O Milagre
Capítulo 12
Q uinta-Feira, 18 de Agosto
Ao longo do dia, Gisele Dupree conduziu duas excursões por Lourdes com o um a sonâm bula. Sua m ente estava na distante Nova York, tentando im aginar o progresso ou ausência de progresso de seu fiel am igo Roy Zim borg. A m ente flutuava às vezes de volta a Lourdes, para algum ponto da cidade, onde sua presa, seu Dr. Jeky ll e Mr. Hy de, seu Dr. Talley e Sr. Tikhanov, estava inocentem ente (m as secretam ente) se dedicando aos rituais de auto-rej uvenescim ento.
Quando a segunda excursão term inou e esperava na agência pelo com eço da terceira, Gisele com eçou a exibir os sinais de um a trem enda enxaqueca. Nenhum a Rachel ou Bernhardt poderia igualar seu histrionism o. Finalm ente, sabendo que havia um a guia substituta disponível, ela suplicou que a dispensassem do resto do trabalho, insistindo que a dor por trás da testa era insuportável, precisava tom ar um rem édio e ir para a cam a.
Assim que foi dispensada, ela saiu e pegou o prim eiro táxi vazio que encontrou, seguindo direto para o apartam ento de Dom inique, além do dom ínio.
Em segurança na sala de estar, com bastante tem po antes do telefonem a internacional crucial, a enxaqueca sim ulada felizm ente desapareceu. Ficou sentada ao lado do telefone, torcendo para que tocasse logo de um a vez.
E não tocou no m om ento com binado. Que chegou e passou. Com o telefone em silêncio.
Quase m eia hora depois, ela com eçou a sofrer um a dor de cabeça real, em decorrência da tensão e das esperanças desvanecidas.
E de repente, com o um toque de clarim , o telefone tocou.
Autom aticam ente, Gisele levantou-se cam baleante para atender, lem brou-se de que o telefone se encontrava ao seu lado, tornou a sentar-se e tirou o fone do gancho.
Com o se fosse através de um túnel de vento, ouviu o querido Roy Zim borg falar, nitidam ente, da terra distante dos céus espaçosos e dos cam pos de ouro.
— Gisele? Aqui é Roy . Está m e ouvindo?
— Alto e forte — Gisele quase gritou do espaço exterior.
— Lam ento ter-m e atrasado, m as...
— Não tem im portância, Roy . Apenas m e diga se descobriu algum a coisa.
— Eu m e esforcei ao m áxim o, Gisele, m as receio que ficará desapontada.
O coração de Gisele afundou para o estôm ago. Ela não queria ouvir, m as m urm urou:
— Conte tudo.
— Telefonei para os m eus am igos professores em Colúm bia. Pedi que m e ligassem de volta. E até aproveitei um a saída m ais cedo para o alm oço e fui até a escola, a fim de investigar pessoalm ente. Com o eu disse antes, lam ento m uito desapontá-la. O tal suj eito em Lourdes que lhe disse ser o Professor Sam uel Talley, no departam ento de línguas da Universidade de Colúm bia... ele está m entindo. Detesto dar a m á notícia, m as ele tenta sim plesm ente enganá-la...
Gisele olhou para o telefone com o se fosse o diam ante Kohinoor que lhe fora presenteado na m anhã de Natal. Por um m om ento, não foi capaz de assum ir tanta riqueza. Queria beij ar Roy pelo Kohinoor, m as seria m uito dem orado e difícil explicar a verdade. Portanto, ela tratou de m anter o controle, a voz dando a im pressão de que disfarçava o desapontam ento, quando na verdade escondia um a exultação intensa. Interrom peu as palavras de consolo de Roy para dizer:
— Quer dizer que não existe nenhum Professor Talley na Universidade de Colúm bia?
— Não há ninguém no corpo docente com esse nom e. Não existe nenhum Talley na equipe de Colúm bia. Não há nenhum professor com esse nom e, nunca houve. O hom em que você conheceu, com quem está envolvida, sim plesm ente tenta enganá-la.
— Mas que m iserável! — m urm urou Gisele, bastante realista e am bígua.
— Sinto m uito...
A voz distante de Zim borg era suave, tentando outra vez confortá-la.
— Não se preocupe, Roy — disse ela, recuperando-se. —Vou sobreviver... e vou sobreviver para agradecer a você pelo que fez, pessoalm ente, da m aneira apropriada.
— Eu gostaria que tudo saísse direito;
— Você fez a sua parte e estou grata. É um am or e m al posso esperar o m om ento de revê-lo. Escreverei para avisar quando irei para Nova York.
— Espero que sej a. o m ais breve possível Gisele.
— Prom eto que, de algum a form a, será m esm o em breve, Roy. Depois que desligou, Gisele percebeu que sorria com o um a
idiota e que seu coração subira do estôm ago para o seu devido lugar, e m ais feliz.
Oh, Deus, que coisa m aravilhosa!
Não havia m ais incerteza. Não existia nenhum Talley. Havia apenas Tikhanov. Havia Tikhanov ali em Lourdes e inteiram ente à sua m ercê.
Agora, teria de desm ascará-lo.
Saboreando o que aconteceria em seguida, ela pôs a lista telefônica de Lourdes no colo, folheou até encontrar o núm ero do Hotel de Ia Grotte. Discando, especulou se deveria pedir que a ligação fosse transferida para o quarto de Sam uel Talley. Mas se decidiu contra isso. Não queria confrontação pelo telefone. Preferia apresentar suas condições a Talley pessoalm ente. Seria m ais am eaçador, m ais eficaz. Iria se encontrar com ele em seu quarto, se estivesse no hotel. E descobriria se ele estava.
Quando a telefonista atendeu, Gisele pediu para falar com seu am igo Gaston, na recepção.
— Recepção — ela ouviu Gaston dizer.
— Gaston, aqui é Gisele Dupree. Com o vai?
— Gisele, querida, nunca estive m elhor. E você?
— Estou ótim a. Gostaria de saber se um dos seus hóspedes está no quarto... aquele que levei até aí, o Sr. Sam uel Talley , de Nova York. Ele está?
— Um m om ento que vou verificar. — Um a pausa. — Está, sim , Gisele. Sua chave não se encontra na recepção. Ele deve estar no quarto. Quer que eu transfira a ligação?
— Não precisa. Prefiro falar com ele pessoalm ente. Darei um pulo até aí.
Desligando, ela se levantou, pegou a bolsa e encam inhou-se para a porta, em m enos de um m inuto.
Deixando o prédio, Gisele procurou um táxi. Não havia nenhum à vista. Mas ela sabia que havia um ponto a dois quarteirões dali. Foi andando, em passadas rápidas. Três táxis esperavam no ponto, encostados no m eio-fio. O m otorista conhecido no prim eiro acolheu-a com um cum prim ento e ligou o m otor, enquanto Gisele abria a porta traseira e em barcava.
— Hotel de Ia Grotte — ordenou ela, ofegante. — O m ais depressa possível, Henri.
— A seu serviço, Gisele.
Dez m inutos depois, o táxi subiu pelo cam inho em curva e parou diante do toldo azul e laranj a do hotel branco. Abrindo a porta, Gisele disse:
— Deixe o taxím etro ligado, Henri. Precisarei de você para voltar. Não vou dem orar.
O m otorista apontou para o estacionam ento ao lado do hotel.
— Ficarei esperando ali.
— Voltarei num instante.
Gisele avançou apressadam ente sob o toldo até a porta de vidro e abriu-a. Com crescente confiança, atravessou o saguão e encam inhou-se para os elevadores, que ficavam depois da recepção. Ali, Gaston pegava um a chave de um hóspede e lhe falava.
