O Milagre

Irving Wallace · Capítulo 9 de 16

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O Milagre

Capítulo 8

...15 de Agosto

Era início da tarde e Mikel Hurtado estava profundam ente adorm ecido em seu quarto, no segundo andar do Hotel Gallia & Londres. Poderia ter dorm ido m uito m ais se a cam painha insistente do telefone na m esinha-de-cabeceira não o despertasse.

Tocou e tocou sem parar, até que Hurtado finalm ente em ergiu do sono, com preendeu que era o telefone e estendeu a m ão para atender, quase derrubando o aparelho.

— Alô?

— Mikel Hurtado, por favor. — Era um a voz de m ulher, vagam ente fam iliar, perguntando por ele em inglês. — É você, Mikel?

— Sou, sim . Quem está falando?

Os acontecim entos da m adrugada afloraram em sua m ente subitam ente, a tentativa de estupro no quarto ao lado, a surra que ele aplicara no estuprador, a gratidão da m oça cega e desam parada, m uito bonita, cham ada Natale. A princípio, ele pensou que fosse Natale, telefonando para agradecer m ais um a vez.

Mas a voz no outro lado da linha era m ais profunda e agora lhe falava em basco, rapidam ente:

— O telefone está tocando há m uito tem po e eu j á estava prestes a desistir quando você atendeu. Não sabe quem está falando, Mikel? Aqui é Julia. Estou ligando de San Sebastián.

Julia Valdez, sua com panheira no m ovim ento clandestino basco, num a ligação internacional.

Mikel ficou im ediatam ente irritado.

— Com binam os que você não m e telefonaria em Lourdes — disse ele, bruscam ente. — Não quero ligações aqui. Ficou m aluca?

— Eu não podia deixar de ligar — protestou Julia. — É m uito im portante.

Resignado, Mikel perguntou:

— O que é tão im portante assim ?

— Sua vida — respondeu Julia, baixando a voz.

Ela sem pre tivera a tendência para ser m elodram ática, pensou

Mikel, sendo tão j ovem e im atura. Por isso, ele perm aneceu calm o.

— Minha vida? Mas do que está falando?

— A culpa é m inha, de certa form a. É m elhor explicar logo. Augustín procurou por você esta m anhã.

Augustín López, líder da ETA, raram ente tinha tem po para se encontrar com ele, a m enos que fosse para tratar de algum a ação im inente. Hurtado calculou que talvez o plano de assassinar o Ministro Luis Bueno seria outra vez acionado. Ele se tornou prontam ente alerta.

— Sabe o que ele queria?

— Disse que precisava conversar com você. Luis Bueno m arcou um a conferência sobre nossa autonom ia para com eçar em Madri logo depois do reaparecim ento da Virgem . O m inistro está tão confiante no reaparecim ento que j á fixou um a data definitiva para o início das negociações. Augustín queria inform ar a você e conversar sobre um a estratégia e a agenda para as conversações.

— As conversações... — repetiu Hurtado. — Augustín pensa que vão ocorrer e representarão algum a coisa? Ele está ficando senil. Foi para m e dizer isso que você telefonou, Julia?

— Não, Mikel. Estou ligando por causa do que aconteceu em seguida. Augustín insistiu que precisava falar com você de qualquer m aneira. E claro que eu não podia revelar o seu paradeiro. E tentei m e esquivar a dar qualquer inform ação. Mas o velho é m uito esperto e com eçou a ficar desconfiado. Pressionou-m e a dizer onde você estava, quando voltaria ao apartam ento. Respondi que você estaria de volta dentro de poucos m inutos. Mas ele continuou a m e pressionar, Mikel. "Voltará de onde?", ele perguntou um a porção de vezes. "Para onde Mikel foi?" Ele sabia que eu estava escondendo algum a coisa. E ficou m e pressionando, j á estava perdendo a calm a... e você sabe com o ele fica quando perde a calm a, Mikel. Passou a dizer que eu escondia algum a coisa, queria saber o que era, arrancaria um a resposta de qualquer m aneira. Tive de contar a ele...

— Então contou a verdade — interrom peu-a Hurtado, am argam ente. — Disse onde eu estava. Que vim para Lourdes.

— Eu não tinha alternativa que não contar a verdade, Mikel. Ele perceberia qualquer m entira. É o que sem pre acontece. Fui obrigada a dizer que você foi para Lourdes... a fim de acom panhar pessoalm ente os acontecim entos. Augustín com preendeu tudo no m esm o instante. E continuou a m e pressionar. "Está querendo dizer que o nosso Mikel se tornou subitam ente religioso e espera por acaso ver a Virgem Maria?" A esta altura, ele j á estava gritando com igo. "Não m e venha com m erda. Ele foi até lá para causar algum a encrenca, para fazer algum a coisa que m e im peça de negociar com Bueno e m e obrigue a aprovar a ação direta de terrorism o." Augustín ficou dizendo essas coisas, tentando m e obrigar a confessar que sabia quais eram as suas intenções. Quando m e recusei a confessar qualquer coisa, ele perdeu o controle, agarrou-m e o pulso, torceu-o...

— Augustín não costum a agir assim .

— Sei disso, Mikel, m as ele estava realm ente descontrolado. E não parava de gritar: "Se Mikel enlouqueceu, pensa que pode conseguir algum a coisa com um ato de violência em Lourdes, ele tem de saber que só estará arruinando as nossas possibilidades de chegar a um acordo pacífico com a Espanha. Ele vai tentar algum a coisa violenta, não é m esm o?" Ele estava m e m achucando, Mikel, doía dem ais. E tive de lhe contar a verdade.

A ira de Hurtado era agora quase incontrolável.

— Você contou a verdade?

— Não tive alternativa. Augustín perguntou depois: "Sabe onde encontrá-lo?" Respondi que sabia, m as nunca lhe diria. Ele podia m e m atar, m as eu não falaria. E Augustín disse: "Entre em contato com ele no instante em que eu sair. Descubra Mikel de qualquer m aneira. Mande que ele suspenda im ediatam ente qualquer coisa que estej a fazendo. E um a ordem m inha. Mikel deve voltar im ediatam ente a San Sebastián. Se ele tentar desobedecer, será disciplinado. Espero ter notícias de Mikel ainda hoj e." Foram as palavras dele, Mikel. Atenda, por favor. Augustín sabe o que é m elhor para a causa.

Hurtado estava furioso.

— Augustín que se foda. E que se foda você tam bém , por ser tão estúpida a ponto de contar tudo.

— Sej a razoável, Mikel — suplicou ela. — Augustín é m ais esperto do que eu. Sabia de tudo, m esm o sem eu contar. Ele é esperto dem ais.

E é tam bém a sua figura de pai, a sua figura de autoridade, você quer que ele a com a, pensou Mikel. Ele se deu alguns segundos para esfriar e ser razoável, dizendo em seguida:

— Está bem , Julia, eu não posso culpá-la. Era você quem estava sendo pressionada.

— Tem razão, Mikel. Fico contente por saber que você com preende.

— Mas não perdoarei Augustín, não perdoarei a sua súbita m oleza — acrescentou Hurtado, im placavelm ente. — Ele quer a m inha resposta hoj e? Pois você pode lhe dar a m inha resposta hoj e... m elhor do que isso, pode dar im ediatam ente. Diga a ele que não voltarei a San Sebastián, diga a ele que não deixarei Lourdes enquanto não concluir o que vim fazer aqui. Entendeu?

Houve silêncio no outro lado da linha. A voz trêm ula de Julia finalm ente preencheu o vazio:

— Mikel, você... você não vai realm ente... fazer o que... o que m e disse que ia fazer, não é m esm o?

— Pode estar certa de que vou.

— Mikel...

— Não se m eta nisso, Julia. Levarei m eu plano até o fim . Ninguém vai se m eter em m eu cam inho.

A resposta de Julia foi em tom abafado:

— Se o tivesse visto, Mikel, saberia que é m elhor desistir. Ele não deixará. Encontrará um m eio de detê-lo. E dirá que é para o bem da causa. Mas não o deixará executar o seu plano. Vai im pedi-lo de qualquer m aneira.

Hurtado soltou um a risada furiosa.

— Pois que ele tente.

E, com isso, Hurtado desligou.

Perm aneceu sentado na cam a, as pernas ainda por baixo das cobertas, tentando pensar. Não lhe agradava o que estava acontecendo, m as tinha certeza de que, no final das contas, Augustín não faria coisa algum a contra um com panheiro de luta do m ovim ento. Augustín acabaria com preendendo e se m anteria leal. Fora apenas um a am eaça vazia, a fim de dem onstrar autoridade. Augustín López não tom aria qualquer providência concreta para detê-lo.

