O Milagre

Irving Wallace · Capítulo 5 de 16

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O Milagre

Capítulo 4

Lourdes

Liz Finch cam inhava devagar pela sinuosa Avenue Bernadette Soubirous, que presum ia ser um a das artérias principais de Lourdes. Estava im pressionada com o que via. Tentou pensar nas ruas m ais espalhafatosas e vulgares que j á conhecera. E várias lhe surgiram à m ente de im ediato.

A Rua 42, em Nova York, Holly wood Boulevard, em Los Angeles, as ruas que levavam ao local do nascim ento de Jesus em Belém . Eram bastante vulgares, Mas em com ercialism o crasso, em com ercialism o da pior espécie, em vulgaridade rem atada, aquela rua em Lourdes superava a todas as dem ais.

Ela recordou, do trabalho preparatório que fizera em Paris, o que Joris Karl Hay srrians, o rom ancista católico francês, escrevera ao ver Lourdes. Tirou as anotações da bolsa e encontrou a citação de Hay sm ans: "A feiúra de tudo o que se vê por aqui term ina se tornando antinatural, pois cai além dos padrões m ais baixos conhecidos. .. Há em Lourdes um a tal pletora de ignóbil e m au gosto que não se pode escapar à ideia de um a intervenção do Mais Ignóbil".

Am ém , irm ão, pensou Liz, enquanto continuava a andar com pletam ente atordoada.

Liz Finch deliberadam ente chegara a Lourdes um dia antes, naquela quente tarde de sábado, 13 de agosto, antes que as m ultidões adicionais de peregrinos com eçassem a se despej ar sobre a cidade, no dia seguinte, o com eço do am plam ente divulgado Mom ento do Sagrado Reaparecim ento. Em suas m issões em cidades desconhecidas, Liz Finch sem pre procurava chegar 24 horas antes da ocasião, a fim de sentir a com unidade, obter algum as inform ações, definir um plano para o que tinha de fazer.

Fora um a viagem de 11 quilôm etros do aeroporto a Lourdes, A paisagem não era grande coisa, exceto pelos vinhedos e m ilharais, as colheitas habituais dos exuberantes cartazes franceses, e alguns bares à beira da estrada, com inesperados nom es religiosos.

A im pressão im ediata de Lourdes fora a m ediocridade, as incontáveis loj as, lanchonetes, hotéis concentrados num a estreita rua transversal, que descia sinuosa para a beira de um rio. Ela teve de se lem brar que era na verdade um a cidade pequena de 20 m il habitantes, m as acom odando cinco m ilhões de turistas anualm ente em seus 402 hotéis e num erosos acam pam entos nos arredores.

Subitam ente, ela se descobrira diante de seu hotel, identificado num a m arquise de m árm ore com o HOTEL GALLIA & LONDRES, a fachada se proj etando para a calçada de um a rua m ovim entada. Liz acom panhara o m otorista do táxi, que carregava as suas duas m alas, entre as colunas, através de um a entrada escura, flanqueada por loj as de souvenirs, indo parar num saguão am plo, bastante ilum inado. Depois de pagar ao m otorista, ela se dirigira à m oça loura e gorda que esperava por trás do balcão da recepção, revestido de m adeira, registrando-se.

Liz não se preocupara em acom panhar as m alas até o quarto ou inspecionar o próprio quarto; com o quer que fosse, teria de servir, pois nos oito dias subsequentes Lourdes receberia um a das m aiores m ultidões de peregrinos e turistas de sua história.

Ela queria dar um a volta pela rua espalhafatosa que vira do táxi. Fora inform ada de que, para ter um a visão global da cidade, deveria virar à esquerda ao sair do hotel, percorrer toda a extensão da Avenue Bernadette Soubirous e depois subir pela Rue de Ia Grotte. Era a artéria principal.

E agora há 10 m inutos que ela subia obstinadam ente um a ladeira, achando tudo um horror. Talvez, para as pessoas de devoção, para as pessoas que procuravam lem branças de Lourdes a fim de levar para casa, fosse prom issor e atraente. Mas para alguém com um olhar frio, obj etivo e sofisticado, com o Liz Finch, era um horror.

Lado a lado, inexoravelm ente, sem qualquer interrupção, os dois lados da rua estreita estavam ocupados por entradas de hotéis, bares, pequenos restaurantes e loj as de souvenirs. Os hotéis, alguns anunciando garagem , iam do Grand Hotel de Ia Grotte ao Hotel du Louvre. Os cafés ao ar livre, com suas inevitáveis im agens brancas da Virgem Maria em nichos por cim a das entradas e cadeiras de vim e coloridas na calçada, tinham nom es com o Café Jeanne d'Are, Café au Roi Albert, Café le Carrefour, oferecendo, em quatro ou cinco línguas, refeições rápidas na base de cachorro-quente, pizza, bife, batata frita, croque-monsieurs, bolos, sorvetes, Coca-Cola, cervej a. Os restaurantes, geralm ente localizados por baixo de hotéis, exibiam cartazes de preço fixo no exterior.

Mas o que deixou Liz Finch tonta foram as interm ináveis loj as de souvenirs, fachadas abertas, vitrinas se proj etando pelas calçadas, m uitos m ostruários nos interiores escuros. Liz parou em várias — Confrérie de Ia Grotte, À Ia Croix du Pardon, Saint-Francis, Magasin de Ia Chapelle — exam inando os artigos oferecidos. Quase tudo explorava os acontecim entos históricos em Lourdes... garrafas de plástico em todos os tam anhos, m uitos no m olde da im agem da Virgem Maria, contendo a água curativa; escudos quadrados de papelão com velas com pridas no m eio; pequenas frigideiras de cobre decoradas com retratos de Bernadette; pequenas grutas de im itação ilum inadas por pilhas; rosários e crucifixos de todos os tipos; placas com hom ilias religiosas; cartazes, bolsas e carteiras de couro, todos reproduzindo a Virgem Maria ou Bernadette; e pior de tudo, balas brancas (cham adas "Pastilles Malespine"), com pequenas im agens da Virgem no centro e com a garantia de serem fabricadas com a água da fonte.

Era realm ente chocante a vulgaridade de tudo, pensou Liz Finch, nenhum evento m aravilhoso poderia redim ir aquele espetáculo m esquinho, de suprem o m au gosto.

Com determ inação, Liz seguiu em frente. O único alívio das loj as de souvenirs e lugares para se com er era um a perfum aria ocasional, um a livraria católica, o m useu de cera com seu alto-falante a apregoar que réplicas de cenas da vida não apenas de Bernadette m as tam bém de Jesus se encontravam em exposição lá dentro.

Liz percorreu m ais um a curta distância, cansou da cena repetitiva, disse finalm ente a si m esm a que tudo aquilo devia ser o m ero subproduto da área do m ilagre, era m elhor seguir logo para essa área essencial que tornara Lourdes m undialm ente fam osa.

Ela entrou num a loj a, acuou um rapaz atraente m as m al-hum orado, que parecia italiano, perguntou com o poderia chegar ao serviço de im prensa de Lourdes. Ele fingiu não com preender a princípio e acabou dizendo, em francês:

— Bureau de Presse des Sanctuaires? — O rapaz apontou na direção de onde Liz vinha e acrescentou em inglês: — Desça a ladeira até o Boulevard de Ia Grotte e vire à direita. Encontrará um prédio m oderno, com m uito vidro, um pouco afastado.

