O Milagre

Irving Wallace · Capítulo 11 de 16

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O Milagre

Capítulo 10

Q uarta-Feira, 17 de Agosto

 

Faltavam dez m inutos para as nove horas da m anhã quando Michelle Dem aillot, do Serviço de Im prensa dos Santuários, atravessou rapidam ente a Esplanada do Rosário, acom panhada pelas últim as pessoas a chegarem à cidade, Dr. Paul Kleinberg e sua enferm eira de confiança, Esther Levinson.

Era a prim eira visão real que Kleinberg tinha de Lourdes, à luz do dia. Apesar da presença de tanta estatuária religiosa, dos incontáveis inválidos em cadeiras de rodas e m aças e de suas apreensões em relação ao santuário, ele não pôde deixar de adm itir que o cam po de desfile ou o que quer que fosse oferecia um a aura de paz e serenidade pastoral naquele dia ensolarado de verão.

O Dr. Kleinberg e sua enferm eira haviam pegado o últim o vôo da Air-Inter partindo de Paris, na noite anterior. Já era noite fechada quando desem barcaram do avião, no aeroporto de Lourdes. A assessora de im prensa estava à espera com seu carro. Durante a curta viagem até suas acom odações, Kleinberg, que seguira direto de seu consultório em Paris para o aeroporto em Orly e aquela aldeia nos Pireneus, estava exausto dem ais para se dar ao trabalho de olhar pela j anela e contem plar a paisagem de Lourdes. Quartos separados estavam reservados para os dois, no Hotel Astoria, na Rue de Ia Grotte. Depois de telefonar para a esposa, Alice, em Neuilly, com unicando a ela e aos m eninos que chegara bem e inform ar onde poderia ser encontrado, Kleinberg fora direto para a cam a e dorm ira sem qualquer interrupção por nove horas.

Agora, enquanto andavam , Kleinberg notou com o sua enferm eira se m antinha rígida e apartada. Conhecendo-a, a filha órfã de pais gaseificados e crem ados no holocausto nazista, ele sabia com o a enferm eira se sentia contrafeita ao se confrontar com qualquer espécie de fanatism o, político ou religioso. Kleinberg não sentia um desconforto sim ilar naquele am biente. Seus pais haviam se transferido de Viena para Paris m uito antes da ascensão de Hitler e se naturalizado cidadãos franceses. Kleinberg nascera francês; e, apesar de algum grau persistente de anti-sem itism o abafado entre um a m inoria na França, ele sentia que pertencia e era parte daquela terra. Seu conhecim ento da cultura francesa era am plo, em bora fosse lim itado o que sabia a respeito do santuário católico em Lourdes. Lera algum a coisa a respeito de Bernadette, as aparições e a gruta, em j ornais e revistas. Tam bém lera, sem grande interesse, sobre curas ocasionais atribuídas a Lourdes.

Além dessas leituras casuais, o único conhecim ento de Kleinberg sobre a cidade santa provinha do estudo cuidadoso de três livros envolvendo o Dr. Alexis Carrel — um livro sobre Carrel, dois escritos por ele — versando sobre a única visita do grande m édico a Lourdes, em 1903. Kleinberg com prara e lera os livros de Carrel depois que fora convidado a participar do Com itê Médico Internacional de Lourdes, que estava se reunindo em Paris para analisar e confirm ar a suposta cura m ilagrosa de um a inglesa, Sra. Edith Moore, sofrendo de um sarcom a.

Kleinberg não pudera aj udar o com itê porque tinha um a reunião m édica m arcada anteriorm ente em Londres. Mas o pessoal de Lourdes tornara a procurá-lo quando voltara a Paris. Os m em bros do Com itê Médico Internacional estavam dispostos a conceder ao caso da Sra. Moore a condição de m ilagroso, m as suspendiam a aprovação final até contarem com a opinião de um especialista em sarcom a. Kleinberg era um dos dois m ais destacados especialistas da França no tratam ento de tum ores m alignos. O outro, Dr. Maurice Duval, a quem Kleinberg conhecia e respeitava, estava envolvido dem ais em pesquisas experim entais para cooperar. Portanto, só restava Kleinberg com o consultor final. Ele relutara em se envolver em qualquer coisa de natureza religiosa. Mas sabendo que o Dr. Alexis Carrel visitara e investigara Lourdes, resolvera refletir m ais sobre o assunto. Com o aluno da Faculdade de Medicina Cochin, ligada à Universidade de Paris, Kleinberg adm irara os escritos e a carreira do Dr. Carrel. Recordara que o grande cientista m antivera a m ente aberta em relação a Lourdes e passara algum tem po lá. E Carrel tratara Lourdes a sério.

Por isso, Kleinberg acabara aceitando o convite do Com itê Internacional e fora a Lourdes para estudar a cura inacreditável da m ulher cham ada Edith Moore.

— Aqui estam os — ele ouviu Madem oiselle Dem aillot anunciar. Onde estavam ? Kleinberg parou e olhou ao redor para se orientar. Estavam num a calçada no lado oposto da Esplanada do Rosário. E diante da porta dupla de um prédio de blocos de pedra, grandes e irregulares. Por cim a da entrada, as letras brancas sobre um fundo azul, estavam as palavras: SERVIÇO MÉDICO/SECRETARIA.

— Vam os entrar — disse a m oça da im prensa. — Eu o apresentarei ao chefe do serviço, Dr. Berry er, e depois m e retirarei.

Kleinberg e Esther seguiram Madem oiselle Dem aillot para o interior do prédio, entrando num a ante-sala espaçosa, com duas portas no lado direito. A m oça da im prensa apontou para a segunda porta e disse:

— Vou avisar à secretária do Dr. Berry er que j á chegam os. Depois que ela entrou na sala, Kleinberg e Esther exam inaram o lugar. As paredes da ante-sala estavam decoradas com o que pareciam ser artefatos de um m useu m édico. Depois de um rápido olhar, Esther absteve-se de um a inspeção m ais m eticulosa e foi ocupar o canto de um sofá, sentando-se com os lábios contraídos, os olhos fixados no chão. Mas Kleinberg estava m ais interessado. Pôs-se a circular pela ante-sala, estudando os m ostruários.

O m aior, na parede m ais próxim a, era em oldurado em vidro, com o nom e DE RUDDER por cim a. Um a inspeção m ais atenta revelou dois m oldes de cobre dos ossos da perna de um hom em ; o prim eiro m ostrava a tíbia gravem ente fraturada, enquanto na outra estava perfeitam ente curada. Kleinberg leu a legenda de explicação. Pierre De Rudder, de Jabbeke, Bélgica, caíra de um a árvore em 1867 e fraturara a tíbia na parte inferior da perna esquerda. O osso tinha um a separação de três centím etros no ponto da fratura e não houve cura. Por oito anos, De Rudder fora um aleij ado. Mas depois de um a visita a um a réplica da gruta de Lourdes na Bélgica, De Rudder ficara instantânea e m ilagrosam ente curado, o osso separado totalm ente reunido. Depois de sua m orte, 23 anos m ais tarde, três m édicos efetuaram um a autópsia no corpo. Constataram que a falha de três centím etros realm ente se fechara. "As pontas do osso fraturado se aj ustaram perfeitam ente. O osso conserva um a m arca óbvia da fratura, m as sem qualquer escorço." De Rudder fora declarado a oitava cura m ilagrosa de Lourdes em 1908.

Kleinberg torceu o nariz e sua reação inconsciente refletiu-se no vidro. Era um a reação m ais de surpresa do que de dúvida.

Com o a acom panhante ainda não voltara, Kleinberg continuou a vaguear pela ante-sala, estudando as fotografias em olduradas nas três paredes e as histórias im pressas da m aioria das curas m ilagrosas de inválidos oficialm ente reconhecidas, pessoas que haviam procurado socorro no santuário de Lourdes. A m ais antiga estava datada de 1858. A últim a em oldurada e pendurada m ostrava um retrato de Serge Perrin, que sofrerá "hem iplegia orgânica recorrente, com lesões oculares, em decorrência de deficiências circulatórias cerebrais". Ele fora m ilagrosa e totalm ente curado aos 41 anos de idade, em 1970. Sua cura m ilagrosa fora reconhecida em 1978. Kleinberg sabia que houvera m ais curas desde então, m as talvez o Serviço Médico não tivesse tem po para m ontá-las.

Kleinberg ouviu seu nom e ser cham ado e virou-se. A m oça da im prensa avançava em sua direção.

