Saí da casa. Andei de volta para a rua (m ais um a vez, bem devagar). Entrei no carro e fui em bora.

A próxim a vez que ela apareceu foi na Feira Orgânica. De todos os lugares, bem na Feira Orgânica! Aquela em Waverly . Eu tinha ido lá, na m anhã de sábado, com prar salada para Nandina. Quando desviei o olhar do alface-m anteiga, avistei Dorothy na banca ao lado, exam inando as beterrabas.

Costum ava ficar educadam ente cheia de tédio em feiras assim . Ela m e acom panhava, m as apenas tolerava a situação, de m au hum or, tentando engolir seus bocej os enquanto eu escolhia nossos legum es para a sem ana. E m ais: beterrabas? Beterrabas dão tanto trabalho! E exigem certo conhecim ento culinário. Além disso, ela não gostava m uito de beterraba. Só concordava em com er por causa do betacaroteno. Mas lá estava ela, levantando um m aço de beterrabas preso por um elástico e estudando-o com curiosidade, virando o m aço várias vezes com o se estivesse tentando aprender m ais, antes de colocá-lo de volta e pegar outro. 129

Fui m e encam inhando em sua direção com cuidado, com o se ela fosse um anim al assustadiço da floresta. Meus pés não faziam barulho algum . Quando a alcancei, não falei nada. Eu m e virei para as beterrabas e escolhi um m aço. Estávam os lado a lado, tão perto que até um a respirada poderia fazer nossas m angas sussurrarem j untas. Pude sentir o calor de sua pele através do algodão. E isso aqueceu m inha alm a; não consigo descrever o conforto que senti. Queria ficar ali para sem pre. Não podia pedir m ais nada da vida. A m ulher da banca perguntou:

— Pois não?

Balancei a cabeça quase que im perceptivelm ente. — Você pode usar as folhas tam bém — ela explicou. — Vej a só com o elas estão verdes e frescas. Só precisa fervê-las em água com sal, por uns cinco m inutos, e então j ogar um a colher de m anteiga para derreter... Maldita m ulher. Maldita m ulher barulhenta, tagarela, cacarej ante! Senti um frescor em m eu lado direito e sabia, m esm o sem olhar, que Dorothy tinha desaparecido.

Então ela veio à Rua Spindle.

A rua onde fica o escritório.

Eu tinha alm oçado com Peggy e Irene em um pequeno café na esquina. Depois, Irene saiu para com prar sapatos, m as Peggy e eu estávam os voltando para a editora, andando calm am ente, porque fazia um dia especialm ente bom . Fazia sol, m as não estava quente dem ais, com um pouco de brisa. E Peggy escolheu aquele m om ento, com o era de se esperar, para tentar ter um a conversa séria, para que eu abrisse m eu coração. Ela deve ter pensando que era m elhor aproveitar a oportunidade, j á que não havia m ais ninguém por perto. Ela disse:

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— Então — e, em seguida —, Aaron, com o anda a sua vida? Eu disse:

— Minha vida.

— Você diria que j á passou pela pior fase do luto? Ou ainda continua ruim com o sem pre?

— Ah — respondi. — Bem ...

— Espero que você não se im porte com a pergunta. — Não — respondi.

E era verdade, notei. Naquele m om ento, em particular, eu realm ente queria contar para todo m undo com o estava m e sentindo (com partilhar com todos, eu quase disse — um a palavra que j am ais usaria). — De certa m aneira — disse a Peggy —, é com o se a dor tivesse sido coberta por um tipo de cobertor. Ainda está ali, m as as pontas m ais afiadas estão... acolchoadas, ou algo assim . Então, às vezes, eu levanto um a ponta do cobertor, só para checar e — uau! É com o se fosse um a faca! Não sei se isso vai m udar um dia.

Ela perguntou:

— Há algo que algum de nós poderia fazer para tornar isso m ais fácil? Será que deveríam os falar m ais sobre isso? Ou talvez m enos? — Ah, não, vocês todos têm sido...

Então, percebi um a pessoa andando pela guia, a m eu lado. Ela estava a alguns m etros de distância, m as acom panhava nosso ritm o. Percebi sua circularidade, seu cabelo preto, seu silêncio, sua atenção intensa. Mas não m e atrevi a olhar para ela. Parei na rua. Peggy parou tam bém . E a outra pessoa tam bém .

Falei para Peggy :

— Pode seguir.

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— O quê?

— Vai!

— Ah! — ela disse, e um a m ão voou para o laço de cetim na gola da blusa. — Sim , claro! — ela disse. — Eu sinto m uito! Eu... Desculpe-m e! E se virou e saiu andando rápido.