Gisele j á estava passando pelos dois hom ens quando vislum brou o hóspede a se virar, seguindo para a porta do hotel. O rosto eslavo e o bigode postiço pertenciam ao respeitável Sam uel Talley , o professor que nunca existira.
Ela estacou abruptam ente, levou um dedo aos lábios para que Gaston não lhe falasse e virou-se para acom panhar sua presa. Foi atrás de sua m ina de ouro am bulante, os passos no m esm o ritm o, enquanto ele se encam inhava para a porta. E, subitam ente, Gisele cham ou:
— Sr. Tikhanov.
Ele parou tão de repente que Gisele quase colidiu com as suas costas. Ela recuou um passo e esperou. Ele não se m exera um centím etro sequer. Perm anecia com pletam ente im óvel.
Gisele pensou que ele devia estar com pletam ente chocado, tentando recuperar o controle.
— Sr. Tikhanov — repetiu ela, im placavelm ente.
Com o não podia haver a m enor dúvida de que era ele quem estava sendo cham ado, Tikhanov virou-se lentam ente, sim ulando surpresa.
— Ah, é você, Sita. Dupree. Estava m e cham ando por outro nom e? Deve ter pensado que eu era outra pessoa.
Exibindo a sua expressão m ais inocente, Gisele sacudiu gentilm ente a cabeça e o rabo-de-cavalo louro.
— Não, eu não estava enganada. Foi você m esm o quem eu cham ei. Talvez devesse cham á-lo m ais corretam ente de Ministro do Exterior Sergei Tikhanov. Não tenho esse direito?
Ele fez um esforço para não se m ostrar exasperado.
— Sabe m uito bem qual é o m eu nom e, Srta. Dupree. Já passam os bastante tem po j untos. Que bobagem é essa?
— Creio que na m aioria dos países, até m esm o no seu, é o que se costum a cham ar de j ogo da verdade. Eu sugiro que j ogue com igo. Precisam os conversar, Sr. Tikhanov.
Ele com eçava a dem onstrar irritação.
— A m enos que pare de m e cham ar por esse nom e absurdo... não direi m ais um a só palavra.
— Pois acho m elhor falar com igo, para o seu próprio bem . Devem os sentar por um m om ento e conversar. Acom panhe-m e, por favor.
— Por favor, Srta. Dupree, pare com essa brincadeira. Tenho de sair para j antar.
Mas Gisele afastou-se pelo saguão, sabendo que ele a seguia. Passou pela recepção, sem dim inuir as passadas, e depois disse:
— Há um pequeno salão aqui. Poderem os ter um a boa conversa com toda privacidade.
Ela entrou no pequeno salão azul no m om ento em que Tikhanov a alcançava. Ele estava protestando de novo:
— Srta. Dupree, não disponho de tem po para as suas brincadeiras. Eu preciso...
Ignorando-o, Gisele foi direto para um a poltrona, sentou-se, puxou outra poltrona para m ais perto. Gesticulou im periosam ente para a segunda poltrona e Tikhanov ocupou-a, em bora relutante.
— Deve estar querendo saber de tudo — disse ela, em voz baixa. — Pois vou explicar, sem qualquer enfeite. Por favor, escute sem interrom per. Eu lhe disse que trabalhei na ONU. Foi lá que o vi, de perto, por um instante. Eu estava com o em baixador francês, Charles Sarrat. Não o reconheci quando chegou a Lourdes, no início da sem ana. Mas quando estava tirando algum as fotografias na gruta, na segunda-feira, avistei-o e por acaso tirei algum as fotos suas no m om ento em que o bigode caiu, depois dos banhos. Quando com parei esse instantâneo seu com a fotografia que saiu no j ornal e depois com as fotos que recebi dos arquivos de um a revista, concluí que Sam uel Talley e Sergei Tikhanov eram a m esm a pessoa. Sabe agora com o descobri...
— Um a m era sem elhança — interrom peu ele, com um a risada curta. — Já com entaram antes que sou parecido com Tikhanov. Todas as pessoas têm um sósia em algum lugar do m undo.
— Eu queria ter certeza de que não com etia nenhum erro — continuou Gisele, im placável. — Resolvi então investigar a pessoa que você alegava ser. Telefonei para Nova York, perguntando pelo Professor Sam uel Talley, da Universidade de Colúm bia. — Gisele fez um a breve pausa. — Recebi a resposta de Nova York há um a hora. Não existe nenhum Professor Talley em Colúm bia, nunca existiu. Mas, com certeza, certeza absoluta, há um Ministro Sergei Tikhanov em Lourdes, França... o m inistro do Exterior e em breve o prim eiro-m inistro da m aior nação ateia do m undo, agora suplicando por sua saúde no santuário da Virgem Abençoada. Digo a m im m esm a... isso é inacreditável. E tam bém digo a m im m esm a... pode ficar apenas entre nós dois, se você assim desej ar, se estiver disposto a entrar num acordo.
Pegando a bolsa, Gisele estudou o rosto tenso do russo. Levantou-se com toda a calm a. E acrescentou, sem desviar os olhos dele:
— Se quer m inha cópia da fotografia e o negativo, assim com o o m eu silêncio, deve pagar um preço j usto por m inha iniciativa e esperteza. Afinal, com o sabe m uito bem , sou apenas um a pobre m oça trabalhadora que quer viver... e deixar viver. Se aparecer com 15 m il dólares no m eu apartam ento... um apartam ento que estou usando tem porariam ente... às 11 horas da m anhã de am anhã, vai m e encontrar à espera para fechar o negócio. Eu lhe deixarei o endereço.
Gisele tirou um pedaço de papel da bolsa e estendeu. Ele ignorou-o. Ela pôs o papel na m esa ao seu lado.
— Se tiver o dinheiro disponível aqui, deve ser em francos, dólares ou libras. Se for dem ais esperar que tenha tal quantia em dinheiro, pode pagar com um cheque de um banco de Paris, Nova York ou Londres. Se isso não for possível, m ande o dinheiro pelo correio na próxim a sem ana e avise para onde posso enviar as fotografias e negativos. O que m e diz, Sr Tikhanov?
Ele estava sentado com o um a esfinge, as m ãos sobre os braços da poltrona. O rosto im passível levantava-se para o'de Gisele.
— O que eu digo, Srta. Dupree? Digo que está com pletam ente louca. Não irei a seu apartam ento am anhã às 11 horas ou em qualquer outra ocasião. Não m e deixarei intim idar por sua ficção... nem m e deixarei ser chantageado. Se espera que eu m e subm eta à sua loucura, pode esperar até o inverno congelar.
Esse m inistro não é fácil, pensou Gisele, duro com o rocha. Mas tinha certeza de que havia um a fissura naquela solidez aparente.
— A decisão é sua — declarou Gisele, j ovialm ente.
— A sepultura é sua... para evitar ou cavar. Faça com o achar m elhor.
Sentindo-se bem , sentindo-se vitoriosa, livre de qualquer com prom isso para guiar outra excursão, Gisele pediu ao m otorista do táxi que desse um pulo até a loj a de fotografia. Ali, pegou outro pacote de fotografias de seus turistas, voltou ao táxi e disse a Henri que poderia agora levá-la ao apartam ento de Dom inique.
Enquanto passavam pela proxim idade do dom ínio, lentam ente por causa do tráfego, Gisele avistou alguém fam iliar com endo num dos cafés com cadeiras na calçada. Olhando pela j anela traseira, divisou a cabeleira alaranj ada que só podia pertencer a Liz Finch.
