O Começo do Adeus: Aprendendo a se Despedir

Mais tarde — bem m ais tarde,…

Mais tarde — bem m ais tarde, quando estávam os planej ando nosso casam ento —, Dorothy m e contou tudo que houve por trás daquele convite para j antar. Ela com eçou com a razão pela qual m e convidou: tinha se dado conta, durante os quatro dias em que não liguei, de com o sua existência era silenciosa e solitária.

— Eu m e dei conta de que não tinha am igos próxim os, nem vida fam iliar, e, no trabalho, estavam sem pre reclam ando de que eu não conseguia “interagir”, sej a lá o que isso queira dizer...

Ela descreveu com o tinha arrum ado o apartam ento antes de m inha chegada, em purrando os m óveis freneticam ente e enfiando livros, papéis e roupas j ogadas nos guarda-roupas, nas gavetas das côm odas ou onde coubessem . Então, quebrou a cabeça pensando no cardápio. — Todo hom em gosta de filé, certo? Então, liguei para a seção de livros de referência da Biblioteca Pratt, para descobrir com o cozinhar um filé. Eles sugeriram grelhado ou assado, m as eu não tinha um a grelha e não tinha m uito certeza de com o assar algum a coisa, então, eles disseram : “Tudo bem , frite o filé na frigideira...” e então as ervilhas, bem , isso pelo m enos não foi um problem a: todo m undo sabe cozinhar um a caixa de ervilhas congeladas... Mas será que ela se dedicou da m esm a m aneira aos assuntos da conversa daquela noite?

Ah, provavelm ente, não! Provavelm ente, foi tudo obra do acaso. Afinal, fui eu que com ecei, quando fiz um com entário sobre o tam anho do apartam ento dela.

— Este lugar é gigante! — disse ao entrar. Era m eio desarrum ado, m as enorm e, com um a sala de j antar de verdade abrindo-se para a sala de estar. — Quantos quartos você tem ?

— Três — ela respondeu.

— Três! Tudo isso para um a pessoa só!

— Bem , é que eu dividia com um a pessoa, m as ele se m udou. — Ah.

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Aceitei o lugar que ela m e ofereceu para m e sentar, na ponta de um sofá-cam a barulhento, de m etal, coberto por um xale indiano. Ela j á tinha arrum ado as taças de vinho sobre a m esinha de centro e um a garrafa de vinho (Malbec, eu vi), e m e passou a garrafa com um saca-rolha. Então, se sentou a m eu lado. De tão perto, podia sentir o cheiro do perfum e dela, ou do xam pu, ou algum a coisa assim . Ela estava usando um suéter preto com decote profundo, que eu nunca tinha visto antes, e as calças pretas de sem pre. Fiquei pensando se aquela era a versão dela de roupa chique.

Parecia que sua m ente ainda estava em seu antigo colega de apartam ento. Ela com entou:

— Ele se m udou porque eu não era... m édica o suficiente. — Médica o suficiente?

— Por exem plo, um a vez ele m e disse: “Tudo que eu com o parece salgado dem ais. O que você acha que pode ser?”, e eu respondi: “Não tenho a m enor ideia”. Ele perguntou: “Não, sério, o quê?”. “Talvez sim plesm ente sej a salgado dem ais”, respondi. Ele continuou: “Mas, não, as outras pessoas não acham salgado dem ais. Você acha que pode ser sintom a de algum a coisa?”. E eu: “Bom , talvez de desidratação. Ou de um tum or no cérebro”. “Tum or no cérebro...”, ele disse, “Ai, m eu Deus!”

Não consegui entender direito. Ela parou de falar e olhou para m im na expectativa, e eu com entei:

— Mas que idiota!

— Ele m e pedia para apalpar um a glândula inchada — ela contou após um a pausa — ou ficava pensando o que um a dor nas costas poderia ser, um a dor nas costas perfeitam ente norm al depois de fazer m usculação, ou pedia para eu receitar algum a coisa para sua enxaqueca. — Bom , m as isso é ridículo! — eu disse. — Ele era seu colega de apartam ento, não seu paciente.

Mais um a pausa. Então, ela confessou:

— Na verdade, ele era m ais um ... Bom , na verdade, form ávam os um

casal.

