O Milagre

Irving Wallace · Capítulo 8 de 16

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O Milagre

Capítulo 7

Segunda-Feira, 15 de Agosto

Passava um m inuto da m eia-noite em Lourdes e o segundo dia do Mom ento da Reaparição com eçara.

Eram exatam ente duas horas da m adrugada quando o despertador do relógio de viagem de Natale Rinaldi, na m esinha-de-cabeceira, em seu quarto no Hotel Gallia & Londres, disparou com estridência. Im ediatam ente desperta, Natale estendeu a m ão, tateando à procura, até encontrar o relógio e apertar o botão para acabar com o som persistente. Sentou-se na cam a, em ergindo de um a escuridão nebulosa, povoada de sonhos, para um a escuridão alerta, a m ente focalizando e lem brando que, depois do j antar, arm ara o relógio Braille para tocar às duas horas da m adrugada. Dorm ira sem tirar o vestido, lim itando-se a rem over os sapatos, que deviam estar em baixo da cam a.

Com o sua aj udante, Rosa, não pudera levá-la à gruta pela segunda vez, na noite anterior, Natale resolvera voltar sozinha, quando todos dorm iam , a fim de desfrutar o conforto do santuário sem m ais ninguém ao redor. Baixando os pés para o chão e calçando os sapatos de saltos baixos, ela experim entou um breve m om ento de pânico. Especulou se poderia lem brar a direção, a contagem dos passos antes de cada volta, a partir do instante em que deixasse o quarto e se encam inhasse sozinha para a gruta. Mas o vazio m om entâneo em sua m ente foi logo preenchido pelas fileiras de núm eros em ordem absoluta, os passos que deveria dar a cada volta, saindo do quarto, atravessando o saguão do hotel, percorrendo a Avenue Bernadette Soubirous até a ram pa para a Basílica do Rosário, alcançando finalm ente a própria gruta. Os núm eros estavam ali, em sua m ente, tão certos e nítidos com o num a tela de com putador.

Aliviada, Natale levantou-se, tateou o cam inho até o banheiro, m olhou o rosto com água fria, penteou os cabelos.

Saiu para o corredor, trancou a porta e pôs a chave num com partim ento interno da bolsa, que depois pendurou no om bro.

Seguiu para a direita, procurando o elevador, encontrou-o infalivelm ente. Tocou no rosário dentro da bolsa, pensando em sua vigília solitária na gruta e as orações que ofereceria à Virgem invisível.

Quando ouviu o elevador chegar, estava pronta para seguir. Nada poderia afastá-la da Virgem que tanto am ava e com quem poderia falar a sós.

Arriado num a cadeira, por trás do balcão, o queixo encostado nos cabelos expostos do peito, Anatole cochilava. Um barulho qualquer, fam iliar m as inesperado, introm eteu-se em seu subconsciente, acordando-o. Abrindo os olhos, ouviu o elevador descendo para o saguão. E escutou o chocalhar quando parou com um solavanco.

Um a rápida olhada no relógio da recepção inform ou-o de que passavam cinco m inutos das duas horas da m adrugada.

Era algo incom um alguém usar o elevador àquela hora. Desde que chegara a Lourdes, procedente de Marselha, arrum ando aquele em prego tedioso, Anatole nunca ouvira ninguém acordar às duas horas da m adrugada naquele hotel de chatos. Durante a sem ana inteira em que trabalhava ali, o saguão fora com o um necrotério entre um a e cinco horas da m adrugada.

E agora, cinco m inutos depois das duas horas da m adrugada, alguém estava saindo do elevador.

Anatole levantou-se inclinando-se por cim a do balcão, enquanto estreitava os olhos para ver m elhor.

Entre todas as pessoas, era j ustam ente a garota sensacional quem saía do elevador. A garota cega absolutam ente deslum brante. Ele reconheceu-a no m esm o instante.

Ali estava ela, em carne e osso. E absolutam ente sozinha. Mas que loucura! Que diabo ela estava querendo fazer àquela hora?

A garota parecia saber o que era, pois atravessava o saguão, com algum a segurança, encam inhando-se para a porta e a rua.

Anatole lem brou-se de que trancara a porta do hotel, com o fora instruído a fazer, antes de tirar o seu cochilo. A garota, tão sensual, encontraria um a barreira segura, que a im pediria de seguir para onde estava indo. Ela m erecia a cortesia do hotel, pensou Anatole, e m erecia um a olhada m ais de perto. E no instante seguinte ele entrou em ação, contornando apressam ente o balcão e seguindo para a porta. A m oça j á chegara lá quando ele cham ou:

— Mademoisellel

Ela parou prontam ente, surpresa, depois virou a cabeça.

— Sou Anatole, o recepcionista do turno da noite — ele explicou rapidam ente. — Sabia que j á passam de duas horas da m adrugada?

— Sabia, sim — respondeu Natale, sem a m enor hesitação.

— E quer sair do hotel a esta hora?

— Tenho um encontro m arcado.

— A porta da frente está trancada. Sem pre a m antem os trancada depois que todos se recolhem . Mas posso abri-la.

— Pois então abra, por favor.

Anatole j á estava puxando a tranca.

— Se não vai dem orar, posso deixar a porta aberta.

— Eu ficaria agradecida.

— Deixe-m e abrir a porta.

Anatole passou à frente dela, roçando em seu corpo, sentindo o contato m acio daqueles fantásticos seios j ovens em seu braço. Puxando a porta, ele observou-a atentam ente. Um rosto pálido, deslum brante, anim ado apenas pelos óculos escuros. Seios pontudos. O vestido curto, que aderia aos quadris e deixava à m ostra as pernas bem torneadas.

— A porta está aberta? — perguntou ela.

— Está, sim . — Anatole m al conseguiu falar. — Posso aj udá-la em algum a coisa?

— Obrigada, m as não há necessidade. Estou bem .

Ela passou por ele, saindo para a rua, sem qualquer hesitação. Virou à direita no instante em que seu pé tocou na calçada. Anatole saiu para observá-la. Os passos eram controlados, m as firm es, quase desafiadores. Anatole sorriu. Um a sacana de coragem . Devia ser sensacional na cam a. Ele m anteve os olhos fixados nela, as pernas m aravilhosas, os quadris ondulantes, sentindo-se inflam ado pelo desej o.

Tivera m uitas m ulheres em Marselha, quase sem pre prostitutas pagas dos seus escassos ganhos com trabalhos que envolviam atividade m anual e algum as m ulheres bêbadas e gastas, que faziam qualquer coisa com qualquer um . Mas nunca fora para a cam a com um a garota, com um a dam a de alta classe, j am ais com algum a m ulher que parecesse com aquela cega.

Ele continuou a observar o vulto que se afastava pelas poças de luz dos lam piões que desafiavam a escuridão. Ao longe, ela chegou à esquina, desceu da calçada, atravessou a rua, passando pelo café.

Um encontro m arcado? Com quem ?

E logo ele com preendeu. A gruta. Ela ia esperar pela Virgem na gruta. Um a garota estúpida. Com o poderia ver a Virgem ou quem quer que fosse? Quando com preendesse que não havia Virgem nenhum a por lá, ela poderia querer alguém m ais, alguém que pudesse realm ente lhe fazer com panhia.

Tornando a entrar no hotel, Anatole m al conseguia andar, de tão enorm e que era a ereção entre suas pernas.

Era bastante difícil à luz bruxuleante das velas lá em baixo, m as Mikel Hurtado continuou a avançar, de quatro, saindo da vegetação m ais próxim a do nicho que continha a im agem da Virgem Maria e se esgueirando entre os arbustos e árvores.