Atordoada, Liz voltou ao final da rua. À esquerda, podia avistar a parte superior de um a igrej a gigantesca, que parecia se erguer sobre um a área coberta por árvores enorm es.

Ignorando a igrej a, ela foi avançando pela m ultidão, que se tornava m ais densa a cada m inuto. O que a surpreendia era o fato de quase não encontrar inválidos. Havia uns poucos, é claro, pessoas m ais velhas, acom odadas em charretes em m iniatura, com capotas corrediças e um cabo com prido na frente, com o j inriquixás, puxados por atendentes. A m aioria dos visitantes parecia saudável e curiosa. Não havia apenas franceses, m as pessoas de todas as nacionalidades e cores, principalm ente peregrinos, m as tam bém alguns turistas, uns poucos atléticos e j ovens, de cam isas de m alha e shorts brancos. A invasão dos inválidos, concluiu Liz, aum entaria no dia seguinte, quando com eçaria a grande sem ana.

Com a aj uda de um gendarm e de Lourdes, de blusão azul, que estava dirigindo o tráfego, Liz descobriu para onde devia ir.

Levou quase 15 m inutos, m as ela finalm ente alcançou o seu destino. Lá estava o m oderno prédio de fachada de vidro, abaixo do nível da rua e separado por um a grade de ferro. No andar térreo, um hom em por trás de um a m esa inform ou a Liz onde ficava o serviço de im prensa, no segundo andar. Ao chegar lá e entrar, Liz ficou surpresa com as dim ensões lim itadas da sala de recepção, quase vazia. Havia apenas um a m esa m odesta, por trás da qual sentava-se um a m ulher m ais velha. A m ulher prontam ente introduziu Liz num a das duas salas que davam para a recepção. Ela encontrou ali, a um a escrivaninha pequena, um a m ulher m ais j ovem , falando com duas pessoas, presum ivelm ente j ornalistas, sentadas em cadeiras sim ples, um a delas em francês, a outra em alem ão.

Pacientem ente, Liz esperou sua vez. Sentou-se assim que um a cadeira ficou vaga. A loura alta, de feições angulosas, por trás da m esa, estava na casa dos 30 anos, era obviam ente francesa e parecia ansiosa em ser prestativa.

— Sou Elizabeth Finch, do escritório em Paris da agência noticiosa am ericana Am algam ated Press International, API — disse Liz, form alm ente. —Fui destacada para cobrir os acontecim entos em Lourdes durante a próxim a sem ana e acabei de chegar.

A loura estendeu a m ão.

— Sou Michelle Dem alliot, a prim eira assessora de im prensa. Sej a bem -vinda. Deixe-m e verificar se seu nom e consta da relação dos credenciados.

— Talvez m eu nom e tenha sido registrado com o Liz Finch, que é com o assino m inhas m atérias.

Michelle estava inspecionando um m aço de papéis. O polegar direito finalm ente parou no m eio de um a página.

Voilà, aqui está. Liz Finch, da API. Plenam ente credenciada. Ficará no Hotel Gallia & Londres?

— Isso m esm o.

Michelle levantou-se e foi até um a estante, cobrindo um a das paredes do atravancado escritório.

— Vou lhe entregar as credenciais, um kit de m aterial sobre Lourdes e um m apa para aj udá-la a circular. Ou por acaso j á esteve aqui antes?

— Nunca. Esta é a prim eira vez. Estou ansiosa em com eçar a trabalhar antes que a cidade se torne ainda m ais apinhada. Quero conhecer os pontos de referência de Bernadette e a gruta, a fonte e todo o resto. Não sou m uito eficiente com m apas. Tem algum guia disponível para a im prensa?

Da estante, onde enchia um envelope pardo com folhetos, Michelle respondeu:

— Já que falou nisso, tem os, sim . Prom overem os cinco ou seis excursões para a im prensa, com excelentes guias, saindo daqui todas as m anhãs, a partir das 10 horas. Posso incluí-la num a das excursões para am anhã de m anhã.

— Não, obrigada. Eu preferia evitar os grupos de excursão, vendo as m esm as coisas que todos os outros. E preferia tam bém não esperar até am anhã de m anhã. Gostaria de com eçar a conhecer tudo o m ais depressa possível, im ediatam ente, enquanto ainda tem os claridade. O que eu gostaria m esm o era de ter um guia individual. É' claro que pagarei por isso.

Fechando o envelope, Michelle sacudiu a cabeça.

— Não creio que sej a possível, num prazo tão curto. A m aioria dos guias é contratada com pelos m enos um dia de antecedência. E preferem conduzir vários visitantes, ao invés de apenas um a pessoa. Im agino que é pelo fato de poderem assim ganhar m ais.

— Eu não m e incom odaria de pagar o equivalente a várias pessoas, m esm o havendo apenas eu.

Michelle deu de om bros.

— Ainda assim , receio que sej a im possível, num prazo tão curto. Posso telefonar para as agências, m as não prevêj o m uita possibilidade.

Ela com eçou a voltar para sua m esa, m as parou abruptam ente e virou-se para Liz.

— Acabei de m e lem brar de alguém , um a am iga m inha. Na m inha opinião, ela é a m elhor guia de Lourdes. E m e disse que ia term inar com seu últim o grupo grande esta tarde... — A assessora de im prensa olhou para o relógio. — ... m ais ou m enos a esta hora. Queria ir cedo para casa, a fim de descansar para a sem ana m ovim entada que terem os pela frente. Ela reside fora da cidade, em Tarbes, com os pais. Talvez, pelo dinheiro, ela concorde em m ostrar-lhe Lourdes durante um a hora. Você teria de pagar um pouco m ais. E, m esm o assim , nada posso garantir.

— Quanto representa esse pouco m ais? — perguntou Liz.

— Pelo m enos cem francos por hora.

Um a quantia insignificante, pensou Liz, para alguém que viaj ava com todas as despesas pagas. Ela podia ser generosa só para ter certeza.

— Diga a ela que pagarei 150 francos por hora. Michelle ficou im pressionada, prontam ente pegou o telefone e discou. Depois de um a breve espera, alguém no outro lado da linha atendeu.

— Gabrielle? — disse a assessora de im prensa. — Aqui é Michelle Dem alliot, do Serviço de Im prensa dos Santuários. Estou querendo falar com Gisele... Gisele Dupree. Ela m e disse que voltaria de sua últim a excursão de hoj e m ais ou m enos... Com o? Ela j á voltou? Ótim o. Pode cham á-la? — Michelle pôs a m ão sobre o bocal e inform ou a Liz: — Até aqui, tudo bem . Vam os ver agora se ela aceita.

Liz inclinou-se para a frente.

— Não se esqueça de dizer a ela que pagarei 150 francos por hora e que provavelm ente não precisarei m ais do que um a hora hoj e.

Michelle assentiu e voltou a falar ao telefone:

— Gisele? Com o vai? Aqui é Michelle de novo... Está cansada? Todo m undo está. Mas este é um caso especial. Está aqui com igo um a proem inente j ornalista am ericana que veio de Paris, cham ada Liz Finch. Ela acaba de chegar a Lourdes. Não quer sair com as nossas excursões norm ais para a im prensa. Prefere ter a sua própria guia para m ostrar-lhe a cidade, visitar os locais históricos, a gruta. Pode valer a pena. — Um a pausa. — Ela paga 150 francos por hora. — Outra pausa. — Obrigada, Gisele. Direi a ela.

Michelle desligou e virou-se para Liz.