Enquanto Liz sum ia de vista e o táxi continuava a avançar, Gisele teve um a ideia súbita.
A probabilidade de sair vitoriosa em sua confrontação com Tikhanov ainda era bem possível, m as não inteiram ente certa. Um a som bra de dúvida se insinuara em seu plano. Em bora não desej asse especialm ente denunciar o líder russo — seu único interesse era arrancar-lhe dinheiro — havia sem pre a possibilidade de que Tikhanov pudesse m anter-se firm e. Era um hom em de caráter peculiar, inflexível na superfície. Podia decidir que era m elhor não ceder à exigência dela de dinheiro, arriscando-se em vez disso à divulgação de seu com portam ento insólito, achando que era bastante poderoso para enfrentar qualquer tem pestade. Gisele achava que ele não se arriscaria a isso, m as a obstinação de Tikhanov poderia induzi-lo a resistir, com o um m uro de pedra, outra das expressões am ericanas prediletas de Gisele.
Se, por acaso, suas perspectivas de arrancar dinheiro de Tikhanov se desvanecessem , só lhe restaria um a vitória vazia, o m ero conhecim ento de que destruíra um líder soviético. Nesse caso, ela teria de obter o dinheiro de outra fonte e tendo visto Liz Finch de relance concluiu que havia outra possibilidade.
Reconstituindo o seu prim eiro encontro com Liz Finch, no sábado anterior, Gisele lem brou que a j ornalista am ericana lhe falara de um a grande história, possivelm ente um a denúncia da autenticidade de Bernadette. Quando Gisele, sabendo da im possibilidade de solapar a honestidade de Bernadette, a própria fundação de Lourdes, indagara se não havia algum a outra coisa que pudesse constituir um a grande história, Liz Finch respondera:
Milhares de pessoas do mundo inteiro já chegaram a Lourdes e muitas outras virão amanhã para o reaparecimento da Virgem. Talvez algumas sejam notícia e coisas incríveis lhes aconteçam. Pode haver uma história nisso também, uma história que valha bom dinheiro. Mas teria de ser uma grande história.
Ocorreu im ediatam ente a Gisele que tinha o que Liz Finch procurava.
O m inistro do Exterior da União Soviética em Lourdes para um a cura pela Virgem Maria.
Certam ente não podia haver m uitas histórias m ais sensacionais.
Liz Finch, concluiu Gisele, podia ser o seu seguro de vida. Se Tikhanov não com parecesse, haveria Liz para entrar com o dinheiro.
A decisão tom ada, Gisele decidiu não perder aquela oportunidade. Inclinando-se para a frente, ela bateu no om bro do m otorista.
— Henri, acho que vi alguém a poucos quarteirões com quem gostaria de falar por um ou dois m inutos. Pode encontrar um lugar para fazer a volta?
Assentindo, o m otorista deu a volta na prim eira rua transversal e voltou pela artéria principal, no m esm o percurso que haviam feito em sentido contrário.
— Acho que foi no café au Roi Albert — disse Gisele, olhando pela j anela e torcendo para que Liz Finch não tivesse ido em bora.
E de repente avistou outra vez a cabeleira alaranj ada, sentindo-se aliviada.
— Pode m e deixar aqui, Henri. Encontre um lugar para estacionar e m e espere. Não vou dem orar.
Avançando entre a m ultidão na calçada, Gisele percebeu que Liz Finch se encontrava sozinha, relaxada num a cadeira verm elha de vim e, com endo um prato de pommes frites e tom ando um a Coca-Cola gelada. Que hábitos alim entares terríveis os am ericanos possuem , pensou Gisele, m as sabendo que apesar de tudo os adorava.
— Olá, Srta. Finch.
Liz levantou os olhos.
— Ah, é você... Com o vai?
— Ocupada, com o sem pre — Gisele puxou um a cadeira. — Im porta-se que eu m e sente por um m inuto?
— À vontade. Estou apenas com endo algum a coisa antes do j antar. Está servida?
— Não, obrigada. Com o está indo por aqui? Já encontrou a sua grande história?
Liz sacudiu a cabeça, desolada.
— Nada, absolutam ente nada, além de cantores de hinos nesta m aldita aldeia. Ficarei sim plesm ente esperando pelos oito dias até que alguém grite aleluia, vi a Virgem . O que parece bastante im provável, a esta altura. Voltarei a Paris de m ãos vazias e serei despedida.
— Despedida?
— É outro problem a. Esqueça. — Liz levantou um a batata frita e largou na boca. — O que tem a m e dizer? Descobriu algum furo sensacional para a pequena Liz?
— Para dizer a verdade, talvez eu tenha descoberto algum a coisa. E achei que deveria lhe falar, Srta. Finch.
— É m esm o? — Liz parou de com er, em pertigando-se na cadeira. — Descobriu algum a coisa?
— Acho que sim — respondeu Gisele, com a m aior ansiedade. — Estava m e lem brando que m e aconselhou, quando conversam os pela prim eira vez, a m anter os olhos bem abertos para um a grande história. Dissem e que, se a encontrasse, isso poderia valer um bom dinheiro e sua agência pagaria com o m aior prazer. Isso é certo?
— É, sim . — Liz se achava agora totalm ente alerta. — O que descobriu?
— Posso estar prestes a obter um a história com o desej a, Srta. Finch...
— E tem certeza de que é um a grande história? Não se trata de um boato de cidade pequena?
— Garanto que não é apenas um a história grande, Srta. Finch. É m uito m ais. A m aior história que poderia ter e com repercussões internacionais. — Gisele fez um a pausa. — Está interessada?
— Sabe que estou interessada em qualquer boa notícia, algum a coisa sensacional que possa ser confirm ada. Mas não é sobre Bernadette, não é m esm o?
— Não, não é. Um a história m ais atual. Liz inclinou-se para a frente.
— Muito bem , pode falar.
— Terá de esperar até am anhã. Saberei então se pode ter a história.
Liz recostou-se.
— Se tudo correr bem , se eu achar que é im portante, se você puder provar... quanto vai querer?
— Quinze m il dólares.
Liz deixou escapar um assovio baixo.
— Posso ver que não está para brincadeira. Tem certeza de que vale tanto?
— Talvez valha m ais, m as 15 m il dólares seriam suficientes para m im .
— Não vou negar que é m uito dinheiro, Gisele. Mas se a história for realm ente sensacional e tiver os m eios para confirm á-la, posso dar um j eito para que a API pague. Diz que saberá am anhã. Quando poderem os conversar?
Gisele tirou da bolsa um cartão da agência e escreveu nele. Entregou-o a Liz e levantou-se.
— Aí está m eu telefone e endereço. E o apartam ento de um a am iga, onde estou passando esta sem ana. Ligue-m e ao m eio-dia de am anhã. E lhe direi então se terá a história.
— Pode deixar que ligarei. E dedos cruzados, para nós duas. Outro am ericanism o que Gisele adorava. Ela sorriu.
— Isso m esm o, dedos cruzados... até lá.
Afastando-se na direção do táxi que aguardava na esquina, Gisele sentia-se inebriada com as perspectivas. Tinha agora não apenas um a pessoa para com prar, m as duas.
Estava no bolso, com o Roy Zim borg costum ava dizer.
Depois de ser inform ada no escritório de im prensa que Liz Finch saíra para ir a um café, Am anda Spenser foi subindo pela rua, procurando-a em cada café. Finalm ente avistou Liz lá na frente, sentada a um a m esa na calçada, com outra m ulher, que naquele instante se levantava para sair. Am anda acelerou os passos, a fim de alcançar Liz antes que ela tam bém fosse em bora.