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Isso não deveria ser um choque para m im . Ela era um a m ulher de 30 e poucos anos; você com eçaria a im aginar o que havia de errado com ela se nunca tivesse tido um hom em em sua vida. Mas, por algum a razão, eu m e gabava com o se fosse o prim eiro a apreciá-la com o pessoa propriam ente. Perguntei:

— Mas um casal sério?

Ela ainda estava seguindo sua linha de pensam ento. E continuou: — Hoj e eu vej o que ele provavelm ente achava que eu não sabia... tom ar conta dele.

— Ridículo — falei de novo.

— Então, disse para m im m esm a: “Tenho que aprender com essa experiência”.

Ela ainda esperava, cheia de expectativa.

Dessa vez, entendi.

Eu disse:

— Ah!

— Eu não queria que alguém achasse que eu... que não m e preocupo. Respondi:

— Ah, querida, m inha querida. Eu nunca precisaria que você se preocupasse com igo.

E então tom ei o rosto dela entre as m ãos e m e inclinei para a frente para beij á-la, e ela m e beij ou tam bém .

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Eu sabia que as pessoas achavam que Dorothy era um a escolha inesperada.

Meu pai disse que ela era “interessante” — a m esm a palavra que ele usou quando encarou um a das receitas de forno m ais experim entais de m inha m ãe. Minha m ãe perguntou a idade dela.

— Não tenho a m enor ideia — respondi.

(Na verdade, Dorothy tinha 32 anos. Eu tinha 24 e m eio.) — É só porque — m inha m ãe explicou — eu estava pensando que Danika Jones tem m ais ou m enos a sua idade.

— Quem ?

— Danika, do trabalho, Aaron. Com o assim “quem ”? Danika era nossa designer gráfica, a designer que precedeu Irene. Sua contratação foi o últim o ato de m eu pai, antes de passar a em presa para m inhas m ãos, e finalm ente enxerguei o porquê. Eu disse: — Danika! Ela pinta os dedos dos pés com esm alte! — E o que tem de errado com isso? — quis saber m inha m ãe. — Sem pre fico incom odado com m ulheres que pintam os dedos dos pés. Isso m e faz pensar no que elas estão escondendo. — Ah, Aaron — disse m inha m ãe, cheia de tristeza —, quando é que você vai se dar conta de com o é atraente? Poderia ficar com a garota que quisesse! Um dia você vai entender isso.

Minha irm ã disse que não havia nada de errado com Dorothy , se você não se im portasse com um a m ulher que tinha as habilidades sociais de um urso panda. Aquilo só m e fez rir. Dorothy era m esm o um pouco com o um urso panda. Ela tinha a m esm a circunferência e com pacidade, a m esm a m aneira convicta de agir.

Só eu sabia que, por trás daquelas roupas quadradas, ela tinha um corpo que parecia um pequeno vaso de argila. Sua pele tinha um brilho azeitonado e 119

polido e ela m e passava um a calm a, um a calm a ilum inada por dentro, que m e deixava relaxado sem pre que estava com ela. Nós nos casam os na igrej a de m inha fam ília, m as no escritório do pastor, com m eus pais e m inha irm ã com o testem unhas. Para m inha surpresa, Dorothy m e disse que não se im portaria se eu quisesse algum a coisa m ais elaborada, m as é claro que eu não queria. Quanto m ais sim ples, m elhor, eu achava. Sim ples e sincera. E não tivem os lua de m el, por causa do trabalho de Dorothy . Sim plesm ente voltam os à vida norm al. Nós nos casam os no com eço de j ulho. Tínham os nos conhecido há quatro m eses.

Certa vez, m eu prim o Roger, às vésperas de seu terceiro casam ento, disse-m e que achava que o casam ento era viciante. Então, se corrigiu: — Quero dizer, o com eço do casam ento — ele falou. — O com ecinho. É com o um com eço totalm ente novo. São pessoas totalm ente novas; ainda não com eteram nenhum erro. Têm um lugar novo para m orar, pratos novos e esse novo tipo de... hum ... identidade, esta coisa do “nós”, convidados para fazer tudo j untos agora. E às vezes sua esposa até ganha um nom e novo em folha tam bém .