Sentindo-se m elhor, Hurtado olhou através da j anela para a tarde ensolarada. A gruta estaria repleta de visitantes naquele m om ento. Esperaria algum as horas, até que a m ultidão no dom ínio se reduzisse, pouco antes do j antar. Levaria então o equipam ento para a gruta e aguardaria o prim eiro m om ento oportuno para esconder tudo na pequena floresta por cim a. Voltaria ao hotel, para um j antar suntuoso. Depois de com er, ficaria fazendo hora até m eia-noite ou um a da m adrugada, antes de voltar à gruta para concluir o serviço.

Depois do alm oço satisfatório no Gallia & Londres e estim ulada pelo incentivo de um a gratificação de 400 francos prom etida por Sergei Tikhanov, se conseguisse lhe arrum ar um quarto de hotel (e ela estava certa de que poderia conseguir), Gisele Dupree resolveu voltar im ediatam ente a Tarbes com seu próspero cliente, a fim de buscar as coisas dos dois e trazer para Lourdes. Gisele verificou que dispunha de tem po suficiente, m ais de duas horas, antes de conduzir à gruta um grupo de peregrinos de Nantes. Tikhanov concordou prontam ente com a m udança nos planos.

Naquela viagem , ela guiou o Renault verm elho m uito depressa, a um a velocidade assustadora, chegaram num instante ao apartam ento de seus pais em Tarbes. Entrando, Gisele arrum ou rapidam ente duas valises. Tikhanov, que tirara bem pouca coisa de sua m ala na noite anterior, estava na sala e pronto para partir quando Gisele saiu do quarto com suas valises e um bilhete para o pai.

Novam ente, com pouco tráfego para atrapalhar, Gisele percorreu a distância entre Tarbes e Lourdes em grande velocidade. Tikhanov sentava-se ao seu lado, m uito em pertigado e nervoso. Chegando a Lourdes e entrando na Rue de Ia Grotte, encam inhando-se para o seu destino, quase ao pé do Château Fort, Gisele rom peu o seu silêncio concentrado:

— Estam os quase chegando. Vou deixá-lo no Hotel de la Grotte. É m uito elegante e fica a apenas 10 m inutos do dom ínio e dos santuários.

— Tem certeza de que pode m e conseguir um quarto lá? — indagou Tikhanov, preocupado.

— Não precisa se preocupar, Sr. Talley . Tenho as m elhores ligações lá.

Gisele tinha m esm o um excelente contato no Hotel de la Grotte. Prestara favores ao recepcionista principal, Gaston, que por sua vez tam bém lhe fizera alguns favores. Tinham um acordo sobre um quarto vago geralm ente disponível para um hóspede que estivesse disposto a pagar um a gratificação.

O enorm e hotel branco de cinco andares, com o letreiro HOTEL DE LA GROTTE no telhado, assom ou diante deles. Gisele guiou o Renault por portões pretos de ferro batido que estavam abertos, entrando no pátio asfaltado que se estendia até o toldo azul e as portas de vidro. Ela foi parar no estacionam ento de hóspedes, cheio pela m etade.

— Espere aqui — disse Gisele, saindo do carro. — Tenho de falar com m eu am igo e descobrir se posso lhe conseguir o quarto.

— Não vou em bora — respondeu Tikhanov. — Afinal, para onde poderia ir?

Gisele encam inhou-se rapidam ente para a entrada do hotel, passou pelas portas de vidro e virou à direita, aproxim ando-se da recepção. Estava vazio. Mas, um instante depois, ela avistou seu am igo Gaston voltando a seu posto, vindo do salão azul, que ficava depois do saguão principal.

— Gaston!

O hom em pequeno, de terno preto e gravata-borboleta, parou no m esm o instante, olhou ao redor e reconheceu-a. Seu rosto se desm anchou num a expressão de prazer, enquanto se adiantava. Abraçaram -se, beij aram -se nas faces, separaram -se para tratar de negócios.

— Gisele, m inha criança, j á faz bastante tem po que não a vej o.

— Mas creio que valeu a pena esperar. Preciso de um quarto, Gaston. Tem algum ?

— Depende — respondeu Gaston, cautelosam ente. — Sabe m uito bem que estam os num a tem porada de grande m ovim ento.

— Tenho um im portante cliente am ericano lá no carro, um professor de Nova York. Ele oferece um a gratificação de 400 francos por um quarto. Metade para você, m etade para m im .

— Vou verificar. Acho que pode haver algum a coisa no, terceiro andar.

Satisfeita, Gisele bateu palm as, fez sinal a um carregador para. acom panhá-la e saiu apressadam ente para o estacionam ento.

Voltou poucos m inutos depois com Tikhanov a reboque, apresentando-o grandiosam ente a Gaston com um pequeno esboço biográfico, depois sussurrou ao cliente que estava na hora de pagar a gratificação. Ela esperou que Tikhanov contasse os 400 francos, entregou a m etade a Gaston e guardou o resto. Depois de se registrar, Tikhanov encam inhou-se para os elevadores.

— Até m ais tarde, Sr. Talley — gritou Gisele.

— Obrigado por tudo, Madem oiselle Dupree.

Voltando ao carro, Gisele verificou que ainda tinha tem po para m ais duas paradas, antes de pegar a excursão da tarde. Foi parar o carro na Rue du Paris, logo depois da esquina, perto do Café Jeanne d'Are. Saltou e aproxim ou-se do café, esquadrinhando o interior e divisando sua am iga Dom inique lim pando um a m esa, perto do balcão. Gisele entrou.

— O apartam ento j á está desocupado, Dom inique? Eu gostaria de levar logo as m inhas coisas.

— Está prontinho para você. — Dom inique tirou um a chave do bolso e entregou-a a Gisele. — Pode m e devolver quando eu voltar, na noite de dom ingo.

Dom inique fora convidada por um freguês rico, um libanês cristão, a acom panhá-lo num a visita de cinco dias a Cannes.

— Estarei à sua espera — prom eteu Gisele. — E agora pode m e arrum ar um café e um pedaço de bolo? Estou vendo um a m esa vazia lá fora.

Com prando um exem plar de Le Figaro, Gisele encam inhou-se para a m esa, sentou-se na cadeira am arela de vim e, enquanto Dom inique lhe trazia o café. Tom ando o café, Gisele abriu o j ornal sobre a m esa. A prim eira página estava dom inada pelos retratos de três russos. A m anchete por cim a form ulava um a indagação:

COM O PRIMEIRO-MINISTRO SOVIÉTICO GRAVEMENTE DOENTE, QUEM SERÁ SEU SUCESSOR?

A atenção de Gisele se concentrou no texto na prim eira página. Segundo um breve com unicado da TASS, a agência noticiosa soviética, o Prim eiro-Ministro Skry abin, o líder da União Soviética, estava internado num hospital de Moscou. Seu estado era considerado grave. Em bora o com unicado da TASS não fizesse alusão a qualquer sucessor, havia especulações de que o Politburo considerava três veteranos políticos russos para o alto cargo.

A atenção de Gisele deslocou-se para as fotografias dos três m ais prováveis candidatos ao posto. Duas fotografias e respectivos nom es nada significavam para ela. Mas a terceira deixou-a excitada, pois reconheceu o nom e e vagam ente o rosto. Era Sergei Tikhanov, o veterano m inistro do Exterior da União Soviética. Gisele lem brou que, durante o ano em que passara em Nova York, assistira ao grande Tikhanov falando na assem bleia da ONU. A presença im perturbável e a grande segurança haviam -lhe causado um a im pressão profunda. Pouco tem po depois, ela com parecera com seu patrão e am ante, Em baixador Charles Sarrat, a um coquetel oferecido a Tikhanov. Ficando perto de Sarrat, quando ele fora cum prim entar o m inistro do Exterior, Gisele vira Tikhanov de perto, a apenas um m etro de distância. Agora, lem brava apenas de seu perfil firm e, o nariz grande e um a enorm e verruga m arrom no lábio superior. Aquele hom em que poderia ter tocado, bastando apenas estender a m ão para isso, podia agora se tornar o próxim o governante da União Soviética.

A m ente de Gisele im ediatam ente se lançou a m ais um a de suas incontáveis j ornadas à estada na ONU. Com preendeu, m ais do que nunca, que Nova York era o lugar a que pertencia. Jurou novam ente econom izar o dinheiro necessário para cursar a escola de tradução e conseguir outro em prego na ONU, assim que tirasse o diplom a. Mas sabia que isso não aconteceria em breve, pelo m enos no ritm o com que vinha econom izando. Esperava por gorj etas e gratificações ao final das excursões que guiava, m as os peregrinos e turistas que vinham a Lourdes, com exceção de um ocasional Sam uel Talley, eram pobres ou pouco generosos. Seria m uito difícil conseguir o dinheiro extra de que precisava, m as ela estava m ais determ inada do que nunca.