Am anda chegou à m esa no m om ento em que Liz com ia a últim a batata frita.
— Estou contente por tê-la encontrado, Liz. Procurei-a por toda parte.
— Esta deve ser a sem ana dos encontros — com entou Liz. — Sente-se, vam os. O que tem em m ente?
Am anda instalou-se num a cadeira.
— Tenho um encontro m arcado com o Padre Ruland dentro de m eia hora. Pensei que poderia gostar de m e acom panhar.
— Tenho m antido Ruland constantem ente ocupado. Mas sobre o que vai lhe falar?
— O diário de Bernardette. O que ouvim os ontem a respeito, da Irm ã Francesca, em Nevers. Eu gostaria de investigar m ais a fundo a questão do diário, descobrir com o a Igrej a o obteve... com o pode ter certeza de sua autenticidade...
— Esqueça — interrom peu-a Liz. — É m esm o autêntico. Com o eu lhe disse ontem . Pode ter certeza de que a Igrej a não se exporia se não tivesse certeza absoluta.
— Com o pode estar tão certa?
— Porque não deixo a relva crescer sob os m eus pés. Conversei com o Padre Ruland sobre isso esta m anhã m esm o. Ele m ostrou o diário de Bernadette, em que ela escreveu os segredos revelados pela Virgem . E depois m e m ostrou os vários certificados de autenticidade.
— Com o o processo de carbono-14?
— Não, não isso... é um processo para docum entos antigos, pergam inhos, papiros... O diário de Bernadette não era antigo o suficiente para precisar desse tipo de teste. Foi na verdade m uito m ais sim ples. Havia diversas am ostras da letra de Bernadette. A letra no diário foi com parada com essas am ostras por diversos grafologistas em inentes. Foram efetuados tam bém num erosos outros testes... um exagero... com o o uso de raios ultravioletas, análise quím ica dos pigm entos na tinta, estudos do estilo e linguagem usados no diário, para se ter certeza de que coincidia com o estilo e linguagem de escritos anteriores de Bernadette, com o suas cartas. Está perdendo seu tem po, Am anda. Na questão da autenticidade, a Igrej a tem um caso líquido e certo. Acho que seria m elhor nós duas abandonarm os nossas pesquisas sobre Bernadette. Am anda se em pertigou.
— Você pode, m as eu não estou disposta a fazê-lo... ainda não. Mesm o que sej a autêntico, quero saber m ais a respeito do diário, com o a Igrej a o obteve e de quem , qualquer coisa m ais que eu possa descobrir. Talvez encontre algum a coisa, tenha qualquer indicação que perm ita a Ken recuperar o bom senso.
— Só posso lhe desej ar boa sorte. Por m eu lado, desisti desse diário. Resolvi sim plesm ente ficar sentada aqui à espera da aparição.
— Está certo — disse Am anda, contrafeita. — Daqui por diante farei tudo sozinha.
Estavam num a sala sim ples e sossegada da Basílica do Rosário, escassam ente m obiliada, que o Padre Ruland identificara com o seu escritório. Com o Ruland se m ostrava tão aberto, tão generoso e tão cooperativo, Am anda fazia todo o esforço para não deixá-lo saber que era um a descrente. Mas percebia que ele era um hom em perceptivo e sofisticado, bem versado na com preensão da natureza hum ana, calculando assim que se achava a par de suas dúvidas desde o início do encontro.
Ela sentou a um a m esa antiga no m eio da sala e Ruland lhe trouxe am ostras da memorabilia de Bernadette, tiradas de um cofre na parede, a fim de im pressioná-la. Queria cooperar no artigo sobre Bernadette que ela lhe dissera estar escrevendo para um a revista de psicologia. As am ostras de Ruland eram quase todas obj etos de papel, fragm entos, cartas, docum entos com escritos na letra de Bernadette, além de registros dos acontecim entos na gruta e conversas entre Bernadette, vizinhos e autoridades de Lourdes, que haviam sido testem unhas no ano das aparições e nos anos subsequentes.
— Mas, acim a de tudo, está interessada no últim o diário de Bernadette, o que revelou o m ais dram ático e em ocionante dos três segredos da Virgem Maria, o que trouxe este Mom ento da Reaparição — disse o Padre Ruland, pegando o diário no cofre e pondo-o diante de Am anda. — Aí está, nosso tesouro. Pode exam iná-lo pessoalm ente. Com cuidado, é claro... com m uito cuidado.
— Tenho receio de tocá-lo — disse Am anda. — Im porta-se de abri-lo para m im , padre?
— Com todo prazer, Sra. Clay ton.
O Padre Ruland contornou a m esa. Quando se inclinou ao lado dela, um a presença bonita e im ponente, um a segurança total, as dúvidas de Am anda foram ofuscadas por um m om ento, pareceram m esquinhas e absurdas. Mesm o assim , ela perm aneceu atenta.
Ele tirou o diário encadernado em couro de sua caixa e abriu-o, desdobrando as páginas diante de Am anda.
Exam inando duas das páginas, a letra antiquada e inclinada, Bernadette assum iu para Am anda um a realidade que nunca antes tivera, nem m esm o em Nevers.
— Ora, m as eu posso ler isto — disse Am anda. — Está escrito em francês.
— O que esperava? — perguntou Ruland.
— Disseram -m e que ela escrevia empatois nativo ou dialeto de aldeia que ninguém ...
— Ah, sim , isso tam bém é verdade, Sra. Clay ton. Ela foi criada falando não um dialeto, m as um a língua especial dos Pireneus. Ao escrever esta versão dos acontecim entos, com o um a freira em Nevers, no entanto, ela j á aprendera os elem entos fundam entais da língua francesa. Para satisfazer m uitas pessoas, depois de 1858, Bernadette escreveu diversos relatos de suas experiências na gruta, alguns para clérigos, outros para j ornalistas e historiadores. Este relato foi o últim o que ela pôs no papel, fazendo pela últim a vez um a cronologia do que lhe aconteceu, antes que perdesse a m em ória das aparições e antes que sua grave doença lhe tornasse im possível escrever.
— Eu gostaria de saber m ais a respeito do diário, Padre Ruland.
— Fico m uito satisfeito com o seu interesse — com entou o padre, fechando o diário encadernado e tornando a guardá-lo na caixa.
Ele foi até o cofre, pôs lá dentro o precioso diário e as outras coisas, fechou a porta, girou a m açaneta para trancá-lo e voltou à m esa, sentando-se diante de Am anda.
— Diga-m e o que desej a saber.
— Gostaria de saber com o se descobriu o diário.
— Por acaso. Isto é, não exatam ente. Sem pre fui fascinado por Bernadette, desde o tem po do sem inário. Havia bem pouco que eu não soubesse a seu respeito. À m edida que estudava a sua vida, com ecei a desconfiar que Bernadette com pletara um diário cronológico dos m om entos m ais im portantes. Havia indícios de que ela fizera esse diário, entre acessos de doença, no Convento de Saint-Gildard. Mas não podia provar que esse diário fora feito; e se fora m esm o, não havia com o descobrir o que lhe acontecera. A superiora-geral de Saint-Gildard sabia do m eu interesse. E há pouco m ais de dois anos recebi um a notícia dela. Ao preparar escritos de Bernadette para um a exposição ao público, ela encontrou a cópia de um a carta a Basile Lagués, um fazendeiro na aldeia de Bartrès, que fica perto daqui.
— Já ouvi falar de Bartrès — com entou Am anda.