Dorothy m anteve seu nom e de solteira e estávam os m orando tem porariam ente em m eu antigo apartam ento, m as, em todos os outros aspectos, o que ele tinha dito era verdade. Tudo que fazíam os j untos, em nossa nova vida, era um evento inédito, com o se tivéssem os renascido. Nos finais de sem ana, principalm ente, quando não trabalhávam os, eu m e sentia quase brilhante, quase verde dem ais, quando nos aventurávam os pelo dia que vinha pela frente. Tom ávam os café da m anhã j untos, íam os ao superm ercado j untos, discutíam os se podíam os com prar um a casa j untos. Será que aquele era realm ente eu? O Aaron nerd, o Aaron m anco, agindo com o um m arido norm al?

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E, se eu m esm o m e surpreendia, fiquei ainda m ais surpreso com Dorothy . Que ela aceitasse sair para com prar algo tão prosaico com o um aspirador de pó, por exem plo — e se dignou a considerar os diferentes m odelos —, veio com o um a revelação. Com o o fato de ela fazer questão de usar a frase “m eu m arido” ao falar com estranhos. “Meu m arido acha que nosso aspirador de pó deveria ter um filtro hipoalérgico.” Por aquela eu não estava esperando.

E ainda ela tinha se transform ado em um a pessoa carinhosa. Quem poderia im aginar? Ela gostava de se aninhar em m eu corpo a noite inteira, apesar de aparentar ser do tipo m ais prático depois do sexo. Ela ficava perto de m im , no m eio da m ultidão, e m uitas vezes pegava m inha m ão de repente, enquanto eu conversava com alguém . Eu sentia aqueles dedos rechonchudos e ásperos se entrelaçando aos m eus com o quem não quer nada e tinha que m e controlar para não dar um sorriso.

Não estou dizendo que não encontram os obstáculos no cam inho. Todo casal tem que fazer seus aj ustes, não é verdade? Principalm ente quando j á estão acostum ados a m orarem sozinhos. Ah, e experim entam os nossa quota de desentendim entos, sinais cruzados e equívocos em ritm os diferentes. Em várias ocasiões, tam bém desapontam os um ao outro. Por exem plo, eu não havia com preendido com pletam ente que Dorothy não tinha nenhum interesse em com ida. Zero. Além de quase nunca cozinhar, o que não m e incom odava nem um pouco, ela não ligava para a com ida que eu preparava, o que m e incom odava e m uito. “O que você achou do peixe?”, eu perguntava, e ela dizia: “Ahn? Ah, estava bom ”, sem levantar os olhos da carta que estava lendo.

Ela não tinha respeito o suficiente por obj etos físicos. Não ligava para os lugares onde as coisas deveriam ficar, nem com sua lim peza e conservação. Ela não — com o posso dizer? — ela não dava o valor adequado para as coisas. Se ela tivesse m e valorizado m ais, por exem plo, não teria tido m ais cuidado com sua aparência? É verdade que, no com eço, havia m e encantado por sua falta de vaidade, m as de vez em quando m e ocorria que ela estava parecendo quase, bem , sem graça, e que essa falta de graça parecia intencional. Com o passar dos m eses, m e vi notando cada vez m ais suas roupas desaj eitadas, seu andar agressivam ente pesado, sua tendência a deixar o cabelo suj o por tem po dem ais.

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E Dorothy , por outro lado, parecia m e achar inj ustificadam ente irritadiço. Ela dizia: “Você provavelm ente vai arrancar m inha cabeça com os dentes, m as...”, e então term inava a frase com algo inócuo, com o se oferecer para dirigir quando estávam os viaj ando. E eu retrucava: “Mas por que você acha que eu reagiria assim , Dorothy ? Por que eu arrancaria sua cabeça?”. Mas, sem querer, usava um tom “vou-arrancar-sua-cabeça”, porque m e irritava quando ela tom ava o m aior cuidado do m undo com igo, daquela m aneira. Então, na verdade, eu acabava provando que ela tinha razão. Eu podia ver isso em sua expressão, apesar de ela deliberadam ente não dizer nada. Eu a observava enquanto ela nada dizia e ficava ainda m ais irritado. Lem brar disso agora está m e m atando.

Eu sentia que ela esperava algo de m im que não conseguia pedir abertam ente. Seu rosto ficava triste sem qualquer m otivo aparente e eu perguntava: “O que é isso? O que foi?”. E ela dizia que não era nada. Eu podia sentir que a havia decepcionado, m as não tinha a m enor ideia de com o aquilo tinha acontecido. Certa vez, havia um congresso em Los Angeles, m as ela disse que estava pensando em não ir. Não gostava de m e deixar sozinho por tanto tem po, ela disse (isso foi bem no com eço de nosso casam ento). Respondi: — Não perca o congresso por m inha causa.

