O Milagre

Irving Wallace · Capítulo 3 de 16

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O Milagre

Capítulo 2

Chicago e Biarritz

Era m eio quarteirão de cam inhada do estacionam ento até o prédio com ercial no centro de Chicago em que ficava o consultório do Dr. Whitney, no 23° andar, no outro lado da via elevada. Em bora a chuva fosse bem m iúda naquela m anhã, fora suficiente o elegante guarda-chuva azul e a capa azul de Am anda Spenser. No corredor, encam inhando-se para o consultório do Dr. Whitney, Am anda tirou a capa encharcada e passou por um instante pelo banheiro, a fim de verificar se não houvera qualquer prej uízo a seus cabelos castanhos im pecavelm ente arrum ados. O que de fato acontecera. Ela aj eitou os cabelos, tirou os óculos de grau escuros, com aros azuis, que usava para guiar, enxugou-os e guardou-os na bolsa. Só então é que seguiu para o encontro m ancado com o m édico de Ken Clay ton.

Entrando na elegante sala de espera, os m óveis estofados com um tecido verde-claro repousante, Am anda pendurou a capa e o guarda-chuva num cabide de m adeira e depois se encam inhou para a recepcionista grisalha por trás do balcão. A m ulher a esperava.

— Srta. Spenser?

— Isso m esm o. Espero ter chegado na hora.

— Chegou, sim . Mas, infelizm ente, o doutor está uns poucos m inutos atrasado. Ele a receberá daqui a pouco. E sei que está ansioso em lhe falar. Se não se im porta de sentar e esperar um pouco...

— Claro que não.

— Com o está o Sr. Clay ton?

— Ainda um pouco fraco, m as j á bastante bom para ir ao escritório e trabalhar por m eio expediente.

— Fico contente em saber disso. Ele é um hom em m aravilhoso. Um dos m ais encantadores que j á conheci. Todos lhe desej am os o m elhor, Srta. Spenser.

— Obrigada.

Am anda pegou um a revista na prateleira na parede, qualquer revista. No caso, era um a revista m édica. Sentando e se recostando, ela folheou-a. Anúncios farm acêuticos em todas as páginas. Depois, um artigo com fotografias coloridas e gráficos sobre diabetes. Am anda não tinha paciência para aquelas coisas. Manteve a revista aberta no colo, m as olhava sem ver o que estava im presso.

Isso m esm o, pensou Am anda, a recepcionista estava certa, Ken era extrem am ente encantador. Am anda ficara fascinada um a hora depois de conhecê-lo, dois verões antes. Houvera um churrasco no pátio da residência dos Clay tons m ais velhos, os pais de Ken, na North Shore de Chicago. Um a refeição ao ar livre inform al para os m em bros do prestigioso escritório de advocacia de Bernard B. Clay ton, em que seu filho, Ken, era especializado em planej am ento im obiliário. Um dos advogados j úniores da firm a levara Am anda.

Depois disso, Am anda e Ken passaram a se encontrar regularm ente. Um ano depois viviam j untos no apartam ento de cinco côm odos de Am anda, perto do Michigan Boulevard. Todos com entavam que form avam um casal perfeito. Ken, aos 33 anos, tinha l,80m de altura, cabelos pretos rebeldes, um rosto viril, era m usculoso e atlético (um cam peão em handebol). Am anda, aos 30 anos, era igualm ente vigorosa (tênis era o seu esporte), realm ente atraente, loura, olhos castanhos bem apartados, nariz arrebitado, um a generosa boca rosada, um corpo esbelto, seios abundantes, pernas bem torneadas. E um cérebro, um cérebro tão bom quanto o de Ken.

Os estranhos sem pre se surpreendiam ao saber que Am anda era um a psicóloga bem paga e trabalhando em tem po, integral, dividindo seus dias plenam ente ocupados entre um a clínica particular cuidadosam ente lim itada e um cargo de professora-associada no departam ento de ciências do com portam ento na Universidade de Chicago. Seu interesse pela psicologia fora inspirado pela leitura de Alfred Adler ainda m uito j ovem . Seu m odelo fora a psicanalista Karen Horney, a m aior m ulher nesse cam po na opinião de Am anda. O fato de o fam oso John B. Watson ter obtido o seu Ph.D, na Universidade de Chicago aj udara a levá-la para essa escola. Ao saber que Carl Rogefs fora outrora o diretor do Centro de Consulta da Universidade de Chicago, sentira-se estim ulada a trabalhar ali por algum tem po, o que, por sua vez, levara-a à sua clínica particular.

Era bastante ocupada e o m esm o acontecia com Ken. Assim , só tinham tem po um para o outro tarde da noite e nos fins de sem ana. E passavam a m aior parte do tem po j untos na cam a. Sexualm ente com patíveis, faziam am or pelo m enos quatro vezes por sem ana. Era sem pre divino, porque Ken se m ostrava atencioso e experiente.

Um ano antes, seguros de seu relacionam ento e da sua necessidade m útua, haviam decidido casar. Bernard e Helen Clay ton, am bos católicos devotos, quiseram um casam ento form al ria igrej a. Ken não se im portara. O m esm o acontecera com Am anda, cuj o pai era um católico não-praticante e a m ãe não tinha qualquer religião conhecida.

O casam ento fora m arcado para agosto daquele ano.

Mas de repente, num princípio de noite, no m eio de um a partida de handebol, Ken sofrerá um colapso. Sua perna direita cedera e ele levara um tom bo feio. A perna — ou m elhor, a coxa — vinha lhe causando um a dor insistente. Isso acontecera há m enos de seis sem anas. O Dr. Whitney, o m édico da fam ília Clay ton, despachara Ken para um a ronda de especialistas, exam es e radiografias.

E finalm ente se chegara a um diagnóstico. Um sarcom a, câncer ósseo. Deterioração do tecido ósseo, envolvendo a cabeça do fêm ur direito. A doença se agravaria gradativam ente. Ken perderia a m obilidade, precisaria usar m uletas, eventualm ente um a cadeira de rodas. O câncer provavelm ente seria fatal. Havia três opções para um a possível cura: cirurgia, radiação e quim ioterapia. A condição era passível de um a operação? Era, sim . O Dr. Whitney investigara as possibilidades de um a cirurgia bem -sucedida. Os prognósticos eram som brios, as chances m ínim as. Mas ainda havia um a possibilidade e não restava qualquer alternativa.

Assim , a cirurgia foi acertada. Deveria ser efetuada quase im ediatam ente. O casam ento de Ken e Am anda foi adiado por tem po indeterm inado.

Am anda pensou em seus sentim entos. Sentia-se com o um a viúva, em bora ainda nem tivesse casado.

Mas ainda havia a cirurgia. Era essa a esperança.

— Srta. Spenser — ela ouviu a recepcionista dizer — o Dr. Whitney vai recebê-la agora.

A recepcionista segurava a porta aberta. Pegando a bolsa, Am anda levantou-se e passou pela porta. Percorreu o pequeno corredor e entrou na sala do m édico, fechando a porta e se perguntando por que teria sido cham ada. Parecia o presságio de algum a infelicidade. O Dr. Whitney soergueu-se, m urm urando:

— Srta. Spenser...

Ele gesticulou para um a cadeira no outro lado da m esa. Era um desses m édicos cuj a aparência inspira confiança. Possuía um rosto idoso, quadrado e sim pático, algum as rugas atraentes, a testa um pouco vincada, os cabelos em branquecendo nas têm poras, não m uito diferente dos falsos m édicos que apareciam nos com erciais de televisão, cuj a presença transm itia experiência, sabedoria e autoridade.

Enquanto Am anda se sentava, o Dr. Whitney tornou a arriar em sua cadeira de couro, fechou o envelope pardo em cim & da m esa e foi direto ao ponto:

— Srta. Spenser, achei que seria m elhor se pudéssem os conversar pessoalm ente. Eu queria discutir a cirurgia de Ken. E espero que este cham ado súbito não tenha causado qualquer inconveniência.

— Nada é m ais im portante do que a operação de Ken.

— Sei que ele lhe falou a respeito, explicando que se trata da nossa opção prim ária.

— Ele m e falou um pouco. Disse que não havia garantias, m as contava com um a possibilidade e ia se subm eter. Fiquei contente por saber que ele estava tão disposto. E encoraj ei-o. — Am anda hesitou por um instante. — Quais são as reais possibilidades?

O Dr. Whitney foi m eticuloso em suas palavras:

— Com a cirurgia, algum as. Sem a cirurgia, nenhum a. Há um trabalho avançado que se vem realizando neste cam po, m as infelizm ente ainda não chegou a resultados concretos. Li há cerca de um ano que o Dr. Maurice Duval, de Paris, desenvolvera um a nova técnica, cirurgia e im plantes em com binação com engenharia genética. Mas suas experiências, àquela altura, em bora plenam ente bem -sucedidas, haviam envolvido m am íferos que não o hom em . Conversei a respeito com vários cirurgiões locais altam ente credenciados, que tam bém haviam tom ado conhecim ento dos progressos de Duval. Mas todos acharam que a técnica ainda não está pronta para ser aplicada a seres hum anos. E com o o tem po é essencial, só nos resta a cirurgia que conhecem os e com a qual podem os contar, substituindo-se a parte afetada do fêm ur. Dá certo algum as vezes.