— Está com sorte, Srta. Finch. Gisele pediu que a esperasse aqui. Ela virá buscá-la dentro de 15 m inutos.

— Ótim o.

— Foi um prazer aj udar. Enquanto espera, talvez queira conhecer a nossa m ais nova instalação, um a barraca para a im prensa arm ada lá fora,,especialm ente para atender ao fluxo de j ornalistas que com eçará am anhã. Há m esas com m áquinas de escrever elétricas, um a bateria de telefones para ligações internacionais, m aterial de escritório, café, refrescos. Pode usar qualquer coisa que desej ar, a qualquer m om ento, quando houver espaço disponível.

— Obrigada. Darei um a olhada am anhã. Quero m e concentrar em um a coisa de cada vez. E quero saber tudo sobre Bernadette e Lourdes antes de cuidar de qualquer outra coisa. Espero que a sua am iga, essa guia...

— Madem oiselle Gisele Dupree.

— Isso m esm o. Espero que ela possa m e aj udar.

A assessora de im prensa sorriu tranquilizadoram ente.

— Posso lhe garantir, Srta. Finch, que ela lhe dirá m uito m ais, do que precisará saber.

Elas estavam na prim eira etapa da excursão a pé, acom panhando os passos de Bernadette, a cam inho do cachot em que a fam ília Soubirous vivia na m iséria quando a santa tinha 14 anos e vira a prim eira aparição da Virgem Maria na gruta.

Seguiam lado a lado e Liz m antinha os olhos fixados na j ovem guia, fingindo escutar atentam ente o que ela dizia, m as na verdade estudando-a. Ao serem apresentadas no serviço de im prensa, 20 m inutos antes, Liz sentira um a antipatia instantânea, porque à prim eira im pressão a guia lhe lem brara Marguerite Lam arche, sua rival na API. Gisele Dupree era bonita e sensual, à m aneira especial francesa, possuindo a beleza e sensualidade globais que Marguerite sem pre ostentara. A guia fizera com que Liz se sentisse im ediatam ente feia e desaj eitada, m ais um a vez consciente dos seus desgrenhados cabelos cor de cenoura, nariz pontudo, lábios finos, queixo pequeno, seios caídos, quadris enorm es, pernas arqueadas. No m undo da fem inilidade, Gisele era m ais um a inim iga.

Mas agora, depois de andar em sua com panhia, estudando-a m ais atentam ente, Liz com preendia que, a não ser pela perfeição global, Gisele não era absolutam ente com o Marguerite. Sua rival na API era esguia e distante. Gisele era com pletam ente diferente. Não era com o um a típica m odelo da alta m oda francesa. Ao contrário, era a típica gamine francesa. Gisele era pequena, talvez com l,60m de altura, cabelos claros, cor de trigo, presos atrás num rabo-de-cavalo. O rosto era franco, com penetrado. Um par de óculos de aros brancos, em form ato de coração, lentes escuras, apoiava-se no nariz pequeno, bem baixo. Por cim a, havia olhos verdes-cinzas, por baixo, lábios cheios e úm idos, especialm ente o inferior. Por trás da blusa branca, o sutiã cor da pele m al conseguia encobrir os seios firm es e m am ilos proem inentes. Em sua saia branca pregueada, parecia um a criança-m ulher, saudável, bronzeada, esportiva. Liz calculava que ela devia ter 25 anos.

Enquanto andavam , Gisele recitava o seu relato com penetrada, tentando torná-lo interessante, com algum a ênfase aqui, pausas ali, em bora apenas repetisse o que declam ava em suas excursões diárias. Para um a francesa, o seu inglês coloquial, um inglês am ericanizado, parecia saído diretam ente das ruas de Manhattan. Quando era cum prim entada por transeuntes que a conheciam , Gisele respondia não apenas em francês, m as tam bém ocasionalm ente em espanhol e alem ão aceitáveis. Um a j ovem extraordinária para estar prisioneira num a rem ota cidade provinciana com o Lourdes. Liz j á com eçava a gostar de sua com panheira. Resolveu ser m ais atenta e sintonizada.

— Portanto, com o pode im aginar — Gisele estava dizendo — o pai de Bernadette, François Soubirous, sem pre foi um perdedor. Era um hom em forte, calado, talvez bebesse dem ais, inepto nos negócios. Aos 35 anos, casou-se com um a m oça gentil de 17 anos, cham ada Louise. Um ano depois nasceu Bernadette. Viviam no m oinho Boly, onde François m oia os cereais dos vizinhos. Mas ele acabou perdendo o m oinho. Era perdulário dem ais com dinheiro, não tinha boa cabeça para os negócios. Passou a trabalhar com o diarista. Algum tem po depois, arrum ou dinheiro em prestado e investiu em outro m oinho. Mas tam bém perdeu-o, dentro de um ano. Dos oito filhos que se seguiram a Bernadette, apenas quatro sobreviveram à infância, Toinette, Jean-Marie, Justin e Bernard-Pierre. A fam ília afundou na m ais profunda pobreza, até que um parente instalou-os num a cela de prisão abandonada, a Gaol, que um a autoridade da ocasião descreveu com o "um a choça fétida e escura". Eram quatro m etros por 40, úm ida, m alcheirosa, recendendo a esterco. Um lugar horrível. Verá pessoalm ente, dentro de alguns m inutos.

— Era lá que Bernadette vivia? — perguntou Liz. — Com o ela se saía?

— Não m uito bem , infelizm ente — respondeu Gisele. — Era um a garota pequena, um pouco atraente, m enos de um m etro e m eio de altura, alegre e basicam ente inteligente. Mas era ignorante, não sabia ler, não falava francês, apenas o dialeto bigourdano local, era frágil, sofrendo de asm a e desnutrição. Para aj udar a fam ília, ela trabalhava com o garçonete no bar da tia. Tam bém ia com frequência ao rio próxim o, o Gave de Pau, a fim de recolher ossos, pedaços de pau, fragm entos de ferro, vendendo por alguns sous.

Haviam entrado num a rua estreita, m uitas de suas casas antigas com reboco descascando, num desm antelo geral, quando Gisele disse:

— Chegam os. A Rue des Petits-Fossés. A Gaol está ali em frente, no lado esquerdo. Núm ero 15. Vam os entrar.

Passando pela entrada do prédio, Liz ouviu Gisele explicar que o côm odo que abrigara as seis pessoas da fam ília Soubirous ficava nos fundos, ao final de um corredor com prido, de onde saía um a litania de vozes abafadas. Atravessaram o corredor até um a porta baixa nos fundos. Lá dentro, Liz viu um grupo de um a dúzia de peregrinos ingleses, reunidos em sem icírculo, as cabeças inclinadas, todos entoando, em uníssono:

— Ave Maria, cheia de graça, o senhor é convosco... Mom entos depois, as devoções concluídas, o grupo se retirou.

Gisele gesticulou para que Liz entrasse. Exceto por dois bancos de m adeira toscos e um as poucas achas em pilhadas na lareira, o côm odo não tinha praticam ente m ais nada. Um crucifixo grande, de m adeira escura, estava pendurado por cim a da lareira. Liz sacudiu a cabeça.

— Seis pessoas? — m urm urou ela. — Neste buraco?

— Exatam ente — confirm ou Gisele. — Mas não se esqueça de que foi daqui que Bernadette saiu a 11 de fevereiro de 1858 para recolher a lenha que haveria... em certo sentido... de ilum inar Lourdes para o m undo inteiro. — Gisele fez um a pausa, gesticulando em torno da cela. — O que acha disso?