Ao despertar do cochilo no hotel, m eia hora antes, ele planej ara inicialm ente levar a dinam ite e o detonador para a gruta, escondendo tudo ou arm ando logo de um a vez. Vestindo-se, m udara de ideia. Ao cair da noite anterior, vira a área da gruta e lhe parecera um local bastante prom issor. Agora, ele achou m elhor fazer outro reconhecim ento, de m adrugada quando não havia peregrinos... m as podia haver guardas. Suas experiências na Espanha ensinavam -lhe que era essencial conhecer a situação de segurança de qualquer alvo. Assim , sem o equipam ento, ele descera a escada para o saguão, passara pelo sonolento recepcionista da noite, que lhe abrira a porta, saíra para a rua e se encam inhara para o dom ínio.

Das som bras na base da ram pa, Hurtado efetuara um reconhecim ento prelim inar da área perto do seu destino. Não havia ninguém à vista na Esplanada do Rosário nem nas passarelas que conduziam à Basílica Superior. E parecia tam bém não haver ninguém na entrada, da gruta. Quanto à Esplanada das Procissões, com o o m apa cham ava o local, não havia um a só pessoa em toda a sua extensão.

Hurtado j á com eçava a em ergir das som bras quando, aparentem ente do nada, um vulto surgiu a curta distância... um hom em , idoso, um vigia noturno de blusão azul, com um coldre no om bro. Não estava exatam ente andando, m ais se arrastava, subindo pela Esplanada das Procissões, provavelm ente vindo do portão no outro lado, encam inhando-se para a Basílica do Rosário. O vigia parecia andar com o um sonâm bulo, bocej ando, não olhando para a esquerda nem para a direita, enquanto avançava para as igrej as. Chegando aos degraus diante da Basílica do Rosário, o hom em sentou-se para fum ar um cigarro. Levou cinco m inutos assim . Finalm ente, largou a ponta de cigarro, apagando-a com o sapato. Depois se levantou e recom eçou a ronda pelo dom ínio.

Observando o guarda se afastar, Hurtado consultou o relógio e resolveu m arcar o tem po da ronda. Agachando-se e depois sentando, com pletam ente escondido na som bra da ram pa, ele esperou pacientem ente. E 25 m inutos depois o guarda tornou a aparecer, avançando do outro lado do dom ínio na direção das basílicas. Mais de 30 m inutos, quase 35, antes que ele alcançasse a entrada da Basílica do Rosário, m ais um a vez descansando e saboreando o cigarro ritual. Outros cinco m inutos e o guarda prosseguiu em sua patrulha.

Hurtado ficou satisfeito com o tem po. O guarda passava por aquele local a cada 30 m inutos, m ais ou m enos na hora certa e na m eia hora. Hurtado esperaria que ele sum isse e depois seguiria para a gruta. Exam inaria os arbustos, m oitas, as árvores ao lado e por cim a da caverna, iria em bora quando o guarda se encontrasse no outro lado do dom ínio.

Não haveria problem a. Absolutam ente nenhum .

Quando o guarda tornou a desaparecer, Hurtado desceu a ram pa apressadam ente, tão silenciosam ente quanto possível, contornando a igrej a para chegar à gruta. Tam bém não encontrou qualquer pessoa à vista. Os peregrinos dorm iam em suas cam as durante a noite e pela m adrugada, a gruta ficava abandonada.

Passando pelos bancos e as velas ardendo, Hurtado nem olhou para a gruta. Foi para a encosta relvada ao lado, tentando encontrar o m elhor cam inho para subir. Não queria seguir a trilha regular, que levava ao topo da colina, m uito m ais distante. Felizm ente, havia os indícios de um a trilha antiga, j á m eio coberta pelo m ato, que visitantes aventureiros anteriores haviam usado para subir até as basílicas, de onde teriam um a vista am pla do am plo dom ínio lá em baixo. Chegando ao m eio da colina, paralelo à im agem da Virgem no nicho por cim a da gruta, Hurtado virou para a esquerda, de quatro, aproxim ando-se do nicho, a fim de poder exam iná-lo de perto e analisar a possibilidade de colocar a dinam ite ali e estender o fio para o detonado!

Agora, essa parte realizada, cada aspecto estudado com cuidado, ele tornava a subir, rastej ando para a área de vegetação m ais densa, procurando por um lugar obscuro m as perfeito, em que pudesse instalar o detonador. Em pouco m ais de 10 m inutos encontrou o que procurava, um a depressão natural na terra, ao lado da base larga de um frondoso carvalho. Registrou-o cuidadosam ente na m ente. Estaria pronto para a noite seguinte.

Aproxim ou do rosto o relógio de pulso, com seu m ostrador lum inoso. Era o m om ento de se retirar. O guarda estaria deixando a área im ediata e se afastando na ronda pelo dom ínio.

Erguendo-se, um pouco preocupado com a possibilidade de escorregar, Hurtado foi descendo, lentam ente, até que a parte superior das velas ardendo surgiu em seu cam po de visão. Cautelosam ente, antes de continuar a descer pelo resto do cam inho, ele se inclinou para a frente, a fim de verificar se a área na frente da gruta ainda se encontrava vazia.

Estava.

Não, não estava! Seu coração parou por um a fração de segundo. Havia alguém ali.

Agachando-se, segurando o galho de um a árvore raquítica, ele tentou focalizar a pessoa lá em baixo. Constatou que o vulto era de um a m oça, cabelos escuros, usando óculos escuros, aj oelhada era posição de oração. As m ãos estavam unidas diante dos seios, aparentem ente rezava silenciosam ente diante da gruta. Havia algo nela, a ausência de m ovim ento, a im obilidade do corpo, indicando que rezava fervorosam ente, num estado de transe. E de repente ocorreu-lhe — pelos cabelos e óculos escuros — que era a m esm a m oça que vira deixando o quarto ao lado do seu no hotel, durante a hora do j antar, na noite anterior. Mas estar ali sozinha, naquela hora ím pia, em com unhão com a Virgem Maria, excedia tudo o que se podia im aginar em m atéria de fanatism o religioso.

E sua presença prej udicava o plano de Hurtado de deixar a área. Não podia correr o risco de ser visto por qualquer pessoa. Teria de perm anecer escondido até que a m oça parasse de rogar à Virgem e fosse em bora.

Ele continuou a olhar para a m oça im óvel, em transe, quando subitam ente ela com eçou a se m exer... ou m elhor, seu corpo involuntariam ente se m exeu. Ela parecia estar balançando, pendendo para o lado, até que finalm ente tom bou, esparram ando-se no chão, inconsciente. Obviam ente, sucum bindo ao êxtase religioso, ela desm aiara. Agora, estava encolhida no chão, tão inerte com o se estivesse m orta.

Instintivam ente, Hurtado pensou em descer correndo a encosta — ou pelo m enos rastej ar o m ais depressa possível — para ir aj udar. Mas se ela recuperasse os sentidos e o visse, poderia reconhecê-lo e identificá-lo m ais tarde, quando se procurasse suspeitos depois da explosão. Dividido entre o desej o de aj udar e o m edo do perigo, Hurtado torceu para que o guarda voltasse logo, visse a m oça e a aj udasse. Mas o vigia não voltaria por m ais 20 m inutos e passaria a algum a distância da gruta, talvez não visse o corpo inerte.

Enquanto o debate interior continuava a atorm entar a m ente de Hurtado, algo inesperado aconteceu lá em baixo.

Um segundo vulto apareceu, correndo, um j ovem , encam inhando-se diretam ente para a m ulher que desm aiara diante da gruta e se aj oelhando ao seu lado. Ele se em penhou em ressuscitá-la, m assageando os pulsos inertes, as faces, puxando-a para um a posição sentada. Finalm ente a m oça m exeu a cabeça, sacudindo-a, recuperando os sentidos. O hom em continuou a lhe falar, até que ela finalm ente assentiu. O hom em levantou-se, foi até as torneiras, recolheu um pouco de água na m ão em concha, voltou apressadam ente. Molhou o rosto da m oça com um lenço. Ela logo ficou plenam ente consciente e se pôs a falar. O hom em aj udou-a a se levantar. Os pés da m oça pareciam firm es, m as um pouco confusos. Havia algo estranho na m aneira com o ela estendeu a m ão, com o se tentasse tatear o cam inho, antes que o rapaz lhe segurasse o braço e a levasse para fora da gruta.