— Algum as vezes... — repetiu Am anda, apaticam ente.

— Deixe-m e ser m ais preciso, baseado nos precedentes dessas cirurgias. Se efetuada im ediatam ente, antes que haj a m ais deterioração, Ken pode ter um a chance de 30 por cento de se livrar de seu câncer e voltar a levar um a vida norm al. Mas perm anece o fato de que, estatisticam ente, haveria 70 por cento de possibilidade de fracasso. Não obstante, repito, não resta opção que não seguir em frente.

— E quando será a operação? O Dr. Whitney franziu o rosto.

— Não sabem os. A cirurgia estava m arcada para esta sem ana, m as a operação foi cancelada.

Am anda avançou para a beira da cadeira.

— Mas por que, pelo am or de Deus?

— É o m otivo pelo qual a cham ei hoj e, com o a pessoa m ais íntim a de Ken, a fim de discutir o problem a. — O Dr. Whitney lim pou a garganta e desviou os olhos. — Estive ontem com Ken e descrevi-lhe pela últim a vez o que tinha de ser feito. Ele aprovou tudo, aprovou a cirurgia. Esta m anhã, porém , m e telefonou. Mudara de ideia, não m ais faria a operação.

Am anda estava chocada.

— Com o? Ele não quer m ais fazer a operação? Não falei com Ken esta m anhã... ele ainda dorm ia quando saí... e por isso não sei de nada. Mas não faz sentido. Tem certeza? Já havíam os concordado que a cirurgia era a sua única possibilidade.

— Ao que parece, Ken não pensa assim . Ele acha agora que há um a opção m elhor. Já leu o j ornal de hoj e?

— Ainda não.

— Pois dê um a olhada.

O Dr. Whitney pegou o Tribune de Chicago e estendeu para Am anda. Ela viu a prim eira página e ficou ainda m ais aturdida.

— Só tem um a m anchete sobre Lourdes.

— Abra na terceira página e leia a história com pleta. Am anda abriu o j ornal e lá estava a m atéria:

VIRGEM MARIA VOLTARÁ A LOURDES.

A história que se seguia era assinada por um a m ulher cham ada Liz Finch e fora despachada de Paris.

Am anda leu tudo rapidam ente. Quando acabou, largou o j ornal no chão e fitou o Dr. Whitney nos olhos. Sentia-se consternada, enquanto absorvia todas as im plicações do que estava acontecendo.

— A Virgem Maria voltando a Lourdes para realizar um m ilagre? A alucinação de um a cam ponesa adolescente há m ais de um século? Está querendo m e dizer que Ken leu e acreditou nisso?

— Exatam ente.

— Ken confiando num m ilagre para salvá-lo, ao invés da cirurgia? Dr. Whitney, isso não é coisa de Ken. Sabe que não é. Ele não acredita em m ilagres. Quase não frequenta a igrej a. Conhece-o bastante bem . É um hom em racional, lógico, inteligente...

— Não, não é m ais — interrom peu-a o m édico. — Não quando se encontra tão desesperado.

— Mas estou lhe dizendo que isso não é típico de Ken!

— Conhece a m ãe dele bastante bem , não é m esm o? E sabe com o Helen Clay ton é um a crente fervorosa. Pode im aginar com o esta história afetou-a? Lançou-se em cim a de Ken im ediatam ente. Com o ela não gosta das possibilidades da cirurgia, chegou à conclusão de que Lourdes proporcionará ao filho um a chance m elhor de recuperação total. Ela j á m andou Ken procurar o Padre Hearn, que é o sacerdote da fam ília. Foi depois de conversar com o Padre Hearn que Ken m e telefonou e suspendeu a cirurgia. E m e disse que vai para Lourdes. Sofreu um a verdadeira lavagem cerebral e pensa agora que existe um a boa possibilidade de alcançar um a cura m ilagrosa. E não adianta argum entar com ele. Não se pode argum entar com a fé cega. Mesm o quando é tão desarrazoada.

Am anda ficou im óvel, apertando a bolsa, profundam ente abalada.

— Dr. Whitney, tento lidar com as realidades em m eu trabalho. Sabe que sou psicóloga, não é m esm o?

— Sei, sim .

— Talvez isto sej a um a aberração m om entânea de Ken que logo passará. Mas deixe-m e fazer um a pergunta. O que aconteceria se o deixássem os ir a Lourdes, rezar por um m ilagre, acreditar nesse conto de fadas, até constatar pessoalm ente que não o curou? Ele não poderia voltar depois, recuperando o bom senso e se subm etendo à cirurgia?

— Devo ser absolutam ente franco, Srta. Spenser. E repetirei o que j á disse antes. Neste tipo de doença, o tem po é essencial. A perda de um m ês inteiro pode fazer com que Ken se torne quase inoperável; ou pelo m enos reduzirá as suas possibilidades de um a cirurgia bem -sucedida de 30 para 15 por cento. Suas chances de sobrevivência j á são m ínim as. A redução pela m etade é algo drástico. Esses são os fatos. A m enos que sej a salvo por um m ilagre, Ken não será salvo por nada. Lam ento m uito, m as tinha de inform á-la dos acontecim entos e da atual situação. Espero que possa influenciar o pensam ento de Ken. Minha últim a esperança é que possa de algum a form a fazê-lo m udar de ideia.

Am anda levantou-se, resoluta,

— Tom arei um a providência a respeito. E im ediatam ente. O Dr. Whitney tam bém se levantou.

— Vai falar com Ken ou com a m ãe?

— Com nenhum dos dois. Seria im possível um a conversa com eles no estado em que se encontram no m om ento. Falarei com o Padre Hearn. Im ediatam ente. Ele é nossa única esperança.

Foi som ente ao final da tarde que Am anda Spenser conseguiu m arcar um a reunião com o Padre Hearn. Mesm o assim fora difícil, com tão pouca antecedência. Mas ela invocara sua am izade com Bernard e Helen Clay ton e explicara seu relacionam ento com Ken Clay ton.

De certa form a, no entanto, a dem ora fora um a boa coisa.

Depois de m arcar o encontro, Am anda com preendera que estava despreparada para debater com um sacerdote católico instruído sobre Lourdes e curas m ilagrosas. Em bora tivesse um conhecim ento vago de Bernadette e suas visões, provavelm ente por ter visto um a vez o film e A Canção de Bernadette, exibido pela televisão quando estava na universidade, nada sabia a respeito do próprio santuário m ilagroso.

Com o o Padre Hearn não poderia recebê-la antes das quatro e m eia da tarde, ela dispunha de cinco horas para se inform ar a respeito. Gastou m ais de um a hora desse tem po para telefonar à sua secretária e providenciar para que todas as sessões com seus pacientes naquela tarde fossem canceladas e depois para com er um a salada e tom ar duas xícaras de café num a lanchonete apinhada.

Depois, passara quatro horas na sala de leitura da Biblioteca Pública de Chicago, lendo superficialm ente os poucos volum es disponíveis sobre Bernadette e Lourdes. Passara por Bernadette of Lourdes (Bernadette de Lourdes), de Francês Parkinson Key es, que era favorável, The Happenings at Lourdes (Os Acontecim entos em Lourdes), de Alan Neam e, que era im parcial, e Eleven Lourdes Miracles (Onze Milagres de Lourdes), do Dr. D.J. West, que era contrário, e fizera algum as anotações. Quando se aproxim ou o m om ento da reunião com o Padre Hearn, ela sentia-se suficientem ente inform ada para argum entar obj etivam ente num a discussão do assunto.

A Igrej a do Bom Pastor ficava perto do Lincoln Park e dispunha de estacionam ento próprio. A casa de culto, por seu tam anho e exterior bem cuidado, era obviam ente frequentada e sustentada por um a congregação rica. Am anda podia com preender que seus futuros sogros não pertencessem a nenhum a outra.

Recusando-se a ficar intim idada pelo esplendor, Am anda entrou e foi encam inhada à sala ocupada pelo Padre Hearn. Era um hom em de rosto cheio, barrigudo e am ável. Em contraste com a igrej a, a sala parecia m odesta. Cortinas cinzentas sim ples em olduravam as j anelas. Havia um a lareira e por cim a um grande crucifixo de bronze, apresentando um alongado Salvador na Cruz, ao estilo de Giacom etti. O Padre Hearn ofereceu a Am anda um a cadeira forrada de veludo ao lado da m esa, depois ocupou a cadeira de encosto alto por trás.

Na parede estava pendurada um a fotografia em oldurada do Papa João Paulo III. O Padre Hearn foi franco e afável:

— Norm alm ente não sou tão difícil assim de receber os outros; Gosto de conversar com as pessoas e raram ente restrinj o as visitas. Mas hoj e foi um dia excepcionalm ente m ovim entado. Lam ento lim itar sua visita, Srta. Spenser, m as só fui capaz de recebê-la hoj e por um verdadeiro golpe de m ágica. Assim , só posso lhe conceder 20 m inutos. Talvez em outra ocasião possam os...