Liz contem plava o reboco que se desprendera das paredes, deixando à m ostra as pedras suj as.

— O que acho é que os dirigentes da cidade e a igrej a vêm fazendo um péssim o trabalho de preservação do lugar em que vivia a garota... a garota que tornaria a cidade tão fam osa e próspera. Não com preendo a negligência.

Gisele aparentem ente nunca pensara nisso, vira o local histórico com frequência dem ais para perceber com o era m al cuidado. Olhou ao redor com um a nova percepção e m urm urou:

— Talvez tenha razão, Srta. Finch.

— Vam os sair daqui — disse Liz.

Voltando à rua, Gisele anunciou, profissionalm ente:

— Irem os agora ao m oinho Lacadé e depois ao Boly, onde Bernadette nasceu. Em seguida irem os ao asilo das Irm ãs de Instrução Cristã e Caridade de Nevers, onde finalm ente Bernadette recebeu algum a educação...

Liz levantou a m ão.

— Não, não vam os perder tem po com essas coisas sem im portância. Sou j ornalista e não vou encontrar nada de novo nesses lugares. Quero ir diretam ente ao prato principal.

— Ao prato principal?

— A gruta. Quero conhecer a gruta de Massabielle. Mom entaneam ente aturdida por essa m udança em sua rotina,

Gisele recuperou-se depressa.

— Muito bem . -Mas podem os perfeitam ente passar pelo m oinho Lacadé. Fica a poucos m etros daqui, o núm ero 2 da Rue Bernadette Soubirous... e de lá poderem os descer a ladeira e seguir para a gruta.

— É m uito longe?

— Não. Já vai ver.

As duas recom eçaram a andar e poucos m inutos depois pararam na frente da casa de pedra com um cartaz de quase m eio m etro de altura, anunciando: MAISON PATERNELLE DE STE. BERNADETTE.

— O que é isto afinal? — perguntou Liz, contem plando a casa de três andares na esquina de um a viela. — Era aqui que os pais dela m oravam ?

— Muito m ais tarde, depois que ela se tornou fam osa.

— Vam os dar um a entrada rápida — disse Liz.

Ela entrou prim eiro, acom panhada por Gisele. Do vestíbulo, ela viu um a porta aberta e um a escada de m adeira. Lá dentro funcionava um a loj a de souvenirs. Gisele apressou-se em explicar.

— O que se tornou agora um a loj a era, no tem po de Bernadette, um a cozinha e o quarto de baixo. Deixe-m e levá-la lá para cim a, onde poderá ver a cam a de Bernadette.

Enquanto subiam , Gisele acrescentou:

— Esta é a escada original.

Dava m esm o a im pressão de ser, pensou Liz, toda irregular e rangendo m uito. As duas chegaram a um quarto. Não era grande, m as tam bém não era m uito apertado.

— Nada m al — com entou Liz.

— Mas tam bém nada bom — disse Gisele.

— Mas não é exatam ente a choupana das choupanas. Já conheci quartos fam iliares piores em Washington e Paris.

— Não se deixe enganar. Isto foi reform ado e lim pado para os turistas.

Liz exam inou os m óveis do quarto. A cam a de Bernadette, coberta por um a colcha azul quadriculada, estava envolta por um a redom a de vidro, rachada. Na parede, em m eio a incontáveis grafites, estavam penduradas três fotografias em olduradas, desbotadas pelo tem po, m ostrando Bernadette, a m ãe e o pai. No outro lado, um velho relógio de pé e um a côm oda, sobre a qual estavam várias estatuetas ordinárias da Virgem Maria, eram protegidos dos turistas por um a rede de aram e com um . Liz torceu o nariz.

— O que é isto, no final das contas? Um quarto, apenas um quarto, m ais um quarto m iserável, m ais nada. Não há notícia aqui. Quero ir ao lugar em que está a notícia.

Deixando a casa, elas voltaram ao Boulevard de Ia Grotte. Recom eçaram a andar, m as logo tornaram a parar. Apontando para um portão cinzento de ferro batido, no outro lado da ponte através do rio, Gisele inform ou:

— Ali com eça o Domaine de Ia Grotte, tam bém cham ado de Dom ínio dos Santuários. São cinco m il m etros quadrados. Para que tenha um a ideia m elhor, devem os nos aproxim ar da gruta por este lado.

Liz avistou um terreno grande que parecia um cam po de futebol, só que um pouco oval. Ela deu de om bros, am avelm ente.

— Com o quiser.

Elas atravessaram a ponte, aproxim aram -se do portão e entraram no que Liz constatou agora parecer com um cam po de desfiles.

— Acabam os de passar pelo portão de Saint-Michel, entrando na área do dom ínio — explicou Gisele. — Esta esplanada leva às três igrej as no outro lado... a m ais alta, com os dois cam panários e a torre octogonal, é a Basílica da Im aculada Conceição ou Basílica Superior. Mais abaixo fica a Cripta e no fundo a Basílica do Rosário. A Cripta com sua capela foi construída prim eiro, seguindo a Basílica Superior. Mas quando o clero com preendeu que não seria suficiente para abrigar o fluxo diário de peregrinos, os planej adores acrescentaram a Basílica do Rosário, com suas 15 capelas e lugar para m ais de duas m il pessoas. A gruta sagrada fica à direita da Basílica Superior. Não pode ser vista daqui.

Liz Finch estava claudicando até um banco de ferro.

— Preciso descansar os pés por alguns m inutos. — Ela sentou-se, com um suspiro de alívio, tirou os sapatos sem saltos. Acenou com a m ão ao redor. — O que é tudo isto? Falou que era dom ínio. O que significa tudo isto? Você cham ou de dom ínio. O que vem a ser?

Gisele se aproxim ou.

— Bom ... prim eiro, antes de poder com preender o que isto significa, tem de com preender o que a gruta significa. Porque a gruta tornou isto possível! — Ela fitou Liz nos olhos. — Sabe por que a gruta é tão im portante?

— Claro. Foi o lugar em que Bernadette afirm ou ter visto a Virgem Maria diversas vezes... e onde a Virgem Maria lhe revelou um segredo. Não é isso?

— É, sim . Mas, para com preender plenam ente, Srta. Finch, é m elhor saber o que aconteceu aqui, se tenciona escrever a respeito. A Virgem Maria apareceu a Bernadette 18 vezes, entre 11 de fevereiro e 16 de j ulho de 1858.

— Recordo que m encionaram isso na entrevista coletiva em Paris — com entou Liz. — E, m ais tarde, pesquisei as aparições.

— Pois deve saber o m áxim o possível sobre as visitações, porque isto é o essencial aqui.

Liz tornou a suspirar, sofrendo com o calor.

— Se insiste, pode falar. Mas não descreva todas as 18 aparições. Eu não poderia suportar com este calor.

— Claro que não. Não precisa conhecer todos os detalhes. Perm ita-m e apenas relatar com pletam ente a prim eira aparição. E, depois, falarei sobre os pontos culm inantes das outras visitas. Isso será suficiente.

Liz pegou um lenço na bolsa e enxugou o suor da testa.

— A prim eira aparição e depois algum as inform ações sobre as outras. Muito bem , estou escutando.