— Bernadette escrevera a Lagués em francês. Depois, com preendendo que ele não entenderia, reescrevera no patois de Bigorre, a língua local de que falam os. A versão original da carta, em francês, foi encontrada entre os papéis de Bernadette. Ela escrevera a carta em 1878, um ano antes de sua m orte, com unicando à fam ília Lagués, especialm ente ao m ais velho, Basile, que concluíra um diário e estava lhes enviando, com o um a recordação e um agradecim ento pelo tem po que haviam passado j untos.
Am anda franziu a testa.
— A fam ília Lagués?
— O relacionam ento entre Bernadette e a fam ília Lagués desem penhou um papel im portante em sua vida — disse o Padre Ruland. — Marie e Basile Lagués eram j ovens, agricultores diligentes, em Bartrès, ao norte de Lourdes. O pai de Bernadette possuía um m oinho na ocasião e os Lagués estavam entre os seus clientes. Pouco depois que Bernadette nasceu, em 1844, sua m ãe, Louise, sofreu um acidente. Um a vela acesa caiu da cornij a da lareira e ateou fogo ao corpete de seu vestido. Ela teve queim aduras superficiais nos seios, m as foram suficientes para que não pudesse am am entar Bernadette. Ela procurou então por um a am a-de-leite disponível. Mais ou m enos nessa ocasião, Marie Lagués, em Bartrès, perdeu o seu prim ogênito, Jean. Queria outro bebê para am am entar. Ela concordou em aceitar a pequena Bernadette com o um a filha adotiva tem porária, am am entando-a a cinco francos por m ês. Depois que Bernadette desm am ou, Marie Lagués não queria renunciar a ela. Mas acabou fazendo-o, depois de quase um ano e m eio. Foi o início do relacionam ento entre Bernadette e a fam ília Lagués.
— Quando ela tornou a vê-los? — perguntou Am anda.
— Por m ais um período, em 1857 e 1858, quando Bernadette tinha 13 anos. A esta altura, a situação da fam ília Soubirous em Lourdes piorara consideravelm ente. O pai de Bernadette ia m uito m al, incapaz de ganhar dinheiro. Havia filhos m enores, m ais bocas para alim entar. Um a epidem ia de cólera quase acaba com a vida de Bernadette. Havia escassez de alim entos na região. A fam ília Lagués, por seu turno, estava m uito bem . Tinha um a grande propriedade, m uitas vacas e ovelhas. Tendo agora vários filhos, eles estavam dispostos a adm itir um a criada adicional. Concordaram em aceitar Bernadette pela segunda vez. Trabalharia com o um a aj udante da m ãe e pastora, recebendo em troca casa, com ida e educação. Assim , Bernadette foi viver com a fam ília Laguès em Bartrès. Não era exatam ente um a vida idílica. Não havia m uita com ida à m esa, em bora fosse m ais do que se encontrava em Lourdes. E Maria Lagués desenvolvera um a espécie de relacionam ento de am or e ódio com Bernadette. Queria a garota ao seu lado, m as era severa, difícil, às vezes m esquinha. E m uitas vezes tratava Bernadette com o um a escrava. Contudo, havia com pensações. A altitude e o ar em Bartrès eram bons para a saúde de Bernadette. A m enina gostava de descansar nas encostas com as ovelhas, sonhando, construindo altares de brinquedo, rezando. Em bora a m ãe adotiva pouco fizesse para educá-la, Bernadette conquistou a afeição do padre local, um hom em bondoso, o Abade Ader, que tentou aj udá-la.
— Ouvi dizer que ele tentou influenciar o interesse de Bernadette na Virgem Maria — com entou Am anda.
— Im agino que foi o Padre Cay oux, lá de Cauterets, que lhe disse isso.
— Não m e lem bro — m entiu Am anda.
— Não tem im portância. — O padre Ruland continuou, despreocupado. — Não sabem os quanta influência o Abade Ader exerceu sobre Bernadette. É verdade que um dia, observando Bernadette, ele disse que se a Virgem Maria algum dia voltasse à terra provavelm ente apareceria para um a cam ponesa tão sim ples. Mas realm ente influenciá-la? Não tem os qualquer prova concreta de que isso tenha acontecido. Ader deu-lhe aulas de catecism o, m as não por m uito tem po. Ele deixou Bartrès para fazer carreira na ordem beneditina. Pouco depois, Bernadette disse aos pais que estava cansada de Bartrès e queria voltar a Lourdes. Foi o que ela fez, em j aneiro de 1858, depois de oito m eses em Bartrès.
— E apenas um m ês depois, em Lourdes, Bernadette viu a prim eira aparição da Virgem Maria, na gruta de Massabielle — disse Am anda.
— Exatam ente. Depois que partiu para ser freira em Nevers, Bernadette parecia conservar um resto de afeição pelos Laguès e o interlúdio em Bartrès. Especialm ente pelo velho Lagués e seus três filhos sobreviventes. Pela últim a vez, ela registrou num diário as lem branças dos acontecim entos excitantes e m ísticos de sua curta vida. Depois que o diário foi concluído, Bernadette, consciente de sua posição especial aos olhos da Igrej a, resolveu enviá-lo à fam ília Laguês, com o um a recordação. Quando recebi essa indicação, fui a Bartrès, à procura desse diário, que tenho certeza que a fam ília Laguês nunca leu, j á que estava escrito em francês. Marie e Basile, os donos originais, estavam m ortos há m uito tem po. Mas, depois de um a investigação persistente, consegui descobrir a odisseia do diário. Passara de um parente para outro e finalm ente caíra nas m ãos de um a prim a distante. — Quem era essa prim a?
— Um a viúva de m eia-idade que residia em Bartrès, Eugénie Gautier, com um sobrinho adolescente cham ado Jean, de quem era tutora. Madam e Gautier estava de fato com o velho e m ofado diário, guardado em algum lugar. Duvido que ela j am ais o tenha lido. Não sentia o m enor interesse por Bernadette. Toda a sua devoção era para o sobrinho. Quando a procurei e pedi para ver o diário, sugerindo que poderia querer com prá-lo com o um a relíquia para a Igrej a, Madam e Gautier m e evitou por algum tem po, até poder lê-lo apressadam ente. Deparando pela prim eira vez com as revelações de
Bernadette sobre os segredos que a Virgem Abençoada lhe contara, especialm ente que voltaria a Lourdes em futuro próxim o, Madam e Gautier com preendeu que possuía um tesouro. E não dem orou m uito para que eu tam bém soubesse disso. A negociação com ela foi difícil e exigiu um tem po considerável. Suas exigências originais foram absurdas. Mas, finalm ente, chegam os a um acordo e a Igrej a com prou o diário por um a quantia vultosa. Madam e Gautier tornou-se um a m ulher próspera. Com prou até um a casa nova, onde vive hoj e confortavelm ente.
A curiosidade de Am anda se aguçou.
— Com prou todo o diário? Eu soube que havia um a parte anterior, em que Bernadette contava m uitas coisas dos seus prim eiros anos.
— Quisem os com prar tudo, é claro. Mas nosso interesse prim ário era no relato final de Bernadette sobre os acontecim entos na gruta. Estudei a parte anterior e não oferecia m uita coisa, apenas as dificuldades da vida em Lourdes, um pouco do seu trabalho diário com o pastora em Bartrès. Mas eu teria com prado m esm o assim , só para m anter a obra com pleta. Mas foi im possível. Madam e Gautier relutava em vender. Acho que ela queria guardar essa parte do diário com o um m em ento para seu sobrinho, porque registrava com o era a vida nos velhos tem pos em Bartrès. Não era im portante. Eu tinha o que queria... o conhecim ento em ocionante de que a Virgem Maria voltaria a Lourdes este ano. Creio que sabe agora de tudo o que posso lhe dizer a respeito de nossa aquisição. Espero que sej a suficiente para o estudo de psicologia que planej a escrever.