Ela olhou para o relógio. Mal teria tem po de fazer m ais um a parada, deixando as valises no apartam ento de Dom inique e depois indo se encontrar com os peregrinos de Nantes, para m ais um a excursão cansativa por aquela tediosa cidade. Gisele term inou de tom ar o café, pagou a conta, m eteu o j ornal na bolsa e encam inhou-se para o carro e o apartam ento de Dom inique.

Finalm ente sozinho, na privacidade de seu próprio quarto de hotel, no terceiro andar do Hotel de la Grotte, Sergei Tikhanov não desperdiçou um m om ento sequer a inspecionar o am biente. Foi diretam ente para o telefone. Pegando a lista telefônica verm elha e branca, na prateleira por baixo do aparelho, ele abriu nas páginas azuis com inform ações sobre o sistem a de DDL Lendo o texto francês, ficou satisfeito ao constatar que as ligações de Lourdes para o resto da França podiam ser autom áticas. Assim , poderia ligar direto para Paris, sem se preocupar com a possibilidade de a origem do telefonem a ser suspeita ou passível de ser localizada.

Ele discou para a Em baixada Soviética em Paris, deu o seu nom e em código e o ligaram prontam ente com o em baixador. Depois de um a troca de am enidades, Tikhanov inform ou que estava ligando de Marselha e não era um telefone seguro; portanto, seria breve e im preciso. Estava apenas querendo saber com o andava a situação, antes de voltar para um a reunião com am igos de seu país, nos arredores de Marselha. Tinha duas indagações apenas para fazer: O General da capital por acaso o procurara? E com o passava o prim eiro-m inistro? *

Tikhanov sentiu-se aliviado ao saber que o General Kossoff, do KGB, não tentara encontrá-lo. Sabia que ele devia andar m uito ocupado com os problem as do partido.

— O prim eiro-m inistro tam bém não o procurou. Mas fui inform ado de que ele continua gozando a boa saúde de sem pre.

Por um m om ento, Tikhanov ficou surpreso, depois se lem brou que estava num a linha aberta.

— Claro, claro...

Tikhanov agradeceu ao em baixador e j á estava prestes a desligar quando o outro perguntou subitam ente:

— Se o general quiser falar com você, posso inform ar onde se encontra?

Tikhanov se preparara para essa pergunta.

— Diga a ele que tive de deixar a cidade para m e encontrar com nossos am igos num lugar em que não posso ser alcançado. Mas pode avisar ao general que resolverei tudo até o final da sem ana e entrarei em contato com ele diretam ente, na segunda ou terça-feira.

Com isso, a ligação crucial estava concluída e seu desaparecim ento devidam ente protegido. Tikhanov sentiu-se m elhor do que em qualquer outra ocasião desde que chegara a Lourdes.

Arrum ando lentam ente as suas coisas, ele tinha tem po agora de inspecionar o quarto que arrum ara. Achou que era satisfatório, em bora estivesse acostum ado a suítes de hotel luxuosas. Seu breve confinam ento com os hum ildes Duprees, em Tarbes, deixara-o deprim ido e estava contente por ter escapado. Melhor do que isso, no entanto, um alívio ainda m aior do que escapar-lhes, era a sua libertação daquela pequena introm etida, Gisele, que outrora trabalhara na ONU e poderia eventualm ente representar algum perigo. Livrar-se dela, ficar sozinho, era o suprem o alívio.

Enquanto esperava pelo pedido que fizera ao serviço de quarto — não com era o suficiente durante o alm oço, em sua concentração nas palavras da Sra. Moore — ele com eçou a guardar as cam isas im pecavelm ente dobradas, cuecas, m eias, pij am as, nas gavetas da arca antiga, encostada na parede em frente às duas cam as. Apesar do crucifixo pendurado na parede, entre as cam as, apesar das cadeiras brancas pseudo-antigas, com estofam ento de plástico, o quarto era aceitável. As cortinas am arelas e as portas de vidro, dando para um a pequena sacada, com um a vista agradável de árvores, tornavam o am biente alegre e revigorante.

Tikhanov term inava de arrum ar suas coisas no m om ento em que o garçom trigueiro chegou com o seu pedido. Depois que o garçom se retirou, Tikhanov puxou um a cadeira para a m esa pequena em que estava a bandej a, ao lado do aparelho de televisão. Abriu o exem plar de Le Figaro que pedira, enquanto tom ava a vodca dupla com gelo.

A prim eira coisa que viu, na prim eira página, foi a sua própria fotografia, com o um candidato ao cargo de prim eiro-m inistro da União Soviética. Contem plou-se com em oções m istas. A sensação im ediata foi de surpresa e prazer, surpresa porque a TASS anunciara tão depressa que Skry abin se encontrava além de qualquer possibilidade de recuperação e precisava ser substituído, prazer pelo com unicado oficial de Moscou de que ele, Sergei Tikhanov, era um dos candidatos ao cargo m ais elevado de sua nação. Não o incom odava a m enção a dois outros candidatos. Eram instrum entos do partido e a referência a seus nom es constituía um m ero subterfúrgio, até que se pudesse fazer o com unicado definitivo. E quando isso acontecesse — com o o chefe do KGB, General Kossoff, j á lhe garantira — haveria apenas um nom e indicado para prim eiro-m inistro e seria o dele.

Por outro lado — e essa era a parte contraditória de suas em oções — não era sensato ter a sua fotografia na prim eira página de um im portante j ornal francês, enquanto ainda se encontrava em território da França, ainda por cim a em Lourdes. Mas, afagando autom aticam ente o bigode espesso, ele ficou convencido de que não seria reconhecido. Seu disfarce não fora descoberto e não poderia ser. Isso e m ais a presença im provável num santuário católico lhe proporcionavam proteção suficiente.

Esvaziando o copo de vodca, ele devorou a salada e a Omelette au Jambon, enquanto lia cada palavra da história despachada de Moscou. Quando term inou, tanto a com ida quanto a m atéria, sua com placência foi perturbada pela lem brança de um a coisa. Era um hom em doente e sua glória seria curta, a m enos que encontrasse a cura naquele lugar tão apregoado por suas curas inexplicáveis. Na verdade, viera para Lourdes sem qualquer fé cega num a possível cura. O que lhe dera um fio de esperança, um m ínim o de fé, fora o encontro no alm oço com a inglesa Edith Moore, curada de câncer por um a visita ao santuário.

Curada por um a visita aos banhos.

Um a cura assim desafiava o senso ordenado de lógica de Tikhanov, m as ocorrera e fora confirm ada pelos m ais respeitados representantes da profissão m édica. Conhecera pessoalm ente a pessoa contem plada com um a cura m ágica. Não era o m om ento para questionar ou tentar im por a lógica. Era um m om ento para crer.

Tikhanov levantou-se. O dia era curto e o m esm o acontecia com seu tem po no m undo, a m enos que se entregasse à m agia. E, por isso, ele partiu para os banhos.

Descendo no*elevador, Tikhanov encam inhou-se para o balcão da recepção. O am igo da garota Dupree, o recepcionista Gaston, conversava com outro hom em . Tikhanov fez m enção de perguntar a Gaston com o se podia chegar aos banhos, partindo do hotel. Antes que pudesse falar qualquer coisa, porém , Gaston cum prim entou-o efusivam ente.

— Ah, Professor Talley, aqui está alguém que deve conhecer... Professor, este é o Dr. Berry er, que dirige o renom ado Serviço Médico de Lourdes.

Tikhanov analisou rapidam ente o hom em cuj a m ão apertava. O Dr. Berry er tinha sulcos profundos na testa, olhos que lem bravam ovos pochês, um ar ligeiram ente rem oto e clínico. Parecia solidam ente constituído, em seu terno antiquado.

— Prazer em conhecê-lo — disse Tikhanov.

— O prazer é todo m eu — respondeu o Dr. Berry er. — Gaston m encionou a sua chegada. Sem pre ficam os satisfeitos com a presença de acadêm icos. Espero que estej a gostando de Lourdes.

— Ainda não tive tem po para conhecer m elhor a cidade. Mas com todas as credenciais de Lourdes, tenho certeza de que gostarei m uito. — Ele virou-se para Gaston. — Estava pensando em experim entar os banhos hoj e, m as não sei com o chegar lá.

— Precisa apenas acom panhar o Dr. Berry er — disse Gaston.

— Isso m esm o — confirm ou o m édico. — Estou indo agora para o Serviço Médico. Não fica m uito longe dos banhos. Pode m e acom panhar. A distância é relativam ente pequena.

— Com o m aior prazer — m urm urou Tikhanov.

Eles saíram do hotel e viraram para oeste, seguindo pela Rue de Ia Grotte.

— É m uita gentileza sua, Padre Berry er — disse Tikhanov. O Dr. Berry er exibiu um sorriso gelado.

— Não sou padre, sou leigo... m édico e católico.

— Desculpe. O Serviço Médico, é claro. As coisas m e parecem um pouco confusas.