Eu teria m e sentido m al por causa disso, a não ser pelo fato de que não m e im portava naquele m om ento. Esperei até ela subir correndo os degraus em frente a nosso edifício e desaparecer lá dentro. Então, m e virei para Dorothy . Ela estava ali, observando-m e sobriam ente, avaliando tudo. Ela parecia tão real quanto a placa de “Proibido estacionar” a seu lado. Hoj e ela estava usando o suéter preto, aquele que tinha usado na prim eira vez em que nos beij am os, m as ele estava am assado pela alça de sua bolsa estilo carteiro, com o se ela tivesse acabado de sair do trabalho.

Ela disse:

— Eu teria feito m ais perguntas.

— Com o assim ?

— A gente poderia ter conversado m ais, m as você sem pre m e afastava. — Eu afastava você?

Alguém passou tão perto de m im que seu sapato encostou na ponta de m inha bengala. Quando m e virei para olhar para o cara, em um a fração de segundo, ela tinha desaparecido.

Cham ei:

— Dorothy !

Os pedestres desviavam de m im com o água de um m onte de pedras, m andando-m e olhares curiosos. Dorothy não estava em lugar nenhum . 132

Sem anas se passaram , e tudo que conseguia pensar era em com o trazê-la de volta.

Havia algum tipo de tem a ali? Algum fator unificador que havia desengatilhado suas visitas? Na prim eira vez, eu estava refletindo sobre nossa vida j untos; m as, na segunda vez, estava apenas exam inando o alface-m anteiga, pelo am or de Deus! E, na terceira, estava tendo um a conversa profunda com Peggy . Até onde conseguia ver, cada circunstância tinha sido com pletam ente diferente.

— Nandina — perguntei certa noite —, você j á... O papai e a m am ãe j á... sei lá, apareceram para você depois que m orreram ? — O papai e a m am ãe?

— Ou qualquer pessoa! A vó Barb, ou a tia Esther... Você sem pre foi próxim a da tia Esther, que eu m e lem bre.

Nandina parou de fatiar os pêssegos (ela estava fazendo um de seus sucos para Gil). Ela olhou para m im e vi que seus olhos estavam brilhando de pena.

— Ah, Aaron! — ela disse.

— O quê?

— Ô, querido, eu queria poder dizer algum a coisa. — O quê? Não, tudo bem , estou bem — respondi. — Só estava pensando se...

— Eu sei que você sente que nunca vai se recuperar disso, m as, um dia, você vai esquecer, acredite em m im ... Ah, eu não quero dizer esquecer — você nunca vai esquecer —, m as um dia vai acordar e ver que ainda tem a vida toda pela frente.

— Eu j á vej o isso — com entei. — Só estou perguntando se... — Você só tem 36 anos! Vários hom ens nem com eçaram suas vidas ainda aos 36. Você é bonito e inteligente. Um a m oça bem legal vai aparecer e 133

conquistá-lo um dia. Você provavelm ente nem consegue im aginar isso hoj e, m as pode escrever o que estou falando. E quero dizer aqui e agora, Aaron, que eu a receberia de coração. Eu receberia com alegria qualquer m oça que você trouxesse para casa, j uro.

— Você quer dizer com o da últim a vez? — perguntei. — Você vai olhar para trás e dizer: “Hoj e não posso acreditar que achava que m inha vida tinha chegado ao fim ”.

Eu poderia ter dito a ela que m e preocupava m ais com o fato de m inha vida se estender m ais e m ais. Mas não queria que ela ficasse cheia de com paixão de novo.

Num final de tarde, quando passava por nossa casa, ainda sem nenhum sinal de Dorothy , fui até o quintal, onde o velho carvalho costum ava ficar. A árvore propriam ente dita j á tinha sido levada, até m esm o o toco havia sido retirado, e o buraco, preenchido com serragem . Gil tinha arranj ado tudo. Eu m e lem bro de ter pagado a conta, um valor considerável. Fiquei pensando: “Venha ver isso, Dorothy . Venha ver o que m udou nosso m undo”. Mas a pessoa que veio foi a velha Mim i King, do outro lado da alam eda. Eu a vi abrindo cam inho entre os arbustos. Pelo m enos dessa vez ela não trazia um a travessa de m acarrão ao forno, apesar de estar usando um avental. Seu cabelo grisalho estava enrolado em bobes cor-de-rosa, que sacudiam enquanto ela andava.

— Vej a só! Aaron! — ela disse. — Que bom vê-lo em casa! Olhei pela j anela da cozinha e lá estava você.

— Oi, Mim i — respondi.

Ela chegou até m im , sem ar, e olhou para baixo, para onde a árvore costum ava ficar.

— É um a visão tão triste! — suspirou.

— Bem , acho que teve um a vida longa.

— Maldita coisa velha — ela com entou.