— É tudo m aravilhoso — respondeu Am anda. — Deu-m e tudo o que eu queria. — Ela preparou-se para partir, acrescentando: — Mas acho que seria interessante dar um pulo a Bartrès e ver as coisas.
— Não há m uito para ver. Mas a cidade não m udou m uito em um século e poderá ter um a boa ideia de com o era a vida no tem po de Bernadette.
— Acho que darei m esm o um pulo até lá. Madam e Gautier ainda reside lá?
— Vive, sim . Fui inform ado de que ela com prou um a casa não m uito longe da Maison Burg de Lagués, que é hoj e um m useu em Bartrès.
— Acha que poderei conversar com Madam e Gautier?
— Não sei — disse o Padre Ruland, acom panhando Am anda até a porta. — Encontrei-a um a m ulher m al-hum orada e azeda, não m uito hospitaleira. Não posso im aginar que tenha m udado m uito. Mas talvez você consiga algum a coisa com ela. Boa sorte.
Havia um a ligação de Paris que o Dr. Paul Kleinberg esperava, antes de poder se aprofundar no caso de Edith Moore. O telefonem a que aguardava seria do Dr. Maurice Duval, cuj a secretária avisara a Kleinberg, no início daquela m anhã, que o colega ligaria às oito e m eia da noite.
Ignorando sua im paciência, Kleinberg acom odou-se na poltrona do seu quarto claustrofóbico no Hotel Astoria, tentando atualizar a leitura de estudos m édicos recentem ente publicados (dois pelo próprio Duval), enquanto se m antinha de olho no relógio. Quando os ponteiros inform avam que eram oito e m eia, ele deslocou a atenção para o telefone na m esinha ao seu lado e sentiu-se grato quando tocou no instante seguinte.
Ele atendeu, torcendo para que fosse o colega. Ficou satisfeito ao ouvir a voz exuberante e apressada de Duval.
— É você, Paul?
— Sou eu m esm o.
— Já faz m uito tem po que não nos falam os. E o últim o lugar de onde eu esperava receber notícias suas era de Lourdes. Que diabo está fazendo aí?
— Investigando um m ilagre. Duval soltou um a gargalhada.
— Todos os m ilagres atualm ente ocorrem nos laboratórios dos geneticistas.
— Não fale tão alto. Não gostaria que eles o ouvissem aqui em Lourdes. Mas, para ser franco, era sobre isso que eu queria lhe falar, os m ilagres científicos que vem realizando.
— Meu assunto predileto, Paul. Em que está pensando?
— Sei que abandonou a cirurgia de sarcom a rotineira para se concentrar em experiências de substituição e engenharia genética...
— Deixe-m e fazer um a pequena revisão — interrom peu-o Duval. — Abandonei a cirurgia com um de sarcom a, sim ... por ser ineficaz, ou pelo m enos não suficientem ente eficaz... m as não abandonei m eu interesse prim ário pelo sarcom a. Venho m e dedicando em grande parte a experiências genéticas, m as basicam ente na área do sarcom a.
Até agora, pensou Kleinberg, tudo bem .
— Estou a par dos relatórios, os estudos que você divulgou sobre as suas experiências com m acacos, coelhos e ratos. Indicam um grande progresso.
— Um progresso enorm e — corrigiu-o Duval — avanços enorm es na capacidade de substituir genes doentes por saudáveis. Em dois estudos este ano...
— Acabei de ler os seus trabalhos divulgados m ais recentem ente, Maurice. Aceito a sua palavra de que tem havido avanços incríveis em técnicas de substituição de genes.
— Pois tem a m inha palavra — garantiu Duval, com um a segurança total.
— Muito bem . Vam os ao propósito da m inha cham ada. Tenho três perguntas a lhe fazer. Se as respostas forem o que espero, terei um a quarta. Está pronto?
— Pode falar.
A prim eira pergunta era um a sondagem . Kleinberg form ulou-a:
— Neste estágio de seu progresso, j á realizou algum a vez m odificação e substituição genética para o sarcom a num ser hum ano?
— Não, ainda não. Mas j á efetuei outros transplantes de genes bem -sucedidos. Trabalhando na área em que o Dr. Martin Cline foi pioneiro, em 1980, na Califórnia, tratei de pessoas afligidas com beta talassem ia... o distúrbio do sangue que é potencialm ente fatal. Efetuei experiências de substituição de genes nesses casos, introduzindo genes saudáveis nas células deficientes, alcançando um alto índice de sucesso.
— Muito bem , vam os à m inha segunda pergunta — disse Kleinberg. — Pode realizar o m esm o tipo de cirurgia num caso de sarcom a?
— Claro. Há algum tem po que venho esperando a oportunidade de fazer isso. É j ustam ente a área em que venho fazendo experiências, o estágio final para o qual venho m e preparando. Posso perfeitam ente fazê-lo.
— Terceira pergunta. Quais seriam , em sua opinião, as chances de sucesso... um a total recuperação do paciente?
— Presum indo que o paciente estej a agora em condições estáveis, eu diria que as chances de um a cirurgia eficaz, com um a recuperação plena, seriam de 70 por cento.
— Tão alto assim ? — disse Kleinberg, surpreso.
— Sou m oderado, Paul. Isso m esm o, pelo m enos tão alto assim .
— Minha últim a pergunta não foi realm ente a últim a. Foi apenas um com entário de surpresa, até m esm o de prazer. Aqui está a quarta pergunta. Creio que é a m ais im portante. Estaria disposto a realizar tal operação num a paciente que tenho sob os m eus cuidados, o m ais depressa possível?
— Ora, Paul, só precisa dizer quando e darei um j eito de encaixar na m inha program ação. Isto é, presum indo que terei o consentim ento inequívoco da paciente.
— Ainda não tenho esse consentim ento — adm itiu Kleinberg. — Queria falar com você prim eiro, antes de conversar com a paciente. Presum indo que eu obtenha o consentim ento, quando seria o m om ento m ais im ediato em que poderia efetuar a operação?
— Em que dia estam os?
— Quinta-feira.
— Estou bastante ocupado, m as você sabe m uito bem que isso sem pre m e acontece. Talvez o fim de sem ana sej a o m elhor. Talvez até no dom ingo. Isso m esm o, é perfeitam ente possível.
— Seria dem ais perguntar se pode vir a Lourdes para a cirurgia? Acho que seria m ais conveniente realizá-la aqui.
— Lourdes? Por que não? Estou m esm o querendo visitar o lugar desde que li Carrel.
— É tão excepcional, talvez tão extraordinário, quando Carrel registrou.
— Terei a m aior satisfação.
— Preciso agora obter o consentim ento da paciente. Para ser franco com você, Maurice, não sei se conseguirei obtê-lo. Mas tentarei com o m áxim o de em penho. É um a m ulher gravem ente doente, m as por m otivos pessoais pode haver grande resistência. Mas tentarei. Enquanto isso, caso eu consiga persuadi-la, você vai querer conhecer de antem ão o caso dela.
— Claro.
— Há um a ficha am pla cobrindo os últim os cinco anos, até os exam es e radiografias que fiz ontem . Trata-se realm ente de um caso singular. E claro que detesto incom odá-lo com tudo isso, se não for possível realizar a cirurgia.
— Não é incôm odo nenhum . Estou ansioso em conhecer todo o caso.