— Não haverá necessidade — interrom peu-o Am anda. — Vinte m inutos serão suficientes.

Ela refletiu que não podia desperdiçar um segundo sequer. Devia levantar a divergência potencial o m ais depressa possível.

— Com o eu lhe disse pelo telefone, sou a noiva de Ken Clay ton.

— Tenho o m aior prazer em conhecê-la finalm ente. Já m e falaram a seu respeito. E eu havia sido escolhido para celebrar o casam ento. Espero ainda fazê-lo, em algum a data posterior.

— Sabe então da doença de Ken... o seu câncer?

— Fui inform ado pelos pais. E agora o próprio Sr. Clay ton m e falou. Presum o que saiba que ele veio m e procurar esta m anhã. E conversam os longam ente sobre o seu estado.

— É por isso que estou aqui... para discutir o problem a m ais a fundo.

— Fico satisfeito por esta oportunidade de conversarm os — garantiu o Padre Hearn, ansiosam ente.

O rosto cheio e liso m antinha-se im passível, não revelando qualquer pretensão de saber o m otivo da visita. Mas Am anda tinha certeza de que encobria um a com preensão sagaz de seu obj etivo ao solicitar o encontro.

— Não tenho a m enor ideia se sabe algum a coisa a m eu respeito — disse ela. — Foi inform ado que sou um a psicóloga clínica?

A boca do Padre Hearn se contraiu. Um a ligeira sugestão de surpresa.

— Não, não creio que tenham m e contado.

— Tenho um a clínica particular e dou aulas na Universidade de Chicago. Ensino psicologia clínica, psicologia anorm al, teoria da personalidade. Só estou dizendo isso porque quero que com preenda que m inha preocupação por Ken é a de um a m ulher que o am a, m as tam bém de um a pessoa que pode analisar a doença dele de m aneira obj etiva. Padre, está a par da gravidade da doença, não é m esm o?

— Estou, sim , Srta. Spenser. Lam ento pelo sofrim ento do Sr. Clay ton e tam bém pelo seu. E farei orações por sua recuperação rápida e com pleta.

— E m uita bondade sua, Padre Hearn, e fico agradecida. — Am anda tentou se controlar, evitando que qualquer vestígio de sarcasm o transparecesse em sua voz. — Por m ais prestim osas que sej am as orações, no entanto, receio que Ken vá precisar m ais do que isso. Sua única esperança concreta, sua única esperança, está num a cirurgia im ediata. Ele estava pronto para se subm eter à cirurgia até que lhe falou esta m anhã. Agora, Ken cancelou a operação e parte em busca de um m ilagre. Para m im , padre, essa decisão é suicida e profundam ente lam entável. Som ente através de um a operação...

O Padre Hearn interrom peu-a:

— Srta Spenser, não tentei absolutam ente dissuadir o Sr. Clay ton de se subm eter à cirurgia. Não é da m inha com petência j ulgar o desej o de um paroquiano de buscar aj uda na profissão m édica. Foi um a decisão a que o próprio Sr. Clay ton chegou. Quando conversam os esta m anhã, ele tinha m uitas apreensões sobre as possibilidades de sucesso da cirurgia. Disse que, se se subm etesse a um a operação agora, estaria sacrificando um a oportunidade concedida por Deus de estar em Lourdes por ocasião da visitação da Virgem Maria. Depois da cirurgia, ficaria convalescente, acam ado, não poderia rezar diretam ente à Virgem Abençoada por um a cura m ilagrosa de sua doença possivelm ente fatal. O Sr. Clay ton fez a opção por conta própria, Decidiu entregar a vida nas m ãos de Nosso Senhor e da Mãe do Céu, num santuário cristão que tem proporcionado, e proporcionado constantem ente, curas m ilagrosas a peregrinos aflitos do m undo inteiro.

Am anda sentiu um im pulso de raiva e im paciência que transcendeu ao seu controle. Havia um a vida em j ogo, um a vida hum ana, aquele paspalhão devoto tentava m enosprezar o problem a com banalidades.

— Padre Hearn, não acredita em tudo isso, não é m esm o? Por um m om ento, o padre ficou aturdido.

— Com o assim ... não acredita em quê?

— Que essa pastora analfabeta realm ente viu a Virgem Maria? Espere um pouco, deixe-m e term inar, deixe-m e esclarecer m eu pensam ento, pois não quero absolutam ente ser desrespeitosa. Mesm o presum indo que houve um a aparição física da Virgem Maria, Bernadette seria um a m edíocre escolha para vê-la ou transm itir sua m ensagem . Por m inhas leituras, pelas evidências disponíveis, parece óbvio que Bernadette se enquadra perfeitam ente na categoria das histéricas. Lá estava ela, naquela aldeia atrasada, um a cam ponesa m eio fam inta, sem pre doente, sem i-ignorante, um a pequena adolescente fam inta de atenção e am or. Era o tipo ideal para ter alucinações, desej ar ter e assim inventar um a linda am iga com o a Virgem Maria, convencer-se de que realm ente a vira e conversara. Bernadette iludiu-se a pensar que vira m esm o o que alegava, prim eiro ela própria e depois os outros, que tam bém se encontravam ansiosos em se iludirem , acreditando nisso, a fim de atender a suas próprias necessidades pessoais.

Am anda fez um a pausa respirando fundo.

— Padre, espera m esm o que eu ponha a vida da pessoa que m ais am o neste m undo nas m ãos de um a adolescente instável que viveu há 130 anos? Pode esperar que eu acredite que Ken ou qualquer outra pessoa com um a doença grave m edicam ente determ inada, possivelm ente incurável, venha a ser curada por orações de j oelhos em algum a caverna francesa, só porque um a cam ponesa sim plória, com a cabeça repleta de sonhos, alegou que ali vira e conversara por 18 vezes com a Mãe de Jesus?

Esgotada, Am anda recostou-se na cadeira, esperando ter resistência suficiente para enfrentar a tem pestade que certam ente se seguiria. Mas, para sua surpresa, o Padre Hearn não dem onstrou qualquer ira. Parecia calm o, a própria im agem da racionalidade. O tom de sua resposta foi sereno e firm e:

— Se a Virgem não apareceu na gruta, para ser vista e ouvida por um a crente pura e inocente, e não dotasse a gruta com poderes especiais, com o explicar os fatos científicos, os fatos m édicos, que foram produzidos nas décadas transcorridas desde então? Com o explicar o fato de que quase 70 pessoas tiveram um a cura m ilagrosa do que fora diagnosticado por m édicos em inentes de m uitas nações com o um a doença incurável? Com o explicar que em todos esses casos term inais os m elhores m édicos do m undo certificaram que o paciente se achava totalm ente curado, não pela m edicina, m as pelo poder do m ilagroso? Com o explicar os cinco m il outros casos de pessoas aleij adas ou agonizantes que se inform aram com pletam ente curadas por causa da gruta em Lourdes?

Am anda j á tirara da bolsa as anotações que fizera na biblioteca. Exam inando-as rapidam ente, ela disse:

— Li um estudo feito por um m édico sobre 11 das supostas curas m ilagrosas em Lourdes. Ele form ulou a seguinte indagação: "Houve um a m udança física real ou foi tudo psicológico?" Chegou à conclusão de que todas ou a m aioria das supostas curas foram de doenças induzidas pela histeria, efeitos físicos de distúrbios em ocionais com o a depressão, ansiedade ou tensão, que afetam o coração, vasos sanguíneos, rins e assim por diante. Esse m édico escreveu:"Sob hipnose e recebendo as sugestões apropriadas, há casos conhecidos de pacientes que produziram bolhas correspondentes a queim aduras originárias e até desenvolveram equim oses e hem orragias externas."

Da m esm a form a, sob a influência hipnótica de Lourdes, enferm idades agravadas pela im aginação podem ser m elhoradas e curadas pela im aginação. Não é com um , m as acontece com bastante frequência para fazer com que os crentes pensem que se tratam de m ilagres súbitos.

— Suponho que não acredita absolutam ente em m ilagres — com entou o Padre Hearn, ironicam ente.

— Padre, na m inha profissão j á vi m uitas casos... e li m uitos outros... em que o m ental exerceu um a forte influência sobre o físico. Mas não se pode contar com a cura m ental, especialm ente num caso com o o de Ken, quando ele sofre de câncer ósseo absolutam ente real. Estou disposta a confiar a vida de Ken ao bisturi de um cirurgião. Mas não posso confiá-la a um a fábula im aginativa. Não, padre, não acredito em m ilagres.

— Mas não veio aqui para discutir com igo, não é m esm o?

— Vim porque presum i que é um hom em racional e lógico, independente de sua profissão. Esperava que dissuadisse Ken da ideia de entregar sua vida a um a cura m ística em Lourdes, convencendo-o a aceitar novam ente a cirurgia. Esperava que m e com preendesse e esperava que m e aj udasse.