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— Mim i — perguntei —, quanto tem po faz que seu m arido m orreu? — Ah, j á faz 33 anos agora. Trinta e quatro, na verdade. Dá para im aginar? Sou viúva há m ais tem po do que fui esposa. — E, por acaso, você j á... sentiu a presença dele depois que ele m orreu? — Não — ela respondeu, m as não pareceu surpresa com a pergunta. — Mas eu bem que queria. E com certeza esperava sentir. Às vezes, até falava em voz alta com ele, nos prim eiros anos, im plorando para que aparecesse. Você faz isso com a dra. Rosales?

— Sim — respondi.

Respirei fundo. E disse:

— E, às vezes, eu quase acho que ela aparece m esm o. Lancei para Mim i um olhar de relance, de lado. Não podia calcular sua reação.

— Eu sei que deve parecer loucura — expliquei. — Mas talvez ela odeie m e ver tão triste, acho que é por isso. Ela vê que não suporto tê-la perdido e aparece por um m om ento.

— Bem , m as isso é absurdo — Mim i respondeu. — Ah.

— Você acha que eu não fiquei triste quando Dennis m orreu? — Não quis dizer que...

— Você acha que eu suportava tê-lo perdido? Mas tive que seguir, não é? Tive que seguir em frente com o sem pre, com três crianças pequenas que precisavam de m im para tudo. Ninguém m e ofereceu nenhum a consideração especial.

— Ah, nem para m im ! — respondi.

Mas ela j á estava indo em bora. E abanou um braço com o quem diz: “deixa para lá”, pelas costas, enquanto voltava para a alam eda. 135

Perguntei no trabalho. Estávam os sentados ao redor de um bolo de aniversário — de Charles — e copos de papel e cham panhe, e Nandina havia acabado de entrar em sua sala para atender ao telefone. Eu m e sentia, acho, um pouco m ais coraj oso por causa do cham panhe. Falei: — Deixe-m e perguntar um a coisa para vocês todos. Alguém j á sentiu que um a pessoa am ada estava olhando por ele?

Peggy desviou o olhar das velas que estava tirando do bolo e suas sobrancelhas assum iram um form ato de tenda, por causa da preocupação. Já esperava por isso, m as sabia que valeria a pena aguentar um pouco de “ah, pobre Aaron!”, porque ela era o tipo de pessoa que achava m esm o que pessoas am adas estavam olhando por ela. No entanto, ela não disse nada. Irene perguntou:

— Você quer dizer um a pessoa am ada e que m orreu? — Isso.

— Isso vai parecer estranho — confessou Charles —, m as nenhum a pessoa a quem am ei j á m orreu.

— Sorte sua! — Peggy respondeu.

— Todos os m eus avós faleceram m uito antes de eu nascer e m eus pais têm a saúde de um cavalo, graças a Deus!

“Aham ”: era tudo que conseguia pensar. As pessoas que ainda não haviam sofrido um a perda, para m im , não pareciam totalm ente adultas. Irene contou:

— Meu pai m orreu em um acidente de carro quando eu tinha 10 anos. Eu lem bro que m e preocupava com o fato de que ele, talvez, fosse capaz de ver tudo e ele veria que eu gostava de levar as coisas das loj as sem pagar. 136

— Ah, Irene — Charles perguntou —, você fazia isso? — Eu roubava batons da farm ácia do Read.

Fiquei interessado no fato de Irene achar que os m ortos podiam ver tudo. Mais de um a vez, desde que o carvalho caíra, eu havia sido visitado pela ideia irracional de que, talvez, Dorothy soubesse tudo sobre m im agora — incluindo algum as fantasias de m eu passado que tinham a ver com Irene. — O m ais engraçado é que — Irene continuou —, naquela época, eu nem usava batom . De qualquer form a, poderia perfeitam ente pagar por eles. Eu tinha um a m esada. Não sei o que m e deu.

— Mas ele descobriu? — perguntei.

— O quê?

— Seu pai descobriu que você levava os batons sem pagar? — Não, Aaron. Com o ele poderia fazer isso?

— Ah! Não, é claro que não — respondi.

— Desculpe! — Nandina cantarolou e saiu de sua sala. — Era o sr. Hasting Burns. Lem bram -se do sr. Hasting Burns? Do Guia de Referência Legal para Iniciantes?

— Picuinhas para Iniciantes — Irene disse.

— Pé no Saco para Iniciantes — Charles com pletou. Fiquei feliz ao ver que o assunto havia m udado antes que Nandina se desse conta do que estávam os falando.

Então, eu estava a cam inho do correio na Rua Deepdene e Dorothy estava andando a m eu lado. Ela não surgiu de repente ou algum a coisa assim . Ela não se “m aterializou”. De algum a m aneira, ela sim plesm ente estava lá 137

com igo, com o em um sonho em que você se vê acom panhado por um a pessoa que não chegou, m as sim plesm ente está lá — nenhum a explicação é dada, nem é necessária.