Foi nesse m om ento que Hurtado com preendeu que a m ulher que rezava tão fervorosam ente na gruta provavelm ente era cega. Tentando reconstituir o m om ento em que a vira no hotel, Hurtado lem brou que pensara que ela fosse cega. Esquecera por com pleto.

Hurtado praguej ou baixinho. O problem a da m oça significava que ela não o teria visto, m esm o que resolvesse deixar o lugar 15 m inutos antes. Agora, estava desconfortavelm ente preso na encosta, esperando que a dupla se afastasse e que o guarda voltasse e fosse em bora outra vez. Hurtado observou a dupla. Tentou definir o relacionam ento entre os dois. A m oça certam ente dissera ao nam orado que iria sozinha para a gruta, m arcara para ele ir buscá-la num a hora determ inada. É o rapaz chegara um instante depois de ela ter desm aiado.

A dupla se fora agora. Mas o guarda podia ser visto a distância, em patrulha. Lentam ente, Hurtado foi rastej ando pela encosta abaixo, a fim de estar pronto para partir, no instante em que o guarda se afastasse de novo.

Perto da base da colina, Hurtado esperou que o guarda term inasse de fum ar seu cigarro e retom asse a ronda. Sete ou oito m inutos passaram e Hurtado concluiu que o hom em j á partira de novo em sua longa ronda pelo dom ínio. Cuidadosam ente, Hurtado desceu o resto da encosta, sentiu-se aliviado ao pisar outra vez em terreno plano.

Satisfeito com o reconhecim ento, apesar da dem ora, convencido de que tudo era propício a seu ato final, que levaria os nacionalistas bascos para m ais perto do sucesso, ele se afastou rapidam ente, passando pela gruta e pela im ponente Basílica Superior, encam inhou-se para a ram pa e para o Hotel Gallia & Londres.

Levando a m oça agradecida — ele descobrira que seu nom e era Natale, um a italiana (o m elhor tipo) — para o saguão do hotel, ignorando a recepção que deixara abandonada, Anatole conduziu-a ao elevador que esperava. Ela agradeceu-lhe pela centésim a vez e insistiu que poderia chegar a seu quarto sozinha. Mas Anatole m ostrou-se igualm ente insistente em querer escoltá-la em segurança até o quarto.

Subindo no elevador com a m oça, Anatole sentia-se satisfeito com aquele golpe de sorte. Depois que a garota deixara o hotel, ele tencionara voltar para trás do balcão da recepção e retom ar seu cochilo. Mas todo o interesse em dorm ir se desvanecera. Sua m ente estava repleta com im agens da garota, os peitos, a bunda, a despi-la, penetrá-la. A ereção não cessara. Ele decidira finalm ente sair para procurá-la na gruta, conversar, tentar seduzi-la. Convencera-se de que ela poderia querer um corpo quente, um am ante francês, poderia se im pressionar com a insistência dele na m adrugada. Sua intenção era estim ulá-la a convidá-lo para ir a seu quarto. Ou então poderiam ir para o quarto dele, a alguns quarteirões do Gallia & Londres, a fim de tom arem alguns drinques e depois caírem na cam a. Mas encontrá-la desm aiada, ser o grande herói que a salvara, era m uito m ais do que Anatole poderia esperar. Agora, ela estava agradecida, o que a deixaria vulnerável. Anatole sabia que só precisava pedir para passar a noite no quarto e a garota prontam ente concordaria.

Sua ereção, que am ainara por um instante, voltava a crescer intensam ente. O elevador parou no segundo andar.

— Eu a levarei até seu quarto — disse Anatole. — Qual é m esm o o núm ero?

— Não precisa se incom odar. Conheço o cam inho.

— Eu a trouxe até aqui, é m elhor deixá-la logo no quarto. Qual é o núm ero?

— Quarto 205.

Na porta, Natale vasculhou a bolsa, encontrou a chave e m eteu-a na fechadura. Consciente de que o rapaz ainda estava parado ali, ela disse:

— Obrigada.

Natale destrancou a porta, em purrou-a e entrou. O hom em seguiu-a, fechando a porta.

— É m elhor deixá-la sã e salva aqui dentro — disse ele.

— Já o fez. E agradeço profundam ente.

— Está bem ?

— Estou, sim . E é m elhor eu dorm ir agora. Obrigada m ais um a vez.

Ela estendeu a m ão. Pegando-a, sentindo a carne quente, Anatole ficou ainda m ais excitado. Apertando a m ão firm em ente, ele m urm urou:

— Quando precisar, estou a seu serviço...

Ele puxou-a rápido, com prim indo seus lábios rudes contra os de Natale, beij ando-a furiosam ente. Ela se debateu, conseguindo desvencilhar-se. Sua respiração era acelerada e balbuciou:

— O que está querendo?

— Ora, Natale, eu queria apenas beij á-la. Eu... eu gostaria de passar o resto da noite aqui.

— Não pode. E não quero isso. E agora saia, por favor.

— Sej a m ais cam arada, Natale. Você m e deve isso. Não quer fazer algum a coisa por m im ? Claro que quer.

— Não isso — respondeu Natale, alteando a voz. — Não lhe devo isso. Ela fez um a pausa, esforçando-se para m anter o controle. — Foi m uito sim pático e agradeço o que fez. Mas agora não está sendo gentil e isso não m e agrada. Sugiro que não cause m ais qualquer problem a. Sej a um cavalheiro e se retire im ediatam ente.

— Está bem , você venceu — disse Anatole, com um falso arrependim ento. — Mas você é m uito especial, não pode m e culpar por tentar. Lam ento que não tenha dado certo. Boa noite.

Anatole foi até a porta, abriu-a ruidosam ente e depois bateu com firm eza, m as perm anecendo no interior do quarto. Silenciosam ente, ele se encostou na parede, ao lado da porta fechada.

Natale ficou parada por um m om ento ao pé da cam a, deixando escapar um suspiro de alívio. Depois, tateou ao longo da cam a até o arm ário, estendeu a m ão para pegar a cam isola branca e largou-a em cim a da cam a.

Anatole prendeu a respiração, perguntando-se se ela sabia ou não que ele continuava no quarto.

Depois, teve certeza de que ela não estava consciente de sua presença; convencera-se de que ele deixara o quarto e que se encontrava sozinha.

Observou-a através dos olhos sem icerrados. Ela desabotoara o vestido e estava tirando-o. Usava por baixo apenas um sutiã m eio transparente e um biquíni sum ário. Virou-se para pendurar o vestido no arm ário e depois recuou para a cam a, tirando o sutiã. Os seios fantásticos ficaram à m ostra, cheios e firm es, os m am ilos com o enorm es botões m arrons, virados em sua direção. Ela estava se abaixando para tirar a calcinha. Anatole prendeu a respiração, o coração disparado em excitam ento, o órgão prestes a estourar.

A calcinha estava agora lá em baixo, ela levantou um a perna, depois a outra, tirando-a por com pleto. O triângulo de cabelos púbicos estava visível. Anatole perdera o controle inteiram ente, não podia se conter por m ais um segundo sequer.

Baixou o zíper da calça deixando que a enorm e ereção irrom pesse, atravessou o quarto para cim a de Natale.

Mikel Hurtado, saltando do elevador no segundo andar, avançou pelo corredor para o quarto 206. Passava pela porta do 205 quando ouviu um grito abafado, um grito em algum lugar por perto.

Surpreso, Hurtado parou, escutando atentam ente.

Outro grito abafado, estridente, inequivocam ente de um a m ulher... e do interior do quarto ao lado do seu.