O Padre Hearn perm aneceu em silêncio por m uitos segundos, antes de responder:

—Não posso aj udá-la, Srta. Spenser, porque não a com preendo, assim com o tam bém não pode m e com preender. Falam os línguas diferentes. A m inha só se expressa em palavras de fé, um a fé irrestrita e a crença em Deus, no Senhor, na Virgem Maria, nas m aravilhas e m ilagres que decidem realizar. Se não com preende a m inha língua, não há m ais nada que possam os dizer um ao outro.

Am anda sentiu-se nauseada.

— Está querendo dizer que não há a m enor possibilidade de que venha a tentar dissuadir Ken de fazer a peregrinação a Lourdes e esperar pela Virgem e seu m ilagre?

— Não, não há qualquer possibilidade. Já consegui incluir o Sr. Clay ton num a peregrinação oficial britânica a Lourdes, prom ovida por um antigo colega e am igo, Padre Woodcourt, de Londres. Rezarei para que a peregrinação do Sr. Clay ton sej a coroada de êxito.

Am anda suspirou e levantou-se.

— Quer dizer que j á fez a reserva dele?

— Já, sim . Num a peregrinação que segue de Londres para Paris e Lourdes. A reserva está garantida.

Am anda encam inhou-se para a porta, m as tornou a se virar antes de sair, dizendo:

— Eu agradeceria se conseguisse duas.

— Duas?

— Duas reservas. Um a para Ken e a outra para m im . Não posso perm itir que aquele tolo assum a esse risco sozinho. Obrigada, padre. E espero que a próxim a vez em que nos encontrarm os não sej a num funeral.

Sentado na lim usine Cadillac que o levava do prédio da ONU ao consulado soviético, na Rua 67 — Oeste, na cidade de Nova York, Sergei Tikhanov ainda experim entava um a sensação de exultação pela excelente recepção ao seu discurso, especialm ente pelos delegados do bloco do Terceiro Mundo. O em baixador soviético na ONU, o afável Alexei Izakov, pronunciava os discursos rotineiros, m as era Tikhanov, com o veterano m inistro do Exterior da União Soviética, quem era sem pre enviado a Nova York para apresentar os pronunciam entos públicos m ais cruciais.

O discurso daquela m anhã, sobre a continuação da confrontação de arm as nucleares com os Estados Unidos, fora crucial e transcorrera m uito bem . Se Tikhanov tinha quaisquer restrições ao discurso era o fato do Prim eiro-Ministro Skry abin ter im posto lim itações ao conteúdo e às invectivas que poderiam ser usadas. Era um a coisa que irritava Tikhanov, a política branca e conciliatória de seu superior em relação aos am ericanos. Tikhanov conhecia os am ericanos m elhor do que qualquer outro na hierarquia do Krem lin e sabia que eles eram com o crianças, só reagiam à firm eza e am eaças. Mesm o assim , apesar de todas as lim itações, ele tinha certeza de que o seu discurso de exposição de política fora eficaz.

A única outra coisa que incom odara Tikhanov no discurso fora a m aneira rude com que havia sido tratado pelo principal m em bro de sua própria delegação. No m eio do retum bante» pronunciam ento, o Em baixador Izakov se levantara abruptam ente e se retirara. Tikhanov ficara m om entaneam ente em baraçado por esse com portam ento grosseiro.

Tencionava dizer isso a Izakov e esperava um pedido de desculpas, a m enos que o em baixador tivesse algum a desculpa aceitável a apresentar.

Talvez houvesse um a desculpa aceitável. Porque no m om ento em que o próprio Tikhanov deixara o auditório da ONU e os aplausos fora interceptado por um m em bro de sua delegação, com a m ensagem de que o Em baixador Izakov queria lhe falar im ediatam ente no consulado. Talvez houvesse algum a em ergência que afastara o em baixador de seu discurso, especulou Tikhanov.

Agora, quase inconsciente da presença do segurança do KGB ao seu lado, ansioso em saber o que Izakov tinha a lhe falar, Tikhanov inclinou-se para a frente no banco de trás, espiando entre o m otorista e o segundo segurança do KGB para o prédio do consulado soviético logo à frente.

Tikhanov encontrou inesperadam ente na sala de recepção do consulado um im paciente Izakov a esperá-lo. Apressadam ente, o em baixador levou-o para a sua sala segura, eletronicam ente protegida contra aparelhos de escuta.

Sem se dar ao trabalho de sentar ou esperar que Tikhanov se acom odasse, o Em baixador Izakov, parecendo m uito tenso, com eçou a falar:

— Sergei, m inhas desculpas por ter saído no m eio de seu m agnífico discurso.

Mas fui cham ado por um telefonem a urgente de Moscou, diretam ente de Kossoff.

O General Kossoff era o diretor do KGB e agora Tikhanov passou a escutar atentam ente.

— É o Prim eiro-Ministro Skry abin — explicou o em baixador. — Ele sofreu um derram e. Está em com a.

— Um derram e... — repetiu Tikhanov. — Estou acostum ado a seus pequenos ataques cardíacos... Mas um derram e... Qual é a gravidade?

— Foi m aciço. O que quer que aconteça, o velho está liquidado. Se sair do com a, recuperar-se, será um vegetal, com pletam ente incapacitado. Ou pode perm anecer em seu estado atual. Na m elhor das hipóteses, os m édicos não lhe dão m ais que um m ês de vida.

— Um m ês... — m urm urou Tikhanov, tentando pensar obj etivam ente.

— Seu sucessor tem de ser alertado e colocado de prontidão, Foi por isso que o General Kossoff telefonou. Queria que você fosse inform ado que um a votação secreta inform al do Politburo apontou-o de form a absoluta com o o próxim o prim eiro-m inistro da União Soviética. Meus parabéns, Sergei!

Ele estendeu a m ão e Tikhanov apertou-a, m eio contrafeito, balançando a cabeça. Tikhanov sentia-se tonto.

— Eu... preciso sentar...

Com o se sofresse um a vertigem , Tikhanov foi até o sofá, apoiou-se num braço e arriou na alm ofada.

— Deixe-m e servir-lhe um drinque — disse Izakov, num ânim o festivo. — Para nós dois.

Ele encam inhou-se para o bar.

— Farem os um brinde. — Do bar, o em baixador perguntou: Vodca? Tenho Stolichnay a.

— Vodca está bom ... um a dose dupla.

Enquanto servia os drinques, Izakov continuou a falar:

— Quais são os seus planos agora, Sergei? Kossoff queria saber. Mas eu não tinha a m enor ideia de qual seria a sua reação.

— Não haverá m udanças. Ainda passarei dois dias em Paris. E dois dias em Lisboa. E m inha esposa irá se encontrar com igo depois na dacha em .Yalta. Achei que seria m elhor tirar agora as m inhas quatro sem anas de férias de verão. O Mar Negro está m aravilhoso nesta época.

Izakov aproxim ou-se com o drinque.

— Talvez você devesse voltar direto para Moscou. Tikhanov pensou a respeito por um m om ento.

— Não... Creio que não seria sensato dar a im pressão de que estou na expectativa. E tam bém não quero m e envolver na política interna do Politburo, especialm ente neste m om ento. Manterei os m eus planos. Irei para Yalta e ficarei esperando. Kossoff pode m e encontrar lá, se quiser.

— Ele vai querer — garantiu Izakov. — Assim que o velho m orrer, você será instalado com o prim eiro-m inistro.

— Obrigado — m urm urou Tikhanov, m odestam ente.

Ele com eçava a sentir um certo excitam ento. Trabalhara arduam ente, esperara por aquilo durante m uito tem po. Não se im portava absolutam ente com a m orte do velho. Afinal, nunca respeitara nem gostara de Skry abin. Fora som ente o alto cargo e a autoridade de Skry abin que respeitara e sem pre sonhara em alcançar. E agora, abruptam ente, era tudo seu.

Tom ando a vodca, ele percebeu que Izakov voltara a lhe falar, dizendo que precisava resolver um problem a em outra sala, m as logo voltaria.

Tikhanov sentiu-se satisfeito por ficar sozinho durante um breve intervalo. Estava dom inado por um a necessidade com pulsiva de reconstituir o cam inho que o levara àquele m om ento. Nascera num a fazenda isolada, hoj e a apenas um a hora de carro de Minsk. O pai im passível, dono da fazenda, fora um hom em decente, indiferente à política, um trabalhador do solo e um prim itivo. A m ãe gostava de ler e era professora na escola prim ária de um a aldeia próxim a. Desde pequeno que Tikhanov sabia ler, devorando os j ornais e as biografias dos heróis soviéticos. Seu prim eiro e m ais persistente herói fora o legendário Ministro do Exterior da Rússia Andrei Grom y ko.