— Talvez haj a m ais m édicos do que padres em Lourdes — com entou o Dr. Berry er. — Veio até aqui por causa de sua saúde, Professor Talley ?

— Para ver o que se pode fazer com a m inha distrofia m uscular.

— Ah... Tudo é possível. Quem sabe? Estará nas m ãos da Virgem . Tem havido curas m ilagrosas em m uitos casos sim ilares.

— E conheci um a hoj e, a da Sra. Edith Moore. Fiquei bastante im pressionado.

O Dr. Berry er assentiu.

— A Sra. Moore, nossa m ais recente cura inexplicável, confirm ada pela ciência m édica. Exam inei-a pessoalm ente. Um a recuperação extraordinária, instantânea e total.

— Ela m e contou que aconteceu logo depois que se banhou com a água da fonte — com entou Tikhanov. — E o que m e encoraj a a tom ar os banhos hoj e.

— Os banhos... — m urm urou o Dr. Berry er. — Sabe algum a coisa a respeito?

— Sinto-m e envergonhado em dizer que não sei de nada, exceto que têm curado várias pessoas, desde os tem pos de Bernadette.

— É verdade, têm m esm o. Talvez estej a interessado nas origens, com o os banhos surgiram , antes de tom á-los.

— Claro que estou interessado.

Enquanto continuavam a andar, passando pelas loj as de souvenirs, o Dr. Berry er pôs-se a discorrer sobre um assunto que obviam ente o fascinava;

— Os banhos com eçaram a 25 de fevereiro de 1858, quando Bernadette foi à gruta e viu a Virgem Maria pela nona vez. Havia um a m ultidão de 400 espectadores para observá-la. A Virgem Maria lhe falou e Bernadette recordou depois: "A Dam a m e disse: 'Vá e beba na fonte e se banhe nela.' Não vi qualquer fonte e com ecei a m e encam inhar para o Gave. Ela m e disse que não era lá. Apontou com um dedo para a fonte. Fui até lá, m as encontrei apenas um a água lam acenta. Baixei a m ão, m as não consegui recolher qualquer água. Cavei um pouco e a água aflorou, m as ainda lam acenta. Por três vezes a água aflorou e depois sum iu; na quarta vez, consegui beber um pouco." Bernadette não apenas bebeu um pouco daquela água lam acenta, m as tam bém passou em seu rosto. Com o contou m ais tarde, ela foi tam bém instruída a com er um punhado de ervas. Tentou fazê-lo, m as foi forçada a cuspir tudo e acabou vom itando. Muitos espectadores ficaram revoltados com seu com portam ento, gritaram que ela perdera o j uízo, estava louca. Mas no dia seguinte o filete de água lam acenta se tornara m ilagrosam ente água lim pa, em ergindo de um buraco que aum entava cada vez m ais. A fonte foi se am pliando, até que virou um poço. Não dem orou para que m uitos visitantes bebessem a água e se banhassem . Houve num erosas curas em decorrência. Gradativam ente, um a série de canos ocultos foi instalada, levando a água da fonte às torneiras de onde os peregrinos podem beber e às casas de banho, onde os enferm os m ergulham .

— Mas essa água cura m esm o? — indagou Tikhanov, querendo ter certeza absoluta.

— Não resta a m enor dúvida quanto a isso —- garantiu o Sr. Berry er. — Mas som os um hom em da ciência e um douto estudioso. Portanto, não posso deixar de ser absolutam ente franco. E, com toda a franqueza, devo inform á-lo que, quim icam ente, não há qualquer elem ento m edicinal ou curativo na água da fonte. Absolutam ente nenhum .

— Nenhum ?

— Nenhum . Em abril de 1858, o Professor Filhol, um cientista da Universidade de Toulouse, foi convidado a analisar a água. Ele o fez e depois relatou: "O resultado desta análise é de que a água da gruta de Lourdes possui um a com posição que pode ser considerada com o um a água potável sim ilar à m aioria que se encontra nas m ontanhas, onde o solo é rico em cálcio. A água não contém qualquer substância ativa que lhe conceda propriedades terapêuticas acentuadas. Pode ser bebida sem qualquer inconveniência." Em sum a, a água da fonte não passava de água potável com um . Ao longo dos anos, foi se avolum ando a preocupação de que a água pudesse ser prej udicial. Em 1934, m eus antecessores enviaram am ostras das águas dos banhos a laboratórios em Anvers e Tarbes e um terceiro na Bélgica. Todas as análises saíram de acordo. As águas dos banhos de Lourdes estavam extrem am ente poluídas... contudo, eram totalm ente inofensivas, pois os bilhões de bacilos encontrados se achavam inertes. O idoso presidente dos Hospitaliers, Conde de Beaucham p, costum ava dizer: "Já bebi um hospital inteiro cheio de m icróbios, m as nunca fiquei doente."

— Em sum a — com entou Tikhanov — o que está m e dizendo é que as águas de beber e dos banhos na gruta não contêm propriedades que sej am úteis.

— Exatam ente.

— Então o que torna as águas curativas? O Dr. Berry er deu de om bros.

— O que posso dizer? Com o m édico, posso dizer que é o elem ento psicológico que cura. Com o um católico, posso dizer que é um a inexplicável cura espiritual, favorecida pela Virgem Maria. De um a coisa tenho certeza: as águas j á curaram , estão curando e continuarão a curar.

— Então recom endaria os banhos.

— O que tem a perder com a sua doença? Conversou com a Sra. Moore. Certam ente isso é suficiente.

Tikhanov sorriu, contrito.

— É anim ador.

Enquanto andavam , Tikhanov percebeu que, depois da travessia da ponte, não estavam m ais na Rue de Ia Grotte, m as sim na Avenue Bernadette Soubirous, surgindo à frente a torre da Basílica Superior.

— Deixe-m e prepará-lo para os banhos — o Dr. Berry er estava dizendo. — Cerca de 30 m il galões da água da fonte na gruta são canalizados diariam ente para as torneiras de que os peregrinos bebem e para as casas de banhos de hom ens e m ulheres. A água é tam bém guardada em dois enorm es depósitos. Talvez j á tenha ouvido falar com algum ceticism o sobre a higiene da água dos banhos...

— Nunca ouvi falar sobre isso —Tikhanov apressou-se a dizer.

— Não im porta. O fato é que m ais de um a centena de peregrinos se banham na m esm a água, antes que sej a trocada, ao m eio-dia. Há a preocupação frequente de que resíduos dos doentes possam contagiar os saudáveis que se banham . Isso poderia resultar num a epidem ia de tifo ou cólera. Mas não tenha m edo. Nunca houve tal epidem ia e, ao que eu saiba, ninguém j am ais ficou infeccionado da água usada por banhistas anteriores. Mas tem havido curas, que constatei pessoalm ente. Inválidos entraram nos banhos para im ersões de um m inuto e saíram andando por si m esm os, perfeitam ente saudáveis.

— Já usou os banhos pessoalm ente algum a vez?

— Eu? Nunca. Mas, graças a Deus, não tenho necessidade de um a cura. Estou saudável.

Enquanto desciam pela ram pa, o Dr. Berry er lem brou-se de m ais um a coisa e acrescentou:

— Mas outros m édicos j á se banharam nas águas. Lem bro particularm ente de um antecessor m eu no Serviço Médico, Dr. Jean-Louis Arm and-Laroche. Ele usava os banhos sem pre que estava em Lourdes, em bora não os considerasse m uito higiênicos. Alguém perguntou-lhe por que então usava os banhos. O Dr. Arm and-Laroche respondeu: "Faço isso com o um crente. E faço com hum ildade, no espírito de penitência e de um exercício espiritual". — O Dr. Berry er lançou um olhar de lado para Tikhanov, antes de acrescentar: — Mas você tem algo m ais em m ente.

— Espero ser curado.

— Pois então experim ente os banhos.

Atravessaram a Esplanada do Rosário. O Dr. Berry er gesticulou para a esquerda.

— Passando pelas grutas e pelas torneiras de beber, encontrará os banhos. Preciso voltar ao Serviço Médico e por isso o deixarei aqui. Está nas m elhores m ãos. Continue otim ista. E boa sorte.

Tikhanov observou o Dr. Berry er se afastar, depois virou-se na direção da gruta, preparando-se para o estranho ordálio pela frente.

Não foi difícil encontrar os banhos. Havia um prédio baixo, com prido, austero," com entradas de um lado para os hom ens e no outro para as m ulheres. Havia grades para disciplinar as filas e quatro fileiras de cadeiras de m etal em cada entrada. E havia tam bém , ali perto, um padre barbudo, de batina preta e nacionalidade indeterm inada, parado na frente de um grupo de peregrinos, todos rezando o rosário.

Havia um a fila pequena na entrada m ais próxim a dos banhos dos hom ens. Tikhanov entrou nessa fila, o coração disparando com a certeza de que, para sua grave doença, estava na clínica espiritual do últim o recurso.