— Dr. Kleinberg, parece que o Dr. Berry er chegará um pouco atrasado para o encontro. Encontrei um recado e entrei em contato com ele pelo telefone. O Dr. Berry er pede desculpas e garante que estará aqui dentro de 10 ou 15 m inutos.

— Não tem im portância — disse Kleinberg.

— Não gostaria de esperar na sala do Dr. Berry er? Levarei Madam e Levinson às salas de exam e e radiografia, onde a encontrará depois da entrevista. Feito isso, terei de deixá-los.

— Obrigado, Madem oiselle Dem aillot.

Kleinberg foi conduzido à sala do Dr. Berry er e observou-a se retirar. Assim que ficou sozinho, largou sua m aleta m édica em cim a da m esa e tornou-a exam inar o local. Sentiu-se surpreso ao verificar com o a sala do Dr. Berry er era pequena e espartana. Não tinha m ais que 2,5 x 2,5 m etros, um a m esa e um a cadeira, duas cadeiras para visitas, um a estante atulhada. Tudo perfeitam ente arrum ado. Kleinberg notou um espelho e postou-se na frente para verificar se estava apresentável. Franliu o rosto para o recuo crescente dos cabelos castanhos, o pequeno nariz adunco parecendo m ais proem inente pelas faces encovadas. Os olhos em papuçados haviam sido conquistados e não constituíam um problem a, o queixo saliente ainda era um queixo aos 41 anos. Ele aj eitou a gravata de tricô, em pinou os om bros estreitos, concluiu que estava tão apresentável quanto j am ais ficaria.

Instalou-se num a cadeira para aguardar o anfitrião atrasado e descobriu um sentim ento de inquietação, que não experim entara lá fora. Haviam sido os m ostruários na ante-sala que o deixaram um tanto transtornado, todos aqueles m ilagres, anticientíficos e estranhos à sua natureza. Ele se perguntou com o era possível que alguém com o o Dr. Alexis Carrel pudera suportar algo assim .

O Dr. Carrel fora severam ente criticado por seus colegas cientistas por dispensar atenção a um centro religioso que alegava m ilagres e por ter confessado que talvez tivesse testem unhado pessoalm ente um m ilagre. Os colegas de Carrel na ciência — pessoas que antes o respeitavam com o um professor da faculdade de m edicina na Universidade de Ly on — viraram -se contra ele por ter conferido credibilidade a Lourdes e um a consideração séria às curas inexplicáveis que lá ocorriam . E condenaram -no com o "um pietista crédulo".

O Dr. Carrel defendera o seu interesse pelos supostos m ilagres através da im prensa: "Esses fenôm enos extraordinários são de grande interesse biológico, além de religioso. Considero toda cam panha contra os m ilagres de Lourdes inj ustificada e oposta ao progresso da ciência m édica, em um dos seus aspectos m ais im portantes."

Relendo a controvérsia, tantos anos depois, Kleinberg pudera constatar que Carrel fora incerto em relação às curas em Lourdes, incorrendo na ira da com unidade clerical, da m esm a form a que provocara a com unidade científica. Por um lado, Carrel se m ostrara decepcionado com o Serviço Médico: "Há um rosário na m esa de exam e, m as nenhum instrum ento m édico." Carrel se m ostrara igualm ente decepcionado com um dos antecessores do Dr. Berry er, o Dr. Boissarie, que publicara livros de grande sucesso sobre os seus estudos m édicos das curas. "Ele escreveu essas obras com o se fosse um padre ao invés de um m édico", protestara Carrel. "Entregou-se a considerações devotas, ao invés de observações científicas. Absteve-se de análises rigorosas e deduções obj etivas."

Mas a súbita — e m ilagrosa? — cura de um a garota francesa, Marie Baílly, afastara a m aioria de suas restrições. E tentara defender o que testem unhara perante a com unidade científica: "Ao risco de chocar tanto os crentes com o os incrédulos, não discutirem os a questão da fé. Em vez disso, direm os que não faz m uita diferença se Bernadette foi um caso de histeria, um m ito ou um a louca. (...) A única coisa que im porta é analisar os fatos; podem ser investigados cientificam ente; existem num reino que não se situa na interpretação m etafísica. (...) A ciência, é claro, deve se m anter em guarda constante contra o charlatanism o e a credulidade. Mas é tam bém o dever da ciência não rej eitar as coisas sim plesm ente porque parecem extraordinárias ou porque a ciência é im potente para explicá-las."

Tais palavras partiam de um hom em que se tornara um gigante no Instituto Rockefeller de Pesquisa Médica, ganhara o Prêm io Nobel em 1912 por seus trabalhos sobre suturas em vasos sanguíneos e fizera experiências em 1935 com um coração artificial, proj etado por Charles Lindbergh.

Sentado ainda no sossego da sala do Dr. Berry er no Serviço Médico,

Kleinberg fechou os olhos.Não rejeite as coisas simplesmente porque parecem extraordinárias. As próprias palavras do Dr. Carrel. Kleinberg sentiu-se im ediatam ente m ais relaxado, m enos perturbado com os m ilagres anunciados na ante-sala e com a sua presença no playground da Virgem Maria, o lugar em que deveria confirm ar a cura m ilagrosa de um a m ulher cham ada Edith Moore.

Kleinberg ouviu a m açaneta da porta virar e levantou-se para deparar

com um hom em m ais velho, m eio atarracado, expressão preocupada.

— Dr. Kleinberg? — disse o hom em , estendendo a m ão. — Sou o Dr.

Berry er e tenho o m aior prazer em conhecê-lo. Perdoe o atraso, m as problem as burocráticos podem às vezes absorver m ais tem po do que a m edicina.

— Não há necessidade de se desculpar — respondeu o Dr. Kleinberg,

afavelm ente. — Tenho a m aior satisfação de estar aqui.

— Sente-se, por favor — disse o Dr. Berry er, contornando a m esa e

exam inando rapidam ente, ainda de pé, os recados que o esperavam .

Kleinberg tornou a sentar-se e esperou, enquanto o chefe do Serviço

Médico em purrava os recados para um canto e acom odava-se num a cadeira giratória.

— Fico contente que tenha podido vir, sabendo com o deve estar ocupado

— com entou o Dr. Berry er.

— Repito: estou m uito satisfeito.

— É a sua prim eira visita a Lourdes?

— Infelizm ente, sim .

— O exam e da Sra. Moore hoj e não deve consum ir m uito do seu tem po.

Terá tem po para dar um a volta. Conhece algum a coisa sobre Lourdes?

— Muito pouco, apenas o conhecim ento de um leigo. Li uns poucos

artigos a respeito. É claro que li tam bém o relatório do Com itê Internacional sobre a Sra. Moore. E li o que o Dr. Alexis Carrel escreveu sobre a sua visita.

— Pobre Carrel... — m urm urou o Dr. Berry er, com um sorriso forçado.

— Pelo resto de sua vida, depois que saiu daqui, ele oscilou entre a crença e a descrença pelo que testem unhou.

— O que é com preensível, para um hom em da ciência. — Eu nunca tive qualquer problem a para conciliar religião e ciência.

Pasteur tam bém não teve qualquer dificuldade. Nem Einstein. Sej a com o for... — Ele cruzara as m ãos sobre a m esa. — ... com o resta pouco tem po antes que a Sra. Moore chegue e fique ocupado com ela, talvez sej a m elhor eu fazer um breve relatório da m aneira com o funcionam os aqui... em term os m édicos... científicos... a fim de que possa se sentir m ais à vontade.

— Eu ficaria m esm o satisfeito em saber o que for possível. — Deixe-m e falar um pouco sobre o processo em que está

especificam ente envolvido, o processo de confirm ação de curas. Está a par desse processo?

— Apenas vagam ente — respondeu Kleinberg. — Seria interessante

saber m ais.

— Serei breve. É im portante para que tenha um a com preensão m elhor

do m otivo pelo qual o cham am os no caso de Edith Moore e sua cura súbita.

— Sua cura m ilagrosa — disse Kleinberg, contraindo os lábios num a

expressão j ovial.

Os olhos do Dr. Berry er, quase afundados nas órbitas, fixaram -se

atentam ente no visitante. O tom tornou-se m enos coloquial e m ais pedagógico.

— Não estou aqui para definir um a cura em Lourdes com o m ilagrosa.

Com o um m édico, posso apenas definir um a cura com o excepcional. Com pete à Igrej a decidir se qualquer cura está relacionada com um a intervenção divina, que pode ser reconhecida com o um sinal de Deus. Nossos m édicos declaram que um a cura é inexplicável no reino da ciência. Nossos clérigos confirm am que pode ser explicada com o a obra de Deus. No Serviço Médico, estas são as regras básicas.