Tikhanov prom etera a si m esm o que seguiria os passos de Grom y ko. Fora o que fizera desde o início e ao longo de todo o percurso, da m elhor form a que era possível. Com o Grom y ko, ele ingressara no Partido Com unista, cursara o Instituto de Agricultura de Minsk, tentara e conquistara um curso de pós-graduação no Instituto de Econom ia Lenin, em Moscou. Com o Grom y ko, ele quisera se especializar em problem as am ericanos e acabara sendo designado para a divisão am ericana do Conselho Nacional de Negócios Exteriores. Fora depois transferido para a Em baixada Soviética em Washington e dem onstrara um a com preensão tão perspicaz dos am ericanos que acabara sendo prom ovido a em baixador nos Estados Unidos. Com o estadista, m ostrara-se discreto, m as obj etivo e eficaz. Com o seu ídolo, passara a ser conhecido, nas palavras de um j ornal am ericano, pela "solenidade de granito de seu rosto". Depois de alguns anos, fora cham ado a Moscou e se tornara o titular do Ministério das Relações Exteriores, na Sm olenskay a-Sennay a Ploshchad, 32-34. Na década que transcorrera desde então, ele se tornara o m aior m inistro do Exterior da União Soviética e o m ais adm irado pela m aioria dos m em bros do Politburo. Se quisesse subir ainda m ais, só havia um posto que poderia ocupar... e sonhara em conquistar esse poder.

Agora, estava ao seu alcance. Tom ando a vodca, ele com preendeu que teria o poder para aplicar as suas ideias sobre a m aneira de tratar o m aior rival e inim igo da Rússia, os Estados Unidos. Haveria um a nova firm eza no Krem lin. Levaria os Estados Unidos a ficarem de j oelhos, haveria de neutralizá-los, sem guerra, porque observara os am ericanos atentam ente e sabia m elhor do que qualquer outra autoridade soviética que os am ericanos eram egoístas e fracos, carecendo de coragem ou patriotism o, não m ais dispostos a m orrerem por seu país, tão decadentes quanto haviam sido os antigos rom anos. A ascendência sobre a Am érica traria paz duradoura ao m undo e o Prim eiro-Ministro Tikhanov seria o herói m ais idolatrado da União Soviética, e tam bém o senhor do m undo.

Ele em ergiu de seu devaneio ao term inar o drinque, consciente de que o Em baixador Izakov estava outra vez parado à sua frente.

— E então, Sergei, j á reconsiderou os seus planos? Ainda vai para Yalta?

— Exatam ente. E acho que m anterei m inha program ação de visitas a Paris e Lisboa antes. Seu pessoal pode m e arrum ar um vôo para Paris esta noite?

— Não há problem a. Presum o que vai querer falar com o General Kossoff em Moscou antes de partir, só para que ele saiba que foi inform ado e onde poderá ser encontrado.

— Claro.

— Ah, sim ... — acrescentou Izakov. — Eu j á ia esquecendo. Minha secretária anotou outro dia um recado para você. Um certo Dr. Ivan Karp quer que você vá procurá-lo hoj e.

— Ligarei para ele.

Izakov fora até sua m esa pegar o papel com o recado e releu-o, enquanto voltava para j unto de Tikhanov.

— Parece que ele foi categórico ao dizer que desej ava vê-lo pessoalm ente. — Ele entregou o recado ao m inistro do Exterior, que estava com o rosto franzido. — É claro que você deve saber se é im portante o bastante para se incom odar.

— Não é im portante — disse Tikhanov rapidam ente. — Apenas a inform ação sobre os resultados de um exam e de rotina. Pode deixar que falarei com ele.

Mas Tikhanov sabia que essa explicação podia não ser suficiente. Tinha certeza de que Izakov rem etia relatórios regulares sobre as atividades de todos ao KGB. Obviam ente, Izakov nunca ouvira falar do Dr. Karp e podia estar curioso. Nesse caso era bobagem , m as Tikhanov gostava de ser m etódico.

— Meu m édico em Moscou não estava na cidade quando parti e eu sabia que m eu exam e m édico anual j á se achava bastante atrasado. Alguém com entou que, com o eu vinha para Nova York, esse Dr. Karp, um russo por nascim ento, era de confiança. Por isso, visitei-o rapidam ente no dia em que cheguei. Ele é um tanto m eticuloso e pedante. Acho que é por isso que desej a m e ver pessoalm ente. Mas será a m esm a coisa de sem pre. Mais exercício. Dieta. Menos bebida.

— Eles sem pre dizem para a gente beber m enos — concordou Izakov.

— Darei um j eito de procurá-lo depois das cinco horas... ainda tenho m uito o que fazer hoj e... e quero estar livre a tem po de não atrasar o nosso j antar. — Ele largou o copo vazio. — Falarei com o Dr. Karp e depois ligarei para Moscou.

Tikhanov sentou-se à m esa de j antar pequena na alcova j unto à sala do Dr. Ivan Karp, no quarto andar de um prédio antigo, perto da esquina da Park Avenue, im pacientem ente esperando que o m édico term inasse seu ritual de despej ar o chá forte do bule de porcelana no velho sam ovar de latão.

Tikhanov resolvera fazer um exam e m édico de rotina porque estava atrasado há m uito e porque se sentia perturbado por um a pequena ansiedade com algum a dificuldade no andar. Não pensara em procurar um m édico estrangeiro no exterior. Sua intenção era fazer todos os exam es necessários com seu m édico regular em Moscou. Mas este deixara a cidade em férias e a viagem a Nova York fora decidida quase da noite para o dia. Tikhanov planej ara inicialm ente consultar o m édico perm anente da m issão soviética na ONU. Mas m udara de ideia, porque sabia que o m édico da m issão era certam ente um agente do KGB. E Tikhanov resolvera procurar um am ericano que fosse de confiança e que não com unicasse os seus m aus hábitos ao KGB. Um com panheiro de xadrez em Moscou, um com erciante que visitava Nova York com frequência e am igo antigo de Tikhanov, recom endara que ele procurasse o Dr. Ivan Karp. Esse Karp, um em igrado j udeu de m uitos anos, agora um cidadão am ericano, era intelectualm ente sim pático à filosofia m arxista.

Ao chegar a Manhattan, Tikhanov entrara em contato com o Dr. Karp, que concordara em fazer um exam e geral, num m oderno centro m édico no centro da cidade. Deixando os seus seguranças na sala de espera, Tikhanov subm etera-se a exam es m eticulosos. Ao final, Karp dissera que desej ava levar o paciente a um andar superior, a fim de serem efetuados novos testes por um colega que era neurologista.

— Mas não tem os de levar tam bém todos os seus seguranças do KGB, não é m esm o? — indagara Karp. — Podem os sair sem que nos vej am pela porta particular da m inha sala.

Tikhanov concordara prontam ente com a sugestão.

Agora, introduzido na sala do Dr. Karp para tom ar conhecim ento dos resultados dos exam es, Tikhanov com eçava a se irritar com os m ovim entos lentos e deliberados do m édico. Queria acabar logo com aquilo, sair a tem po para o j antar, depois partir para Paris, Lisboa e Yalta, onde aguardaria ser convocado para assum ir o poder.

Ele observou o Dr. Karp, um hom em pequeno, com um a barba pequena e pontuda, aj eitar a xícara de chá e um pratinho com biscoitos kvhorost.

— Obrigado — disse Tikhanov. — Não tenho m uito tem po, doutor. Seria m elhor conversarm os im ediatam ente. Com o há sem pre algum a coisa, o que é desta vez? Pressão alta? Um sopro no coração? Um indício de diabetes?

Sentado em frente a ele, o Dr. Karp term inou de tom ar o chá e disse gentilm ente:

— Eu gostaria que fosse tão sim ples.

— Com o assim , doutor? Há m ais algum a coisa errada?

O Dr. Karp refletiu por um m om ento.

— Há, sim . Devo ser franco. Há algo que causa m uita preocupação. E quanto m ais cedo você souber, m elhor. Deixe-m e acrescentar que não é um problem a im ediato, m as a longo prazo...

A im paciência de Tikhanov se transform ara num a ansiedade crescente. Tentou disfarçar o m edo com um com entário j ovial:

— Alguém disse certa vez... a longo prazo, todos estarem os m ortos.

O Dr. Karp ofereceu-lhe um sorriso contrafeito.

— Tem razão. E fico contente que torne tudo m ais fácil para m im .

— Mas qual é o problem a afinal?

— Os exam es indicam , sem a m enor som bra de dúvida, que você sofre de um a distrofia m uscular.

Tikhanov sentiu que o fôlego lhe faltava, a ansiedade alcançava um auge.

— Um a o quê? — ele perguntou, de m aneira quase inaudível. É claro que j á ouvira falar do problem a, m as não tinha um a noção precisa do que significava. Agora, parecia algo terrível, sinistro. O Dr. Karp passou a falar m ais depressa, m ais profissionalm ente:

— A m aioria dos casos de distrofia m uscular se enquadra em um a de quatro categorias. A sua categoria é conhecida com o tipo m isto. A doença envolve o definham ento sim étrico progressivo dos m úsculos esqueléticos, nas pernas e braços.

Tikhanov recusou-se a aceitar o diagnóstico.

— Deve estar enganado, Dr. Karp. Verificou m eus m úsculos das pernas e braços? São fortes... m ais fortes do que nunca.

— Um sintom a típico e enganador. Os tecidos de ligação e depósitos de gordura fazem os m úsculos parecerem m aiores e m ais fortes. Mas não é isso o que acontece na realidade. Os m úsculos estão definhando.

Tikhanov não queria se render.

— Com o pode ter certeza?