Im ediatam ente à vontade, Gisele Dupree sentou-se e se lançou à sua conversa padronizada de guia:

— Ao raiar do dia, um a m anhã de quinta-feira, 11 de fevereiro de 1858, Bernadette, sua irm ã m ais m oça, Toinette, e um a das colegas de escola da irm ã, Jeanne, resolveram ir até as m argens do Gave de Pau, o rio na beira da cidade, a fim de recolher pedaços de m adeira trazidos pela correnteza e fragm entos de osso, a fim de aj udar a fam ília de Bernadette. Com o a m anhã estava fria e a saúde de Bernadette era precária, a m ãe insistiu que usasse o seu capulet, um a espécie de touca, e m eias, além do vestido e dos sapatos de m adeira. Lem bre-se que Bernadette tinha 14 anos na ocasião, era ignorante, m as inteligente. As três m eninas passaram pelo m oinho Savy e seguiram ao longo do canal na direção do Gave, que se encontrava com o canal perto de um a gruta grande, conhecida com o Massabielle. As outras duas m eninas entraram prontam ente na água fria do canal. Depois de exortarem Bernadette a segui-las, com eçaram a procurar por pedaços de m adeira j unto à m argem . Bernadette planej ava entrar tam bém no canal, m as se dem orou a tirar os sapatos e as m eias. Ao se encostar num a pedra para fazê-lo, aconteceu um a coisa curiosa, algo que afetaria o m undo inteiro. — Gisele fez um a pausa dram ática e depois acrescentou: — Foi m uito curioso.

— Continue — disse Liz, pacientem ente.

— Relatarei a ocorrência nas próprias palavras de Bernadette. Já as decorei. Foi assim que Bernadette falou a respeito depois: "Mal tinha tirado a prim eira m eia quando ouvi um barulho, parecendo um pé-de-vento. Virei-m e para a cam pina e vi que as árvores não se m exiam . Já tinha notado, m as sem prestar m aior atenção, que os galhos e arbustos ao lado da gruta estavam balançando.

"Estava m etendo um pé na água quando ouvi o m esm o som à m inha frente. Fiquei assustada e m e ergui. Perdera toda a capacidade de falar. Levantei os olhos e vi um punhado de galhos e arbustos por baixo da entrada m ais alta da gruta balançando... em bora m ais nada se m exesse.

"Quase que ao m esm o tem po, saiu da gruta um a nuvem dourada e logo depois um a Dam a de branco, j ovem e bonita, extraordinariam ente bonita, não m uito m aior do que eu, que m e cum prim entou inclinando ligeiram ente a cabeça. Ao m esm o tem po, ela estendeu os braços e abriu as m ãos, com o um retrato ou estátua, de Nossa Senhora. Um rosário pendia por cim a de seu braço direito.

"Fiquei com m edo e recuei. Senti vontade de cham ar as outras duas garotas, m as não tive coragem para fazê-lo.

"Esfreguei os olhos um a porção de vezes. Pensei que devia estar enganada, não havia nada ali.

"Levantando os olhos, vi que a Dam a m e sorria gentilm ente e parecia m e convidar a chegar m ais perto. Mas eu ainda estava com m edo. Só que não era um m edo com o j á tinha sentido outras vezes, pois poderia ter ficado ali a olhar para ela o tem po todo, enquanto sem pre se foge depressa quando se tem m edo.

"Pensei então em dizer m inhas orações. Meti a m ão no bolso e tirei o rosário que sem pre levava com igo. Aj oelhei-m e e tentei fazer o sinal-da-cruz, m as não consegui levantar a m ão até a testa. A m ão caiu.

"Enquanto isso, a Dam a deu um passo para o lado e virou-se para m im . Desta vez tinha as contas grandes na m ão. Fez o sinal-da-cruz, com o se estivesse rezando. Minha m ão trem ia. Tentei de novo fazer o sinal-da-cruz e desta vez consegui... não estava m ais com m edo.

"Eu disse m eu rosário. A Dam a passava as contas pelos dedos, m as não m exia os lábios. Enquanto eu dizia o rosário, observava a Dam a o m ais atentam ente que podia.

"Ela usava um vestido branco que descia até os pés e apenas as pontas dos dedos apareciam . O vestido era apertado no pescoço, do qual pendia um cordão branco. Um véu branco cobria a cabeça e caía pelos om bros e braços, quase até a bainha do vestido.

"Vi em cada pé um a rosa am arela. A faixa do vestido era azul e caía abaixo dos j oelhos. A corrente do rosário era am arela, as contas grandes e brancas, bastante espaçadas.

"A Dam a era viva, m uito j ovem , cercada de luz.

"Quando term inei m eu rosário, a Dam a se inclinou para m im , sorrindo. Retirou-se para o interior da gruta... e subitam ente a nuvem dourada desapareceu." Esta foi a prim eira visão de Bernadette. Este foi o com eço.

Gisele calou-se e Liz não fez qualquer com entário. O silêncio foi finalm ente rom pido por Liz:

— Está querendo dizer que todos acreditaram nessa alucinação?

— No início, ninguém acreditou, Na verdade, Bernadette queria guardar a história só para si. Mas a irm ã contou à m ãe, que esbofeteou Bernadette por inventar histórias. Depois de visões subsequentes na gruta, o padre da paróquia, Padre Pey ram ale, escarneceu dela. O Com issário de Polícia Jacom et, um hom em norm alm ente j ovial, acusou-a de ser m entirosa.

— Mas Bernadette continuou a voltar à gruta e viu a Virgem Maria m ais 17 vezes?

Gisele assentiu, gravem ente.

— Dezoito vezes no total. Desej a ouvir os fatos essenciais?

— Está certo... m as só os fatos essenciais.

— Três dias depois, Bernadette foi atraída de volta à gruta, caiu em transe e tornou a ver a Virgem Maria. Quatro dias m ais tarde, Bernadette viu a Virgem Maria pela terceira vez. A Virgem falou e pediu a Bernadette que viesse à gruta regularm ente durante as duas sem anas seguintes. Ela disse: "Não prom eto fazê-la feliz neste m undo, m as sim no outro."

Gisele fez um a breve pausa, antes de continuar:

— Apesar de m uita oposição, Bernadette obedeceu às instruções da Virgem e continuou a rezar na gruta. Im pressionados com a sinceridade e a atitude de Bernadette, os habitantes da cidade com eçaram a segui-la até a gruta e observá-la.

— E Bernadette continuou a ver a Virgem Maria?

— Exatam ente. Foi na sétim a vez que a Virgem contou a Bernadette o últim o de seus segredos, de que faria um reaparecim ento na gruta este ano. Na 13? vez em que apareceu a Bernadette, a Virgem disse duas coisas à m enina: "Vá e diga aos padres para construírem um a capela aqui... Quero que as pessoas venham aqui em procissão." Foi registrado que havia 1.650 pessoas reunidas com o espectadoras na gruta naquela m anhã.

— E essas pessoas viram e ouviram o que Bernadette viu e ouviu?

— Claro que não. A Virgem Maria era visível apenas a Bernadette e só podia ser ouvida por Bernadette.

— Ah...

Ignorando o ceticism o óbvio de Liz, Gisele continuou apressadam ente a contar sua história:

— A visão da Virgem m ais im portante de Bernadette foi a 16a. Ocorreu às cinco horas da m anhã. A Virgem estava à sua espera na gruta. Segundo Bernadette, "ela uniu as m ãos novam ente na altura do peito, levantou os olhos para o céu e depois m e disse que era a Im aculada Conceição". Com o Bernadette presum ivelm ente não sabia, na ocasião, o que era Im aculada Conceição, a repetição do que ouvira teve m aior veracidade. Quando ela com unicou isso ao Padre Pey ram ale, até então cético, ele virou por com pleto. Convenceu-se que as visões de Bernadette da Dam a celestial eram autênticos m ilagres. Bernadette tornou a ver a Virgem a 7 de abril. Houve depois um lapso prolongado, até 16 de j ulho, quando Bernadette recebeu um cham ado interior, seguiu apressadam ente para a gruta e viu a Virgem Maria pela últim a vez.