— Com preendo.

— A Igrej a sem pre foi m enos generosa do que os nossos m édicos em

suas alegações. Desde o tem po de Bernadette até hoj e, a Igrej a só declarou m enos de 70 curas com o genuinam ente m ilagrosas. Mas nossos m édicos, m esm o depois de exam es rigorosos, foram m ais generosos ao anunciarem curas excepcionais. Houve até agora cerca de quatro m il curas confirm adas. Em torno de 60 vezes m ais curas do que m ilagres. Não sei explicar por que todas não foram qualificadas com o m ilagres. O clero tem seus próprios padrões. Milhões e m ilhões de visitantes têm vindo a Lourdes desde 1858 e a m aioria é de peregrinos procurando conforto espiritual ou turistas desej ando satisfazer a sua curiosidade. O núm ero de inválidos reais que chegam a cada ano representa um a pequena m inoria. As estatísticas podem ser resum idas da seguinte form a: um a cura m édica para cada 500 pacientes que chegam aqui, um m ilagre para cada 30 m il pacientes que se apresentam .

Escutando, Kleinberg percebeu que a voz do Dr. Berry er se tornara m onótona, perdera as inflexões, assum indo o j eito de um a preleção apresentada m uitas vezes.

— Vam os aos critérios que regem um a cura — continuou o Dr. Berry er.

—A doença deve ser grave, inevitável, incurável. A doença deve tam bém ser orgânica e não funcional. Um a doença orgânica envolve um a lesão em nível orgânico, enquanto um a doença funcional...

O Dr. Kleinberg interrom peu-o, um pouco contrariado. Estava sendo

tratado com o um leigo e não com o um colega m édico.

— Conheço os seus critérios, doutor.

O Dr. Berry er ficou aturdido por um m om ento, com o abalo de sua

rotina verbal. E balbuciou:

— Hã... sim , sim ... é claro... o sarcom a da Sra. Moore... um a doença

orgânica, certam ente... e um a cura perm anente. A últim a cura de sarcom a na bacia que tivem os, antes da Sra. Moore, data de 1963. Não tenho a m enor dúvida... e com toda certeza, com o um especialista nessa área, há de concordar... que a cura de tal sarcom a não será tão excepcional no futuro, à m edida que a m edicina progredir.

Kleinberg assentiu.

— Já está havendo progressos. O Dr. Duval, em Paris, realizou

experiências bem -sucedidas em anim ais para conter e curar o sarcom a m edicam ente.

— Exatam ente, Dr. Kleinberg. Houve um a ocasião em que a m edicina

nada podia fazer contra a tuberculose. Hoj e, no entanto, há m eios m édicos de tratar a tuberculose. Assim , é um a doença grave que depende m enos da gruta. Mas, no estágio atual da ciência, m uitos doentes continuam a procurar a gruta, recorrendo às orações e à água da fonte com o um m eio de recuperação. Edith Moore, com seu sarcom a, foi um a pessoa assim . — O Dr. Berry er fez um a pausa. — Sabia que ela foi curada por um a visita aos banhos, na segunda vez em que veio a Lourdes? A cura instantânea foi confirm ada por 16 m édicos, tanto era Londres com o em Lourdes. Sabia disso?

— Sabia.

— Falarei agora sobre o processo subsequente. Prim eiro, o Serviço

Médico aqui. No com eço, não existia o Serviço Médico. Havia o Dr. Dozous, aj udado pelo Professor Vergez, de Montpellier, para definir todas as alegações de curas. Doze casos foram estudados e sete foram considerados, pela com issão canônica instituída pelo Bispo Laurence, em 1862, com o curas que podiam ser atribuídas à intervenção de Deus. A palavra m ilagre não era então usada para esses casos. Depois disso, à m edida que aum entaram os visitantes a Lourdes, à m edida que m ais pacientes alegaram curas, era necessário tom ar providências m ais efetivas. O Dr. Saint-Maclou, que se instalara aqui, criou um centro de recepção para m édicos visitantes, que exam inariam as curas. Isso aconteceu em 1874 e o centro foi cham ado de Departam ento de Verificações Médicas. Gradativam ente, esse departam ento foi sendo am pliado, até se tornar o Serviço Médico atual. Pouco depois de 1947 foi instituído o Com itê Médico Nacional, que em 1954 se tornou o Com itê Médico Internacional, o m esm o para o qual foi convidado no início deste ano.

— E o Com itê Médico Internacional tem a últim a palavra? — Em term os m édicos, sim . O processo transcorre da seguinte

m aneira... nosso Serviço Médico em Lourdes confirm a um a cura e encam inha o dossiê ao Com itê Internacional. Há cerca de 30 m em bros no com itê, m édicos de dez países diferentes, todos designados pelo Bispo de Tarbes e Lourdes. Reúnem -se um dia por ano, com o aconteceu recentem ente. O dossiê de Edith Moore foi apresentado nessa ocasião. Os m édicos discutiram -no longam ente. Houve um a votação, com um a m aioria de dois terços sendo geralm ente o suficiente para aprovação. Depois disso, o dossiê foi devolvido ao bispo de Tarbes e Lourdes. Com o a diocese da Sra. Moore é em Londres, o dossiê aprovado foi enviado ao bispo de lá. Este, por sua vez, designou um a com issão canônica para j ulgar se a cura da Sra. Moore foi m ilagrosa. Com o sabe, a cura da Sra. Moore foi aprovada em todos os estágios do processo...

— Eu j á sabia.

— ...m as não foi oficialm ente anunciada porque o Com itê Internacional

não contava com um especialista em sarcom a na sua reunião. O senhor foi convidado, m as estava ausente. O Dr. Duval tam bém foi convidado, m as não pôde com parecer, de tão ocupado com as suas experiências. O Com itê Internacional aprovou a cura, na dependência de sua confirm ação do j ulgam ento. Ao invés de se reunir novam ente o com itê, ficou acertado que o anúncio oficial poderia ser feito sim plesm ente se o senhor viesse a Lourdes e exam inasse a Sra. Moore.

— Pois estou aqui, disposto a fazê-lo — declarou Kleinberg. O Dr.

Berry er olhou para o relógio digital branco em cim a de

sua m esa.

— Marquei um encontro com Edith Moore aqui. Ela deverá estar na sala

de exam e dentro de m eia hora. — Ele levantou-se. — Sei que estudou o relatório sobre o caso, m as era apenas um sum ário. Talvez prefira exam inar agora o diagnóstico de cada m édico envolvido.

— Seria bastante útil — disse Kleinberg, levantando-se, tam bém ,

enquanto o Dr. Berry er ia até a estante e pegava um punhado de pastas.

— Eu o levarei à sala de exam e e o deixarei com este m aterial. Terá

tem po suficiente para estudá-lo antes da chegada da paciente.

Kleinberg acom panhou o Dr. Berry er até a sala de exam e. O am biente

era austero. Entre a m esa de exam e, estofada em couro, e um arm ário de m adeira, encostado na parede, contendo instrum entos m édicos, Esther Levinson estava sentada num a cadeira, folheando um a revista francesa. Quando os dois entraram , ela se levantou. Kleinberg apresentou-se ao chefe do Serviço Médico.

Além da porta, o Dr. Berry er entregou as pastas a Kleinberg e disse: — Aqui está, para o seu prazer. Avise-m e quando term inar, por favor. — Está certo.

— O Dr. Berry er estava com a m ão na m açaneta da porta aberta,

prestes a se retirar, quando se virou, hesitante. Olhou para as pastas nas m ãos de Kleinberg e depois fitou-o nos olhos. Soltou um a tosse seca e finalm ente disse:

— Deve com preender a im portância deste caso, doutor. O Padre

Ruland, que representa o bispo e o próprio Vaticano aqui em Lourdes, acha que seria de grande valor se fosse possível anunciar a cura m ilagrosa da Sra. Moore durante este em ocionante Mom ento da Reaparição, um m ilagre confirm ado, um presente para acolher o retorno da Abençoada Virgem . Portanto... — Ele hesitou m ais um a vez e acabou acrescentando: — Espero que j ulgue os relatórios que lhe entreguei... e eu diria que se trata de um caso líquido e certo... exclusivam ente por seu m érito científico.

As sobrancelhas de Kleinberg se altearam .

— E de que outra form a eu poderia j ulgá-los? Sem pestanej ar, o Dr.

Berry er respondeu:

— O que quer que digam os, estam os lidando com um caso que m inha

Igrej a considera um a cura m ilagrosa. E... sei que as pessoas de sua fé não acreditam m uito em m ilagres. Sej a com o for, tenho certeza de que vai se ater aos fatos.