— Sei que é um golpe terrível, Sr. Tikhanov. Mas os resultados dos exam es não deixam qualquer dúvida. Não podem os negar as descobertas da eletrom iografia, que confirm am a biopsia m uscular positiva. Pode esperar um a deterioração m uscular progressiva. E nesse tipo de distrofia os m úsculos voluntários seriam os m ais afetados.

Tikhanov levantou-se abruptam ente, em desespero, vasculhou os bolsos do paletó à procura do m aço de cigarros. Com a m ão trêm ula, ele levou o isqueiro ao cigarro. E disse, perm anecendo de pé:

— Muito bem . O que posso fazer?

— Infelizm ente, não m uita coisa. Não há qualquer m eio conhecido de conter a deterioração. Contudo, pode-se fazer algum as coisas para... atenuar os sintom as, digam os assim . Um regim e de terapia física, exercícios, possivelm ente um a cirurgia. E é claro que levar um a vida m ais saudável. Se fizer tudo o que for necessário, poderá desfrutar m ais 10 ou 12 anos de um a vida tranquila, antes de se tornar totalm ente incapacitado.

— Esse é todo o tem po que quero, Dr. Karp.

— Pois terá, se se aposentar.

— Aposentar? Sabe m uito bem quem eu sou...

— Claro que sei. Já desfrutou m uitos anos de sucesso. Mas isso não pode continuar. Deve renunciar a seu cargo atual, aposentar-se e levar um a vida de lazer, subm etendo-se a toda terapia possível.

— E se eu não quiser m e aposentar? Ou se aceitar um posto ainda m ais ativo?

O Dr. Karp cofiou a barba pontuda, os olhos abaixados.

— A deterioração vai se intensificar, Sr. Tikhanov. Não sobreviverá m ais que dois ou três anos.

Tikhanov sentiu-se quase sufocado de raiva pela inj ustiça do que estava lhe acontecendo. Tornou a se sentar, ao lado do Dr. Karp, pegou-lhe o braço e apertou. -

— Não aceitarei isso. Não posso aceitar. Tem de haver algum m eio de deter a doença.

— Não conheço qualquer m édico no m undo inteiro que possa lhe dizer algo m ais além do que j á falei. Contudo, se quer obter um a segunda opinião...

— Isso seria inútil, pelo que está dizendo.

— É claro que existem uns poucos m édicos no m undo que alegara poder às vezes debelar a doença. Já enviei dois pacientes m eus, por insistência deles, a um conhecido especialista em rej uvenescim ento de Genebra, na Suíça. Ele afirm a que j á erradicou a doença algum as vezes. Não deu certo para os m eus dois pacientes. O que significa que essa terapia perm anece duvidosa, um tiro no escuro...

— Pois sugiro que este é um m om ento de tentar um tiro no escuro. Conhece esse especialista em rej uvenescim ento?

— Já falei com ele pelo telefone em diversas ocasiões, há alguns anos. Creio que se pode dizer que conheço o Dr. Motta.

— Pois então m e faça um favor, doutor. Ligue para Genebra e m arque um a consulta para m im .

— Não seria problem a... — O Dr. Karp olhou para o relógio.

— Mas a esta hora ele j á deve estar dorm indo.

— Acorde-o.

O Dr. Karp hesitava.

— Está insistindo? Am anhã seria...

— Eu insisto — disse Tikhanov, incisivam ente. — Acorde-o esta noite e m arque um a consulta para m im . Nada pode ser m ais im portante.

O Dr. Karp resignou-se ao pedido incôm odo.

— Está certo. Pode dem orar um pouco. Se não se incom oda de esperar...

— Posso lhe garantir que não tenho nada m ais vital para fazer. Tikhanov observou o Dr. Karp deixar a alcova, atravessar sua sala e desaparecer em outra.

Ele tom ou o chá m orno, tornou a encher a xícara com chá quente, bebeu, refletindo sobre a sua im inente m ortalidade e a possível perda de sua grande oportunidade. Ainda não se recuperara do choque inicial do diagnóstico. Ponderou sobre a opção que lhe surgia à frente. Aceitar um papel ativo de poder e todo o seu excitam ento, que não podia lhe prom eter m ais do que dois ou três anos, ou resignar-se um a vida inativa, que lhe daria 10 ou 12 anos. Ao contrário de m uitos russos, Tikhanov não era um fatalista. É verdade que a vida era agradável e haveria prazer em anos adicionais, m as ele se perguntava quanto prazer poderia ser extraído de dias sem trabalho, sem decisões, sem autoridade.

Em purrando a xícara de chá para o lado, ele pegou o isqueiro e acendeu outro cigarro. O fum o pareceu acalm á-lo e com a calm a veio m ais esperança. O seu futuro não podia certam ente repousar em duas opções insuportáveis. Em algum lugar do m undo tinha de haver alguém com os m eios para deter e elim inar a doença fatal, especialm ente no caso de um paciente com a sua estatura. Talvez houvesse algum cientista na União Soviética, com todos os seus progressos na m edicina, que pudesse aj udá-lo. Contudo, ele sabia instintivam ente que, se procurasse aj uda na pátria e m esm o que encontrasse um tratam ento para prolongar a vida, a notícia de sua saúde precária se espalharia e a carreira e avanço político estariam condenados. Os velhos do Politburo não haveriam de querer apostar num prim eiro-m inistro que j á tinha um problem a. O sigilo se sobrepunha a tudo o m ais. Teria de encontrar aj uda fora da pátria, entre estrangeiros que não tivessem qualquer ligação com o seu governo, ser tratado rápida e im ediatam ente. Naquele m om ento, o m édico suíço, o tal de Dr. Motta, oferecia a única esperança de salvar seu futuro.

Quase 20 m inutos transcorreram e Tikhanov especulava com o estaria o telefonem a para Genebra quando o Dr. Karp voltou. Sentou-se ao lado de Tikhanov, com um papel na m ão. Tikhanov ficou prontam ente alerta.

— Liguei para Genebra, acordei a Sra. Motta e falam os por algum tem po — disse o Dr. Karp. — O Dr. Motta deixou Genebra ontem e estará ausente por três sem anas.

— Para onde ele foi? — perguntou Tikhanov bruscam ente. — Pode ser alcançado?

— Ele foi para Biarritz... o balneário francês... a fim de tratar de um rico paciente indiano de Calcutá com suas inj eções de terapia celular. O Dr. Motta está com binando a visita com férias de que há m uito precisava. E deverá ficar por três sem anas no Hotel du Palais, em Biarritz.

— Mas ele m e receberá? — indagou Tikhanov, ansiosam ente.

— Não há problem a. É a esposa quem organiza seus com prom issos. E ela m arcou um a consulta para você na suíte do m arido, dentro de três dias, ao m eio-dia. Ela fala com o m arido diariam ente e lhe com unicará a consulta. A ocasião é conveniente?

— Qualquer ocasião é conveniente. —Tikhanov experim entou um alívio intenso, logo seguido por um a pontada de apreensão. — Não disse a ela quem eu sou, não é m esm o?

— Não, claro que não. Falei a prim eira coisa que m e ocorreu. Disse que era um conhecido professor am ericano de línguas e que ensinava russo. Inform ei que seu nom e era Sam uel Talley .

— Sam uel Talley ?

— O nom e m e ocorreu num súbito im pulso. Tem as suas iniciais, para o caso de ter m onogram as nas m alas ou roupas.

— Boa ideia.

— Vem da leitura de rom ances de espionagem e de detetive-com entou o Dr. Karp, com algum em baraço. — Com uniquei à Sra., Motta a natureza de sua doença. Ela transm itirá tudo ao Dr. Motta, na próxim a vez em que conversarem pelo telefone. Ele estará preparado para recebê-lo. E agora, se m e der m ais 15 m inutos, prepararei um sum ário do m eu diagnóstico para o Dr. Motta. Entregará a ele em Biarritz, j untam ente com os resultados dos exam es. — O Dr. Karp levantou-se e depois acrescentou: — Devo repetir que se trata de um tiro no escuro. Mas terá um a segunda opinião e, com um pouco de sorte, um a possível chance. Talvez tenha sorte... quem sabe? Só lhe resta tentar.

Para um hom em com o renom e e a posição de Tikhanov não foi fácil chegar a Biarritz em sigilo total.

Voou para Paris, instalou-se na Em baixada Soviética ali por algum tem po, passou o prim eiro dia na capital francesa, de acordo com as regras. Telefonou para o General Kossoff em Moscou e percebeu que a voz do diretor do KGB adquirira um respeito especial, com o convinha num a conversa com o próxim o prim eiro-m inistro. Tikhanov foi inform ado de que o Prim eiro-Ministro Skry abin ainda se encontrava em com a, num sistem a de sustentação da vida, m as seu fim era próxim o, no m áxim o um as poucas sem anas. Com a sua nova im portância, Tikhanov descobriu que era m ais fácil ser vago em relação à sua program ação. Ele falou em planos flexíveis, um a m issão secreta, um possível encontro com um grupo subversivo do Oriente Médio, um a estada m ais prolongada em Portugal. Prom eteu se m anter em perm anente contato com Moscou pelo cam inho e com unicar quando chegasse a Yalta.