Ao lado do seu quarto. A m oça cega, a m oça cega na gruta. O com eço de outro grito, sufocado bruscam ente. Algum a coisa estava acontecendo lá dentro, algum a coisa terrivelm ente errada. Hurtado não perdeu tem po em pensar, não hesitou.

Virando-se, ele avançou para a porta do 205. Podia ouvir claram ente a m oça a se debater. Pegou a m açaneta, pretendendo j ogar o om bro contra a porta e arrom bá-la. Mas a porta estava destrancada e se abriu.

Hurtado estava dentro do quarto.

E percebeu no m esm o instante o que acontecia... a m oça nua na cam a, batendo com os punhos, enquanto algum anim al, a palm a de um a das m ãos com prim indo a sua boca, a calça arriada, tentava se colocar por cim a dela, entre suas pernas.

Um estupro, um a brutal tentativa de estupro, foi o que Hurtado viu. Nenhum dos dois na cam a, em sua luta, percebeu que havia m ais alguém no quarto.

Enfurecido pelo que via, dom inado pela raiva diante do que aquele m onstro tentava fazer com um a m oça im potente, Hurtado correu pelo quarto até a cam a. Suas m ãos agarraram os om bros do estuprador, arrancando-o de cim a da m oça e j ogando-o ao chão. Anatole, atordoado pela surpresa, levantou-se cam baleante, estorvado pela calça nos tornozelos, espantado dem ais para levantar as m ãos. Hurtado atacou num m ovim ento rápido, acertando o punho direito no queixo do estuprador e o punho esquerdo em sua barriga. Enquanto Anatole gem ia, dobrando-se, Hurtado desferiu m ais socos, acertando na cabeça e rosto. Anatole com eçou a desm oronar, enquanto Hurtado continuava a desferir os socos im placáveis.

Anatole se esparram ou no tapete, m eio inconsciente, o sangue escorrendo da boca.

Hurtado inclinou-se, segurou o hom em por baixo dos braços, arrastando-o através do quarto e saindo para o corredor. Largou ali o atordoado estuprador. Por um m om ento, Hurtado considerou se deveria cham ar a polícia. Prontam ente decidiu que não. Era m elhor não ter qualquer contato com a polícia durante sua perm anência em Lourdes.

Em vez disso, acertou um chute nas costelas do estuprador e disse, em voz baixa, para não despertar os outros hóspedes:

— Saia daqui, seu filho da puta. E saia depressa, ou vou deixá-lo todo arrebentado.

Com algum esforço, o m edo transparecendo nos olhos arregalados, Anatole levantou-se, segurando a calça, o sangue pingando, a balançar a cabeça. Virou-se, quase tropeçando, cam baleou para a escada. Segurando o corrim ão, desceu apressadam ente e sum iu.

Hurtado soltou um grunhido e voltou devagar ao quarto da m oça. Ela estava de pé, num cham bre, am arrando a faixa. Tateou pela cam a à procura dos óculos escuros e aj eitou-os no rosto.

— Não se preocupe, senorita, ele j á foi em bora — disse Hurtado, em espanhol.

Ela perguntou algum a coisa em italiano. Ele acrescentou em inglês:

— Não sei italiano. Você fala inglês?

— Falo, sim ... cham ou a polícia? — indagou a m oça, ainda trem endo.

— Não há necessidade — respondeu Hurtado. — Ele não voltará. Acho que é o hom em que trabalha lá em baixo com o recepcionista noturno. Mas tenho certeza de que ele não voltará ao em prego, provavelm ente deixará até a cidade. Está bem agora?

— Apenas assustada.

— Não se culpe pelo que aconteceu. Foi um a coisa horrível. Com o aconteceu?

Natale explicou o que ocorrera, com o fora sozinha à gruta para rezar, com o a intensidade espiritual a fizera desm aiar, com o aquele hom em surgira para reanim á-la e levá-la de volta a seu quarto, com o a fizera acreditar que saíra do quarto, quando na verdade perm anecera lá dentro, determ inado a violentá-la.

— Graças a Deus que chegou a tem po — concluiu Natale. — Não sei com o conseguiu, m as lhe devo m uito.

— Foi pura sorte — disse Hurtado. — Eu tinha saído para dar um a volta, estava retornando ao quarto para dorm ir... m eu quarto fica ao lado... quando ouvi seu grito. Ia arrom bar a porta, para descobrir o que estava acontecendo, m as descobri que não se achava trancada. — Ele fez um a pausa e depois perguntou: — Sente-se m elhor agora?

— Muito m elhor — respondeu Natale,com um sorriso m aravilhoso. Ela contornou a cam a, hesitante, tropeçou um a vez, tornou a se em pertigar, pedindo desculpas. — Eu... eu sou cega...

— Sei disso.

Ela estendeu a m ão.

— Sou Natale Rinaldi, de Rom a.

Ele pegou a m ão, apertou-a, soltou-a.

— Sou Mikel Hurtado, da... da Espanha.

— Prazer em conhecê-lo... para dizer o m ínim o. Está aqui à espera da Virgem ?

Hurtado hesitou por um instante.

— Em busca de cura de um problem a de artritism o.

— Talvez nós dois sej am os afortunados.

— Espero que sim .

— Não sei o que m ais dizer, a não ser lhe agradecer de novo. Mil vezes obrigada.

— Se quer m esm o m e agradecer — disse Hurtado, firm em ente — prom eta que nunca m ais deixará que estranhos a acom panhem até o quarto... e m antenha a porta trancada por dentro.

Ela levantou a m ão.

— Prom eto.

— E agora trate de dorm ir, Natale. É o que eu vou fazer.

— Boa noite, Mikel.

— Boa noite.

Ele saiu do quarto, fechando a porta. Ficou escutando, até ouvir a chave sendo virada. Encostou a boca na porta e disse:

— Boa m enina.

Hurtado ouviu-a dizer:

— Espero que tornem os a nos encontrar.

— Tenho certeza de que nos verem os de novo. Boa noite.

Em sua porta, abrindo-a, Hurtado com preendeu que queria m esm o ver a m oça outra vez. Ela era linda, m aravilhosa, terna. Nunca encontrara um a m oça assim e queria vê-la novam ente. Talvez isso acontecesse. Mas tratou de lem brar a si m esm o que ali estava a negócios, não para se entregar a um rom ance.

Devia cuidar só dos negócios dali por diante. Nada de diversões. Nada de fracasso.

A Euskadi era sua vida. A liberdade da Euskadi estava acim a de qualquer outra coisa. Havia um trabalho a realizar. Sinto m uito, Natale, pensou ele. Só há um am or, a pátria que eu nunca tive, m as ainda terei.

Por trás do volante de seu venerável Renault, Gisele Dupree, os cabelos louros am arrados num im pecável rabo-de-cavalo, o rosto liso, sem qualquer m aquilagem , atravessou Tarbes devagar e pegou a estrada para Lourdes. Sergei Tikhanov estava ao seu lado, irrequieto. Sua apreensão provinha do hábito perturbador de Gisele de virar-se em sua direção quando falava, ao invés de concentrar-se na estrada.

Mas, depois, ele com preendeu que a apreensão m ais profunda que sentia era decorrência de um fato perturbador ocorrido na noite anterior. Com um estrem ecim ento, ele recordou...

Dorm indo no apartam ento dos Dupree, Tikhanov despertara de um terrível pesadelo, suando frio, às quatro horas da m adrugada. Plenam ente desperto, o pesadelo aflorara inteiro, diante de seus olhos. Fugia freneticam ente de m em bros do KGB, tentando desesperado encontrar um lugar para se esconder.

Sentando na cam a, acendera o abaj ur. Descobrira que o horror do pesadelo se toldava um pouco e com a luz procurava a razão. O que o deixara tão apavorado? O General Kossoff e os hom ens do KGB não o estavam perseguindo. Ao contrário, tratavam de hom enageá-lo. Era um a estrela, seria em breve a estrela m ais reluzente da União Soviética. Mas tentara se esconder do pesadelo... e im ediatam ente com preendera esse aspecto do pesadelo, tentara interpretá-lo.