Com isso, ele saiu da sala, fechando a porta. O rosto do Dr. Kleinberg

assum iu um a expressão som bria, enquanto olhava para a porta.

— Pessoas de sua fé... — arrem edou ele. — Ouviu isso, Esther? Ele virou-se para ver que Esther estava com o rosto verm elho. — Ouvi, sim . Talvez devesse dizer a ele que alguém de sua fé, um

hom em cham ado Moisés, esteve envolvido em alguns m ilagres.

— Não im porta. Quem vai se preocupar com um m édico do interior de

m entalidade tacanha com o Berry er? Vam os estudar estes relatórios, exam inar a Sra. Moore e sair daqui o m ais depressa possível.

Minutos m ais tarde, pensando no que acontecera, Kleinberg tentou

perdoar Berry er, lem brando que o Dr. Alexis Carrel, em bora não fosse um fanático, era um ardoroso ariano e acreditava na suprem acia de raça.

Transcorreu um a hora e m eia. O Dr. Paul Kleinberg ainda estava

sentado na sala de exam e, sozinho, estudando m ais um a vez os relatórios m édicos de antes e depois sobre o tum or m aligno de Edith Moore, enquanto ela se encontrava na sala ao lado, concluindo os seus novos exam es e radiografias.

Fascinado, Kleinberg leu os relatórios de diagnóstico sobre o

osteosarcom a do ilíaco esquerdo da Sra. Moore. Estava tudo ali, nas m icrofotografias aparentem ente incontáveis, exam es de sangue, biopsias, radiografias. Lá estava o sarcom a destrutivo... e depois não estava m ais, um desaparecim ento total da infiltração da m edula e a reconstituição dos elem entos do osso.

Era m esm o espantoso. Em todos os seus anos de exercício da m edicina,

Kleinberg nunca vira um a cura espontânea assim .

Absolutam ente m ilagroso... até m esm o para um a pessoa de sua fé. Ele largou os relatórios, satisfeito com a sim pática e insípida inglesa.

Nada m ais restava, exceto o exam e final e um novo j ogo de radiografias. E tudo estaria term inado. Poderia confirm ar ao Dr. Berry er e ao sacerdote cham ado Padre Ruland que Deus estava do lado deles, no final das contas, podiam anunciar seu m ilagre com fanfarras para o m undo inteiro. Com essa publicidade e o presum ido retorno da Virgem Maria a Lourdes, eles teriam não cinco m ilhões de fiéis chegando a Lourdes no ano seguinte, m ais seis ou sete m ilhões, no m ínim o.

A porta se abriu e Kleinberg levantou-se quando a Sra. Moore entrou,

prendendo o cinto na cintura da saia, afivelando-o.

— Está tudo acabado e tenho certeza de que se sente satisfeita —

com entou Kleinberg, sem saber o que m ais dizer a um a pessoa contem plada com um m ilagre.

— Estou m esm o satisfeita que tenha acabado — disse ela, com um

suspiro feliz. O sem blante afável estava um pouco corado e era visível que reprim ia um a considerável em oção anterior. — A Srta. Levinson disse que todas as radiografias estarão prontas dentro de cinco ou dez m inutos.

— Ótim o. Darei um a olhada, depois inform arei ao Dr. Berry er e

prepararei m eu relatório. Não precisa ficar esperando por aqui.

Tenho certeza de que o Serviço Médico entrará em contato assim que

tudo term inar. Obrigado, Sra. Moore, por suportar todo esse desconforto por um a últim a vez.

Ela pegou o seu casaco de verão num gancho na parede. — Pode estar certo de que o prazer foi m eu. Agradeço por tudo. Adeus,

Dr. Kleinberg.

Esther Levinson chegou com as novas radiografias, acendeu as luzes do

m ostrador na parede e pendurou as quatro. Kleinberg levantou-se e, com um olho experiente, estudou os negativos, enquanto Esther pairava perto, aguardando sua aprovação.

— Esta aqui — disse ele, apontando para a terceira. — Não está boa, um

pouco desfocada. Ela deve ter-se m exido.

— Ela não se m exeu absolutam ente — garantiu Esther. — É m uito

profissional. Já tirou um m ilhão de radiografias. A Sra. Moore estava em posição, perfeitam ente im óvel.

— Não sei... — m urm urou Kleinberg. — Vam os fazer um a coisa.

Rem ova todos os dem ais negativos, com exceção deste aqui. E pendure duas outras das radiografias antigas, da m esm a área do ilíaco depois da cura. Vai encontrá-las nas pastas em cim a da m esa.

Enquanto a enferm eira ia vasculhar as pastas, Kleinberg continuou a

estudar as novas radiografias. Não dem orou m uito para que Esther estivesse outra vez ao seu lado, tirando três negativos e substituindo-os por radiografias anteriores, para propósitos de com paração.

Quando ela term inou e se afastou para o lado, Kleinberg inclinou-se para

m ais perto das radiografias ilum inadas. Estudou-as em silêncio, estalando a língua várias vezes. Em pertigou-se finalm ente e disse:

— Tenho certeza de que está tudo bem , m as gostaria de ter um a

radiografia m elhor deste ângulo em particular. Talvez eu estej a sendo perfeccionista dem ais, m as quando se está lidando com um m ilagre suposto é preciso conferir m eticulosam ente os seus resultados.

— Podem os radiografá-la outra vez, se é isto o que desej a. Kleinberg

assentiu.

— E j ustam ente o que eu quero, Esther. Apenas para haver certeza

absoluta. Terem os um a radiografia m elhor e poderem os honestam ente coroar a nossa paciente com o um a m ulher m ilagrosa. Procure a secretária de Berry er. Ela saberá onde localizar a nossa paciente. Mande-a pedir à Sra. Moore para voltar aqui às duas horas, a fim de tirar outra radiografia. Pode fazer isso para m im ?

— Já estou indo.

— Eu a encontrarei na ante-sala dentro de poucos m inutos. Vam os dar um a olhada pela cidade e depois eu a levarei para alm oçar.

Voltarem os para cá, cuidarem os da Sra. Moore e depois partirem os direto para Paris. Está bom assim ?

— Está ótim o — respondeu Esther, exibindo um dos seus raros sorrisos. Mikel Hurtado acordou com um sobressalto. Algum a coisa roçara seu

rosto, tocara seus lábios e o arrancara de um sono profundo. Quando abriu os olhos, deparou com Natale aj oelhada por cim a dele, beij ando-o pela terceira vez.

Estendendo as m ãos para ela, a fim de puxá-la de encontro ao seu corpo,

Hurtado descobriu que ela sabia instintivam ente que ele faria isso e se afastara. Natale retirou-se para o seu lado da cam a, tateando à procura dos óculos escuros na m esinha-de-cabeceira. Depois de encontrá-los e aj eitá-los no rosto, ela saiu da cam a e levantou-se.

— Está acordado, Mikel?

— Pode apostar que sim .

— Eu só queria ter certeza, pois preciso lhe dizer um a coisa... eu o am o.

Ele estava sentado agora, contem plando-a. Natale era um a visão

incongruente. Estava totalm ente nua, da cabeça aos j oelhos — o resto escondido pela cam a — o corpo firm e e im pecável parecia reluzir. E usava óculos escuros.

— Eu tam bém a am o — disse ele, suavem ente. Ela tateou e encontrou um sutiã e um a calcinha m ínim a na cadeira. — Você é o am ante m ais m aravilhoso do m undo. — Com o sabe disso? — indagou Mikel, em tom provocante. — Sim plesm ente sei. E sei tam bém com o gostei de você. Sei quando

estou feliz.

A visão dos seios balançando e dos m am ilos m arrons, o um bigo na

barriga lisa e o triângulo de cabelos púbicos entre as coxas generosas com eçavam a excitá-lo.

— Volte para a cam a, Natale.

— Eu bem que gostaria, m eu querido, m as não posso agora. Mais tarde.

Prim eiro, o que vem prim eiro...

— E o que será?

— Tenho de tom ar um banho e m e vestir, Mikel, depois ir para a gruta e

rezar. Que horas são?

Ele pegou o relógio.

— Passa um pouco das dez e m eia da m anhã. — Terei de m e apressar. Rosa m e leva à gruta às 11:15. — Rosa?

— É um a am iga de m inha fam ília em Rom a que vem a Lourdes todos

os verões com o um a voluntária. Ela está m e aj udando.

Hurtado recordou nesse instante o que estava pensando antes de

adorm ecer.

Prim eiro, o que vem em prim eiro lugar. Ele tam bém tinha um a

prioridade e um a ideia de com o realizá-la.