Eu evitava olhar para ela, porque tinha m edo de assustá-la e m andá-la em bora. Mas dim inuí o passo. Se alguém estivesse olhando, pensaria que eu estava andando em um a corda bam ba, de tanto cuidado que tom ei.

Parei em frente ao correio. Não queria entrar, pois lá haveria outras pessoas. Eu m e virei para olhar para ela. Ah, ela parecia tão... do j eito que Dorothy é! Tão norm al, desaj eitada e sim ples, olhando diretam ente em m eus olhos, com um leve brilho de suor sobre o lábio superior, os braços curtos, cruzados sobre a barriga, para segurar a bolsa estilo carteiro próxim a ao corpo. Eu disse:

— Dorothy , eu não afastei você de m im . Com o pode dizer isso? Com certeza, essa não era m inha intenção. É isso que você acha que eu estava fazendo?

Ela com eçou:

— Ah, bem ... — E olhou para o outro lado.

— Responda para m im , Dorothy , fale com igo! Vam os conversar sobre isso, que tal?

“Ela respirou fundo para falar”, pensei, m as então sua atenção foi desviada para algo em seus pés: seu sapato. O sapato esquerdo estava desam arrado. Ela se agachou e com eçou a am arrá-lo, arqueada no chão com o um pequeno m onte, para que eu não pudesse ver seu rosto. Perdi a paciência. — Você disse que eu estou m e afastando de você? — perguntei. — É você que está fazendo isso, m as que inferno!

Ela se ergueu, virou-se e saiu se arrastando penosam ente, abraçando a bolsa de novo. As solas dos sapatos ortopédicos estavam gastas nas extrem idades e a barra da calça estava esfarrapada, pois vivia sendo arrastada. Ela subiu a Rua Deepdene até a Avenida Roland, virou à direita e a perdi de vista.

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Você pode ficar pensando por que é que não fui atrás dela. Não saí correndo atrás dela porque estava bravo com ela. Seu com portam ento tinha sido totalm ente inj ustificado. Tão irritante!

Fiquei ali ainda por um bom tem po depois que ela havia desaparecido.

Não tinha m ais cabeça para ir ao correio.

Um a vez, tivem os um autor que havia escrito um livro sobre conselhos para j ovens casais que iam se casar. Antes que Cases, Olha o que Fazes era seu título. Ele acabou não assinando o contrato conosco — decidiu que era caro dem ais e acabou escolhendo um a editora on-line —, m as eu nunca m e esqueci daquele título: Antes que Cases, Olha o que Fazes. Eu bem sei. Isso abrangia tudo o que havia de errado com a instituição do casam ento. — Tenho um a pergunta — disse a Nate. Estávam os sentados à nossa m esa de sem pre, esperando Luke acabar de lidar com um ataque de nervos do chef das saladas. — Você j á recebeu a visita de alguém que m orreu? — Não um a visita em pessoa — Nate respondeu, pegando a cesta de pães. — Você recebeu outro tipo de visita?

— Não, m as m eu tio Daniel, na verdade, m eu tio-avô... um a vez eu vi um a foto dele no j ornal.

Parecia que Nate não tinha entendido m uito bem a pergunta, m as não o interrom pi. Ele partiu um biscoito salgado e disse: — Era um a foto desses agentes de governo da Am érica do Sul. Argentina? Brasil? Eles tinham sido presos por corrupção. E lá estava ele, em um a fila com outros caras. Mas de uniform e com pleto, dessa vez, e o peito cheio de m edalhas.

— Hum ...

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— Foi estranho, porque, com certeza, eu o tinha visto no caixão alguns anos antes.

— Que coisa! — respondi.

— E não havia com o confundi-lo com outra pessoa. O m esm o nariz torto, os m esm os olhos entreabertos. “Então é isso que você anda aprontando”, eu disse.

Nate colocou as m ãos sobre a m esa e olhou ao redor do salão. — Será que tem m anteiga aqui?

Resolvi não levar o assunto adiante.

Gil foi a única pessoa cuj a resposta fez sentido para m im . E eu nem perguntei! Eu teria de ser louco para perguntar para m eu em preiteiro se ele j á havia se com unicado com os m ortos, certo? Eu estava olhando as novas estantes de livros no solário e disse: — É um a pena Dorothy não estar aqui para ver essas prateleiras. — Eu sinto m uito, tam bém — Gil respondeu. Ele estava agachado aj ustando o horário no rádio-relógio no chão. Os pedreiros tinham a m ania de ligá-lo em qualquer tom ada onde estivessem trabalhando e deixar os núm eros brilhando, “9999”, o dia inteiro, o que parecia irritar Gil. — Ela sem pre quis m ais espaço para as revistas de m edicina — com entei. Ele se levantou, com um resm ungo.

— Inferno! Estou ficando velho. Eu j á te contei com o m eu pai gostava de voltar dos m ortos para ver m eu trabalho?

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