A parte do esconderij o se relacionava com o risco atual que assum ira, o fracasso total em sublim ar o m edo de ser descoberto.

Vindo a Lourdes, ele se colocara num a situação precária, tom ando cuidado com cada passo que dava em seu avanço frontal para a fé e a esperança de um a cura. Contudo, concentrado nesse esforço ousado, negligenciara a proteção conveniente para o flanco. Deixara de se m anter em contato com os hom ens na União Soviética que poderiam precisar dele a qualquer m om ento e não conseguiriam encontrá-lo. É se saíssem à sua procura e de algum a form a o encontrassem ali?

Um trem or percorrera-lhe o corpo.

E depois concluíra que poderia evitar quaisquer suspeitas pelo sim ples expediente de m anter contato com seus colegas pelo telefone, antes de reaparecer pessoalm ente.

Na prim eira oportunidade, entraria em contato com a em baixada soviética em Paris. Telefonaria para lá, supostam ente de Lisboa — não, j á ligara de Lisboa — era m elhor a França, para um encontro secreto com um braço do aparelho com unista, nas proxim idades de Marselha.

Tom ando essa decisão, ele sentira que um peso era rem ovido de seus om bros. Por enquanto, era m elhor concentrar-se no que tinha pela frente, a m anutenção do anonim ato absoluto em Lourdes.

Preocupado, Tikhanov olhou para a sua loquaz m otorista.

Ele não sentia a m enor vontade de m anter conversa com quem quer que fosse, m uito m enos com aquela cam ponesa. Só queria recuperar a saúde e alcançar o poder que o aguardava no Krem lin, o m ais depressa possível. Pelo canto dos olhos, ele viu um a placa na beira da estrada. Vinte quilôm etros para Lourdes. Na noite anterior, de táxi, a viagem levara m eia hora. Mas do j eito com o a garota Dupree guiava, poderia consum ir agora quase um a hora... e proporcionar a ela tem po dem ais para conversar.

Com o se lesse os pensam entos de seu com panheiro, Gisele virou a cabeça e disse:

— Não há pressa. Passam apenas alguns m inutos das oito horas e só terei a prim eira excursão para guiar às nove. Está um dia glorioso, não tão quente com o ontem . — Ela aspirou o ar fresco pela j anela aberta. — Em dias assim , eu poderia ficar aqui para sem pre. — Um a pausa e Gisele acrescentou, enigm aticam ente: — Mas não ficarei. — Ela olhou para Tikhanov. —Já esteve em Lourdes antes, Sr. Talley ?

A princípio, ele não percebeu que a m oça lhe fizera um a pergunta, sua m ente vagando longe. Não respondeu, esquecido de que era o Sr. Talley. Mas, com um sobressalto, logo recordou o seu nom e adquirido. Tornou-se m ais alerta apressadam ente e disse:

— Não, nunca estive aqui... nem em qualquer lugar perto.

— Quando chegou aqui? Ah, sim ... foi ontem , quando tentou encontrar um quarto.

— Isso m esm o.

— Veio de Paris?

— Passei por Paris. Tenho am igos em Paris.

— E veio até aqui para um a cura, com o m e disse ontem à noite. Sua doença é recente?

Tikhanov ficou indeciso, sem saber qual era a m elhor m aneira de responder. Acabou dizendo:

— Algo que tenho interm itentem ente há vários anos.

— O que finalm ente levou-o a tom ar a decisão de vir a Lourdes? A notícia sobre o reaparecim ento da Virgem Maria?

— Acho que isso m e inspirou. Deixou-m e curioso. E achei que valia a pena tentar.

— Nada a perder — com entou Gisele, j ovial. — E possivelm ente tudo a ganhar.

— É o que espero.

— Ficará durante toda a sem ana?

— Se for necessário. Espero voltar para casa até segunda-feira, no m áxim o. Minhas férias estão quase term inando.

— Onde m ora nos Estados Unidos, Sr. Talley ? — perguntou Gisele, os olhos agora fixados na estrada.

Ele pensou depressa. Não previra perguntas pessoais e não pensara a respeito antes. Tentou recordar alguns lugares rem otos que visitara no leste am ericano, lugares de onde um hom em com o Sam uel Talley poderia ter vindo. Lem brou-se de um a viagem de fim de sem ana que fizera a um a cidadezinha de veraneio, cham ada Woodstock, no estado de Verm ont.

— Sou de Verm ont — disse ele. — Minha esposa e eu tem os um a m odesta fazenda em Woodstock.

— Já ouvi falar — com entou Gisele. — E m e disseram que é bastante pitoresca.

— È verdade. —Tikhanov estava preocupado, especulando se a m oça percebera algum sotaque em seu inglês. Era m elhor cobrir essa possibilidade. E, por isso, ele acrescentou: — Meus pais em igraram da Rússia, separadam ente, m inha m ãe aos 14 anos, m eu pai aos 18 anos. Conheceram -se em Nova York, num a festa, apaixonaram -se e casaram -se. Meu pai sem pre fora um agricultor. Descobriu essa propriedade em Verm ont e com prou-a. Eu nasci lá.

— Outra pausa e ele arrem atou: — Aprendi a falar russo quando era pequeno. O que era perfeitam ente natural. Sem pre se falava russo em m inha casa, além de inglês.

— Adoro línguas — declarou Gisele. — Falo quatro, m as o russo não é um a delas.

— Não está perdendo nada.

— Trabalha na fazenda?

A m oça era inquisitiva e inteligente. Não adiantava m entir. Ela poderia perceber que suas m ãos não eram as de um agricultor. Tikhanov forçou um a risada curta.

— Eu trabalhar na fazenda? Claro que não. A verdade é que sou um professor. — Tikhanov estava agora tateando pelo cam inho.

— Um professor da língua russa. Fui para a Universidade de Colúm bia, form ei-m e em russo e linguística. Depois que concluí o doutorado, ingressei no departam ento de línguas de Colúm bia. Ensino russo lá.

— E com o consegue viver em Woodstock e ensinar em Nova York?

Arm adilhas, por toda parte havia arm adilhas; m as, com o um diplom ata, Tikhanov estava acostum ado a evitá-las.

— É m uito sim ples. Tenho um pequeno apartam ento em Nova York para usar durante o ano letivo, m as m antenho nossa casa em Woodstock e vou para lá sem pre que posso. Atualm ente, m inha esposa passa a m aior parte do tem po na casa em Verm ont. Ela é natural de Verm ont e tem os um filho... que está na Universidade da Califórnia Meridional. É estudante de teatro. — Num esforço para deixar a ficção para trás, Tikhanov fez um a transição para o presente, acrescentando: — Minha esposa era católica e por isso tam bém m e tornei católico. Não sou m uito religioso, com o m encionei ontem à noite. Mas ainda sou o suficiente para vir a Lourdes.

— Mas trabalha na cidade de Nova York?

— Isso m esm o.

— Adoro Nova York. E m al posso esperar o m om ento de voltar para lá.

Tikhanov ficou outra vez preocupado.

— Já esteve em Nova York?

— Vivi lá — respondeu Gisele, j ovialm ente. — Foi a m elhor época da m inha vida. Há sem pre m uita coisa para se fazer em Nova York. Passei m ais de um ano em Nova York.

Tikhanov tentou não parecer interessado.

— É m esm o? E o que fazia lá?

— Tinha um em prego de secretária na ONU.

— Na ONU?

— Com a delegação francesa. Conheci o em baixador francês na ONU em Lourdes. Ele m e contratou para ser um a de suas secretárias e levou-m e quando foi para Nova York. Foi um a experiência m em orável e estou ansiosa em voltar. Fiz m uitos am igos por lá. Alguns dos m eus m elhores am igos são am ericanos. Um deles trabalhava na delegação am ericana na ONU. E, se bem m e lem bro, form ou-se na Universidade de Colúm bia. Talvez tenha sido um dos seus alunos. O nom e dele é Roy Zim borg. Por acaso lem bra-se dele? Nunca teve um Roy Zim borg num a de suas turm as?