A fila de hom ens se adiantava lentam ente e Tikhanov acom panhou-a. Entraram no prédio, parando num corredor em que havia um a sucessão de cortinas azuis e brancas. Um j ovial voluntário, um brancardier, falou-lhes com um sotaque irlandês. Explicou que havia dois m il hom ens — e cinco m il m ulheres no outro lado — que passavam por ali todos os dias; portanto, não se podia perder tem po. Por trás das cortinas, inform ou ele, ficavam os vestiários, através dos quais se chegava aos banhos.

Tikhanov foi encam inhado ao prim eiro vestiário. Ele afastou para o lado a cortina úm ida e entrou no cubículo. Três hom ens, de cueca, estavam sentados num banco, aguardando sua vez. Um brancardier francês, postado na cortina no outro lado, gritou para Tikhanov:

— Você é am ericano ou não?

— Am ericano — respondeu Tikhanov.

O brancardier passou a falar em inglês:

— Deve tirar as roupas, com o os outros. Fique de cueca. Nervosam ente, Tikhanov pôs-se a tirar os sapatos e as m eias, a

cam isa e a calça, até que ficou apenas com a cueca m arrom . Pendurara as roupas, encam inhado-se para o banco, quando descobriu que se encontrava vazio. Ia sentar-se quando o voluntário cham ou-o. Tikhanov atravessou o vestiário e o voluntário entregou-lhe um a toalha azul encharcada, dizendo-lhe que prendesse na cintura e tirasse a cueca por baixo.

— Receberá a cueca, j unto com o resto de suas roupas, quando sair do banho. Ao term inar o banho, não esfregue o corpo com esta toalha. Não se enxugue. Deixe a água no corpo e ponha as roupas. Vai secar num instante ao sol. E, agora, entre no banho.

Ele pegou Tikhanov pelo cotovelo e em purrou-o para o outro lado da cortina, ao banho propriam ente dito.

Tikhanov oscilou na beira de um a banheira de pedra afundada, retangular, com prida, cheia de um a água que era positivam ente fétida. Dois corpulentos brancardiers, usando botas de borracha e aventais azuis por cim a das cam isas e calças,seguraram -no pelos braços e aj udaram -no a descer pelos degraus de pedra escorregadios para a água m orna. Um deles fez-lhe sinal para que andasse até o outro lado. Tikhanov obedeceu.

Lá chegando, Tikhanov descobriu-se diante de um a Madona na parede e de um enorm e crucifixo pendurado de um rosário. Um robusto atendente inclinou-se e perguntou que língua ele falava, depois entregou-lhe um a placa de m etal esm altada, em que estava escrito: "Um a oração para você dizer em inglês depois apresente silenciosam ente o seu pedido a Deus." Tikhanov fez a oração para si m esm o, devolveu a placa e tentou pensar num pedido a form ular ao Todo-Poderoso. Mas só podia pensar na água salobra e nos m ilhões de bacilos que a povoavam .

As m ãos estendidas do atendente seguraram as m ãos de Tikhanov, enquanto ele ordenava-lhe tranquilizadoram ente que sentasse na água. Tikhanov se abaixou, a água cobrindo-o até a barriga. Um atendente m andou que se inclinasse para trás, afundando na água até o pescoço. Tikhanov tentou fazê-lo, afundando, a água subindo ao pescoço, m as escorregou de repente e toda a cabeça afundou, com o resto do corpo. Ele engoliu um punhado da água pútrida, debateu-se para sentar, aflorando à superfície engasgado, cuspindo água, procurando respirar.

Os atendentes se abaixaram solenem ente para aj udá-lo a sair da água. Conduziram -no rapidam ente de volta à cueca e ao resto das roupas. Tikhanov estava encharcado da cabeça aos pés e queria se enxugar, só que não havia toalhas. Com algum a dificuldade, ele pôs a cueca, grudada na pele m olhada, depois a cam isa e a calça, m eias e sapatos, todas as peças se tornando im ediatam ente encharcadas da água em seu corpo.

E depois, atordoado, viu-se outra vez lá fora, diante de duas palm eiras, a encosta de um a colina e um a im agem dedicada a "St. Margaret, Rainha e Padroeira da Escócia". Olhou ao redor, procurando um cam inho de fuga, querendo deixar para trás, ao m áxim o possível, aquela infam e casa de banhos. Encontrou um a saída, no fluxo principal de pessoas que deixavam a área dos banhos, a cam inho da gruta. Cam inhando desconfortável ao sol, as roupas grudadas no corpo, ele se perguntou se a im ersão teria curado sua doença. Não havia com o saber. Andava rigidam ente, com o se estivesse em pernas de pau, desej ando apenas estar seco outra vez.

Foi parar num ponto despovoado ao lado da gruta, onde ainda se podia desfrutar o que restava do sol.

Perm aneceu ali por um m om ento, absorvendo o sol, ainda se sentindo pegaj oso. Sacudiu-se com o um cachorro m olhado para desgrudar as roupas do corpo. Ao fazê-lo, algo desafortunado e inesperado aconteceu. Um a coisa caiu por sua boca e queixo, descendo até o chão.

Aturdido, ele olhou para baixo, entre os pés. Ficou horrorizado com o que viu. Autom aticam ente, a m ão subiu para o lábio superior raspado, sentindo-o totalm ente liso, a não ser pela verruga. O enorm e bigode desgrenhado, afrouxado pela im ersão na água dos banhos, desgrudara e caíra. Com receio de olhar ao redor para descobrir se era observado, se o desm ascaram ento tinha algum a testem unha, Tikhanov inclinou-se rapidam ente, pegou o bigode e tornou a grudá-lo no lábio superior, que era o lugar a que pertencia. Quando sentiu que se achava de volta ao lugar, em bora precariam ente, ele engoliu em seco e finalm ente olhou ao redor, a fim de descobrir se alguém percebera o ocorrido.

E, olhando para a frente, seu horror m inguante transform ou-se em choque pelo que viu. A desgraçada da Gisele Dupree, a introm etida guia de turistas, apontava um a câm ara fotográfica em sua direção. Os olhos de Tikhanov se arregalaram , m as no instante seguinte o choque com eçou tam bém a m inguar, quando com preendeu que provavelm ente não fora focalizado pela câm ara. Um pouco à sua frente, ligeiram ente para o lado, estava um grupo de peregrinos, talvez um a dúzia, posando para sua guia, Gisele, que tirou m ais um a fotografia dos m em bros de sua últim a excursão.

Confuso, Tikhanov perm aneceu onde estava. Não podia decidir se Gisele realm ente o fotografara sem o bigode ou apenas dera essa im pressão, ao focalizar o grupo de peregrinos, reunido a poucos passos de distância.

Ele não podia ter certeza.

Sua única vontade era virar-se e fugir. Mas, antes que pudesse fazê-lo, viu Gisele baixar a câm ara com um a das m ãos, enquanto o reconhecia e sorria largam ente. Ela acenou-lhe com a m ão livre.

— Sr. Talley ! — gritou Gisele. — Com o está?

— Muito bem .

— Experim entou os banhos?

— Experim entei.

— Deve continuar a tom á-los, se quer ficar m elhor. — Ela piscou-lhe um olho. — Espero tornar a vê-lo em breve.

Gisele foi se j untar a seu grupo de peregrinos e Tikhanov afastou-se, deixando a gruta para trás o m ais depressa possível. Não houvera qualquer indicação de que ela tirara a sua fotografia. Retirando-se, Tikhanov tentou recordar todas as palavras que ela dissera. Isso m esm o, não houvera qualquer indicação. Gisele sim plesm ente ficara surpresa e satisfeita ao vê-lo, m ais nada.

Ele estava reagindo com o o pior tipo de paranóico.

Ela não vira. Ninguém vira.

Ele estava seguro.

E ficaria curado.

Reggie Moore vestira a sua m elhor roupa, um terno azul de listras brancas bem finas, com o colete que usara pela últim a vez no j antar em Londres com em orando a sua sociedade com Jean-Claude Jam et. Naquela noite, Reggie lem brou à esposa, exuberante, que haveria um a com em oração ainda m aior, a realidade da sociedade que os tornaria ricos, a inauguração oficial do restaurante reform ado e am pliado em Lourdes. Antes de deixar Londres, Edith pusera na m ala o seu vestido m ais caro, o de cetim púrpura com bolinhas, que tirou agora do arm ário e vestiu.

Saíram do hotel e subiram três quarteirões pela Avenue Bernadette Soubirous. Apesar da noite am ena, a avenida estava m enos apinhada àquela hora. Eram sete horas da noite e a m aioria dos peregrinos e turistas j antava, antes de com parecer à procissão noturna no dom ínio.