— Eu a levarei até a gruta, Natale. Irem os j untos. — Eu bem que gostaria, m as... E a polícia, Mikel? Talvez sej a m elhor

você se m anter longe dos guardas ou m esm o deixar a cidade.

— A polícia está enganada. Devo lhe contar o que está acontecendo. Ele não podia contar a verdade, que estava ali para destruir o que tanto

significava para ela. Contudo, raciocinou Hurtado, ela não precisava da gruta para realizar suas esperanças. Tinha fé. Isso era suficiente. Ela tam bém não precisava saber o papel dele no que ocorreria em breve. Ele estava disposto a inventar algum a história para Natale, um erro de identidade, algum a indicação falsa de um inim igo, qualquer coisa assim .

— Deixe-m e explicar...

— Não precisa m e explicar nada — declarou ela, firm em ente. — Já lhe

disse isso antes. Não preciso saber coisa algum a. Confio em você. Ainda quer m e levar à gruta? Acha que é seguro?

— Claro que é. Ontem eu não queria ser interrogado em m eu quarto.

Mas é seguro agora.

E ele acreditava realm ente nisso. Tinha certeza de que López,

independente de tudo o m ais que tivesse feito, não fornecera à polícia de Lourdes um a descrição sua. Obviam ente, López queria apenas assustá-lo, não que fosse preso.

— Pois então irem os j untos. Posso deixar um bilhete para Rosa na

porta...

— Posso escrevê-lo para você.

— Está certo. Escreva o seguinte: "Rosa querida, um am igo levou-m e à

gruta. Vá encontrar -m e lá. Natale." E agora é m elhor eu tom ar um banho e m e vestir.

Ele observou-a se encam inhar para o banheiro. Prim eiro o que vem em

prim eiro lugar, Hurtado lem brou a si m esm o.

— Há m ais algum a coisa que eu possa fazer por você, Natale? Sua bolsa

de viagem está na m esa. Tem na frente algum as garrafas de plástico e um a vela. Vai levar essas coisas para a gruta?

Ela estava na porta do banheiro.

— Eu pretendia arrum ar tudo isso na bolsa. Quero acender m inha vela.

E encher as garrafas com a água da fonte, a fim de levar para os m eus parentes.

O coração de Hurtado se acelerou.

— Terei o m aior prazer em arrum ar tudo para você. — Não se incom oda?

— Claro que não. Escreverei o bilhete para Rosa e arrum arei a bolsa.

Mais algum a coisa?

— Continue a m e am ar — disse ela, j ovialm ente, fechando a porta do

banheiro.

Por m ais tentado que se sentisse a ir atrás dela, trazê-la de volta à cam a

e am á-la com o nunca antes am ara outra m ulher, Mikel Hurtado se conteve.

Depois de ouvir a água da banheira correndo, Hurtado saiu da cam a.

Escreveu o bilhete para a m ulher cham ada Rosa. Aj oelhou-se, tirou de baixo da cam a a sua m ala, abriu-a. Ternam ente, retirou os pacotes contendo as bananas de dinam ite, detonador, relógio e fios, levando para a m esa. Conform e planej ara — e torcia para que fosse possível — aj eitou tudo dentro da bolsa de vôo de Natale. Pôs por cim a um a sacola de com pras dobrada, cobrindo com a vela grande e as garrafas de plástico. Puxou o zíper da bolsa.

Estava fum ando, esperando, quando ela saiu do banheiro, de sutiã e

calcinha. Interceptou-a no cam inho para o arm ário, abrançando-a e beij ando-a ardentem ente.

— Oh, Mikel, eu o quero tanto... — balbuciou Natale, em bora se desvencilhasse. — Mas vam os deixar para depois. É m elhor eu m e vestir logo.

— Mais tarde — concordou ele. — Vou m e aprontar tam bém . Ele pegou

o kit de viagem na m ala e foi para o banheiro. Depois de escovar os dentes e fazer a barba, tom ou um banho rápido, enxugou-se, penteou os cabelos, vestiu-se.

— Está pronto, Mikel?

— Já estou indo.

Ele saiu do banheiro alguns segundos depois e viu-a a tatear pela m esa.

Pegou a bolsa antes que ela a alcançasse.

— Já estou com a sua bolsa. E com o bilhete para Rosa. — Com a m ão

livre, Hurtado pegou-a pelo braço e acrescentou: — E agora vam os para a gruta.

— Dez m inutos depois, ao se aproxim arem da ram pa que levava ao

dom ínio, ele j á tinha o seu plano inteiram ente definido.

A polícia form ara outra vez um a barreira no alto da ram pa e só detinha

os peregrinos e turistas que carregavam algum a coisa, revistando cada em brulho ou bolsa, antes de perm itir a passagem do visitante. Atravessando a rua, Hurtado disse a Natale:

— Terem os de entrar num a fila aqui e passar pela inspeção da polícia. — E não haverá problem as? — sussurrou Natale. — Absolutam ente nenhum .

Era o que ele esperava.

Avançavam lentam ente, cada vez m ais perto de dois dos guardas.

Aquele era o m om ento para executar o que planej ara. Ele tornou a pegar o braço de Natale.

— Querida, im porta-se se eu a deixar por alguns segundos? Esqueci o

cigarro... e em bora eles não gostem que se fum e lá em baixo, eu m e sentiria m elhor com um m aço no bolso. Segure a sua bolsa por um instante. Atravessarei a rua rapidam ente até o café no outro lado. E a alcançarei ainda na ram pa. — Ele entregou-lhe a bolsa, acrescentando: — Só faltam dez passos antes de você alcançar a barreira da polícia.

— Está bem , Mikel — disse Natale, segurando a alça da bolsa. Ele

afastou-se rapidam ente, recuando pela fila de visitantes,

procurando se m anter num ponto de onde teria um a visão total da

inspeção policial. Se algum a saísse errada, ele não sabia o que poderia fazer por Natale. Mas sentia que não haveria qualquer problem a. A polícia, com o a m aioria das autoridades, tinha um a fraqueza por algum as aflições hum anas.

Ele esticou o pescoço para m anter Natale em seu cam po de visão. Não

dem orou m uito para que a visse parada diante dos dois policiais, segurando a bolsa. E viu-a esticando a m ão, a fim de verificar se j á alcançara a barreira policial. Os dois guardas observaram -na por um instante, baixaram os olhos para a bolsa, depois subiram para seu rosto. Hurtado viu um guarda acenando com a m ão diante dos olhos, obviam ente indicando que a m oça era cega. E viu o outro guarda balançar a cabeça em concordância, pôr a m ão no om bro de Natale e m andá-la seguir adiante, sem exam inar a bolsa.

Hurtado respirou fundo, aliviado.

Poucos m inutos depois, ele estava diante dos guardas, de m ãos vazias.

Eles o fitaram e um acenou para que seguisse em frente. Apesar da pedrinha no sapato e do consequente claudicar, Hurtado desceu rapidam ente pela ram pa. Alcançou Natale quase na base.

— Aqui estou. — Ele tornou a pegar a bolsa. —Está tudo bem ? — Obrigada por pegar a bolsa — disse ela. — Eu não sabia que ficaria

tão pesada.

— A culpa é m inha — disse Hurtado, j ovial. — Pus um a m áquina

fotográfica e um binóculo por baixo de suas coisas. Queria tirar algum as fotografias e exam inar m elhor toda a área do dom ínio. Um dia, Natale, você poderá ver tam bém pelas duas coisas.

— Se a Virgem Abençoada atender às m inhas orações — m urm urou

ela, indecisa. —De qualquer m aneira, você deverá m e contar o que vê.

— Está bem .

Hurtado sentia-se exultante agora que haviam conseguido passar com os

explosivos. Estava m ais próxim o de seu obj etivo e do sucesso. Guiando Natale na direção da gruta, ele constatou que o lugar enxam eava de fiéis. E havia guardas até m esm o ali. Tinha certeza de que poderia subir ao m orro depois da gruta e lá esconder os explosivos. Mas seria im possível, à luz do dia, colocá-los por trás da im agem da Virgem Maria, estender os fios e ligar ao detonador. Teria que voltar depois que escurecesse, por volta de m eia-noite, quando os fiéis estivessem dorm indo e os guardas se encontrassem de folga.

Lá na frente, num dos últim os bancos diante da gruta, Hurtado avistou

um a m ulher idosa levantar-se e afastar-se. Levou Natale apressadam ente para o banco e instalou-a no lugar vago. Inform ou a Natale exatam ente onde a sentara e sua posição em relação à gruta.