Um a arm adilha das grandes e bastante perigosa.

— Tenho tantos alunos que é difícil lem brar os nom es. Mas será que ele estudou russo?

— Provavelm ente não.

Tikhanov constatou que estavam chegando a Lourdes e sentiu-se aliviado. Estava ansioso em escapar daquela cam ponesa que vivera em Nova York e trabalhara na ONU, onde ele aparecera e falara com tanta frequência. Sua curiosidade e perguntas persisteptes deixavam -no preocupado. Mais cedo ou m ais tarde, ele poderia ser apanhado em algum erro ou contradição. Precisava livrar-se dela.

Dali a pouco estavam na Avenue Bernadette Soubirous e entrando no estacionam ento do núm ero 26, que era ligado ao Hotel Gallia & Londres.

— Onde estam os? — perguntou Tikhanov.

-— No hotel em que Edith Moore e o m arido estão hospedados — respondeu Gisele, saltando do carro. — Eu lhe falei ontem à noite sobre Edith. Ela teve um a cura m ilagrosa de câncer aqui em Lourdes. Vai descobrir que é anim ador conversar com ela. Ainda quer, não é m esm o?

— Claro.

— Vou ver se ela está.

Tikhanov observou a m oça francesa entrar no hotel. Sua determ inação aum entara. Tinha de se afastar dela e de sua curiosidade. Se continuasse em Tarbes, com sua fam ília; teria de vir para Lourdes com ela todas as m anhãs e voltar à noite, o que im plicava em responder a um fluxo contínuo de perguntas; inevitavelm ente, acabaria escorregando. Tinha de arrum ar um quarto na cidade o m ais depressa possível. Essa era a prioridade im ediata. Gisele voltou, sentando-se ao volante.

— Edith está no Serviço Médico, m as voltará ao hotel para alm oçar. Deixei-lhe um bilhete e pedi à m ulher na recepção para reservar dois lugares na m esa da Sra. Moore, ao m eio-dia. Está bom assim , Sr. Talley ?

— Perfeito.

— O que fará até lá?

— Você é que conhece Lourdes. O que sugere?

—- Está aqui por sua saúde, não é m esm o? Não procura um a cura? É sério nisso?

— Claro.

Gisele ligou o carro.

— Pois então sugiro que passe pela rotina de todos os peregrinos doentes. Prim eiro, vá à gruta e reze.

— Eu gostaria. Quanto tem po devo consum ir nisso? Gisele piscou os olhos, surpresa.

— Ora, isso depende de você... cinco m inutos, um a hora, quanto tem po achar necessário. Depois, vá até um a das torneiras além da gruta e beba um pouco da água curativa. Os banhos ficam ao lado. Entre, tire a m aior parte de suas roupas e dê um m ergulho. E pense na Virgem Maria quando o fizer. Os banhos têm -se m ostrado até agora o rem édio m ais eficaz.

— A água cura?

— Não — respondeu Gisele, engrenando o carro. — A água nada contém para curar. Mas sua cabeça cura. Não se esqueça de vir se encontrar com igo na frente do hotel, na hora do alm oço. Eu o deixarei agora no dom ínio, Sr. Talley .

— Obrigado. E farei tudo o que sugeriu, Sita. Dupree.

Am anda Spenser não tivera a m enor pressa de deixar Eugénie-les-Bains e voltar a Lourdes. Desfrutara um café da m anhã sossegado na varanda da suíte, pensando constantem ente em Ken e sua doença. Achava inconcebível que o tolo do Ken pudesse trocar aquele paraíso elegante por um a choupana em Lourdes. Depois, ela vestira um a calça com prida, blusa e sandálias, dando um longo passeio pelos gram ados do hotel.

A viagem da linda Eugénie-les-Bains até a m iserável Lourdes levara um a hora e m eia. Mas, ao se aproxim ar de Lourdes, sua m onotonia e depressão consequente foram aliviadas por um a inform ação valiosa do idoso m otorista calvo. O m otorista conhecia m uito da história de Lourdes e especialm ente da própria Bernadette. Ele m encionara a doença de Bernadette e Am anda ficara prontam ente atenta. Ela sabia que Bernadette fora um a criança frágil, m as ignorava que a m enina sofria tão gravem ente de asm a.

— Por m ais curioso que possa parecer — com entara o m otorista — Bernadette não ia à gruta quando procurava pela cura de seus intensos ataques de asm a. Quando Bernadette viu a 17a aparição da Virgem Maria j á houvera quatro curas m ilagrosas na gruta. Mas, na verdade, a própria Bernadette não acreditava nos poderes curativos da gruta. Em vez disso, quando ficava doente, ela ia a Cauterets.

— Cauterets? — repetira Am anda. — o que é isso?

— Um a sim ples aldeia. Mas era um lugar em m oda naquele tem po, não m uito longe de Lourdes. Havia um a fonte curativa, um banho term al, que se dizia ser útil na cura da asm a. E Bernadette ia para lá, não à gruta, em busca de cura. É claro que ela não ficou curada, m as pelo m enos tentou.

— Mas não na gruta — dissera Am anda. — Ela realm ente não acreditava na gruta?

— Não para curas. Preferia ir a Cauterets.

— Com o é Cauterets hoj e?

— Ainda existe, talvez não tão elegante. Fica perto daqui . Sobe-se pelo vale até as m ontanhas. Se não m e engano, existe lá um santuário para celebrar a visita de Bernadette.

— Muito interessante... — m urm urara Am anda. — Não devo m e esquecer disso.

Se Bernadette não acreditava num a cura n£ gruta, ela perguntaria a Ken, com o ele podia acreditar?

Agora, no saguão do hotel, ela queria descobrir o paradeiro de Ken. Talvez ele estivesse aj oelhado na gruta, hipnotizado. Ou talvez estivesse naquele quarto pavoroso, descansando um pouco. Era possível que a recepcionista gorda, a que se cham ava Yvonne, soubesse onde Ken se encontrava. Am anda foi até a recepção.

— Sou a Sra. Clay ton. Tivem os de sair da cidade ontem à noite. Meu m arido, o Sr. Ken Clay ton, voltou esta m anhã. Por acaso sabe onde ele está neste m om ento?

— Sei, sim — respondeu Yvonne. — Ele m e pediu que arrum asse um lugar no alm oço na m esa da Sra. Edith Moore. Deve estar no restaurante neste m om ento. Sabe onde fica?

Disse que era lá em baixo. Pode deixar que encontrarei. E, por favor, m ande as m alas para nosso quarto.

Am anda encam inhou-se para a escada ao lado do elevador desceu para a entrada do restaurante. Podia ver o salão principal, sim ples, todas as m esas ocupadas por peregrinos indefiníveis, com um a segunda sala m ais estreita depois, tendo alcovas com reservados para um a refeição m ais íntim a.

Um maitre apareceu para indagar se ela era residente do hotel. Am anda inform ou o núm ero do quarto e acrescentou:

— Fui inform ada de que m eu m arido j á se encontra aqui. Ele está à m inha espera.

— Qual é o nom e dele?

— Sr. Kenneth Clay ton.

— Ele está alm oçando na m esa da Sra. Moore. Acom panhe-m e, por favor.

Am anda foi conduzida a um a m esa redonda enorm e, no outro lado do salão principal. Avistou Ken im ediatam ente. Ele se levantou, m eio trôpego, para cum prim entá-la. Ela contornou a m esa para abraçá-lo e beij á-lo.

— Estou de volta, querido — sussurrou Am anda.

— Fico contente por isso. Vai se j untar a nós para o alm oço?

— Claro. Estou m orrendo de fom e.

Clay ton fez sinal para que o maitre providenciasse outra cadeira, depois pegou Am anda pelo cotovelo e apresentou-a às outras pessoas à m esa.