— Está querendo m e dizer que todos se converteram em crentes depois que a Virgem disse que era a Im aculada Conceição?

— Houve outros fatores — explicou Gisele. — Na 17a aparição estava presente um hom em cético, de form ação científica, um certo Dr. Pierre-Rom ain Dozous, que observou a cham a da vela acesa que Bernadette segurava lam ber-lhe os dedos. Contudo, depois, ela não apresentava quaisquer sinais de queim aduras da cham a. E logo com eçaram as curas m ilagrosas. Acim a de tudo, havia a convicção e a sinceridade inabaláveis de Bernadette. O chefe de polícia tentou preparar-lhe um a arm adilha, a fim de provar que ela inventava tudo aquilo para ganhar dinheiro. Mas Bernadette nunca aceitou um a m oeda sequer. E não houve qualquer possibilidade de levá-la a fazer um a única declaração contraditória. Ela era sim ples, franca, não queria a atenção pública. Afastou-se até dos olhos do público, tornou-se um a reclusa e depois um a freira, oito anos m ais tarde. Cinco dias depois de sua últim a visão, o Bispo de Tarbes e Lourdes form ou a sua com issão de inquérito. E m enos de quatro anos depois, ele anunciou: "A Aparição que se deu o nom e de Im aculada Conceição, que Bernadette viu e ouviu, é a própria Virgem Santa."

— Mas a coisa não ficou tão sim ples assim — com entou Liz. — Com o nos afastam os da doce e sim ples Bernadette até... até isto?

O rosto da guia se encontrava franzido em pensam ento.

— Levaria m uito tem po para explicar tudo, m as deixe-m e só contar as coisas principais que aconteceram depois que as visões de Bernadette foram proclam adas autênticas. O Padre Pey ram ale, atendendo ao pedido da Virgem , com eçou a construir um a igrej a por cim a do santuário. Mas as autoridades diocesanas decidiram que o acontecim ento era im portante dem ais para ser deixado aos cuidados de um pároco local, que era um hom em sim ples e não tinha cabeça para finanças. Assim , entregaram a área aos cuidados de um grupo próxim o de padres católicos, os padres Garaison, posteriorm ente cham ados de Padres da Im aculada Conceição, conhecidos por sua agressividade e talentos prom ocionais. Esses padres, sob o com ando do Padre PierreRém y Sem pé, o antigo secretario do bispo, entraram em ação im ediatam ente. Para as procissões, com praram terras e fizeram esta esplanada, um a espécie de parque, com o parte do Dom ínio de Nossa Senhora. Depois concluíram a Basílica Superior. Levantaram dinheiro para construir a Basílica do Rosário. Finalm ente, dois anos depois que a prim eira grande peregrinação organizada, de oito m il pessoas, veio à gruta, a com panhia ferroviária, devidam ente pressionada, desviou seus trens para passarem por Lourdes. Em sete anos, vieram as prim eiras peregrinações do exterior, procedentes do Canadá e Bélgica. Depois disso, Lourdes passou a pertencer ao m undo inteiro. Hoj e, m ais de cinco m ilhões de peregrinos e turistas aparecem aqui todos os anos. Gisele Dupree levantou-se.

— Creio que agora você está pronta para ver a gruta.

Liz enxugou novam ente o suor da testa e tam bém se levantou.

— Está certo, vam os à gruta.

Enquanto avançavam pelo terreno aparentem ente interm inável do dom ínio, Gisele apontou para um a série de escritórios, sob um a passarela que levava à Basílica Superior.

-— Ali está a Hospitalidade, o setor encarregado do conforto dos visitantes, especialm ente os peregrinos. Mais abaixo é o centro dos brancardiers, os voluntários que vêm de todas as partes para em purrar as três m il cadeiras de banho, as m ilhares de cadeiras de rodas e carregar os inválidos m ais graves em 150 m aças. O Serviço Médico, ao qual são com unicadas as curas m ilagrosas e estudadas por m édicos de todas as fés ou sem qualquer fé, tam bém fica sob a passarela, à direita. Por trás há um hospital... e tem um segundo no outro lado do rio.

Gisele viu Liz tirar o m aço de cigarros da bolsa e advertiu-a firm em ente:

— Lam ento, Srta. Finch, m as não é perm itido fum ar.

— Essa é dem ais! — m urm urou Liz.

— Estam os agora j unto da Basílica Superior, um prédio espetacular — com entou Gisele. — Podem os subir pelas passarelas e as escadas para entrar.

—. Não, obrigada — disse Liz, irritada.

— Tem certeza de que não quer? O interior é im enso e assom broso... a nave, os corações prateados em torno da nave com algum as das palavras que a Virgem disse a Bernadette, com o "Penitência... Você deve rezar pela conversão dos pecadores!... Vá e beba na fonte e se lave nela!... Eu sou a Im aculada Conceição!"' Vai gostar dos 19 vi trais.

Liz sacudiu o rosto suado e a cabeça vigorosam ente.

— Chega dessas coisas de guia, Gisele. Basta apenas m e m ostrar a gruta.

Gisele deixou escapar um suspiro infeliz.

— A gruta... Está bem . Fica depois do canto da Basília, além daquela arcada.

Os pés doloridos, Liz seguiu a guia até o outro lado das igrej as absurdam ente gigantescas. Passaram por um stand de velas à venda e encontraram um grupo considerável de pessoas; sentadas em bancos, aj oelhadas em oração. Algum as se achavam em cadeiras de rodas. Todas se concentravam em algum a coisa à esquerda.

Liz virou-se ligeiram ente e lá estava. A gruta. A gruta de Massabielle. Um a caverna sim ples, cinzento-escura, aberta na encosta da colina pela natureza, com arbustos e árvores por cim a. Liz não sabia o que esperar, m as ficou desapontada. Para um a m aravilha do m undo, não era grande coisa.

Ela estudou-a m ais atentam ente. Num nicho por cim a da abertura havia um a im agem da Virgem Maria. Um a im agem tradicional, não m uito diferente de qualquer outra que Liz j á vira. Por baixo da im agem havia um a estante com um a centena ou m ais de velas votivas ardendo. Gisele estava falando:

— Um escultor de Ly on fez essa im agem e ofereceu-a em 1864. Bernadette não gostou.

— É m esm o?

— Bernadette sem pre foi m uito franca. Olhe ao redor e verá um a porção de m uletas, descartadas por peregrinos aleij ados que ficaram curados aqui. — Gisele indicou um a fila de visitantes que avançavam lentam ente pelo interior da gruta e acrescentou: — Gostaria de conhecer a gruta m ais de perto?

— Por que não?

Gisele e Liz entraram na fila. Enquanto avançavam , entre a placa de m árm ore de um altar e a parede da gruta, Liz observou que m uitas pessoas se inclinavam para beij ar a parede.

— Há na verdade três aberturas na gruta, em bora pareça haver só um a — inform ou Gisele.

Ao passarem pelo altar, Gisele apontou para um a grade trancada, através da qual Liz viu um filete de água, coberto por vidro. Gisele explicou.