E passavam cinco m inutos das sete horas quando Reggie fez Edith parar e apontou para um restaurante na esquina, no outro lado da rua, dizendo:

— Lá está, am or, nosso pote de ouro na extrem idade do arco-íris.

Edith observou atentam ente o restaurante, recém -pintado de azul-escuro e laranj a. Dem onstrou prazer, porque Reggie estava tão orgulhoso e satisfeito, com entando:

— Parece três estrelas.

— E é m esm o — garantiu Reggie, puxando-lhe o braço e com eçando a atravessar a rua. — Depois que a sociedade foi fechada, Jean-Claude não dispunha de m uito tem po para renovar. Mas j á estava com os planos prontos. Assim , com a m inha aprovação, ele pintou tudo por fora, fez um a decoração m oderna por dentro, acrescentou o bar e m ais um salão de j antar. Abriu no dia em que chegam os a Lourdes e o m ovim ento tem sido espetacular desde então.

— Fico m uito contente, Reggie.

— Mas esta noite será a inauguração oficial. Daqui por diante, haverá um preço fixo e um cardápio especial.

— E as pessoas pagarão?

Reggie sorriu da tam anha ingenuidade de Edith.

— Terão o m aior prazer em pagar qualquer coisa, por diversos m otivos. Um , não se trata de um restaurante rotineiro, ligado a um hotel ordinário. Dois, é um dos poucos restaurantes de luxo independentes da cidade. Três, o m ais im portante, oferecem os um a coisa que ninguém m ais tem .

Ele a estava guiando na direção do restaurante e apontou para cim a.

— Dê um a olhada.

Edith levantou os olhos e avistou o cartaz de néon piscando sobre a entrada de vidro. O cartaz dizia:

RESTAURANTE DO MILAGRE DE MADAME MOORE.

Os olhos de Reggie estavam fixados na esposa, enquanto ela abria a boca, espantada.

— Mas o que... — Edith hesitou, aturdida. — Mas o que isso significa?

Reggie sorriu.

— Só há um a Edith Moore em Lourdes... e eu a tenho.

Edith estava hipnotizada pelo letreiro.

— Restaurante do Milagre de Madam e Moore — ela leu em voz alta, dom inada pela incredulidade.

— Isso não a deixa feliz?

— Eu... eu não sei, Reggie... Acho que m e sinto em baraçada. Ver m eu nom e assim ... Talvez não sej a apropriado...

— Você m erece, tem esse direito. — Reggie puxou-a pára a porta. — Mas isso não é tudo. Espere só até ver o que tem lá dentro.

Passaram pela porta e Reggie ficou observando Edith, enquanto ela contem plava o interior. O salão era grande, em azul e laranj a, as paredes e reservados em azul, as m esas redondas cobertas por toalhas laranj a. Cada m esa era adornada com um a rosa, num fino vaso prateado, ilum inada por um a luz por cim a. O restaurante estava apinhado com a m ultidão transbordando para o bar além .

— E m aravilhoso — m urm urou Edith.

— E é nosso — declarou Reggie, com orgulho. — E agora deixe-m e m ostrar a grande surpresa.

Enquanto eles avançavam entre as m esas, foram interceptados por Jam et, que se adiantou apressadam ente. Seu sem blante gaulês exibia um sorriso largo.

— Sej a bem -vinda, Edith — disse ele, levantando-lhe a m ão inerte e beij ando-a. — Agora, a noite pode com eçar. Reggie e eu a levarem os à sua m esa.

Era a m aior m esa do restaurante, a única que ainda se encontrava vazia. Tinha um pequeno cartão branco, com letras douradas que diziam : Reservada Para Edith Moore, a Mulher do Milagre, e Seus Convidados.

— Oh, não... — balbuciou Edith, cobrirão a boca.

— Você m erece — declarou Reggie, enquanto levava Edith para sua cadeira, j untam ente com Jam et.

— Eu... eu m e sinto m uito em baraçada — protestou Edith, quase forçada a se sentar na cadeira. Ela correu os olhos pelas nove cadeiras vazias em torno da m esa. — E os convidados... com que convidados vam os j antar?

— Ora, com as pessoas que querem conhecê-la e ouvir a sua história m aravilhosa — inform ou Reggie, exultante. — Im prim im os volantes e distribuím os hoj e por toda Lourdes. Dezenas de visitantes telefonaram fazendo reservas, o suficiente para encher a m esa todas as noites da sem ana. Jean-Claude nunca viu nada parecido antes.

— Mas o que vai acontecer depois da próxim a segunda-feira, Reggie?

— O que tem a próxim a segunda-feira?

— Não estarei aqui. Já terem os voltado a Londres. Reggie hesitou por um instante.

— Eu... eu esperava poder persuadi-la a ficar por m ais um a sem ana.

— Mas tenho o m eu em prego. E m esm o que pudesse adiar a volta... quem você teria aqui depois da segunda sem ana?

Reggie engoliu em seco.

— Estávam os pensando num duble.

— Um o quê?

— Um substituto para você, alguém que direm os ser íntim o am igo seu e terá ensaiado direitinho a história de sua cura. Será um a m ulher, que poderá distribuir fotografias suas, autografadas, as pessoas se sentirão abençoadas.

Edith estava visivelm ente contrafeita.

— Oh, Reggie, isso parece horrível...

— Pode estar certa de que todos estarão recebendo aquilo por que pagaram , de qualquer m aneira — insistiu Reggie, em tom de urgência.

Ele se virou e estalou os dedos. Jam et levantou apressadam ente um cardápio, com o se fosse um a bandeira. Reggie pegou o sócio pelo braço.

— Jean-Claude, m inha esposa quer saber se nossos convidados receberão um a refeição equivalente ao dinheiro que pagarão. Conte a ela.

— Um banquete, um autêntico banquete de paxá — garantiu Jam et, abrindo o cardápio, disposto a ler em voz alta. — Este é um j antar de luxo para esta m esa... e som ente para esta m esa.

Ele passou a ler o cardápio:

— Melon Rafraichi et Jambon Cru du Pays. Segue-se Aiguilletles de Canard Persillées. Depois, Fromage des Pyrénées. Com o sobrem esa, Profiterole au Chocolat. E, finalm ente, Cozbeille des Fruits.

Edith estendeu a m ão.

— Deixe-m e ver o cardápio.

Jam et olhou para Reggie, depois deu de om bros e entregou-o. Edith exam inou-o e depois levantou os olhos, com um a expressão de desaprovação.

— O que estão cobrando por isso... não posso acreditar. E ainda por cim a o enorm e couvert...

— Mas há um a atração especial nesta m esa — declarou Jam et. — E todos estão dispostos a pagar por isso. E agora, com licença... tenho de cham ar os convidados, que estão esperando.

Edith olhava furiosa para Reggie.

— Não vou adm itir isso, Reggie. Não posso concordar. É dem ais usar as pessoas assim , nesta exploração descarada.

.Reggie deixou transparecer a sua exasperação.

— Pelo am or de Deus, Edith, você estará aj udando as pessoas que precisam , que querem ser inspiradas por seu caso.

— Aj udar as pessoas é um a coisa im portante. Mas deve ser feita de graça e não obrigando-as a pagar tanto dinheiro. — Ela sacudiu o cardápio. — Isto avilta a m aravilha que m e aconteceu. Não acredito que o Senhor possa gostar.

— Ele vai gostar de um a esposa que tenta aj udar o m arido — protestou Reggie, desesperado. Ele desviou os olhos. — Discutirem os isso m ais tarde. Jean-Claude está trazendo os convidados. Sej a gentil com eles, Edith. Conte a sua história. Responda às perguntas.

Jam et j á estava sentando os convidados e apresentando-os a Edith e Reggie, enquanto se instalavam . Jam et fazia as apresentações suavem ente:

— Sr. Sam uel Talley, de Nova York, a quem eu soube que a Sra. Moore j á conheceu... Srta. Natale Rinaldi, de Rom a, e Sr. Mikel Hurtado, de Madri. É de Madri, não é m esm o?... Sr. e Sra. Pascal, de Bordéus... Sra. Farrell e seu filho Jim m y , de Toronto.

Jam et deslocou-se para trás de Jim m y, um garoto de nove anos, num a cadeira de rodas.

— Deixe-m e afastar a outra cadeira e aj eitá-lo direito na m esa, Jim m y. Voilà. E o outro convidado, ao lado do Sr. Moore, que tanto ele com o a Sra. Moore conhecem há cinco anos, é o Dr. Berry er, o em inente diretor do Serviço Médico de Lourdes. Agora que j á estão apresentados, peço que m e dêem licença, pois tenho de atender às outras m esas.

Houve um vazio contrafeito depois que Jam et se afastou, m as o Dr. Barry er logo preencheu-o:

— Com o tem passado, Edith? Devo dizer que parece m elhor do que nunca.