— Esta é m inha esposa, Am anda, quero apresentá-la a m eus am igos. Esta é a Sra. Edith Moore, de Londres. Este é o Sr. Sam uel Talley, de Nova York. E esta é a Srta. Gisele Dupree, que trabalha em Lourdes com o guia.

Depois que sua cadeira estava no lugar, entre Ken e ó Sr. Talley, Am anda tentou se orientar em relação ao estranho grupo. Edith Moore era obviam ente a personalidade central, dom inante, em bora tudo nela fosse vulgar, do rosto quadrado ao vestido barato, sem qualquer adorno. Talley era m ais distinto, com olhos penetrantes, nariz grande e um bigode abundante. A m oça Gisele parecia com um a starlet francesa em form ação. Ken disse a ela:

— Deve estar lem brada de que m e encontrei com a Sra. Moore no trem de Paris para Lourdes. A m ulher do m ilagre...

— Não é tanto assim ... — protestou Edith, m odestam ente.

— Eu queria ouvir toda a sua história — continou Ken. — Acabam os de pedir o alm oço. Quer dar um a olhada no cardápio?

Am anda sentia-se oprim ida pelo restaurante vulgar e a com panhia deprim ente.

— Eu... eu com erei a m esm a coisa que você pediu.

— Todos pedim os a m esm a coisa — interveio Gisele. — O prato principal de hoj e é bife grelhado e batatas. Está bom ?

— Está ótim o — respondeu Am anda, sem qualquer entusiasm o.

Gisele transm itiu o pedido ao maitre e depois virou-se para Edith Moore:

— Estava nos contando, Sra. Moore, que o tum or m aligno no osso ilíaco foi descoberto há cinco anos.

Edith acenou com a m ão em protesto.

— Se querem m esm o ouvir toda a história...

— Sra. Moore, estou ansioso em saber com o sua cura ocorreu — declarou Tikhanov.

— Isso m esm o, fale-nos a respeito — acrescentou Ken. Am anda m anteve os lábios com prim idos. Sentia vontade de

dizer a todos que, apesar do que pudessem ouvir de Edith Moore sobre um a cura na gruta, a própria Bernadette, a pessoa que criara toda aquela bobagem de m ilagre, não tinha qualquer fé nos poderes da gruta e fora buscar a sua cura num lugar cham ado Cauterets. Mas Am anda se m anteve em silêncio. Não dim inuiria a glória daquela inglesa vulgar e não queria perturbar Ken, no m eio daquele insólito grupo.

— Para resum ir — Edith Moore estava dizendo — fui obrigada a deixar m eu em prego num a agência cinem atográfica. Só podia andar com o auxílio de um a m uleta. Foi nessa ocasião que o Padre Woodcourt... o m esm o que estava ontem no trem ... sugeriu que eu participasse de sua próxim a peregrinação a Lourdes. Em bora eu fosse católica, não tinha m uita esperança. E o Padre Woodcourt tam bém não m e ofereceu qualquer esperança, m as eu chegara a um estado em que m e achava disposta a experim entar qualquer coisa.

Com exceção de Am anda, todos balançaram a cabeça, em perfeita com preensão. Am anda observou que Ken acenava ainda m ais vigorosam ente do que os outros. Edith Moore suspendeu seu relato enquanto o prim eiro prato da refeição era servido. Recom eçou em seguida e Am anda descobriu-se irritada com a sua voz m onótona, sem qualquer inflexão, a linguagem insípida. Apesar disso, sim ulou estar profundam ente interessada.

— A prim eira visita a Lourdes não acarretou qualquer m udança em m im — disse Edith Moore. —Talvez tenha sido m uito breve e não rezei o suficiente, perm iti que a dúvida se introm etesse nas orações. — Ela correu os olhos pela m esa, m astigando, e continuou a falar com a boca cheia: — É preciso acreditar. Na segunda visita, há quatro anos, eu estava determ inada a m e em penhar com m ais afinco.

Perm anecer m ais tem po em Lourdes, esforçar-m e m ais. Tom ava a água da fonte incessantem ente. E tom ei os banhos. No últim o dia, quando saí do banho, descobri que podia ficar de pé e andar sem aj uda. Fui ao Serviço Médico, onde m e exam inaram . Voltei a Lourdes nos três anos subsequentes e com preendi que estava curada.

— E a cura foi confirm ada? — indagou Tikhanov.

— Por 16 m édicos diferentes — inform ou Edith. — Até m esm o o osso ilíaco, que se degenerara, com eçou a voltar ao norm al. Há radiografias para provar.

— Um m ilagre... — m urm urou Ken, im pressionado.

— Já foi declarado um m ilagre — com entou Gisele, com evidente entusiasm o.

Edith Moore refugiou-se num a m odéstia que Am anda tinha certeza que ela não possuía.

— O m ilagre ainda não é oficial — declarou Edith. — Farei m ais um exam e com um fam oso especialista de Paris, Dr. Paul Kleinberg, que chegará esta sem ana para confirm ar a m inha... a m inha total recuperação.

— Mas o caso está aberto e fechado — disse Gisele, usando um dos seus am ericanism os prediletos. — Todos em Lourdes sabem que você é a m ais recente de um grupo favorecido, m ais próxim o de Santa Bernadette.

— Não sei, não... — protestou Edith, com um sorriso angelical, m as sem negar.

— Então acontece m esm o — com entou Ken, ainda im pressionado. — E pode acontecer com qualquer pessoa.

— Se possui um a fé pura — proclam ou Edith, com o um a alta sacerdotisa.

Am anda, inclinando-se sobre o prato, sentia um a náusea no estôm ago, sem qualquer vontade de com er e com o único desej o de afastar Ken daquela inglesa banal e estúpida. Tikhanov perguntou, a voz m uito séria:

— Atribui tudo aos banhos?

— A tudo aqui, principalm ente à fé na Im aculada Conceição — respondeu Edith. — Mas m inha cura ocorreu depois do banho, no últim o dia da segunda visita.

Enquanto Edith term inava de falar, um hom em grandalhão, corado — lem brou Am anda de fotografias que vira de Phineas T. Barnum — aproxim ou-se por trás, beij ando-a no rosto.

— Reggie... — m urm urou Edith, satisfeita. — Este é o Sr. Reggie Moore, m eu m arido.

Ela apresentou todos à m esa ao m arido, um a um . Depois, Reggie disse:

— Edith, detesto interrom per seu tête-a-tête, m as preciso lhe falar a sós de um problem a que surgiu.

— Mas ainda não com i a sobrem esa, Reggie!

Ele estava quase levantando a m ulher do m ilagre.

— Providenciarei alguns sorvetes para você depois. Por favor, vam os logo. — Ele acenou com a cabeça para os outros. — Foi um prazer conhecer todos vocês. Espero tornar a vê-los em breve.

Puxando e depois em purrando, ele levou a relutante Edith para fora do restaurante.

— Então são os banhos — m urm urou Tikhanov, sem se dirigir a ninguém em particular. Virou-se para Gisele. — Você ouviu. Ela disse que aconteceu depois do banho.

— Está no m esm o cam inho — disse Gisele. — Com eçou seus banhos esta m anhã.

— Infelizm ente, não — adm itiu Tikhanov. — Rezei na gruta, m as não fui aos banhos.

— Então vá esta tarde, Sr. Talley .

— É o que farei. Mas prim eiro preciso encontrar um quarto na cidade. — Um a pausa e ele se apressou em acrescentar: — É um prazer ficar hospedado com seus pais, Gisele, m as é m uito longe daqui. Quero ficar perto dos banhos. E tenho de encontrar um quarto num hotel daqui. Já tentei antes e tentarei de novo.

Gisele fitou-o com um a expressão astuciosa.

— Isso é tudo o que o preocupa... um quarto de hotel em Lourdes?

— Sei que é im possível, m as é m uito im portante para m im .