— A fonte curativa sagrada. Em 1858 só havia terra aqui. Durante a nona aparição, Bernadette inform ou que a Dam a "m e disse para ir beber e m e lavar na fonte. Não vi nenhum a e m e encam inhei para o Gave. Ela disse que não era lá e apontou para um lugar abaixo do precipício. Encontrei um a pouco de água, que m ais parecia lam a. Havia tão pouco que m al consegui m eter a m ão. Com ecei a escavar e logo havia m ais água". A água continuou a correr naquela noite e acabou se transform ando na fonte m ilagrosa.

Elas saíram da gruta para o sol. Gisele apontou para um m uro rústico por trás delas, que Liz não percebera ao se aproxim arem da gruta. Peregrinos se concentravam ali, enchendo recipientes em torneiras, das quais j orrava a água sagrada.

— A fonte subterrânea, que a Virgem orientou Bernadette a descobrir, está agora canalizada para aquelas torneiras. Mais adiante ficam os 14 banhos em que os peregrinos podem im ergir nas águas da gruta. As águas dos banhos são esvaziadas e reenchidas duas vezes por dia. Beber a água, im ergir nela, além de orar na gruta, parece ser responsável pela m aioria das curas m ilagrosas que ocorreram . Quer dar um a olhada m ais de perto nas torneiras e nos banhos?

Liz Finch soltou um grunhido.

— Só quero um a coisa neste m om ento: sentar. Meus pés estão m e m atando. Há algum café aqui por perto?

— Há, sim . Tem um a ram pa no outro lado da igrej a que leva diretam ente ao Boulevard de Ia Grotte. E bem no outro lado tem um ótim o café, Le Roy ale. Pode sentar-se lá e tom ar algum a coisa.

— Pois então vam os logo. Se tem alguns m inutos disponíveis, por que não m e acom panha? Tom e um sorvete ou um café. O que m e diz?

Gisele ficou satisfeita.

— Digo que é um bom convite. E aceito.

Com algum esforço, respirando com o um a toninha encalhada, Liz seguiu a j ovem guia pela ram pa íngrem e até o Boulevard de Ia Grotte. Esperaram por um a brecha no tráfego e atravessaram apressadam ente o bulevar, seguindo para a esquina em que ficava o café com cadeiras na calçada.

Liz cam baleou para a prim eira m esa quadrada vazia e quase arriou na cadeira preta. Um garçom m agro, colete preto sobre a cam isa branca, m aterializou-se quase que no m esm o instante.

— Água de Evian e sorvete, qualquer sabor — balbuciou Liz, em inglês, im paciente dem ais para usar o francês.

— Glace, vanilla pour deux — disse Gisele. Trocando para inglês, ela acrescentou: — E tam bém um a garrafa pequena de Evian.

Depois que o garçom se afastou, Liz contem plou irrequieta o café e os fregueses esparsos. Meteu a m ão na bolsa à procura do m aço de cigarros, perguntando:

— Ainda estou no dom ínio? Ou j á posso fum ar agora?

— Pode, sim .

Acendendo o cigarro, soprando um a nuvem de fum aça, Liz voltou a concentrar toda a sua atenção na guia.

— Estou curiosa sobre um a coisa, Gisele. Todas essas coisas que m e falou a respeito de Bernadette e da Virgem ... não acredita realm ente nisso, não é m esm o? Estava apenas m e lançando a sua conversa rotineira para turistas, não é m esm o?

Gisele hesitou por um instante, antes de responder: — Fui criada com o um a boa católica.

— Não respondeu à m inha pergunta.

— O que posso dizer? Acho que não sabem os de tudo o que acontece no m undo. Talvez haj a m ilagres.

— Talvez haj a tam bém coisas com o propaganda e prom oção.

— É possível — adm itiu Gisele. — Mas você não é católica, obviam ente, por isso vê as coisas de m aneira diferente.

— Não é esse o caso — disse Liz, im pacientem ente. — Sei m uito bem que há acontecim entos inexplicáveis neste m undo. Afinal, j á li Charles Fort.

Gisele perm aneceu im passível.

— Quem ?

—Não im porta. Foi um suj eito que escreveu sobre acontecim entos que a ciência não podia explicar. Mas essa história de Bernadette é dem ais. A garota deve ter sido m aluca. Acredita m esm o que a Virgem disse a ela que reaparecerá na próxim a sem ana?

Gisele tornou a hesitar.

— Eu... eu não sei dizer. Im agino que tudo parecia m ais aceitável em 1858. O m undo está m uito racional e realista hoj e. Misticism o e m aravilhas religiosas ocupam agora um lugar de m enor im portância.

— Pois eu não penso em m om ento algum que haverá um Segundo Advento da Virgem . Acho que é um a m anobra da Igrej a. As coisas devem andar m al para o seu lado e a Igrej a decidiu lançar essa j ogada.

— Um a m anobra? — Gisele ficou aturdida por um m om ento.

— Ah, sim , um a m anobra publicitária. — Ela fez um a pausa, sorrindo. — Mesm o assim , isso trouxe-a a Londres. Porque está aqui?

— Porque é m eu trabalho. Tenho de ganhar a vida. E sou obrigada a fazer o que m eu chefe m anda. E quer este evento sej a ou não um a bobagem , ele ainda acha que é notícia para m ilhões de crédulos pelo m undo. É verdade, estou aqui. Mas você tam bém está aqui. Por que você está aqui?

Antes que Liz pudesse ter um a resposta, o garçom voltou com um a bandej a, em que havia dois pratos com sorvete e um a garrafa pequena de Evian. Ele pôs diante delas os sorvetes, colheres, guardanapos, dois copos, abriu a garrafa e serviu a água.

No instante em que o garçom se retirou, Liz pegou seu copo e bebeu. Depois, com eçou a tom ar o sorvete.

— Repito — disse Liz — por que você está aqui?

— Porque nasci aqui — respondeu Gisele, sim plesm ente. — Porque ganho a vida aqui. Mas tam bém estou interessada em Lourdes. Não preciso de qualquer m anobra publicitária para m e interessar.

— Só estou perguntando porque acho que você tem classe dem ais para esta cidade estúpida. Além disso, seu inglês é de prim eira. Onde aprendeu a falar assim ? Não foi sim plesm ente vivendo num a cidadezinha provinciana ou estudando na escola. Com o aconteceu?

— Nem sem pre vivi aqui, j á m orei em Nova York — inform ou Gisele, orgulhosam ente. — Trabalhei na ONU.

Liz não escondeu sua surpresa.

-— É m esm o? Jura que não está brincando?

— Claro que não.

— Na ONU? O que fazia lá?

Liz percebeu que Gisele parecia relutante em responder. Mas a j ovem guia acabou falando, firm em ente:

— Fui contratada por Charles Sarrat para ser sua secretária quando ele foi designado para em baixador francês na ONU.

— Sarrat? O ex-m inistro da Cultura? Por que ele iria contratar... um a m oça provinciana para um cargo tão sofisticado?

— Eu não era a sua única secretária. Ele tinha várias. Mas era eu quem cuidava de suas questões pessoais.

— Mesm o assim ...

— Contarei com o aconteceu — Gisele apressou-se em dizer. — Sarrat e a esposa são católicos devotos... ou pelo m enos ela é. Estiveram em Lourdes num a visita há três anos. Fui a guia, a pessoa que lhes m ostrou tudo. Sarrat ficou bastante im pressionado com igo... m inha vivacidade, o conhecim ento de inglês que j á possuía naquela ocasião, aprendido com turistas am ericanos e britânicos. Assim , quando ele foi designado para representar a França na ONU e com eçou a form ar um a equipe, lem brou-se de m im e fez o convite. Fiquei em ocionada.