— Obrigado, Maurice. Creio que o m elhor a fazer será m andar m inha enferm eira, Esther Levinson, pegar um avião e voltar a Paris, levando todo o m aterial. Ela poderá entregar em seu consultório pela m anhã.
— Ótim o.
Um a coisa continuava a preocupar Kleinberg e ele aventou se seria m elhor levantá-lo francam ente ou guardar para si m esm o. Resolveu que devia descarregar.
— Só m ais um a coisa.
— O que é, Paul?
— Com o pode estar tão confiante em usar a substituição genética num ser hum ano quando nunca tentou isso antes?
Houve um a pausa prolongada no outro lado. O Dr. Duval, geralm ente tão rápido e direto em todas as perguntas, parecia não estar m uito disposto a responder àquela. O silêncio prolongou-se, enquanto Kleinberg esperava.
— Está certo — disse o Dr. Duval finalm ente — posso responder à pergunta para sua plena satisfação. Mas o que direi deve ficar rigorosam ente entre nós. Trata-se de um segredo da m aior gravidade que estou prestes a lhe revelar.
— Ficará exclusivam ente entre nós. Tem a m inha palavra.
— Já é suficiente — disse o Dr. Duval. — Por que estou tão confiante de que m inha substituição genética pode dar certo num ser hum ano? Porque j á deu certo num ser hum ano... em três, para ser m ais exato. Eu lhe m enti anteriorm ente, ao dizer que só realizara experiência em anim ais, nunca num ser hum ano. Em preguei o processo de substituição genética em três pacientes com doenças term inais nos arredores de Paris, há 18 m eses. Dois eram casos de sarcom a. E todos não apenas sobreviveram , m as tam bém hoj e estão bem e ativos.
Kleinberg estava atônito.
— Por Deus, Maurice, nunca im aginei... ora, m eus parabéns! A partir do m om ento em que isso for conhecido, você certam ente será indicado para o Prêm io Nobel. Que avanço gigantesco!
— Obrigado, obrigado, m as nunca será conhecido. Se for divulgado que agi sem autorização dos com itês m édicos, os com itês de ética, serei severam ente punido. O processo supostam ente não deve estar pronto por m ais 10 anos, talvez m ais, enquanto todos os com itês avaliam a conveniência de usá-lo em seres hum anos. Quando concederem perm issão, então se poderá fazer publicam ente. Enquanto isso, um a porção de boas pessoas, que poderiam ser salvas, m orrerão inevitavelm ente. Deve com preender, Paul, que é a política m édica em nom e da cautela.
— Claro que com preendo.
— A iniciativa do tipo que tom ei nem sem pre é apreciada. Para m encionar o Dr. Cline, da Califórnia, m ais um a vez. Ele usou um a m olécula recom binante num caso em Nápoles e outro em Jerusalém . Quando foi descoberto, o Instituto Nacional dos Estados Unidos cancelou todos os seus subsídios para pesquisas. Creio que ele perdeu 250 m il dólares em financiam ento. Eu não poderia suportar isso.
— Não precisa se preocupar, Maurice. Nossos colegas m édicos nunca saberão por que você veio a Lourdes. Estou bastante anim ado com tudo o que acaba de m e dizer. E agradeço profundam ente por ter aceitado se envolver neste caso num prazo tão curto.
— Pode estar certo, Paul, de que para m im é outra oportunidade e um desafio. E gostaria de repisar que tudo deve ser feito com absoluta discrição. Nem m esm o quero correr o risco de usar qualquer pessoal do hospital de Lourdes. Prefiro obter m eus assistentes entre antigos estudantes que tenho em Ly on. Com preende agora com o tenho de ser cauteloso. E repito que qualquer publicidade pessoal seria desastrosa. Com o eu estaria ignorando os canais com petentes, pela quarta vez, haveria m uitas indagações, acabando provavelm ente por resultar em prej uízos enorm es e certam ente a perda da m aior parte das m inhas subvenções. Os com itês certam ente diriam ser prem aturo. Mas você e eu sabem os que todas as coisas são prem aturas até serem realizadas.
— Seu nom e não será divulgado, Maurice.
— Vam os torcer então para que tudo dê certo. Encerrando a ligação, satisfeito com o resultado, Kleinberg
sentiu a satisfação ofuscada pelo que deveria se seguir. Tornou a pegar o telefone e cham ou Esther, no quarto ao lado. Quando ela entrou, exam inando seu rosto, ele respondeu prontam ente à pergunta silenciosa:
— Duval fará a operação. Mas será que Edith Moore vai concordar? Estou surpreso por ainda não ter recebido qualquer notícia dela.
— Talvez o m arido Reggie não tenha lhe dito nada.
— Não posso acreditar nisso. Mas, pensando bem , é possível. Im porta-se de procurar a Sra. Moore para m im ? Se ela saiu para j antar, ligue para o restaurante. Avise a ela que eu desej aria lhe falar no Serviço Médico assim que term inar de j antar.
— Vou buscar o núm ero de seu telefone. Está no m eu quarto.
Se bem m e lem bro, ela está no Hotel Galha & Londres. Verei se consigo encontrá-la.
Kleinberg ficou sentado, a especular sobre o caso da Sra. Moore, até que ouviu Esther bater de novo na porta. Foi abrir.
— Eu a tenho no telefone — inform ou Esther. — Ela está em seu quarto. Não irá ao Serviço Médico esta noite. Perguntou se não poderia ir vê-la no hotel. Não está se sentindo bem e se encontra deitada.
— Avise a ela que irei vê-la im ediatam ente.
Pondo o paletó e verificando o conteúdo de sua m aleta m édica, Kleinberg se perguntou se Edith Moore não se sentia bem porque ouvira a verdade do m arido ou porque sofria um a recorrência do tum or.
Mas saberia dentro de poucos m inutos o que a deixara acam ada. O que quer que fosse, porém , a perspectiva de encontrá-la não era um dos deveres m édicos que aguardava ansiosam ente.
Com um suspiro de infelicidade, ele deixou o quarto para a confrontação.
Edith Moore, toda vestida, de blusa branca e saia azul-m arinho, de m eias e sem sapatos, estava estendida por cim a da colcha verde da cam a de casal, observando o Dr. Kleinberg. Depois de exam iná-la, ele estava de pé j unto à m esa, escrevendo um a receita.
— Mande aviar esta receita — disse ele. — Vai lhe proporcionar algum alívio.
Ele puxou um a cadeira para j unto da cam a, entregou-lhe a receita e desabotoou o paletó.
— O que há de errado com igo, doutor? Há anos que não m e sinto tão fraca.
— Chegarei a isso. — Kleinberg fitou-a nos olhos. —Tive um a conversa com o Sr. Moore a seu respeito.
— Eu j á sabia que conversou com ele. Vi quando saíram do restaurante ontem à noite. Mas pensei que fosse um encontro social.
— Ela piscou os olhos, aturdida. — A m eu respeito? Por quê?
— Quer dizer que o Sr. Moore nada contou sobre a nossa conversa?
A resposta veio lentam ente:
— Não, não contou.
— Achei que seria m ais fácil se ele lhe falasse prim eiro. Percebo agora que terei de fazê-lo diretam ente.
— Fazer o quê? É a notícia sobre a m inha cura?
— É, sim . — Kleinberg firm ou-se para o m om ento da verdade.
— Infelizm ente, é um a m á notícia. O sarcom a voltou. O tum or é visível. A radiografia m ostra novam ente o tum or m aligno. É real e precisa ser tratado.