E ela sugeriu:

— Talvez você pudesse vir com igo. Que tal? Eles sem pre têm ônibus com guias e coisas assim para os acom panhantes durante o dia. — Ótim o — respondi. — Posso levar m eu crochê. — Ah, m as por que falar assim ? Eu só queria dizer... — Dorothy — eu disse —, eu estava brincando. Não se preocupe com igo. Não é com o se eu dependesse de você para cuidar de m im , afinal.

Falei aquilo com o que afirm ando um fato. Não era um a acusação; quem poderia interpretar aquilo com o um a acusação? Mas foi o que Dorothy pensou. Eu podia ver em seu rosto. Ela não disse m ais nada e ficou m ais fechada.

Eu tentei esclarecer tudo. E acrescentei:

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— Mas obrigado pela sua preocupação.

Não adiantou m uita coisa. Ela continuou quieta a noite toda e, no dia seguinte, foi para o congresso. Senti falta dela com o se fosse quase um órgão de m eu corpo, e acho que ela tam bém sentiu m inha falta, porque m e ligava de Los Angeles várias vezes por dia e dizia: “O que você está fazendo agora?” e “queria m esm o que você estivesse aqui”. Eu realm ente desej ava estar lá tam bém e não podia acreditar que tinha perdido a chance de estar com ela. Fiz m il prom essas para m im m esm o, para que eu m e tornasse um a pessoa m ais fácil de lidar, no futuro, e não ficasse ressentido por bobagens, m as, então, quando ela voltou para casa, a prim eira coisa que fez foi ficar brava com igo por causa de um espinho preso em m eu dedo indicador. Estou falando sério. Quando ela estava viaj ando, eu havia podado o arbusto de uva-espim que estava se espalhando por cim a do parapeito da varanda, atrás do apartam ento, e você sabe com o os espinhos de uva-espim são m icroscópicos e difíceis de arrancar. Achei que o espinho acabaria saindo sozinho, m as isso ainda não tinha acontecido, e m eu dedo j á tinha com eçado a inchar e ficado verm elho. Ela perguntou: — O que é isso? Está infeccionado!

— É, acho que pode estar m esm o — respondi. — Qual é o seu problem a?

— Não tenho problem a nenhum — respondi. — Estou com um espinho no dedo, tá? Mais cedo ou m ais tarde, vou ver a pontinha preta saindo e arranco-o daqui. Algum a obj eção?

— Arrancá-lo com o quê? — ela perguntou.

— Com um a pinça, claro.

— Arrancar isso aí com qual m ão, Aaron? Está no seu dedo indicador esquerdo. Com o é que você vai pegar um a pinça com sua m ão direita? — Eu consigo — falei para ela.

— Não consegue. Você deveria ter pedido aj uda para alguém . Mas, em vez disso, você... você só ficou sentado aí, por um a sem ana, esperando até eu chegar em casa e então ter que dizer: “Puxa, sinto m uito, com o é que pude deixar você sozinho para lidar com isso?”. E todo m undo diria, a sua fam ília e 123

o pessoal da editora: “Olha só, ela não estava lá nem para arrancar o espinho do dedo dele, agora ele está com um a infecção séria e pode até precisar de um a am putação, dá para acreditar?”.

— Am putação! — exclam ei. — Você está louca? Mas ela sim plesm ente pegou a caixa de fósforos que estava sobre o fogão e foi procurar um a agulha. Quando voltou, inclinou-se sobre m eu dedo — seus lábios virados para baixo em desaprovação, m inha m ão apertada com força pela m ão dela — e picou a pele um a vez. O espinho saiu voando com o um a flecha.

— Pronto! — disse, decidida, e lim pou a ferida com um antisséptico. Então, inclinou a cabeça e apertou a bochecha contra as costas de m inha m ão. Sua pele estava m acia com o pétalas.