Depois, Tikhanov aproveitou o tem po restante em Paris para desenvolver a identidade que assum iria em Biarritz. Não teve dificuldade em entrar em contato com elem entos com unistas franceses, que o encam inharam a pessoas apolíticas, capazes de lhe fornecerem um passaporte am ericano com o nom e de Sam uel Talley , além do cartão de segurança social e dos inevitáveis cartões de crédito.

No últim o dia em Paris, com a relutante aprovação de Kossoff, Tikhanov livrou-se dos seguranças do KGB, alegando que os subversivos do Oriente Médio com os quais se encontraria em segredo poderiam lhe proporcionar toda a segurança necessária.

Sozinho, sem recorrer à aj uda de ninguém , Tikhanov fez um a reserva num vôo da Air-Inter de Orly, em Paris, para Biarritz. Chegando sem qualquer problem a ao ensolarado balneário francês no sudoeste, ele pegou um táxi com um para o espetacular e antigo Hotel du Palais, que foi a residência de verão do Im perador Napoleão III e da Im peratriz Eugênia.

Com o Sam uel Talley, cidadão am ericano, Tikhanov registrou-se no hotel e foi conduzido a um quarto de casal, espaçoso e requintadam ente decorado, luxuoso dem ais para o seu gosto.

Um a hora depois, levando o envelope que o Dr. Karp lhe dera e usando com o disfarce os óculos de lentes grossas m as sem grau e um bigode postiço que arrum ara em Paris para encobrir a verruga bem conhecida por cim a do lábio superior, ele tocou a cam painha da suíte 310-311. Ficou surpreso quando a porta foi aberta por um a j ovem enferm eira, pequena e com penetrada, vestida de branco. Mas, depois, Tikhanov lem brou-se que o Dr. Motta se encontrava em Biarritz para aplicar inj eções a um rico indiano. Assim , era natural que trouxesse sua enferm eira suíça, em bora Tikhanov concluísse que ela era m uito j ovem e bonita para servir ao patrão apenas na qualidade de auxiliar m édica.

Tikhanov seguiu-a por um pequeno corredor interno que desem bocava na m aior sala de estar que ele j á vira num hotel ocidental.

— Se quiser esperar por um m om ento, Sr. Talley — disse a enferm eira — o Dr. Motta o receberá dentro de um m om ento.

Tikhanov encam inhou-se devagar, um pouco trêm ulo — o que fê-lo lem brar-se de sua doença — passando sob o lustre requintado e chegando a um a m esa antiga, na frente de um a j anela. Constatou que a sala era de canto, dando para um a piscina externa e um restaurante, em poleirado por cim a de um a praia arenosa, pontilhada de barracas. Mais além estava o Atlântico ondulado, estendendo-se até o horizonte azul.

Virando-se, Tikhanov inspecionou os m óveis da sala, um sofá dourado de três alm ofadas, duas poltronas tam bém douradas, com um a m esinha de tam po de vidro a separá-las, duas cadeiras prateadas, forradas de cetim . Obviam ente, o Dr. Motta era rico e bem -sucedido, o que Tikhanov com parava a estar nas m elhores m ãos e assim lhe oferecendo a prom essa de esperança. Enquanto considerava se devia ou não se sentar, Tikhanov ouviu um a trovej ante voz germ ânica:

— Sr. Talley, é um prazer recebê-lo. Vam os sentar no sofá. O hom em que falava em ergia do quarto, era m ais velho, corpulento e exuberante, envolto por um cham bre púrpura de seda, que deixava à m ostra a parte inferior das pernas cabeludas. Os cabelos castanhos-averm elhados estavam penteados para trás, os olhos eram pequenos e estreitos, o nariz proem inente, o rosto rosado fora barbeado recentem ente.

— Sou o Dr. Motta. Perdoe-m e o traj e, m as acabei de chegar da Grande Plage. Um lugar m aravilhoso. Já esteve lá?

— Não, senhor.

— Pois vai gostar. Dê a si m esm o uns poucos dias extras?' Tenho certeza de que vai adorar.

O Dr. Motta arriou no sofá, deixando escapar um som sibilante e cham ando Tikhanov para se sentar ao seu lado. Tikhanov atendeu.

— Eu sabia que você estaria aqui na hora do alm oço e calculei que chegaria fam into — acrescentou o Dr. Motta. — Espero que não se im porte, m as tom ei a liberdade de encom endar um alm oço leve para nós, antes de cuidarm os de coisas m ais sérias. Isso nos dará a oportunidade de nos conhecerm os m elhor.

— Foi m uita gentileza sua — disse Tikhanov, tensam ente.

Ele só queria falar do que im portava, a consulta, sua vida. Mas desej ava tam bém dem onstrar seu agradecim ento pela hospitalidade do m édico, querendo conquistar-lhe as boas graças, querendo contar com a boa vontade e a m elhor disposição do m édico. O Dr. Motta estava pondo fum o em seu cachim bo de urze.

— Não se im porta que eu fum e, não é m esm o?

— Não perm ito que m eus pacientes fum em durante a terapia, m as não estam os na clínica e podem os relaxar um pouco.

— Fum arei um cigarro — disse Tikhanov, tirando-o do bolso e, acendendo.

A cam painha da porta tocou e um instante depois o garçom entrou na sala, em purrando o carrinho com o alm oço. Enquanto o garçom punha os pratos na m esinha de tam po de vidro, o Dr. Motta contem plava-os sofregam ente. Fum ando o cachim bo, ele identificou cada prato:

— Para com eçar, Salade à l'Oiseau. Depois, para nós dois, Carré d'Agneau Rôti. Torradas, com o pode ver, e café francês. Não pedi sobrem esa. Mas, se quiser, eu recom endaria o Creme du Chocolat.

— Não, obrigado. Já é com ida suficiente para m im . O garçom term inara de servir.

— Se não gostarem de algum a coisa, cham em o serviço, por favor. E, quando acabarem , avisem para que eu venha buscar tudo.

Depois que o garçom se retirou, o Dr. Motta bateu a cinza do cachim bo e em pertigou-se.

— Vam os com er agora e aproveitarem os para conversar.

— Está certo — disse Tikhanov, apagando o cigarro.

Ele com eçou a servir-se da salada. O Dr. Motta, j á com endo, com entou:

— Só tenho um a indicação de sua doença, o m otivo pelo qual está aqui. Sei que o problem a é distrofia m uscular. Mas isso não precisa ser um a sentença de m orte. Alguns casos j á foram tratados com sucesso absoluto. Depende de vários fatores. Verem os, verem os...

Tikhanov experim entou um a onda de alívio e passou a encarar o m édico suíço com o um salvador.

— Vai m e exam inar? — indagou Tikhanov.

— Se for necessário — respondeu o Dr. Motta, sem parar de com er.

Tikhanov pôs a m ão sobre o envelope a seu lado no sofá.

— O Dr. Karp enviou-lhe os resultados de todos os exam es que efetuou.

— Muito bom . Vou estudá-los com cuidado. E depois saberem os o que se pode fazer. — Ele levantou a cabeça. — Já tive m uitos sucessos com esta doença.

Tikhanov acenou com a cabeça.

— Foi por isso que o Dr. Karp m e m andou procurá-lo. Ele m e falou dos seus sucessos, m as tam bém m encionou dois fracassos.

— Tam bém há fracassos, é claro. Depende do estágio da doença, o grau de deterioração. — Ele lim pou a boca com o guardanapo de Unho. — O tratam ento da distrofia não é m inha especialidade, m as frequentem ente é um com plem ento do m eu trabalho principal. Conhece algum a coisa sobre o m eu trabalho?

— Muito pouco, lam ento dizer. Não tive tem po para aprender. Sei apenas o que o Dr. Karp m e disse, nada m ais. Basicam ente, que trata os idosos, aplicando a seus pacientes um a terapia regenerativa.

— Então j á tem um a noção — com entou o Dr. Motta, satisfeito. — Fui um dos vários protegidos do fam oso Dr. Paul Niehans, em seu chalé em Clarens, à beira do Lago Genebra. O Dr. Niehans foi pioneiro na terapia celular... um a terapia sim ples. Ele preparava soluções de órgãos recentem ente m oídos de um feto de cordeiro, tirado do útero de um a ovelha negra por cesariana, inj etando-as nas nádegas dos pacientes. Se o paciente sofria de um a tíróide hipoativa, ele inj etava células de tiróide. Nos distúrbios da m enopausa, a paciente recebia células ovarianas. E assim por diante. O princípio básico da terapia celular é conter o processo de envelhecim ento, prolongar a vida pelo rej uvenescim ento ou revitalizar apesar dos m ales decorrentes da idade. É claro que isso im plicava em tratar de m uitas doenças, variando da anem ia a úlceras graves. Quando assum i a clínica do Dr. Niehans, a distrofia era apenas um a das m uitas doenças que tinha de tratar.

Tikhanov estava intrigado.

— E o Dr. Niehans teve m uitos sucessos?