Ele j á passara por isso m uitas vezes, em casos sim ilares, era a parte de sua profissão que m ais detestava. Exam inar e diagnosticar eram as coisas que podia fazer m elhor. Mas enfrentar o paciente com a m á notícia, o nível hum ano, o aspecto em ocional, era a pior coisa da profissão de m édico.
Ele contara e em seguida viria a reação dela. A reação habitual era de silêncio atordoado e inevitavelm ente se seguiam as lágrim as. Às vezes havia dúvidas, protestos, revolta furiosa contra a inj ustiça, m as sem pre um colapso de algum a espécie e sem pre altam ente em ocional. Kleinberg esperou pela explosão, m as não veio. Não houve um a só feição do rosto afável de Edith Moore que se m exesse ou contraísse. Os olhos dela o deixaram e se fixaram no teto. Ela não fez qualquer esforço para falar, sim plesm ente ficou olhando para o teto.
Talvez um m inuto transcorresse, enquanto ela absorvia a terrível verdade. E, finalm ente, seus olhos voltaram a se encontrar com os de Kleinberg. Sua voz era quase inaudível quando perguntou:
— Tem certeza?
— Tenho, sim , Edith. — Inadvertidam ente, ele a tratara de m odo inform al, o que acontecia pela prim eira vez. — Não há qualquer possibilidade de erro.
Ela passou a língua pelos lábios ressequidos, silenciosa outra vez. Quando voltou a falar, foi m ais para si m esm a, com um resquício de am argura:
— Mulher m ilagrosa... Então está de volta. Não houve qualquer cura m ilagrosa.
— Infelizm ente, não.
— Não pode m e certificar com o curada porque... eu não estou curada. Já falou com o Dr. Berry er?
— Ainda não.
— E com o Padre Ruland?
— Tam bém não.
— Eles ficaram m e dizendo que seu exam e seria de rotina. Todos os m édicos, por três anos, foram positivos de que eu estava m ilagrosam ente curada. Com o pode explicar isso?
— Não posso, Edith. Jam ais conheci um caso em que o sarcom a se apresentasse tão evidente, depois desaparecesse por um período tão longo... e finalm ente voltasse de repente. Os casos com uns de rem issão não são assim . Esse desaparecim ento e retorno final da doença são inexplicáveis em m inha experiência.
— Desconfiei de que algum a coisa podia estar errada — com entou Edith, pensativa. — Especialm ente porque não recebi notícias suas de im ediato. E tam bém ... porque com ecei a m e sentir m al ontem à noite... a m esm a fraqueza antiga, as m esm as dores, em bora não tão intensas. Mas foi assim que tudo com eçou há cinco anos. E passei a m e preocupar com o que estava acontecendo.
— Estava certa. Tentei inform á-la, assim que tive certeza, por interm édio de seu m arido.
— Reggie... — Edith olhou para Kleinberg com um a expressão de franqueza total. — Essa é a pior parte. Já passei pela doença antes e por m uito tem po, aprendi a conviver com ela de algum a form a. Convivi com a m orte por tanto tem po... ora, posso fazê-lo de novo e sei que encontrarei um m eio de enfrentar. Mas Reggie é a m inha grande preocupação. Apesar de toda a sua fanfarronice e com portam ento agressivo, ele é fraco por baixo. Escapa constantem ente para um m undo de irrealidade. Im agino que é isso que o sustenta. Nunca falei isso a ninguém antes. Mas eu o conheço. Por Deus, ele deve ter ficado terrivelm ente chocado quando lhe contou a verdade.
— Ele não quis acreditar — disse Kleinberg.
— Reggie é assim m esm o. Pobre coitado. É m inha única preocupação. Apesar de todos os seus defeitos, eu o am o m uito. Há m uita coisa boa nele. E um a criança grande, um a criança adulta... e eu o am o. Ele é tudo o que tenho neste m undo para cuidar e am ar. Pode com preender, doutor?
Kleinberg com preendia e sentia-se estranham ente com ovido. Havia um coração e um a profunda sensibilidade naquela m ulher que ele não percebera antes.
— Com preendo, sim , Edith.
— Ele precisa de m im . Sem a m inha presença, Reggie será um vagabundo, perdido, ridicularizado. Ele fracassou em tudo, fracassou e fracassou. Sua últim a j ogada... todo o nosso dinheiro, tudo... o últim o resquício de seu am or-próprio... foi investido no restaurante. E com eçara a dar certo. — Ela fez um a pausa, hesitante. — Mas som ente porque eu era a m ulher do m ilagre. Agora, sou apenas um a m ulher de m eia-idade com um a doença fatal. Ele perderá o restaurante, que não pode sustentar dois sócios sem a m inha presença com o atração. Ele será destruído. E daqui a pouco não poderei m ais trabalhar. Porque terei m orrido.
— Espere um instante, Edith. Tenho m ais coisas a dizer e são im portantes. Talvez eu devesse ter-lhe contado im ediatam ente... m as tinha de declarar prim eiro o seu estado. Essa foi a m á notícia. Mas há tam bém um a notícia extrem am ente favorável. Seu caso não é incurável. Não precisa m orrer. Desde o seu episódio inicial, há cinco anos, um a nova form a de cirurgia, um a nova técnica de substituição genética, foi desenvolvida e pode ser um m eio de salvá-la. Acho que é m elhor eu lhe falar a respeito.
Estranham ente, para Kleinberg, ela não apresentou qualquer reação visível, não houve a súbita esperança diante daquela boia salva-vidas inesperada. Ela continuou deitada apaticam ente, a fitá-lo, preparada para escutar. Nas circunstâncias, ela dava a im pressão de ter perdido toda a vontade de viver.
Mesm o assim , Kleinberg repetiu a essência de sua conversa com o Dr. Maurice Duval, om itindo apenas qualquer referência às cirurgias secretas realizadas pelo am igo. E concluiu:
— Aí está, Edith. Um a possibilidade concreta. Setenta por cento a seu favor. Se der certo, com o ele prom ete que acontecerá, você ficará totalm ente recuperada.
— Mas não serei m ais a m ulher do m ilagre.
— A m enos que considere esse novo tratam ento de substituição genética com o um m ilagre, com o eu faço.
— Se eu sobrevivesse, tam bém pensaria assim . Mas isso não aj udaria Reggie.
— Se ele a am a, então a teria. E você poderia voltar ao trabalho.
— Tem razão, doutor. Talvez eu vivesse. Mas, para todos os efeitos e propósitos, Reggie estaria m orto.
— Creio que pode haver m ais coisa no futuro para os dois. Sej a com o for, preciso de sua decisão sobre a cirurgia o m ais depressa possível. O Dr. Duval pode efetuar a sua operação j á neste dom ingo. Mas precisa do seu consentim ento.
Ela sacudiu a cabeça, lentam ente.
— Não posso tom ar essa decisão sozinha. Preciso conversar a respeito com Reggie.
Ela ainda não absorvera inteiram ente o seu não-m ilagre, refletiu Kleinberg.
— Não vej o sentido em protelar a decisão, Edith. A m enos que se aj a im ediatam ente, o resultado será inevitável.
— Ainda sou a m ulher do m ilagre aos olhos de todos. Isso pode prolongar o sucesso de Reggie por m ais algum tem po... e talvez ele encontre alguém com outra opinião que dirá a Igrej a que sou m esm o um a m ulher m ilagrosa, no final das contas.
Kleinberg não tinha m ais com o argum entar.
— Tudo agora depende inteiram ente de você — disse ele, levantando-se. — Mas preciso de sua decisão final am anhã, certam ente não m ais que sábado.
— Conversarei com Reggie.