Bom , sobrevivem os a esses pequenos acidentes de percurso. Deixávam os tudo para trás e seguíam os com nossas vidas. É verdade que não tínham os m ais aquele m esm o brilho de antes, m as ninguém consegue viver daquele j eito para sem pre, não é? O im portante era que nos am ávam os. Tudo que eu precisava fazer para m e lem brar disso era relem brar o m om ento em que nos conhecem os. Minha pessoa solitária, desapegada e confiante seguindo a recepcionista pelo corredor do Centro de Radiologia. A recepcionista para e bate à porta entreaberta. Então, ela abre a porta por inteiro, eu entro na sala e Dorothy levanta os olhos do livro. Nossa história com eça. Eu m e levantei do sofá de Nandina e olhei ao redor, em busca de m inha bengala, que finalm ente encontrei apoiada em um canto. Saí pela porta da frente, tranquei a porta e fui para a calçada.

À esquerda, na Alam eda Clifton, à esquerda, novam ente, na Sum m it e, descendo, para a Wy ndhurst. Então, em direção ao sul, para a Woodlawn, por um bom tem po até chegar à Rua Rum or: m inha rua, com apenas três quarteirões e decorada por fileiras de pereiras. Já era crepúsculo, m as eu ainda 124

podia ouvir os pássaros cantando. Um passarinho cham ava: “Bem -te-vi! Bem -te-vi!” e insetos passavam zum bindo, contribuindo para aquele ruído de pano de fundo que você nunca escuta a não ser que pare para pensar nisso. Eu sentia um a pequena dor se desenvolvendo no lado esquerdo de m inha lom bar, m as aquilo sem pre acontecia quando eu andava qualquer distância, porque eu sabia que, depois de um a curva bem suave à frente, veria m inha casa pela prim eira vez. A curva estava m arcada por um a única árvore, de um tipo diferente das outras; eu não sabia seu nom e. A árvore tinha flores cor-de-rosa enorm es e caídas, e elas eram tão abundantes este ano que respirei fundo ao m e aproxim ar, esperando sentir um perfum e forte. No entanto, não consegui detectar perfum e algum . Em vez disso, senti cheiro de... Bem , era m ais ou m enos com o álcool isopropílico, um cheiro m enos pronunciado, delicado, de álcool flutuando na brisa, m isturado a sabonete Ivory . O perfum e exato de m inha m ulher.

Então, fiz a curva e a avistei, de pé, na calçada. Ela estava a uns três m etros de m im , de frente para nossa casa e olhando para ela, m as, ao ouvir m eus passos, virou-se para m im . Estava usando suas calças pretas e largas e um a cam isa cinza. As duas cores eram do tipo que se m istura à luz esm aecendo no final do dia. No entanto, ela m esm a parecia absolutam ente sólida — tão sólida quanto você ou eu, e ainda m ais real, por algum a estranha razão —, sólida, atarracada e com pacta. Tinha m e esquecido daquela m echa de cabelo preto que teim ava em ficar de pé no topo de sua cabeça. Tinha m e esquecido de com o ela ficava se equilibrando para trás, com o um pato, sobre os saltos dos sapatos.

Ela olhava para m im atentam ente enquanto eu m e aproxim ava, com o queixo um pouco erguido e os olhos fixos nos m eus. Cheguei à frente dela. Respirei fundo. Pensei que j am ais sentiria na vida um a com binação m ais m aravilhosa que álcool isopropílico e sabonete com um . — Dorothy — eu disse.

Não tenho certeza se falei em voz alta. Tenho a sensação de que poderia apenas ter dito em pensam ento, nas profundezas de m eu ser. Continuei:

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— Dorothy , m inha querida! Minha, só m inha, Dorothy . — Oi, Aaron — ela respondeu.

Ela olhou para m eu rosto por um m om ento, então se virou e saiu andando. Mas não senti que ela estivesse m e abandonando. Eu sabia, de algum a form a, que ela ficaria o m áxim o que podia, naquele m om ento, e que voltaria assim que pudesse. Então, fiquei ali parado e a vi ir em bora sem fazer qualquer tentativa de segui-la. Eu a vi chegar ao final do quarteirão, virar à direita na Hawthorn e desaparecer.

Então, m e virei e com ecei a cam inhada de volta para a casa de Nandina. Eu m al tinha olhado para nossa casa. Por que m e im portaria com a casa? Andei em um a espécie de transe, m antendo m inha m archa o m ais constante possível, com o se Dorothy fosse um líquido e eu estivesse cheio dela até a borda, m ovendo-m e cuidadosa e vagarosam ente para não derram á-la. 126