— Fique sentada aqui, rezando. Levarei a bolsa e acenderei sua vela. E

encherei as garrafas com a água.

— Você é m aravilhoso, Mikel.

— Faço isso por todos os m eus am ores — m urm urou ele, j ovialm ente,

inclinando-se e beij ando-a de leve nos lábios. — Voltarei num instante.

Lentam ente, sem m aiores dificuldades, ele avançou através da m ultidão

para o outro lado da gruta. Ninguém prestava atenção a qualquer outra coisa que não fosse a caverna na encosta. Foi quase fácil dem ais se afastar, fingir-se interessado pela folhagem , subir devagar, inspecionando as plantas, gradativam ente desaparecer por trás de algum as árvores.

Hurtado continuou a subir por m ais algum a distância, até que a própria

gruta ficou escondida de seu cam po de visão. Procurou a depressão por trás do carvalho grande que encontrara anteriorm ente. Estava cheia de folhas caídas e gravetos. Largando no chão a bolsa de Natale, ele aj oelhou-se e pôs-se a retirar os detritos da depressão com as m ãos. Ficou satisfeito quando term inou. O buraco era bastante profundo para caber e esconder seu equipam ento.

Tirando as garrafas e a vela da bolsa de Natale, ele pegou

cuidadosam ente os seus pacotes, com a dinam ite, detonador, relógio, fios e fita adesiva, assim com o a sacola de com pras. Olhou ao redor para verificar se alguém por acaso não o teria seguido ou se havia pessoas nas proxim idades, m as constatou que se encontrava sozinho ali. Retornou ao trabalho, aj eitando os pacotes na depressão e cobrindo com a sacola de com pras dobrada. Rapidam ente, tornou a pegar os detritos ao lado do buraco, folhas m ortas, gravetos, espalhando por cim a da sacola de com pras, até que os explosivos e outros m ateriais ficassem com pletam ente ocultos.

Levantando-se, exam inou o trabalho. Parecia perfeitam ente norm al,

com o se fosse arrum ado pela própria natureza. Hurtado tornou a guardar as garrafas e a vela na bolsa. Depois, com um a das m ãos, rem oveu da calça e casaco todos os resquícios da folhagem . Tom ando todo cuidado para não perder o equilíbrio, com eçou a descer, registrando todos os pontos de referência óbvios que o guiariam durante o seu retorno, à noite.

Quando saiu do m orro, tinha certeza de que quase ninguém o vira; e se

alguém reparara, não teria m uita curiosidade pelo am ante da natureza e m aníaco por exercício. Pronto para se fundir com a m ultidão em torno da gruta, ele lem brou-se da bolsa em sua m ão. Prom etera a Natale que cuidaria de acender a vela e encher as garrafas de plástico. Desviou-se na direção dos banhos, avistou as fileiras de velas bruxuleantes, aproxim ou-se, acendeu a vela de Natale, colocando-a j unto das outras. Depois, respeitosam ente, encam inhou-se para um a das torneiras, diante da qual havia um a fila de peregrinos, enchendo os tipos m ais variados de recipientes. Sua vez finalm ente chegou. Ele abriu as garrafas de plástico vazias de Natale, diversas no form ato da Virgem Maria, encheu-as um a a um a com a água supostam ente curativa. Fechou as garrafas e tornou a guardá-las na bolsa.

Tudo o que restava agora era voltar para j unto de Natale e levá-la de

volta ao hotel para alm oçar.

Esgueirando-se entre as pessoas concentradas diante da gruta, ele pensou

em Natale, com o se sentia atraído por ela. Pensou em sua vivacidade, no corpo m agnífico, na paixão intensa; subitam ente, ficou im paciente em levá-la de volta ao hotel, alm oçar se ela estivesse com fom e, retornar ao quarto dela, para outro m om ento de am or m em orável. Antecipando isso, ele pensou em outra coisa. Especulou quão sérias eram as suas intenções em relação a Natale, o quanto queria continuar a vê-la no futuro. Seria a m ulher que sem pre fantasiara e com quem esperava viver o resto de sua vida? Seria possível devotar todos os seus anos a um a pessoa deficiente, um a m ulher que sem pre seria cega? Ele não sabia, assim com o não sabia se Natale estava interessada em entregar sua vida a um revolucionário basco que nunca vira — e um escritor lutando pelo sucesso. Tudo acabaria se resolvendo de algum a form a, ele disse a si m esm o.

Esperava encontrá-la no banco, com o a deixara, ocupada num a prece

silenciosa ou m editando por trás dos óculos escuros. Em vez disso, quando a avistou, ela estava em penhada num a anim ada conversa com um a m ulher m ais velha, vagam ente fam iliar, um tanto alta, os cabelos pretos presos austeram ente atrás da cabeça num coque, sentada ao seu lado.

Aturdido, ele se aproxim ou. A m ulher m ais velha estava agora falando,

enquanto Natale escutava. Hurtado chegou perto, esperou que a m ulher term inasse de falar, depois se adiantou e tocou no om bro de Natale.

— Natale, sou eu, Mikel. Já enchi todas as suas garrafas... Natale virou-

se em sua direção, um sorriso no rosto erguido,

estendendo a m ão.

— Mikel, quero apresentá-lo a um a pessoa m uito querida. A m ulher com

quem estou falando é Rosa Zennaro, a am iga da nossa fam ília de Rom a e a pessoa que m e aj uda aqui em Lourdes.

— A pessoa para quem deixam os o bilhete — disse ele, oferecendo um a

m esura e um sorriso. — Prazer em conhecê-la, Signora Zennaro.

— O prazer é m eu — disse Rosa. — Natale estava m e falando a seu

respeito...

— Não foi tanto assim — m urm urou Natale apressadam ente para

Hurtado, corando.

— ...e que está com petindo com igo para se tornar seu brancaráier —

concluiu Rosa.

— Tenho certeza de que isso seria im possível — declarou Hurtado. — Vi

as duas absorvidas na conversa e não tinha a intenção de interrom per.

— Não era nada im portante — disse Rosa. — Eu apenas estava falando

a Natale sobre a im agem da Virgem Maria no nicho ao lado da gruta. — Ela apontou e acrescentou: — Ali está. Não se pode errar.

Hurtado espiou com um sentim ento de culpa, incapaz de adm itir que a

conhecia m uito bem , que estivera m ais perto da im agem que qualquer das duas e os planos que tinha para destruí-la.

— Estou vendo — disse ele. — É bastante atraente. — Mas Bernadette não pensava assim , Mikel. — Natale virou-se,

procurando pelo braço de Rosa e puxando-o. — Rosa, fale a Mikel sobre a im agem ... ele vai se interessar.

Sem qualquer protesto, Rosa pôs-se a relatar a história pela segunda vez. — Havia um a im agem de gesso da Virgem no nicho ao lado da gruta, ali

colocada pelos habitantes da cidade. Duas irm ãs de Ly on, m uito devotadas à gruta, queriam substituí-la por um a im agem m aior e m ais acurada da aparição que Bernadette vira. Encarregaram um conhecido escultor, Joseph Fabisch, da Academ ia de Artes de Ly on, de prepará-la. Fabisch veio a Lourdes, conversou com Bernadette e obteve um a descrição de com o a Virgem parecia quando anunciara que era a Im aculada Conceição. Descrevendo o encontro com Bernadette, Fabisch escreveu m ais tarde: "Bernadette levantou-se com a m aior sim plicidade. Uniu as m ãos e ergueu os olhos para o céu. Eu nunca vira nada m ais lindo. Nem Mino da Fiesole, Perugino ou Rafael j am ais fizeram qualquer coisa tão terna e ao m esm o tem po tão profunda quanto a expressão daquela m oça, tísica até as pontas dos dedos. "De acordo com as especificações de Bernadette, m as perm itindo-se algum a licença de artista, Fabisch esculpiu a im agem m aior em m árm ore de Carrara. Quando o Padre Pey ram ale recebeu a im agem em Lourdes e m ostrou-a a Bernadette, ela exclam ou: "Não, não é isso!"

Natale estava deliciada.

— Bernadette não era capaz de fingir sobre qualquer coisa! — Bernadette não poupou críticas — continuou Rosa. — Achou que a

im agem era m uito alta, m uito am adurecida, m uito enfeitada. Disse que o escultor, ao levantar os olhos da Virgem para o céu, m as não a cabeça, deixara-a com um a papada. Mesm o assim , a im agem foi instalada no nicho, com a m aior cerim ônia, a 4 de abril de 1863. Bernadette não teve perm issão para com parecer, presum ivelm ente porque as pessoas ávidas de curiosidade poderiam incom odá-la. Mas desconfio que a m antiveram afastada porque poderia se m ostrar m uito franca e fazer com entários negativos sobre a im agem .