— Estou bem , obrigada, Dr. Berry er — m urm urou Edith, um tanto m al-hum orada.

— Ela está m elhor do que apenas bem — trovej ou Reggie. — Está sensacional.

— O dia m em orável será depois de am anhã — inform ou o Dr. Berry er. — O especialista de Paris, Dr. Kleinberg, chegará a Lourdes am anhã de noite. Você vai se encontrar com ele na m anhã de quarta-feira. Mas telefonarei antes para confirm ar a hora.

— Obrigada — disse Edith.

O Dr. Berry er virou-se para o hom em ao seu lado.

— Já sei que é o Sr. Talley, de Nova York. Nós nos encontram os em seu hotel. Indiquei-lhe o cam inho para os banhos. Encontrou-os?

— Tom ei um banho — respondeu Tikhanov, um pouco contrariado. — Achei que o processo é m uito desconfortável.

Edith não foi capaz de se conter m ais e apressou-se em intervir:

— Não é necessário que se sinta confortável, Sr. Talley. Em term os ideais, deveria vir aqui para fazer penitência. Em 1858, quando Bernadette recebeu a oitava visitação da Virgem Maria, a Virgem lhe disse. "Vá e beij e o chão com o penitência para os pecadores." Deve encarar o desconforto dos banhos com o um a penitência, Sr. Talley .

Tikhanov acenou com a cabeça, solenem ente.

— Foi m uito gentil com igo durante o alm oço. E vim a este j antar para receber um reforço adicional. É o que acaba de m e acontecer. Voltarei aos banhos am anhã.

Natale falou a esta altura:

— Sra. Moore, deixe-m e dizer por que estou aqui. Deve saber, é claro, qual o m eu problem a.

— Sei, sim , Srta. Rinaldi.

— Quando voltei da gruta ao final desta tarde — disse Natale, — m inha am iga e aj udante, Rosa Zennaro, acom panhou-m e ao quarto do hotel. Mas teve de se retirar antes do j antar. Quando ela ia em bora, um vizinho no hotel que foi m uito bom para m im ... o Sr. Hurtado, que está sentado ao m eu lado... entrava em seu quarto, ouviu Rosa e se ofereceu para m e trazer ao j antar. Ele encontrou por baixo da m inha porta o volante sobre o j antar neste restaurante e a oportunidade de conhecê-la, Sra. Moore. Fiquei tão entusiasm ada com a perspectiva que o Sr. Hurtado se ofereceu para m e trazer até aqui.

Hurtado deu" de om bros.

— Além disso, eu estava com fom e.

Natale riu e voltou a falar, virada na direção de Edith:

— O que desej o lhe falar é o seguinte, Sra. Moore. Devotei todo o m eu tem po aqui a rezar na gruta. Não fui aos banhos, porque achei que seria difícil.

— Há m ulheres para aj udá-la — inform ou Edith, logo acrescentando, com com paixão: — Deve tentar os banhos.

— Vim fazer a seguinte pergunta: os banhos constituem o m eio m ais im portante de se alcançar um a cura?

— Não se pode responder a essa pergunta com exatidão — disse Edith. — Falando apenas do m eu caso, fiquei instantaneam ente curada depois de m e banhar na água da fonte. Mas outras pessoas ficaram m ilagrosam ente curadas depois de rezar na gruta, beber a água ou m archar na procissão. Mas o Dr. Berry er é a grande autoridade nas curas.

O Dr. Berry er inclinou a cabeça na direção de Natale.

— Você pode até ficar curada depois que deixar Lourdes e voltar para casa. Já aconteceu assim . Não há regras, não há fórm ulas, nunca se sabe com o e quando a cura acontecerá... se é que acontece.

— Então pode acontecer depois de qualquer ato de profissão de fé — com entou Natale.

— Aparentem ente — disse o Dr. Berry er. — Quando cheguei a Lourdes, fiz um estudo de todas as 64 curas de 1858 a 1878 reconhecidas com o m ilagrosas pela Igrej a. Talvez se interesse em saber, Srta. Rinaldi, que a segunda cura autenticada com o m ilagrosa foi de um hom em de 54 anos afligido com o você, pelo m enos parcialm ente. Louis Bouriette, desta cidade, sofrerá um ferim ento no olho 20 anos antes e há dois anos se achava com pletam ente cego do olho direito. Sua visão foi restaurada na gruta.

— A cura aconteceu m esm o? — indagou Natale, ansiosam ente.

— Claro que aconteceu, desafiando todas as explicações m édicas —-afirm ou o Dr. Berry er. — Todas as 64 curas m ilagrosas que estudei desafiavam a m edicina... um a j ovem com um a perna ulcerada e gangrena am pla, um a freira sofrendo de tuberculose pulm onar, um a m ulher com câncer no colo do útero, um italiano com a doença de Hodgkins, um rapaz italiano com sarcom a na pelve, assim com o acontecia com Edith Moore... todos considerados casos perdidos para os m édicos, m as curados por causa do santuário e por m eios m ilagrosos. É verdade que a m aioria desses m ilagres ocorreu depois dos banhos. Mas a cura m ilagrosa autenticada de núm ero 58, a de Alice Couteault, assim com o a cura 59, de Marie Bigot, ocorreram durante Procissões do Abençoado Sacram ento* Houve tam bém casos, entre as prim eiras 64 curas, depois de orações na gruta. Ainda estou estudando diversas curas que ocorreram desde então. Pelo m enos um a dessas curas, ao que m e recordo, aconteceu no m eio de um a oração na gruta. Seria m elhor que tentasse tudo o que estiver disponível, Srta. Rinaldi, não apenas rezando na gruta, m as bebendo as águas, visitando os banhos e até participando das procissões, se lhe for possível.

— Mas não pode deixar de tentar os banhos — insistiu Edith. Do outro lado da m esa, a pálida m ãe canadense, Sra. Farrell,

falou pela prim eira vez:

— Disse que ficou curada depois de um banho.

— Exatam ente — confirm ou Edith.

— Seria um a profunda revelação para nós, m eu filho e eu, se contasse com o o m ilagre aconteceu.

— Vam os, Edith, conte a essa gente com o foi — exortou Reggie. — Tenho certeza de que todos estão interessados em saber.

Edith lançou-lhe um olhar furioso, depois virou-se para os outros, assum indo um a transform ação com o se fosse um a atriz, presenteando-os com um sorriso cativante e ignorando a com ida servida, enquanto se punha pacientem ente a fazer o relato tantas vezes repetido.

Enquanto os convidados perm aneciam m esm erizados, som ente o Dr. Berry er balançando constantem ente a cabeça em confirm ação, Edith falou do ataque gradativo da doença, os exam es interm ináveis em Londres, o veredicto final de que sofria de um sarcom a. E depois, quando toda a esperança parecia perdida, seu padre paroquial, Padre Woodcourt, sugerira um a visita a Lourdes com seu grupo de peregrinos.

Escutando atentam ente a história fam iliar, Reggie tentou avaliar a disposição da esposa pelo tom . Tão consciente ele estava de cada nuança no seu j eito de falar que sabia, em bora os outros pudessem se iludir, que Edith se esforçava para m anter o controle e aparentar calm a. Por baixo, fervilhava um a lava de desprazer com ele que poderia irrom per a qualquer m om ento. Enquanto fingia prestar toda atenção, Reggie deu um a espiada no bar, seus olhos se encontrando com os de Jam et. Reggie acenou com a cabeça, m isteriosam ente. Jam et, com o se com preendendo, acenou com a cabeça em resposta, desaparecendo em seguida.

Reggie parecia absorver cada palavra que a esposa dizia, m as pelo canto dos olhos procurava por outra coisa. E depois Jam et reapareceu, conduzindo um clérigo na direção da m esa, m antendo-se por trás de Edith.

O clérigo, alto e im ponente, colarinho clerical e terno escuro, sentou-se sem fazer barulho num a cadeira que Jam et aj eitara por trás de Edith. Ele inclinou a cabeça, a fim de ouvir m elhor o que Edith contava aos outros.

Os pratos eram servidos e tirados, enquanto a história de Edith progredia para a sua segunda visita a Lourdes, ao últim o dia dessa visita e ao banho final, quando em ergira não m ais inválida, totalm ente curada e livre da m uleta, capaz de andar perfeitam ente sem qualquer aj uda.

Reggie observou e ficou satisfeito com a reação da audiência da prim eira noite ao desem penho de estreia de Edith. O am ericano Talley grunhia de prazer, o rosto angelical da m oça cega italiana refletia felicidade, a m ãe canadense e o casal francês se m ostravam deliciados com o m ilagre. O que se seguia no relato de Edith, Reggie sabia, era a confirm ação da cura pelos m uitos m édicos no Serviço Médico de Lourdes, um anticlím ax, m as tam bém um adoçante m ais saboroso do que os profiteroles que todos acabavam de com er.