— Dá para entender — com entou Liz.

— Depois de um as poucas sem anas de treinam ento em Paris, acom panhei o Em baixador Sarrat e outros m em bros de sua equipe a Nova York. — Os olhos de Gisele brilhavam , enquanto ela sacudia o rabo-de-cavalo num gesto de entusiasm o. — Eu estava em ocionada além de tudo o que se pode im aginar. O em prego m e proporcionava novos horizontes, um a im agem real do m undo. Poderia ter trabalhado lá para sem pre. Mas, depois de um ano, Sarrat reduziu sua equipe e fui dispensada.

Liz avaliou sagazm ente a linda m oça.

— Madam e Sarrat tam bém estava em Nova York durante aquele prim eiro ano?

— Não. Ela ficou presa em Paris. Só foi para Nova York depois do prim eiro ano.

— E foi a ocasião em que seus serviços foram dispensados. — Bom ...

Gisele parecia desam parada.

— Não precisa explicar — acrescentou Liz. — Posso com preender por que foi dispensada, olhando para você e tendo m e encontrado com a esposa de Sarrat em diversas ocasiões. Presum o que estava dorm indo com o chefe ou Madam e Sarrat receava que isso pudesse acontecer. Im agino que qualquer m ulher com m enos de 30 anos e bonita seria dispensada. Não precisa responder. Não é im portante. Sej a com o for, foi dispensada e voltou para Lourdes.

— Não im ediatam ente. Fui para Paris e fiquei lá por várias sem anas. Tinha um a nova am bição. Queria voltar à ONU com o intérprete e tradutora. É um em prego m aravilhoso e m uito bem pago. Soubera na ONU que havia um a escola especial de tradutores em Paris, ISIT... Instituto Superior de Intérpretes e Tradutores. Fui verificar. Há um curso de quatro anos que eu poderia fazer em três anos, concentrando-m e em inglês, alem ão e russo. Um a ótim a escola, m as m uito cara. O preço é 10 m il francos por ano... 30 m il francos em três anos... além de casa e com ida. Eu m e qualificava por todos os aspectos, m enos o financeiro. Resolvi voltar a Lourdes, trabalhar bastante, econom izar cada franco possível... econom izo até m esm o o dinheiro de, casa e com ida, m orando com m eus pais, que têm um apartam ento não m uito longe de Lourdes. Vou j antar em casa todas as noites e volto a Lourdes de m anhã bem cedo. Estou determ inada a reunir o dinheiro suficiente para fazer o curso de tradutora. Depois que tiver o diplom a, poderei arrum ar um em prego de alto nível na ONU. O Em baixador Sarrat prom eteu aj udar-m e. Isso é tudo o que quero.

Liz Finch escutara atentam ente. Term inando o sorvete, ela tom ou a água, observando a j ovem guia por cim a do copo.

. — Então é dinheiro, guardar dinheiro... é nisso que está em penhada?

— Exatam ente. Tento guardar dinheiro, m as o trabalho não paga m uito. Levarei um a eternidade.

Liz tirou outro cigarro do m aço e levou a cham a do isqueiro à extrem idade.

— Talvez não precise levar um a eternidade.

A testa lisa de Gisele se franziu.

— Com o assim ?

— Há m uitos m eios de ganhar um bom dinheiro, a quantia que você precisa.

— Com o?

— Pense em m im , por exem plo, com o um a possível fonte de dinheiro — disse Liz. — Não sou rica. Tudo m enos isso. Mas trabalho para um a agência noticiosa am ericana rica. A API costum a investir bastante dinheiro para obter um a história exclusiva. Valeria um bom dinheiro se eu encontrasse alguém que pudesse m e aj udar a desencavar um a grande história em Lourdes. Aj udaria a m im , aj udaria à API e certam ente aj udaria à pessoa que m e levasse a essa história.

Gisele estava alerta e fascinada, m as confusa.

— Um a grande história? Com o assim ? Se a Virgem Maria reaparecer na gruta?

— Isso seria certam ente um a grande história, m as não seria exclusiva. Portanto, não m ereceria qualquer pagam ento especial. Mas não é disso que estou falando. A Virgem não reaparecerá; portanto, é m elhor esquecerm os esse ângulo.

— Se houver um m ilagre, um a cura súbita e inexplicável, isso é um a grande história?

— Pode ser, m as apenas se Liz Finch chegar prim eiro, tom ar conhecim ento antes de qualquer outro. Mas m esm o isso é a segunda m elhor possibilidade e im provável.

— Qual é a prim eira? — perguntou Gisele.

— Obter algum a indicação da verdade sobre Lourdes — disse Liz. — Obter um a prova concreta de que Bernadette era um a garota confusa ou um a im postora, que nunca houve aparições. Provar que o santuário, a gruta aqui em Lourdes, as curas m ilagrosas, tudo não passa de m itos e invenções perpetuados por determ inados interesses ocultos. Obter provas incontestáveis de que Bernadette nunca viu o que alegou ter visto. E transm itir a notícia antes que a sem ana term ine. Isso seria a grande notícia perfeita.

Gisele estava atordoada.

— Mas isso seria um sacrilégio! Bernadette é um a santa!

— Não seria, se obtivéssem os provas a seu respeito. Se a denunciarm os, adeus Bernadette, adeus Lourdes. Mas seriam necessárias provas concretas para acabar com Bernadette.

Gisele estava sacudindo a cabeça.

— Seria im possível provar qualquer coisa contra... contra ela. Liz exibiu um sorriso insinuante.

— Gisele, com o diz o pessoal da sua religião, nada no m undo é im possível quando se tem fé... neste caso, fé ao contrário... no que se acredita. E eu acredito, sem a m enor som bra de dúvida, que toda a história de Lourdes é basicam ente falsa. Mas, para ser realista, precisam os prová-lo. Você quer dinheiro para a escola de tradução em Paris? Quer m uito dinheiro e im ediatam ente? Muito bem . Conhece esta cidade, conhece as pessoas com o ninguém m ais. Bisbilhote por aí. Descubra-m e um fragm ento de prova, um a indicação, algum a coisa, qualquer coisa que m e dê a grande história e estará a cam inho de sua escola de tradução em Paris e de um bom em prego na ONU em Nova York.

— E essa... essa é a única grande história que vale dinheiro? — indagou Gisele, debilm ente.

— Não estou dizendo que é a única. Mas um a denúncia é a principal. Falhando isso, pode haver outra coisa que valha dinheiro. Milhares de pessoas do m undo inteiro j á chegaram a Lourdes e outros m ilhares chegarão am anhã para o reaparecim ento da Virgem . Talvez algum as sej am notícias e coisas estranhas possam lhes acontecer. Pode haver nisso tam bém um a história que valha dinheiro. Teria de ser um a grande história. Mas com o não sei quem estará aqui, o que poderá acontecer, só posso dizer a esta altura que a única grande história infalível seria a denúncia de Bernadette. Acho que a prova pode existir. Acho que vale a pena procurar. O que você acha? Não m erece um a tentativa?

Gisele acenou com a cabeça.

— Tem razão, vale a pena tentar. — A voz da j ovem guia era quase inaudível. — Tentarei descobrir algum a coisa para você.