— Muito curioso — com entou Hurtado, sentindo-se m ais culpado do que

nunca. — E agora vam os alm oçar? Vai nos acom panhar, não é m esm o, Sra. Zennaro?

— Obrigada. Terei o m aior prazer.

— Mikel, siga na nossa frente, por favor. Preciso de alguns m om entos a

sós com Rosa para discutir um problem a pessoal. Irem os logo atrás de você.

— Está bem — respondeu Hurtado, afastando-se. Antes de se afastar m uito, no entanto, pôde ouvir Natale e Rosa falando

aos sussurros. E em inglês. Natale estava dizendo:

— Não é m aravilhoso, Rosa? Daria qualquer coisa para vê-lo. Você se

im portaria de m e dar um a ideia da aparência dele?

Rosa estava respondendo:

— Ele é feio com o o pecado, um a coisa m onstruosa que parece saída do

pincel de Goy a. Olhos esbugalhados, nariz achatado, dentes tortos e enorm e com o um gorila.

— Sei agora que não é verdade — com entou Natale, rindo. — Está

brincando, não é m esm o?

— Claro que estou, querida. Ele é tão bonito quanto você poderia desej ar. Parece um artista...

— Ele é escritor.

— Posso acreditar. Ele deve ter quase l,80m de altura, esguio m as forte,

rosto firm e, olhos escuros sentim entais, nariz com prido e alongado, lábios cheios, um queixo determ inado, cabelos castanhos-averm elhados, cortados bem rente. Um ar determ inado, com o alguém que sabe o que quer e vai conseguir.

Escutando, Hurtado m urm urou um am ém , enquanto com eçava a subir a

ram pa.

Para Gisele Dupree, fora um a m anhã ociosa. Não tinha qualquer grupo

para guiar até o início da tarde. Assim , ficou deitada até tarde, depois resolveu se vestir e sair para resolver alguns problem as m enores.

Parou na Avenue Bernadette Soubirous para com prar alguns cosm éticos

— lápis para os olhos, batom , crem e — a fim de cum prir a sua nova resolução de voltar a se m aquilar. Depois, seguiu pela Rue de Ia Grotte, até chegar a um a loj a de artigos de couro, que exibia um a carteira verm elha que lhe agradou. Resolveu com prá-la. No últim o m om ento, quando j á estava prestes a com prar com ida, lem brou-se do rolo de film e que tirara dos peregrinos de Nantes, dois dias antes. Em troca de um a gratificação, haviam lhe garantido a entrega em 48 horas. Desviou-se para ir buscar as fotos coloridas, pensando em entregá-las ao grupo no hotel, depois do alm oço. Guardando na bolsa o pacote com as fotografias, ela partiu para as loj as de alim entos, disposta a reduzir as despesas de alm oço e j antar pelo expediente sim ples de com er no apartam ento de Dom inique pelo restante da sem ana.

Na pequena sala de j antar do apartam ento bastante fresco, depois de

esquentar um pouco de sopa de tom ate, preparar um a salada de ovo e passar geleia num croissant, ela sentou-se com alguns exem plares acum ulados de Le Figaro, a fim de se atualizar com as notícias j á antigas. Já com eçara a ler quando se lem brou das fotografias e resolveu verificar se haviam saído direito, j á que nunca fora um a das m elhores fotógrafas do m undo. Pegando o pacote na bolsa, levou-o para a m esa, tirou as fotografias e recom eçou a com er a salada.

As fotografias do grupo, todos im óveis e posando, estavam m uito boas;

pelo m enos nenhum a saíra desfocada. Enquanto as virava, um a a um a, contou nove fotografias. E depois, para suasurpresa, encontrou m ais três fotografias, de um total estranho, um hom em m ais velho, isolado, parado ao sol, perto da gruta. As fotografias haviam sido tiradas em rápida sucessão, a prim eira do hom em m ais velho sim plesm ente parado ao sol, as roupas grudadas no corpo, obviam ente porque acabara de sair dos banhos, com a m ancha do que pareciam ser as penas de um passarinho flutuando diante de sua cam isa. A segunda m ostrava-o a se inclinar, pegando no chão o que podia ser o passarinho, com as asas estendidas. E, finalm ente, a terceira apresentava o hom em aj eitando o passarinho — não, não era um passarinho, m as um bigode — no lábio superior. E não era m ais um estranho. Gisele reconheceu-o.

Era Sam uel Talley, seu ex-cliente, o professor de Nova York. A

recordação surgiu instantaneam ente. Quando estava fotografando o grupo de peregrinos, ela vira Talley parado ali perto, sozinho. Por diversão, desviara a câm ara para focalizá-lo e batera três instantâneos em rápida sucessão. Talvez tivesse feito apenas por diversão, para agradá-lo com um registro de sua visita à gruta, que podia ser vista claram ente a distância, por trás dele; ou talvez tivesse algum outro m otivo, agradá-lo com o obj etivo de lhe arrancar m ais um a gorj eta generosa. Estava ainda m uito longe de chegar à escola de tradução em Paris, m as aquelas gorj etas sem pre aj udavam .

Mas as fotografias de Talley eram absurdas.

Ela parou de com er, tornando a estudar cada um a, atentam ente. A

princípio, a sequência não fez o m enor sentido. O absurdo estava no bigode, o bigode de Talley a flutuar para o chão. Era um bigode postiço. Gisele reconstituiu a cena. Ele saíra dos banhos, o bigode caíra, porque m ergulhara na água. Ele se abaixara para recuperá-lo. E o grudava de volta no lábio superior.

Engraçado.

Mas tam bém m uito estranho. Ela pensara que o bigode espesso fosse

autêntico. Mas podia constatar agora que era falso, um disfarce. E por que um professor sem qualquer im portância, de um lugar distante, haveria de se disfarçar num lugar em que era um estrangeiro e desconhecido?

A m enos, é claro, que ele não quisesse ser reconhecido, preferisse

perm anecer desconhecido. Portanto, era um visitante que podia ser conhecido, m as queria se m anter incógnito durante a sua perm anência em Lourdes.

O lado intrigante de sua m ente estava agora correndo um quilôm etro por

m inuto — um a expressão m uito usada na Am érica — a curiosidade totalm ente atiçada.

Por que um professor insignificante se preocuparia com a possibilidade

de ser visto em Lourdes? Estaria tentando evitar algum a nam orada francesa que poderia se encontrar na cidade? Estaria tentando evitar um credor local, a quem devia por um a extravagância anterior, além dos seus recursos? Ou...

Talvez ele não fosse absolutam ente Sam uel Talley. Talvez o nom e fosse

falso, assim com o o bigode. Talvez ele fosse outra pessoa, alguém m ais im portante, alguém que, por algum m otivo, não queria ser identificado em Lourdes.

Alguém im portante?

— Gisele pôs de lado a segunda e terceira fotografias, concentrando-se

na prim eira, a que m ostrava Talley sem o bigode, o hom em m ais velho com todo o rosto à m ostra, parecendo com o realm ente era. Ela levantou a fotografia, estreitando os olhos, estudando atentam ente o sem blante eslavo. Havia m ilhares e m ilhares de rostos im portantes no m undo, ela conhecia apenas uns poucos, especialm ente os de artistas e políticos que via nos j ornais. Contudo, aquela fotografia em particular, do hom em que dissera se cham ar Talley , o hom em que perdera o bigode postiço, tinha algum a coisa fam iliar.

Era com o se j á o tivesse visto em algum lugar antes. As feições eram visivelm ente eslavas, sem o bigode. Um a verruga no

lábio superior. Feições eslavas num hom em que lhe dissera ser am ericano de pais russos e que ensinava russo na Universidade de Colúm bia, m as que podia ser outra pessoa. Contudo...

Gisele piscou os olhos. Por que não russo... realm ente russo? E foi então que lhe ocorreu, com o um relâm pago, o reconhecim ento

total.

Já vira aquele hom em ou seu sósia, pessoalm ente, nos j ornais. Gisele

vasculhou a m em ória recente, os m eses na ONU. Isso m esm o, fora lá que vira o rosto com a verruga. Seu am ante, Charles Sarrat, levara-a a um a recepção da ONU, onde encontrara o grande hom em , ficara im pressionada por vê-lo tão de perto. E tornara a vê-lo no dia anterior, na prim eira página de Le Figaro.