— Talvez eu consiga arrum ar um quarto num hotel, m as lhe custará um dinheiro extra. Está disposto a pagar?

— Pagarei qualquer coisa que for razoável.

— Seriam em torno de 400 francos, que eu darei a um responsável pelas reservas.

— Eu pagarei.

— Verei o que é possível fazer — disse Gisele, levantando-se. — Para dizer a verdade, estou m e transferindo para a cidade esta noite. Um a am iga vai passar a sem ana em Cannes e m e em prestou seu apartam ento. Tenho de ficar aqui, por causa da sobrecarga de trabalho. Eu o acom panharei até os banhos agora e o deixarei lá. Pode se encontrar com igo diante do Serviço de Inform ações às cinco horas. Pegarem os o carro para voltar à casa de m eus pais, apanharem os nossas coisas e virem os para Lourdes esta noite. Isto é, se eu conseguir lhe arrum ar um quarto de hotel.

— E conseguirá?

— Acho que sim . — Gisele acenou para Ken e Am anda. —

Com licença. Ouviram com o estam os com o resto do dia cheio. Tive m uito prazer em conhecê-los. Boa sorte.

Am anda ficou observando a sem -vergonha afastar-se com o hom em m ais velho e finalm ente se virou para Ken, determ inada a lhe contar bruscam ente o que o m otorista do táxi lhe dissera, que Bernadette nunca acreditara na gruta ou que a água da fonte pudesse curar, recorrendo a outra aldeia para tratar de sua asm a. Mas, percebendo a expressão de Ken, ela pensou: Oh, Deus, ele se elevou a outro plano, todo espiritualidade e fé em seu futuro.

— A Sra. Moore é um a m ulher e tanto — m urm urou Ken. — E fez m uito por m im , renovou m inha esperança.

Santo Deus, pensou Am anda. Aquele não era o m om ento apropriado para abalá-lo com a verdade.

Além do m ais, ela disse a si m esm a, era m elhor confirm ar antes a história do m otorista sobre Cauterets. Iria até lá e descobriria pessoalm ente se era verdade. Podia esperar por m ais um dia para contar a história a Ken.

— Talvez sej a m elhor você subir agora para o quarto e descansar um pouco, Ken.

—- Não — disse ele, obstinado, com eçando a se levantar. — Voltarei à gruta.

Am anda fitou-o aturdida. Era quase im possível acreditar que o seu hom em , um advogado eficiente e brilhante, um atleta e j ogador de handebol, estivesse reduzido àquele devoto atordoado. Mas acontecia e ela teria de enfrentar o problem a de algum a form a, um caso m uito m ais difícil do que qualquer outro que j á encontrara em sua carreira de psicóloga clínica. Ela suspirou e levantou-se tam bém .

— Está certo.

— Voltarem os a nos encontrar no j antar.

Am anda se perguntou o que faria no deserto da tarde. Talvez com prasse um souvenir para sua futura sogra, um a im agem de plástico da Virgem Maria.

Subindo no elevador para o quinto andar do hotel. Reggie Moore se m antinha estranham ente silencioso. Mas Edith sabia que ele tinha algum a ideia. E sabia que ele aguardava pela privacidade do quarto para lhe falar.

E assim que entraram , a porta fechada, Reggie quase que em purrou a m ulher para a cadeira da m esa, ficando de pé diante dela. Subm issa, Edith esperou, deixando-o assum ir o prim eiro plano, disposta a ouvir o que ele tinha a dizer.

— Edith, eu precisava lhe falar a sós. Tenho um a coisa im portante a discutir com você.

— Não poderia esperar por m ais alguns m inutos? Aquelas pessoas m aravilhosas à m esa queriam ouvir m ais sobre a m inha cura.

— É j ustam ente isso — declarou Reggie, enfaticam ente — a própria coisa de que quero lhe falar.

— Não estou entendendo. Sobre o que afinal desej a m e falar?

— A sua cura. Vendo-a com aquelas pessoas, com preendi que queriam lhe arrancar de graça alguns conselhos e inspiração.

— Mas não era nada de graça. Aquele sim pático Sr. Talley disse que pagaria o alm oço.

Reggie dem onstrou sua exasperação.

— Não estou m e referindo a dinheiro, Edith. Eles estavam explorando... a sua m ente.

— Com o assim ?

Ela estava acostum ada a Reggie lhe falar com o se fosse um a criança e continuaria a suportá-lo agora.

— O que estou querendo dizer é que todos desej am usá-la, Edith. Todos querem extrair forças de você, de certa form a egoisticam ente. E acho que você não deve circular por aí a oferecer sua história de graça. Não deve j am ais fazer isso.

— Mas por que não? — insistiu Edith, com pletam ente perplexa. — O que há de errado nisso? Se a história da m inha cura proporciona inspiração às pessoas, oferece esperança, por que eu não deveria contá-la? Sou um exem plo para os outros, um a pessoa afortunada que foi abençoada com um m ilagre. Todos querem saber que é .possível. Por que eu não deveria contar-lhes?

Reggie ficou por um m om ento sem um a resposta fácil ou lógica.

— Ora, porque...—ele disse, hesitante —... porque... porque eu m e sentiria m elhor se só fizesse isso depois que o m ilagre for confirm ado oficialm ente.

— Ora, isso... — m urm urou Edith, com o se o protesto não tivesse a m enor im portância. — Se é a única coisa que o preocupa, não precisa m ais se incom odar. Será oficialm ente confirm ado... só resta apenas um detalhe técnico, com o am bos sabem os... depois de am anhã. Passei toda a m anhã com o Dr. Berry er, no Serviço Médico. Ele obteve os serviços de um dos dois m elhores especialistas no cam po... um hom em com m uita experiência em casos de sarcom a... o Dr. Paul Kleinberg, de Paris, que chegará am anhã para estudar os docum entos do m eu caso e efetuar um exam e final.

— Am anhã?

— Isso m esm o. O Dr. Berry er m e telefonará assim que o Dr. Kleinberg chegar, com unicando a hora em que o verei na quarta-feira. O Dr. Kleinberg confirm ará o m ilagre e será então oficialm ente anunciado.

— Nesse caso, tudo fica diferente e não m ais m e preocuparei — declarou Reggie, deixando transparecer o seu alívio. — Com o está para acontecer, acho que não tem problem a você falar sobre a sua cura.

— Claro que não tem , Reggie. E fico contente que você concorde.

— Tenho certeza de que está tudo bem — m urm urou Reggie, suavem ente. — E, com o você disse, proporciona a m uitas pessoas sofredoras a convicção de que tam bém podem ficar curadas. Concordo com tudo, Edith. Está realizando um trabalho m issionário m aravilhoso, assim com o os prim eiros apóstolos, espalhando a notícia de m ilagres. — Seu rosto se ilum inou, num a breve pausa. — Devem os até com em orar de novo. Jam et acaba de reform ar o seu novo restaurante... é um lugar espetacular agora... e vam os reabrir esta noite... estam os espalhando cartazes por toda a cidade, anunciando o grande acontecim ento...

— Mas isso é m aravilhoso!

— ... e quero que você estej a ao m eu lado para receber as pessoas. Deve haver um a grande m ultidão. Terem os um a m esa especial e convidam os oito ou dez pessoas im portantes, não apenas de Lourdes, m as tam bém peregrinos de toda parte. E tenho certeza de que todos ficarão em ocionados por conhecê-la. Você poderia responder a perguntas. Todos se sentirão inspirados ao ouvirem os detalhes de seu caso. O que m e diz, m enina?

— Claro que quero estar presente e contarei tudo o que quiserem saber. Não m e im porto, se você está certo de que tam bém não se im porta.

— Ao contrário, até insisto — declarou Reggie, com um m eio sorriso. Ele inclinou-se e deu um beij o no rosto de Edith. — É a m inha m ulherzinha do m ilagre. Juntos, irem os longe.