— Tenho certeza que sim . Ele tratou do Papa Pio XII. Tratou do Rei Ibn Saud, do Duque de Windsor, do chanceler alem ão Konrad Adenauer, do escritor britânico W. Som erset Maugham , da atriz Gloria Swanson, até m esm o do antigo vice-presidente am ericano Henry A. Wallace. Por outro lado, recusou quando teve a oportunidade de tratar Igor Stravinsky, porque o com positor sofria de policitem ia, um a contagem das células verm elhas do sangue cronicam ente alta. O Dr. Niehans achou que não poderia curá-lo. Tam bém j á tive m uitos pacientes fam osos e só os tratei se acreditava que poderia aj udá-los. Resisti à proposta de tratar outros, por estar convencido de que não reagiriam às inj eções. Eram casos incuráveis. Mas, na m aioria dos casos, há oportunidades favoráveis.

O Dr. Motta concluíra o alm oço e estava lim pando a boca m ais um a vez.

— E agora, Sr. Talley, vam os ver o que se pode fazer em seu caso. Deixe-m e ver os resultados dos exam es.

Ele estendeu a m ão e Tikhanov prontam ente entregou-lhe o envelope enviado pelo Dr. Karp. O Dr. Motta acrescentou:

— Term ine a sua refeição. Vou m e retirar para a escrivaninha no quarto, onde poderei m e concentrar. Não devo dem orar por m uito tem po.

Ele se levantou e deixou a sala, abrindo o envelope enquanto entrava no quarto ao lado.

Sozinho, Tikhanov ocupou-se com o resto da com ida. Mas estava com o estôm ago na garganta e não tinha o m enor apetite. Tentou se absorver no café am argo, m as finalm ente desistiu. Fez um esforço para se recostar, fum ando incessantem ente e tentando não pensar.

O Dr. Motta voltou depois de quase m eia hora, tornando a guardar os resultados dos exam es no envelope pardo. Foi sentar-se desta vez na poltrona diante de Tikhanov. O rosto largo exibia um a expressão grave.

— Lam ento m uito, Sr. Talley, m as infelizm ente não posso aj udá-lo. Sofre do tipo m isto de distrofia, afetando os m úsculos voluntários, e a deterioração j á está adiantada. Os resultados da biopsia m uscular são conclusivos. Não posso fazer m ais nada além de confirm ar a opinião do Dr. Karp e suas previsões, reforçando as suas sugestões. Lam ento profundam ente.

— Está querendo dizer... que não há nada que se possa fazer em m eu caso?

— Nada além de um m ilagre — respondeu o Dr. Motta.

Um a hora depois, Sergei Tikhanov finalm ente deixou seu quarto.

Deprim ido, certo da sentença de m orte, tentara tom ar um a decisão sobre o curso a adotar. Anunciar sua doença e a aposentadoria com pulsória dram aticam ente, ganhando 10 ou 12 anos de vida m iserável, sentado nas som bras, enquanto um colega m ais vigoroso e m ais saudável assum ia o com ando da União Soviética. Ou m anter sua doença em segredo, assum indo o nível m áxim o do governo soviético, tendo a satisfação de dois ou três anos de poder e atividade intensa, antes de um a m orte prem atura. Com o ainda não conseguira chegar a um a decisão, ele resolvera continuar com sua program ação, viaj ando para Lisboa e de lá voltando a Yalta.

Pálido e um pouco tonto, Tikhanov encam inhou-se para a recepção no saguão do Hotel du Palais, pensando em reservar um a passagem no prim eiro avião para Lisboa. O recepcionista calvo estava ocupado com outro turista, providenciando um a reserva de j antar para quatro pessoas na Rôtisserie du Coq Hardi, em Biarritz. Esperando a sua vez, irrequieto, Tikhanov olhou para as prateleiras ao lado do balcão, com a coleção de j ornais internacionais à venda. Um a palavra em todas as m anchetes, reconhecível em cada língua, quase que o golpeou fisicam ente. Era MILAGRE... MIRACLE... MILAGRO... MIRACOLO.

Curioso, Tikhanov aproxim ou-se da estante com os j ornais. Todas as m anchetes pareciam apregoar a m esm a coisa. Obviam ente, algum acontecim ento de grande im portância. Tikhanov pegou um exem plar do France Soir, largou algum as m oedas no balcão e leu a notícia.

"MILAGRE ESPERADO EM LOURDES, LEGADO DE BERNADETTE. O diário perdido de Bernadette revela o segredo que a Virgem Maria lhe confiou há tanto tem po. A Virgem reaparecerá na gruta em Lourdes dentro de três sem anas, em algum m om ento durante a sem ana e um dia depois de 14 de agosto. Algum peregrino afortunado verá a Virgem . Algum peregrino doente receberá um a cura m ilagrosa".

Norm alm ente, em outras circunstâncias, quando se encontrasse no controle absoluto de seus sentidos, Sergei Tikhanov teria j ogado na cesta de lixo m ais próxim a aquela típica bobagem ocidental, aquela fábula para leitores crédulos.

Mas um a frase que o Dr. Motta usara, ao encerrar a conversa, ainda ressoava em seus ouvidos. O que poderia fazer para salvar Tikhanov? O Dr. Motta respondera: Nada além de um milagre.

Pensando na coincidência, o j ornal aberto à sua frente, Tikhanov afastou-se com dificuldade sobre o tapete m arrom com seus padrões im periais, cobrindo o chão de m árm ore do saguão. Havia ali perto um sofá verm elho estreito, entre duas colunas de m árm ore. Tikhanov sentou-se e leu cuidadosam ente a notícia do j ornal francês, relatando o anúncio do cardeal num a entrevista coletiva em Paris de que o papa autorizara revelar ao m undo que a Virgem Maria, na sétim a de suas 18 aparições a Bernadette, prom etera reaparecer na gruta em Lourdes e proporcionar um a cura m ilagrosa a um peregrino doente.

A religião e seus m ilagres, o ópio do povo, com o enunciara Lenin. Na verdade, Karl Marx j á dissera a m esm a coisa: "A religião é a alm a das condições desalm adas, o coração de um m undo sem coração, o ópio do povo". E Friedrich Engels, o colaborador de Marx, acrescentara: ''Tem os de nos livrar da Igrej a, que perm ite que os trabalhadores sofram em silêncio neste m undo, enquanto aguardam a sua recom pensa no outro". Lenin pregara isso, Stalin apoiara e o Partido Com unista exigira que todos os seus m em bros se descartassem de qualquer crença na religião. E Tikhanov se tornara e ainda era um m em bro leal do partido, um ateu' inflexível desde a adolescência. Com o um veterano com unista, Tikhanov sabia que não podia levar a sério, por um instante que fosse, aquela bobagem sobre a Virgem Maria.

Não im portava quão profunda fosse a sua depressão, não im portava que fraqueza afligia seu cérebro, não im portava quão desesperada fosse a sua necessidade de esperança, aquela história de Lourdes era sim plesm ente inadm issível. Quando j á estava prestes a largar o j ornal, os olhos de Tikhanov caíram num a segunda m atéria sobre Lourdes. Era um a reportagem sobre as quase 70 curas m ilagrosas que j á haviam sido atribuídas à gruta ou à água de sua fonte. Seu olhar fixou-se na lista de incuráveis e suas doenças potencialm ente fatais, pessoas da França, Alem anha, Itália, Suíça, salvas por m ilagres. Sarcom a da pelve... curado. Esclerose m últipla... curada. Doença de Addison... curada. Câncer do colo do útero... curado. E outras doenças m ilagrosam ente curadas, algum as que davam a im pressão de se assem elhar com distrofia m uscular.

Depois da m atéria, havia um a entrevista com um certo Dr. Berry er, diretor do Serviço Médico de Lourdes. As curas, certificadas por sacerdotes, eram prim eiro m eticulosam ente investigadas e confirm adas pelos m elhores m édicos do m undo. Os olhos de Tikhanov se fixaram em outra declaração do Dr. Berry er: até m esm o não-católicos e visitantes não-religiosos haviam sido abençoados por curas.

Im pressionante.

Tikhanov ficou im óvel. Realm ente im pressionante. Ele recordou a infância, na fazenda nos arredores de Minsk. A m ãe cansada era um a católica ortodoxa, das m ais anim adas, o pai sim ulava ser devoto tam bém . Tikhanov lem brou a pequena igrej a de m adeira... as velas, o padre, a m issa, os rosários, com unhão, água benta, o confessionário. Ao crescer, ele se descartara daquele m isticism o agradável e confortador. Com o um intelectual m aduro, encontrara um a fé m ais aceitável nas pregações e escritos de Marx, Lenin e Stalin, para grande consternação da m ãe.

Mas houve um tem po em que, na inocência, fora um crente. Talvez não fosse necessário se lem brar disso agora, m as era um a espécie de credencial.

Som ente um m ilagre, dissera o Dr. Motta.

Era um a iniciativa perigosa, um a alta autoridade soviética ir a um santuário católico para m om entaneam ente trocar Marx por Maria. Mas podia ser feito em segredo. Ele podia dar um j eito.

Tinha que dar um j eito.

Por Deus, sua vida estava em j ogo e não havia outras opções. Som ente aquela. Além disso...

O que havia a perder?