Ela vasculhou a pilha de j ornais atrasados. E na edição de anteontem , na

prim eira página... lá estava ele! Um dos três candidatos a substituto do prim eiro-m inistro doente da União Soviética. Lá estava no j ornal, o m esm o rosto da fotografia colorida que ela tirara na gruta.

Sergei Tikhanov, m inistro do Exterior da União Soviética. Mas não era possível, sim plesm ente não era possível. Mas era, quase que

certam ente era.

Rapidam ente, Gisele j untou os dois retratos, o que saíra na prim eira

página do j ornal de Paris, o que tirara por diversão na gruta, com parando-os.

Não restava a m enor dúvida de que se tratava da m esm a pessoa. Sam uel

Talley , do bigode postiço, era na verdade o fam oso e poderoso Sergei Tikhanov.

Santo Deus, se fosse m esm o verdade...

O lado esperto e dedutivo da m ente de Gisele estava agora disparado,

num a velocidade vertiginosa, alinhando as possibilidades, definindo a única possibilidade lógica.

O sucessor à liderança da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

estava doente. Com o Talley, ele adm itira que estava doente. Achava-se na fila para o cargo m ais alto da Rússia. Mas estava doente e talvez os m édicos não lhe dessem m uita esperança. Por isso, ele tentava qualquer cura e Lourdes conquistara as m anchetes nos últim os dias. Mas, com o líder do m aior Estado ateu do m undo, ele não podia perm itir que se divulgasse a notícia de que se entregava a um a esperança rom ântica e incerta, com o procurar aj uda da Virgem Maria no m ais fam oso santuário católico. Portanto, viera sob um pseudônim o e usando um disfarce.

Gisele recostou-se na cadeira, abalada pela enorm idade de sua descoberta.

Se fosse verdade...

A descoberta era um grande prêm io, m as tinha de ser verdadeira,

confirm ada, provada. Não podia haver qualquer equívoco. Sua única prova era a fotografia de Talley -Tikhanov tirada perto da gruta, o hom em no instantâneo se parecia com a im agem em sua m em ória do m inistro do Exterior soviético que vira por um instante num a recepção na ONU. Mas a m em ória podia ser falha, inexata. Havia tam bém a fotografia na prim eira página, bem clara, m as não totalm ente, porque reproduzida em papel de j ornal ordinário.

De que prova adicional ela precisava?

Para com eçar, um a fotografia m elhor de Tikhanov, m ais nítida que a do

j ornal, que lhe perm itisse a com paração com a chapa que batera na gruta.

E m ais um a coisa. A prova absoluta de que Talley, o nom e, era falso,

que não se tratava do seu próprio nom e, m as um disfarce, tanto quanto o bigode. Se isso pudesse ser provado, que Talley não era Talley, se um a fotografia m ais nítida de Tikhanov fosse igual ao hom em na gruta, então não restaria m ais qualquer dúvida. Ela poderia denunciar alguém que não queria ser desm ascarado, a qualquer custo. Teria um a grande oportunidade, a m aior em sua j ovem vida.

Mas, prim eiro, a prova.

Gisele analisou o próxim o passo — ou m elhor, os dois passos — e logo

com preendeu o que tinha exatam ente de fazer.

Prim eiro, a fotografia m ais nítida do Ministro do Exterior Tikhanov.

Assim que tivesse essa prova, poderia dar o segundo passo. O prim eiro, a fotografia m elhor tinha de vir de algum lugar, obviam ente um a agência fotográfica ou o arquivo de um j ornal. O que constituía um problem a. Lourdes não possuía um a agência fotográfica e seu j ornal era m uito pequeno e lim itado para ter em seus arquivos um a pasta com fotografias do m inistro soviético. Som ente os grandes j ornais contavam com arquivos assim . Os j ornais de Marselha, Ly on ou Paris. Se pudesse entrar em contato com um desses j ornais... e de repente ela teve a ideia de com o fazê-lo.

Sua boa am iga, Michelle Dem aillot, chefe do Serviço de Im prensa dos

Santuários, poderia aj udá-la.

Gisele olhou para o relógio. Não dispunha de tem po suficiente para ir ao

centro de im prensa e falar com Michelle, voltando a tem po de guiar o novo grupo de peregrinos. Mas não precisava falar pessoalm ente. O telefone seria suficiente. Em purrando para o lado a salada ainda na m etade, Gisele foi à sala de estar, encontrou a lista telefônica intitulada Hautes-Pyrénées, em que estavam relacionados os núm eros de Lourdes e Tarbes. Descobriu o telefone do Serviço de Im prensa dos Santuários, sentou-se ao lado do aparelho e discou.

Um a voz de m ulher desconhecida atendeu.

— Michelle Dem aillot está? — perguntou Gisele. — Ela está saindo para alm oçar. Posso tentar alcançá-la. — Eu ficaria agradecida. Avise a ela que é Gisele Dupree quem desej a

lhe falar.

Gisele esperou e sentiu-se aliviada quando ouviu a voz de Michelle pelo

telefone um m om ento depois.

— Olá, Michelle. Aqui é Gisele. Não quero atrasá-la para o alm oço, m as

preciso de um favor.

— Não há problem a. O que é?

— Preciso de algum as fotografias do Ministro do Exterior soviético,

Sergei Tikhanov. Preciso delas porque tenho um a boa possibilidade.

— Possibilidade de quê?

— Porque... porque... quando eu estive na ONU... lem bra-se?... conheci-

o pessoalm ente. E agora um a revista pequena pediu-m e que escrevesse um artigo a seu respeito. Mas não quer com prar sem fotografias. E m e lem brei de que você poderia saber de gente da im prensa ainda vindo para Lourdes, hoj e ou am anhã, pedindo então para trazer algum as fotografias de Tikhanov É possível?

— Praticam ente todo o pessoal credenciado da im prensa j á chegou, m as

ainda pode haver alguém ... espere um instante que eu vou verificar...

Michelle deixou o telefone por 30 segundos e logo estava de volta à linha. — Acabei de verificar, Gisele. Talvez você tenha sorte. Alguém chegará

de Paris esta noite, um fotógrafo do Paris-Match, a fim de cobrir a m ovim entação aqui e se m anter a postos para fotografar a pessoa que verá a Virgem Maria, se é que isso acontecerá. Posso telefonar para o Paris-Match e provavelm ente o encontrarei lá. Você quer m esm o um a fotografia de Sergei Tikhanov?

— Isso m esm o. Um a fotografia boa e nítida do seu rosto. Pagarei o

preço. Se houver m ais de um a foto, m elhor ainda. Pode m e ligar para dar um a resposta? Aqui está o telefone em que poderá m e encontrar.

Ela deu o núm ero de Dom inique.

— Está certo, Gisele. Se eu não conseguir nada em cinco m inutos, ligarei

para inform á-la. Mas se ele puder trazer as fotografias, não m e darei ao trabalho de telefonar. Você saberá que as fotografias estarão aqui esta noite. Poderá buscá-las no Serviço de Im prensa por volta das oito horas. Com binado?

— Com binado. Você é m aravilhosa, Michelle. Mil vezes obrigada! Gisele desligou, pensando: um m ilhão de vezes obrigada. Só Deus sabia o

quanto aquilo podia valer, se fosse verdade.

Ela ficou sentada ao lado do telefone, torcendo para que não tocasse. E

assim continuou, aguardando, por cinco, seis, sete, dez m inutos. O telefone não tocou.

Isso significava que sua am iga conseguira entrar em contato com o Paris-Match. Isso significava que as fotografias de Tikhanov estariam em suas m ãos naquela noite.

O passo um j á fora dado.

Em seguida, o segundo passo. Descobrir se Talley era de fato Sam uel

Talley, um professor do departam ento de línguas da Universidade de Colúm bia. E Gisele sabia exatam ente com o descobrir isso. Seu antigo am igo am ericano, Roy Zim borg, form ara-se j ustam ente na Universidade de Colúm bia.

Ela olhou para o relógio. Não tinha tem po para Nova York agora. Era

m elhor esperar até term inar o seu trabalho. Além do m ais, seria terrível acordar Zim borg tão cedo em Nova York. Deveria deixar para a noite, talvez m eia-noite, quando seriam seis horas da tarde em Nova York e j á teria recebido as fotografias do Paris-Match, confirm ando que se tratava da m esm a pessoa que fotografara com o am adora na gruta.

Gisele ficou im óvel, um sorriso espalhando-se pelo rosto. Um m ilagre

estava acontecendo em Lourdes, no final das contas, um m ilagre pessoal, só seu.

Naquela noite, ela poderia estar com a passagem e o passaporte para a

ONU carim bados. Não concebia com o chantagem . Apenas um golpe de sorte para alguém que tanto m erecia.