Depois, tudo estava term inado, o j antar e o m ilagre de Edith. Os adultos se levantavam , agradecendo profusam ente, todos inspirados e agradecidos. Ao partirem apressadam ente para o dom ínio e a procissão noturna, todos levavam o otim ism o revigorado de que tam bém poderiam ser salvos no im portante Mom ento da Reaparição.

Quando o últim o dos convidados desapareceu, Edith e Reggie ficaram a sós na m esa enorm e. Im ediatam ente, Edith virou-se para o m arido, o rosto afável contraído num a expressão de raiva.

— Está satisfeito agora?

Reggie não respondeu diretam ente. Em vez disso, tocou no om bro da esposa e m urm urou:

— Edith, há m ais um convidado que queria ouvi-la. Olhe para trás.

Aturdida, Edith virou-se na cadeira e viu o padre se levantando.

— Padre Ruland — m urm urou Edith.

Reggie ficou radiante, observando outra e esperada transform ação no rosto da esposa. Toda a sua expressão se abrandara. Reggie sabia que o Padre Ruland, o m ais intelectual e urbano m em bro do clero católico de Lourdes, era um dos favoritos de Edith.

— É um prazer tê-la de volta com plena saúde, Sra. Moore — disse o Padre Ruland, à sua m aneira cortês, inclinando a cabeça, em cum prim ento, sem deslocar um a só m echa dos com pridos cabelos cor de areia. — Perdoe-m e por ter ficado ouvindo sem que soubesse da m inha presença. Mas nunca havia escutado antes a sua história relatada a outros e não queria perder essa oportunidade. Perguntou a seu m arido se estava satisfeito. Tenho certeza de que ele está e posso garantir que tam bém estou. Foi inspirador, tanto para m im com o para todos os dem ais presentes. E tenho de agradecer por partilhar a sua história conosco.

Se um a pessoa podia se derreter num a poça, foi j ustam ente o que aconteceu com Edith. Toda a raiva se dissipara. O sem blante refletia apenas a m ais pura alegria.

— Está sendo m uito generoso, Padre Ruland. Vindo de sua parte, isso significa m uito para m im .

— Você ganhou e m erece qualquer coisa que nós, hum ildes representantes da igrej a, possam os lhe oferecer — declarou o Padre Ruland, suavem ente. — Foi abençoada pela Virgem Santa e todos nós, por seu interm édio, estam os secundariam ente abençoados. Quero lhe dar os parabéns pela confirm ação de sua cura m ilagrosa, que ocorrerá esta sem ana. Rezo para que a Virgem Maria possa considerá-la com o a pessoa a quem se apresentará.

— Eu tam bém rezo para que isso aconteça — m urm urou Edith, fervorosam ente.

— E quero tam bém lhe agradecer — continuou o Padre Ruland — em nom e de toda a nossa ordem , por renunciar à sua privacidade e cooperar com o seu m arido e o Sr. Jam et, falando ao grande núm ero de peregrinos que desej am com partilhar a sua m esa ao j antar a cada noite. E espero que não se torne um a provação m uito grande.

— É um a honra e um prazer, Padre Ruland — balbuciou Edith, em ocionada. — Se eu pudesse ter certeza de que m ereço todo esse m ovim ento e atenção...

— Posso lhe garantir que m erece tudo isso e m uito m ais, Sra. Moore.

— Oh, obrigada... m uito obrigada... Reggie levantou-se.

— Deixe-m e acom panhá-lo até a porta, padre. — Ele olhou, para trás e acrescentou: — Voltarei num instante, Edith.

— Ficarei esperando, querido — disse Edith, docem ente. Reggie acom panhou o Padre Ruland através do restaurante, até a porta. Falando baixo, Reggie disse:

— Padre, sabe o quanto Jean-Claude e eu estam os agradecidos pelo que fez. Tem a nossa gratidão eterna. — Com um toque de j ovialidade, ele acrescentou: — Com o j á falam os, todos os seus j antares, daqui por diante, serão por conta da casa. — Um a pausa e Reggie continuou, solene outra vez: -— Padre, salvou-m e a pele. Talvez eu possa fazer algo para retribuir algum dia.

— É possível.

Reggie estendeu a m ão para apertar a do padre.

— Mais um a vez, m eus agradecim entos. Serviu a um a boa causa.

O Padre Ruland sorriu.

— É a nossa causa com um . E ele saiu.

Muito depois do j antar, quando j á deixara Natale em seu quarto e se recolhera ao que ocupava, Mikel Hurtado preparou-se para retornar à área da gruta.

Faltavam alguns m inutos para a m eia-noite quando ele term inou de arrum ar as bananas de dinam ite, os fios, detonador e outros equipam entos num a sacola de com pras. Já escolhera os locais por cim a da gruta e só restava agora colocar a dinam ite e o detonador na escuridão e sossego da noite. O santuário estaria vazio de peregrinos e turistas, todos dorm indo. O esquem a de segurança, com o j á verificara, era praticam ente inexistente.

Seria m uito sim ples. Colocaria os explosivos. Arm aria o relógio para a detonação. Levaria a sua única m ala para o Peugeot que alugara sob um nom e falso, usando o passaporte e a carteira de m otorista de seu colega basco francês. Estaria a m uitos quilôm etros da cidade e absolutam ente livre quando a gruta explodisse.

Adeus, gruta. Adeus, Virgem Maria. Lam ento m uito, m eus bons crentes, m as havia um a causa m ais im portante para a gruta servir... um a causa que apresentava o adeus à escravidão dos bascos, sob o j ugo da Espanha.

A sacola de com pras pronta, Hurtado saiu para o corredor, passou pela porta de Natale, pensando nela por um instante, em sua sim patia e beleza deslum brante (era um a pena que não pudesse vê-la outra vez), e encam inhou-se para o elevador.

Desceu para o saguão, a sacola de com pras com prim ida no lado de seu quadril, deixou o hotel. A Avenue Bernadette Soubirous se encontrava absolutam ente deserta. Foi descendo, chegou à esquina do Boulevard de Ia Grotte. E ali, prestes a atravessar a ram pa que descia para a gruta, estacou abruptam ente.

No outro lado, na extrem idade da ram pa, havia vida. Alguns guardas da polícia de Lourdes, em seus uniform es azuis, estavam reunidos ao lado de dois carros de patrulha, pintados de branco e verm elho, duas cam inhonetes com luzes azuis piscando por cim a.

Olhando para a esquerda, Hurtado percebeu que o café, Le Roy al, ainda se encontrava aberto, as m esas vazias. Mas, aparentem ente, estava próxim o do horário de fechar. Hurtado pensou por um m om ento em ir até o café e ocupar um a das m esas, pedindo algum a coisa. Mas vetou a ideia prontam ente, pois cham aria m uita atenção um solitário com um a sacola.

Se a polícia o visse a observar da esquina, poderia se tornar curiosa. Ficar ali tam bém poderia atrair atenção dem ais.

Consternado, Hurtado virou-se e com eçou a subir a avenida, na direção das loj as às escuras. Tinha certeza de que a concentração policial se dissolveria dentro de pouco tem po e poderia seguir em segurança para a Esplanada do Rosário e a gruta, a fim de executar o que planej ara durante toda a noite.

Hurtado ficou andando devagar por 15 m inutos, finalm ente se virou e levou outros 15 m inutos para retornar à esquina. Aquela m eia hora seria suficiente para que a área se esvaziasse de guardas, deixando-lhe o cam inho livre.

Mas ficou outra vez surpreso assim que chegou à esquina. A polícia não se dispersara. Ao contrário, o núm ero de guardas aum entara. Havia agora 10 hom ens em uniform es azuis na extrem idade da ram pa. E um deles, um oficial corpulento, com um m apa na m ão, parecia estar falando aos outros.

Hurtado recuou, ficando inteiram ente fora de vista. Concluiu que seria insensato continuar por ali, ser visto sozinho àquela hora, provavelm ente interrogado.

Tentou pensar no m otivo para a presença da polícia ali. Lem brou-se de ter ouvido com entários, durante a tarde, em algum a loj a, de que Lourdes fora invadida por punguistas, assaltantes e prostitutas de outras cidades, especialm ente de Marselha.

Não era de adm irar que a polícia se reunisse, enquanto estava tudo sossegado, a fim de planej ar a estratégia de repressão.

Hurtado virou-se m ais um a vez e voltou para o Hotel Gallia & Londres.

Não havia alternativa que não descansar m ais um a noite e esperar pelo dia seguinte. Faria tudo na noite seguinte. Iria se m isturar com a m assa de hum anidade a descer para o dom ínio durante o dia, se esgueiraria para a vegetação por cim a da gruta e esconderia a sacola. E voltaria à noite, naquela m esm a hora, arm ando o detonador.

Que diabo, a Virgem Maria bem que m erecia m ais um dia de sossego.